{"id":42440,"date":"2025-08-04T15:20:09","date_gmt":"2025-08-04T18:20:09","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/filme-traz-diario-de-momentos-em-que-a-democracia-brasileira-esteve-sob-risco\/"},"modified":"2025-08-04T15:20:09","modified_gmt":"2025-08-04T18:20:09","slug":"filme-traz-diario-de-momentos-em-que-a-democracia-brasileira-esteve-sob-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/filme-traz-diario-de-momentos-em-que-a-democracia-brasileira-esteve-sob-risco\/","title":{"rendered":"Filme traz di\u00e1rio de momentos em que a democracia brasileira esteve sob risco"},"content":{"rendered":"<p><i><span>No C\u00e9u da P\u00e1tria Nesse Instante<\/span><\/i><span> chega aos cinemas no pr\u00f3ximo 14 de agosto com um registro do momento recente em que a democracia brasileira esteve seriamente em risco. O longa-metragem acompanha de perto uma s\u00e9rie de personagens dos dois lados do espectro pol\u00edtico, revelando suas perspectivas no per\u00edodo que se estende da v\u00e9spera das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022 \u00e0 invas\u00e3o dos Tr\u00eas Poderes em 8 de janeiro de 2023. Esses fatos hist\u00f3ricos s\u00e3o observados a partir do ponto de vista individual dos personagens, todos eleitores.<\/span><\/p>\n<p><span>\u201cDesde o come\u00e7o eu queria fazer o filme com um cidad\u00e3o comum. A pessoa que n\u00e3o est\u00e1 nos holofotes, porque eu acho esse lugar da pessoa que est\u00e1 ao lado, atr\u00e1s, no bastidor, um lugar muito interessante, privilegiado. S\u00e3o pessoas que est\u00e3o fazendo aquilo acontecer, trabalham para aquilo existir e ao mesmo tempo ningu\u00e9m est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o nelas, nem elas, muitas vezes\u201d, afirma a diretora Sandra Kogut, em entrevista para <\/span><b><i>Opera Mundi<\/i><\/b><span>.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-227383\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-still-4.webp\" alt='Cena de \"No Ce\u0301u da Pa\u0301tria Nesse Instante\". &lt;br&gt;(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)' width=\"1333\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-still-4.webp 1333w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-still-4-300x169.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-still-4-1024x576.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-still-4-768x432.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-still-4-150x84.webp 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-still-4-750x422.webp 750w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/no-ceu-da-patria-nesse-instante-still-4-1140x641.webp 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1333px) 100vw, 1333px\"><figcaption>Cena de \u201cNo Ce\u0301u da Pa\u0301tria Nesse Instante\u201d. <br \/>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>O registro das m\u00faltiplas vis\u00f5es sobre esse momento pol\u00edtico \u00e9 feito, em muitos momentos, pelos pr\u00f3prios personagens, treinados por Kogut para gravar um di\u00e1rio de seu cotidiano. \u201cE isso tamb\u00e9m fez com que o filme tivesse sempre um ponto de vista muito espec\u00edfico, de atr\u00e1s, do meio da multid\u00e3o, da lateral, porque \u00e9 onde os nossos personagens est\u00e3o e isso traz um olhar singular. A gente est\u00e1 realmente com eles e eles s\u00e3o os trabalhadores da elei\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta a diretora. Em um pa\u00eds cindido em duas realidades paralelas, o filme torna-se um documento hist\u00f3rico precioso n\u00e3o s\u00f3 sobre as elei\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m sobre os medos, as tens\u00f5es, disputas e expectativas.