{"id":41067,"date":"2025-07-29T20:23:34","date_gmt":"2025-07-29T23:23:34","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/por-que-ler-aime-cesaire-hoje\/"},"modified":"2025-07-29T20:23:34","modified_gmt":"2025-07-29T23:23:34","slug":"por-que-ler-aime-cesaire-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-que-ler-aime-cesaire-hoje\/","title":{"rendered":"Por que ler Aim\u00e9 C\u00e9saire hoje?"},"content":{"rendered":"<div>\n<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"709\" height=\"391\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/49203639483525817891-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/49203639483525817891-1.jpg 709w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/49203639483525817891-1-300x166.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/49203639483525817891-1-700x387.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/49203639483525817891-1-219x121.jpg 219w\" sizes=\"(max-width: 709px) 100vw, 709px\"><figcaption>Dondero\/ Leemage<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Fernando de la Cuadra<\/strong>, na <em>Jacobin Am\u00e9rica Latina <\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>\u201cUma civiliza\u00e7\u00e3o que se mostra incapaz de resolver os problemas que seu funcionamento suscita \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o decadente. Uma civiliza\u00e7\u00e3o que escolhe fechar os olhos diante de seus problemas mais cruciais \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o ferida. Uma civiliza\u00e7\u00e3o que trai seus pr\u00f3prios princ\u00edpios \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o moribunda\u201d \u2014 Aim\u00e9 C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>.<\/p>\n<h3><strong>Uma vida de aprendizados<\/strong><\/h3>\n<p>Aim\u00e9 Fernand David C\u00e9saire foi um intelectual, pol\u00edtico e poeta nascido em 26 de junho de 1913 em Basse-Pointe, ao norte da ilha da Martinica, ent\u00e3o uma col\u00f4nia ultramarina da Fran\u00e7a. Era o segundo dos sete filhos de Marie F\u00e9licit\u00e9 \u00c9l\u00e9onore Hermine e Fernand Elph\u00e8gue C\u00e9saire. Seu pai era funcion\u00e1rio p\u00fablico e sua m\u00e3e, costureira. A vida familiar era marcada por restri\u00e7\u00f5es e dificuldades econ\u00f4micas; no entanto, n\u00e3o pouparam esfor\u00e7os para proporcionar uma boa educa\u00e7\u00e3o aos filhos.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-GERA-29.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-GERA-29.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Aim\u00e9 iniciou seus estudos em 1919 na escola prim\u00e1ria de Basse-Pointe e, cinco anos depois, conquistou uma bolsa para estudar no Lyc\u00e9e Victor Schoelcher na capital, Fort-de-France. Sua fam\u00edlia decidiu mudar-se com ele. No Liceu, Aim\u00e9 conheceria quem seria seu amigo por toda a vida: L\u00e9on Damas, natural da Guiana Francesa. Em 1931, aos 18 anos, Aim\u00e9 C\u00e9saire embarcou em um navio rumo \u00e0 capital francesa, pois obtivera uma bolsa para estudar no prestigioso e tradicional Lyc\u00e9e Louis-le-Grand, institui\u00e7\u00e3o que formou os maiores intelectuais franceses, desde os ide\u00f3logos do Iluminismo Voltaire e Diderot at\u00e9 o Marqu\u00eas de Sade, Victor Hugo, Baudelaire e Sartre, entre outros.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, conheceu o senegal\u00eas L\u00e9opold Senghor, que tamb\u00e9m fora beneficiado com uma bolsa do governo franc\u00eas[1]. Junto a L\u00e9on Damas, formaram um trio de grandes amigos e passaram a frequentar o ambiente liter\u00e1rio de pessoas vindas das col\u00f4nias francesas, especialmente a casa das irm\u00e3s Nardal[2], uma esp\u00e9cie de centro gravitacional da intelectualidade negra em Paris. Apesar de n\u00e3o frequentar muito esse sal\u00e3o liter\u00e1rio[3], foi a partir desse espa\u00e7o que C\u00e9saire e seus amigos entraram em contato com o movimento Harlem Renaissance, sediado em Nova York, e cuja intera\u00e7\u00e3o gerou as primeiras ideias sobre a concep\u00e7\u00e3o da \u201cnegritude\u201d e a forma\u00e7\u00e3o de um movimento com o mesmo nome.<\/p>\n<p>O encontro do jovem Aim\u00e9 com esse grupo de poetas, escritores e ativistas negros foi transcendental, uma revela\u00e7\u00e3o, pois ele percebeu imediatamente neles uma for\u00e7a interior e um orgulho de pertencimento contagiante. Anos depois, C\u00e9saire relataria que foram eles os primeiros a afirmar sua identidade, em um momento em que, na Fran\u00e7a, o \u201cassimilacionismo cultural\u201d estava na boca de todos. O martiniquenho percebeu desde cedo que \u201cassimila\u00e7\u00e3o\u201d era sin\u00f4nimo de aliena\u00e7\u00e3o. Em fevereiro de 1935, C\u00e9saire publicou um artigo intitulado \u201cL\u00b4\u00e9tudiant noir\u201d na revista <em>L\u00b4\u00e9tudiant martiniquais<\/em>, \u00f3rg\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Estudantes Martinicanos. O profundo impacto de sua coluna fez com que a revista \u2014 que continuaria vinculada \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o \u2014 fosse renomeada com o t\u00edtulo do artigo e que o jovem C\u00e9saire assumisse o cargo de editor.<\/p>\n<p>No primeiro n\u00famero de <em>L\u00b4\u00e9tudiant noir<\/em>, em mar\u00e7o de 1935, C\u00e9saire escreve novamente, agora em seu novo papel de editor. Neste novo artigo, ele argumentava que servid\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o se assemelhavam, pois, no fim, ambas representavam duas formas de passividade. E, ao contr\u00e1rio, a verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o implicava a\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Os jovens negros de hoje n\u00e3o querem nem servid\u00e3o nem assimila\u00e7\u00e3o, querem emancipa\u00e7\u00e3o, querem agir e criar. Querem ter seus poetas, seus romancistas, que lhes falem a ela, a ela suas desgra\u00e7as e a ela suas grandezas: querem contribuir para a vida universal, para a humaniza\u00e7\u00e3o da humanidade, e para isso, mais uma vez, \u00e9 preciso conservar-se ou encontrar-se. Trata-se da primazia de si mesmo.[4]<\/p>\n<p>Com essas premissas, C\u00e9saire buscar\u00e1 romper com os paradigmas da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental para voltar-se \u00e0s for\u00e7as profundas da pr\u00f3pria humanidade de sua condi\u00e7\u00e3o. Como dizia a seu amigo L\u00e9opold Senghor em seus intensos debates de ideias, era preciso cavar mais fundo para encontrar dentro de si, al\u00e9m de todas as camadas da civiliza\u00e7\u00e3o, o \u201cnegro fundamental\u201d que habitava neles: \u201cNegro sou e negro sempre serei\u201d. Pois, para o jovem Aim\u00e9, encontrar-se consigo mesmo era o pre\u00e2mbulo essencial para estabelecer qualquer di\u00e1logo com a cultura dominante, com a cultura da metr\u00f3pole, com a cultura europeia.