{"id":46842,"date":"2025-08-22T16:18:49","date_gmt":"2025-08-22T19:18:49","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/filmes-de-super-heroi-e-possivel-escapar-do-cinismo\/"},"modified":"2025-08-22T16:18:49","modified_gmt":"2025-08-22T19:18:49","slug":"filmes-de-super-heroi-e-possivel-escapar-do-cinismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/filmes-de-super-heroi-e-possivel-escapar-do-cinismo\/","title":{"rendered":"Filmes de super-her\u00f3i: \u00e9 poss\u00edvel escapar do cinismo?"},"content":{"rendered":"<p><span>O cinema de super-her\u00f3is sempre foi um espa\u00e7o privilegiado para o pastiche e a nostalgia, colagem acr\u00edtica de remendos culturais de outras \u00e9pocas cujas miragens devemos celebrar e desejar ao mesmo tempo \u2013 caracter\u00edsticas formais do que Fredric Jameson descreveria como a l\u00f3gica cultural do capitalismo tardio. Assim como <\/span><i><span>Star Wars<\/span><\/i><span> e sua rela\u00e7\u00e3o com s\u00e9ries de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na TV estadunidense dos anos 1930, os filmes de super-her\u00f3is s\u00e3o objetos complexos na medida em que, \u201cem certo primeiro n\u00edvel, crian\u00e7as e adolescentes podem aceitar as aventuras diretamente, enquanto o p\u00fablico adulto est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de satisfazer um desejo mais profundo e efetivamente nost\u00e1lgico de retornar a esse per\u00edodo anterior e viver uma vez mais seus velhos e estranhos artefatos est\u00e9ticos\u201d.[1] Neste caso, hist\u00f3rias em quadrinhos sobre personagens superpoderosos e fantasiados que, desde os anos 1930, n\u00e3o param de fascinar o p\u00fablico nos EUA e al\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span>E o que tanto ofereciam essas hist\u00f3rias para que o cinema as retomasse compulsivamente? Para al\u00e9m das \u00f3bvias fantasias de poder masculinistas \u2013 h\u00e1 d\u00e9cadas apelando para homens que, alienados de seu pr\u00f3prio corpo vendido para a produ\u00e7\u00e3o de riqueza alheia, devaneiam com a possibilidade de esmurrar seus problemas \u2013 h\u00e1 certa promessa, agora degradada, similar \u00e0 do pr\u00f3prio romance enquanto forma. Seria a promessa burguesa de que o sujeito, em sua jornada pela vida, pode transformar a si mesmo e ao mundo, conectando-se com os seus e reconciliando-se com uma realidade que lhe \u00e9 estranha. Promessa talvez boba, imposs\u00edvel de se cumprir plenamente no capitalismo; mas n\u00e3o deixa de ser atraente se imaginar poderoso, inconfund\u00edvel e idiossincr\u00e1tico, capaz de resolver os problemas do mundo com as pr\u00f3prias m\u00e3os, sensa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m reificada como mercadoria.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-229090\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/super-heroi.webp\" alt='Imagem de \"Quarteto Fant\u00e1stico: primeiros passos\". &lt;br&gt; (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o) ' width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/super-heroi.webp 1280w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/super-heroi-300x169.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/super-heroi-1024x576.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/super-heroi-768x432.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/super-heroi-150x84.webp 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/super-heroi-750x422.webp 750w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/super-heroi-1140x641.webp 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Imagem de \u201cQuarteto Fant\u00e1stico: primeiros passos\u201d. <br \/>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>O Universo Cinem\u00e1tico da Marvel (MCU) bagun\u00e7a a receita ao consolidar o cinismo como caracter\u00edstica das hist\u00f3rias de super-her\u00f3i. Com seus olhares ir\u00f4nicos e piadas autodepreciativas que censuram qualquer ilus\u00e3o de grandiosidade, os filmes da Marvel t\u00eam h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada tentado negar compulsivamente a possibilidade de que seus filmes