{"id":44113,"date":"2025-08-12T07:58:23","date_gmt":"2025-08-12T10:58:23","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/as-vitimas-do-araguaia-familias-de-camponeses-mortos-na-ditadura-pedem-reparacao\/"},"modified":"2025-08-12T07:58:23","modified_gmt":"2025-08-12T10:58:23","slug":"as-vitimas-do-araguaia-familias-de-camponeses-mortos-na-ditadura-pedem-reparacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/as-vitimas-do-araguaia-familias-de-camponeses-mortos-na-ditadura-pedem-reparacao\/","title":{"rendered":"As v\u00edtimas do Araguaia: fam\u00edlias de camponeses mortos na ditadura pedem repara\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>ASSIM COMO OS INTEGRANTES<\/strong> da Guerrilha do Araguaia \u2014 movimento de enfrentamento armado \u00e0 ditadura formado na divisa do Par\u00e1 com o Tocantins, entre as d\u00e9cadas de 1960 e 1970 \u2014 camponeses tamb\u00e9m foram alvo da viol\u00eancia do regime militar na Amaz\u00f4nia. Meio s\u00e9culo depois, filhos e netos desses trabalhadores ainda lutam para que o Estado reconhe\u00e7a seus parentes como v\u00edtimas de crimes pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o objetivo de familiares de trabalhadores rurais mortos ou desaparecidos no sudeste do Par\u00e1 entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1990. Com apoio de pesquisadores, eles est\u00e3o reunindo documentos oficiais \u2014 muitos deles antes mantidos em sigilo \u2014 para demonstrar como agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica atuaram em conluio com empres\u00e1rios e grandes propriet\u00e1rios de terra na repress\u00e3o a camponeses.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio ap\u00f3s os familiares avaliarem que a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, instalada em 2012 para apurar os crimes cometidos pelo regime militar, n\u00e3o incluiu trabalhadores rurais entre as v\u00edtimas da ditadura. O relat\u00f3rio final da comiss\u00e3o, publicado em dezembro de 2014, apontou 434 nomes de perseguidos do Estado brasileiro entre 1946 e 1988. Paralelamente, a Comiss\u00e3o Camponesa da Verdade identificou 1.196 casos de trabalhadores rurais e aliados mortos ou desaparecidos entre 1961 e 1988.<\/p>\n<p>\u201cO Estado deu um passo importante, mas os camponeses ficaram fora\u201d, afirma a historiadora Luzia Canuto, de Rio Maria (PA), que perdeu o pai e dois irm\u00e3os assassinados. \u201cA nossa regi\u00e3o \u00e9 muito violenta e virou um local de silenciamento. As pessoas n\u00e3o querem falar. Mas se deve continuar investigando. Os camponeses precisam ser descobertos\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Embora tenha sido montado na regi\u00e3o principalmente contra a Guerrilha do Araguaia, desmantelada em 1974, o aparato repressivo tamb\u00e9m foi usado contra opositores do regime militar e de fazendeiros locais. \u201cOnde eles [militares] acreditavam que pudesse ter foco de resist\u00eancia, continuaram a persegui\u00e7\u00e3o\u201d, afirma a historiadora Luzia Canuto, de Rio Maria (PA), que perdeu o pai e dois irm\u00e3os assassinados.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de camponeses, o regime mirava sindicalistas, religiosos e movimentos sociais. \u201cEles eram monitorados pelo Estado, sabiam que estavam arriscando a vida. E o Estado tinha um lado, o dos fazendeiros\u201d, diz ela, ressaltando que a persegui\u00e7\u00e3o aos lavradores era feita com apoio empresarial. \u201cN\u00f3s vamos comprovar isso com documenta\u00e7\u00e3o\u201d, garante Luzia.<\/p>\n<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MAPA-comissao-camponesa-da-verdade-01.jpg\" alt=\"mapa v\u00edtimas do araguaia\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MAPA-comissao-camponesa-da-verdade-01-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MAPA-comissao-camponesa-da-verdade-01-300x300.jpg 300w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MAPA-comissao-camponesa-da-verdade-01-150x150.jpg 150w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MAPA-comissao-camponesa-da-verdade-01-768x768.