<\/p>\n<p>Dois meses depois, na terceira edi\u00e7\u00e3o da revista, em maio de 1935, C\u00e9saire publica um artigo intitulado \u201c<em>N\u00e8greries: Conscience raciale et r\u00e9volution sociale\u201d<\/em> no qual cunha o conceito de \u201cnegritude\u201d com o prop\u00f3sito de \u201cplantar nossa negritude como uma \u00e1rvore bela, at\u00e9 que ela d\u00ea seus frutos mais aut\u00eanticos\u201d. Anos depois, C\u00e9saire definiria o conceito em poucas palavras como uma \u201cbusca dram\u00e1tica pela identidade negra\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ADC30_Engels_anuncio_OP-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ADC30_Engels_anuncio_OP-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ADC30_Engels_anuncio_OP-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Apesar de sua tiragem reduzida, a revista consolidou-se como o principal ve\u00edculo de express\u00e3o n\u00e3o apenas das ideias de jovens martiniquenhos \u2013 como Paulette Nardal e Gilbert Gratiant \u2013 mas tamb\u00e9m de estudantes de outras col\u00f4nias francesas, como Guadalupe, Guiana Francesa, Arg\u00e9lia, Marrocos e Madagascar. Nesse \u00ednterim, Aim\u00e9 foi aprovado para ingressar na prestigiosa \u00c9cole Normale Sup\u00e9rieure.<\/p>\n<p>Em 1936, L\u00e9opold Senghor apresentou-lhe Suzanne Roussi, martiniquenha, que tamb\u00e9m estudava na \u00c9cole Normale Sup\u00e9rieure e j\u00e1 colaborava ativamente com a revista. Em 1937, se casariam e seriam companheiros insepar\u00e1veis at\u00e9 sua separa\u00e7\u00e3o em 1963. Alguns anos ap\u00f3s o casamento, em 1939, Aim\u00e9 apresentou sua tese na \u00c9cole, intitulada <em>O papel do Sul na literatura negra dos Estados Unidos<\/em>. Com a tese defendida e dispensado do Ex\u00e9rcito por problemas de sa\u00fade, decidiu retornar \u00e0 Martinica com Suzanne e seu primeiro filho, Jacques. Em outubro, assumiu o cargo de professor de literatura no Lyc\u00e9e Schoelcher, onde ele pr\u00f3prio se formara anos antes.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1935, C\u00e9saire come\u00e7ara a escrever seus primeiros poemas, que finalmente seriam publicados em 1939 sob o t\u00edtulo <em>Cahier d\u2019un retour au pays natal<\/em>, cuja primeira vers\u00e3o traz o selo da revista francesa de vanguarda <em>Volont\u00e9s<\/em>. Em um de seus poemas, o autor expressa os sentimentos mais profundos e contradit\u00f3rios que o ligavam \u00e0 sua terra natal: \u201cAs Antilhas que t\u00eam fome, as Antilhas cobertas de var\u00edola, as Antilhas dinamitadas pelo \u00e1lcool, estagnadas na lama desta ba\u00eda, na poeira desta cidade sinistramente encalhadas\u201d[5].<\/p>\n<p>Em plena Segunda Guerra Mundial, o casal C\u00e9saire, junto a outros escritores e intelectuais antilhanos, lan\u00e7a o primeiro n\u00famero da revista <em>Tropiques<\/em>, que, por uma feliz coincid\u00eancia, \u00e9 lida por Andr\u00e9 Breton durante sua estadia obrigat\u00f3ria na ilha. A partir desse momento, o pai do surrealismo se tornaria o maior divulgador da obra de C\u00e9saire, escrevendo coment\u00e1rios elogiosos sobre sua pessoa e obra: \u201c\u00c9 o maior monumento l\u00edrico de nosso tempo\u201d ou sua poesia \u00e9 \u201cbela como o oxig\u00eanio nascente\u201d[6].<\/p>\n<p>Entre maio e dezembro de 1944, Aim\u00e9 e Suzanne s\u00e3o convidados pelo escritor Pierre Maville a passar uma temporada no Haiti. Essa experi\u00eancia deixar\u00e1 marcas profundas na alma e no pensamento de C\u00e9saire, que ele retratar\u00e1 posteriormente em uma pe\u00e7a teatral, A trag\u00e9dia do rei Christophe[7], e em uma biografia do l\u00edder independentista haitiano Toussaint Louverture. Nesse ensaio, C\u00e9saire parte do pressuposto de que, para entender a gesta de Toussaint, \u00e9 necess\u00e1rio partir da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mas n\u00e3o do olhar dos europeus, e sim da perspectiva dos negros:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Voltei \u00e0s ra\u00edzes e desenvolvi uma ideia muito diferente daquela que l\u00edamos, ainda que elaborada por historiadores de fato. Eu tamb\u00e9m tenho uma especialidade: sou Negro. Eles t\u00eam sangue branco, eu tenho sangue negro. E n\u00f3s temos um ponto de vista muito diferente, eu tenho, portanto, outra concep\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, outra concep\u00e7\u00e3o de Toussaint Louverture e outra concep\u00e7\u00e3o do Haiti. Podem ser boas ou m\u00e1s, mas s\u00e3o as minhas.[8]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A independ\u00eancia do Haiti foi acompanhada por um processo de exclus\u00e3o de sua popula\u00e7\u00e3o negra e pela necessidade de garantir que a antiga popula\u00e7\u00e3o escrava participasse da luta anticolonial, prestasse servi\u00e7o militar e fornecesse m\u00e3o de obra para o sistema de plantation, o que militarizou a sociedade haitiana e forjou \u2013 na concep\u00e7\u00e3o de Carolyn Fick \u2013 uma esp\u00e9cie de \u201ccidadania de plantation\u201d[9]. Ou seja, embora a escravid\u00e3o no Haiti tenha sido oficialmente abolida, as aspira\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora por acesso \u00e0 terra e liberdade foram permanentemente reprimidas.<\/p>\n<p>Assim, as estruturas do Estado rec\u00e9m-emancipado foram refor\u00e7adas e militarizadas, enquanto a maioria dos habitantes era exclu\u00edda e marginalizada dos processos de constru\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o. Se os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade que constavam na Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e do Cidad\u00e3o eram aplicados na Fran\u00e7a, o mesmo n\u00e3o ocorria nas col\u00f4nias, que mantiveram restri\u00e7\u00f5es sobre as popula\u00e7\u00f5es dos territ\u00f3rios dominados. O igualitarismo e o universalismo pregados pelos l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa ficaram circunscritos \u00e0quele pa\u00eds a partir do controle conservador do Diret\u00f3rio.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, Toussaint Louverture teve que se rebelar junto com o povo haitiano contra essas novas diretrizes impostas pela metr\u00f3pole. Posteriormente, com a ascens\u00e3o de Napole\u00e3o Bonaparte e a promulga\u00e7\u00e3o da Nova Constitui\u00e7\u00e3o Francesa estabelecida ap\u00f3s o Golpe de Estado de 9 de novembro de 1799 (18 Brum\u00e1rio), estipulou-se que as col\u00f4nias passariam a ser governadas por \u201cleis especiais\u201d que levariam em conta as particularidades de cada uma; em outras palavras, os cidad\u00e3os da parte ocidental da Ilha de S\u00e3o Domingos n\u00e3o seriam mais protegidos pelas mesmas leis que regiam os cidad\u00e3os na Fran\u00e7a. Dessa forma, ao transformar em \u201cleis especiais\u201d a universalidade da cidadania francesa que deveria existir tamb\u00e9m para as popula\u00e7\u00f5es de suas col\u00f4nias, o primeiro passo para a restaura\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o sob o regime de plantation havia sido dado[10]. O resto da hist\u00f3ria n\u00f3s conhecemos: a decomposi\u00e7\u00e3o permanente de um pa\u00eds empobrecido e dilacerado pela viol\u00eancia e pelo despojo[11].<\/p>\n<h3><strong>O Partido Comunista Franc\u00eas<\/strong><\/h3>\n<p>Com a libera\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a e o fim da guerra em maio de 1945, novos ares sopravam na Martinica. C\u00e9saire, sua esposa e seus companheiros da rec\u00e9m-criada revista <em>Tropiques<\/em> come\u00e7aram a desenvolver uma atividade pol\u00edtica mais intensa. Aim\u00e9 j\u00e1 era conhecido na capital Fort-de-France por sua veemente posi\u00e7\u00e3o contra o racismo, o colonialismo e o fascismo, raz\u00e3o pela qual fora indicado pela se\u00e7\u00e3o martiniquenha do Partido Comunista Franc\u00eas (PCF) como candidato a prefeito. Eleito para o cargo, foi depois lan\u00e7ado como deputado representante da ilha na Assembleia Francesa com apoio comunista. C\u00e9saire venceria essa e todas as elei\u00e7\u00f5es subsequentes at\u00e9 deixar voluntariamente o mandato em 1993.