{"id":47685,"date":"2025-08-27T06:00:00","date_gmt":"2025-08-27T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/um-rio-escravizado\/"},"modified":"2025-08-27T06:00:00","modified_gmt":"2025-08-27T09:00:00","slug":"um-rio-escravizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/um-rio-escravizado\/","title":{"rendered":"Um rio escravizado"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo de mil\u00eanios, as \u00e1guas cristalinas do Xingu moldaram uma paisagem especial, com biodiversidade \u00fanica e lar de centenas de pessoas, no cora\u00e7\u00e3o do estado do Par\u00e1. Ali, todos dependiam dos ciclos de cheia e seca desse grande rio amaz\u00f4nico. O Xingu era o pulso. At\u00e9 que o estado brasileiro decidiu usar esse pulso para mover uma usina hidrel\u00e9trica. Barrou as \u00e1guas do rio. E mudou absolutamente tudo.\u00a0<\/p>\n<p>Neste epis\u00f3dio, mergulhamos na transforma\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do Xingu, que de rio fonte de vida virou reservat\u00f3rio, fonte de energia, pela voz de quem ainda vive as consequ\u00eancias. A pescadora Sara Rodrigues Lima, nascida e criada na beira do Xingu, conta como era o rio que ela conhece t\u00e3o intimamente desde crian\u00e7a. E descreve como foi assistir \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da \u201cmaior hidrel\u00e9trica 100% brasileira\u201d. Com a rep\u00f3rter Isabel Seta, ela resgata o passado dessa obra gigantesca, idealizada ainda na ditadura e levada a cabo pelos governos Lula e Dilma. Uma hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o acabou e, por isso mesmo, precisa ser contada.\u00a0<\/p>\n<blockquote>\n<p>Confira a nota da Norte Energia na \u00edntegra aqui. <\/p>\n<\/blockquote>\n<h2><strong>Leia abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra:<\/strong><\/h2>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu nasci, cresci e moro numa cidade com dois rios muito polu\u00eddos, fedidos, agonizantes. Muita gente, quando passa por eles, at\u00e9 finge que eles nem est\u00e3o ali. J\u00e1 eu, que por anos pegava um trem do lado de um deles pra chegar no trabalho, n\u00e3o conseguia ignorar o mau cheiro.<\/p>\n<p>E eu sempre ficava imaginando se n\u00e3o dava pra ser diferente. Imaginando uma cidade em que as \u00e1guas n\u00e3o tivessem virado esgoto. Uma cidade que n\u00e3o pensasse nesses rios s\u00f3 na hora de falar mal deles. Tipo quando eles enchem o bairro do entorno de mosquitos, por exemplo. Ou quando eles transbordam, com qualquer chuva mais forte, naquela receita do caos.<\/p>\n<p>Pelo meu sotaque, voc\u00ea j\u00e1 deve ter percebido que eu sou de S\u00e3o Paulo. E t\u00f4 falando do rio Pinheiros, que corre ao longo de 25 km da cidade, e do rio Tiet\u00ea, que atravessa todo o estado. Dois rios em que, n\u00e3o sei como, a vida ainda d\u00e1 um jeito de aparecer, mas que j\u00e1 tem muito tempo n\u00e3o convivem mais com os moradores da cidade. Por isso, fiquei t\u00e3o impressionada quando eu ouvi a Sara falar do rio dela.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Era uma comunica\u00e7\u00e3o que a gente tinha com o rio, que n\u00f3s, povos tradicionais, n\u00e3o sabemos explicar. Porque a gente escuta, a gente sente, a gente bebe o rio, a gente \u00e9 o rio.<\/p>\n<p>O rio era livre, o rio era selvagem, as correntezas dos rios, todo mundo tinha medo. Porque era medrosa, a velocidade que o rio descia, a velocidade que ele vinha, sendo destemido, sendo temido.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O rio era livre. Voc\u00ea j\u00e1 parou pra pensar o que \u00e9 liberdade?<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa pedra, quando a gente tinha seis, sete anos, a gente pulava l\u00e1 de cima. Um monte de menino, era super alta ela, muito alta mesmo, a gente pulava de l\u00e1. A nossa vida, a nossa conviv\u00eancia com o rio, a gente tinha alegria, a gente tomava banho de chuva e depois que a gente tomava banho de chuva, a gente ia pro rio, se jogar na \u00e1gua, porque a nossa divers\u00e3o era o rio.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para Sara, liberdade era um lugar, um tempo, uma \u00e9poca de fartura.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>V\u00e1rios cardumes de peixe, a gente pulando nele, a gente comendo o melhor peixe que existia. N\u00f3s sab\u00edamos a hora de ir pro rio pescar, a gente escolhia o peixe pra comer. A gente ia l\u00e1, se pegava um peixe pequeno, a gente devolvia pro rio. O rio se comunicava com todos n\u00f3s, o rio era farturoso, o rio era lotado de vidas.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Liberdade \u00e9 tamb\u00e9m essa conviv\u00eancia t\u00e3o pr\u00f3xima, t\u00e3o \u00edntima, que se confunde com a sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>E fui pega por parteira. O meu primeiro banho foi no Xingu, no rio Xingu. Quando eu nasci, eu j\u00e1 banhei nas \u00e1guas do rio.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Xingu \u00e9 o rio da Sara, onde ela nasceu e cresceu. \u00c9 tamb\u00e9m um dos maiores e mais importantes da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A gente ia pro rio, a gente enxergava de dois, tr\u00eas metros, no fundo do rio, de t\u00e3o claro que \u00e9 \u00e1gua, uma \u00e1gua cristalina, uma \u00e1gua linda.