{"id":46827,"date":"2025-08-22T19:22:46","date_gmt":"2025-08-22T22:22:46","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/elogio-ao-desfrute-da-vida-num-mundo-brutal\/"},"modified":"2025-08-22T19:22:46","modified_gmt":"2025-08-22T22:22:46","slug":"elogio-ao-desfrute-da-vida-num-mundo-brutal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/elogio-ao-desfrute-da-vida-num-mundo-brutal\/","title":{"rendered":"Elogio ao desfrute da vida, num mundo brutal\u00a0"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1069\" height=\"1200\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/5cc4422d-10bc-46b1-a780-3e93ed6395ad_1069x1200-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/5cc4422d-10bc-46b1-a780-3e93ed6395ad_1069x1200-1.jpg 1069w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/5cc4422d-10bc-46b1-a780-3e93ed6395ad_1069x1200-1-267x300.jpg 267w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/5cc4422d-10bc-46b1-a780-3e93ed6395ad_1069x1200-1-768x862.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1069px) 100vw, 1069px\"><figcaption>Figura sorridente, centro-sul de Veracruz, 600-1000 d.C. <\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Douglas Rushkoff<\/strong>, em seu <em>substack<\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Tenho me sentido muito bem ultimamente.<\/p>\n<p>Tive algumas semanas boas. Conheci pessoas interessantes, tive algumas conversas profundas. Dancei. Fui ao Museu Metropolitan com uma amiga. E em cada uma dessas ocasi\u00f5es, senti que vivenciava um profundo sentimento de gratid\u00e3o por ter a oportunidade de fazer essas coisas. Me diverti tanto. E sinto que h\u00e1 mais por vir.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MATERIA-GERA-21.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MATERIA-GERA-21.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>No entanto, preciso me perguntar: \u00e9 certo sentir-me assim quando parece que tudo est\u00e1 desmoronando? Quando h\u00e1 tanta dor e sofrimento acontecendo? Fam\u00edlias sendo separadas pela ICE (Imigra\u00e7\u00e3o) na Calif\u00f3rnia? Outras sendo famintas no Oriente M\u00e9dio, bombardeadas na Ucr\u00e2nia \u2014 sem mencionar as zonas de guerra que geralmente n\u00e3o viram not\u00edcia, como as de Camar\u00f5es, Congo, Rep\u00fablica Centro-Africana \u2014 s\u00f3 para citar algumas que come\u00e7am com C.<\/p>\n<p>Aqui nos EUA, saibam ou n\u00e3o, milh\u00f5es correm o risco de afundar ainda mais na pobreza, e 18 milh\u00f5es de lares sofrem atualmente com inseguran\u00e7a alimentar. Mudan\u00e7a clim\u00e1tica, eros\u00e3o do solo, deslocamento cont\u00ednuo de povos ind\u00edgenas, avan\u00e7o da agricultura industrial e da minera\u00e7\u00e3o sobre as florestas tropicais ou zonas \u00famidas remanescentes. Micropl\u00e1sticos e produtos qu\u00edmicos permanentes\u2026 Mas, mais importante, o horror real e em tempo vivo experimentado por outros seres humanos neste exato momento, enquanto eu me sento aqui no meu lugar feliz, engajado com voc\u00eas \u2014 uma comunidade que prezo \u2014 discutindo os desafios e oportunidades que mais nos importam.<\/p>\n<p>No meio de tanto trauma indiz\u00edvel (na verdade, um trauma bastante diz\u00edvel), \u00e9 certo experimentar momentos de alegria e conex\u00e3o, ou mesmo mera gratid\u00e3o por estar vivo e respirar?<br \/>Acho que sim.<\/p>\n<p>Acho que, se temos sorte suficiente, at\u00e9 mesmo privil\u00e9gio suficiente \u2014 e sei que \u00e9 uma palavra carregada \u2014 para termos encontrado um ponto quente em um oceano frio de desespero, temos que pelo menos nos permitir experimentar a abertura e a gratid\u00e3o que v\u00eam com isso. Por estar, enquanto durar, simplesmente bem.