{"id":46960,"date":"2025-08-23T12:00:42","date_gmt":"2025-08-23T15:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/genocidio-e-racismo-livro-revela-origens-da-hegemonia-politica-e-economica-de-sao-paulo\/"},"modified":"2025-08-23T12:00:42","modified_gmt":"2025-08-23T15:00:42","slug":"genocidio-e-racismo-livro-revela-origens-da-hegemonia-politica-e-economica-de-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/genocidio-e-racismo-livro-revela-origens-da-hegemonia-politica-e-economica-de-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Genoc\u00eddio e racismo: livro revela origens da hegemonia pol\u00edtica e econ\u00f4mica de S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p><em>Holocausto Paulista: o genoc\u00eddio dos kaingang sob o mito da paulistanidade <\/em>(Telha, 2025), de Leonardo Sacramento, \u00e9 uma daquelas leituras que viram a chave da nossa percep\u00e7\u00e3o sobre a realidade, sobretudo para aqueles que cresceram ouvindo que S\u00e3o Paulo \u00e9 a \u201clocomotiva do pa\u00eds\u201d. A partir do genoc\u00eddio dos kaingang, etnia ind\u00edgena que ocupou entre 30% e 40% do estado paulista at\u00e9 ser dizimada no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, o autor mostra como a elite paulista construiu um projeto de hegemonia pol\u00edtica e econ\u00f4mica ancorada em uma teoria racial e um arcabou\u00e7o jur\u00eddico que justificava pr\u00e1ticas genocidas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender a acumula\u00e7\u00e3o de capitais no Brasil desvinculado de processo de genoc\u00eddio. E isso se d\u00e1 em qualquer estado, porque S\u00e3o Paulo, de certa forma, construiu o paradigma para o processo de ocupa\u00e7\u00e3o do solo ao longo do s\u00e9culo 20\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A <strong>Opera Mundi<\/strong>, ele contou que o tema surgiu ao ler uma nota de rodap\u00e9, que mencionava as chacinas no Noroeste paulista durante as pesquisas sobre a classe dominante brasileira enquanto escrevia seu outro livro O<em> Nascimento da Na\u00e7\u00e3o: como o liberalismo produziu o pro-fascismo brasileiro<\/em>.<\/p>\n<p>Ao buscar um mapa da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo de 1868, Sacramento encontrou uma extensa regi\u00e3o denominada \u201cterrit\u00f3rios habitados por ind\u00edgenas ferozes\u201d. Em outro mapa, publicado 10 anos depois, o mesmo territ\u00f3rio era classificado como \u201cterrenos despovoados\u201d. \u201cIsso chamou a minha aten\u00e7\u00e3o, porque o grosso dos ataques contra os povos ind\u00edgenas ocorreram no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, e a informa\u00e7\u00e3o do mapa demarcava um apagamento epistemol\u00f3gico pr\u00e9vio ao genoc\u00eddio\u201d.<\/p>\n<p><strong>Leia a entrevista na \u00edntegra:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Opera Mundi: quem eram os kaingang?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leonardo Sacramento<\/strong>: h\u00e1 uma longa discuss\u00e3o sobre a origem dos kaingang, porque no final do s\u00e9culo 19 e come\u00e7o do 20 havia uma classifica\u00e7\u00e3o que dividia os ind\u00edgenas entre tupis e tapuias. Os tupis seriam os civiliz\u00e1veis e uma das g\u00eaneses da forma\u00e7\u00e3o do verdadeiro brasileiro; j\u00e1 os tapuias eram considerados selvagens, os que n\u00e3o se deixaram ser catequizados e fugiram para o sert\u00e3o. Essa ideia era hegem\u00f4nica e sustentada, n\u00e3o s\u00f3 pelos paulistas, mas pela intelectualidade que se organizava em torno do Instituto Hist\u00f3rico Geogr\u00e1fico Brasileiro (IHGB).<\/p>\n<p>Os kaingang, tamb\u00e9m chamados de \u201ccoroados\u201d em fun\u00e7\u00e3o do ornamento que usavam, foram aleatoriamente classificados como tapuias, embora fossem do ponto de vista antropol\u00f3gico descendentes dos tupis. Eles habitavam uma extensa regi\u00e3o que passa por Bauru, Presidente Prudente at\u00e9 Ara\u00e7atuba e viviam basicamente em ranchos, com 140 a 230 pessoas reunidas.