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo de mil\u00eanios, as \u00e1guas cristalinas do Xingu moldaram uma paisagem especial, com uma biodiversidade \u00fanica. Ali tem mais esp\u00e9cies do que em toda a Europa. Algumas delas n\u00e3o existem em nenhum outro lugar do mundo. Essas \u00e1guas ditavam o ritmo da vida da Sara e de todas as outras vidas da regi\u00e3o. O Xingu era o pulso. At\u00e9 que o estado brasileiro decidiu usar esse pulso para mover uma usina hidrel\u00e9trica. Barrou as \u00e1guas do rio. E mudou absolutamente tudo.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu me sinto triste hoje porque os meus filhos n\u00e3o conseguiram ver o rio como eu vi, como eu vivi.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou Isabel Seta, e esse \u00e9 o primeiro epis\u00f3dio de Xingu em Disputa, um podcast da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Nessa s\u00e9rie, a gente vai falar da hist\u00f3ria da transforma\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do Xingu, que de rio fonte de vida se tornou reservat\u00f3rio, fonte de energia. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria das consequ\u00eancias que a maior hidrel\u00e9trica 100% brasileira, a Usina de Belo Monte, trouxe pro rio e pros seus habitantes.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m do que aconteceu 10 anos depois que as \u00e1guas do Xingu, no estado do Par\u00e1, come\u00e7aram a ser desviadas para gerar energia hidrel\u00e9trica. Uma hist\u00f3ria de viol\u00eancias, de fim de mundos. Mas tamb\u00e9m da insist\u00eancia da vida, da persist\u00eancia das lutas coletivas.<\/p>\n<p>E mais importante, uma hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o terminou. E que, por isso mesmo, precisa ser contada.\u00a0<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio 1 \u2013 Um rio escravizado\u00a0<\/p>\n<p>A Sara Rodrigues Lima, que a gente ouviu no come\u00e7o do epis\u00f3dio, se lembra muito bem de como era a vida antes dessa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu nasci aqui, eu tenho 41 anos, eu nasci aqui, eu sou filha do Xingu.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Desde que se entende por gente, ela \u00e9 pescadora e beiradeira. Beiradeira e beiradeiro \u00e9 a forma com que muitos ribeirinhos se chamam na Amaz\u00f4nia. S\u00e3o os que vivem nas beiras dos rios.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eu fui criada com peixe, eu fui criada bebendo caldo de peleca, bebendo caldo de tucunar\u00e9, bebendo caldo de todo tipo de peixe que tem aqui. Que nem eu sempre falo para os meus filhos, eu bebi quase caldo de peixe na mamadeira.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quando eu conheci a Sara, a primeira coisa que eu prestei aten\u00e7\u00e3o foram os olhos dela. Grandes, castanhos. E, mais que tudo, atentos. Daqueles que n\u00e3o deixam passar nada. Num primeiro momento, ela me pareceu estar sempre el\u00e9trica. Mas depois, reparando melhor, eu vi nela uma serenidade. A Sara tem aquela presen\u00e7a. Aquele olhar de gente que sabe bem quem \u00e9 e o que quer.<\/p>\n<p>Ela me contou que tinha uns quatro anos de idade quando come\u00e7ou a aprender a pescar. Aos seis, ela j\u00e1 pedia para o pai, o seu Valeriano, para ir junto com ele nas pescarias. Imaginem essa cena: uma menininha com o anzol pequeno, com uma minhoca na ponta, tentando pegar tucunar\u00e9 de cinco quilos.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A gente n\u00e3o tem como explicar essa comunica\u00e7\u00e3o que a gente tem com o Xingu. Ele chama a gente. Ent\u00e3o a gente tem que ir. A gente tem que aprender. Se hoje eu sei o fluxo do rio, se hoje eu sei o peixe que est\u00e1 faltando, se hoje eu sei tudo que est\u00e1 acontecendo, porque o rio me ensinou atrav\u00e9s do meu pai.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quando ela nasceu, a fam\u00edlia vivia numa comunidade de umas 20 casas de beiradeiros nas margens do Xingu e da rodovia Transamaz\u00f4nica, a uns 70 quil\u00f4metros do centro da cidade de Altamira. Toda a comunidade vivia do Xingu. Todo mundo pescava, fosse para vender, fosse para a pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o. E era tanto peixe, e uns peixes t\u00e3o bons, que com o tempo a comunidade foi ganhando fama na regi\u00e3o. Virou ponto de parada obrigat\u00f3rio para o almo\u00e7o. Era s\u00f3 seguir o cheiro de peixe frito.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Cheiro de peixe frito com tucupi, eu amava. At\u00e9 um tempo desse tinha gente que falava sobre esse peixe que vendia frito aqui na balsa, de Belo Monte.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, a Sara n\u00e3o est\u00e1 falando aqui da hidrel\u00e9trica, mas da Belo Monte Original. Belo Monte \u00e9 o nome da comunidade com cheiro de peixe frito onde ela nasceu, cresceu e sempre viveu. Era o nome de casa, at\u00e9 que veio a usina.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Muita gente pensa, ah, mas Belo Monte n\u00e3o \u00e9 a barragem? Belo Monte n\u00e3o \u00e9 a hidrel\u00e9trica? Eu falo: \u2018n\u00e3o\u2019. A hidrel\u00e9trica roubou o nome da nossa comunidade e colocou naquela maldita onde est\u00e1 destruindo o nosso Xingu.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, ela prefere outros nomes para a hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Belo Monte n\u00e3o, porque aquilo dali n\u00e3o \u00e9 chamado de Belo Monte, \u00e9 chamado de qu\u00ea? De monstro, de devorador.