{"id":45328,"date":"2025-08-17T13:08:52","date_gmt":"2025-08-17T16:08:52","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-revolucao-de-ibrahim-traore-o-que-esta-acontecendo-em-burkina-faso\/"},"modified":"2025-08-17T13:08:52","modified_gmt":"2025-08-17T16:08:52","slug":"a-revolucao-de-ibrahim-traore-o-que-esta-acontecendo-em-burkina-faso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-revolucao-de-ibrahim-traore-o-que-esta-acontecendo-em-burkina-faso\/","title":{"rendered":"A revolu\u00e7\u00e3o de Ibrahim Traor\u00e9: o que est\u00e1 acontecendo em Burkina Faso?"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, levantes militares com apoio popular em tr\u00eas pa\u00edses da regi\u00e3o africana do Sahel , Burkina Faso, N\u00edger e Mali, iniciaram um processo de ruptura com o Ocidente e principalmente com a antiga colonizadora da regi\u00e3o, a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o radical nesta regi\u00e3o tem na figura do presidente de Burkina Faso,\u00a0 Ibrahim Traor\u00e9, um jovem capit\u00e3o <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/internacional\/noticia\/2025-05\/lider-anti-imperialista-em-burkina-faso-traore-se-destaca-na-africa\">de apenas 37 anos, o principal s\u00edmbolo desse processo<\/a> revolucion\u00e1rio.  Ao reacender a confian\u00e7a no pan-africanismo, o l\u00edder militar inspira jovens em toda a \u00c1frica a lutarem contra o neocolonialismo ocidental.\u00a0<\/p>\n<p>O <em>BdF Explica<\/em> desta semana aborda como realmente acontece a revolu\u00e7\u00e3o anticolonial burkinab\u00e9. O conte\u00fado \u00e9 parte de uma <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/correspondente\/sahel\/\">cobertura exclusiva <\/a>do <strong>Brasil de Fato<\/strong>, diretamente do N\u00edger e de Burkina Faso, sobre as din\u00e2micas sociais e disputas geopol\u00edticas em curso nos tr\u00eas pa\u00edses que formam a Alian\u00e7a dos Estados do Sahel (AES).<\/p>\n<figure>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<h4>O jovem capit\u00e3o<\/h4>\n<p>Ibrahim Traor\u00e9, presidente de Burkina Faso, \u00e9 sem duvida um dos rostos mais populares do continente africano atualmente. O militar estudou geologia na Universidade de Uagadugu e entrou no ex\u00e9rcito para lutar contra os grupos jihadistas no norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Sawadogo Pasmamde, ou Oce\u00e1n, multiartista e membro do Centro pela Liberdade e Uni\u00e3o Africana Thomas Sankara, conta que ao viver o conflito na pr\u00e1tica, o jovem capit\u00e3o foi uma das primeiras vozes a contestar\u00a0 a atua\u00e7\u00e3o militar francesa na \u00c1frica do Oeste, e a colocar<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/11\/29\/nao-existe-terrorismo-existe-a-franca-afirma-presidente-da-organizacao-dos-povos-da-africa-do-oeste\/\"> o terrorismo no Sahel como uma cria\u00e7\u00e3o do imperialismo ocidental.<\/a><\/p>\n<p>\u201cEle sempre quis ser militar, mas seus pais se opuseram e ele estudou geologia at\u00e9 o n\u00edvel de mestrado. Mas esses estudos geol\u00f3gicos o levaram regularmente ao interior do pa\u00eds. Isso fez com que ele conhecesse todos os cantos do pa\u00eds, as realidades sociais, e refor\u00e7ou sua convic\u00e7\u00e3o de que era necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a. E para mudar as coisas, para contrabalan\u00e7ar as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos terroristas, era necess\u00e1rio mudar politicamente o pa\u00eds\u201d, ressalta Oce\u00e1n.