<\/p>\n<p>Em dezembro de 1945, C\u00e9saire filiou-se ao Partido Comunista Franc\u00eas. Sua milit\u00e2ncia no PCF sempre lhe foi inc\u00f4moda. Embora reconhecesse no comunismo um ideal de progresso, sua atua\u00e7\u00e3o no partido lhe parecia estranha e nunca se sentiu plenamente satisfeito com a decis\u00e3o de ingressar. Posteriormente afirmaria: \u201cHavia um eles e um n\u00f3s. Era direito deles, eles eram os franceses, mas eu me sentia negro, e eles n\u00e3o eram capazes de me compreender plenamente. Foi um grave erro de nossa parte nos considerarmos membros do Partido Comunista Franc\u00eas\u201d[12].<\/p>\n<p>Como parlamentar em 1946, foi o principal articulador da lei que transformou as col\u00f4nias ultramarinas francesas (Martinica, Guadalupe, Guiana e Reuni\u00e3o) em departamentos com relativa autonomia. Entretanto, v\u00e1rios aliados em sua terra natal criticaram-no asperamente por considerar que a lei desviava o foco da independ\u00eancia total das col\u00f4nias.<\/p>\n<p>A pedido, escreveu em 1948 o artigo \u201c<em>L\u2019Impossible Contact\u201d<\/em> para a revista <em>Chemins du monde<\/em>, refletindo sobre o papel da Fran\u00e7a nas col\u00f4nias. Ali surge com extraordin\u00e1ria clareza um pren\u00fancio do que desenvolveria no <em>Discurso sobre o Colonialismo<\/em> [1950] (2006a): <em>\u201cN\u00e3o, a coloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o traz civiliza\u00e7\u00e3o ao povo oprimido. Ao contr\u00e1rio, desumaniza o homem, tanto o colonizador quanto o colonizado\u201d<\/em>. O livro seria publicado em 1950 por uma pequena editora ligada ao PCF.<\/p>\n<p>Sem abandonar a literatura, no p\u00f3s-guerra C\u00e9saire dedicou-se intensamente \u00e0 pol\u00edtica e ao ativismo anticolonial, participando de incont\u00e1veis eventos e manifesta\u00e7\u00f5es contra o racismo e o colonialismo, mas principalmente travando no parlamento franc\u00eas \u00e1rdua batalha contra a direita que queria manter as estruturas de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o coloniais.<\/p>\n<p>Contrariando acusa\u00e7\u00f5es maliciosas sobre sua suposta aceita\u00e7\u00e3o de um colonialismo \u201cde rosto gentil\u201d, C\u00e9saire passou a divergir da posi\u00e7\u00e3o do PCF sobre autonomia das Antilhas e ex-col\u00f4nias em geral. Essas diverg\u00eancias \u2014 somadas a duras cr\u00edticas aos resqu\u00edcios stalinistas no partido \u2014 tornaram-se irreconcili\u00e1veis. Pouco depois, C\u00e9saire decidiu renunciar \u00e0 milit\u00e2ncia no partido. A decis\u00e3o foi comunicada em uma carta digirida ao secret\u00e1rio-geral Maurice Thorez, publicada na revista Pr\u00e9sence Africaine[13], no fim de outubro de 1956. Ali o intelectual antilhano mostrava uma sensibilidade especial diante do apoio que o partido deu ao governo de Guy Mollet para manter o controle e aprofundar as condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o sobre o povo argelino:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Basta dizer que estamos convencidos de que nossas quest\u00f5es ou, se preferirem, a quest\u00e3o colonial, n\u00e3o podem ser tratadas como uma parte de um conjunto mais amplo, como uma parte sobre a qual outros possam transigir ou simplesmente ignorar. (\u2026) De todo modo, \u00e9 inquestion\u00e1vel que nossa luta, a luta dos povos colonizados contra o colonialismo, a luta dos povos racializados contra o racismo, \u00e9 muito mais complexa; trata-se, a meu ver, de uma natureza muito distinta da luta do oper\u00e1rio franc\u00eas contra o capitalismo franc\u00eas, e de forma alguma poderia ser considerada como uma parte, um fragmento dessa luta. (\u2026) Creio ter dito o suficiente para que se compreenda que n\u00e3o estou renunciando ao marxismo nem ao comunismo; o que reprovo \u00e9 o uso que alguns fizeram do marxismo e do comunismo. Quero que o marxismo e o comunismo estejam a servi\u00e7o dos povos negros e n\u00e3o que os povos negros estejam a servi\u00e7o do marxismo e do comunismo. Que a doutrina e o movimento existam para os seres humanos, e n\u00e3o os seres humanos para a doutrina ou para o movimento.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Muitos anos depois, em seu estudo sobre o marxismo ocidental[15], Domenico Losurdo questionaria a posi\u00e7\u00e3o assumida por importantes pensadores dessa corrente do pensamento marxista \u2014 como Perry Anderson, Max Horkheimer, Michel Foucault ou Antonio Negri, entre outros. Losurdo apontava, com evid\u00eancia relevante, o tom desdenhoso com que muitos autores vinculados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do marxismo ocidental europeu trataram, ao longo de sua produ\u00e7\u00e3o intelectual e pol\u00edtica, a quest\u00e3o colonial, que alguns deles chegaram a classificar como uma \u201cdesvio\u201d do marxismo oriental, tendo em mente sobretudo os casos da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da China. Em 1976, por exemplo, o historiador ingl\u00eas Perry Anderson propunha que o chamado marxismo ocidental se distanciasse de forma clara de seu hom\u00f4nimo oriental, em raz\u00e3o dos desvios te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos a que este \u00faltimo teria submetido o pensamento de Marx.<\/p>\n<p>O marxismo ocidental foi, assim, perdendo seu v\u00ednculo com as intensas e dram\u00e1ticas lutas desencadeadas nos pa\u00edses do mundo \u201cn\u00e3o ocidental\u201d a partir dos processos de liberta\u00e7\u00e3o anticolonial que, ao longo dessas d\u00e9cadas, atravessaram numerosos pa\u00edses da \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina. Esse marxismo, segundo Losurdo, virou as costas para tais projetos de independ\u00eancia e para as express\u00f5es de um marxismo que incorporasse outras tem\u00e1ticas al\u00e9m daquelas pertencentes ao repert\u00f3rio te\u00f3rico do marxismo ocidental (como o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, o avan\u00e7o industrial, as condi\u00e7\u00f5es objetivas de transforma\u00e7\u00e3o e o papel central do proletariado). Nessa estrutura conceitual, as quest\u00f5es coloniais e de emancipa\u00e7\u00e3o dos povos subjugados pelo poder das na\u00e7\u00f5es imperiais perderam relev\u00e2ncia. Ao contr\u00e1rio do marxismo oriental, o ocidental rompeu seu v\u00ednculo com os processos revolucion\u00e1rios anticolonialistas em escala global. Como observa Losurdo:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O desprezo pela quest\u00e3o colonial \u00e9 uma forma direta de chauvinismo pr\u00f3-ocidental. Mas, a partir do horror diante do massacre, oficialmente deflagrado por ambos os lados em nome da defesa da p\u00e1tria, difundiu-se, em v\u00e1rios setores do marxismo ocidental, um internacionalismo exaltado e abstrato, inclinado a considerar superada a quest\u00e3o nacional e, consequentemente, a deslegitimar os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional dos povos colonizados.