<\/span><\/p>\n<p><span>Depois dos eleitores, a urna eletr\u00f4nica \u00e9 uma quase segunda protagonista. Acompanhamos todo seu percurso, at\u00e9 chegar nos lugares mais remotos do pa\u00eds, e depois seu retorno, para a contagem de votos. Esse percurso, bem como as sequ\u00eancias de explica\u00e7\u00f5es sobre seu funcionamento e seguran\u00e7a, cumprem tamb\u00e9m fun\u00e7\u00e3o did\u00e1tica em um contexto de condena\u00e7\u00e3o deste instrumento democr\u00e1tico. \u201cTeve um momento em que eu claramente decidi falar das elei\u00e7\u00f5es, porque o sistema eleitoral estava sendo muito atacado. E o sistema eleitoral brasileiro \u00e9 maravilhoso e \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o da democracia. E voc\u00ea v\u00ea quanta gente trabalha para aquilo acontecer, um trabalho volunt\u00e1rio\u201d, afirma a diretora, que conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o e acesso excepcional pelo Tribunal Superior Eleitoral para a realiza\u00e7\u00e3o da obra.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-227385\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/af_cartaz-no-ceu-da-patria-nesse-inst-1080x1920px.jpg\" alt='Cartaz de \"No Ce\u0301u da Pa\u0301tria Nesse Instante\". &lt;br&gt;(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)' width=\"1000\" height=\"1778\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/af_cartaz-no-ceu-da-patria-nesse-inst-1080x1920px.jpg 1000w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/af_cartaz-no-ceu-da-patria-nesse-inst-1080x1920px-169x300.jpg 169w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/af_cartaz-no-ceu-da-patria-nesse-inst-1080x1920px-576x1024.jpg 576w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/af_cartaz-no-ceu-da-patria-nesse-inst-1080x1920px-768x1366.jpg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/af_cartaz-no-ceu-da-patria-nesse-inst-1080x1920px-864x1536.jpg 864w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/af_cartaz-no-ceu-da-patria-nesse-inst-1080x1920px-150x267.jpg 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/af_cartaz-no-ceu-da-patria-nesse-inst-1080x1920px-750x1334.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption>Cartaz de \u201cNo Ce\u0301u da Pa\u0301tria Nesse Instante\u201d. <br \/>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>Feito em car\u00e1ter de urg\u00eancia, consegue capturar, por exemplo, imagens exclusivas de dentro da invas\u00e3o dos Tr\u00eas Poderes, por meio de um cinegrafista infiltrado. \u201c(\u2026) acho que n\u00f3s somos os \u00fanicos que fizeram imagens de cinema daquele momento, porque o que as pessoas veem s\u00e3o ou as imagens de longe, a\u00e9reas, que a televis\u00e3o fez, porque ningu\u00e9m conseguiu entrar ali na hora que estava acontecendo, ou as imagens dos celulares dos invasores\u201d, acrescenta Kogut.<\/span><\/p>\n<p><b>Leia a entrevista na \u00edntegra<\/b><\/p>\n<p><b><i>No C\u00e9u da P\u00e1tria Nesse Instante<\/i><\/b><b> come\u00e7a com uma voz off com um \u00e1udio de WhatsApp de uma mulher falando que n\u00e3o vai participar de um filme de uma diretora de esquerda. Como voc\u00ea conseguiu incluir as participa\u00e7\u00f5es de personagens de direita?<\/b><\/p>\n<p><span>Eu acho que para voc\u00ea fazer um filme \u00e9 preciso estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com os seus personagens. E tamb\u00e9m, por princ\u00edpio, eu nunca minto. Eu nunca poderia dizer que eu penso uma coisa que eu n\u00e3o penso. Ent\u00e3o eu acho importante, at\u00e9 para existir a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, ser bem transparente. Para fazer esse filme foi preciso inventar um jeito de fazer, porque n\u00e3o dava para fazer do jeito que a gente costuma fazer. Ent\u00e3o, ao longo de todo o processo, eu fiquei quebrando a cabe\u00e7a, repensando o filme ao longo da feitura do filme. E \u00e9 dessas tentativas que veio a ideia deles fazerem di\u00e1rios, de eu falar com eles toda semana, para criar uma rela\u00e7\u00e3o, uma continuidade, uma conversa cont\u00ednua.