{"id":43062,"date":"2025-08-07T08:00:00","date_gmt":"2025-08-07T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/belem-investe-dinheiro-em-obras-da-cop-mas-na-quebrada-povo-tem-que-sair\/"},"modified":"2025-08-07T08:00:00","modified_gmt":"2025-08-07T11:00:00","slug":"belem-investe-dinheiro-em-obras-da-cop-mas-na-quebrada-povo-tem-que-sair","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/belem-investe-dinheiro-em-obras-da-cop-mas-na-quebrada-povo-tem-que-sair\/","title":{"rendered":"Bel\u00e9m investe dinheiro em obras da COP, mas na quebrada, povo tem que sair"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto o mundo prepara os holofotes para a COP30 em Bel\u00e9m \u2014 promovida como a \u201cCOP das Florestas\u201d \u2014, um drama silencioso se desenrola nas periferias da cidade. Ros\u00e2ngela da Silva, de 49 anos, viu as duas d\u00e9cadas de hist\u00f3ria da sua casa, no bairro do Guam\u00e1, se desfazerem em pouco tempo. <span>Ap\u00f3s aceitar ser removida, ela teve dois meses para receber a indeniza\u00e7\u00e3o e a fam\u00edlia teve cinco dias para desocupar o im\u00f3vel. Ent\u00e3o, em poucas horas, a casa veio ao ch\u00e3o.<\/span> Ela \u00e9 uma das centenas de chefes de fam\u00edlia que est\u00e3o sendo removidos por obras de infraestrutura conduzidas pela Secretaria de Estado de Obras P\u00fablicas (Seop).<\/p>\n<p>A justificativa do governo \u00e9 que fam\u00edlias que vivem h\u00e1 d\u00e9cadas em \u00e1reas de risco para enchentes e inunda\u00e7\u00f5es\u00a0precisam sair desses locais. Contudo, os moradores denunciam que est\u00e3o sendo despejados \u00e0 for\u00e7a, sem condi\u00e7\u00f5es dignas de realoca\u00e7\u00e3o, e jogadas em novos territ\u00f3rios que tamb\u00e9m t\u00eam vulnerabilidade.<\/p>\n<p>Para quem mora h\u00e1 d\u00e9cadas nas margens de canais como o Caraparu, Tucunduba e Lago Verde, o risco de enchentes e inunda\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 novidade: alagamentos frequentes, ruas que somem na mar\u00e9 alta e a conviv\u00eancia com a lama s\u00e3o parte do cotidiano de quem construiu a vida em casas erguidas com o pr\u00f3prio esfor\u00e7o nas margens dos canais.<\/p>\n<p><span>A proposta do governo \u00e9 reformar esses canais para fazer a grande drenagem da bacia do rio Tucunduba, que corta Bel\u00e9m.<\/span> Mas a macrodrenagem, agora anunciada como parte do pacote de interven\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em o legado da COP30, n\u00e3o \u00e9 uma obra nova. Iniciada h\u00e1 quase 30 anos, ela \u00e9 uma hist\u00f3ria de promessas, paralisa\u00e7\u00f5es e retomadas fragmentadas que, d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada, adiaram a solu\u00e7\u00e3o para as enchentes cr\u00f4nicas na regi\u00e3o. A fase atual prev\u00ea interven\u00e7\u00f5es em 11 canais que cortam seis bairros de Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Em troca do im\u00f3vel onde Rosangela criou seus tr\u00eas filhos, ela recebeu R$ 41 mil, pagos pela Secretaria de Obras do Par\u00e1. \u201cN\u00e3o teve reuni\u00e3o nenhuma do governo, s\u00f3 chegaram, nos notificaram, olharam as nossas casas e deram o pre\u00e7o que eles quiseram. Foi muito pouco, porque n\u00e3o d\u00e1 para comprar outra casa com este valor. Depois que recebi o dinheiro deram cinco dias pra n\u00f3s sair da nossa casa sem a gente ter nem pra onde ir, com pouco dinheiro. N\u00e3o quiseram dar apartamento para ningu\u00e9m. Uma experi\u00eancia muito ruim para n\u00f3s, foi um desrespeito muito grande com a popula\u00e7\u00e3o\u201d, denuncia.<\/p>\n<div>\n<div>\n    <strong>E a COP30 com isso?