[16]<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Como consequ\u00eancia de sua ren\u00fancia ao Partido Comunista Franc\u00eas (PCF), em mar\u00e7o de 1958, C\u00e9saire fundou o Partido Progressista da Martinica (PPM), sob o lema: \u201cUma Martinica aut\u00f4noma em uma Fran\u00e7a descentralizada\u201d. Em poucos anos, o PPM conseguiu se consolidar como uma das principais refer\u00eancias pol\u00edticas do pa\u00eds. C\u00e9saire foi eleito deputado em diversas ocasi\u00f5es, exercendo seu mandato at\u00e9 1993, ano em que decidiu n\u00e3o disputar um novo mandato na Assembleia Nacional Francesa, justificando sua decis\u00e3o com as seguintes palavras: \u201cSou contra todas as formas de aristocracia, inclusive a da idade, a gerontocracia.\u201d<\/p>\n<h3><strong>Milit\u00e2ncia e atividade pol\u00edtica na Martinica<\/strong><\/h3>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, C\u00e9saire manteve uma intensa atividade pol\u00edtica e militante em favor da causa antirracista e anticolonial, participando de encontros e difundindo sua concep\u00e7\u00e3o daquilo que denominaria como Negritude. No Primeiro Festival Mundial de Arte Negra, realizado em 1966 em Dakar, Senegal, proferiu um discurso no qual expunha que a negritude n\u00e3o buscava ser apenas uma esp\u00e9cie de \u201chumanismo negro\u201d, mas aspirava a se tornar uma contribui\u00e7\u00e3o para um humanismo universal: \u201cA literatura da negritude \u00e9 uma literatura de combate, uma literatura de choque, essa \u00e9 sua honra; uma m\u00e1quina de guerra contra o colonialismo, contra o racismo, essa \u00e9 sua raz\u00e3o de existir\u201d.[17]<\/p>\n<p>Em 1987, Aim\u00e9 foi homenageado na Primeira Confer\u00eancia Hemisf\u00e9rica dos Povos Negros da Di\u00e1spora, realizada na Universidade da Fl\u00f3rida. Na ocasi\u00e3o, leu seu <em>Discurso sobre a Negritude<\/em>, no qual aprofundava sua no\u00e7\u00e3o de negritude e situava suas ideias como poeta e intelectual antilhano. Em sua apresenta\u00e7\u00e3o, expunha com clareza solar essa concep\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Evidentemente, para al\u00e9m do dado biol\u00f3gico imediato, a negritude remete a algo mais profundo \u2014 mais exatamente, a um conjunto de experi\u00eancias vividas que terminaram por definir e caracterizar uma das formas do humano tal como a hist\u00f3ria lhe reserva: trata-se de uma das formas hist\u00f3ricas da condi\u00e7\u00e3o imposta ao homem (\u2026). A negritude n\u00e3o \u00e9 uma filosofia, a negritude n\u00e3o \u00e9 uma metaf\u00edsica, a negritude n\u00e3o \u00e9 um conceito pretensioso do universo, \u00e9 uma maneira de viver a hist\u00f3ria: a hist\u00f3ria de uma comunidade cuja experi\u00eancia se manifesta, a bem da verdade, de forma singular com suas deporta\u00e7\u00f5es, suas transfer\u00eancias for\u00e7adas de um continente a outro, as lembran\u00e7as de cren\u00e7as distantes, os restos de culturas assassinadas. Em suma, a negritude pode ser definida, antes de tudo, como tomada de consci\u00eancia da diferen\u00e7a, como mem\u00f3ria, como fidelidade e como solidariedade.[18]<\/p>\n<p>Embora o conceito de negritude tenha sido questionado em seu potencial te\u00f3rico e pr\u00e1tico por derivar, em certos casos, para uma esp\u00e9cie de racismo (como o pr\u00f3prio C\u00e9saire mais tarde reconheceria), sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica reside em seu car\u00e1ter contestador das categorias euroc\u00eantricas de conceber a cultura e a realidade. Sua for\u00e7a deriva da resist\u00eancia a um olhar hegem\u00f4nico e opressor, vivido especialmente por jovens migrantes que se sentiam cidad\u00e3os de segunda classe nas metr\u00f3poles coloniais. Identidade, resist\u00eancia e emancipa\u00e7\u00e3o est\u00e3o na origem do conceito. A negritude \u00e9, em s\u00edntese, uma express\u00e3o de rebeldia contra a forma como a cultura foi historicamente constitu\u00edda \u2014 com seus preconceitos e hierarquias. Nas palavras de C\u00e9saire: \u201cDito de outro modo, a negritude foi uma revolta contra o que eu chamaria de reducionismo europeu\u201d.[19]<\/p>\n<p>O restante da vida de Aim\u00e9 C\u00e9saire transcorreu em sua terra natal, sempre ativo e militante, sendo convidado em diversas ocasi\u00f5es a participar de encontros de intelectuais, eventos pol\u00edticos e congressos liter\u00e1rios, nos quais os temas centrais eram a luta anticolonial, o antirracismo e a plena soberania dos territ\u00f3rios colonizados. Ao mesmo tempo, manteve seu v\u00ednculo com a literatura e continuou escrevendo poesia e ensaios. Em 2001, afastou-se definitivamente da vida pol\u00edtica, deixando o cargo de prefeito de Fort-de-France, que passaria a ocupar apenas de forma simb\u00f3lica, como prefeito honor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quase ao final de sua vida, em 2006, Aim\u00e9 C\u00e9saire foi relator do processo que tratou da departamentaliza\u00e7\u00e3o das quatro col\u00f4nias ultramarinas existentes naquela regi\u00e3o do Caribe (Martinica, Guadalupe, Reuni\u00e3o e Guiana). Novamente foi acusado por seus detratores de ter favorecido a assimila\u00e7\u00e3o e a depend\u00eancia. Em resposta, um Aim\u00e9 C\u00e9saire \u2014 mais ponderado e contido em suas paix\u00f5es \u2014 declarou em uma entrevista:<\/p>\n<p>Qual era a situa\u00e7\u00e3o antes? Uma mis\u00e9ria total: a ru\u00edna da ind\u00fastria a\u00e7ucareira, a desertifica\u00e7\u00e3o do campo, popula\u00e7\u00f5es que se precipitavam para Fort-de-France e se aglomeravam em invas\u00f5es, instalando-se como podiam em qualquer peda\u00e7o de terra. Os prefeitos s\u00f3 pensavam em mandar a pol\u00edcia. N\u00f3s, ao contr\u00e1rio, escolhemos nos interessar por essas pessoas. Na condi\u00e7\u00e3o de intelectual, fui escolhido por uma popula\u00e7\u00e3o que tinha ideais, necessidades e sofrimentos. O povo martinicano n\u00e3o se preocupava com ideologias \u2014 o que ele queria era transforma\u00e7\u00e3o social, o fim da mis\u00e9ria (\u2026) Eu era o relator da comiss\u00e3o e tinha em mente o seguinte: meu povo est\u00e1 ali, est\u00e1 gritando, precisa de paz, de alimento, de roupas, etc. E eu vou ficar filosofando? Claro que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de 17 de abril, aos 94 anos de idade, Aim\u00e9 C\u00e9saire faleceu em Fort-de-France, em decorr\u00eancia de problemas card\u00edacos. Sua obra po\u00e9tica, seus ensaios e sua dramaturgia s\u00e3o leituras obrigat\u00f3rias em sua terra natal; na Fran\u00e7a, seu <em>Discurso sobre o Colonialismo<\/em> est\u00e1 presente em praticamente todas as bibliotecas escolares e integra a lista de leituras recomendadas para os alunos do ensino m\u00e9dio.