{"id":47365,"date":"2025-08-26T10:28:13","date_gmt":"2025-08-26T13:28:13","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/fome-em-gaza-nao-e-politica-pontual-entenda-como-ha-decadas-israel-viola-a-soberania-alimentar-palestina\/"},"modified":"2025-08-26T10:28:13","modified_gmt":"2025-08-26T13:28:13","slug":"fome-em-gaza-nao-e-politica-pontual-entenda-como-ha-decadas-israel-viola-a-soberania-alimentar-palestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fome-em-gaza-nao-e-politica-pontual-entenda-como-ha-decadas-israel-viola-a-soberania-alimentar-palestina\/","title":{"rendered":"Fome em Gaza n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica pontual: entenda como h\u00e1 d\u00e9cadas Israel viola a soberania alimentar palestina"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"386\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-31.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-31-1024x386.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-31-300x113.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-31-768x289.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-31-1536x578.jpg 1536w, https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-31.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Arte: O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Julia Dolce <br \/>Do O Joio e O Trigo <\/em><\/p>\n<p>A coleta de uma hortali\u00e7a espont\u00e2nea e insistente, que brota mesmo do concreto em ru\u00ednas, foi solu\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria para a fome de fam\u00edlias palestinas na Faixa de Gaza durante alguns meses deste ano, em meio ao genoc\u00eddio promovido por Israel. Quando o governo desse pa\u00eds bloqueou totalmente a entrada de ajuda humanit\u00e1ria na regi\u00e3o, em mar\u00e7o, a esp\u00e9cie de malva chamada localmente de \u201ckhobeza\u201d, ingrediente hist\u00f3rico de pratos palestinos, passou a ser cozida como\u00a0 sopa para acalmar os est\u00f4magos famintos.\u00a0<\/p>\n<p>Cinco meses depois, a khobeza j\u00e1 est\u00e1 escassa, assim como qualquer outra planta em Gaza, enquanto a fome ganhou propor\u00e7\u00f5es nunca antes vividas por seus habitantes. Em maio, um porta-voz da Coordena\u00e7\u00e3o para Assuntos Humanit\u00e1rios da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) definiu o enclave como \u201co lugar mais faminto no planeta\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cNunca vou esquecer o momento em que tentei comer um p\u00e3o feito com ra\u00e7\u00e3o animal\u201d, relata, ao Joio, Alaa Alqaisi, palestina de 31 anos, nascida e criada na Cidade de Gaza. Era ainda 2024, e j\u00e1 n\u00e3o havia farinha na regi\u00e3o. \u201cO gosto, a textura, a no\u00e7\u00e3o do que aquilo era, foi um dos momentos mais dif\u00edceis da minha vida. A fome te despeda\u00e7a. Ela n\u00e3o leva apenas sua for\u00e7a, mas tamb\u00e9m parte do que voc\u00ea acreditava ser intoc\u00e1vel\u201d, sintetiza. Al\u00e9m dos implac\u00e1veis impactos f\u00edsicos que a corroem por dentro, ela narra que a fome apaga a clareza do seu pensamento, deixando-o tamb\u00e9m em destro\u00e7os.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-32.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-32.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-32-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-32-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Palestinos lutam sob o sol escaldante, esperando para receber comida distribu\u00edda por uma cozinha solid\u00e1ria no oeste da Cidade de Gaza, em meio \u00e0 fome generalizada na regi\u00e3o devido ao bloqueio israelense, em 16 de agosto de 2025. Foto: Yousef Zaanoun\/Activestills<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O colapso causado pelo bloqueio total de mar\u00e7o de 2025 agravou-se com a entrada em cena da Funda\u00e7\u00e3o Humanit\u00e1ria de Gaza (GHF, na sigla em ingl\u00eas), uma obscura organiza\u00e7\u00e3o criada em fevereiro com o apoio dos Estados Unidos e de Israel e que controla a maior parte da entrada de alimentos no territ\u00f3rio. <\/p>\n<p>A GHF \u00e9 criticada pela ONU por n\u00e3o ter experi\u00eancia pr\u00e9via em ajuda humanit\u00e1ria, al\u00e9m de indicar uma politiza\u00e7\u00e3o da atividade, uma vez que a organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 liderada por militares ocidentais em conex\u00e3o com o governo israelense. As cr\u00edticas envolvem tamb\u00e9m a incapacidade de a organiza\u00e7\u00e3o alimentar, por conta pr\u00f3pria, toda a popula\u00e7\u00e3o de Gaza. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa, a Classifica\u00e7\u00e3o Integrada de Fases de Seguran\u00e7a Alimentar (IPC), par\u00e2metro utilizado pela ONU, registra que, atualmente, 100% dos palestinos da faixa est\u00e3o nos piores \u00edndices de inseguran\u00e7a alimentar. E todos est\u00e3o em risco de vida. Em 18 de agosto, as autoridades de sa\u00fade locais denunciaram que pelo menos 266 palestinos, incluindo 122 crian\u00e7as, j\u00e1 haviam morrido de fome. <\/p>\n<p>\u201cAs crian\u00e7as aqui continuam a envelhecer sem jamais crescer. Os idosos falam sobre o p\u00e3o como outros falam de amores perdidos\u201d, escreveu Alaa em um texto publicado no \u00faltimo 23 de julho. <\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"443\" height=\"600\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-34.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-34.jpg 443w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-34-222x300.jpg 222w\" sizes=\"(max-width: 443px) 100vw, 443px\"><figcaption><em>Alaa Alqaisi na praia em Gaza, antes do ini\u0301cio do genoci\u0301dio. Foto: Arquivo pessoal <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A fome vem sendo denunciada internacionalmente como uma arma israelense para aniquilar a vida palestina em Gaza. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o\u201d, reitera \u00e0 reportagem o chef franco-palestino Fadi Kattan, natural de Bel\u00e9m, cidade localizada no territ\u00f3rio palestino da Cisjord\u00e2nia. \u201cIsso foi dito pelos pr\u00f3prios pol\u00edticos israelenses. Eles est\u00e3o dizendo que querem tornar Gaza inabit\u00e1vel\u201d, completa. <\/p>\n<p>Em 9 de outubro de 2023, dois dias ap\u00f3s o ataque do Hamas que assassinou 1.200 pessoas e sequestrou outras 251 em um festival de m\u00fasica israelense na fronteira com Gaza, o ent\u00e3o ministro da Defesa israelense Yoav Gallant anunciou que estabeleceria um completo cerco \u00e0 popula\u00e7\u00e3o palestina no territ\u00f3rio. \u201cSem eletricidade, sem comida, sem \u00e1gua, sem combust\u00edvel \u2014 tudo est\u00e1 fechado\u201d. <\/p>\n<p>O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu segue negando a ocorr\u00eancia de fome no enclave, apesar dos in\u00fameros registros, em fotos e v\u00eddeos, de palestinos desfalecendo, com os ossos aparecendo sob a pele, inclusive de crian\u00e7as desnutridas chorando por n\u00e3o conseguirem mais ficar em p\u00e9. Recentemente, Netanyahu afirmou que os ref\u00e9ns israelenses mantidos no territ\u00f3rio seriam os \u201c\u00fanicos que estavam sendo deliberadamente submetidos \u00e0 fome\u201d.<\/p>\n<h2>Fome em Gaza: um projeto israelense de duas d\u00e9cadas<\/h2>\n<p>Ainda que os atuais \u00edndices de fome sejam in\u00e9ditos, o controle do abastecimento por parte de Israel, e a consequente inseguran\u00e7a alimentar e h\u00eddrica, s\u00e3o velhos conhecidos dos palestinos em Gaza. O Estado judeu mant\u00e9m o territ\u00f3rio bloqueado desde 2007, controlando o que e quem pode entrar e sair. Desde outubro de 2023, vem apertando ainda mais o cerco, culminando no bloqueio total iniciado em mar\u00e7o deste ano. <\/p>\n<p>Alaa lembra que, desde o in\u00edcio, essa pol\u00edtica impactava as necessidades b\u00e1sicas da popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o. \u201cA gente sempre soube que a ocupa\u00e7\u00e3o estava calculando a nossa ingest\u00e3o cal\u00f3rica di\u00e1ria, decidindo o quanto a gente era \u2018autorizado\u2019 a consumir\u201d, afirma.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"323\" height=\"600\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-35.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-35.jpg 323w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-35-162x300.jpg 162w\" sizes=\"(max-width: 323px) 100vw, 323px\"><\/figure>\n<p>A Faixa de Gaza \u00e9 um territ\u00f3rio de 365km\u00b2 localizado na costa sudoeste da Palestina Hist\u00f3rica. Tem hoje uma das maiores densidades populacionais do mundo. Antes do in\u00edcio do genoc\u00eddio promovido por Israel, sua popula\u00e7\u00e3o era de 2,3 milh\u00f5es de pessoas. Atualmente, aproximadamente 2,13 milh\u00f5es ainda habitam a regi\u00e3o. Muitas pessoas conseguiram escapar do territ\u00f3rio, mas cerca de 60 mil j\u00e1 foram assassinadas, milhares dessas enquanto buscavam alimentos ou esperavam em filas por ajuda humanit\u00e1ria. <br \/>A maior parte da popula\u00e7\u00e3o de Gaza, cerca de 70%, \u00e9 formada por palestinos refugiados de diferentes partes da Palestina Hist\u00f3rica. Eles foram expulsos de seus territ\u00f3rios entre 1948 e 1949, v\u00edtimas da limpeza \u00e9tnica colocada em marcha por for\u00e7as sionistas para abrir espa\u00e7o para a cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel. A opera\u00e7\u00e3o assassinou mais de 20 mil palestinos, destruiu mais de 500 vilas e expulsou 750 mil pessoas de suas casas. O evento \u00e9 nomeado pelos palestinos como \u201cNakba\u201d, palavra \u00e1rabe para \u201cdesastre\u201d.\u00a0 <br \/>Hoje, j\u00e1 s\u00e3o gera\u00e7\u00f5es de refugiados palestinos vivendo em Gaza, desde 2007 governada pelo partido pol\u00edtico e grupo guerrilheiro isl\u00e2mico Hamas. Outra parte dos expulsos pela limpeza \u00e9tnica israelense se instalou em campos de refugiados na Cisjord\u00e2nia e em pa\u00edses vizinhos, como Jord\u00e2nia, L\u00edbano e S\u00edria. Os remanescentes no territ\u00f3rio que passou a ser reconhecido como Israel, hoje, cerca de 20% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, s\u00e3o conhecidos como \u201cpalestinos de 1948\u2033.\u00a0 <br \/>Apesar de a Resolu\u00e7\u00e3o 194 da ONU, de dezembro de 1948, determinar o direito de retorno dos refugiados palestinos a seus locais de origem, Israel nunca permitiu sua efetiva\u00e7\u00e3o. Em 2005, o governo israelense retirou todos os colonos que viviam na Faixa de Gaza. No entanto, mesmo antes de outubro de 2023, \u00f3rg\u00e3os internacionais, como a Corte Internacional de Justi\u00e7a, da ONU, ainda consideravam que a regi\u00e3o era ocupada por Israel, uma vez que esse pa\u00eds seguia controlando o territ\u00f3rio por terra, mar e ar.<br \/>Estabelecido com o apoio das grandes pot\u00eancias da \u00e9poca, o Estado de Israel foi a concretiza\u00e7\u00e3o das aspira\u00e7\u00f5es do movimento sionista, surgido na Europa no final do s\u00e9culo 19 como rea\u00e7\u00e3o ao crescimento da viol\u00eancia antissemita no continente. Seus ide\u00f3logos acreditavam que a melhor forma de proteger os judeus era a cria\u00e7\u00e3o de um Estado exclusivo. Em 1897, seu primeiro congresso mundial definiu a Palestina como local de sua instala\u00e7\u00e3o, embora o territ\u00f3rio j\u00e1 fosse habitado. <br \/>Na pr\u00e1tica, o Estado judeu somente se concretizou com base na expuls\u00e3o, morte e expropria\u00e7\u00e3o dos palestinos e na implementa\u00e7\u00e3o de um sistema de apartheid contra os n\u00e3o judeus, como denunciam diversas organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos. A persist\u00eancia dessa estrutura colonial de viol\u00eancia, despossess\u00e3o e opress\u00e3o ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas \u00e9 chamada pelos palestinos de \u201cNakba cont\u00ednua\u201d.