<\/p>\n<p>Traor\u00e9 <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/08\/07\/ibrahim-traore-e-a-continuidade-da-revolucao-em-burkina-faso-diz-irmao-de-lider-pan-africanista-thomas-sankara\/\">inspira-se no hist\u00f3rico l\u00edder revolucion\u00e1rio Thomas Sankara,  ex-presidente de Burkina Faso (1983-1987)<\/a> que implementou uma <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/08\/07\/ibrahim-traore-e-a-continuidade-da-revolucao-em-burkina-faso-diz-irmao-de-lider-pan-africanista-thomas-sankara\/\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/10\/15\/educacao-reforma-agraria-saude-e-direito-das-mulheres-o-legado-de-thomas-sankara\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">s\u00e9rie de reformas para erradicar as mazelas do colonialismo franc\u00eas.\u00a0<\/a> Ele mesmo admite que a Revolu\u00e7\u00e3o Progressista Popular (RPP) inaugurada em abril deste ano \u00e9 inspirada das mudan\u00e7as radicais promovidas pelo \u201c\u201dChe Guevara africano\u201d. Em apenas 4 anos, Sankara distribuiu terras aos camponeses e elevou a taxa de alfabetiza\u00e7\u00e3o de 13% em 1983 para 73% em 1987.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cSankara, talvez por n\u00e3o ser ge\u00f3logo, n\u00e3o tinha esse mapa geol\u00f3gico que permite a Ibrahim Traor\u00e9 falar com convic\u00e7\u00e3o. Mas Sankara sabia que a principal riqueza do Burkina Faso era o pr\u00f3prio povo burkinab\u00e9. Ele convenceu o povo a trabalhar e at\u00e9 mesmo a defender seu pa\u00eds. Foi ele quem deu treinamento militar a todos. Mesmo que voc\u00ea fosse campon\u00eas\u201d, ressalta Oce\u00e1n,  um dos principais nomes do reggae anticolonial em Burkina Faso. <\/p>\n<p>\u201cSankara apostou no valor humano. Ibrahim Traor\u00e9 aposta no valor humano, mas tamb\u00e9m nos mostra que podemos ficar tranquilos, podemos ter certeza de que estamos em um pa\u00eds rico e que essa riqueza est\u00e1 em todo o Sahel\u201d, completa.<\/p>\n<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"909\" height=\"603\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Captura-de-tela-2025-08-14-194415-909x570-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/08\/Captura-de-tela-2025-08-14-194415-300x199.png 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/08\/Captura-de-tela-2025-08-14-194415-768x509.png 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/08\/Captura-de-tela-2025-08-14-194415-750x536.png 750w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Captura-de-tela-2025-08-14-194415-909x570-1.png 909w\" sizes=\"(max-width: 909px) 100vw, 909px\"><figcaption>Popula\u00e7\u00e3o de Burkina Faso v\u00ea em Traor\u00e9 o retorno de Thomas Sankara. Cr\u00e9ditos: Pedro Stropasolas\/Brasil de Fato<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ciente das riquezas do pa\u00eds, a junta militar liderada por Traor\u00e9 nacionalizou duas minas de ouro que antes pertenciam a uma empresa listada em Londres e est\u00e1 construindo uma refinaria pr\u00f3pria. <\/p>\n<p>Com o ouro nacionalizado, o governo de Burkina Faso j\u00e1 distribuiu 179 milh\u00f5es de d\u00f3lares em m\u00e1quinas agr\u00edcolas para sustentar a revolu\u00e7\u00e3o da agricultura no pa\u00eds, cuja 80% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 no meio rural. \u201cPela primeira vez, estamos distribuindo tratores em todo o pa\u00eds\u201d, ressalta Oce\u00e1n.<\/p>\n<p>Outra das medidas de Traor\u00e9 foi a cria\u00e7\u00e3o de uma empresa estatal de minera\u00e7\u00e3o, que passou a exigir de empresas estrangeiras uma participa\u00e7\u00e3o de 15% em suas opera\u00e7\u00f5es. Mesmo mineradoras russas, como a Nordgold, t\u00eam de cumprir essas regras.