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MAPA-comissao-camponesa-da-verdade-01.jpg 1350w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>(Mapa: Rodrigo Bento)<\/figcaption><\/figure>\n<div data-elementor-type=\"section\" data-elementor-id=\"77670\" data-elementor-post-type=\"elementor_library\">\n<div data-id=\"17a659f\" data-element_type=\"container\" data-settings='{\"background_background\":\"classic\"}'>\n<div>\n<div data-id=\"386385d\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n<div>\n<h2>ASSINE NOSSA NEWSLETTER<\/h2>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"6546917\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"html.default\">\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"8c2e333\" data-element_type=\"widget\" data-settings='{\"button_width\":\"20\",\"step_next_label\":\"Next\",\"step_previous_label\":\"Previous\",\"button_width_mobile\":\"20\",\"step_type\":\"number_text\",\"step_icon_shape\":\"circle\"}' data-widget_type=\"form.default\">\n<div>\n<div>\n<div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<label for=\"form-field-email\"><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\tEmail\t\t\t\t\t\t\t<\/label><\/p><\/div>\n<div>\n\t\t\t\t\t<button type=\"submit\"><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<i aria-hidden=\"true\"><\/i>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span>Submit<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/span><br \/>\n\t\t\t\t\t<\/button>\n\t\t\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<h2>Persegui\u00e7\u00e3o a l\u00edderes sindicais durante a ap\u00f3s a ditadura<\/h2>\n<p>Dos 1.196 casos mapeados pela Comiss\u00e3o Camponesa da Verdade, o estado do Par\u00e1 lidera com 556 assassinatos (46% do total). Um dos casos emblem\u00e1ticos \u00e9 o do sindicalista Raimundo Ferreira Lima, conhecido como Gringo, morto em 1980 em uma emboscada. Na \u00e9poca, ele figurava em uma lista de lideran\u00e7as amea\u00e7adas por fazendeiros.\u00a0<\/p>\n<p>O crime nunca foi investigado e os respons\u00e1veis continuam impunes. A suspeita \u00e9 que latifundi\u00e1rios tenham contratado pistoleiros para mat\u00e1-lo. Gringo foi assassinado um m\u00eas antes das elei\u00e7\u00f5es para o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Concei\u00e7\u00e3o do Araguaia, que era ent\u00e3o administrado por um \u201cpelego\u201d \u2014 interventor ligado ao governo e aos latinfundi\u00e1rios. Gringo era o l\u00edder da chapa de oposi\u00e7\u00e3o e autor de den\u00fancias contra a gest\u00e3o do sindicato.\u00a0<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o crime, o pesadelo n\u00e3o teve fim para a esposa, que restou com seis filhos pequenos. Ela pr\u00f3pria foi perseguida. \u201cMinha m\u00e3e sempre se despedia da gente como se fosse a \u00faltima vez, porque ela n\u00e3o sabia se ia voltar\u201d, conta a filha N\u00e9dyma Lima, que tinha tr\u00eas anos quando o pai morreu.<\/p>\n<p>Uma noite, N\u00e9dyma conta que a Pol\u00edcia Federal invadiu a casa paroquial onde viviam, sequestrou fotos da fam\u00edlia e espalhou panfletos difamat\u00f3rios com a imagem da m\u00e3e dela. Durante a a\u00e7\u00e3o, os filhos foram amea\u00e7ados e humilhados. \u201cQuando chegamos no port\u00e3o, eles colocaram a arma em n\u00f3s. Meu irm\u00e3o mais velho chorava muito. Eles perguntavam onde escond\u00edamos as armas\u201d, lembra Silvio Lima, que tinha apenas dez anos na \u00e9poca.<\/p>\n<p>No \u00faltimo 29 de maio, data que marcou os 40 anos do assassinato de Gringo, parentes de camponeses mortos ou desaparecidos se reuniram em Reden\u00e7\u00e3o (PA) para compartilhar suas mem\u00f3rias e avan\u00e7ar nas conversas para reivindicar o reconhecimento do Estado.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"671\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/encontro-familiares-oab-redencao.jpg\" alt=\"Reden\u00e7\u00e3o, Par\u00e1, Brasil 29-05-2025 Reuni\u00e3o de familiares de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar na sede da OAB em Reden\u00e7\u00e3o. Fotos: Fernando Martinho\/Rep\u00f3rter Brasil\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/encontro-familiares-oab-redencao-1024x671.jpg 1024w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/encontro-familiares-oab-redencao-300x197.jpg 300w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/encontro-familiares-oab-redencao-768x503.