<\/p>\n<p>Esse controle \u00e9 documentado desde o in\u00edcio do bloqueio. As For\u00e7as Armadas calculavam as necessidades di\u00e1rias supostamente necess\u00e1rias para evitar a desnutri\u00e7\u00e3o. Como consequ\u00eancia, em 2008, um relat\u00f3rio da ONU mostrou que 75% da popula\u00e7\u00e3o na faixa j\u00e1 convivia com a inseguran\u00e7a alimentar.\u00a0 <\/p>\n<p>Em 2012, ap\u00f3s uma batalha judicial de mais de tr\u00eas anos, a ONG israelense Gisha, que publica diversos relat\u00f3rios em que denuncia as consequ\u00eancias dessa pol\u00edtica, conseguiu obrigar o Minist\u00e9rio de Defesa de Israel a tornar p\u00fablicos os registros das f\u00f3rmulas elaboradas pela pasta para determinar a quantidade e os tipos de alimentos permitidos em Gaza. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"677\" height=\"600\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-36.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-36.jpg 677w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-36-300x266.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 677px) 100vw, 677px\"><figcaption><em>Tamanho da Faixa de Gaza em compara\u00e7\u00e3o com Bras\u00edlia. Imagem de sat\u00e9lite: Google Earth. <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A conta cal\u00f3rica \u00e9 seguida com rigor at\u00e9 hoje pelas For\u00e7as Armadas Israelenses (IDF). Em uma postagem do \u00faltimo 11 de agosto, a p\u00e1gina do Instagram Humans of New York trouxe um relato da pediatra Aqsa Durrani, integrante da organiza\u00e7\u00e3o M\u00e9dicos Sem Fronteiras nos Estados Unidos, exemplificando essa rigidez: \u201cQuando eu entrava em Gaza, os militares israelenses tinham uma regra: eu s\u00f3 poderia levar sete pounds [3,15kg] de comida\u201d, recordou. \u201cEnquanto eu pesava nossas barras de prote\u00edna, tentando ficar dentro do limite, dizia ao meu marido: \u2018qu\u00e3o sinistro \u00e9 isso?\u2019. Eu sou uma trabalhadora humanit\u00e1ria, por que haveria algum limite para comida?\u201d, questionou a pediatra.\u00a0 <\/p>\n<p>Para o chef Fadi Kattan, o controle cal\u00f3rico dos palestinos mantido por Israel transforma a alimenta\u00e7\u00e3o em uma \u201crealidade clinicamente m\u00f3rbida\u201d. \u201cUma das coisas mais importantes para os seres humanos \u00e9 ter o poder de decidir quando est\u00e3o com fome ou n\u00e3o. Quem somos n\u00f3s para decidir que existe um n\u00famero de calorias que garante que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 com fome?\u201d, questiona. <\/p>\n<p>Alimentos b\u00e1sicos da cultura alimentar palestina, como massas, lentilhas, pasta de tomate, suco, mel, ch\u00e1, caf\u00e9 e semolina (subproduto do trigo), est\u00e3o entre os itens que j\u00e1 foram banidos pelo bloqueio isralense em diferentes momentos, como lista o blogueiro de comida e profissional de marketing Hamada Sho, palestino que vive em Gaza.\u00a0 <\/p>\n<p>A justificativa de Israel \u00e9 que certos tipos de alimentos seriam \u201csup\u00e9rfluos\u201d. \u201c[Desde o in\u00edcio do bloqueio, em 2007] Eu j\u00e1 me sentia como se estiv\u00e9ssemos sendo punidos, como se a comida estivesse sendo usada deliberadamente para tornar a vida mais dif\u00edcil e quebrar o nosso esp\u00edrito\u201d, conta Hamada, em entrevista ao Joio. <\/p>\n<p>A partir de outubro de 2023, ele passou a cozinhar para crian\u00e7as que tiveram suas casas bombardeadas, procurando criar receitas variadas para ir al\u00e9m da monotonia dos alimentos fornecidos pela ajuda humanit\u00e1ria. \u201cAo descascar uma batata, parece que estamos lidando com algo raro, porque \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de encontrar. Cozinhar deixou de ser s\u00f3 uma paix\u00e3o e passou a ser uma forma de proteger a vida e dizer \u00e0s crian\u00e7as que elas importam e s\u00e3o cuidadas\u201d, reflete.<\/p>\n<blockquote data-instgrm-captioned data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/C-x44NSskxw\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\">\n<div> <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/C-x44NSskxw\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" target=\"_blank\"> <\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><svg width=\"50px\" height=\"50px\" viewbox=\"0 0 60 60\" version=\"1.1\" xmlns=\"https:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" xmlns:xlink=\"https:\/\/www.w3.org\/1999\/xlink\"><g stroke=\"none\" stroke-width=\"1\" fill=\"none\" fill-rule=\"evenodd\"><g transform=\"translate(-511.000000, -20.000000)\" fill=\"#000000\"><g><path d=\"M556.869,30.41 C554.814,30.41 553.148,32.076 553.148,34.131 C553.148,36.186 554.814,37.852 556.869,37.852 C558.924,37.852 560.59,36.186 560.59,34.131 C560.59,32.076 558.924,30.41 556.869,30.41 M541,60.657 C535.114,60.657 530.342,55.887 530.342,50 C530.342,44.114 535.114,39.342 541,39.342 C546.887,39.342 551.658,44.114 551.658,50 C551.658,55.887 546.887,60.657 541,60.657 M541,33.886 C532.1,33.886 524.886,41.1 524.886,50 C524.886,58.899 532.1,66.113 541,66.113 C549.9,66.113 557.115,58.899 557.115,50 C557.115,41.1 549.9,33.886 541,33.886 M565.378,62.101 C565.244,65.022 564.756,66.606 564.346,67.663 C563.803,69.06 563.154,70.057 562.106,71.106 C561.058,72.155 560.06,72.803 558.662,73.347 C557.607,73.757 556.021,74.244 553.102,74.378 C549.944,74.521 548.997,74.552 541,74.552 C533.003,74.552 532.056,74.521 528.898,74.378 C525.979,74.244 524.393,73.757 523.338,73.347 C521.94,72.803 520.942,72.155 519.894,71.106 C518.846,70.057 518.197,69.06 517.654,67.663 C517.244,66.606 516.755,65.022 516.623,62.101 C516.479,58.943 516.448,57.996 516.448,50 C516.448,42.003 516.479,41.056 516.623,37.899 C516.755,34.978 517.244,33.391 517.654,32.338 C518.197,30.938 518.846,29.942 519.894,28.894 C520.942,27.846 521.94,27.196 523.338,26.654 C524.393,26.244 525.979,25.756 528.898,25.623 C532.057,25.479 533.004,25.448 541,25.448 C548.997,25.448 549.943,25.479 553.102,25.623 C556.021,25.756 557.607,26.244 558.662,26.654 