<\/p>\n<p>Foi essa classifica\u00e7\u00e3o racial que permitiu que eles fossem exterminados a partir de um ordenamento jur\u00eddico constru\u00eddo pelos pr\u00f3prios fazendeiros e pelas principais fam\u00edlias do estado de S\u00e3o Paulo que obtiveram a posse na regulamenta\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><strong>O interesse era a terra roxa, o caf\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>Na vis\u00e3o da \u00e9poca, a terra que n\u00e3o fosse utilizada economicamente n\u00e3o tinha fun\u00e7\u00e3o social e a \u00fanica forma de utilizar economicamente era plantando, produzindo e comercializando, no caso, o caf\u00e9. No entanto, h\u00e1 um problema pol\u00edtico mais importante do que isso.<\/p>\n<p>A classe dominante paulista construiu um conjunto muito significativo de institui\u00e7\u00f5es com o objetivo de rivalizar com as institui\u00e7\u00f5es nacionais. Como existia o Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro, ela criou o Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de S\u00e3o Paulo. Havia a Academia Brasileira de Letras, ent\u00e3o criou a Academia Paulista de Letra e assim por diante.<\/p>\n<p>Isso porque a classe dominante paulista tinha uma teoria racial sobre si. Segundo essa teoria, os paulistas seriam superiores porque eles seriam descendentes exclusivamente da m\u00e3e tupi, sempre da mulher, com o pai portugu\u00eas. Assim, eles se diferenciavam dos demais brasileiros, sobretudo os nordestinos, descendentes dos tapuias e dos africanos.<\/p>\n<p>Sob essa perspectiva, os paulistas estariam fadados a construir uma sociedade desenvolvida nos moldes europeus e, neste sentido, os territ\u00f3rios do estado de S\u00e3o Paulo se tornavam vitais nessa empreitada adotada pelo governo de Vicente Azevedo (1888-1889). Os paulistas entendiam que n\u00e3o havia possibilidades de construir o estado de S\u00e3o Paulo e se portar como uma elite pioneira da classe dominante brasileira, enquanto n\u00e3o dominassem esse espa\u00e7o vital da paulistanidade em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Como se davam essas persegui\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Havia um m\u00e9todo. Os chamados \u201cca\u00e7adores de ind\u00edgenas\u201d visavam eliminar a maior quantidade poss\u00edvel de pessoas e criavam, para isso, a ideia de que as kaingang eram os criadores do conflito, o que \u00e9 caracter\u00edstico de uma vis\u00e3o supremacista que pretende eliminar um grupo social. Em geral, eles iam em ca\u00e7ada, em grupo e procuravam atacar \u00e0 noite, porque teriam menos resist\u00eancia, embora ela fosse nula. Pouqu\u00edssimos matadores eram atingidos ou morriam. Eles entravam nos ranchos nas primeiras horas da manh\u00e3 e procuravam matar a maior quantidade poss\u00edvel de pessoas, depois queimavam os corpos.<\/p>\n<p>O memorialista Amador Cobra tem um relato que merece a leitura. Ele diz assim:<\/p>\n<p>\u201cEncontrando-se com as \u00edndias, a umas aprisionam, a outras matam, bem como os indiozinhos, aos quais conta-se que chegavam a levantar do ch\u00e3o ou da cama e atir\u00e1-los para o ar e espet\u00e1-los em ponta de faca. Outra vez, tomavam-nos pelos p\u00e9s e davam com as suas cabecinhas nos paus, partindo-as. As \u00edndias gr\u00e1vidas, rasgavam-lhes o ventre e depois de finda a carnificina, amontoavam os cad\u00e1veres sobre os quais lan\u00e7am fogo, bem como aos ranchos. Variando de t\u00e1tica de quando em vez, nem sempre impunham o fogo; mas deixavam subst\u00e2ncias venenosas nos utens\u00edlios de cozinha e nos alimentos ali guardados para que fosse vitimado quem porventura sobrevivesse. Feito isso, retiravam-se com os prisioneiros, geralmente s\u00f3 mulheres, um outro rapazinho que o chefe conduzia para a fazenda na situa\u00e7\u00e3o de sendo escravizados\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um ponto importante porque eles viviam disso, fazia parte da economia da regi\u00e3o o processo de escraviza\u00e7\u00e3o. Normalmente as sobreviventes eram mulheres fadadas \u00e0 viol\u00eancia sexual e ao casamento for\u00e7ado com algum homem \u201cdito civilizado\u201d, naquela no\u00e7\u00e3o de \u201c\u00edndia pega no la\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p><strong>Havia alguma rea\u00e7\u00e3o contra essas mortes na \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, havia uma imputabilidade sobre assassinatos dos tapuias. N\u00e3o era considerado crime mat\u00e1-los. Ali\u00e1s, pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 um decreto de 1905 que autoriza a pr\u00f3pria Comiss\u00e3o Geogr\u00e1fica e Geol\u00f3gica de S\u00e3o Paulo a matar tapuias ou a utilizar armas contra eles. Existe um ordenamento jur\u00eddico do ponto de vista da matan\u00e7a, outro ordenamento jur\u00eddico em termos de posse e regulamenta\u00e7\u00e3o das terras enquanto propriedade privada e uma teoria racial na constru\u00e7\u00e3o de uma ideia de paulistanidade. \u00c9 um genoc\u00eddio.