{"id":46225,"date":"2025-08-20T18:11:17","date_gmt":"2025-08-20T21:11:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wikifavelas-para-ir-alem-do-arroz-com-feijao\/"},"modified":"2025-08-20T18:11:17","modified_gmt":"2025-08-20T21:11:17","slug":"wikifavelas-para-ir-alem-do-arroz-com-feijao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wikifavelas-para-ir-alem-do-arroz-com-feijao\/","title":{"rendered":"WikiFavelas: Para ir al\u00e9m do arroz com feij\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"945\" height=\"462\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/AdobeStock_368011835-1-editado-945x462-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/AdobeStock_368011835-1-editado-945x462-1.jpg 945w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/AdobeStock_368011835-1-editado-945x462-1-300x147.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/AdobeStock_368011835-1-editado-945x462-1-768x375.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 945px) 100vw, 945px\"><figcaption>Foto: Adobe Stock<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, celebramos a not\u00edcia de que <u>o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome<\/u>. O an\u00fancio feito pelo Governo Federal \u00e9 um dos s\u00edmbolos da restaura\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em um pa\u00eds que passou (e ainda passa) por intensas turbul\u00eancias. Mas, entre as celebra\u00e7\u00f5es, h\u00e1 que se lembrar do trabalho que temos pela frente e dos compromissos para construir um pa\u00eds efetivamente sem fome.<\/p>\n<p>Para refletir sobre os desafios, no presente texto, o <u>Dicion\u00e1rio de Favelas Marielle Franco<\/u> convida voc\u00ea a pensar em tr\u00eas tempos. O primeiro, a partir de um breve hist\u00f3rico da quest\u00e3o da fome no Brasil, com notas sobre a conjuntura atual. No segundo momento, trazendo uma discuss\u00e3o sobre perfil: afinal, n\u00e3o falamos de fome como abstra\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 experimentada por pessoas. Acreditamos que \u00e9 importante dar concretude e pensar em como a gest\u00e3o da fome se faz em territ\u00f3rios pobres, pretos, favelados e compreender melhor o perfil que \u00e9 mais afetado pela fome no Brasil. E, para concluir, propomos um \u00faltimo momento para discutir melhor sobre alguns ecos da fome \u2013 seja nas pol\u00edticas p\u00fablicas, privadas ou a\u00e7\u00f5es do associativismo de base comunit\u00e1ria.<\/p>\n<h3><strong>Uma conjuntura contada pela fome<\/strong><\/h3>\n<p>A fome \u00e9 uma realidade marcante na hist\u00f3ria de nosso pa\u00eds, em diferentes express\u00f5es. H\u00e1 pessoas que passam o dia sem comer por n\u00e3o ter nenhum tipo de recursos para prover alimenta\u00e7\u00e3o; h\u00e1 pessoas que podem comer um dia, sem a seguran\u00e7a de ter o que comer no dia seguinte; h\u00e1 pessoas que comem alimentos que n\u00e3o est\u00e3o em quantidade ou qualidade adequada dentro do que \u00e9 necess\u00e1rio para se manter saud\u00e1vel\u2026 entre todos os marcadores, uma infinidade de realidades.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MATERIA-GERA-16.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MATERIA-GERA-16.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>H\u00e1 mais ou menos dez anos atr\u00e1s, em 2014, <u>o Brasil comemorou a sa\u00edda do Mapa da Fome<\/u>, gerenciado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO), pela primeira vez. A celebra\u00e7\u00e3o veio em um contexto de consagra\u00e7\u00e3o de um ciclo de pol\u00edticas p\u00fablicas que inclu\u00edam o <u>Bolsa Fam\u00edlia<\/u>, o Fome Zero, o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar, a valoriza\u00e7\u00e3o real do sal\u00e1rio m\u00ednimo e o fortalecimento de mecanismos do controle social como o Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (CONSEA).