<\/p>\n<p>Essa posi\u00e7\u00e3o para o artista burkinab\u00e9 demonstra que a alian\u00e7a estrat\u00e9gica com a R\u00fassia e outros pa\u00edses do Sul Global, como a China e a Turquia, n\u00e3o significam submiss\u00e3o a um novo tipo de domina\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o em que os dois lados ganham\u201d, ressume.<\/p>\n<p>\u201cEstamos em um mundo multipolar e o Ocidente imperialista est\u00e1 em decl\u00ednio. Ningu\u00e9m pode impedir isso.  Muitos pa\u00edses nos apoiam, com os quais colaboramos, que nos vendem armas, m\u00e1quinas agr\u00edcolas e m\u00e1quinas para desenvolver nossas infraestruturas. S\u00e3o pa\u00edses do Brics, \u00e9 a R\u00fassia, a China. Recebemos nossos primeiros drones pela primeira vez com a Turquia. Mas com a Fran\u00e7a, n\u00e3o pod\u00edamos ter nada\u201d, completa.<\/p>\n<p>D<a href=\"https:\/\/www.worldbank.org\/en\/country\/burkinafaso\">ados do Banco Mundial<\/a> divulgados em meados de julho revelaram um crescimento econ\u00f4mico em Burkina Faso que passou de 3% em 2023 para 4,9% em 2024.\u00a0 De acordo com o an\u00fancio, mais de 700 mil pessoas em todo o pa\u00eds deixaram a extrema pobreza somente nos \u00faltimos 12 meses.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/bdf-20250514-180634-ab6d51.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/bdf-20250514-180634-ab6d51-300x169.jpeg 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/bdf-20250514-180634-ab6d51-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/bdf-20250514-180634-ab6d51-768x432.jpeg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/bdf-20250514-180634-ab6d51-1536x864.jpeg 1536w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/bdf-20250514-180634-ab6d51-750x536.jpeg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/05\/bdf-20250514-180634-ab6d51-1140x815.jpeg 1140w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/bdf-20250514-180634-ab6d51.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Presidente de Burkina Faso  representa o sankarismo revolucion\u00e1rio. Cr\u00e9dito: Governo de Burkina Faso | Photo: Ibrahim Traor\u00e9\/X<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Suporte popular<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/12\/21\/nao-ha-outro-caminho-senao-o-tracado-por-thomas-sankara-diz-o-multiartista-burquinense-ocean\/\">Assim como na d\u00e9cada de 1980<\/a>, o novo l\u00edder burkinab\u00e9 coloca em pr\u00e1tica um audacioso plano de industrializa\u00e7\u00e3o e autossufici\u00eancia alimentar . E, para isso, conta com suporte popular massivo, principalmente dos jovens at\u00e9 30 anos, que representam quase 70% da popula\u00e7\u00e3o burkinab\u00e9.\u00a0<\/p>\n<p>Ao circular pelo pa\u00eds hoje, \u00e9 comum ver mutir\u00f5es populares para a pavimenta\u00e7\u00e3o de ruas e estradas. Ocorrem tamb\u00e9m vig\u00edlias cidad\u00e3s noturnas em mais de 20 pontos da capital Uagadudu, com o objetivo de proteger Traor\u00e9 e o pa\u00eds de poss\u00edveis atentados.<\/p>\n<p>\u201cOs diferentes programas revolucion\u00e1rios, a ofensiva agr\u00edcola, somos n\u00f3s mesmos que trabalhamos nossas terras, organizamos e mecanizamos a agricultura e produzimos em quantidade suficiente para que o povo tenha comida em quantidade e qualidade. Somos n\u00f3s mesmos que fazemos nossas estradas. Fazemos pavimenta\u00e7\u00f5es, consertamos nossas estradas, fazemos tudo\u201d, destaca o analista pol\u00edtico Bayala Lianhou\u00e9 Imhotep.