<\/span><\/p>\n<p><span>Eu tamb\u00e9m sempre fui muito clara, nunca escondi o que eu pensava e sempre falava para eles assim: \u201cOlha, eu tenho uma curiosidade genu\u00edna de tentar entender como voc\u00ea est\u00e1 pensando, mas eu n\u00e3o estou aqui para te convencer de nada\u201d. \u00c9 claro que como a gente pensava diferente, teve v\u00e1rios embates. Eu tamb\u00e9m escolhi colocar s\u00f3 um embate no filme, porque sen\u00e3o eu acho que teria sido um abuso da minha posi\u00e7\u00e3o de poder como diretora. Quando voc\u00ea \u00e9 diretor, voc\u00ea tem todo o poder no filme, ent\u00e3o seria esquisito fazer um filme brigando com algum personagem nessa posi\u00e7\u00e3o t\u00e3o desigual. N\u00e3o foi f\u00e1cil. Teve gente que come\u00e7ou e desistiu. N\u00e3o foi tranquilo. At\u00e9 por isso eu quis come\u00e7ar o filme desse jeito, para situar onde a gente estava.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-227386\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sandra-kogut-03.jpeg\" alt='Sandra Kogut, diretora de \"No Ce\u0301u da Pa\u0301tria Nesse Instante\". &lt;br&gt;(Foto: Arquivo Pessoal \/ Reprodu\u00e7\u00e3o)' width=\"1170\" height=\"1331\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sandra-kogut-03.jpeg 1170w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sandra-kogut-03-264x300.jpeg 264w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sandra-kogut-03-900x1024.jpeg 900w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sandra-kogut-03-768x874.jpeg 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sandra-kogut-03-150x171.jpeg 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sandra-kogut-03-750x853.jpeg 750w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sandra-kogut-03-1140x1297.jpeg 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1170px) 100vw, 1170px\"><figcaption>Sandra Kogut, diretora de \u201cNo Ce\u0301u da Pa\u0301tria Nesse Instante\u201d. <br \/>(Foto: Arquivo Pessoal \/ Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><b>No final do filme voc\u00ea explicita essa tens\u00e3o. \u00c9 o \u00fanico momento em que a percebemos. O tom do final tamb\u00e9m \u00e9 bastante diferente do restante, n\u00e3o s\u00f3 por essa tens\u00e3o que fica expl\u00edcita, mas por sua apari\u00e7\u00e3o, que acontece de forma mais incisiva. Como se deu essa escolha sobre o final do filme?<\/b><\/p>\n<p><span>A edi\u00e7\u00e3o desse filme foi muito complexa. Ao longo do processo, eu fui percebendo que n\u00e3o poderia ter um filme com embate o tempo todo. Eu acho que quando voc\u00ea faz um filme, voc\u00ea quer explorar uma certa curiosidade, um certo mist\u00e9rio, uma vontade de ver. E eu n\u00e3o queria fazer um filme onde as pessoas j\u00e1 chegassem achando que sabem tudo. Ent\u00e3o eu realmente achei que eu s\u00f3 tinha que falar assim no final, quando n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o, quando temos o 8 de janeiro.<\/span><\/p>\n<p><span>Ao longo de todo o filme a gente pensava \u201cser\u00e1 que vai ter um golpe?\u201d, \u201cser\u00e1 que vai ter elei\u00e7\u00e3o?\u201d. Acho que o pa\u00eds inteiro estava com esse medo tamb\u00e9m. Foi um dos motivos por que eu quis fazer o filme: a certeza de que a gente estava vivendo uma situa\u00e7\u00e3o muito fora do normal, muito grave, que teria muitas consequ\u00eancias. E conseguimos atravessar essa elei\u00e7\u00e3o, teve a posse, que tamb\u00e9m foi um momento de muita tens\u00e3o. E na hora que eu relaxei, meu primeiro domingo tranquilo depois de tanto tempo, teve o 8 de janeiro. O 8 de janeiro materializou esse medo que est\u00e1vamos sentindo aquele tempo todo. Deu imagem, deu som, deu concretude. E isso tamb\u00e9m me fez repensar a estrutura do filme, juntamente dessa quest\u00e3o de me colocar. N\u00e3o tinha mais como n\u00e3o ter o embate.