<\/p>\n<p>Desde que \u2014 e aqui est\u00e1 a ressalva \u00e9tica, eu acho \u2014 desde que seja a alegria da conex\u00e3o com o todo, e n\u00e3o o al\u00edvio de ter se desconectado temporariamente da maneira como as coisas s\u00e3o, ou de ter estrategizado alguma \u201cvit\u00f3ria\u201d. Claro, conquistas s\u00e3o \u00f3timas e tudo mais, e se voc\u00ea estudou e foi bem numa prova, ou teve sucesso nos neg\u00f3cios, ou trabalhou duro e agora pode saborear o fruto desse esfor\u00e7o, claro. V\u00e1 em frente.<\/p>\n<p>Mas estou falando mais sobre o tipo de d\u00e1diva que simplesmente aparece. O modo como a neve simplesmente cai e silencia a cidade. Um momento de beleza que simplesmente se desdobra para voc\u00ea. O modo como a retid\u00e3o essencial da natureza ou o padr\u00e3o dos momentos se alinham. Um abra\u00e7o do seu amor. Um momento de reconhecimento com um amigo. Um p\u00f4r do sol com seu cachorro\u2026 menos algo que voc\u00ea conquistou e mais um presente dos deuses. Totalmente imerecido. N\u00e3o merecido. D\u00e1diva.<\/p>\n<p>Esses tipos de momento \u2014 o que os crist\u00e3os outrora entendiam como \u201cgra\u00e7a\u201d, esses momentos que geram uma sensa\u00e7\u00e3o de admira\u00e7\u00e3o que abre o cora\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o devem ser negados em seu reconhecimento e aprecia\u00e7\u00e3o. A culpa e a vergonha que acompanham tais momentos de gra\u00e7a s\u00e3o naturais. Justificadas, at\u00e9. Eu era a crian\u00e7a que, no seu anivers\u00e1rio, sentia que a \u00fanica coisa apropriada para se desejar ao assoprar as velas era o fim da fome no mundo. Como ouso desejar outra coisa? E ainda sou assim hoje sempre que algo \u00f3timo acontece. Mesmo agora, escrevendo para voc\u00eas deste apartamento seguro e com ar-condicionado, com uma cadeira de escrit\u00f3rio decente e voc\u00eas de fato lendo. Qu\u00e3o grande \u00e9 isso?<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>E embora isso traga \u00e0 mente os muitos que n\u00e3o est\u00e3o nesta posi\u00e7\u00e3o \u2014 aqueles que ainda n\u00e3o t\u00eam um p\u00fablico para sua express\u00e3o, ou n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 tecnologia, ou \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ou \u00e0 comida, ou \u00e0 sua terra, ou a um dia sem viol\u00eancia \u2014 isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para n\u00e3o vivenciarmos o momento em que estamos agora. Porque eles tamb\u00e9m est\u00e3o neste momento. Como ousamos nos recusar a reconhecer e apreciar a d\u00e1diva que temos, quando a temos, face ao que aqueles sem ela est\u00e3o experienciando?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 como se f\u00f4ssemos alheios. Poucos de n\u00f3s correm o risco de aspirar a um\u2026 vamos chamar de \u201cestilo de vida Mar Lago\u201d, onde a alegria de algu\u00e9m \u00e9 baseada em manter os muros de separa\u00e7\u00e3o entre si mesmo e aqueles que explora. Fumando charutos com a elite e celebrando a pr\u00f3pria separa\u00e7\u00e3o que conseguiu criar entre sua pr\u00f3pria experi\u00eancia e a de todos os outros. Vit\u00f3ria ou dom\u00ednio sobre um \u201coutro\u201d, cuja derrota ou posi\u00e7\u00e3o inferior \u00e9 a \u00fanica medida de sucesso.<\/p>\n<p>N\u00e3o, a alegria de que falo \u00e9 exatamente o oposto. N\u00e3o a alegria do triunfo ou da domina\u00e7\u00e3o, mas a alegria de se sentir conectado a todos e a tudo mais. N\u00e3o a alegria de ganhar o jogo de futebol, mas de operar em harmonia sem palavras com os outros membros da sua equipe. Aquele estado de \u00eaxtase\/fluxo coletivo ou pelo menos conectado. N\u00e3o \u00e9 \u00e0s custas dos outros. Ele requer os outros.