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Monstro devorador. Para os moradores de Belo Monte original, desde que Belo Monte, a usina, come\u00e7ou a funcionar, h\u00e1 quase 10 anos, ela devora a maior parte da \u00e1gua que antes corria \u00e0s margens da comunidade, na regi\u00e3o da Volta Grande do Xingu. E sem \u00e1gua, a Volta Grande n\u00e3o \u00e9 mais o que era.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Aqui no Xingu, eu estou aqui em Belo Monte. O rio aqui corria tanto que a balsa, que atravessa de um lado para o outro, descia muito embaixo e vinha fazendo percurso, subindo contra a correnteza, para ti ver o grau que era o Xingu, que era a for\u00e7a do Xingu. Para hoje, ele estar assim. O Xingu, eles prenderam o Xingu, o Xingu est\u00e1 preso.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, vendo o Xingu pela primeira vez, foi dif\u00edcil entender isso. Porque ali, diante daquelas \u00e1guas, das corredeiras, da explos\u00e3o de \u00e1rvores e plantas nas margens e nas ilhas, eu te confesso que o rio ainda me pareceu bem bonito. Mas \u00e9 que, para entender a tristeza da Sara, \u00e9 preciso ir al\u00e9m do meu olhar de estrangeira.<\/p>\n<p>O Xingu nasce no Mato Grosso e segue para o norte, cortando o Par\u00e1 at\u00e9 desaguar no rio Amazonas. Um curso imenso, de quase 2 mil quil\u00f4metros. Antes de chegar na foz, quando o rio passa por Altamira, no Par\u00e1, ele faz uma curva, tamb\u00e9m gigante, com 130 quil\u00f4metros de extens\u00e3o, terminando ali na altura da comunidade de Belo Monte, j\u00e1 no munic\u00edpio vizinho de Anapu.<\/p>\n<p>E por isso esse nome, Volta Grande. Um lugar \u00fanico, onde foi instalada a usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte. Eu nunca tinha visto uma paisagem como a da Volta Grande. O rio parece que se ramifica em v\u00e1rios, passando entre ilhas tomadas pela vegeta\u00e7\u00e3o e formando corredeiras agitadas, \u00e0s vezes bem dif\u00edceis de navegar. No meio da \u00e1gua, aqui e ali, aparecem trechos cheios de pedras, os chamados pedrais. E tem ainda os sarobais, tamb\u00e9m no meio da \u00e1gua, um emaranhado de \u00e1rvores de pequeno porte e arbustos, muitos deles frut\u00edferos, que crescem entre as pedras do leito e passam meses submersos, adaptados ao ritmo do rio. Nas margens, o rio se espalha pelas matas alagadas \u2014 os igap\u00f3s. Florestas que vivem entre dois mundos, metade do ano secas, metade nas \u00e1guas, como se respirassem no compasso das cheias.<\/p>\n<p>E se voc\u00ea t\u00e1 estranhando esses nomes, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Eu n\u00e3o sabia de nada disso quando cheguei l\u00e1. Muito menos os nomes dos v\u00e1rios seres que vivem na Volta Grande. S\u00f3 de fruta tem sar\u00e3o, figo, oxi, goiabinha, bananinha, goiab\u00e3o, seringa, capurana, caferana. E os peixes? Pacu, pacu de seringa, matrinx\u00e3, pi\u00e1, cadete, acari, tucunar\u00e9, curimat\u00e3, pescada.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A gente t\u00e1 falando de peixes que tinham sa\u00fade, que podiam se desenvolver e crescer. Eles tinham habitat natural, eles tinham os igap\u00f3s para poder reproduzir. Eles tinham \u00e1gua em abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Das 63 esp\u00e9cies end\u00eamicas de peixes conhecidas na Bacia do Xingu, 26 s\u00f3 existem nas corredeiras da Volta Grande. \u00c9 o caso do acari-zebra, um peixinho que chega a no m\u00e1ximo 8 cent\u00edmetros, todo listradinho de branco e preto. \u00c9 a coisa mais linda. Procura depois uma foto.<\/p>\n<p>Tem tamb\u00e9m as famosas tracaj\u00e1s, uma esp\u00e9cie de tartaruga com manchas amarelas na cabe\u00e7a. Fora os muitos outros r\u00e9pteis, e anf\u00edbios, e aves, e mam\u00edferos. Uma riqueza que acabou atraindo tamb\u00e9m os humanos, que vivem na Volta Grande h\u00e1 s\u00e9culos. Todos guiados pelo ritmo do rio, que sobe e desce, enche e esvazia, de acordo com as duas esta\u00e7\u00f5es do ano na Amaz\u00f4nia. Ver\u00e3o, \u00e9poca de seca, e inverno, \u00e9poca de chuvas. Ou, pelo menos, era assim, antes da chegada da hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>Antes, no inverno, o n\u00edvel do Xingu costumava subir bastante. As pedras ficavam submersas, as florestas das margens alagavam. E com o rio mais cheio, era mais f\u00e1cil navegar e pescar algumas esp\u00e9cies. J\u00e1 no ver\u00e3o, acontecia o inverso. O n\u00edvel do rio baixava muito, revelando, novamente, os pedrais, as praias das ilhas. Era um ciclo previs\u00edvel. Enchente, cheia, vaz\u00e3o e seca. Que a Sara e a fam\u00edlia dela conheciam muito, muito bem.<\/p>\n<p><strong>[Valeriano]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Antigamente que n\u00f3s ia pescar, quando chegava no comecinho de outubro essa \u00e1gua j\u00e1 tava aumentando, gente! Quando tava no dia 15 de outubro, n\u00f3s tinha que descer, n\u00f3s tinha que vir embora, vamos. N\u00f3s se mandava.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o seu Valeriano, o pai da Sara. Ele chegou em Volta Grande em 1975, ainda adolescente. Poucos anos depois da inaugura\u00e7\u00e3o da rodovia Transamaz\u00f4nica. Era o per\u00edodo da ditadura. E o governo militar incentivava a migra\u00e7\u00e3o para a Amaz\u00f4nia de pessoas de outras regi\u00f5es, como o Sul e o Nordeste. Foi o caso do seu Valeriano. Ele, com 16 anos, saiu do litoral do Cear\u00e1, com um tio, para trabalhar com o extrativismo no Par\u00e1. At\u00e9 ent\u00e3o, ele s\u00f3 sabia pescar no mar. E da\u00ed, conheceu o Xingu.