<\/p>\n<p>O povo do pa\u00eds ainda colabora com um fundo coletivo para sustentar o processo revolucion\u00e1rio. De janeiro a julho, foram arrecadados 106 bilh\u00f5es de Francos CFA, o equivalente a R$ 980 milh\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cIbrahim Traor\u00e9 \u00e9 uma possibilidade de implementar o sankarismo pr\u00e1tico. E hoje o povo est\u00e1 pronto para apoi\u00e1-lo. Estamos orgulhosos, contribu\u00edmos com nosso dinheiro. O povo compreendeu que n\u00e3o precisamos mais do Banco Mundial, n\u00e3o precisamos do FMI, n\u00f3s vamos financiar nossa guerra, vamos desenvolver nosso pa\u00eds. N\u00f3s mesmos, e isso \u00e9 sankarismo puro e pr\u00e1tico\u201d, complementa Oce\u00e1n.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/bdf-20250623-111322-2e84b9.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/06\/bdf-20250623-111322-2e84b9-300x225.jpg 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/06\/bdf-20250623-111322-2e84b9-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/06\/bdf-20250623-111322-2e84b9-768x576.jpg 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/06\/bdf-20250623-111322-2e84b9-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/06\/bdf-20250623-111322-2e84b9-750x536.jpg 750w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2025\/06\/bdf-20250623-111322-2e84b9-1140x815.jpg 1140w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/bdf-20250623-111322-2e84b9.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Em luta contra desertifica\u00e7\u00e3o, Burkina Faso plantou 5 milh\u00f5es de \u00e1rvores em uma hora durante jornada nacional pelo Dia da \u00c1rvore<br \/> Cr\u00e9ditos: Parlement National de la Jeunesse Burkinab\u00e8 pour l\u2019Eau<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Levantes progressistas<\/strong><\/p>\n<p>O crescente sentimento anti-Fran\u00e7a observado hoje nos pa\u00edses do Sahel, aumentou depois que a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) invadiu a L\u00edbia em 2011 e derrubou o l\u00edder l\u00edbio Muamar Gaddafi.<\/p>\n<p>Foi a partir do fim do conflito que o conjunto de grupos de contrabandistas e ramifica\u00e7\u00f5es da Al-Qaeda marcharam ao sul do Saara e passaram a ocupar grandes partes do Sahel. Apenas um ano ap\u00f3s a derrubada de Gaddafi, em 2012, come\u00e7aram as insurg\u00eancias jihadistas no norte do Mali.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cTodos os l\u00edderes que se op\u00f5em \u00e0 ordem neoliberal s\u00e3o mortos por esses instrumentos. E Gaddafi perturbava a geopol\u00edtica ocidental que tinha controle sobre os pa\u00edses africanos\u201d, destaca Imhotep.<\/p>\n<p>\u201cEra pela democracia, era pela boa governan\u00e7a, era pelos direitos humanos. Sempre h\u00e1 esses discursos que eles apresentam. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a verdadeira inten\u00e7\u00e3o. A verdadeira inten\u00e7\u00e3o era saquear o petr\u00f3leo l\u00edbio. Era exportar o terrorismo para os pa\u00edses do Sahel. Quando atacaram a L\u00edbia, todas as armas que o ex\u00e9rcito de Gaddafi tinha, eles levaram para o Mali. Ent\u00e3o percebemos que o terrorismo aqui \u00e9 uma estrat\u00e9gia de recoloniza\u00e7\u00e3o militar dos pa\u00edses do Sahel\u201d, completa o burkinab\u00e9.<\/p>\n<p>A medida que a viol\u00eancia se espalhava para pa\u00edses vizinhos como Burkina Faso e N\u00edger, a Fran\u00e7a expandiu sua presen\u00e7a militar na regi\u00e3o, enviando em 2014 milhares de soldados para as Opera\u00e7\u00e3o <em>Barkhane <\/em>e <em>Serval<\/em>, com a justificativa de combater o terrorismo. Mas os ataques n\u00e3o diminu\u00edram.\u00a0<\/p>\n<p>Neste momento, estava evidente para a popula\u00e7\u00e3o do Sahel que a presen\u00e7a militar francesa n\u00e3o iria conter a viol\u00eancia, como coloca Bayala Lianhou\u00e9 Imhotep .