<\/p>\n<h3><strong>Fascismo e colonialismo<\/strong><\/h3>\n<p>Em 7 de junho de 1950, foi publicado pela \u00c9ditions R\u00e9clame o contundente ensaio de Aim\u00e9 C\u00e9saire intitulado <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>. Nele, C\u00e9saire parte da constata\u00e7\u00e3o de que a chamada civiliza\u00e7\u00e3o europeia ou ocidental foi incapaz de resolver os dois principais problemas que sua exist\u00eancia engendrou: o proletariado e a quest\u00e3o colonial. Em seguida, ao fazer um diagn\u00f3stico incisivo do que considera os escombros de uma Europa dilacerada e desmoralizada ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, afirma que \u201ca Europa \u00e9 moral e espiritualmente indefens\u00e1vel\u201d. Com o colapso das bases do colonialismo, os povos libertos por meio de suas lutas de independ\u00eancia come\u00e7am a se desfazer n\u00e3o apenas das amarras pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m da marca moral imposta pelo invasor \u2014 aquela que afirma que colonizar \u00e9 civilizar:<\/p>\n<blockquote>\n<p>E hoje, n\u00e3o s\u00e3o apenas as massas europeias que acusam, mas a ata de acusa\u00e7\u00e3o \u00e9, em escala mundial, erguida por dezenas e dezenas de milh\u00f5es de homens que, desde as profundezas da escravid\u00e3o, se erguem como ju\u00edzes. Pode-se matar na Indochina, torturar em Madagascar, aprisionar na \u00c1frica negra, causar devasta\u00e7\u00e3o nas Antilhas. Os colonizados sabem que, doravante, possuem uma vantagem sobre os colonialistas. Sabem que seus \u201csenhores\u201d provis\u00f3rios mentem.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aqueles territ\u00f3rios que haviam conquistado sua independ\u00eancia ou estavam em vias de faz\u00ea-lo viam com profundo ceticismo o discurso civilizat\u00f3rio propagado como justificativa pelos colonizadores. Aim\u00e9 C\u00e9saire compreende com clareza esse desencanto e o lan\u00e7a, sem rodeios, aos europeus \u2014 especialmente aos franceses. Essa perspectiva \u00e9 igualmente partilhada por seu conterr\u00e2neo Frantz Fanon em <em>Os condenados da Terra<\/em>: \u201cDeixemos essa Europa que n\u00e3o cessa de falar do homem ao mesmo tempo em que o assassina onde quer que o encontre [\u2026] H\u00e1 s\u00e9culos a Europa interrompe o progresso dos outros homens e os submete aos seus des\u00edgnios e \u00e0 sua gl\u00f3ria; h\u00e1 s\u00e9culos que, em nome de uma suposta aventura espiritual, sufoca quase toda a humanidade.\u201d<\/p>\n<p>A sintonia entre os dois intelectuais pode ser percebida no fato de que uma elabora\u00e7\u00e3o central no pensamento de C\u00e9saire \u2014 numa perspectiva dial\u00e9tica que Fanon tamb\u00e9m incorporar\u00e1 \u2014 \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que o colonialismo n\u00e3o era uma miss\u00e3o civilizadora, mas uma forma de explora\u00e7\u00e3o que desumanizava tanto os colonizados quanto os colonizadores. Ele denunciava a hipocrisia das pot\u00eancias coloniais ao justificarem suas a\u00e7\u00f5es sob pretextos humanit\u00e1rios enquanto praticavam atos de barb\u00e1rie nas col\u00f4nias. \u201cSeria preciso estudar, em primeiro lugar, como a coloniza\u00e7\u00e3o atua para descivilizar o colonizador, embrutec\u00ea-lo no sentido literal da palavra, degrad\u00e1-lo, despertar seus instintos mais obscuros: gan\u00e2ncia, viol\u00eancia, \u00f3dio racial, relativismo moral\u2026\u201d<\/p>\n<p>Nesse sentido, para o pensador antilhano, os m\u00e9todos praticados pelo nazismo nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX em nada diferiam daqueles historicamente utilizados pelas pot\u00eancias coloniais, pois ambos eram inerentes ao projeto de modernidade levado a cabo pelos europeus. N\u00e3o representavam, portanto, uma pervers\u00e3o da modernidade, mas seu lado sombrio \u2014 um selvagerismo disfar\u00e7ado pelo verniz da civiliza\u00e7\u00e3o redentora. Essa Europa, que se orgulhava de seus ancestrais gregos e dos valores do Iluminismo e da Ilustra\u00e7\u00e3o, experimentou em carne viva a trag\u00e9dia de uma vers\u00e3o racista e eugenista do nazifascismo; n\u00e3o foi capaz de evitar a aniquila\u00e7\u00e3o de europeus por outros europeus. Com espanto, a Europa descobre, tarde demais, que o burgu\u00eas do s\u00e9culo XX, muito humanista e muito crist\u00e3o, carrega dentro de si, sem saber, um Hitler \u2014 seu pr\u00f3prio dem\u00f4nio:<\/p>\n<blockquote>\n<p>E que, se o vitupera, \u00e9 por falta de coer\u00eancia \u2014 pois, no fundo, o que n\u00e3o perdoa a Hitler n\u00e3o \u00e9 o crime em si, o crime contra o ser humano, n\u00e3o \u00e9 a humilha\u00e7\u00e3o do homem em si, mas sim o crime contra o homem branco, a humilha\u00e7\u00e3o do homem branco, e o fato de ter aplicado em solo europeu os m\u00e9todos colonialistas que, at\u00e9 ent\u00e3o, estavam reservados aos \u00e1rabes da Arg\u00e9lia, aos coolies da \u00cdndia e aos negros da \u00c1frica.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Antes de se tornarem suas v\u00edtimas, os europeus j\u00e1 empatizavam com o modelo nazifascista; mais do que isso, legitimavam as pr\u00e1ticas genocidas intr\u00ednsecas ao sistema colonial muito antes de Hitler e suas tropas semearem o p\u00e2nico na Europa e no resto do mundo. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada de original no nazismo que n\u00e3o tenha sido previamente implementado pelo colonialismo contra os povos n\u00e3o europeus.\u201d C\u00e9saire desmascarou o colonialismo como um sistema de explora\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia camuflado sob a apar\u00eancia de miss\u00e3o civilizadora. Essa falsidade, sustentada ao longo dos s\u00e9culos, permitia que as na\u00e7\u00f5es colonizadoras se mostrassem consternadas com as aberra\u00e7\u00f5es cometidas pelos nazistas \u2014 num gesto de hipocrisia sem limites. Aquilo que sempre foi tolerado quando aplicado ao mundo n\u00e3o europeu agora explodia nas entranhas da pr\u00f3pria Europa. Com as barbaridades da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto tornadas p\u00fablicas, o colapso moral da Europa era evidente para quase todos os pa\u00edses do globo \u2014 exceto para os pr\u00f3prios europeus.<\/p>\n<p>Como aponta no in\u00edcio de seu <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, C\u00e9saire acusa os europeus de se enganarem deliberadamente, de ocultarem uma realidade evidente: a de que a Europa j\u00e1 abrigava em seu interior o germe do fascismo, cujas origens podem ser rastreadas nas formas delet\u00e9rias e perversas assumidas pelo colonialismo. Durante s\u00e9culos, existiram fora da Europa sujeitos colonizados e estigmatizados que sofreram genoc\u00eddio, exterm\u00ednio, escravid\u00e3o e viol\u00eancia. Mas isso nunca foi motivo de esc\u00e2ndalo para as popula\u00e7\u00f5es europeias. A semelhan\u00e7a entre as t\u00e1ticas do nazismo e a empreitada colonial era flagrante \u2014 e, para C\u00e9saire, fascismo e colonialismo eram duas faces da mesma moeda.