<\/p>\n<p><strong>[Valeriano]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A \u00e1gua subia, quando dava no m\u00eas de novembro, dezembro, isso daqui tava s\u00f3 marz\u00e3o d\u00b4\u00e1gua, n\u00f3s cansava de entrar aqui \u00f3 de canoinha batendo cani\u00e7o aqui, n\u00e3o dava tempo. Peixe, bastante!<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A canoinha, que o seu Valeriano fala, \u00e9 literalmente uma canoa pequena, usada pelos beiradeiros para conseguir navegar pelos igarap\u00e9s e pelos igap\u00f3s, as matas alagadas. J\u00e1 o cani\u00e7o \u00e9 um tipo de varo usado para pescar.<\/p>\n<p><strong>[Valeriano]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O pescador sabe o que existe no rio, porque ele mora dentro. N\u00f3s mora \u00e9 aqui mesmo no beirad\u00e3o, dentro do rio, barraco aqui, tem barraco ali do outro lado ali. N\u00f3s vive dia e noite aqui. E sabe do movimento do peixe.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Se os pescadores sabem do movimento do peixe, o peixe sabe do movimento do rio.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Os igap\u00f3, onde a \u00e1gua entrava, o rio Xingu entrava, se comunicava a hora que ele ia entrar. Ele falava, \u00e9 momento da reprodu\u00e7\u00e3o, os peixes tudo acompanhavam.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa dan\u00e7a entre chuva e seca sempre foi mais do que uma mudan\u00e7a de cen\u00e1rio. Foi a b\u00fassola que guiava a vida na Volta Grande. Toda a vida. Dos humanos, que organizavam suas rotinas conforme a esta\u00e7\u00e3o. Quando abrir ro\u00e7a, quando colher frutas e castanhas, quando tirar o l\u00e1tex da seringueira, onde ca\u00e7ar. Mas tamb\u00e9m dos animais e das plantas, que sincronizavam seus per\u00edodos de migra\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o, florescimento e frutifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como \u00e9 de se imaginar, uma sintonia fina dessas n\u00e3o foi constru\u00edda de uma hora pra outra. A bacia do rio Xingu est\u00e1 entre os terrenos mais antigos do planeta. Por isso, o leito do rio \u00e9 est\u00e1vel h\u00e1 milh\u00f5es de anos. N\u00e3o muda de curso, n\u00e3o abre novos caminhos. E \u00e9 justamente essa const\u00e2ncia, essa estabilidade, que sustenta todo o ciclo de vida ao redor. Tudo pulsa no compasso do rio. At\u00e9 que veio a usina de Belo Monte. E aqui, a hist\u00f3ria da Sara e do Xingu come\u00e7aram a mudar.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Mas a gente n\u00e3o sabia o que era uma usina hidrel\u00e9trica na porta da nossa casa, no fundo do nosso quintal, no fundo do rio, onde eles\u2026 a gente n\u00e3o tinha dimens\u00e3o onde eles abririam uma cratera para desviar o fluxo da \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>[Lula \u2013 Arquivo TV]<\/strong><\/p>\n<p>\u201cQualquer pessoa de bom senso sabe que o projeto que n\u00f3s estamos fazendo hoje \u00e9 menos agressivo ao meio ambiente do que era o projeto original.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Era agosto de 2010. E o presidente Lula, j\u00e1 no fim do seu segundo mandato, acabava de assinar o contrato de concess\u00e3o de Belo Monte.<\/p>\n<p><strong>[Lula \u2013 Arquivo TV]<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO projeto original, no m\u00ednimo, era 50% maior do que esse projeto. O lago era muito maior.\u201d<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O tal projeto original, mencionado pelo presidente, nasceu ainda na ditadura. Quando o regime militar colocou em marcha aquele projeto de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia com grandes obras. Tipo a rodovia Transamaz\u00f4nica. O objetivo? Integrar para n\u00e3o entregar.<\/p>\n<p><strong>[Propaganda \u2013 Arquivo de TV]<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO presidente M\u00e9dici, inaugurou oficialmente os trabalhos de constru\u00e7\u00e3o da rodovia Transamaz\u00f4nica, instrumento eficaz de amplia\u00e7\u00e3o das fronteiras econ\u00f4micas do pa\u00eds e uma das obras essenciais do programa de integra\u00e7\u00e3o nacional elaborado pelo atual governo.\u201d<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Mas a ditadura queria mais do que integrar, n\u00e9? Queria fazer dinheiro mesmo. Uma propaganda impressa da Superintend\u00eancia de Desenvolvimento da Amaz\u00f4nia, a Sudam, deixa isso bem evidente. E como n\u00e3o tem \u00e1udio, eu te conto. A imagem trazia um mapa do Brasil com a regi\u00e3o amaz\u00f4nica ilustrada por gado, planta\u00e7\u00f5es, mega-obras, engenheiros trabalhando. E a legenda que eu abro aspas: \u201cChega de lendas. Vamos faturar.\u201d No texto que acompanha a imagem, a Transamaz\u00f4nica \u00e9 apresentada como, abrindo aspas de novo, a pista da mina de ouro.<\/p>\n<p>Como eu contei, o seu Valeriano foi um dos muitos brasileiros que seguiu essa suposta pista da mina de ouro. Em 1975, no exato ano em que ele pisava pela primeira vez na Volta Grande, o regime militar produziu os primeiros estudos de aproveitamento hidrel\u00e9trico do rio Xingu. Chamando a aten\u00e7\u00e3o pra onde? Justamente pra Volta Grande, onde o rio tem um desn\u00edvel de quase 70 metros ao longo de v\u00e1rios quil\u00f4metros. Os analistas do governo viram nesse desn\u00edvel um grande potencial hidr\u00e1ulico. Nascia, ent\u00e3o, o tal projeto original.