<\/p>\n<p>Mas se voc\u00ea, como eu, sente pontadas de culpa ou vergonha sempre que se sente muito bem, mesmo durante tempos de trauma coletivo como este, a primeira coisa a lembrar \u00e9 que \u2014 no m\u00ednimo \u2014 voc\u00ea est\u00e1 se reabastecendo e se restaurando para o bom trabalho. At\u00e9 mesmo um ativista incur\u00e1vel ou agente de mudan\u00e7a precisa reabastecer seu tanque pr\u00e2nico.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma \u00f3tima cita\u00e7\u00e3o sobre isso do colunista e podcaster Savage Love, Dan Savage, que circulou no in\u00edcio deste ano. \u201cDurante os dias mais sombrios da crise da AIDS, enterr\u00e1vamos nossos amigos de manh\u00e3, protest\u00e1vamos \u00e0 tarde e dan\u00e7\u00e1vamos a noite toda. A dan\u00e7a nos manteve na luta \u2014 porque era pela dan\u00e7a que est\u00e1vamos lutando.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o sim, n\u00e3o importa o qu\u00e3o ruins estejam as coisas, quantos de nossos companheiros estejam caindo a cada dia, ainda podemos nos aconchegar \u00e0 noite e nos deleitar com essa conex\u00e3o. Mesmo quando um membro de uma fam\u00edlia est\u00e1 doente ou com dor, eles querem que seus cuidadores saiam, se divirtam e metabolizem toda a frustra\u00e7\u00e3o e a dor. Isso nos torna mais capazes de servir e estar presentes. Isso nos lembra o que \u00e9 a \u201cluz\u201d, para que possamos lev\u00e1-la a lugares onde ela est\u00e1 fraca ou se foi.<\/p>\n<p>Alegria, admira\u00e7\u00e3o, sexo, dan\u00e7a, arte s\u00e3o nossas formas de metabolizar, processar, compostar a ang\u00fastia \u2014 em vez de nos afundarmos nela. Como a banda de jazz em um funeral de Nova Orleans, virando a esquina e mudando subitamente de um canto f\u00fanebre para uma catarse dan\u00e7ante e celebrat\u00f3ria. \u00c9 como se estivessem processando e transformando a energia, ditando o ritmo e conduzindo os enlutados e o falecido para o pr\u00f3ximo lugar. \u201cN\u00f3s dan\u00e7amos no funeral dele\u201d n\u00e3o significa que o odi\u00e1vamos, mas que o am\u00e1vamos. Ainda amamos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, somos membros do organismo humano maior, ou do maior organismo do planeta, da vida, ou do pr\u00f3prio cosmos, portanto essas experi\u00eancias de \u00eaxtase, compaix\u00e3o ou admira\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o apenas nossas. N\u00e3o estamos apenas nos restaurando para a pr\u00f3xima luta. Estas s\u00e3o oportunidades para metabolizarmos o trauma maior, a dor, a confus\u00e3o, a m\u00e1goa. Ou pense assim: com tanta merda horr\u00edvel acontecendo ao nosso redor, como ousamos negar a beleza profunda da experi\u00eancia engajada quando ela nos \u00e9 oferecida?<\/p>\n<p>Se uma \u00e1rvore est\u00e1 morrendo, ou sob ataque de um parasita, com muitas de suas folhas e galhos em decomposi\u00e7\u00e3o, o que dizer das folhas nas extremidades distantes da copa? Aquelas que est\u00e3o banhadas de luz solar, e ainda saud\u00e1veis o suficiente para absorv\u00ea-la, fotossintetizar e converter essa energia em nutri\u00e7\u00e3o para o resto da \u00e1rvore? Essas folhas deveriam se encolher diante do processo glorioso e realizar a respira\u00e7\u00e3o em um estado comprometido de desespero, ou abra\u00e7ar a boa sorte de sua circunst\u00e2ncia e aceitar plenamente a nutri\u00e7\u00e3o em nome de toda a \u00e1rvore?<\/p>\n<p>Afinal, o resto da \u00e1rvore quer clorofila ou glicose ou seja l\u00e1 o que for, contaminada pelo equivalente arb\u00f3reo de horm\u00f4nios do estresse, ansiedade e mais tristeza? Ou essas partes que sofrem querem os sinais mais saud\u00e1veis, transmitidos com alegria e encorajadores de vida, crescimento e sustentabilidade daquelas partes que s\u00e3o saud\u00e1veis? Mesmo que essas partes continuem seguindo sem elas? Quando voc\u00ea morrer um dia, ser\u00e1 mais importante que seus filhos estejam verdadeiramente felizes e prosperando do que que tenham chorado o suficiente por voc\u00ea. Isso \u00e9 o que ajudar\u00e1 voc\u00ea a partir.