<\/p>\n<p>A comemora\u00e7\u00e3o foi manchete em jornais do mundo inteiro. A promessa era de um pa\u00eds que, finalmente, virava a p\u00e1gina de um dos cap\u00edtulos mais tristes de sua hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m coroava um certo ciclo do Partido dos Trabalhadores, liderado por um oper\u00e1rio que viveu a fome, \u00e0 frente do poder. Em <u>\u201cQuartos de Despejo\u201d<\/u>, Carolina de Jesus fala que o Brasil precisa ser governado por algu\u00e9m que j\u00e1 passou fome. Lula, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es, ajuda a elaborar a indica\u00e7\u00e3o de Carolina de Jesus ao constituir um cintur\u00e3o de pol\u00edticas para lidar com o problema, com intersetorialidade, com diversidade e complementaridade de iniciativas. Mas\u2026 com muitos limites tamb\u00e9m. <u>O Brasil saiu do Mapa da Fome, mas a fome n\u00e3o saiu do Brasil<\/u>.<\/p>\n<p>O Mapa da Fome da FAO considera que um pa\u00eds est\u00e1 fora dele quando menos de 2,5% da popula\u00e7\u00e3o consome menos calorias do que o necess\u00e1rio para uma vida saud\u00e1vel. \u00c9 um indicador importante, mas insuficiente para medir a desigualdade no prato, porque sair do mapa da fome n\u00e3o quer dizer, necessariamente, viver uma situa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar e nutricional, porque ela envolve acesso de forma cont\u00ednua, adequada e suficiente a alimentos nutritivos, variados e culturalmente apropriados. Muitas vezes, mesmo sem fome absoluta, h\u00e1 <u>inseguran\u00e7a alimentar leve ou moderada<\/u>, restri\u00e7\u00e3o de qualidade alimentar e instabilidade no acesso aos alimentos, que comprometem a sa\u00fade e o bem-estar, evidenciando que a supera\u00e7\u00e3o da fome \u00e9 apenas um passo dentro de um processo maior de garantia plena de seguran\u00e7a alimentar.<\/p>\n<p>Ao olharmos para as favelas e periferias, por exemplo, a hist\u00f3ria \u00e9 diferente. O problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de acesso \u00e0 comida (como se fosse pouca coisa), mas tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o sobre o que se come e como se come. H\u00e1 variedade no prato? H\u00e1 comida de verdade ou apenas processados? H\u00e1 quantas refei\u00e7\u00f5es em um dia? H\u00e1 refei\u00e7\u00f5es todos os dias?<\/p>\n<p>Na Mar\u00e9, no Alem\u00e3o, em Parais\u00f3polis, no Curi\u00f3, no Ibura\u2026 Em todos esses territ\u00f3rios, a presen\u00e7a do Estado \u00e9 mais intensa pelas violentas pol\u00edticas de seguran\u00e7a do que pelas pol\u00edticas de assist\u00eancia social. Territ\u00f3rios em que a aus\u00eancia do Estado faz com que at\u00e9 mesmo a alimenta\u00e7\u00e3o oferecida pela iniciativa privada seja composta majoritariamente por ultraprocessados baratos, carregados de s\u00f3dio, gordura e a\u00e7\u00facar, na ant\u00edtese de uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, j\u00e1 que o <u>acesso \u00e0 comida de verdade<\/u> ainda \u00e9 caro e o sal\u00e1rio n\u00e3o d\u00e1 conta de garantir algumas coisas. \u00c9 assim que o arroz e o feij\u00e3o, antes s\u00edmbolos de seguran\u00e7a alimentar, viram luxo.<\/p>\n<p>Essa inflex\u00e3o, notada de forma mais consistente ap\u00f3s o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016, fez com que o Brasil sa\u00edsse dos trilhos de enfrentamento \u00e0 fome. Tanto Michel Temer como Jair Bolsonaro constru\u00edram em suas gest\u00f5es medidas de destrui\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o social no Brasil. N\u00e3o por acaso, nosso retorno ao Mapa da Fome ocorre neste per\u00edodo de desarranjo democr\u00e1tico. A partir do golpe, diversas medidas e retrocessos aprofundaram uma crise social em nosso pa\u00eds. O congelamento dos gastos sociais com a Emenda Constitucional 95, o enfraquecimento