\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO ex\u00e9rcito franc\u00eas n\u00e3o \u00e9 um ex\u00e9rcito de coopera\u00e7\u00e3o interna nacional, \u00e9 um ex\u00e9rcito mercen\u00e1rio contra a nossa seguran\u00e7a e dignidade. \u00c9 por isso que 70% da nossa popula\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o jovens, consideram que, se n\u00e3o assumirmos o controle de nossos pa\u00edses, esses 70% correm o risco de morrer na pobreza, na mis\u00e9ria, e de morrer tentando atravessar o Mediterr\u00e2neo para chegar \u00e0 Europa, para chegar aos Estados Unidos\u201d, destaca Imhotep.<\/p>\n<p>O analista pol\u00edtico ressalta outro fator importante que preparou o terreno para os levantes revolucion\u00e1rios:  a presen\u00e7a terrorista em \u00e1reas do Sahel onde h\u00e1 riquezas no subsolo. <\/p>\n<p>\u201cAchamos isso estranho. Como \u00e9 que os terroristas n\u00e3o est\u00e3o onde n\u00e3o h\u00e1 petr\u00f3leo? Por que \u00e9 que a viol\u00eancia terrorista se concentra onde h\u00e1 petr\u00f3leo, onde h\u00e1 diamantes, onde h\u00e1 ur\u00e2nio? Pensamos que havia algo errado e decidimos expulsar o ex\u00e9rcito franc\u00eas e adotar as revolu\u00e7\u00f5es lideradas por Ibrahim Traor\u00e9, por Abdourahamane Tchiani do N\u00edger e por Assimi Go\u00efta\u201d, completa.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"534\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image_processing20240710-2402023-2gk9t6.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/09\/image_processing20240710-2402023-2gk9t6-300x200.webp 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/09\/image_processing20240710-2402023-2gk9t6-768x513.webp 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/09\/image_processing20240710-2402023-2gk9t6-750x534.webp 750w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image_processing20240710-2402023-2gk9t6.webp 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Chefes dos governos militares do N\u00edger, Abdourahamane Tiani (c), do Mali Assimi Goita (3\u00ba \u00e0 dir.) e Burkina Faso Ibrahim Traore (2\u00ba \u00e0 dir.) | AFP<\/figcaption><\/figure>\n<p>A onda de levantes militares progressistas come\u00e7ou no Mali, em agosto de 2020, quando <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/06\/20\/mali-assume-controle-de-uma-das-maiores-minas-de-ouro-da-africa-e-lanca-refinaria-propria-um-sonho-diz-presidente\/\">Assimi Go\u00efta derrubou o presidente Ibrahim Boubacar Ke\u00efta<\/a>, em meio a protestos massivos contra a presen\u00e7a francesa no pa\u00eds. Em 2022, em Burkina Faso, <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/04\/23\/burkina-faso-governo-anuncia-ter-desarticulado-outra-tentativa-de-golpe-de-estado\/\">o capit\u00e3o Ibrahim Traor\u00e9 <\/a>liderou um levante que dep\u00f4s o l\u00edder militar Paul-Henri Damiba. E fechando a lista est\u00e1 o N\u00edger, em 2023, com <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/12\/19\/direto-do-niger-conheca-a-luta-por-independencia-no-pais-africano\/\">a ascens\u00e3o do general Abdourahamane \u201cOmar\u201d Tchiani <\/a>ao poder.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas l\u00edderes representam uma nova gera\u00e7\u00e3o de oficiais militares progressistas que canalizam a frustra\u00e7\u00e3o p\u00fablica generalizada com o neocolonialismo franc\u00eas.  Al\u00e9m da luta militar conjunta, por meio da cria\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a dos Estados do Sahel (AES), em setembro de 2023, Mali, Burkina Faso e N\u00edger compartilham de medidas soberanistas semelhantes .<\/p>\n<p>Entre as medidas, est\u00e3o a nacionaliza\u00e7\u00e3o de minas, a cria\u00e7\u00e3o de bancos p\u00fablicos e estrat\u00e9gias conjuntas para se desvincular da moeda francesa, uma das heran\u00e7as  preservadas do per\u00edodo colonial.