tenham outro valor que n\u00e3o o da mercadoria \u2013 marca registrada da ind\u00fastria cultural, como j\u00e1 diziam Adorno e Horkheimer. N\u00e3o deixa de ser not\u00e1vel como foi bem-sucedida a tentativa. Eliminado (na medida do poss\u00edvel) o sentido, mas n\u00e3o superado o super-her\u00f3i enquanto subg\u00eanero, resta o refor\u00e7o ao ritual enquanto forma e \u00e0 ilus\u00e3o de que \u201cpor aqui ningu\u00e9m mais \u00e9 bobo\u201d para acreditar nessas infantilidades. S\u00f3 nos resta pagar para ver bilion\u00e1rios, deuses e agentes secretos sa\u00edrem na m\u00e3o vez ap\u00f3s outra para restaurar a ordem estabelecida, sempre bem assessorados pelo complexo industrial-militar dos EUA <\/span><span>dentro e fora do mundo narrado<\/span><span>. Sequer s\u00e3o capazes de sentir ou gerar tes\u00e3o; sob a hegemonia absoluta do capital, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para tais excessos e irracionalidades, e seus corpos s\u00e3o meras m\u00e1quinas de desempenho otimizado para punir os inimigos da ordem. Quest\u00e3o inclusive tematizada em <\/span><i><span>Vingadores 2: A Era de Ultron<\/span><\/i><span>, no qual o Homem de Ferro quase destr\u00f3i o mundo em busca de uma desculpa para abandonar o emprego enquanto Hulk e a Vi\u00fava Negra sofrem por n\u00e3o verem possibilidade de futuro juntos para al\u00e9m do trabalho. Cr\u00edtica preventiva \u00e0s pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o chega a lugar algum e, por isso mesmo, legitima o criticado. Resta a m\u00e1xima: <\/span><i><span>sobreviva a qualquer custo<\/span><\/i><span>, <\/span><i><span>trabalhe<\/span><\/i><span>, e a sensa\u00e7\u00e3o \u2013 esta talvez a mais importante \u2013 de que qualquer objetivo que n\u00e3o o da pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia \u00e9 uma farsa que nos punir\u00e1 por n\u00e3o pressupor o ego\u00edsmo universal.<\/span><\/p>\n<p><span>Mas este cinismo parece estar dando seus primeiros sinais de esgotamento. N\u00e3o importa o quanto se tente, o mundo se recusa a aceitar que Hist\u00f3ria e pol\u00edtica acabaram ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, que agora s\u00f3 resta sobreviver, e agora sobe ao poder quem vende (ou finge vender) sonhos maiores que a mera manuten\u00e7\u00e3o da ordem. O mesmo parece ser verdadeiro para o cinema[2], e o MCU sofre com os efeitos disso: ap\u00f3s o fim definitivo de Thanos, o vil\u00e3o que moveu este universo ao longo de uma d\u00e9cada \u2013 e o \u00fanico personagem com sonhos maiores do que si mesmo, diga-se de passagem \u2013 a Marvel tem tido dificuldades para atrair seu p\u00fablico ao cinema (ou at\u00e9 ao streaming). Mais do que cansado de super-her\u00f3is, o p\u00fablico parece estar cansado de hist\u00f3rias que, como os trambiques do Vale do Sil\u00edcio, s\u00f3 t\u00eam valor em sua promessa de um futuro no qual o investimento de tanto tempo e dinheiro finalmente valer\u00e1 \u00e0 pena no sentido mais utilit\u00e1rio do termo: o consumo de um desfecho definitivo e reificado em nome do qual tudo que veio antes n\u00e3o passa de meio para um fim.<\/span><\/p>\n<p><span>A Marvel tem tentado reagir ao rev\u00e9s. Com <\/span><i><span>Quarteto Fant\u00e1stico: primeiros passos<\/span><\/i><span>, lan\u00e7ado em julho de 2025, consolida-se sua velha nova alternativa ao cinismo. J\u00e1 ensaiada em filmes recentes como <\/span><i><span>Pantera negra 2<\/span><\/i><span>, <\/span><i><span>Doutor estranho 2<\/span><\/i><span> e <\/span><i><span>Thor 4<\/span><\/i><span>, todos em alguma medida sobre her\u00f3is em crise existencial que encontram sentido na vida ao adotar filhos e sucessores, a promessa de sentido volta \u00e0 fam\u00edlia ideol\u00f3gica e idealizada. <\/span><i><span>Quarteto fant\u00e1stico<\/span><\/i><span> \u00e9 transparente: em seu retrofuturismo nost\u00e1lgico por um passado domesticado \u2013 um modernismo que n\u00e3o fuma \u2013 o filme sup\u00f5e que ansiamos por tempos em que bastavam comerciais de \u201cfam\u00edlia margarina\u201d na TV de tubo para que nos d\u00e9ssemos por satisfeitos com o que nos \u00e9 oferecido. O quarteto \u00e9 mais do que nunca o ep\u00edteto da fam\u00edlia margarina estadunidense, com um casal que engravida sem uma gota de tes\u00e3o em tela, um homem-el\u00e1stico cuja deforma\u00e7\u00e3o corporal jamais \u00e9 espet\u00e1culo e um cunhado mulherengo que s\u00f3 manifesta seus dotes em uma paix\u00e3o plat\u00f4nica por uma entidade c\u00f3smica. Sinal de que a m\u00e1xima dos tempos c\u00ednicos ainda n\u00e3o morreu, e de que ainda n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para <\/span><span>certos excessos<\/span><span>.