C560.06,27.196 561.058,27.846 562.106,28.894 C563.154,29.942 563.803,30.938 564.346,32.338 C564.756,33.391 565.244,34.978 565.378,37.899 C565.522,41.056 565.552,42.003 565.552,50 C565.552,57.996 565.522,58.943 565.378,62.101 M570.82,37.631 C570.674,34.438 570.167,32.258 569.425,30.349 C568.659,28.377 567.633,26.702 565.965,25.035 C564.297,23.368 562.623,22.342 560.652,21.575 C558.743,20.834 556.562,20.326 553.369,20.18 C550.169,20.033 549.148,20 541,20 C532.853,20 531.831,20.033 528.631,20.18 C525.438,20.326 523.257,20.834 521.349,21.575 C519.376,22.342 517.703,23.368 516.035,25.035 C514.368,26.702 513.342,28.377 512.574,30.349 C511.834,32.258 511.326,34.438 511.181,37.631 C511.035,40.831 511,41.851 511,50 C511,58.147 511.035,59.17 511.181,62.369 C511.326,65.562 511.834,67.743 512.574,69.651 C513.342,71.625 514.368,73.296 516.035,74.965 C517.703,76.634 519.376,77.658 521.349,78.425 C523.257,79.167 525.438,79.673 528.631,79.82 C531.831,79.965 532.853,80.001 541,80.001 C549.148,80.001 550.169,79.965 553.369,79.82 C556.562,79.673 558.743,79.167 560.652,78.425 C562.623,77.658 564.297,76.634 565.965,74.965 C567.633,73.296 568.659,71.625 569.425,69.651 C570.167,67.743 570.674,65.562 570.82,62.369 C570.966,59.17 571,58.147 571,50 C571,41.851 570.966,40.831 570.82,37.631\"><\/path><\/g><\/g><\/g><\/svg><\/div>\n<div>\n<div>Ver essa foto no Instagram<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/reel\/C-x44NSskxw\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" target=\"_blank\">Uma publica\u00e7\u00e3o compartilhada por Hamada Sho (@hamadashoo)<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>Em 7 de agosto deste ano, no entanto, o blogueiro publicou um relato na revista estadunidense Time, com o t\u00edtulo \u201cN\u00e3o posso mais alimentar crian\u00e7as em Gaza\u201d. Entre os motivos por tr\u00e1s da declara\u00e7\u00e3o estava a escassez de ingredientes dispon\u00edveis, al\u00e9m da deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade de seus pr\u00f3prios familiares. No mesmo dia, ele afirmou em suas redes que n\u00e3o gostava mais de estar diante das c\u00e2meras, uma vez que j\u00e1 havia perdido metade do seu peso corporal. <\/p>\n<p>Antes do in\u00edcio do genoc\u00eddio, Hamada publicava sobre a cena gastron\u00f4mica em Gaza, que resistia aos desafios do bloqueio israelense. Ele recorda uma cultura alimentar rica, criativa e \u201ccheia de orgulho\u201d, enumerando pratos tradicionais palestinos como o maqluba, o mushakhan e a folha de uva recheada. \u201cNossas refei\u00e7\u00f5es eram mais do que comida, elas incorporavam hist\u00f3ria, tradi\u00e7\u00f5es familiares e nossa identidade palestina\u201d. <\/p>\n<p>A cont\u00ednua destrui\u00e7\u00e3o dessa identidade comp\u00f5e um projeto colonial que promove a eros\u00e3o da seguran\u00e7a, soberania e cultura alimentares palestinas, tanto em Gaza quanto na Cisjord\u00e2nia ocupada.\u00a0 <\/p>\n<p>\u00c9 o que afirma o ativista de direitos humanos Michael Shaikh, autor do livro \u201cThe Last Sweet Bite\u201d, que re\u00fane investiga\u00e7\u00f5es e receitas de culturas alimentares destru\u00eddas em situa\u00e7\u00f5es de conflito armado. Ele argumenta que o fen\u00f4meno \u00e9 resultado tanto de um dano colateral da viol\u00eancia e expuls\u00e3o de povos de seus territ\u00f3rios quanto de ataques intencionais. \u201cSe voc\u00ea destr\u00f3i a cultura alimentar de um povo, voc\u00ea tende a destruir esse povo tamb\u00e9m. Apaga-o culturalmente, fisicamente ou ambos\u201d, resume. <\/p>\n<p>Michael acredita que as a\u00e7\u00f5es israelenses s\u00e3o, hoje, o maior exemplo desse projeto de apagamento. \u201cComo algu\u00e9m que vem observando como culturas alimentares s\u00e3o intencionalmente atacadas, n\u00e3o h\u00e1 exemplo mais claro do que o que est\u00e1 acontecendo em Gaza e na Cisjord\u00e2nia\u201d, afirma.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-37.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-37.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-37-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-37-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Pote de azeitonas e outros alimentos processados na comunidade Umm Al Hiran, de bedui\u0301nos palestinos, demolida pelo Exe\u0301rcito israelense. Foto: Julia Dolce (2017)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Para tanto, s\u00e3o aplicadas estrat\u00e9gias que v\u00e3o muito al\u00e9m do controle do abastecimento: envolvem aspectos como a invas\u00e3o e o roubo de terras agr\u00edcolas, a destrui\u00e7\u00e3o de cultivos e a apropria\u00e7\u00e3o cultural de alimentos palestinos. \u201cA ocupa\u00e7\u00e3o israelense estuda todas as dimens\u00f5es de suas a\u00e7\u00f5es, e a inani\u00e7\u00e3o \u00e9 uma arma deliberada\u201d, analisa Alaa. \u201cFazer um povo passar fome \u00e9 esvazi\u00e1-lo por dentro\u201d,\u00a0 completa. <\/p>\n<h2>Ecoc\u00eddio, limpeza \u00e9tnica e vazio demogr\u00e1fico <\/h2>\n<p>O esvaziamento descrito por Alaa \u00e9 um ponto-chave do colonialismo israelense. O mito de que a Palestina era um vazio demogr\u00e1fico \u2014 no m\u00e1ximo, habitada por tribos \u00e1rabes n\u00f4mades sem v\u00ednculo com o territ\u00f3rio \u2014 serviu de fundamento para o sionismo justificar a coloniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, sintetizado no lema \u201cUma terra sem povo para um povo sem terra\u201d. <\/p>\n<p>Para construir esse suposto vazio, desde seu estabelecimento, em 1948, o Estado de Israel se esfor\u00e7a para apagar os mais diversos tra\u00e7os da presen\u00e7a palestina no local. Essa estrat\u00e9gia tamb\u00e9m est\u00e1 por tr\u00e1s do esvaziamento dos pratos palestinos e da tentativa de destruir sua rela\u00e7\u00e3o com o cultivo da terra.