do Bolsa Fam\u00edlia, o desmonte do CONSEA, o ataque \u00e0s pol\u00edticas de alimenta\u00e7\u00e3o escolar e a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho corroeram as conquistas anteriores de forma muito r\u00e1pida. As pol\u00edticas de austeridade fiscal deste per\u00edodo restringiram o acesso da popula\u00e7\u00e3o a direitos b\u00e1sicos, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, em 2022, o <u>Inqu\u00e9rito Nacional sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Contexto da Pandemia de COVID-19<\/u> feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Rede Pessan) mostrou que <u>mais de 33 milh\u00f5es de brasileiros estavam em situa\u00e7\u00e3o de fome<\/u>. Nos <u>lares chefiados por mulheres negras, a inseguran\u00e7a alimentar grave \u00e9 quase o dobro da m\u00e9dia nacional<\/u>. No mesmo documento, a Rede Pessan revelou que lares chefiados por mulheres negras apresentavam, no contexto pand\u00eamico, uma taxa de inseguran\u00e7a alimentar grave quase duas vezes maior que a m\u00e9dia observada nos lares chefiados por mulheres brancas. Enquanto, no conjunto do pa\u00eds, cerca de 12% das fam\u00edlias viviam nessa condi\u00e7\u00e3o, entre as mulheres negras o percentual ultrapassava 22%. A centralidade da mulher nas estrat\u00e9gias de cuidado e na organiza\u00e7\u00e3o familiar faz com que a fome tenha um impacto desproporcional sobre elas. Carolina de Jesus, em seu livro ficcional \u201c<u>Peda\u00e7os da fome<\/u>\u201d qualifica sobre a quest\u00e3o da fome enquanto uma realidade marcada pelas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero e ra\u00e7a. S\u00e3o as mulheres negras das favelas que acumulam jornadas de trabalho informais, cuidado dom\u00e9stico e, ao mesmo tempo, s\u00e3o as principais respons\u00e1veis por garantir a alimenta\u00e7\u00e3o da casa. S\u00e3o elas que enfrentam a ang\u00fastia de decidir entre comprar o rem\u00e9dio ou o alimento, entre pagar a conta de luz ou garantir o almo\u00e7o das crian\u00e7as. Um olhar sobre essa quest\u00e3o revela como se performa o racismo e o machismo, enquanto motivadores e agravantes da situa\u00e7\u00e3o de desprote\u00e7\u00e3o social a que muitas pessoas est\u00e3o submetidas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/728x90_banner_sobcomuns.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/728x90_banner_sobcomuns.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/728x90_banner_sobcomuns-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Essa desigualdade n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso: expressa barreiras estruturais persistentes no acesso a emprego e renda, assim como a servi\u00e7os p\u00fablicos e equipamentos essenciais. H\u00e1 uma necess\u00e1ria observa\u00e7\u00e3o sobre como os efeitos da desigualdade n\u00e3o s\u00e3o distribu\u00eddos de forma igualit\u00e1ria entre a popula\u00e7\u00e3o, e conhecer a fundo as realidades que existem hoje nesse campo da inseguran\u00e7a alimentar nos ajuda a formular pol\u00edticas mais s\u00f3lidas para enfrentar os cen\u00e1rios que est\u00e3o colocados no Brasil.<\/p>\n<p>Ainda durante a pandemia, quase <u>70% dos moradores de favelas n\u00e3o possu\u00edam recursos para compra de alimentos<\/u> de forma regular (o que levou \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de centenas de a\u00e7\u00f5es de combate \u00e0 fome, <u>como divulgado pelo Dicion\u00e1rio de Favelas Marielle Franco \u00e0 \u00e9poca<\/u>). Nesse per\u00edodo, quando o desemprego explodiu e a renda m\u00e9dia caiu, <u>as favelas assistiram ao renascimento de uma forma antiga de fome<\/u>, parecida com aquela narrada nos di\u00e1rios de Carolina de Jesus. Filas quilom\u00e9tricas para cesta b\u00e1sica, m\u00e3es abrindo panelas vazias diante das c\u00e2meras para denunciar a aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, cozinhas comunit\u00e1rias se organizando com doa\u00e7\u00f5es de vizinhos e campanhas de solidariedade. Mas mesmo nesse cen\u00e1rio, o protagonismo foi das pr\u00f3prias comunidades, que se organizaram para n\u00e3o deixar ningu\u00e9m sem comer. A favela inventou respostas. Essa desigualdade territorial e racial revela um fato inc\u00f4modo: a fome no Brasil n\u00e3o \u00e9 um acidente, \u00e9 um projeto, como elabora Josu\u00e9 de Castro na sua obra <em>Geografia da Fome<\/em>, um cl\u00e1ssico para entender a fome no Brasil.