<\/span><\/p>\n<p><span>De fato, o filme se esfor\u00e7a tanto para criar um conflito entre a integridade da fam\u00edlia nuclear e escusos interesses coletivos que n\u00e3o faltam conservadores reivindicando o filme como \u201cpr\u00f3-vida\u201d. Frente \u00e0 chegada de um deus que pretende devorar o planeta Terra (numa degluti\u00e7\u00e3o et\u00e9rea e mediada pela tecnologia, claro, sem distra\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas), o quarteto tem uma escolha: oferecer ao deus seu filho n\u00e3o nascido ou ter seu mundo destru\u00eddo. Escolhem o filho, \u00e9 claro, e a Terra, ego\u00edsta, ressente-se de seus her\u00f3is por terem escolhido uma gesta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida de bilh\u00f5es. Felizmente, o ressentimento dura pouco, pois um mon\u00f3logo da m\u00e3e conquista a paz mundial e a coopera\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria: \u201cn\u00e3o sacrificaremos nosso filho pelo mundo, mas n\u00e3o sacrificaremos o mundo pelo nosso filho\u201d, proclamando que todo o planeta \u00e9 sua fam\u00edlia. Solu\u00e7\u00e3o meia-boca e t\u00edpica de um est\u00fadio cuja marca registrada \u00e9 o conservadorismo envergonhado que posa de progressista \u2013 como no recente <\/span><i><span>Capit\u00e3o Am\u00e9rica: admir\u00e1vel mundo novo<\/span><\/i><span>, em que a representatividade \u00e9 verniz \u201cprogressista\u201d sobre doses cavalares de excepcionalismo estadunidense e no qual Trump \u00e9 s\u00f3 um pobre coitado temperamental que precisa de uma boa conversa para ser convencido de seus erros. Num \u00faltimo impulso para mostrar a que veio, <\/span><i><span>Quarteto<\/span><\/i><span> termina apostando no poder da maternidade para resolver seus problemas: a Mulher Invis\u00edvel vence o deus Galactus a partir de sua for\u00e7a de vontade para salvar seu filho, e como recompensa \u00e9 ressuscitada pelo beb\u00ea que, aparentemente, tamb\u00e9m \u00e9 deus. <\/span><i><span>Sobreviva<\/span><\/i><span>, <\/span><i><span>trabalhe<\/span><\/i><span>, mas tamb\u00e9m <\/span><i><span>se reproduza<\/span><\/i><span>, pois sua \u00fanica chance de transcender e de encontrar sentido na luta di\u00e1ria para n\u00e3o passar fome \u00e9 arranjar outra boca para alimentar.<\/span><\/p>\n<p><span>O <\/span><i><span>Superman<\/span><\/i><span> de James Gunn, tamb\u00e9m lan\u00e7ado no m\u00eas passado, parece buscar um caminho diferente. Desde sua chegada \u00e0 DC, Gunn tem ruminado em tela o problema do cinismo, contando hist\u00f3rias sobre personagens oportunistas e antissociais que tentam redescobrir sua humanidade em uma realidade cruel enquanto s\u00e3o utilizados como ferramentas pelo governo sujo dos EUA. Para al\u00e9m dos clich\u00eas onipresentes de <\/span><i><span>found family<\/span><\/i><span>, <\/span><i><span>Esquadr\u00e3o suicida<\/span><\/i><span> (2021), <\/span><i><span>Pacificador<\/span><\/i><span> e <\/span><i><span>Comando das Criaturas<\/span><\/i><span> dizem sempre respeito a indiv\u00edduos quebrados que, conectando-se uns com os outros, precisam se voltar contra o governo que os emprega por perceberem que lutar pela justi\u00e7a significa combater a pol\u00edtica interna e externa dos EUA \u2013 s\u00f3 at\u00e9 certo ponto, \u00e9 claro, pois ainda se trata de um blockbuster hollywoodiano.