<\/p>\n<p>O estudo \u201cNo Traces of Life: Israel Ecocide in Gaza\u201d (Sem Vest\u00edgios de Vida: O Ecoc\u00eddio de Israel em Gaza), do grupo de pesquisa Forensic Architecture, da Universidade de Londres, mostra que, antes de 2023, Gaza tinha 170km\u00b2 de terras agricult\u00e1veis, ou aproximadamente 47% de sua \u00e1rea total. Alguns meses depois, a invas\u00e3o militar israelense por terra j\u00e1 havia avan\u00e7ado sobre cerca de metade dessas terras.<\/p>\n<p>A infraestrutura pesqueira foi outro alvo de Israel. \u00danica regi\u00e3o dos atuais territ\u00f3rios palestinos com acesso ao mar, Gaza tinha parte importante da sua cultura alimentar baseada na pesca. A Forensic Architecture mostrou, entretanto, que ap\u00f3s ap\u00f3s in\u00fameros bombardeios ao porto local, nenhum barco pesqueiro palestino seguia em opera\u00e7\u00e3o a partir de janeiro de 2024.<\/p>\n<p>O estudo conclui: \u201cA destrui\u00e7\u00e3o de terras e infraestrutura agr\u00edcola em Gaza \u00e9 um ato deliberado de ecoc\u00eddio e uma dimens\u00e3o cr\u00edtica da campanha genocida israelense\u201d.<\/p>\n<figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" data-id=\"284852\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto4-palestina.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto4-palestina.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto4-palestina-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto4-palestina-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" data-id=\"284853\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto5-palestina.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto5-palestina.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto5-palestina-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/foto5-palestina-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><\/figure><figcaption><em>Parte agr\u00edcola da fronteira entre Israel e a Faixa de Gaza. Foto: Julia Dolce (2017).<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas essa campanha n\u00e3o se concentra apenas em Gaza. No \u00faltimo 31 de julho, os agricultores dos arredores da cidade palestina de Hebron, no sul da Cisjord\u00e2nia, receberam a not\u00edcia de que retroescavadeiras de uma empresa ligada \u00e0s For\u00e7as Armadas de Israel haviam destru\u00eddo o viveiro de mudas do Banco de Sementes Local Palestino, um projeto da Uni\u00e3o dos Comit\u00eas de Trabalho Agr\u00edcola (UAWC). <\/p>\n<p>\u201cDestru\u00edram a sala de controle, os registros com dados, o sistema de irriga\u00e7\u00e3o e as linhas de energia\u201d, conta o agricultor Mohammed Ewedat, membro da organiza\u00e7\u00e3o. \u201cIsso pode afetar a pr\u00f3xima temporada de plantio, com consequ\u00eancias ambientais e econ\u00f4micas para os agricultores\u201d, completa. <\/p>\n<figure><figcaption><em>Membros do Banco de Sementes Local Palestino checando a destruic\u0327a\u0303o do viveiro de mudas por retroescavadeiras israelenses, em 31 de julho de 2025. Foto: Palestinian Local Seed Bank <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Criado em 2010, o projeto \u00e9 o primeiro banco de sementes palestinas. Ele j\u00e1 atendeu cerca de 6 mil agricultores, reunindo 79 variedades de sementes crioulas, as chamadas sementes \u201cbaladi\u201d, ou \u201cda terra\u201d. A iniciativa se apresenta como uma \u201cpedra fundamental\u201d para a prote\u00e7\u00e3o da soberania alimentar palestina. <\/p>\n<p>Baladi \u00e9 tamb\u00e9m o nome de um dos projetos criados pela escritora e cozinheira Sandra Guimar\u00e3es, natural de Natal (RN), que viveu na Cisjord\u00e2nia entre 2008 e 2015. O projeto re\u00fane hist\u00f3rias de resist\u00eancia alimentar palestina aos impactos da ocupa\u00e7\u00e3o israelense. A destrui\u00e7\u00e3o e controle de sementes foi um dos principais impactos registrados por ela. <\/p>\n<p>\u201cQuando Israel destr\u00f3i um banco de sementes, est\u00e1 destruindo quase o DNA do povo palestino, porque s\u00e3o sementes selecionadas durante s\u00e9culos para se adaptarem ao clima. Voc\u00ea tem que ter um conhecimento e uma intimidade muito grandes com aquele territ\u00f3rio para selecionar as sementes baladi\u201d, explica. <\/p>\n<p>O ataque nos arredores de Hebron n\u00e3o foi um caso isolado. Somente neste ano, o Escrit\u00f3rio da ONU para a Coordena\u00e7\u00e3o de Assuntos Humanit\u00e1rios j\u00e1 contabilizou 752 demoli\u00e7\u00f5es de estruturas agr\u00edcolas palestinas na Cisjord\u00e2nia. <\/p>\n<p>\u201cO objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas pegar a terra, mas tamb\u00e9m controlar nosso sistema alimentar. O que plantamos, o que comemos, quais semestres somos autorizados a manter\u201d, analisa Mohammed. <\/p>\n<p>Ele vive na vila palestina de Shyoukh, conhecida pela cria\u00e7\u00e3o de ovelhas e cabras e pela planta\u00e7\u00e3o de am\u00eandoas e uvas. L\u00e1, s\u00e3o mais de dez variedades de uvas cultivadas. \u201cN\u00e3o \u00e9 sobre agricultura, \u00e9 sobre dignidade e liberdade. Toda vez que um agricultor palestino planta sementes de nosso banco, \u00e9 um ato pequeno contra a ocupa\u00e7\u00e3o israelense\u201d, diz. <\/p>\n<p>A vila fica a apenas cinco quil\u00f4metros de Hebron, mas, desde 2023, o trajeto, que costumava demorar 15 minutos de carro, tem durado at\u00e9 quatro horas. Ap\u00f3s declarar guerra \u00e0 Gaza, Israel tamb\u00e9m aumentou sua ofensiva militar na Cisjord\u00e2nia. Entre outras a\u00e7\u00f5es, instalou novos port\u00f5es e checkpoints na regi\u00e3o \u2014 entre a vila de Mohammed e a cidade de Hebron, s\u00e3o tr\u00eas. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-39.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-39.