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que entra o ponto central deste texto: ainda que os dados oficiais sejam fundamentais, \u00e9 preciso radicalizar o que nos contam os mapas. \u00c9 preciso dobrar os n\u00fameros oficiais e coloc\u00e1-los na mesa com a realidade do dia a dia do Brasil. Ou seja: ao mesmo tempo que celebramos as metas num\u00e9ricas de organismos internacionais e os pactos e leis, precisamos construir pr\u00e1ticas cotidianas e cont\u00ednuas de reconstru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds justo, democr\u00e1tico, sem pobreza e sem fome para todas as pessoas, pol\u00edticas que sejam cont\u00ednuas e t\u00e3o enraizadas na sociedade que nenhum governo autocr\u00e1tico seja capaz de desmobiliz\u00e1-las.<\/p>\n<h3><strong>Da geografia ao mapa<\/strong><\/h3>\n<p>Para falar sobre o fen\u00f4meno da fome no Brasil, um importante marco anal\u00edtico \u00e9 justamente a obra de Josu\u00e9 de Castro. M\u00e9dico, ge\u00f3grafo, diplomata e militante, ele desmontou, j\u00e1 nos anos 1940 e 1950, a farsa das interpreta\u00e7\u00f5es moralistas que culpavam os pobres por sua pr\u00f3pria desnutri\u00e7\u00e3o. Em obras como <em>Geografia da Fome<\/em> (1946) e <em>Geopol\u00edtica da Fome<\/em> (1951), ele mostrou que a fome n\u00e3o \u00e9 fruto da escassez natural de alimentos, mas sim uma constru\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, produzida pela concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, pelo modelo agroexportador e pela nega\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de direitos b\u00e1sicos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o trabalhadora.<\/p>\n<p>Ele dividiu o territ\u00f3rio brasileiro em regi\u00f5es alimentares, revelando que cada uma tinha n\u00e3o s\u00f3 suas culturas e h\u00e1bitos alimentares, mas tamb\u00e9m diferentes formas de subnutri\u00e7\u00e3o. Ou seja: pensar o territ\u00f3rio \u00e9 importante n\u00e3o apenas para compreender como a seguran\u00e7a alimentar e nutricional se aplicaria neste contexto, mas sobretudo para compreender de que forma se d\u00e3o as viola\u00e7\u00f5es de direitos \u2013 e, assim, construir elementos para enfrent\u00e1-las. As an\u00e1lises de Castro indicavam, por exemplo, que no Sert\u00e3o, a fome cr\u00f4nica se manifestava pela escassez de prote\u00ednas; na Amaz\u00f4nia, pelo d\u00e9ficit de sais minerais; no litoral a\u00e7ucareiro, pela monocultura que for\u00e7ava trabalhadores a viverem dietas incompletas, j\u00e1 que n\u00e3o tinham seus espa\u00e7os de ro\u00e7as para subsist\u00eancia. Essa an\u00e1lise foi pioneira em enxergar o territ\u00f3rio como determinante do que se come e do que n\u00e3o se come. E arrisco dizer que, se na an\u00e1lise do s\u00e9culo XX o latif\u00fandio produziu tipos de fome rural, nas favelas do s\u00e9culo XXI, a segrega\u00e7\u00e3o urbana e o racismo tamb\u00e9m produzem tipos particulares de fome. Mais uma vez, o territ\u00f3rio como componente para compreens\u00e3o da fome.