<\/span><\/p>\n<p><b>Percebemos em diversos momentos que s\u00e3o os pr\u00f3prios personagens que filmam a si e seu entorno. Em algumas cenas, notamos que a filmagem foi feita por celular e em outras temos uma qualidade de imagem melhor e mais profissionalismo na grava\u00e7\u00e3o. Como foi feito esse planejamento de filmagem? Como foram captados esses materiais diversos, de pessoas diferentes, em diferentes partes do pa\u00eds?<\/b><\/p>\n<p><span>No come\u00e7o, eu pensei em pedir para os personagens fazerem os di\u00e1rios, porque era uma maneira de penetrar no mundo deles junto com eles. Eu achava importante ter personagens em lugares diferentes do Brasil e era imposs\u00edvel ficar indo para esses lugares. N\u00e3o tinha dinheiro e ao mesmo tempo a gente filmou momentos chave, ent\u00e3o estava tudo acontecendo ao mesmo tempo em um mesmo dia. Ent\u00e3o a ideia do di\u00e1rio era construir uma rela\u00e7\u00e3o e entrar no mundo daquele personagem junto com ele, dentro de uma certa rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a, \u00e9 claro.<\/span><\/p>\n<p><span>Foi muito trabalhoso tentar formar eles. Eles n\u00e3o eram cineastas, ent\u00e3o como iam filmar isso? Foi muito trabalhoso e tinha a sua limita\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o comecei logo a sentir muita necessidade de ter uma equipe, de ter algu\u00e9m que n\u00e3o fosse o personagem filmando. Teve um processo muito legal de formar equipes em cada um desses lugares. Por exemplo, tem a Ruth, que \u00e9 a personagem que est\u00e1 na Ilha de Maraj\u00f3, Anaj\u00e1s, no Par\u00e1, muito distante. Ent\u00e3o eu encontrei um funcion\u00e1rio da prefeitura que fazia uns v\u00eddeos e acabamos formando ele. Eu explicava como queria, fomos construindo uma linguagem e ele fez imagens maravilhosas. Ent\u00e3o fomos tendo essas colabora\u00e7\u00f5es, equipes locais muitas vezes de gente que n\u00e3o era do mundo do document\u00e1rio, mas que foram entrando no filme, foram absorvendo a linguagem e com o passar dos meses aquilo foi ficando cada vez melhor.<\/span><\/p>\n<p><b>Voc\u00ea faz um filme principalmente sobre os eleitores. Lula aparece em um brev\u00edssimo momento e Bolsonaro est\u00e1 completamente ausente. Por que voc\u00ea fez essa escolha?<\/b><\/p>\n<p><span>Desde o come\u00e7o eu queria fazer o filme com um cidad\u00e3o comum. A pessoa que n\u00e3o est\u00e1 nos holofotes, porque eu acho esse lugar da pessoa que est\u00e1 ao lado, atr\u00e1s, no bastidor, um lugar muito interessante, privilegiado. S\u00e3o pessoas que est\u00e3o fazendo aquilo acontecer, trabalham para aquilo existir e ao mesmo tempo ningu\u00e9m est\u00e1 prestando aten\u00e7\u00e3o nelas, nem elas, muitas vezes. O pol\u00edtico, o candidato, est\u00e1 o tempo todo representando um papel consciente da sua imagem. Normalmente, \u00e9 uma figura infilm\u00e1vel para mim. Essas outras pessoas n\u00e3o. Ent\u00e3o o filme \u00e9 feito sempre desse lugar. Por exemplo, no dia da posse, a subida da rampa \u00e9 filmada de lado. E isso tamb\u00e9m fez com que o filme tivesse sempre um ponto de vista muito espec\u00edfico, de tr\u00e1s, do meio da multid\u00e3o, da lateral, porque \u00e9 onde os nossos personagens est\u00e3o e isso traz um olhar singular. A gente est\u00e1 realmente com eles e eles s\u00e3o os trabalhadores da elei\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>Teve um momento em que eu claramente decidi falar das elei\u00e7\u00f5es, porque o sistema eleitoral estava sendo muito atacado. E o sistema eleitoral brasileiro \u00e9 maravilhoso e \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o da democracia. E voc\u00ea v\u00ea quanta gente trabalha para aquilo acontecer, um trabalho volunt\u00e1rio, muito legal. Ent\u00e3o, eu tamb\u00e9m queria mostrar isso. No final, quando tem aquele embate sobre as elei\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o ret\u00f3rica, \u00e9 concreto. Voc\u00ea acabou de ver no filme como funciona. Eu inclusive aprendi muito fazendo o filme. Eu n\u00e3o conhecia os meandros, os detalhes. Fiz um curso do TSE e a gente aprende no filme. Eu achava importante mostrar isso.