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/encontro-familiares-oab-redencao.jpg 1111w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Reuni\u00e3o de familiares de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar na sede da OAB em Reden\u00e7\u00e3o, Par\u00e1 (Foto: Fernando Martinho\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Entre os achados que apontam para a participa\u00e7\u00e3o do Estado nas agress\u00f5es est\u00e3o as a\u00e7\u00f5es do GTAT (Grupo de Terras do Araguaia Tocantins). Durante a ditadura, o \u00f3rg\u00e3o federal em tese cuidava da regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria na regi\u00e3o. Mas, na pr\u00e1tica, dizem os pesquisadores, atuava na defesa dos grandes propriet\u00e1rios de terras. Houve tamb\u00e9m aparelhamento de sindicatos de trabalhadores rurais, que passaram a ser presididos por interventores ligados \u00e0s for\u00e7as policiais e aos fazendeiros.<\/p>\n<p>\u201cA gente mora numa regi\u00e3o ocupada basicamente no per\u00edodo militar com uma ocupa\u00e7\u00e3o incentivada [pela ditadura]. Mas havia um tratamento diferenciado. O fazendeiro ganhava a terra, financiamento e todas as chances de se estabelecer. O trabalhador, n\u00e3o. Ent\u00e3o essas \u00e1reas se tornaram posteriormente focos de disputa. E o Estado se comportava em grande parte na defesa do latifundi\u00e1rio\u201d, afirma Luzia Canuto.<\/p>\n<p>O assassinato do pai dela, Jo\u00e3o Canuto, tamb\u00e9m se relaciona \u00e0 repress\u00e3o sindical. Em 1985, latifundi\u00e1rios locais contrataram pistoleiros para assassin\u00e1-lo. Jo\u00e3o era uma das principais lideran\u00e7as em defesa da reforma agr\u00e1ria na regi\u00e3o e l\u00edder do primeiro sindicato local dos trabalhadores, em Rio Maria.\u00a0<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias antes de ser assassinado, Canuto havia registrado as amea\u00e7as de morte \u00e0s autoridades, mas nenhuma provid\u00eancia foi tomada. A ina\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 um sinal da cumplicidade, na avalia\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. \u201cQuando tinha a morte de um trabalhador, principalmente nas d\u00e9cadas de 80 e 90, a pr\u00f3pria pol\u00edcia achava um mecanismo de culpar a v\u00edtima. Tivemos muita dificuldade de fazer o processo andar na Justi\u00e7a. No caso do meu pai, sumiram pe\u00e7as, partes, p\u00e1ginas do processo.\u201d<\/p>\n<p>Em 1990, seis anos ap\u00f3s o assassinato de Jo\u00e3o, tr\u00eas filhos dele (irm\u00e3os de Luzia) foram sequestrados por um ex-policial militar que prestava servi\u00e7os para fazendeiros. Apenas um escapou com vida. Em 1991, Expedito Ribeiro de Souza, um dos sucessores de Jo\u00e3o Canuto no sindicato, foi assassinado a mando de um fazendeiro.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"882\" height=\"554\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/combioi-exercito-araguaia-reproducao.jpg\" alt=\"Comboio militar chegando \u00e0 regi\u00e3o da guerrilha do Araguaia, em 1972 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Comiss\u00e3o Camponesa da Verdade\/Acervo da SDH\/PR)\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/combioi-exercito-araguaia-reproducao.jpg 882w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/combioi-exercito-araguaia-reproducao-300x188.jpg 300w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/combioi-exercito-araguaia-reproducao-768x482.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 882px) 100vw, 882px\"><figcaption>Comboio militar chegando \u00e0 regi\u00e3o da guerrilha do Araguaia, em 1972 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Comiss\u00e3o Camponesa da Verdade\/Acervo da SDH\/PR)<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Major Curi\u00f3 tamb\u00e9m perseguiu camponeses<\/h2>\n<p>Entre os nomes de autoridades citados pelas v\u00edtimas est\u00e1 o do coronel da reserva Sebasti\u00e3o Rodrigues de Moura, conhecido como Major Curi\u00f3, falecido em agosto de 2022. Militar de carreira, ele comandou a\u00e7\u00f5es contra a Guerrilha do Araguaia e continuou operando na regi\u00e3o ap\u00f3s o fim do movimento.<\/p>\n<p>A guerrilha se instalou entre os munic\u00edpios de Marab\u00e1 e Santana do Araguaia, especialmente em S\u00e3o Geraldo do Araguaia \u2014 na \u00e9poca, um distrito de Concei\u00e7\u00e3o do Araguaia.