<\/p>\n<p>Mas divago.<\/p>\n<p>Pensei sobre tudo isso quando estava no museu com uma amiga outro dia. Est\u00e1vamos na nova ala do Museu Metropolitan com arte da \u00c1frica, das Am\u00e9ricas antigas e do Pac\u00edfico. E toda a experi\u00eancia foi transcendente. Talvez seja a palavra errada. Foi som\u00e1tica, encarnadora, aterradora. Sim, tamb\u00e9m com a culpa, vergonha e tristeza inerentes sobre quantos desses artefatos foram removidos das pessoas e dos lugares aos quais pertenciam \u2014 talvez sob coer\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E todos esses fatores \u2014 a beleza e as circunst\u00e2ncias que levaram \u00e0quele momento \u2014 me moveram para uma experi\u00eancia realmente profunda de aprecia\u00e7\u00e3o. Por um lado, apenas estar naqueles espa\u00e7os tremendos, tetos altos, luz natural, e cercado por outros humanos curiosos, at\u00e9 mesmo guardas do museu que n\u00e3o queriam nada al\u00e9m de nos ajudar a encontrar o que procur\u00e1vamos e alcan\u00e7ar estados de admira\u00e7\u00e3o. Com todos os seus problemas \u2014 e vou chegar a alguns deles \u2014 esta era a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental em seu melhor. Uma institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica de pague-quanto-quiser que funcionava t\u00e3o bem que transbordava.<\/p>\n<p>Mas foi o trabalho em si \u2014 ou talvez eu deva cham\u00e1-lo de brincadeira em si \u2014 que realmente me tocou. A maneira como esses diversos povos expressavam sua realidade, sua representa\u00e7\u00e3o da forma humana e seu lugar na natureza. Nada era colocado em um pedestal ou separado. Tudo estava dentro e era parte do tecido natural. N\u00e3o que essas pessoas n\u00e3o tenham vivido vidas mais dif\u00edceis do que a maioria de n\u00f3s pode imaginar, mas elas tamb\u00e9m expressavam a alegria inata da encarna\u00e7\u00e3o, uma consci\u00eancia da natureza c\u00edclica desta realidade. Havia progresso e movimento, mas n\u00e3o do tipo que entendemos em uma cultura inteiramente linear. N\u00e3o um progresso em dire\u00e7\u00e3o a algum futuro novo e melhorado, longe deste momento. Era o progresso da itera\u00e7\u00e3o, de obter um conhecimento mais profundo do que \u00e9, e aprender a se relacionar e trocar energia com tudo o mais \u2013 em vez de tentar dom\u00e1-lo ou domin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Artefato ap\u00f3s artefato, cada um emanando a alegria inata e pressuposta de fazer parte desta dan\u00e7a \u00e0s vezes dolorosa, \u00e0s vezes ext\u00e1tica.<\/p>\n<p>Ocasionalmente, eu espreitava al\u00e9m de um arco para uma galeria vizinha de est\u00e1tuas gregas ou romanas. E nada contra os antigos gregos ou nosso pr\u00f3prio caminho civilizacional, mas me senti bastante repelido pela obra. Eles tinham mais precis\u00e3o anat\u00f4mica objetificada, com certeza. Mas era quase como uma competi\u00e7\u00e3o para ver quem poderia melhor identificar e representar perfeitamente uma forma humana idealizada, mantendo simultaneamente uma verossimilhan\u00e7a perfeita. Um pouco como um efeito especial caro de filme da Marvel ou um <em>deep fake<\/em> de avatar de IA. Hiper-real de modo imposs\u00edvel. E as pr\u00f3prias formas foram colocadas em pedestais. Para serem admiradas l\u00e1 em cima por sua capacidade de elevar-se da mat\u00e9ria terrena para modelos puros de beleza idealizada, representados em detalhes perfeitamente objetificados.