<\/p>\n<p><strong>Coloniza\u00e7\u00e3o no sahel africano<\/strong><\/p>\n<p>O Sahel \u00e9 uma regi\u00e3o semi\u00e1rida que marca a transi\u00e7\u00e3o do deserto do Saara para as savanas mais \u00famidas ao sul do continente africano.\u00a0 As terras s\u00e3o ricas em recursos naturais, como o ur\u00e2nio, o ouro, g\u00e1s e diamantes, cujas reservas est\u00e3o entre as maiores do mundo.<\/p>\n<p>Apesar da riqueza mineral, os pa\u00edses sahelianos est\u00e3o entre os mais pobres do planeta, e isso se deve a d\u00e9cadas de domina\u00e7\u00e3o colonial, com a explora\u00e7\u00e3o francesa continuando mesmo ap\u00f3s a \u201cindepend\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Depois da Confer\u00eancia de Berlim (1884-85), a \u00c1frica do Oeste passou por dom\u00ednios imperialistas distintos. Mas a Fran\u00e7a e o Reino Unido exerceram maior influ\u00eancia sobre a regi\u00e3o. A Fran\u00e7a controlava em 1960 oito col\u00f4nias na \u00c1frica Ocidental, uma \u00e1rea equivalente a oito vezes o tamanho da pr\u00f3pria Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Embora os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional do Senegal ao Chade tenham conquistado a independ\u00eancia naquele ano, a Fran\u00e7a manteve sua influ\u00eancia por meio do que \u00e9 conhecido como \u201cPacto Colonial\u201d, que instituiu o conceito de Fran\u00e7afrique, uma narrativa em que a metr\u00f3pole era uma parceira e amiga de suas ex-col\u00f4nias. <\/p>\n<p>A imposi\u00e7\u00e3o da<em> Fran\u00e7afrique<\/em> camuflou uma s\u00e9rie de acordos militares e econ\u00f4micos que permitiram o acesso franc\u00eas a v\u00e1rios aspectos da governan\u00e7a dos pa\u00edses africanos, incluindo a minerais estrat\u00e9gicos.<\/p>\n<p>Um dos efeitos mais pr\u00e1ticos foi a restri\u00e7\u00e3o quase completa da capacidade das antigas col\u00f4nias de produzir e processar bens em suas pr\u00f3prias terras. Os pa\u00edses africanos foram relegados, portanto, a meros fornecedores de mat\u00e9ria prima.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cAntes de dar independ\u00eancia aos nossos Estados, a Fran\u00e7a imp\u00f4s uma condi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea assina para ser independente, mas assina acordos de coopera\u00e7\u00e3o. O que h\u00e1 nesses acordos? Primeiro, voc\u00ea reconhece o bom que foi a coloniza\u00e7\u00e3o e \u00e9 obrigado a reembolsar\u00a0tudo o que a Fran\u00e7a investiu. Mesmo atrav\u00e9s de trabalho for\u00e7ado. Em segundo lugar, compromete-se a favorecer as empresas francesas. Terceiro, voc\u00ea \u00e9 obrigado a usar o franc\u00eas como l\u00edngua oficial. Quarto, voc\u00ea \u00e9 obrigado a depositar todos os ativos, todas as moedas que temos, em uma conta do tesouro franc\u00eas\u201d, destacou  em entrevista recente ao Brasil de Fato Mamane Sani Adamou,  que ajudou a fundar a Organiza\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria pela Nova Democracia (ORDN), ap\u00f3s a abertura do multipartidarismo no N\u00edger, em 1992.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image_processing20241218-2385620-d9nwhs.