{"id":41355,"date":"2025-07-30T17:40:50","date_gmt":"2025-07-30T20:40:50","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/cronica-o-vazio-que-a-cidade-dos-passaros-deixou\/"},"modified":"2025-07-30T17:40:50","modified_gmt":"2025-07-30T20:40:50","slug":"cronica-o-vazio-que-a-cidade-dos-passaros-deixou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cronica-o-vazio-que-a-cidade-dos-passaros-deixou\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica: O vazio que a cidade dos p\u00e1ssaros deixou"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"550\" height=\"358\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/lavadeira.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/lavadeira.jpg 550w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/lavadeira-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\"><figcaption>Foto publicada pelo site capeiaarraiana<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Este texto \u00e9 um texto-reflex\u00e3o sobre o livro  <em><strong>A cidade das aves,<\/strong><\/em> de Tereza Andrade, publicado pela Editora Lamparina. <strong>Confira outros t\u00edtulos da editora<\/strong><\/p>\n<div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"435\" height=\"435\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/465384_70a921dfe3c7410bba1048fe9fcd58e2mv2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/465384_70a921dfe3c7410bba1048fe9fcd58e2mv2.jpg 435w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/465384_70a921dfe3c7410bba1048fe9fcd58e2mv2-300x300.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/465384_70a921dfe3c7410bba1048fe9fcd58e2mv2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 435px) 100vw, 435px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p>Tereza, vc me pergunta sobre se li o seu livro e o que achei dele? Sim li, parando, vendo vc correr, sentir os cheiros e ver seu Paranapanema, o rio de muitas corredeiras e itaipavas. Um rio que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um rio inteiro, agora j\u00e1 lago, muitos lagos. Achei dentro dele muitas das minhas mem\u00f3rias, um pouco fora do seu tempo, do tempo de seu livro. Sem me dar conta, saia do livro e l\u00e1 estava eu na pequena ch\u00e1cara onde cresci nos anos de 1960, periferia da cidade de Tup\u00e3, uma dessas outras tantas constru\u00edda sobre os destro\u00e7os dos grupos ind\u00edgenas e da floresta, dos c\u00f3rregos, dos animais e p\u00e1ssaros que l\u00e1 viviam. Como periferia, nos fundos daquele pequeno terreno, quase um hectare, corria um pequeno c\u00f3rrego, que l\u00e1 pelas alturas do final dos anos de 1960 havia se tornado uma imensa vo\u00e7oroca, aberta pelas enxurradas provocadas pelas chuvas que desciam do centro da cidade.<\/p>\n<p>J\u00e1 adulto, muitas cidades depois, tendo posto o traje de historiador escrevi sobre aquilo. Uma parte vc leu no livro <em>Cidades e sert\u00f5es<\/em>, outras ficaram por contar. Assim narrei aquele meu encontro com o c\u00f3rrego dos fundos da nossa ch\u00e1cara, quase 40 anos ap\u00f3s.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-GERA-30.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-GERA-30.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cQuando em 1964, mudamos, minha fam\u00edlia e eu, da zona rural do munic\u00edpio de Tup\u00e3 para uma ch\u00e1cara na periferia da cidade, havia um riacho correndo no fundo do terreno. Meio metro de profundidade e n\u00e3o mais do que dois metros de largura. Nascia, nasce, perto de uma escola onde estudei meus primeiros oito anos de vida escolar. Pulei, andei, catei pedras em seu leito, pesquei lambaris, cascudos e ca\u00e7amos pre\u00e1s, quase sem sucesso. Muitas vezes levamos os animais dom\u00e9sticos, vacas e cavalos, para beber de suas \u00e1guas. Quando chovia tornava-se caudaloso, mas n\u00e3o era, ainda, uma amea\u00e7a \u00e0s crian\u00e7as. N\u00e3o havia not\u00edcias de afogamento, era realmente um pequeno riacho. Naquele momento, metade da d\u00e9cada de 1960, a maior parte dos habitantes do munic\u00edpio ainda morava na zona rural. A cidade era um local para as compras semanais, as missas mais importantes, registros de casamentos e nascimentos, lugar de neg\u00f3cios, m\u00e1quinas de beneficiamento de caf\u00e9, com\u00e9rcio. A pol\u00edtica de erradica\u00e7\u00e3o da cafeicultura promovida pela ditadura militar, baseado no falso pressuposto de ser antiecon\u00f4mica, p\u00f4s em marcha os homens do campo em dire\u00e7\u00e3o a cidade. Quase 40 milh\u00f5es de brasileiros trocaram o campo pela cidade pequena, e cidade pequena pela grande cidade entre 1960 e 1980. Em meados dos anos de 1970, o pequeno c\u00f3rrego havia transformado seu leito e suas margens em uma imensa vo\u00e7oroca atrav\u00e9s das enxurradas que desciam da cidade alta provocadas pelo aumento da impermeabiliza\u00e7\u00e3o de ruas e quintais, destrui\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos vest\u00edgios de matas ciliares e loteamos nas suas cabeceiras. O curso do c\u00f3rrego havia se transformado num canal para as \u00e1guas das chuvas e do esgoto da cidade. O riacho se vingou arrastando as margens e o que havia nelas. Quando chovia, ele se transformava em uma torrente de \u00e1guas barrentas, perigoso, intranspon\u00edvel. V\u00e1rias vezes as pequenas pontes e pinguelas foram carregadas pelas \u00e1guas das enchentes. Surgiram, ent\u00e3o, as promessas de sua canaliza\u00e7\u00e3o, o seu controle. Quando no final dos anos de 1970 mudamos da cidade, continuavam a campanha e as promessas. Duas d\u00e9cadas ap\u00f3s, retornei. As margens da imensa vo\u00e7oroca foram desbastadas e contidas com gramas. Os moradores das margens do antigo c\u00f3rrego perderam cerca de 50 metros de terreno para poder \u201curbanizar\u201d o c\u00f3rrego. L\u00e1 no fundo, agora com cerca de 20 metros de profundidade, corre ainda aquelas \u00e1guas que um dia foi um riacho. N\u00e3o existem mais peixes, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel caminhar por suas \u00e1guas. Os homens eliminaram mais um c\u00f3rrego.