<\/p>\n<p>Tal tem\u00e1tica comparece em importantes centros de pesquisa, a partir dos olhares sobre as interse\u00e7\u00f5es entre fome, territ\u00f3rio e pol\u00edticas p\u00fablicas. Algumas pesquisas da professora Rosana Salles Costa, da UFRJ, nos ajudam a compreender que <u>a inseguran\u00e7a alimentar tamb\u00e9m \u00e9 agravada pela desigualdade no acesso aos alimentos e ambientes alimentares degradados<\/u>, em um fen\u00f4meno que aproxima m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o e injusti\u00e7a alimentar das discuss\u00f5es sobre fome em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o, que articula fome e desigualdades sociais, desmonta a ideia de que basta distribuir renda para resolver a fome. \u00c9 verdade que o Bolsa Fam\u00edlia e o Fome Zero foram marcos hist\u00f3ricos e precisam ser defendidos. No in\u00edcio dos anos 2000, em um cen\u00e1rio de estagna\u00e7\u00e3o salarial e desemprego alto, o Bolsa Fam\u00edlia organizou um hist\u00f3rico programa de transfer\u00eancia de renda diretamente para milh\u00f5es de fam\u00edlias pobres, muitas delas em favelas e \u00e1reas rurais afastadas. O programa elevou o poder de compra e, de fato, reduziu a fome em poucos anos. J\u00e1 o Fome Zero articulou iniciativas como restaurantes populares, programas de cisternas no semi\u00e1rido, <u>apoio \u00e0 agricultura familiar<\/u> e fortalecimento de equipamentos de SAN.<\/p>\n<p>Mas as pol\u00edticas de combate \u00e0 fome precisam ir al\u00e9m de \u201cmatar a fome hoje\u201d e as a\u00e7\u00f5es de Estado devem mexer nas estruturas que a reproduzem. E \u00e9 aqui que se revelam os limites das pol\u00edticas atuais: apesar dos avan\u00e7os, n\u00e3o houve ruptura com a l\u00f3gica do agroneg\u00f3cio enquanto organizador da produ\u00e7\u00e3o (sem considerar, por exemplo, o papel e pot\u00eancia da agricultura familiar), nem um enfrentamento frontal \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria urbana que empurra os mais pobres para periferias e favelas. No campo, o latif\u00fandio dita as regras; nas cidades, o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel foi tratado como um ap\u00eandice de pol\u00edticas assistenciais, e n\u00e3o como parte do direito \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>Para as favelas, isso significou que a melhora de renda via Bolsa Fam\u00edlia e valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio-m\u00ednimo era, muitas vezes, corro\u00edda por pre\u00e7os de alimentos que subiam acima da infla\u00e7\u00e3o, pelo transporte caro para acessar mercados melhores e pela expans\u00e3o do varejo de ultraprocessados como solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e barata. O Estado colocou comida no prato, mas n\u00e3o mudou quem decide o que chega at\u00e9 ele, j\u00e1 que a ind\u00fastria aliment\u00edcia e o agroneg\u00f3cio n\u00e3o t\u00eam compromisso com soberania alimentar, e, sim, com lucro. As pessoas passam a ter renda para comprar comida \u2013 mas a comida de verdade fica t\u00e3o cara, que muitas pessoas sobrevivem de miojo, <em>nuggets<\/em>, biscoitos etc. Assim, deixa-se de passar fome, n\u00e3o se proporciona uma vida com seguran\u00e7a alimentar para as pessoas, pois n\u00e3o se criam as condi\u00e7\u00f5es para acesso a uma alimenta\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n<p>Nesse novo momento, para enfrentar a fome, talvez n\u00e3o seja suficiente retomar pol\u00edticas dos anos 2000. Sair do Mapa da Fome foi uma grande vit\u00f3ria e um resultado de importante trabalho dirigido pelo Governo Federal, mas h\u00e1 ainda um longo caminho para que a fome e a inseguran\u00e7a alimentar n\u00e3o sejam realidade na casa de nenhuma fam\u00edlia brasileira.