<\/p>\n<p>Era a usina hidrel\u00e9trica Karara\u00f4, que pretendia barrar o Xingu, formando um reservat\u00f3rio gigantesco, do tamanho da cidade do Rio de Janeiro. Esse mega reservat\u00f3rio ia alagar grandes por\u00e7\u00f5es da floresta e v\u00e1rias terras ind\u00edgenas. Para completar, se apropriava de um nome ind\u00edgena. Karara\u00f4 significa grito de guerra, na l\u00edngua Kayap\u00f3. Um dos povos que teriam suas terras inundadas.<\/p>\n<p>S\u00f3 que os Kayap\u00f3 e os outros grupos ind\u00edgenas n\u00e3o iam ficar de bra\u00e7os cruzados diante de tudo isso, n\u00e9? Muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa hidrel\u00e9trica veio na ditadura, n\u00e9? Foi enfiada de goela abaixo. Muitos e muitos lutaram. Muitos ind\u00edgenas lutaram contra para n\u00e3o sair, movimentos sociais lutaram para n\u00e3o sair\u2026<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a guerreira Tu\u00edre Kayap\u00f3, que protagonizou uma cena que rodou o mundo e estampou capas de jornais e revistas. Era 1989, e dezenas de organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e movimentos sociais estavam reunidos para o primeiro grande encontro dos povos ind\u00edgenas do Xingu, na cidade de Altamira. A ideia era discutir os planos da hidrel\u00e9trica. E l\u00e1 estava tamb\u00e9m o representante da Eletronorte, a estatal respons\u00e1vel pelo projeto. O nome dele? Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Muniz Lopes. Ele estava l\u00e1, explicando o projeto, quando a Tu\u00edre foi at\u00e9 o palco, criticou a usina e, num claro sinal de advert\u00eancia, encostou o fac\u00e3o no rosto do Muniz Lopes, rendendo uma foto que ficou famos\u00edssima e que talvez voc\u00ea at\u00e9 j\u00e1 tenha visto.<\/p>\n<p>Era o in\u00edcio da redemocratiza\u00e7\u00e3o. Um tempo em que a sociedade civil recuperava a sua voz. E foi nesse contexto que a campanha ind\u00edgena contra o projeto da hidrel\u00e9trica come\u00e7ou a ganhar for\u00e7a. Organiza\u00e7\u00f5es ambientais, ativistas e at\u00e9 aliados internacionais, como o cantor Sting, se uniram aos protestos contra o megaprojeto, que, literalmente, ia alagar a floresta. O que estava em jogo era grande, mas a resist\u00eancia n\u00e3o ficava atr\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>[Arquivo TV]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>[Mix de arquivos.]<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Foi muita press\u00e3o. E, no final, deu certo. Os ind\u00edgenas conseguiram enterrar Karara\u00f4, ao menos por um tempo.<\/p>\n<p>Mas no in\u00edcio dos anos 2000, as condi\u00e7\u00f5es j\u00e1 tinham mudado. E a ideia de usar o Xingu como fonte de energia come\u00e7ava a ser ressuscitada.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eles vieram. Eles falaram que ia gerar emprego, muita gente que n\u00e3o vivia do peixe ficaram animadas. Eles falaram coisas lindas. Eles entraram na cabe\u00e7a das pessoas leigas, das pessoas inocentes, das pessoas que n\u00e3o entendiam muito o que era uma hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Estava todo mundo traumatizado com a crise dos apag\u00f5es e o racionamento de energia do governo Fernando Henrique. E o pa\u00eds estava crescendo, assim como o consumo de energia el\u00e9trica, que aumentava mais r\u00e1pido do que a capacidade de produ\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 novidade para ningu\u00e9m que o Brasil tem um enorme potencial h\u00eddrico. 12% das reservas de \u00e1gua doce do mundo est\u00e3o aqui. Ent\u00e3o, gerar uma energia usando os nossos recursos naturais e abundantes continuava parecendo uma boa ideia. E lembra do que o Lula disse?<\/p>\n<p><strong>[Lula \u2013 Arquivo TV]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO projeto original, no m\u00ednimo, era 50% maior do que esse projeto. O lago era muito maior.\u201d<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>D\u00e1 para dizer que rolou uma repaginada. Para tentar conter as cr\u00edticas e as manifesta\u00e7\u00f5es da sociedade civil, o projeto foi redesenhado com uma diferen\u00e7a fundamental. Abandonar o reservat\u00f3rio do tamanho do Rio de Janeiro e usar apenas o fluxo do pr\u00f3prio rio Xingu para gerar energia. Um modelo que \u00e9 conhecido como fio d \u2018\u00e1gua. J\u00e1 te explico melhor. Detalhe n\u00e3o menos importante: tamb\u00e9m mudaram o nome. Karara\u00f4 virou Belo Monte. Uma apropria\u00e7\u00e3o por outra.<\/p>\n<p>A proposta avan\u00e7ou. Ainda em 2005, no primeiro mandato do Lula, uma das primeiras etapas necess\u00e1rias foi vencida. O Congresso Nacional autorizou a execu\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p><strong>[Lula \u2013 Arquivo TV]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO Brasil est\u00e1 crescendo forte e vai crescer ainda mais. Precisa e precisar\u00e1 cada vez mais de energia limpa, barata e segura. Raz\u00e3o pela qual n\u00f3s temos a responsabilidade de fazer Belo Monte.