<\/p>\n<p>No entanto, elas eram bastante mortas. Apesar de toda sua precis\u00e3o e verossimilhan\u00e7a \u2014 como uma <em>Gray\u2019s Anatomy <\/em>dos deuses \u2014 elas perderam a ess\u00eancia. Em seu esfor\u00e7o para aperfei\u00e7oar a forma humana distinta da natureza, eles acabaram sacrificando a ess\u00eancia viva de seus sujeitos por esses ideais objetificados. T\u00e3o diferentes da carne e da alma quanto as palavras escritas s\u00e3o da fala humana ou, melhor ainda, quanto um resumo de email \u00e9 de grunhidos e gemidos.<\/p>\n<p>Estou voltando para a celebra\u00e7\u00e3o fecunda e regenerativa do amor, da vida, da morte e do renascimento. \u00c9 disso que preciso agora, enquanto observo minha civiliza\u00e7\u00e3o finalmente colher os retornos c\u00e1rmicos de s\u00e9culos de guerra, escravid\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, e lentamente acordar para a verdade de que estivemos em uma miss\u00e3o equivocada de escapar da pr\u00f3pria fonte de toda alegria e florescimento.<\/p>\n<p>E uma galeria adiante daquela, era tudo aquela coisa europeia de Jesus. Deixando o pr\u00f3prio Jesus de lado, a arte e as representa\u00e7\u00f5es curadas para aquela galeria em particular eram sobre escurid\u00e3o, dor e sofrimento. Tristeza perp\u00e9tua. Por que me abandonaste? E naquele momento, eu senti: a vida j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil o suficiente. Estou voltando para a celebra\u00e7\u00e3o fecunda e regenerativa do amor, da vida, da morte e do renascimento. \u00c9 disso que preciso agora, enquanto observo minha civiliza\u00e7\u00e3o finalmente colher os retornos c\u00e1rmicos de s\u00e9culos de guerra, escravid\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, e lentamente acordar para a verdade de que estivemos em uma miss\u00e3o equivocada de escapar da pr\u00f3pria fonte de toda alegria e florescimento.<\/p>\n<p>Encontrar uma bolsa de \u00eaxtase ao longo do caminho, mesmo nas circunst\u00e2ncias mais terr\u00edveis, n\u00e3o \u00e9 apenas um privil\u00e9gio, mas uma obriga\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caminho para nos reconectarmos e reconectar todos ao mundo que tentamos e falhamos em controlar. Seu profundo senso de retid\u00e3o, enraizamento e fluxo n\u00e3o \u00e9 um indulgence, mas uma b\u00fassola.<\/p>\n<p>Joseph Campbell foi rotulado como um <em>New Ager<\/em> in\u00fatil por resumir essa sabedoria comum como \u201csiga seu \u00eaxtase\u201d. Aleister Crowley tentou express\u00e1-la como \u201cfaze o que tu queres\u201d. Ram Dass nos disse para \u201cestar aqui agora\u201d, o que incluiria, \u00e9 claro, os momentos de alegria.<\/p>\n<p>E eu entendo. Soa e parece ego\u00edsta. Siga seu \u00eaxtase? E se nosso \u00eaxtase for algum tipo de momento canibal\u00edstico tipo <em>Yellow Jackets<\/em>, banquetear-se com a carne e a dor de outro. E, em alguns casos, verdade seja dita, \u00e0s vezes \u00e9. Tem que comer. Tem que cortar uma \u00e1rvore. Tem que tomar para viver. Bem, pelo menos podemos fazer que nem Hiawatha e agradecer \u00e0 \u00e1rvore por oferecer sua madeira para nossa canoa, e ao p\u00e1ssaro por contribuir com seu corpo para nosso metabolismo. Se apenas fizermos isso conscientemente, n\u00e3o estamos tanto tomando, mas participando dessa coisa toda que est\u00e1 acontecendo dentro e ao nosso redor.<\/p>\n<p>Quanto mais apreciamos, menos queremos tomar \u2013 menos precisamos tomar. Porque a forma como aprendemos a assimilar em nossa sociedade? Tem menos a ver com participar dos grandes ciclos das coisas do que com extrair o suficiente para nos isolarmos desses ciclos. Congelamos, armazenamos, economizamos e investimos como valores admirados, tributos \u00e0 nossa capacidade de nos tornarmos independentemente ricos. Quanto mais coisas ou valor conseguimos extrair e isolar do grande turbilh\u00e3o das coisas, mais seguros nos sentimos. Preferimos colocar algo natural em um pedestal como uma deusa que podemos possuir ou pelo menos adorar, em vez de um ser vivo com seu pr\u00f3prio esp\u00edrito com o qual podemos nos misturar.