<\/p>\n<p>Curi\u00f3 temia pelo retorno dos guerrilheiros, e por isso atuava de forma amb\u00edgua: reprimia lideran\u00e7as sindicais e ao mesmo tempo buscava apoio popular. \u201cEle parecia um paiz\u00e3o, tinha uma voz suave. Na guerrilha, quando capturava algu\u00e9m, como o campon\u00eas, o prisioneiro, ele fazia o papel daquele que interrompia a tortura e propunha alguma coisa para quem estava sofrendo\u201d, diz o padre Ricardo Rezende Figueira, \u00e0 \u00e9poca coordenador da CPT na regi\u00e3o do Araguaia e Tocantins.<\/p>\n<p>\u201cO distrito de S\u00e3o Geraldo tinha mais infraestrutura na \u00e9poca do que a sede do munic\u00edpio, porque Curi\u00f3 precisava ganhar aquele povo, pois era onde estava a guerrilha. Ele investiu muito\u201d, lembra o padre sobre as benfeitorias, como estradas, escolas e acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cNaquele per\u00edodo, o Ex\u00e9rcito era a \u00fanica refer\u00eancia legal; eram eles que mandavam e desmandavam. Quando tinha um conflito, \u00e0s vezes, o trabalhador ia buscar o Curi\u00f3\u201d, observa o padre Rezende, que \u00e9 tamb\u00e9m coordenador do GPTEC (Grupo de Pesquisa do Trabalho Escravo Contempor\u00e2neo), da UFRJ.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o tamb\u00e9m alcan\u00e7ou religiosos que atuavam com os camponeses. O padre Rezende foi um dos perseguidos. Ele relata que o Ex\u00e9rcito invadiu casas paroquiais, prendeu padres e seminaristas e espancou mission\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n<p>Um dos epis\u00f3dios marcantes foi o sequestro do padre italiano Nicola Arpone, em 1979, por um helic\u00f3ptero do Ex\u00e9rcito em frente \u00e0 casa paroquial em Wanderl\u00e2ndia (TO). Segundo Rezende, o alvo da opera\u00e7\u00e3o seria o padre Josimo Morais Tavares, morto por um pistoleiro com dois tiros nas costas em 1986, a mando de latifundi\u00e1rios locais. Rezende tamb\u00e9m foi amea\u00e7ado de morte e precisou deixar a regi\u00e3o.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ricardo-rezende-memorial-curva-s-eldorado.jpg\" alt=\"Eldorado do Caraj\u00e1s, Par\u00e1, Brasil 31-05-2025 Retrato do padre Ricardo Rezende na Casa da Mem\u00f3ria na curva do S na BR-155. O monumento em homenagem aos mortos no massacre de Caraj\u00e1s. O padre esteve presente na primeira audi\u00eancia com testemunhas no qual a Volkswagen est\u00e1 sendo acusada de escravisar trabalhadores rurais durante a ditadura militar. A a\u00e7\u00e3o foi movida pelo MPT do Par\u00e1 e aconteceu em Reden\u00e7\u00e3o. Fotos: Fernando Martinho\/Rep\u00f3rter Brasil\" srcset=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ricardo-rezende-memorial-curva-s-eldorado-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ricardo-rezende-memorial-curva-s-eldorado-300x200.jpg 300w, https:\/\/reporterbrasil.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ricardo-rezende-memorial-curva-s-eldorado-768x512.jpg 768w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ricardo-rezende-memorial-curva-s-eldorado.jpg 1111w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Padre Ricardo Rezende no memorial \u00e0s v\u00edtimas do massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, quando policiais militares do Par\u00e1 ataram 19 trabalhadors rurais sem terra (Foto:Fernando Martinho\/Rep\u00f3rter Brasil)<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Legado de viol\u00eancia fundi\u00e1ria<\/h2>\n<p>O envolvimento da ditadura com a repress\u00e3o no campo se articulava com o interesse em desenvolver economicamente a regi\u00e3o amaz\u00f4nica. No in\u00edcio dos anos 1970, o governo federal lan\u00e7ou o Plano de Integra\u00e7\u00e3o Nacional, que deu origem \u00e0 rodovia Transamaz\u00f4nica e fortaleceu a atua\u00e7\u00e3o da Sudam (Superintend\u00eancia de Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia). Por meio de incentivos fiscais, empresas podiam investir na Amaz\u00f4nia abatendo 50% do imposto de renda, com aportes convertidos em capital para projetos agropecu\u00e1rios e industriais.