<\/strong>\n  <\/div>\n<div>\n<ul>\n<li>\nAs obras de drenagem da bacia do rio Tucunduba, em Bel\u00e9m, existem antes da COP 30, mas agora est\u00e3o sendo anunciadas junto a outras a\u00e7\u00f5es pensadas para o evento;\n      <\/li>\n<li>\nAs inunda\u00e7\u00f5es em partes da cidade, que s\u00e3o a principal justificativa para a obra, s\u00e3o agravadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u2013 tema que guia as discuss\u00f5es na COP;\n      <\/li>\n<li>\nContudo, os efeitos das a\u00e7\u00f5es que buscam evitar desastres clim\u00e1ticos, principalmente para popula\u00e7\u00f5es mais pobres, como as remo\u00e7\u00f5es, por exemplo, s\u00e3o questionados por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil que cobram justi\u00e7a diante das negocia\u00e7\u00f5es.\n      <\/li>\n<\/ul><\/div>\n<\/div>\n<h2><strong>Bel\u00e9m: m\u00e1quinas chegam com promessas, mas a realidade \u00e9 outra<\/strong><\/h2>\n<p>H\u00e1 41 anos, Creusa Caetano da Silva chegou ao bairro da Terra Firme com seus cinco filhos para come\u00e7arem uma nova vida. O nome do bairro era uma ironia, devido ao solo ser extremamente alagado por ser uma regi\u00e3o com v\u00e1rios canais e igarap\u00e9s. Ali, ela lutou para construir uma casa que abrigasse sua fam\u00edlia e lhes desse a seguran\u00e7a de ter um teto para chamar de lar. Hoje, com 81 anos, essa seguran\u00e7a se perdeu.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos atr\u00e1s, come\u00e7aram uma reforma na resid\u00eancia para garantir mais conforto para a idosa. Foi neste mesmo per\u00edodo que chegou a primeira notifica\u00e7\u00e3o de que a casa seria removida para a passagem das obras do Tucunduba. <span>Ela teve que deixar a casa que guardava a hist\u00f3ria de sua vida e foi morar com uma de suas filhas, recebendo uma promessa de aux\u00edlio moradia que nunca chegou.<\/span> A indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 27 mil oferecida, e aceita sob press\u00e3o h\u00e1 dois meses, tamb\u00e9m ainda n\u00e3o foi paga, denuncia a idosa.<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e j\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 dois anos fora de casa, saiu porque acreditou que ia mesmo ser retirada de qualquer jeito, como disseram. Na \u00e9poca, ela at\u00e9 parou uma reforma que estava fazendo e foi morar com minha irm\u00e3. As coisas dela ficaram espalhadas nas casas dos filhos. Eu j\u00e1 discuti com a assistente pela forma que somos tratados\u201d, afirma Odineia Caetano, de 47 anos, filha de Creuza.<\/p>\n<p>Caetano tinha apenas seis anos quando a fam\u00edlia se mudou para a nova casa. Ali cresceram, constru\u00edram suas identidades, choraram a perda de dois irm\u00e3os para a viol\u00eancia, criaram la\u00e7os e aumentaram a fam\u00edlia. As paredes de madeira podem n\u00e3o ter muito valor para muitas pessoas, mas para eles s\u00e3o especiais. Hoje, Caetano \u00e9 m\u00e3e de uma crian\u00e7a portadora de necessidades especiais, que faz acompanhamento no Hospital Universit\u00e1rio Barros Barreto, localizado perto de sua casa, e trabalha como diarista de servi\u00e7os gerais. Com muito esfor\u00e7o, ela conseguiu construir uma casa confort\u00e1vel, um sobrado que \u00e9 todo o seu patrim\u00f4nio, mas hoje seu maior temor \u00e9 ver tudo que tanto trabalhou para construir ruir em minutos, sem ao menos um retorno que garanta um teto para sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cUma assistente social l\u00e1 chegou a me dizer que, de um jeito ou de outro, a obra ia continuar, ou a gente aceitava o valor que eles queriam pagar, ou iam pra Justi\u00e7a, que ia mandar tirar as casas mesmo assim. E o pior: pagam s\u00f3 o que acham \u2018justo\u2019, como se a gente n\u00e3o tivesse passado a vida toda ali, aterrando quintal, criando filhos, enfrentando viol\u00eancia e tudo o mais. Vou pra onde com esse valor? [R$ 27 mil] N\u00e3o somos contra o projeto, somos contra o desrespeito, porque nessas horas s\u00f3 quem sofre s\u00e3o os pobres\u201d, desabafa.