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-39-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-39-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Checkpoint israelense dentro da cidade de Hebron. Foto: Julia Dolce (2017) <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o de Gaza e Cisjord\u00e2nia \u2014 incluindo Jerusal\u00e9m Oriental \u2014 por Israel, considerada ilegal pela Corte Internacional de Justi\u00e7a, da ONU, teve in\u00edcio com a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Desde ent\u00e3o, o Estado judeu expulsa palestinos de suas terras para a constru\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias israelenses. Essa pol\u00edtica transformou a Cisjord\u00e2nia em um arquip\u00e9lago de vilas e cidades palestinas cercadas por esses assentamentos. <\/p>\n<figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"551\" height=\"1024\" data-id=\"284858\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-04-551x1024-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-04-551x1024-1.png 551w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-04-551x1024-1-161x300.png 161w\" sizes=\"(max-width: 551px) 100vw, 551px\"><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"551\" height=\"1024\" data-id=\"284859\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-02-551x1024-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-02-551x1024-1.jpg 551w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-02-551x1024-1-161x300.jpg 161w\" sizes=\"(max-width: 551px) 100vw, 551px\"><\/figure>\n<\/figure>\n<figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"551\" height=\"1024\" data-id=\"284857\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-01-551x1024-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-01-551x1024-1.jpg 551w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-01-551x1024-1-161x300.jpg 161w\" sizes=\"(max-width: 551px) 100vw, 551px\"><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"552\" height=\"1024\" data-id=\"284861\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-03-552x1024-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-03-552x1024-1.jpg 552w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/ocupacao-israelense-palestina-v2-03-552x1024-1-162x300.jpg 162w\" sizes=\"(max-width: 552px) 100vw, 552px\"><\/figure>\n<\/figure>\n<p>A vila do agricultor Mohammed \u00e9 uma das que teve suas terras invadidas por col\u00f4nias israelenses. Desde ent\u00e3o, seus moradores t\u00eam levado seus pr\u00f3prios rebanhos de ovelhas e cabras ao local, impedindo o acesso dos palestinos. <\/p>\n<p>Esse tipo de estrat\u00e9gia \u00e9 denunciada no relat\u00f3rio \u201cBad Samaritan\u201d, da ONG israelense Peace Now. De acordo com o estudo, colonos israelenses, com o apoio do governo, criaram mais de 100 postos de pastoreio como forma de tomar o controle de terras palestinas. Com esse m\u00e9todo, j\u00e1 foi roubada uma \u00e1rea equivalente a aproximadamente 14% da Cisjord\u00e2nia.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-41.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-41.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-41-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-41-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Ovelhas em comunidade palestina no Vale do Jorda\u0303o. Foto: Julia Dolce (2017)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse a paulatina redu\u00e7\u00e3o de terras dispon\u00edveis para a agricultura, os agricultores palestinos tamb\u00e9m enfrentam severas restri\u00e7\u00f5es no fornecimento de \u00e1gua e na circula\u00e7\u00e3o de seus produtos.\u00a0<\/p>\n<p>Israel controla todas as estradas da Cisjord\u00e2nia, e consequentemente, o abastecimento dos alimentos. \u201cAcontece muito de, na \u00e9poca das colheitas, Israel criar uma barragem militar e deixar os caminh\u00f5es palestinos carregados de alimentos por horas ou dias, em um calor desgrada\u00e7ado, com tudo apodrecendo\u201d, explica Sandra Guimar\u00e3es, do projeto Baladi. <\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o Estado sionista controla a bacia do rio Rio Jord\u00e3o, principal curso h\u00eddrico na regi\u00e3o, al\u00e9m de importantes aqu\u00edferos na Cisjord\u00e2nia e em Gaza. \u00c9 o governo israelense que determina a quantidade de \u00e1gua disponibilizada para as vilas e cidades palestinas. A vila de Fasayil, pr\u00f3xima \u00e0 cidade de Jeric\u00f3, \u00e9 um caso emblem\u00e1tico. L\u00e1 passam encanamentos israelenses que desviam a \u00e1gua para planta\u00e7\u00f5es de col\u00f4nias israelenses, enquanto os agricultores palestinos locais sofrem com a seca. <\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que as cidades na Cisjord\u00e2nia s\u00e3o cada vez menos abastecidas com alimentos frescos, relata Sandra Guimar\u00e3es, que se recorda da alimenta\u00e7\u00e3o no Campo de Refugiados de Aida, em Bel\u00e9m, onde viveu. \u201cOs refugiados est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar. Foram expulsos de suas terras e se tornaram pessoas pobres que passaram a depender da ajuda humanit\u00e1ria para sobreviver\u201d, ressalta.\u00a0<\/p>\n<p>As prateleiras dos campos de refugiados palestinos est\u00e3o repletas de alimentos ultraprocessados vindos de Israel ou de ajuda humanit\u00e1ria. Para Sandra, essa depend\u00eancia \u00e9 estrat\u00e9gica. \u201cEu percebi a que ponto a cultura alimentar passa pela conex\u00e3o com a terra. \u00c9 por isso que Israel faz tanto esfor\u00e7o para destruir as terras agr\u00edcolas palestinas\u201d, reitera.\u00a0<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-42.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-42.