<\/span><\/p>\n<p><b>Sim, inclusive, o \u00fanico embate do filme n\u00e3o \u00e9 sobre candidatos. \u00c9 um embate sobre o processo eleitoral, sobre a urna. No filme, a urna surge como a segunda protagonista, depois dos eleitores. E voc\u00ea escolhe algumas personagens diretamente imbricadas ali, trabalhando no processo eleitoral, e consegue imagens bastante did\u00e1ticas. Como voc\u00ea conseguiu registrar os bastidores, tendo acesso e autoriza\u00e7\u00e3o para filmar esses espa\u00e7os e todo esse processo?<\/b><\/p>\n<p><span>Em tempos normais, esse filme tamb\u00e9m teria sido imposs\u00edvel de fazer nesse aspecto. Mas acho que como o TSE estava sendo muito atacado, eles me deram esse acesso e eu acho que eles perceberam que era bom tamb\u00e9m que algu\u00e9m fizesse esse filme. Ent\u00e3o me deram um acesso excepcional e alguns personagens, inclusive, por exemplo, essa personagem na Amaz\u00f4nia, eu cheguei atrav\u00e9s deles. Eles foram me abrindo caminhos, at\u00e9 para chegar nas personagens.<\/span><\/p>\n<p><span>E fez parte da excepcionalidade desse momento, porque eles estavam com muito medo tamb\u00e9m. N\u00e3o foi simples, porque estavam sendo muito atacados e tinha muita gente com muito medo. E eu acho que para algumas pessoas existir o filme foi um al\u00edvio, porque se sentiam menos expostos sozinhos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>E como foram feitas as imagens do 8 de janeiro? Da mesma forma que a subida da rampa, esse momento da invas\u00e3o dos Tr\u00eas Poderes adota um ponto de vista que n\u00e3o foi o mais comum na m\u00eddia na \u00e9poca. As imagens que voc\u00ea traz tamb\u00e9m adotam um ponto de vista das pessoas que estavam fazendo aquela invas\u00e3o.<\/b><\/p>\n<p><span>\u00c9 preciso dizer que o filme n\u00e3o tem nenhuma imagem de arquivo. Todas as imagens foram feitas para o filme, o que tamb\u00e9m \u00e9 algo important\u00edssimo, porque sent\u00edamos que precis\u00e1vamos construir um arquivo do presente.<\/span><\/p>\n<p><span>Comentei que tinham equipes espalhadas pelo Brasil pensando no filme junto comigo e com quem eu falava o tempo todo. E teve um cara maravilhoso em Bras\u00edlia, o Luiz. Quando ele entrou no filme, primeiro at\u00e9 nos desentendemos, mas ele foi se envolvendo e ele era maravilhoso. Ele morava em Bras\u00edlia e come\u00e7ou a me mandar coisas que eu nem pedia. Ele falava \u201cvi um neg\u00f3cio hoje que eu acho que voc\u00ea vai gostar\u201d. Ele passou a ser um bra\u00e7o, um olho meu em Bras\u00edlia e foi muito legal o jeito como ele se envolveu com o filme.<\/span><\/p>\n<p><span>Como n\u00f3s trabalhamos muito juntos, ele sabia bem o que eu queria, porque ao longo dessas filmagens, muitas vezes eu ficava acompanhando de longe. A pessoa filmava, me mandava, eu falava \u201cn\u00e3o faz assim, faz assado\u201d, remoto. Isso era t\u00e3o at\u00edpico que eu acho que tamb\u00e9m criou uma conex\u00e3o diferente com o que estava sendo feito. Fazia a pessoa pensar muito na hora que estava fazendo.