<\/p>\n<p>Com apoio da Sudam, a Volkswagen criou a Companhia Vale do Rio Cristalino, uma fazenda de explora\u00e7\u00e3o madeireira e cria\u00e7\u00e3o de gado que chegou a ocupar uma \u00e1rea equivalente \u00e0 cidade de S\u00e3o Paulo. O empreendimento inclu\u00eda uma planta frigor\u00edfica para abastecer outras fazendas da regi\u00e3o. A montadora \u00e9 r\u00e9 em um processo movido pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, que a acusa de explorar m\u00e3o de obra an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o entre os anos 1974 e 1986. Estima-se que a empresa tenha recebido o equivalente a R$ 500 milh\u00f5es em recursos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Luzia destaca que era interesse do Estado defender os fazendeiros atra\u00eddos pelo governo \u00e0 regi\u00e3o. Segundo ela, os documentos oficiais mostram que os trabalhadores continuaram sendo vigiados mesmo ap\u00f3s o fim da ditadura militar. \u201cO governo daquela \u00e9poca tinha mapeado todos os sindicatos e sindicalistas. Eles colaboravam para que os fazendeiros matassem e continuassem impunes\u201d, ela diz.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cNo Arquivo Nacional, por exemplo, aparecem documentos que tratam da constitui\u00e7\u00e3o da UDR na nossa regi\u00e3o. O estado sabia que eles estavam mapeando para matar. E nada foi feito\u201d, defende.<\/p>\n<p>A UDR (Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista) foi criada em 1985 em Goi\u00e1s, estado que na \u00e9poca abarcava tamb\u00e9m o territ\u00f3rio de Tocantins, na fronteira com o Par\u00e1. O movimento ruralista surgiu para se contrapor ao avan\u00e7o do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e da reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para a historiadora, a alian\u00e7a entre Estado e empres\u00e1rios ajuda a explicar o hist\u00f3rico de viol\u00eancia no sudeste do Par\u00e1. Alguns dos mais marcantes conflitos por terra do pa\u00eds aconteceram justamente nessa regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Em 1996, policiais militares assassinaram 19 trabalhadores rurais sem terra durante uma manifesta\u00e7\u00e3o pela reforma agr\u00e1ria, no caso conhecido como \u201cMassacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s\u201d. Cerca de 1.500 fam\u00edlias pediam a desapropria\u00e7\u00e3o da fazenda Macaxeira, ent\u00e3o ocupada pelo MST.<\/p>\n<p>A 350 km dali, em Pau D\u2019Arco, dez trabalhadores sem terra foram mortos em 2017 na fazenda Santa L\u00facia, ap\u00f3s a\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias civil e militar do Par\u00e1. Os agentes continuam na ativa, enquanto os mandantes do crime n\u00e3o foram identificados.<\/p>\n<p>\u201cConviver com a impunidade n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. A gente se re\u00fane, chora, abra\u00e7a e luta. Essas fam\u00edlias, na verdade, ficaram todas destru\u00eddas e sobrevivem como podem. Queremos Justi\u00e7a\u201d, afirma Luzia Canuto.<\/p>\n<div data-elementor-type=\"container\" data-elementor-id=\"75228\" data-elementor-post-type=\"elementor_library\">\n<div data-id=\"5e8db1e6\" data-element_type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"36eb6c91\" data-element_type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"6f52f515\" data-element_type=\"container\">\n<div data-id=\"65d9f401\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"divider.default\">\n<div>\n<div>\n\t\t\t<span><br \/>\n\t\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"134a1245\" data-element_type=\"container\">\n<div>\n<div data-id=\"10fe55fe\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n<div>\n<p>Leia tamb\u00e9m<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div data-id=\"3c9495ae\" data-element_type=\"widget\" data-settings='{\"template_id\":\"75221\",\"columns\":1,\"row_gap\":{\"unit\":\"px\",\"size\":10,\"sizes\":[]},\"_skin\":\"post\",\"columns_tablet\":\"2\",\"columns_mobile\":\"1\",\"edit_handle_selector\":\"[data-elementor-type=\"loop-item\"]\",\"row_gap_tablet\":{\"unit\":\"px\",\"size\":\"\",\"sizes\":[]},\"row_gap_mobile\":{\"unit\":\"px\",\"size\":\"\",\"sizes\":[]}}' data-widget_type=\"loop-grid.post\">\n<div>\n<div>\n\t\t<\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p>\n<p>The post As v\u00edtimas do Araguaia: fam\u00edlias de camponeses mortos na ditadura pedem repara\u00e7\u00e3o appeared first on Rep\u00f3rter Brasil.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/educacao\/2025\/10\/assembleia-aprova-programa-de-incentivos-ao-magisterio-do-rs-cpers-critica-bonus-por-merito\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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