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/12\/image_processing20241218-2385620-d9nwhs-300x200.webp 300w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/12\/image_processing20241218-2385620-d9nwhs-768x512.webp 768w, https:\/\/assets.brasildefato.com.br\/2024\/12\/image_processing20241218-2385620-d9nwhs-750x533.webp 750w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image_processing20241218-2385620-d9nwhs.webp 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Os pa\u00edses da Alian\u00e7a dos Estados do Sahel (AES) na geopol\u00edtica africana | Beatriz Zupo\/Brasil de Fato<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Moeda colonial<\/strong><\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o do franco CFA foi outra medida imposta pelo Pacto Colonial. A moeda ligada ao Tesouro franc\u00eas e dependente do Banco da Fran\u00e7a ainda hoje est\u00e1 em vigor na \u00c1frica Ocidental.<\/p>\n<p>\u201cA Fran\u00e7a nos imp\u00f4s uma moeda para vir comprar os nossos produtos a pre\u00e7os baixos. Os nossos pa\u00edses s\u00e3o pa\u00edses com reservas de mat\u00e9rias-primas minerais, como ur\u00e2nio e outras, ouro e petr\u00f3leo. A Fran\u00e7a fez isso, uma moeda que n\u00e3o vale nada na Fran\u00e7a, para nos impedir de desenvolver\u201d, destaca Philippe Toyo Noudj\u00e8noum\u00e8, secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista do Benin e lideran\u00e7a da\u00a0Organiza\u00e7\u00e3o dos Povos da \u00c1frica do Oeste (OPAO).<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o somos livres para produzir em nosso pa\u00eds. N\u00e3o somos livres para fabricar coisas em nosso pa\u00eds. N\u00e3o somos livres para transformar nossas mat\u00e9rias-primas em nosso pa\u00eds, para alimentar nossa popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos nos industrializar com essa moeda colonial\u201d, completa o professor.<\/p>\n<p>Para manter esse sistema, a Fran\u00e7a apoiou golpes de estado e posicionou estrategicamente bases militares permanentes em pa\u00edses como Cabo Verde, Senegal e na Costa do Marfim.<\/p>\n<p>Desde 1960, foram mais de vinte interven\u00e7\u00f5es militares francesas em toda a \u00c1frica. Estas a\u00e7\u00f5es foram desde interven\u00e7\u00f5es militares diretas at\u00e9 \u00e0 orquestra\u00e7\u00e3o de assassinatos pol\u00edticos, como a do l\u00edder panafricanista Thomas Sankara, em Burkina Faso, em 15 de outubro de 1987.<\/p>\n<p>Durante sua ascens\u00e3o pol\u00edtica, o presidente franc\u00eas Emmanuel Macron procurou se diferenciar das lideran\u00e7as anteriores e da pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1frica. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, Macron expandiu a presen\u00e7a militar francesa em suas ex-col\u00f4nias, e aliado a pol\u00edticas neoliberais, apenas acirrou o desejo de soberania e de uma ruptura completa com a tutela francesa.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cConsideramos, portanto, os Estados Unidos, a OTAN e a Fran\u00e7a como inimigos da paz internacional, da paz dos povos e do direito dos povos \u00e0 diversidade e \u00e0 diferen\u00e7a\u201d, sintetiza o analista pol\u00edtico Bayala Lianhou\u00e9 Imhotep.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s nos levantamos como um s\u00f3 homem para dizer basta \u00e0 morte dos nossos her\u00f3is. Vida eterna \u00e0s revolu\u00e7\u00f5es em curso, porque para n\u00f3s n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que nos desenvolva, n\u00f3s desenvolvemos a n\u00f3s mesmos\u201d, finaliza o burkinab\u00e9.<\/p>\n<\/p>\n<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2025\/08\/17\/a-revolucao-de-ibrahim-traore-o-que-esta-acontecendo-em-burkina-faso\/\">A revolu\u00e7\u00e3o de Ibrahim Traor\u00e9: o que est\u00e1 acontecendo em Burkina Faso?<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/\">Brasil de Fato<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/houthis-assumem-ataque-com-missil-a-aeroporto-em-israel\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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