[3] Gunn ficava com o problema em alguma medida ao inv\u00e9s de super\u00e1-lo, reprimi-lo ou legitim\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p><span>No que \u00e9 talvez sua primeira tentativa de efetivamente escapar do cinismo hegem\u00f4nico no g\u00eanero, Gunn evita suas estrat\u00e9gias de conten\u00e7\u00e3o usuais \u2013 as zonas morais cinzentas das <\/span><i><span>black ops<\/span><\/i><span> como forma de representar problemas insol\u00faveis do ponto de vista estadunidense \u2013 e recorre a certo \u201cesquerdismo infantil\u201d para pregar que \u00e9 sim poss\u00edvel acreditar. O Superman deste filme colorido e ensolarado n\u00e3o se preocupa com programas pol\u00edticos ou <\/span><i><span>realpolitik<\/span><\/i><span>, s\u00f3 quer fazer a coisa certa e salvar a vida de todos os seres que puder. H\u00e1 certo humanismo ing\u00eanuo, mas refrescante, num filme no qual o povo tem um senso moral forte o bastante para se opor ao seu pr\u00f3prio governo quando chega a hora; o filme retrata um semideus caipira em rota de colis\u00e3o com os interesses econ\u00f4micos, militares e pol\u00edticos do imp\u00e9rio que o acolheu, n\u00e3o por ter se politizado, mas simplesmente porque \u00e9 o certo a se fazer. Colis\u00e3o que, inclusive, \u00e9 celebrada como triunfo: num filme em que o super-her\u00f3i mais poderoso dos quadrinhos mais apanha do que bate, seus momentos de triunfo inequ\u00edvoco s\u00e3o todos contra representa\u00e7\u00f5es do complexo industrial-militar estadunidense. Fantasia de poder, masculinismo, sim, mas contra tanques de guerra e mercen\u00e1rios armados at\u00e9 os dentes. A pr\u00f3pria vit\u00f3ria final do filme depende menos dos m\u00fasculos de Clark ou de sua disposi\u00e7\u00e3o a decidir sobre a vida e a morte de outros, como nos filmes de Snyder, e mais de sua colabora\u00e7\u00e3o com outros her\u00f3is e uma equipe de jornalistas investigativos que, embora parte de um grande conglomerado, s\u00e3o celebrados em sua disposi\u00e7\u00e3o para levar a p\u00fablico os planos malignos do vil\u00e3o Lex Luthor.<\/span><\/p>\n<p><span>Este, por sua vez, \u00e9 <\/span><span>explicitamente inspirado em Elon Musk<\/span><span>, e n\u00e3o deixa de representar certo desafio \u00e0 celebrada \u201cdemocracia\u201d estadunidense; mas sua rela\u00e7\u00e3o com o Pent\u00e1gono transmite mais continuidade que ruptura, conjunto de conspiradores tramando com vidas alheias. Seu antagonismo transforma em texto o conflito entre os princ\u00edpios de um humanismo rom\u00e2ntico e a racionaliza\u00e7\u00e3o c\u00ednica e instrumentalizante para a qual s\u00f3 importa a efici\u00eancia dos meios. O contraste beira a distin\u00e7\u00e3o formal: aos mocinhos sobram cores e imagina\u00e7\u00e3o, fortalezas de gelo, c\u00e3es voadores e luz solar abundante, enquanto aos vil\u00f5es restam ternos e computadores, pragmatismo e apatia (Ultraman e a Engenheira s\u00e3o t\u00e3o monocrom\u00e1ticos que mais parecem personagens do famigerado \u201cSnyderverso\u201d, diga-se de passagem). Mas mesmo na vilania h\u00e1 um excesso de imagina\u00e7\u00e3o. Luthor esbanja inventividade \u2013 e certa sensibilidade <\/span><i><span>camp<\/span><\/i><span>, por que n\u00e3o? Dimens\u00f5es de bolso, escrit\u00f3rios que viram naves, e at\u00e9 uma criatura horrenda cuja \u00fanica fun\u00e7\u00e3o no filme \u00e9 servir como uma esp\u00e9cie de Caronte no inferno criado por seu mestre, o qual se diverte e trata como arte as pr\u00f3prias perversidades.<\/span><\/p>\n<p><span>S\u00e3o estes excessos que <\/span><i><span>Superman<\/span><\/i><span> parece celebrar acima de qualquer outra coisa. Em sua falta de compromisso com o naturalismo e at\u00e9 princ\u00edpios b\u00e1sicos de narra\u00e7\u00e3o e roteiro, o filme apela \u00e0 nostalgia de quem passou pela experi\u00eancia de comprar um gibi aleat\u00f3rio na banca de jornais e ver sua imagina\u00e7\u00e3o infantil decolar atrav\u00e9s das p\u00e1ginas, mesmo sem entender o que acontecia. Mais do que isso, parece ansiar por tempos em que o esp\u00edrito rom\u00e2ntico, o senso de destino e a esperan\u00e7a podiam ser vendidos e consumidos como mercadoria sem notas de rodap\u00e9 ou piscadelas espertas. Que estes anseios tenham se traduzido em um apoio do Superman \u00e0 causa palestina \u00e9 <\/span><span>menos um m\u00e9rito do blockbuster<\/span><span> e mais um sintoma de que estamos prontos para \u2013 e merecemos \u2013 muito mais.