<\/p>\n<p>Um dos grandes m\u00e9ritos da obra de Aim\u00e9 C\u00e9saire \u00e9 evidenciar esse \u201cduplo jogo\u201d moralista do discurso civilizat\u00f3rio, ao revelar que o racismo exercido contra os povos colonizados e oprimidos inoculava, paralelamente, uma pervers\u00e3o ps\u00edquica nos pr\u00f3prios colonizadores; por essa raz\u00e3o, afirmava o martinicano, instalava-se fatalmente um Hitler dentro de cada humanista e burgu\u00eas europeu. E vale esclarecer que C\u00e9saire n\u00e3o se referia a uma mente tortuosa ou psicop\u00e1tica como a de Hitler ou de algum torturador s\u00e1dico, mas sim \u00e0 mente do homem de bem, do burgu\u00eas honesto e decente que usufrui dos benef\u00edcios do sistema colonial. Aqueles que ostentavam suas \u201cvirtudes crist\u00e3s\u201d eram os mesmos que, nas col\u00f4nias, autorizavam o uso do supl\u00edcio e das masmorras contra os chamados incivilizados. Em sua den\u00fancia l\u00facida, C\u00e9saire conclui:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Aonde quero chegar? A esta ideia: ningu\u00e9m coloniza inocentemente, tampouco coloniza impunemente. Uma na\u00e7\u00e3o que coloniza, uma civiliza\u00e7\u00e3o que justifica a coloniza\u00e7\u00e3o e, portanto, a for\u00e7a, j\u00e1 \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o doente, moralmente ferida, que irresistivelmente, de consequ\u00eancia em consequ\u00eancia, de nega\u00e7\u00e3o em nega\u00e7\u00e3o, chama por seu Hitler \u2014 quero dizer, por sua puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3><strong>Por um universalismo que inclua todos os particularismos<\/strong><\/h3>\n<p>Por outro lado, C\u00e9saire n\u00e3o se convence com o universalismo abstrato erigido pelos europeus, tampouco adere aos particularismos estreitos e provincianos de cunho fundamentalista que se refugiam em sua pr\u00f3pria especificidade. Para ele, a verdadeira descoloniza\u00e7\u00e3o passava pela afirma\u00e7\u00e3o de um universalismo concreto que abarcasse, em si mesmo, todas as possibilidades do particularismo. Se o universalismo abstrato do republicanismo europeu \u2014 especialmente o franc\u00eas \u2014 estabelecia rela\u00e7\u00f5es verticais entre os povos, o universalismo concreto, na concep\u00e7\u00e3o do pensador antilhano, s\u00f3 poderia ser resultado de rela\u00e7\u00f5es mais sim\u00e9tricas, horizontais e igualit\u00e1rias entre todas as popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em vez de se referir a valores abstratos do invent\u00e1rio euroc\u00eantrico \u2014 como liberdade, igualdade, democracia ou justi\u00e7a \u2014 C\u00e9saire prop\u00f5e uma cr\u00edtica radical a todas essas no\u00e7\u00f5es ou entel\u00e9quias universalistas da modernidade, com o objetivo de configurar uma nova matriz conceitual que leve \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es verdadeiramente igualit\u00e1rias, justas e democr\u00e1ticas entre os povos. Ele considerava poss\u00edvel falar do universal desde que isso significasse aprofundar a singularidade de cada um, e n\u00e3o neg\u00e1-la. Manter a identidade, para C\u00e9saire, era conquistar uma fraternidade nova e mais ampla, sem se afastar nem se afundar em uma esp\u00e9cie de solipsismo comunit\u00e1rio ou em diversas formas de ressentimento excludente. O universalismo do pensador martinicano est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 no\u00e7\u00e3o de igualdade, sustentado pelo di\u00e1logo e por uma escolha emancipat\u00f3ria e descolonizadora.<\/p>\n<p>Em sua cr\u00edtica ao colonialismo, C\u00e9saire n\u00e3o se dirige apenas aos europeus, mas tamb\u00e9m a um vasto espectro de povos historicamente submetidos, que agora t\u00eam a oportunidade de se libertar das amarras impostas pelo padr\u00e3o europeu de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. Esse padr\u00e3o tamb\u00e9m se manifesta em rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder e de controle sobre o conhecimento, tal como j\u00e1 expuseram diversos autores que apontam como essas formas de poder persistem, mesmo ap\u00f3s os processos de independ\u00eancia das col\u00f4nias ou de descoloniza\u00e7\u00e3o. Sob a concep\u00e7\u00e3o de \u201cdecolonialidade\u201d, prop\u00f5e-se a necessidade de desmontar essas rela\u00e7\u00f5es que alimentam hierarquias raciais, geopol\u00edticas e de g\u00eanero, forjadas ao longo da constitui\u00e7\u00e3o do mundo moderno-colonial.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m destaca Ram\u00f3n Grosfoguel, C\u00e9saire \u00e9 um dos \u201cintelectuais vision\u00e1rios que se anteciparam aos acontecimentos de sua \u00e9poca\u201d. De fato, foi capaz de perceber e denunciar precocemente o car\u00e1ter perverso do colonialismo e de desenvolver uma cr\u00edtica ao projeto euroc\u00eantrico \u2014 ou ao \u201ceuro-ocidentalismo culturalista\u201d \u2014 que viria a ser teorizado posteriormente pelo pensamento p\u00f3s-colonial e decolonial. Por essa raz\u00e3o, C\u00e9saire pode ser considerado um precursor dessa perspectiva que ficou conhecida como o \u201cgiro decolonial\u201d, posteriormente adotado por um conjunto de pensadores que aderiram, com maior ou menor intensidade, ao Programa de Pesquisa Modernidade-Colonialidade.<\/p>\n<p>Essa proposta postula que a colonialidade \u00e9 parte integral dos processos de moderniza\u00e7\u00e3o e que, nessa din\u00e2mica articulada, a experi\u00eancia do empreendimento colonial europeu \u00e9 fundamental para compreender como a forma\u00e7\u00e3o das principais institui\u00e7\u00f5es da modernidade est\u00e1 inscrita nesse projeto colonizador: a constru\u00e7\u00e3o do Estado moderno, da ci\u00eancia, da arte, do capitalismo. A colonialidade ultrapassa o colonialismo em sentido estrito, na medida em que imp\u00f5e um tipo de heran\u00e7a que persiste mesmo quando o colonialismo baseado na ocupa\u00e7\u00e3o militar e na anexa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de territ\u00f3rios j\u00e1 chegou ao fim.<\/p>\n<p>A colonialidade se reproduz, assim, em tr\u00eas dimens\u00f5es: a do poder, a do saber e a do ser. A partir dessa narrativa, emerge um tipo de taxonomia social baseada em ra\u00e7a, g\u00eanero e trabalho, uma configura\u00e7\u00e3o privilegiada da l\u00f3gica colonial. Nas palavras de An\u00edbal Quijano, a colonialidade \u00e9 um dos elementos constitutivos e espec\u00edficos do padr\u00e3o mundial de poder capitalista. Ela se funda na imposi\u00e7\u00e3o de uma classifica\u00e7\u00e3o racial-\u00e9tnica da popula\u00e7\u00e3o mundial como pedra angular desse padr\u00e3o de poder. Pensada dessa forma, a colonialidade implica o reconhecimento do lado obscuro e necess\u00e1rio da modernidade; ela \u00e9 um elemento indissoci\u00e1vel de sua pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A colonialidade constr\u00f3i um relato universalista que imp\u00f5e uma l\u00f3gica cultural centrada no processo civilizat\u00f3rio. As propostas elaboradas anteriormente por Aim\u00e9 C\u00e9saire antecipam \u2014 ou mesmo inauguram \u2014 as ideias decoloniais e p\u00f3s-coloniais, na medida em que questionam esse universalismo constru\u00eddo como narrativa da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d branca europeia e se insurgem contra a viol\u00eancia exercida a partir da matriz colonial enquanto express\u00e3o da modernidade.<\/p>\n<h3><strong>O legado de Aim\u00e9 C\u00e9saire<\/strong><\/h3>\n<p>O discurso anticolonialista de Aim\u00e9 C\u00e9saire (principalmente seu <em>Discurso sobre o colonialismo) <\/em>mant\u00e9m uma relev\u00e2ncia not\u00e1vel atualmente, considerando que j\u00e1 se passaram 75 anos desde sua primeira publica\u00e7\u00e3o, em 1950. Suas ideias continuam ressoando como um alerta sobre o racismo sist\u00eamico, a desigualdade e a discrimina\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo em que alimentam os debates sobre as formas assumidas pelas estruturas de poder, a domina\u00e7\u00e3o neocolonial e o epistemic\u00eddio.A atualidade do dicurso anticolonial de Aim\u00e9 C\u00e9saire reside em sua capacidade de revelar as estruturas de poder, explora\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o que se gestaram durante o colonialismo e que, de muitas formas, persistem hoje sob novas manifesta\u00e7\u00f5es. Seu <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em> n\u00e3o apenas denuncia os crimes cometidos em nome da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, mas tamb\u00e9m oferece uma cr\u00edtica profunda ao sistema econ\u00f4mico, pol\u00edtico e cultural que perpetua as desigualdades globais.