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-42-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-42-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Horta comunita\u0301ria na ONG Lajee Center, no Campo de Refugiados Aida, em Bele\u0301m. Na estrutura da estufa, bombas israelenses penduradas. Foto: Julia Dolce (2017) <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>A destrui\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos alimentares da resist\u00eancia palestina <\/h2>\n<p>Ao redor do mundo, manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias ao genoc\u00eddio em Gaza e pela liberta\u00e7\u00e3o da Palestina est\u00e3o repletas de s\u00edmbolos alimentares. A melancia \u00e9 um dos maiores exemplos desse fen\u00f4meno, sendo reproduzida em cartazes, roupas ou at\u00e9 em emojis nas redes sociais. A fruta passou a ser levada para protestos em alus\u00e3o \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o, por parte de Israel, em 1967, de exibi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da bandeira palestina \u2014 ambas t\u00eam as mesmas quatro cores: verde, vermelho, preto e branco. <\/p>\n<p>Outro s\u00edmbolo \u00e9 o Handala, personagem de autoria do cartunista pol\u00edtico Naji Al-Ali, que representa uma crian\u00e7a palestina refugiada. Ele \u00e9 grafitado em muros por toda a Palestina. Seu nome vem da fruta \u201chandhal\u201d, conhecida em portugu\u00eas como ma\u00e7\u00e3 amarga. Sua planta tem ra\u00edzes profundas que insistem em voltar a crescer na terra quando cortadas, uma met\u00e1fora para a luta palestina.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-43.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-43.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-43-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-43-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Manifestac\u0327a\u0303o em solidariedade a\u0300 Palestina em Bruxelas, Be\u0301lgica, em 2023. Foto: M0tty. <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-44.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-44.jpg 1000w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-44-300x200.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-44-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption><em>Handala, ilustrac\u0327a\u0303o de crian\u00e7a palestina refugiada de autoria do cartunista Naji Al-Ali, grafitado dentro do mapa da Palestina Histo\u0301rica, em muro do Campo de Refugiados de Dheisheh, Bele\u0301m, Cisjorda\u0302nia. Foto: Julia Dolce (2017)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u200bMas talvez o mais importante s\u00edmbolo da resist\u00eancia palestina seja a oliveira, \u00e1rvore milenar deixada como heran\u00e7a entre gera\u00e7\u00f5es, uma vez que depende de um manejo delicado e demora muitos anos para dar frutos. Assim, as azeitonas colhidas hoje foram plantadas por gera\u00e7\u00f5es anteriores. O azeite palestino, principal gordura utilizada na culin\u00e1ria local, \u00e9 internacionalmente consagrado. <\/p>\n<p>Diante do mito do vazio demogr\u00e1fico, as oliveiras s\u00e3o \u201catestados da exist\u00eancia palestina\u201d, afirma Sandra Guimar\u00e3es, e sua perman\u00eancia se confunde com a dos palestinos nos territ\u00f3rios. N\u00e3o \u00e0 toa, os ataques de colonos a palestinos na Cisjord\u00e2nia se intensificam em uma \u00e9poca espec\u00edfica: entre os meses de setembro e outubro, quando ocorre a colheita de azeitonas. <\/p>\n<p>Centenas de ataques \u00e0s \u00e1rvores e \u00e0queles que fazem seu manejo foram registrados na \u00faltima temporada de colheita. Ainda em 2023, a ONU registrou que 9.600 hectares de oliveiras palestinas n\u00e3o foram colhidas devido \u00e0s restri\u00e7\u00f5es israelenses na Cisjord\u00e2nia. J\u00e1 em Gaza, aproximadamente 74% dessas \u00e1rvores foram destru\u00eddas nos meses que se seguiram ao ataque de 7 de outubro de 2023.\u00a0 <\/p>\n<p>\u201cArrancar as oliveiras \u00e9 destruir todo o tra\u00e7o da presen\u00e7a palestina na terra\u201d, resume Sandra, que participou de diversas colheitas de azeitonas na Cisjord\u00e2nia.<\/p>\n<p>Essa conex\u00e3o profunda entre palestinos e e seus cultivos \u00e9 ressaltada na culin\u00e1ria do chef palestino Fadi Kattan. \u201cA comida \u00e9 central para a resist\u00eancia ao apagamento dos palestinos porque, al\u00e9m de ser um conector com a terra, \u00e9 tamb\u00e9m um vetor social. \u00c9 uma parte importante do ritmo de nossas vidas. Ela mant\u00e9m nossas vozes firmes, dizendo que existimos apesar da inten\u00e7\u00e3o de nos apagarem\u201d, analisa. <\/p>\n<p>Entre 2015 e o in\u00edcio da pandemia de covid-19, Fadi manteve o restaurante Fawda, em Bel\u00e9m. Atualmente, ele possui outros dois restaurantes de comida palestina, um em Londres, na Inglaterra, e outro em Toronto, no Canad\u00e1. O chef aponta os desafios de se trabalhar com gastronomia em um territ\u00f3rio ocupado, ressaltando a rela\u00e7\u00e3o com os agricultores que fornecem os alimentos. <\/p>\n<p>\u201cEu cozinhava com o que estivesse dispon\u00edvel nas feiras, com o que os agricultores ofereciam a cada dia. Era isso que definia o menu naquele dia\u201d, explica. Antes de abrir o restaurante, Fadi criou a primeira competi\u00e7\u00e3o de gastronomia palestina.<\/p>\n<p>Para ele, a comida n\u00e3o deveria precisar ser parte da resist\u00eancia anticolonial. \u201cEu quero cozinhar porque cozinhar \u00e9 lindo, e quero que as pessoas comprem alimentos palestinos porque s\u00e3o muito bons, e n\u00e3o porque s\u00e3o palestinos. E isso \u00e9 algo muito importante de reconhecermos: h\u00e1 um conhecimento geracional sobre o territ\u00f3rio e as plantas nativas que os tornam bons, e o rompimento disso \u00e9 programado\u201d, afirma.\u00a0<\/p>\n<p>Segundo Sandra, esse rompimento n\u00e3o envolve apenas a destrui\u00e7\u00e3o de cultivos ou de s\u00edmbolos. Ela diz que quando os israelenses n\u00e3o conseguem destruir a cultura alimentar palestina, eles se apropriam dela. N\u00e3o \u00e9 apenas a conex\u00e3o dos palestinos com a agricultura que est\u00e1 sob ataque israelense, mas tamb\u00e9m a sua pr\u00f3pria culin\u00e1ria. <\/p>\n<h2>A apropria\u00e7\u00e3o do falafel e outros pratos pela \u201cgastronomia israelense\u201d<\/h2>\n<p>O israelense Shajar Goldwaser cresceu se alimentando de falafel todo 14 de maio, v\u00e9spera da Nakba, que, para os sionistas, marca o dia da Independ\u00eancia de Israel. O bolinho de gr\u00e3o de bico, um dos principais pratos da culin\u00e1ria palestina, era servido nas escolas e centros culturais judaicos em S\u00e3o Paulo, onde Shajar foi criado.