<\/span><\/p>\n<p><em><strong>(*) Andr\u00e9 Kanasiro<\/strong> \u00e9 Editor-chefe e idealizador da revista Zelota. Correspondente internacional da Spectrum Magazine. \u00c9 bi\u00f3logo e mestre em Letras estrangeiras e Tradu\u00e7\u00e3o pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/em><\/p>\n<h6><strong>Notas:<\/strong><\/h6>\n<h6><span>[1] Fredric Jameson, trad. Horacio Pons, El Giro Cultural: Escritos seleccionados sobre el posmodernismo 1983-1998 (Buenos Aires: Manantial, 2019), p. 24<\/span><\/h6>\n<h6><span>[2] Vide o g\u00eanero do apocalipse zumbi: enquanto nos anos 2000 a hegemonia pertencia a The Walking Dead, cinismo feito carne para o qual o ser humano n\u00e3o passa de um animal cruel e ego\u00edsta, desde 2013 reina The Last of Us, na qual acompanhamos um homem branco c\u00ednico e imoral em sua descoberta de que a vida significa mais do que a sobreviv\u00eancia a qualquer custo.<\/span><\/h6>\n<h6><span>[3] Obs.: Thunderbolts*, outro filme recente do MCU, tentou seguir um caminho similar, subindo o tom melodram\u00e1tico e psicologizante. Mas enquanto os her\u00f3is de ocasi\u00e3o dos filmes de Gunn se viam descartados, marginalizados ou sumariamente ignorados na hist\u00f3ria seguinte, os anti-her\u00f3is de Thunderbolts* terminam domesticando a CIA e recebendo o t\u00edtulo de Novos Vingadores. Ao que parece, nenhuma boa a\u00e7\u00e3o permanece sem puni\u00e7\u00e3o na Marvel Studios.<\/span><\/h6>\n<p>O post Filmes de super-her\u00f3i: \u00e9 poss\u00edvel escapar do cinismo? apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eua-podem-abandonar-negociacoes-sobre-guerra-da-ucrania-diz-rubio-nao-e-nossa-guerra\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">EUA podem abandonar negocia\u00e7\u00f5es sobre guerra da Uc...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sao-paulo-florianopolis-porto-alegre-e-rio-tem-cestas-basicas-mais-caras\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cesta-basica_Marcos-Oliveira_Agencia-Senado-Fonte-Agencia-Senado-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">S\u00e3o Paulo, Florian\u00f3polis, Porto Alegre e Rio t\u00eam c...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ao-desafiar-o-fascismo-jornalistas-se-tornaram-alvos-de-israel\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image1170x530cropped-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ao desafiar o fascismo, jornalistas se tornaram al...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-iguala-fintechs-a-bancos-apos-operacao-contra-o-crime-organizado\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/reag-investimentos-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Governo iguala fintechs a bancos ap\u00f3s opera\u00e7\u00e3o con...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema de super-her\u00f3is sempre foi um espa\u00e7o privilegiado para o pastiche e a nostalgia, colagem acr\u00edtica de remendos culturais de outras \u00e9pocas cujas miragens devemos celebrar e desejar ao mesmo tempo \u2013 caracter\u00edsticas formais do que Fredric Jameson descreveria como a l\u00f3gica cultural do capitalismo tardio. Assim como Star Wars e sua rela\u00e7\u00e3o com [\u2026]<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/cultura\/filmes-de-super-heroi-e-possivel-escapar-do-cinismo\/\">Filmes de super-her\u00f3i: \u00e9 poss\u00edvel escapar do cinismo?<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":46843,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[488,309,15882,1172,15883,15884,15885,15886],"tags":[],"class_list":["post-46842","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema","category-cultura","category-dc","category-filmes","category-marvel","category-quarteto-fantastico","category-super-heroi","category-vingadores"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46842","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46842"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46842\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46843"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}