<\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-229118\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sacramento.jpg\" alt=\"\" width=\"725\" height=\"452\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sacramento.jpg 725w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sacramento-300x187.jpg 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto-sacramento-150x94.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 725px) 100vw, 725px\"><figcaption>Em \u2018Holocausto Paulista\u2019, Leonardo Sacramento fala do genoc\u00eddio dos kaingang, etnia ind\u00edgena que ocupou 40% do estado at\u00e9 ser dizimada no come\u00e7o do s\u00e9culo 20<br \/>Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quando acontece a Independ\u00eancia do Brasil, o Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio escreve dois textos, um sobre a emancipa\u00e7\u00e3o dos escravos africanos e outra sobre os ind\u00edgenas. No caso da escraviza\u00e7\u00e3o, ele defendia a aboli\u00e7\u00e3o gradual e uma esp\u00e9cie de reforma agr\u00e1ria entendendo a quest\u00e3o do povoamento de um pa\u00eds com as dimens\u00f5es continentais do pa\u00eds. No caso dos ind\u00edgenas, ele vai classific\u00e1-los como pregui\u00e7osos que deveriam ser educados, inclusive, ele defendia a cria\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica em que homens brancos se casassem e tivessem filhos com mulheres ind\u00edgenas. Na verdade, \u00e9 um texto sobre elimina\u00e7\u00e3o. Isso criou um arcabou\u00e7o jur\u00eddico no Imp\u00e9rio que instituiu a no\u00e7\u00e3o jur\u00eddica sobre o ind\u00edgena como incapaz.<\/p>\n<p>No C\u00f3digo Civil de 1916, o incapaz n\u00e3o podia ter propriedade privada. O ind\u00edgena, assim como o escravo e o liberto, n\u00e3o podia ter terras. Ele sempre foi considerado incapaz juridicamente e n\u00e3o tinha um estatuto pr\u00f3prio, dependendo exclusivamente da decis\u00e3o dos fazendeiros. Mesmo que se tivesse feito dinheiro para comprar terras, n\u00e3o ia nunca conseguir compr\u00e1-las. Era considerado \u201cing\u00eanuo\u201d e essa no\u00e7\u00e3o de ingenuidade, do ponto de vista cognitivo racial, mediava as no\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas para o africano e os povos origin\u00e1rios brasileiros.<\/p>\n<p>A\u00ed chegam os imigrantes europeus e houve uma grande promo\u00e7\u00e3o de distribui\u00e7\u00e3o de lotes de terras dentro da pol\u00edtica de embranquecimento da popula\u00e7\u00e3o. A no\u00e7\u00e3o jur\u00eddica brasileira de propriedade privada sempre foi restrita a brancos. Isso chama-se segrega\u00e7\u00e3o. Quando a gente analisa detidamente os dados e o ordenamento jur\u00eddico, voc\u00ea percebe literalmente a estrutura\u00e7\u00e3o segregacionista.<\/p>\n<p><strong>E a Igreja na \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p>Naquele momento, n\u00e3o eram mais os aldeamentos jesu\u00edticos, mas aldeamentos religiosos que permaneceram ao longo de todo o s\u00e9culo 19. No entanto, com a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, houve uma perspectiva bastante anticlerical. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1891 deu todas as prerrogativas para que as prov\u00edncias arbitrassem como quisessem sobre as terras. Ent\u00e3o, com a retirada dos religiosos abriu-se uma conjuntura ideal para o avan\u00e7o militarizado sobre as terras ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, quem controlava o Sistema de Prote\u00e7\u00e3o dos \u00cdndios (SPI) eram os tenentistas e positivistas que receberam um apoio impl\u00edcito dos religiosos para a cria\u00e7\u00e3o dos aldeamentos que passaram a ser controlados pela classe dominante por d\u00e9cadas. A\u00ed, eles literalmente \u201cpassaram o rodo\u201d. Assassinaram o quanto puderam e se apossaram das terras fundando as cidades.