<\/p>\n<h3><strong>Favela: laborat\u00f3rio de resist\u00eancia e soberania alimentar<\/strong><\/h3>\n<p>Se a fome nas favelas \u00e9 fruto de uma hist\u00f3rica e articulada viola\u00e7\u00e3o de direitos da popula\u00e7\u00e3o, a resposta para essa realidade tamb\u00e9m nasce dos pr\u00f3prios territ\u00f3rios, como temos observado a partir das <u>redes de solidariedade<\/u>, da <u>organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria<\/u> e da <u>criatividade pol\u00edtica<\/u>. \u00c9 nas <u>cozinhas comunit\u00e1rias<\/u>, nas <u>hortas urbanas<\/u>, nas a\u00e7\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos e nos mutir\u00f5es que as favelas vem mostrando caminhos para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo poss\u00edvel para se viver, marcado pela ontologia do coletivo e do comum, em detrimento do modo indiv\u00edduo t\u00e3o marcado em tempos de hegemonia neoliberal.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia de Covid-19, iniciativas aut\u00f4nomas multiplicaram-se pelo Brasil afora, com a urg\u00eancia da defesa da vida. Organiza\u00e7\u00f5es como o <em><u>Movimento dos Trabalhadores Sem Teto<\/u><\/em> (MTST), o <em><u>Fala Akari<\/u><\/em> na Zona Norte do Rio, o <em><u>Gabinete de Crise do Alem\u00e3o<\/u><\/em> e <u>dezenas de outras redes locais de apoio criaram sistemas de mapeamento para identificar fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e organizar a distribui\u00e7\u00e3o de alimentos<\/u>.<\/p>\n<p>As <u>cozinhas solid\u00e1rias<\/u> passaram a ser espa\u00e7os n\u00e3o apenas de alimenta\u00e7\u00e3o, mas de encontro, de fortalecimento de redes e de resist\u00eancia, conforme relatado pelo Dicion\u00e1rio de Favelas Marielle Franco,<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cAs cozinhas solid\u00e1rias no Brasil s\u00e3o uma forma de tecnologia social voltada para o combate \u00e0 fome e \u00e0 inseguran\u00e7a alimentar. Durante a pandemia de COVID-19, essas iniciativas se expandiram rapidamente, impulsionadas por movimentos sociais e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, com o objetivo de fornecer refei\u00e7\u00f5es gratuitas e saud\u00e1veis para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Em 2023, o governo federal consolidou essas iniciativas ao regulamentar o Programa Cozinha Solid\u00e1ria, estabelecendo uma pol\u00edtica p\u00fablica de combate \u00e0 fome e de promo\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a alimentar\u201d (<u>Wikifavelas, 2025<\/u>).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Elas funcionam a partir de doa\u00e7\u00f5es, trabalho volunt\u00e1rio e parcerias locais, alimentando milhares de pessoas diariamente. Em 2024, o presidente Lula (PT) <u>regulamentou a lei proposta pelo deputado Federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) que institucionaliza e prev\u00ea estrutura para o funcionamento das cozinhas solid\u00e1rias<\/u>. Com a legisla\u00e7\u00e3o, a ideia \u00e9 promover a integra\u00e7\u00e3o de outras a\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a alimentar e nutricional promovidas pelo Estado, entre elas, o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana. Com isso, une-se Estado, movimentos sociais e outros atores da sociedade civil para combater a fome. A experi\u00eancia da Mar\u00e9, por exemplo, mobilizou jovens, mulheres e pessoas idosas em torno da produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es que respeitam os saberes e as tradi\u00e7\u00f5es locais.<\/p>\n<p>Na cidade do Rio de Janeiro, as iniciativas proliferam ao longo dos anos. Em mapeamento da Prefeitura da Cidade, h\u00e1 ao menos 40 espa\u00e7os de distribui\u00e7\u00e3o de refei\u00e7\u00f5es com funcionamento entre segunda e sexta-feira (cada espa\u00e7o com capacidade de distribui\u00e7\u00e3o de 280 refei\u00e7\u00f5es), a partir do programa <u>Prato Feito Carioca<\/u>. Tal programa \u00e9 uma importante estrat\u00e9gia de enfrentamento, mas em 2024 a C\u00e2mara dos Vereadores divulgou o <u>I Inqu\u00e9rito sobre Inseguran\u00e7a Alimentar no Munic\u00edpio do Rio de Janeiro<\/u>, que indicou que h\u00e1 dois milh\u00f5es de pessoas vivendo com