<\/p>\n<figure>\n<figure><\/figure>\n<figure><\/figure><figcaption><em>Justificativa das obras \u00e9 melhorar \u00e1reas que inundam, mas moradores t\u00eam denunciado que indeniza\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o suficientes para comprar novas casas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A reportagem questionou a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Obras P\u00fablicas (Seop), sobre o pagamento feito aos moradores da Terra Firme, bem como sobre a quantidade total de pessoas que j\u00e1 foram removidas e que ainda ser\u00e3o atingidas pelas obras da Bacia do Tucunduba. Tamb\u00e9m foram solicitadas informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre o cronograma de remo\u00e7\u00f5es, trechos afetados, n\u00famero de im\u00f3veis e perfis das fam\u00edlias impactadas.<\/p>\n<p>Em nota, a Secretaria respondeu apenas que as obras \u201cseguem estudos t\u00e9cnicos para definir os im\u00f3veis que devem ser removidos\u201d e que \u201cs\u00e3o realizados procedimentos formais, com reuni\u00f5es com a comunidade\u201d. Segundo a Seop, os propriet\u00e1rios s\u00e3o compensados conforme a legisla\u00e7\u00e3o, \u201cseja financeiramente ou com unidades habitacionais\u201d. Quem opta por uma nova casa recebe aux\u00edlio-moradia at\u00e9 a entrega da resid\u00eancia\u201d. A nota ainda informa que equipes mant\u00eam visitas di\u00e1rias \u00e0s frentes de obra para dialogar com os moradores.<\/p>\n<p>Entramos em contato com o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado \u2014 que acompanha os casos das fam\u00edlias removidas \u2014 para esclarecer pontos relacionados \u00e0s remo\u00e7\u00f5es, como a poss\u00edvel press\u00e3o para aceita\u00e7\u00e3o de indeniza\u00e7\u00f5es, a falta de transpar\u00eancia nas negocia\u00e7\u00f5es e a sensa\u00e7\u00e3o de abandono relatada por moradores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o. Tamb\u00e9m questionamos se h\u00e1 procedimentos administrativos ou a\u00e7\u00f5es judiciais em andamento, e se receberam den\u00fancias de coa\u00e7\u00e3o a moradores. At\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, n\u00e3o obtivemos retorno.<\/p>\n<h2><strong>Moradores dizem que remo\u00e7\u00f5es s\u00e3o mal conduzidas<\/strong><\/h2>\n<p>Joseane Franco Teles, conhecida como Shaira Mana Josy, tamb\u00e9m perdeu sua casa h\u00e1 quatro anos para o mesmo projeto de drenagem do rio Tucunduba na Terra Firme. Ela conta que, por tr\u00e1s dos an\u00fancios de \u201cmelhorias\u201d, est\u00e3o uma s\u00e9rie de remo\u00e7\u00f5es mal conduzidas. A casa de sua fam\u00edlia de quatro quartos com ponto comercial, que teria sido avaliada de forma independente em ao menos R$\u202f150 mil, foi avaliada em R$\u202f48 mil pelo estado. Ela recorreu, e conseguiu um reajuste para R$\u202f85 mil. Ainda assim, ela reclama que foi insuficiente para recome\u00e7ar em plena pandemia. Sem qualquer aux\u00edlio, precisou se reinventar costurando m\u00e1scaras para garantir comida, enquanto seus pertences se espalhavam entre o aluguel e um galp\u00e3o improvisado.