\u00a0 <\/p>\n<p>Quando ainda era crian\u00e7a, para o poupar do futuro servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio, seus pais decidiram se mudar de Israel. Foram para a Argentina e, depois, para o Brasil. Hoje membro do coletivo \u201cVozes Judaicas por Liberta\u00e7\u00e3o\u201d, que defende a liberta\u00e7\u00e3o da Palestina e um juda\u00edsmo para al\u00e9m do sionismo, Shajar conta ter crescido em um ambiente que promovia o total apagamento da cultura palestina.\u00a0 <\/p>\n<p>Ele ressalta que esse apagamento tamb\u00e9m se dava pela apropria\u00e7\u00e3o dos alimentos palestinos, rebatizados como \u201cculin\u00e1ria israelense\u201d. \u201cA comida palestina sempre foi parte da minha alimenta\u00e7\u00e3o. Mas, obviamente, eu n\u00e3o sabia disso. Nem tinha a ideia da Palestina, de que existia uma cultura anterior \u00e0 israelense\u201d, recorda. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"850\" height=\"600\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-45.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-45.jpg 850w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-45-300x212.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/image-2-45-768x542.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 850px) 100vw, 850px\"><figcaption><em>Cart\u00e3o postal comumente vendido em Israel nomeia o falafel como \u201clanche nacional israelense\u201d. Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o <\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mesmo morando no Brasil, Shajar seguiu visitando Israel anualmente, e chegou a viver no pa\u00eds quando completou 18 anos. Foi na faculdade de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, por\u00e9m, que passou a questionar a ideologia sionista. Quatro anos depois do interc\u00e2mbio em Israel, voltou \u00e0 regi\u00e3o com um programa educacional que promove os direitos humanos na Palestina.\u00a0 <\/p>\n<p>\u201cCriei a expectativa de que iria para um lugar novo, mas retornei para o mesmo lugar onde nasci. S\u00f3 que agora era outro lugar, estava vendo com outro olhar. Entendi que Israel \u00e9 Palestina, \u00e9 uma coisa s\u00f3, cabe a quem nomeia escolher como vai se referir \u00e0quele territ\u00f3rio. Existe todo um sistema racial que esconde, maquia, oculta e oprime essa identidade palestina\u201d, explica. <\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Shajar foi marcada tamb\u00e9m pelo resgate de uma mem\u00f3ria de inf\u00e2ncia de alimentos e h\u00e1bitos alimentares que, anos depois, ele descobriu serem palestinos. Falafel, homus e salada de pepino com tomate no caf\u00e9 da manh\u00e3 s\u00e3o alguns exemplos. \u201cEntendi que tudo aquilo era parte muito fundante da cultura palestina\u201d.\u00a0 <\/p>\n<p>Hoje, essa apropria\u00e7\u00e3o se materializa em restaurantes israelenses por todo o mundo ou em iniciativas como o \u201cDia Internacional do Homus\u201d, criada por um israelense. \u201cDepois de 77 anos, os invasores reivindicam nossa culin\u00e1ria como deles, celebrando-a internacionalmente. Se eu vou usar um ingrediente local, eu reconhe\u00e7o a sua origem. Por que eles est\u00e3o isentos disso?\u201d, questiona o chef Fadi Kattan. <\/p>\n<p>Segundo Shajar, muitos restaurantes em Israel t\u00eam se consolidado como \u201cculin\u00e1ria do Oriente M\u00e9dio\u201d. \u201cComo se fosse algo super diverso e ecl\u00e9tico. De fato, h\u00e1 uma diversidade muito interessante de culturas dentro de Israel, mas elas n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas por serem culturas locais, mas sim misturadas como uma grande cultura da qual Israel quer tentar mostrar que \u00e9 parte\u201d, explica.\u00a0 <\/p>\n<p>Ele pondera que boa parte dos judeus que migraram para a Palestina tem ancestralidade \u00e1rabe, e divide uma heran\u00e7a culin\u00e1ria com o povo palestino. No entanto, ressalta que esse grupo foi historicamente subalternizado pelo pr\u00f3prio Estado de Israel, em detrimento de uma hegemonia racial de judeus brancos vindos da Europa, os chamados \u201casquenazes\u201d. <\/p>\n<p>\u201cO resultado \u00e9 uma hegemonia branca europeia que tenta universalizar sua experi\u00eancia apropriando-se das comidas de palestinos e judeus \u00e1rabes e chamando-a de \u2018comida israelense\u2019\u201d, afirma Shajar. Essa culin\u00e1ria, segundo o internacionalista, tem \u201cvendido super bem\u201d, inclusive em restaurantes descolados em S\u00e3o Paulo.\u00a0 <\/p>\n<p>Shajar tentou driblar esse movimento em 2015, ao abrir um restaurante de falafel na capital paulista que buscava divulgar a heran\u00e7a palestina do bolinho. Ele acabou deixando a sociedade do estabelecimento no fim de 2023, ap\u00f3s ataques orquestrados online difamarem o espa\u00e7o devido ao seu posicionamento antissionista. \u201cInventaram coisas, falaram que o restaurante estava cheio de ratos e que o dono era antissemita e apoiador terrorista\u201d, lembra.\u00a0 <\/p>\n<p>De acordo com ele, embora a culin\u00e1ria judaica seja muito rica, as comidas \u201ctipicamente israelenses\u201d s\u00e3o, principalmente, alimentos industrializados. \u201cAcho que esse \u00e9 o diferencial entre as comidas palestinas e israelenses\u201d, define.<\/p>\n<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/08\/26\/fome-em-gaza-nao-e-politica-pontual-entenda-como-ha-decadas-israel-viola-a-soberania-alimentar-palestina\/\">Fome em Gaza n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica pontual: entenda como h\u00e1 d\u00e9cadas Israel viola a soberania alimentar palestina<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/erika-hilton-e-eleita-presidente-da-comissao-da-mulher-na-camara\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/54723855005_1b2daba504_c-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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