\u201d<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>E da\u00ed, no in\u00edcio do segundo mandato, Belo Monte entrou no Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento. Era a maior obra do PAC. E adivinhem, aquele engenheiro que sentiu no rosto o fac\u00e3o da Tu\u00edre, o Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Muniz Lopes, foi escolhido para presidir a Eletrobras, que capitaneava o projeto.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou muito para uma nova onda de cr\u00edticas passar a rondar Belo Monte. A press\u00e3o mais uma vez estava crescendo. Assim como as perguntas. A quem realmente interessava essa obra? E a que custo? Ok, ent\u00e3o a hidrel\u00e9trica n\u00e3o iria mais inundar terras ind\u00edgenas. Mas isso n\u00e3o quer dizer que estava tudo bem com a vers\u00e3o repaginada. Isso porque muitos especialistas j\u00e1 estavam alertando que esse tal modelo a fio d \u2018\u00e1gua por uma usina desse porte era arriscado. Muito arriscado. Ia dar ruim.<\/p>\n<p><strong>[Suely Ara\u00fajo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Na verdade, a op\u00e7\u00e3o pelo sistema de capta\u00e7\u00e3o a fio d \u2018\u00e1gua foi para diminuir o tamanho do reservat\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a urbanista e advogada Suely Ara\u00fajo. Hoje coordenadora de pol\u00edticas p\u00fablicas do Observat\u00f3rio do Clima, ela entende como poucos sobre hidrel\u00e9tricas e sobre licenciamento ambiental. A Suely tamb\u00e9m foi presidente do Ibama entre 2016 e 2018, depois que a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da usina de Belo Monte j\u00e1 tinha sido concedida pelo \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Diminuir o tamanho do reservat\u00f3rio significava mudar o paradigma para hidrel\u00e9tricas desse porte. Eu explico: Outras grandes usinas constru\u00eddas pelo regime militar, como a pr\u00f3pria Itaipu, no rio Paran\u00e1, e Tucuru\u00ed, no rio Tocantins, alagaram \u00e1reas imensas para fazer os seus reservat\u00f3rios. E s\u00e3o eles que garantem que essas usinas continuem gerando energia mesmo quando o volume dos rios est\u00e1 baixo. Mas essa escolha levou a um enorme passivo socioambiental, que nunca foi reparado. Regi\u00f5es de floresta, lavouras, comunidades, simplesmente desapareceram.<\/p>\n<p>O reservat\u00f3rio de Itaipu colocou debaixo d \u2018\u00e1gua \u00e1reas sagradas e at\u00e9 antigos cemit\u00e9rios. Milhares de fam\u00edlias foram expulsas de suas terras. S\u00f3 no caso de Tucuru\u00ed foram quase 10 mil. Ent\u00e3o a ideia do governo para Belo Monte de desistir do grande reservat\u00f3rio e usar a for\u00e7a da \u00e1gua provocada pelo desn\u00edvel natural do leito do Xingu parecia menos invasiva. Pelo menos no papel.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 a\u00ed que mora o problema. Como a Sara, os beiradeiros, os pescadores, os povos ind\u00edgenas e todo mundo que vive naquela regi\u00e3o est\u00e1 cansado de saber, o Xingu muda de acordo com a esta\u00e7\u00e3o. E \u00e9 muito dependente das chuvas. Quer dizer, a vaz\u00e3o dele, o volume de \u00e1gua que corre em determinado trecho a cada segundo, varia bastante ao longo do ano, em at\u00e9 40 vezes, ficando muito reduzida no ver\u00e3o, \u00e9poca de seca. J\u00e1 deu pra sacar que n\u00e3o ia ter como gerar muita energia o ano todo, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Suely Ara\u00fajo]<\/strong><\/p>\n<p>O reservat\u00f3rio que est\u00e1 l\u00e1, ele \u00e9, na verdade, de regulariza\u00e7\u00e3o para garantir a gera\u00e7\u00e3o, mas ele n\u00e3o \u00e9 de acumula\u00e7\u00e3o. Quer dizer, quando tiver uma grande seca no Xingu, Belo Monte diminui muito a gera\u00e7\u00e3o. Isso tem ocorrido na \u00e9poca de seca.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E isso nunca foi segredo pra ningu\u00e9m. Desde o in\u00edcio se sabia que a pot\u00eancia instalada de milhares de megawatts, a segunda maior do pa\u00eds, s\u00f3 atr\u00e1s de Itaipu, s\u00f3 ia ser alcan\u00e7ada com sorte em alguns meses do ano, durante o inverno amaz\u00f4nico. Mas na maior parte do ano, a usina n\u00e3o ia ter como funcionar com todas as turbinas ligadas. O pr\u00f3prio projeto reconhecia isso, tanto que a usina foi planejada para gerar, em m\u00e9dia, menos da metade dessa pot\u00eancia instalada. \u00c9 tipo ter um carro de corrida circulando a 60 quil\u00f4metros por hora.<\/p>\n<p>Uma obra car\u00edssima, com um custo inicial estimado em 19 bilh\u00f5es de reais, que depois passaram para quase 29 bilh\u00f5es, o que em valores de hoje seriam 60 bilh\u00f5es, para ter menos da metade da energia que a usina era capaz de produzir? S\u00f3 que, claro, o problema nem era s\u00f3 esse. Porque mesmo sem o mega-reservat\u00f3rio, os impactos socioambientais da usina n\u00e3o eram nada desprez\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, assim, quando chegou essa not\u00edcia\u2026 que o desenvolvimento ia chegar para c\u00e1, para o Belo Monte, para a Volta Grande do Xingu, eu mesma, como todos os outros pescadores, n\u00e3o sabia a dimens\u00e3o do que era uma usina hidrel\u00e9trica, porque a gente n\u00e3o vivenciou isso nunca na vida. Entendeu? A gente viu falar sobre Tucuru\u00ed, a gente viu falar sobre aquilo, mas a gente n\u00e3o vivenciou aquilo. Tucuru\u00ed sempre falava, aquela barragem de Tucuru\u00ed, os pescadores sempre falavam que acabou com a vida deles.