<\/span><\/p>\n<p><span>Eu estava em casa em 8 de janeiro e me ligou uma personagem, uma das mulheres do PT, e me perguntou se eu estava vendo o que estava acontecendo. Ent\u00e3o vi na televis\u00e3o e falei com o Lu\u00eds, que disse que ia para l\u00e1, \u201cvou me fantasiar de verde, amarelo e vou\u201d. Eu hoje tenho essa consci\u00eancia, acho que n\u00f3s somos os \u00fanicos que fizeram imagens de cinema daquele momento, porque o que as pessoas veem s\u00e3o ou as imagens de longe, a\u00e9reas, que a televis\u00e3o fez, porque ningu\u00e9m conseguiu entrar ali na hora que estava acontecendo, ou as imagens dos celulares dos invasores. Mas a gente fez imagens mesmo de cinema. Muita imagem impressionante tamb\u00e9m que n\u00e3o entrou no filme e eu at\u00e9 fiz uma instala\u00e7\u00e3o com essas imagens. E foi isso, foi gra\u00e7as a toda essa situa\u00e7\u00e3o que a gente tinha j\u00e1 montada. \u00c9 muito interessante.<\/span><\/p>\n<p><span>E teve tamb\u00e9m um cara infiltrado naquele acampamento de Bras\u00edlia, de onde sa\u00edram as pessoas para fazer a invas\u00e3o. Tem imagens do acampamento no filme, mas s\u00e3o poucas. Esse cara foi l\u00e1 algumas vezes, disfar\u00e7ado, mas ele foi pego pelos acampados e teve que engolir um cart\u00e3o de mem\u00f3ria da c\u00e2mera.<\/span><\/p>\n<p><b>Seu filme n\u00e3o \u00e9 muito explicativo, \u00e9 muito mais observacional de uma situa\u00e7\u00e3o bastante brasileira. Ele percorreu diversos pa\u00edses sendo exibido em festivais de cinema em v\u00e1rios continentes. Como tem sido a recep\u00e7\u00e3o dele fora e a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico estrangeiro?<\/b><\/p>\n<p><span>Quando voc\u00ea faz um filme e come\u00e7a a viajar para outras culturas, outros pa\u00edses, se pergunta: \u201cser\u00e1 que as pessoas v\u00e3o entender? V\u00e3o entender do mesmo jeito?\u201d. E foi muito impressionante isso que aconteceu, que vem acontecendo e s\u00f3 cresce. Porque na verdade, esse fen\u00f4meno que a gente viveu e est\u00e1 vivendo no Brasil, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil. Ent\u00e3o, as pessoas, mesmo que n\u00e3o saibam certas particularidades brasileiras, se reconhecem. Porque tamb\u00e9m o filme \u00e9 todo constru\u00eddo em cima dos personagens, n\u00e3o \u00e9 um filme de an\u00e1lise, te\u00f3rico. E as pessoas nos mais diferentes pa\u00edses se conectaram com o filme de uma maneira que eu mesmo fiquei impressionada.<\/span><\/p>\n<p><span>Eu me lembro que fui numa sess\u00e3o na Fran\u00e7a, em um cinema grande, uns 600 lugares, lotado. E depois, no debate, as pessoas fizeram muitas perguntas e dava para ver que elas estavam entendendo profundamente aquele medo, aquela realidade paralela, aquela falta de comunica\u00e7\u00e3o com a pessoa que parece capturada pelas <\/span><i><span>fake news<\/span><\/i><span>. As pessoas est\u00e3o vivendo tudo isso. Ent\u00e3o, \u00e0 medida que o tempo foi passando, que eu fui viajando com o filme, isso s\u00f3 cresceu.<\/span><\/p>\n<p><span>Eu fui para a Coreia com o filme h\u00e1 pouco mais de um m\u00eas e fiquei impressionada. A Coreia viveu uns momentos bem turbulentos e, num debate, teve uma hora que um cara falou \u201cesse \u00e9 um filme coreano\u201d. Ent\u00e3o \u00e9 isso. E sim, ele dialoga com muita gente.<\/span><\/p>\n<p><b><i>(*) Nayla Guerra<\/i><\/b><i><span>, Graduada em Audiovisual pela ECA-USP, \u00e9 produtora cultural na Cinemateca Brasileira e organizadora do coletivo Cine Sapat\u00e3o. \u00c9 autora do livro \u201cEntre apagamentos e resist\u00eancias\u201d (Editora Alameda, 2023) e diretora do filme \u201cFerro\u2019s Bar\u201d (2023).<\/span><\/i><\/p>\n<p>O post Filme traz di\u00e1rio de momentos em que a democracia brasileira esteve sob risco apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/senadores-tentam-votar-mp-do-frete-que-vence-na-quarta\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/caminhao-Marcelo-Camargo-Agencia-Brasil-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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