algum tipo de inseguran\u00e7a alimentar (e quase meio milh\u00e3o vivendo com fome). O Inqu\u00e9rito foi coordenado por pesquisadoras do Instituto de Nutri\u00e7\u00e3o Josu\u00e9 de Castro da UFRJ e mostrou um dado alarmante da fome na cidade, o que correspondia \u00e0s tend\u00eancias nacionais \u00e0 \u00e9poca, dada conjuntura de desmonte das pol\u00edticas sociais em curso desde o golpe, agravada com a pandemia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das cozinhas, as hortas comunit\u00e1rias t\u00eam se consolidado como alternativa para fortalecer a autonomia alimentar. Elas promovem o cultivo coletivo de alimentos frescos, estimulam a troca de conhecimento agroecol\u00f3gico e ajudam a reduzir a depend\u00eancia do mercado formal, especialmente dos alimentos ultraprocessados. \u00c9 um movimento que articula sa\u00fade, cuidado ambiental e economia solid\u00e1ria. Um exemplo potente \u00e9 organizado pelo Coletivo \u201c<u>Horta em Casa Maric\u00e1<\/u>\u201d, na cidade de Maric\u00e1, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u00c9 importante tamb\u00e9m reconhecer o papel de outras organiza\u00e7\u00f5es al\u00e9m dos movimentos sociais de favela. O padre J\u00falio Lancellotti, figura emblem\u00e1tica da luta contra a desigualdade em S\u00e3o Paulo, <u>distribui diariamente marmitas para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e comunidades vulner\u00e1veis \u2013 ato que incomoda grupos mais abastados e pol\u00edticos vinculados \u00e0 extrema direita, que comungam de uma agenda higienista<\/u>. Sua atua\u00e7\u00e3o fortalece o papel das igrejas como espa\u00e7os de acolhimento e mobiliza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos exemplos citados acima, h\u00e1 centenas de outros esfor\u00e7os \u2013 seja dos movimentos sociais, das institui\u00e7\u00f5es religiosas, de organiza\u00e7\u00f5es do terceiro setor e at\u00e9 mesmo de algumas institui\u00e7\u00f5es do Estado \u2013 que nos ajudam a refletir sobre a diversidade de atores em cena para pensar a constru\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<h3><strong>Com fome, com pressa: entre safras e pactos<\/strong><\/h3>\n<p>Betinho foi um dos maiores lutadores sociais da hist\u00f3ria recente de nosso pa\u00eds. Conhecido mundialmente pelas lutas de enfrentamento \u00e0 fome e \u00e0 mis\u00e9ria, sempre dizia que \u201cquem tem fome, tem pressa\u201d, como forma de conclamar a\u00e7\u00f5es urgentes de enfrentamento \u00e0 fome em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em 2025, quase 30 anos depois de sua morte, ainda h\u00e1 urg\u00eancias a serem enfrentadas. Vivemos um cen\u00e1rio global marcado pela crise econ\u00f4mica, pela <u>emerg\u00eancia clim\u00e1tica<\/u> e por conflitos que ampliam a inseguran\u00e7a alimentar em escala global. Em 2024, a comunidade internacional lan\u00e7ou o <u>Pacto Global contra a Fome e a Pobreza<\/u>. O objetivo \u00e9 mobilizar governos, organiza\u00e7\u00f5es sociais e setor privado para acelerar o combate \u00e0 fome at\u00e9 2030, alinhado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel 2 (ODS 2) da ONU, que visa \u201cacabar com a fome, alcan\u00e7ar a seguran\u00e7a alimentar e melhoria da nutri\u00e7\u00e3o e promover a agricultura sustent\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>O pacto simboliza um esfor\u00e7o coletivo e uma promessa de uni\u00e3o em torno da erradica\u00e7\u00e3o da fome. No entanto, como alertam especialistas e movimentos sociais, o sucesso dessas iniciativas depende da efetiva implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas intersetoriais, do combate \u00e0s desigualdades estruturais e da regula\u00e7\u00e3o dos interesses das grandes corpora\u00e7\u00f5es alimentares. A controv\u00e9rsia reside no que veio depois do Pacto. Se o Governo Federal defende