<\/p>\n<p>Assim tem sido e os habitantes das cidades desse in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, cidades grandes, m\u00e9dias e pequenas, quase n\u00e3o se lembram, ou nunca viram, os c\u00f3rregos, riachos e rios que existiam onde hoje se encontram os monumentos da conquista. Em muitas regi\u00f5es, altamente urbanizadas, os c\u00f3rregos, riachos e rios desapareceram de nossas vistas, transformaram-se em canais, foram tampados, escondidos, transpostos por pontes, canalizados para evitar as enchentes. Mais longe, os rios, os grandes e pequenos, s\u00e3o interrompidos por barragens para que a for\u00e7a da correnteza movimente turbinas e satisfa\u00e7a a nossa insaci\u00e1vel fome de energia.<\/p>\n<p>Os que habitam as pequenas cidades, ou que s\u00e3o mais velhos, podem ainda se lembrar em quantos c\u00f3rregos entraram, mergulharam as m\u00e3os e, muitas vezes, com suas \u00e1guas mataram a sede. Alguns ainda se lembram que pescavam ali, onde havia um c\u00f3rrego, hoje uma avenida. Muitos viajam centenas de quil\u00f4metros para pescar, mas n\u00e3o encontram mais o rio de sua aldeia. Encontram o Tejo que vai para o Mar, o rio da hist\u00f3ria. N\u00e3o vemos mais o c\u00f3rrego de nossa aldeia, pensamos no grande rio que corre atr\u00e1s das montanhas, nas hidroel\u00e9tricas, no abastecimento de \u00e1gua, nas \u00e1guas calmas e pl\u00e1cidas vistas das varandas das casas as margens das represas, no descanso dos fins de semana. N\u00e3o conseguimos ver a natureza dos rios, vemos as suas fun\u00e7\u00f5es, mas ele l\u00e1 est\u00e1, onde estava h\u00e1 muito tempo antes de n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Seu livro Tereza, suas mem\u00f3rias de um rio, de c\u00f3rregos, das \u00e1guas, levaram-me para lugares que tinha esquecido, ou n\u00e3o tinha notado \u00e0 \u00e9poca. O interior das casas, as conversas entre mulheres, a cozinha\u2026 lembrei-me do fog\u00e3o a lenha, revestido com cimento vermelho, a cozinha, ou o alpendre (ser\u00e1 que us\u00e1vamos esta palavra?) de fora, abrigada por um xadrez de ripas de madeira, pintadas de verde escuro. L\u00e1 fica o po\u00e7o, ainda com sarilho. Um paneleiro de alum\u00ednio com ganchos para dependurar as panelas e frigideiras. Depois apareceu um fog\u00e3o \u2018geral\u2019, a lenha mas todo em ferro, branco com detalhes em rosa e azul. Tinha um reservat\u00f3rio de \u00e1guas quentes, forno, etc. O velho fog\u00e3o ainda continuou l\u00e1, ao seu lado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o essas mem\u00f3rias, as suas mem\u00f3rias, s\u00e3o de um espa\u00e7o aos quais os homens, mesmo um menino, n\u00e3o se lembrava, ou n\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o. Afinal, os \u2018muleques\u2019 iram ao exterior, ca\u00e7ar passarinhos, prender passarinhos, tamb\u00e9m trabalhar, mas o mundo de fora era o espa\u00e7o desse tempo para os meninos.<\/p>\n<p>Assim, Tereza, esse livro \u00e9 um \u2018relic\u00e1rio\u2019, algo que se guarda na cabeceira e se pede, toda a noite, que n\u00e3o nos esque\u00e7amos do lugar que nos foi roubado..<\/p>\n<p>Abra\u00e7os<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Gilmar<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Onde adultos pescavam e moleques ca\u00e7avam passarinhos. Muitos n\u00e3o se lembram ou nunca os viram. Viram linhas-retas, concreto, enchentes\u2026 Fun\u00e7\u00e3o; n\u00e3o a natureza. Mas a literatura faz com que nunca nos esque\u00e7amos do lugar que nos foi roubado\u2026 <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/cronica-o-vazio-que-a-cidade-dos-passaros-deixa\/\">Cr\u00f4nica: O vazio que a cidade dos p\u00e1ssaros deixou<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":41356,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[11140,11141,11142,9335,5499,11143],"tags":[],"class_list":["post-41355","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-a-cidade-das-aves","category-aguas-da-cidade","category-editora-lamparina","category-literatura-brasileira","category-poeticas","category-tereza-andrade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41355","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41355"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41355\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41356"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41355"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41355"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41355"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}