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Em 2009, os alertas dos povos locais ganharam um apoio de peso. Um grupo de 40 cientistas publicou uma an\u00e1lise independente sobre o Estudo de Impacto Ambiental de Belo Monte, que tinha sido apresentado pela Eletrobras ao Ibama. Esse estudo de impacto \u00e9 o documento mais importante de todo o processo de licenciamento. Porque \u00e9 ele que tem que prever, com precis\u00e3o, os danos ambientais, sociais e econ\u00f4micos de um projeto como esse, at\u00e9 pra que esses danos possam ser evitados, ou sanados.<\/p>\n<p>Os cientistas apontaram faltas graves no estudo da Eletrobras, como n\u00e3o prever o risco de prolifera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e subestimar o tamanho da popula\u00e7\u00e3o que ia ser impactada pela obra. Eles tamb\u00e9m mostraram que n\u00e3o havia estudos sobre ind\u00edgenas isolados, nem sobre o risco de desmatamento nas terras ind\u00edgenas aumentar, e nem uma previs\u00e3o de que podia acontecer uma perda irrevers\u00edvel de biodiversidade. Foi bem nessa mesma \u00e9poca que entraram em cena as primeiras a\u00e7\u00f5es judiciais contra Belo Monte. Hoje, elas j\u00e1 somam mais de 20.<\/p>\n<p>Quem acompanhou de perto tudo, desde o in\u00edcio, foi o procurador da Rep\u00fablica Fel\u00edcio Pontes, que encabe\u00e7ou muitas dessas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>[Fel\u00edcio Pontes]<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que o mais importante disso tudo\u2026 e o que n\u00e3o nos deixava desistir ou mudar de curso naquele momento, apesar de todas as press\u00f5es, era o que vinha da Volta Grande do Xingu, o clamor que vinha de l\u00e1. Cada vez que a gente ia para l\u00e1, conversava com as comunidades de pescadores, as comunidades ind\u00edgenas, os ribeirinhos, n\u00f3s volt\u00e1vamos arrasados com aquilo que eles j\u00e1 diziam que iria acontecer e eles, conhecendo a Volta Grande, sabiam aquilo melhor do que qualquer pesquisador que pudesse chegar do Brasil, de fora ou de outras partes do Brasil naquela regi\u00e3o. E o que eles diziam para a gente foi exatamente o que aconteceu, tudo aquilo de ruim que poderia acontecer com o represamento de um rio na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O Fel\u00edcio me contou que, numa dessas visitas na Volta Grande, o cacique dos ind\u00edgenas de Uruna chegou a avisar a ele: \u201colha, se o rio for barrado, n\u00e3o vai ter \u00e1gua suficiente pra ter peixe\u201d. Sem \u00e1gua, e sem peixe, vai ter praga de mosquito. O alerta do cacique batia exatamente com o que os cientistas tinham previsto naquele estudo independente. Ou seja, tava todo mundo, ind\u00edgenas, beiradeiros, cientistas, procuradores, ambientalistas, movimentos sociais, todos alertando pro que ia acontecer com a Volta Grande do Xingu.<\/p>\n<p>Isso porque, nos planos da usina, a regi\u00e3o onde vive a Sara, o pai dela e centenas de outros ribeirinhos e ind\u00edgenas ia ser transformada no que, em termos t\u00e9cnicos, eles chamavam e ainda chamam de trecho de vaz\u00e3o reduzida. Quer dizer, na aus\u00eancia de um grande reservat\u00f3rio, para a usina poder funcionar ia ser necess\u00e1rio desviar a maior parte da vaz\u00e3o, do volume de \u00e1gua, que antes corria pela Volta Grande, para alimentar as turbinas. O que ia sobrar de \u00e1gua para a regi\u00e3o ficava muito abaixo da m\u00e9dia hist\u00f3rica do rio. Uma quantidade de \u00e1gua que podia ser insuficiente para garantir a sobreviv\u00eancia dos ecossistemas da Volta Grande.<\/p>\n<p>Os t\u00e9cnicos do Ibama, l\u00e1 atr\u00e1s, quando analisaram o processo de licenciamento ambiental, perceberam isso. E colocaram isso nos relat\u00f3rios. O que eles estavam dizendo, basicamente, era o seguinte: com t\u00e3o pouca \u00e1gua, a Volta Grande n\u00e3o tinha seguran\u00e7a. Pra ningu\u00e9m. Nem pras pessoas e nem pra todos os outros seres. Com todos os alertas apontando pro mesmo lugar, o do: \u201cgente, isso vai dar ruim\u201d, talvez fosse um bom momento pro governo parar, pensar bem e falar: \u201c\u00e9, talvez n\u00e3o seja uma ideia t\u00e3o boa assim tirar Belo Monte do papel\u201d. Mas, n\u00e3o foi isso que aconteceu.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Foi assim, a gente fala de goela abaixo porque a gente gritou. A gente falou que n\u00e3o queria a hidrel\u00e9trica, mas ela est\u00e1 a\u00ed.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quando Lula assinou o contrato de concess\u00e3o, dando sinal verde pro in\u00edcio das obras, a Sara tinha 26 anos. E Belo Monte, a comunidade onde ela nasceu e cresceu, tava prestes a mudar completamente.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eles n\u00e3o nos escutaram. Nos atropelaram, passaram por cima e fizeram.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O leil\u00e3o aconteceu em abril de 2010. E quem levou foi o cons\u00f3rcio Norte Energia, liderado por uma subsidi\u00e1ria da Eletrobras e com participa\u00e7\u00e3o de outras oito empresas. Nessa lista, estavam a construtora Queiroz Galv\u00e3o e empresas que n\u00e3o tinham experi\u00eancia nenhuma na constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas. Com a vit\u00f3ria, veio tamb\u00e9m a chave do projeto. O contrato de concess\u00e3o de 35 anos. 35 anos de controle sobre a opera\u00e7\u00e3o da usina de Belo Monte.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 2011, no in\u00edcio do governo Dilma. E a Sara lembra bem daquela certeza que ela sentiu de que o seu mundo tava sendo totalmente transformado.