tal pacto em colegiados como o BRICS e a ONU, causa espanto que o mesmo governo lance um Plano Safra que destina a maior parte do recurso bilion\u00e1rio ao financiamento do agroneg\u00f3cio, voltado para <em>commodities<\/em> como soja, milho e carne, enquanto a agricultura familiar (respons\u00e1vel pela maior parte dos alimentos que chegam \u00e0 mesa dos brasileiros) recebe uma fatia proporcionalmente muito menor. Essa op\u00e7\u00e3o refor\u00e7a um modelo de produ\u00e7\u00e3o concentrador de terra e renda, dependente de agrot\u00f3xicos e monoculturas, que prioriza mercados externos em detrimento do abastecimento interno. A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 flagrante: como liderar um pacto contra a fome se, dentro de casa, se financia justamente a l\u00f3gica econ\u00f4mica e ambiental que est\u00e1 na raiz da fome no Brasil e no mundo?<\/p>\n<p>Esse desafio \u00e9 particularmente complexo. O pa\u00eds possui legisla\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada, como a Lei Org\u00e2nica de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (LOSAN), que reconhece <u>a alimenta\u00e7\u00e3o adequada como um direito humano<\/u>, e institui\u00e7\u00f5es importantes como o CONSEA, que fomenta a participa\u00e7\u00e3o social na formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas. No entanto, o hist\u00f3rico recente de desmonte dessas estruturas, aliado \u00e0 persist\u00eancia do colonialismo alimentar e do neoliberalismo, fragiliza a capacidade do Estado de cumprir esses compromissos.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio que a sa\u00edda do Mapa da Fome consiga dar corpo \u00e0 uma agenda p\u00fablica de transi\u00e7\u00e3o estrutural na sociedade, com medidas e compromissos que incluam: 1) o fortalecimento da agricultura familiar e agroecol\u00f3gica; 2) a garantia da merenda escolar saud\u00e1vel e local; 3) pol\u00edticas de incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel e ao com\u00e9rcio justo; 4) combate ao racismo estrutural e \u00e0 desigualdade de g\u00eanero na alimenta\u00e7\u00e3o; 5) articula\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es que integrem sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social e outras medidas reivindicadas pelos movimentos sociais, por grupos de pesquisa e por toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 que esse dia chegue, as cozinhas solid\u00e1rias das favelas, as marmitas das igrejas, o trabalho dos coletivos e at\u00e9 as redes de sobreviv\u00eancia em territ\u00f3rios dominados por grupos criminosos continuar\u00e3o a ser uma grande trincheira contra a fome e pela vida.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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O que as vis\u00f5es de Maria Carolina de Jesus, Josu\u00e9 de Castro e Betinho ensinam? Por que a favela \u00e9 um laborat\u00f3rio de resist\u00eancia e soberania alimentar?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/wikifavelas-para-ir-alem-do-arroz-com-feijao\/\">WikiFavelas: Para ir al\u00e9m do arroz com feij\u00e3o<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":46226,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[15403,637,3816,98,15404,15405,1376,15406,1287,15407],"tags":[],"class_list":["post-46225","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-betinho","category-bolsa-familia","category-cozinhas-solidarias","category-desigualdades","category-fome-no-brasil","category-geografia-da-fome","category-inseguranca-alimentar","category-josue-de-castro","category-mapa-da-fome","category-maria-carolina-de-jesus"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46225"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46225\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46226"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}