<\/p>\n<p>C\u00e9saire alertava que o colonialismo n\u00e3o terminava com a independ\u00eancia formal das na\u00e7\u00f5es, mas se transformava em novas formas de controle, como o neocolonialismo econ\u00f4mico e cultural. No contexto atual, isso se observa nas rela\u00e7\u00f5es desiguais entre pa\u00edses do Norte e do Sul global, onde corpora\u00e7\u00f5es multinacionais, institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais e acordos comerciais continuam reproduzindo padr\u00f5es coloniais de depend\u00eancia e explora\u00e7\u00e3o. De fato, essas din\u00e2micas se refletem nas modalidades de neocolonialismo, nas quais as rela\u00e7\u00f5es desiguais de poder entre pa\u00edses ricos e pobres, por meio de institui\u00e7\u00f5es financeiras, tratados comerciais e multinacionais, perpetuam padr\u00f5es de depend\u00eancia econ\u00f4mica e desigualdade global.<\/p>\n<p>Uma marca incontest\u00e1vel e pioneira do pensamento de Aim\u00e9 C\u00e9saire \u00e9 o questionamento do eurocentrismo e, consequentemente, sua luta pela valoriza\u00e7\u00e3o das culturas e saberes n\u00e3o ocidentais. Essa cr\u00edtica influenciou os debates contempor\u00e2neos sobre a descoloniza\u00e7\u00e3o do conhecimento em universidades, museus e outras institui\u00e7\u00f5es. Hoje, muitos buscam resgatar e dar visibilidade \u00e0s epistemologias e narrativas do Sul global. Seu conceito de \u201cnegritude\u201d, enquanto movimento de reivindica\u00e7\u00e3o cultural, identidade e orgulho pela heran\u00e7a africana, continua sendo uma inspira\u00e7\u00e3o para comunidades que buscam reafirmar sua identidade diante de s\u00e9culos de opress\u00e3o e estigmatiza\u00e7\u00e3o. Essa busca por dignidade ressoa nas lutas atuais por uma representa\u00e7\u00e3o justa e pelo reconhecimento das culturas marginalizadas.<\/p>\n<p>O racismo que C\u00e9saire identificou como componente central do colonialismo permanece presente em muitas sociedades. Movimentos como o Black Lives Matter ou as lutas contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial na Europa e Am\u00e9rica Latina ecoam as den\u00fancias de C\u00e9saire sobre como o colonialismo desumanizou os povos colonizados. Sua an\u00e1lise convida a refletir sobre as ra\u00edzes hist\u00f3ricas do racismo e a buscar solu\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas. De forma antecipada, o pensador antilhano tamb\u00e9m visualizou o colonialismo como uma forma irracional de explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Na atual crise clim\u00e1tica, as din\u00e2micas extrativistas originadas no colonialismo continuam afetando desproporcionalmente as regi\u00f5es mais empobrecidas.<\/p>\n<p>O chamado de C\u00e9saire para uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural emancipadora continua inspirando movimentos sociais que lutam contra as desigualdades, o racismo e as opress\u00f5es de toda esp\u00e9cie. Sua vis\u00e3o de uma humanidade capaz de construir seu destino por meio da justi\u00e7a e da criatividade ressoa nos desafios globais do s\u00e9culo XXI. Suas ideias convidam a repensar essas rela\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e a buscar modelos mais justos e sustent\u00e1veis.<\/p>\n<p>Por fim, embora n\u00e3o menos importante, nada como a releitura de C\u00e9saire para compreender os riscos da emerg\u00eancia das novas modalidades de fascismo que atualmente acometem a humanidade. As declara\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas de Donald Trump, Benjamin Netanyahu, Nayib Bukele, Javier Milei e outros l\u00edderes da extrema direita global se assemelham demasiadamente \u00e0s a\u00e7\u00f5es implementadas pelas tropas nazistas h\u00e1 quase um s\u00e9culo, e o assassinato cont\u00ednuo de jovens negros em muitas cidades do mundo ocidental remete-nos aos genoc\u00eddios praticados entre os povos colonizados das Am\u00e9ricas, \u00c1frica e \u00c1sia.<\/p>\n<p>Em suma, o pensamento de Aim\u00e9 C\u00e9saire permanece vigente porque transcende seu tempo. N\u00e3o apenas porque foi um protagonista do debate sobre os processos de descoloniza\u00e7\u00e3o de meados do s\u00e9culo XX, mas porque sua busca por um \u201cuniversal\u201d constru\u00eddo a partir de m\u00faltiplos \u201cparticulares\u201d \u00e9 uma marca fundamental do pensamento contempor\u00e2neo. As ideias do poeta, intelectual e pol\u00edtico martinicano constituem hoje um importante insumo para analisar e desafiar os sistemas de opress\u00e3o, injusti\u00e7a e exclus\u00e3o que ainda moldam o mundo, ao mesmo tempo em que nos inspiram a imaginar e construir um futuro baseado na igualdade, justi\u00e7a social, diversidade e respeito m\u00fatuo.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> Em rigor, essas bolsas eram concedidas pelo governo da Fran\u00e7a como uma forma de assimilar as elites dos territ\u00f3rios colonizados e formar os futuros burocratas da administra\u00e7\u00e3o colonial, intermedi\u00e1rios entre os brancos e as popula\u00e7\u00f5es \u201cde cor\u201d. (Rogerio de Campos, \u201cRetorno a Aim\u00e9 C\u00e9saire, uma cronologia\u201d. In: A. C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>; tradu\u00e7\u00e3o de Claudio Willer, S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Venetta, 2020, pp. 79-127).<\/p>\n<p><strong>[2]<\/strong> As irm\u00e3s Nardal foram sete, sendo Paulette e Jeanne as mais conhecidas. Escritoras, fil\u00f3sofas, jornalistas e intelectuais nascidas na Martinica, s\u00e3o consideradas precursoras da negritude, e sua casa transformou-se em um Sal\u00e3o Liter\u00e1rio frequentado pelos mais influentes ativistas do movimento negro da \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>[3]<\/strong> Em conversas com Fran\u00e7oise Verg\u00e8s, Aim\u00e9 confessava: \u201cDa minha parte, eu n\u00e3o gostava muito dos sal\u00f5es \u2014 n\u00e3o que os desprezasse \u2014 e apareci por l\u00e1 algumas vezes, sem ficar muito tempo. No entanto, foi assim que conheci v\u00e1rios escritores negros americanos como Langston Hughes ou Claude McKay, que faziam parte do grupo Harlem Renaissance.\u201d (A. C\u00e9saire \/ F. Verg\u00e8s, <em>Negro sou, negro serei: Conversas com Fran\u00e7oise Verg\u00e8s<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o de Leo Gon\u00e7alves, Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2024, p. 27).<\/p>\n<p><strong>[4]<\/strong> A. C\u00e9saire, \u201cNegritudes: juventude negra e assimila\u00e7\u00e3o\u201d, in: <em>Meridional. Revista Chilena de Estudios Latinoamericanos<\/em>, n\u00ba 10, abril-setembro de 2018, p. 213. Tradu\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o original posteriormente publicada na revista <em>Les Temps Modernes<\/em>, n\u00ba 676, 2013, pp. 246-248.