<\/p>\n<p>Assim, passamos a equiparar momentos de alegria com isolamento e ego\u00edsmo ou, pior, com a d\u00edvida c\u00e1rmica por qualquer coisa terr\u00edvel que devemos ter feito \u2013 pelo menos indiretamente \u2013 para aproveitar aquele n\u00e9ctar doce.<\/p>\n<p>Mas eu lhe prometo: se voc\u00ea est\u00e1 realmente saboreando esse n\u00e9ctar doce, apreciando-o em toda a sua ess\u00eancia, deixando que ele o abra para a consci\u00eancia de toda a cadeia do ser que o trouxe at\u00e9 voc\u00ea, com a plena no\u00e7\u00e3o de que voc\u00ea n\u00e3o o possui nem o controla, de que ele est\u00e1 apenas passando por voc\u00ea, usando-o para se transformar em algum outro estado? Se a sua experi\u00eancia de \u00eaxtase \u00e9 compat\u00edvel e complementar a essa compostagem e regenera\u00e7\u00e3o de tudo? Ent\u00e3o est\u00e1 mais do que certo.<\/p>\n<p>Por todos os meios: deleite-se naquela bolsa de alegria quando a encontrar. Isso \u00e9 bom para todos e para tudo.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Elogio ao desfrute da vida, num mundo brutal\u00a0 appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rodrigo-paz-vence-na-bolivia-e-encerra-20-anos-de-hegemonia-do-mas-no-poder\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/176090531968f5486764b5b_1760905319_3x2_md-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Rodrigo Paz vence na Bol\u00edvia e encerra 20 anos de ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pt-vota-a-favor-da-urgencia-para-projeto-sobre-criterios-de-repasses-da-lei-aldir-blanc-para-a-cultura\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">PT vota a favor da urg\u00eancia para projeto sobre cri...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nos-existimos-nos-resistimos-integrante-da-marcha-das-mulheres-destaca-pauta-de-reivindicacoes-e-mobilizacao-do-domingo-8\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u2018N\u00f3s existimos, n\u00f3s resistimos\u2019: integrante da Mar...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-e-noticia-no-jornal-tvt-news-primeira-edicao-26-06-2025\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/jornal_tvt_new-27-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O que \u00e9 not\u00edcia no Jornal TVT News Primeira Edi\u00e7\u00e3o...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seria a alegria alienante, face ao sofrimento coletivo? Em meio \u00e0 visita a um museu, um cr\u00edtico do capitalismo conclui que n\u00e3o. A luta n\u00e3o necessita da culpa. E nos momentos raros de plenitude est\u00e3o sinais de que as mis\u00e9rias de hoje passar\u00e3o<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/elogio-ao-desfrute-da-vida-num-mundo-brutal\/\">Elogio ao desfrute da vida, num mundo brutal\u00a0<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":46828,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5511,15857,15858,15859,5499,15860,15861],"tags":[],"class_list":["post-46827","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capa","category-esperanca-coletiva","category-felicidade","category-metabolizacao-da-dor","category-poeticas","category-restauracao-do-desejo","category-sofrimento-coletivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46827","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46827"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46827\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46828"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46827"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46827"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46827"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}