<\/p>\n<p>Vale lembrar que, no s\u00e9culo 19, o Estado de S\u00e3o Paulo era econ\u00f4mica e politicamente insignificante e com poucos munic\u00edpios. S\u00e3o Paulo passou a ter import\u00e2ncia em fun\u00e7\u00e3o do ciclo de caf\u00e9 a partir de 1870, culminando no auge em 1880, quando de fato assumiu a hegemonia econ\u00f4mica. A\u00ed vemos a disputa pela hegemonia pol\u00edtica com os republicanos cariocas, que os paulistas chamavam de \u201cjacobinos\u201d, por serem populares e revolucion\u00e1rios. Dessa disputa ganhou o republicanismo escravista, digamos assim, porque S\u00e3o Paulo foi o \u00faltimo que abandonou a escravid\u00e3o. Eles defenderam o quanto puderam.<\/p>\n<p>\u00c9 essa elite paulista que vai se autoproclamar o suprassumo da modernidade, at\u00e9 porque ela se via como europeia. Mas, vale lembrar que tudo isso \u00e9 uma lenda. Havia escravo africano no estado de S\u00e3o Paulo; escravo de tradi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena em outras prov\u00edncias. \u00c9 tudo uma grande falsifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E a imprensa, como isso era noticiado na \u00e9poca?<\/strong><\/p>\n<p>O jornal mais importante era <em>A Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo<\/em>, depois chamada <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, um ve\u00edculo muito envolvido na economia da escravid\u00e3o que passou a se portar, sobretudo no final do s\u00e9culo 19, como uma institui\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Lembre-se que n\u00e3o havia academia.<\/p>\n<p><em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em> financiava campanhas como a do <em>Sert\u00f5es<\/em>\u00a0do Euclides da Cunha que, por sua vez, era do conselho do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de S\u00e3o Paulo. Foi l\u00e1 que ele leu pela primeira vez parte dos <em>Sert\u00f5es<\/em>, em1898. <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em> se portava como uma institui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, intelectual e acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 parte dessa constru\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, n\u00e3o era apenas normal, mas o jornal era um dos promotores da ideologia de naturaliza\u00e7\u00e3o do genoc\u00eddio dos kaingang. Hoje a gente debate na rede social, revista cient\u00edfica, blogs. Na \u00e9poca, a discuss\u00e3o acontecia no jornal. <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em> foi um instrumento ideol\u00f3gico muito importante para naturaliza\u00e7\u00e3o dos kaingang como tapuias e, portanto, como \u201cgenocid\u00e1veis\u201d, digamos assim.<\/p>\n<p><strong>Essa cultura genocida est\u00e1 no cerne da forma\u00e7\u00e3o de ideia de S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender a acumula\u00e7\u00e3o de capitais no Brasil desvinculado de processo de genoc\u00eddio. E isso se d\u00e1 em qualquer estado, porque a\u00ed chegamos ao segundo ponto: S\u00e3o Paulo, de certa forma, construiu o paradigma para o processo de ocupa\u00e7\u00e3o do solo ao longo do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Genoc\u00eddio \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o deliberada de destruir um grupo nacional, \u00e9tnico, religioso. Mas, esse conceito \u00e9 a metade da verdade, porque para que a coisa ocorra \u00e9 necess\u00e1rio a exist\u00eancia de uma teoria sobre ra\u00e7as. \u00c9 inexor\u00e1vel. O que a elite paulista fez foi um genoc\u00eddio porque ela deliberadamente construiu um arcabou\u00e7o cabo jur\u00eddico e militar para matar povos ind\u00edgenas, sobretudo a etnia espec\u00edfica dos kaingangs, em uma regi\u00e3o extensa.