<\/p>\n<p>\u201cPe\u00e7o para que nos tratem com respeito e humanidade. Obra nenhuma deve ser mais importante que nossas vidas, que o sentimento de pertencimento do lugar que constru\u00edmos com suor, l\u00e1grimas e \u00e0s vezes sangue. Na hora de avaliar, sejam justos, se vem melhorias que possamos usufruir delas e n\u00e3o ser expulsos como fazem\u201d, diz Josy.<\/p>\n<p>Para Francisco Batista, 49 anos, lideran\u00e7a comunit\u00e1ria no bairro, tudo isso \u00e9 reflexo tamb\u00e9m do racismo ambiental. Bairros majoritariamente de pessoas negras como Guam\u00e1 e Terra Firme, que durante d\u00e9cadas n\u00e3o receberam pol\u00edticas p\u00fablicas justas, agora s\u00e3o alvo das obras de drenagem e, com elas, as remo\u00e7\u00f5es. Na pr\u00e1tica, explica Batista, as interven\u00e7\u00f5es urbanas n\u00e3o s\u00e3o neutras: atingem com mais for\u00e7a as popula\u00e7\u00f5es negras, perif\u00e9ricas e lideradas por mulheres.<\/p>\n<p>\u201cExiste uma necessidade de apagamento dessas classes sociais. N\u00e3o \u00e9 interessante investir onde tem muito pobre. \u00c9 uma limpeza social. E nesse processo, os mais impactados s\u00e3o justamente aqueles que j\u00e1 enfrentam m\u00faltiplas vulnerabilidades: a popula\u00e7\u00e3o negra, as mulheres porque est\u00e3o \u00e0 frente do lar\u201d, aponta.<\/p>\n<figure><figcaption>Interven\u00e7\u00f5es urbanas podem beneficiar \u00e1reas ricas, mas atingem popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, criticam moradores<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para Milena Andrade, ge\u00f3loga e professora da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) e que faz parte do grupo de trabalho que elaborou o Plano Municipal de Redu\u00e7\u00e3o de Riscos (PMMR) de Bel\u00e9m, muitas dessas \u00e1reas nunca deveriam ter sido ocupadas por estarem \u00e0s margens dos leitos de canais e igarap\u00e9s, e que, em alguns casos, as remo\u00e7\u00f5es se fazem necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Levantamento realizado pelo InfoAmaz\u00f4nia estima que entre <span>200 e 500 fam\u00edlias j\u00e1 tenham sido desalojadas ou estejam em processo de remo\u00e7\u00e3o, em sua maioria recebendo indeniza\u00e7\u00f5es entre R$ 5 mil e R$ 40 mil<\/span> \u2014 valores geralmente insuficientes para garantir uma nova moradia digna em \u00e1rea urbana consolidada. Enquanto isso, comunidades denunciam que ainda resistem ao cadastramento por medo de compensa\u00e7\u00f5es injustas, atrasos nos pagamentos e aus\u00eancia de alternativas reais de reassentamento digno.<\/p>\n<p>As remo\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o exclusivas das obras do Tucunduba, em v\u00e1rios pontos de Bel\u00e9m h\u00e1 obras em que a retirada de resid\u00eancias ser\u00e1 necess\u00e1ria. H\u00e1 remo\u00e7\u00f5es acontecendo nos projetos da Avenida Liberdade e Estrada Nova. A falta de transpar\u00eancia por parte do governo do Estado sobre a quantidade de pessoas afetadas impede dimensionar o n\u00famero exato de fam\u00edlias que ter\u00e3o que recome\u00e7ar suas vidas em outros lugares.<\/p>\n<p>Enquanto isso, para as comunidades perif\u00e9ricas, cada remo\u00e7\u00e3o \u00e9 mais do que uma desapropria\u00e7\u00e3o, \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de um modelo de cidade que trata quem mora na beira de canais como problema a ser varrido.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/no-recife-caixa-cultural-recebe-show-com-diversidade-sonora-da-regiao-guarani-neste-sabado\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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