<\/p>\n<p><strong>[5]<\/strong> Aim\u00e9 C\u00e9saire, <em>Cahier d\u2019un retour au pays natal<\/em>, Paris: Pr\u00e9sence Africaine, 1960. Ed. bras.: <em>Di\u00e1rio de um retorno ao pa\u00eds natal<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o de Lilian Pestre de Almeida, S\u00e3o Paulo: Edusp, 2012, p. 8.<\/p>\n<p><strong>[6]<\/strong> R. de Campos, op. cit., p. 97.<\/p>\n<p><strong>[7]<\/strong> A. C\u00e9saire, <em>La trag\u00e9die du roi Christophe<\/em>, Paris: Pr\u00e9sence Africaine, 1963. Ed. bras.: \u201cA trag\u00e9dia do rei Christophe\u201d, in: A. C\u00e9saire, <em>Textos escolhidos<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o de Sebasti\u00e3o Nascimento, Rio de Janeiro: Editora Cobog\u00f3, 2022.<\/p>\n<p><strong>[8]<\/strong> A. C\u00e9saire \/ F. Verg\u00e8s, 2024, p. 55.<\/p>\n<p><strong>[9]<\/strong> Dos estudos de Carolyn Fick, podem-se consultar \u201cPara uma (re)defini\u00e7\u00e3o de liberdade: a Revolu\u00e7\u00e3o no Haiti e os paradigmas de Liberdade e Igualdade\u201d, in: <em>Revista Estudos Afro-Asi\u00e1ticos<\/em>, Ano 26, n\u00ba 2, 2004, pp. 355-380; e \u201cCamponeses e soldados negros na Revolu\u00e7\u00e3o de Saint-Domingue: rea\u00e7\u00f5es iniciais \u00e0 liberdade na Prov\u00edncia do Sul (1793-1794)\u201d, in: F. Krantz (org.) <em>A Outra Hist\u00f3ria. Ideologia e protesto popular nos s\u00e9culos XVII e XVIII<\/em>, tradu\u00e7\u00e3o de Ruy Jungmann, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990, pp. 211-226.<\/p>\n<p><strong>[10]<\/strong> Fick, 2004.<\/p>\n<p><strong>[11]<\/strong> O soci\u00f3logo haitiano G\u00e9rard Pierre-Charles deixou uma extensa obra sobre seu pa\u00eds e o Caribe, na qual exp\u00f5e com profundo rigor anal\u00edtico as din\u00e2micas hist\u00f3ricas da regi\u00e3o, com base nas condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e espolia\u00e7\u00e3o impostas pelo colonialismo e pelo imperialismo.<\/p>\n<p><strong>[12]<\/strong> A. C\u00e9saire \/ F. Verg\u00e8s, 2024, p. 33.<\/p>\n<p><strong>[13]<\/strong> \u00c9 interessante notar que essa ren\u00fancia ao PCF ocorre poucos dias antes de o Ex\u00e9rcito Vermelho da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica invadir as ruas de Budapeste (04\/11\/1956), selando o destino do que posteriormente seria conhecido como Revolu\u00e7\u00e3o H\u00fangara.<\/p>\n<p><strong>[14]<\/strong> Aim\u00e9 C\u00e9saire, \u201cCarta a Maurice Thorez\u201d. In: A. C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, Madri: Ediciones Akal, 2006, pp. 79-82.<\/p>\n<p><strong>[15]<\/strong> Domenico Losurdo, <em>O marxismo ocidental. Como nasceu, como morreu e como pode ressuscitar<\/em>, Madri: Editorial Trotta, 2019.<\/p>\n<p><strong>[16]<\/strong> Domenico Losurdo, op. cit., p. 44.<\/p>\n<p><strong>[17]<\/strong> A. C\u00e9saire, apud Campos, 2020, p. 118.<\/p>\n<p><strong>[18]<\/strong> A. C\u00e9saire, \u201cDiscurso sobre a negritude. Negritude, etnicidade e culturas afro-americanas\u201d, in: A. C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, Madri: Ediciones Akal, 2006, pp. 86-87.<\/p>\n<p><strong>[19]<\/strong> A. C\u00e9saire, op. cit., p. 87.<\/p>\n<p><strong>[20]<\/strong> Aim\u00e9 C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>; tradu\u00e7\u00e3o de Mara Viveros, Madri: Ediciones Akal, 2006, p. 13.<\/p>\n<p><strong>[21]<\/strong> Frantz Fanon, <em>Os condenados da terra<\/em>; tradu\u00e7\u00e3o de Julieta Campos, Cidade do M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 1963, p. 287.<\/p>\n<p><strong>[22]<\/strong> A. C\u00e9saire, op. cit., p. 15.<\/p>\n<p><strong>[23]<\/strong> A. C\u00e9saire, op. cit., p. 15.<\/p>\n<p><strong>[24]<\/strong> Ram\u00f3n Grosfoguel, \u201cAtualidade do pensamento de C\u00e9saire: redefini\u00e7\u00e3o do sistema-mundo e produ\u00e7\u00e3o de utopia desde a diferen\u00e7a colonial\u201d. In: A. C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, Madri: Ediciones Akal, 2006, p. 148.<\/p>\n<p><strong>[25]<\/strong> A. C\u00e9saire, op. cit., p. 17.<\/p>\n<p><strong>[26]<\/strong> Nelson Maldonado-Torres, \u201cAim\u00e9 C\u00e9saire e a crise do homem europeu\u201d, in: A. C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, Madri: Ediciones Akal, 2006, pp. 173-196.<\/p>\n<p><strong>[27]<\/strong> Ram\u00f3n Grosfoguel, \u201cAtualidade do pensamento de C\u00e9saire: redefini\u00e7\u00e3o do sistema-mundo e produ\u00e7\u00e3o de utopia desde a diferen\u00e7a colonial\u201d. In: A. C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, Madri: Ediciones Akal, 2006, pp. 147-172.<\/p>\n<p><strong>[28]<\/strong> Samir Amin, \u201cDa cr\u00edtica do racialismo \u00e0 cr\u00edtica do euro-ocidentalismo culturalista\u201d. In: A. C\u00e9saire, <em>Discurso sobre o colonialismo<\/em>, Madri: Ediciones Akal, 2006, pp. 95-146.<\/p>\n<p><strong>[29]<\/strong> Existe uma vasta produ\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica sobre o surgimento e as v\u00e1rias propostas desse Programa de Pesquisa, entre as quais se destaca o evento organizado por Edgardo Lander em 1998, posteriormente transformado no livro <em>A colonialidade do saber: eurocentrismo e ci\u00eancias sociais. Perspectivas latino-americanas<\/em>, E. Lander (org.), Buenos Aires: CLACSO, 2000.<\/p>\n<p><strong>[30]<\/strong> An\u00edbal Quijano, \u201cColonialidade do poder e subjetividade na Am\u00e9rica Latina\u201d, in: A. A. Melo e F. de la Cuadra (orgs.), <em>Intelectuais e pensamento social e ambiental na Am\u00e9rica Latina<\/em>, Santiago: RIL Editores, 2020, pp. 257-278.<\/p>\n<p><strong>[31]<\/strong> Dizemos \u201cprincipalmente\u201d, embora n\u00e3o exclusivamente, pois o conjunto da obra de C\u00e9saire inscreve-se em seu apelo pela emancipa\u00e7\u00e3o dos colonizados, como tamb\u00e9m ocorre em textos fundamentais como <em>Cultura e coloniza\u00e7\u00e3o<\/em> (1956); <em>Carta a Maurice Thorez<\/em> (1956); <em>Discurso sobre a negritude. Negritude, etnicidade e culturas afro-americanas<\/em> (1987); ou na conversa com Fran\u00e7oise Verg\u00e8s, publicada em espanhol sob o t\u00edtulo <em>Negro soy, negro me quedo<\/em> (2020).<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Exp\u00f4s o apagamento de saberes n\u00e3o ocidentais e o modus operandi do terror colonial. Sua voz ainda ecoa nas lutas antirracistas e nos estudos decoloniais<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/porque-ler-aime-cesaire-hoje\/\">Por que ler Aim\u00e9 C\u00e9saire hoje?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":41068,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[10828,5511,3418,5599,10829,10515,6621],"tags":[],"class_list":["post-41067","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-aime-cesaire","category-capa","category-decolonialismo","category-descolonizacoes","category-discurso-sobre-o-colonialismo","category-negritude","category-universalismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41067","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41067"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41067\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41068"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41067"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41067"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41067"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}