<\/p>\n<p>Havia o objetivo de construir e de dominar esse territ\u00f3rio para construir o que eles chamavam de uma nacionalidade paulista, ou seja, um territ\u00f3rio submetido aos verdadeiros brasileiros, aos paulistas. E fizeram isso dando fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u00e0 terra que, na vis\u00e3o dessa elite paulista, s\u00f3 poderia se dar por meio da produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, houve um genoc\u00eddio paradigm\u00e1tico do ponto de vista das outras elites brasileiras, porque ele foi replicado em diferentes graus ao longo do s\u00e9culo XX e ainda \u00e9 replicado neste s\u00e9culo, como vemos o genoc\u00eddio dos guarani-kaiow\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>Seu livro nos permite localizar as origens fascistas que se expressam no bolsonarismo, por exemplo.<\/strong><\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1910 a 1930, as elites se entregam ao fascismo. Em 1936, o governador de S\u00e3o Paulo, Armando Sales Oliveira, afirma que \u201cdevemos mirar no exemplo de Portugal, Espanha, Alemanha e It\u00e1lia\u201d. H\u00e1 estudos que mostram que S\u00e3o Paulo teve uma grande organiza\u00e7\u00e3o nazista, o Clube Pinheiros era o Clube Germ\u00e2nia e teve import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas nazistas.<\/p>\n<p>Quando Bolsonaro vai no Clube Hebraica, ele compara os quilombolas a gado e diz em seguida que \u201cimigrante bom \u00e9 o japon\u00eas, o italiano e o alem\u00e3o\u201d. \u00c9 a tese, \u00e9 a defesa, \u00e9 o ide\u00e1rio, o mantra dessa elite paulista. O que vemos agora, no entanto, \u00e9 uma radicaliza\u00e7\u00e3o popular. O bolsonarismo \u00e9 o primeiro movimento de extrema direita a se popularizar.<\/p>\n<p>Mesmo na ditadura civil militar (1964-1985), com os aparelhos todos, n\u00e3o havia um movimento de extrema direita popular. Agora ela \u00e9 volunt\u00e1ria e org\u00e2nica. Isso \u00e9 m\u00e9rito do Bolsonaro. Ele criou um movimento popular de extrema direita capilarizado na sociedade.<\/p>\n<p>O post Genoc\u00eddio e racismo: livro revela origens da hegemonia pol\u00edtica e econ\u00f4mica de S\u00e3o Paulo apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/militares-israelenses-se-recusam-a-servir-em-gaza-guerra-desnecessaria-e-eterna\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Militares israelenses se recusam a servir em Gaza:...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/alianca-do-centrao-e-da-extrema-direita-e-contra-o-brasil-afirma-maria-do-rosario\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u2018Alian\u00e7a do Centr\u00e3o e da extrema direita \u00e9 contra ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/educacao\/2025\/11\/edital-para-habilitar-diretores-de-escola-em-porto-alegre-e-antidemocratico-alertam-entidades\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Edital para habilitar diretores de escola em Porto...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/comissao-de-direitos-humanos-aprova-requerimento-para-debater-violacoes-de-direitos-de-brasileiros-nos-eua\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Comiss\u00e3o de Direitos Humanos aprova requerimento p...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Holocausto Paulista: o genoc\u00eddio dos kaingang sob o mito da paulistanidade (Telha, 2025), de Leonardo Sacramento, \u00e9 uma daquelas leituras que viram a chave da nossa percep\u00e7\u00e3o sobre a realidade, sobretudo para aqueles que cresceram ouvindo que S\u00e3o Paulo \u00e9 a \u201clocomotiva do pa\u00eds\u201d. A partir do genoc\u00eddio dos kaingang, etnia ind\u00edgena que ocupou entre [\u2026]<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opera-entrevista\/genocidio-e-racismo-livro-revela-origens-da-hegemonia-politica-e-economica-de-sao-paulo\/\">Genoc\u00eddio e racismo: livro revela origens da hegemonia pol\u00edtica e econ\u00f4mica de S\u00e3o Paulo<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":46961,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[15952,15953,15954,15955,6263,15956,229],"tags":[],"class_list":["post-46960","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-genocidio-indigena","category-holocausto-paulista","category-kaingang","category-leonardo-sacramento","category-opera-entrevista","category-politica-sp","category-racismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46960"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46960\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}