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7aram a fazer uma cratera de 100 metros pra baixo do ch\u00e3o. Ali, naquele momento, os peixes j\u00e1 come\u00e7aram a sentir o impacto. Em 2011. Come\u00e7aram j\u00e1 a sentir. Porque tremia, o ch\u00e3o tremia. Qualquer som, qualquer coisinha, o peixe j\u00e1 sabe. Tu pisando na beira, na beira da \u00e1gua, o peixe te sente. Tu j\u00e1 pensou em uma explos\u00e3o que eles colocavam, que ele explodia, como \u00e9 que ele n\u00e3o ficava dentro da \u00e1gua? A gente sentia, a gente escutava. O BUM! Era tipo assim, eles fazendo aquela enorme caixa d \u2018\u00e1gua pra armazenar \u00e1gua. Armazenar \u00e1gua pra gera\u00e7\u00e3o de energia.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Era s\u00f3 o come\u00e7o. Depois das explos\u00f5es e da cratera, vieram 3 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de concreto. E 160 mil toneladas de a\u00e7o. O que daria pra construir 37 maracan\u00e3s e 22 torres Eiffel. Um neg\u00f3cio descomunal. Imenso. Uma muralha no meio do rio. Mas ainda ia ficar pior.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>E a\u00ed em 2016, abriram as primeiras turbinas. Em 2015, 2016, a\u00ed que tudo come\u00e7ou a desandar. A\u00ed come\u00e7ou aquela desordem onde o peixe ficou desorientado. Nesse momento a gente j\u00e1 sentiu que tudo mudou no rio. Porque n\u00e3o era mais o rio. A gente viu as corredeiras se desvalindo, morrendo aos poucos.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quando a Sara fala do peixe desorientado, \u00e9 literal mesmo. Com o fluxo das \u00e1guas agora controlado pela hidrel\u00e9trica, os sinais ficaram confusos. O rio n\u00e3o sobe e desce mais como antes. E os peixes n\u00e3o conseguem mais entender esse movimento. Pra saber qual \u00e9 a hora certa de entrar nas \u00e1reas alagadas e se reproduzir. Aquele ciclo milenar de seca e cheia, de uma hora pra outra, foi quebrado.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ele foi violado, ele foi arrancado \u00e0 for\u00e7a pela usina.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A natureza deixou de ser a for\u00e7a que animava o rio.<\/p>\n<p>Para a usina funcionar a fio d \u2018\u00e1gua, sem o lago gigantesco t\u00edpico das outras hidrel\u00e9tricas, tiveram que fazer n\u00e3o uma, mas duas barragens e dois reservat\u00f3rios menores. Foi preciso intervir pesado no curso natural do rio. O Xingu foi dividido, redirecionado, represado. O primeiro reservat\u00f3rio foi feito no pr\u00f3prio leito do Xingu, alargando o curso do rio. Para isso, tiveram que construir uma barragem, chamada S\u00edtio Pimental.<\/p>\n<p>Essa barragem cortou o Xingu. De um lado, fez do rio um reservat\u00f3rio. Do outro, na Volta Grande, o curso original do rio foi mantido, mas ele ficou praticamente sem \u00e1gua. Entre 70% e 80% das \u00e1guas que antes corriam pela Volta Grande foram barradas pela Pimental. Barradas pra serem desviadas por meio de um canal pra outro reservat\u00f3rio. Esse totalmente artificial, que foi criado pra regular a quantidade de \u00e1gua que vai passar pelas turbinas da casa de for\u00e7a principal, que t\u00e1 l\u00e1 na outra barragem, o S\u00edtio Belo Monte.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, hoje funciona assim: quando a Norte Energia abre as comportas da barragem Pimental, mais \u00e1gua passa pra Volta Grande. Quando ela fecha as comportas, a \u00e1gua que antes ia pra regi\u00e3o \u00e9 desviada pra poder gerar energia. \u00c9 um jogo de abrir e fechar, de liberar ou segurar o rio. A Sara tem um outro jeito de explicar isso:<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, hoje em dia \u00e9 um ciclo que quem t\u00e1 mandando hoje \u00e9 a Norte Energia. \u00c9 a hidrel\u00e9trica. A natureza, ela t\u00e1 presa. Ela foi presa, ela t\u00e1 sendo massacrada. O Rio Xingu, ele t\u00e1 sendo escravizado. Pelo maldito desenvolvimento, onde o desenvolvimento, que \u00e9 essa maldita energia, que \u00e9 um desenvolvimento que n\u00e3o serve pra mim, que sou pescadora, sou beiradeira, sou m\u00e3e. Entendeu? Sou uma lideran\u00e7a aqui.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>E n\u00e3o bastasse a quantidade de energia gerada, na m\u00e9dia, t\u00e1 bem abaixo do planejado. A hidrel\u00e9trica n\u00e3o t\u00e1 gerando a energia que prometeu. Entre 2020 e 2024, per\u00edodo em que a gente teve muitos momentos de seca, vamos lembrar, a hidrel\u00e9trica gerou, em m\u00e9dia, por ano, o equivalente a 31% da pot\u00eancia instalada total. Um percentual que t\u00e1 abaixo do que o pr\u00f3prio planejamento do projeto estipulava como m\u00e9dia. Mesmo assim, pra poder gerar essa energia, a Volta Grande permanece sem \u00e1gua. E isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 um impacto, n\u00e3o foi s\u00f3 as piracemas. Para n\u00f3s aqui houve bastante impacto. As piracema \u00e9 fundamental, \u00e9 o ber\u00e7o de toda uma vida, que \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o do peixe. A gente est\u00e1 falando tamb\u00e9m da floresta fluvial. Est\u00e1 morrendo pela falta de \u00e1gua. Porque \u00e9 l\u00e1 que o peixe ia reproduzir. Porque sem a \u00e1gua inundar os igap\u00f3, o peixe n\u00e3o vai reproduzir. A gente est\u00e1 falando do fruto do peixe que est\u00e1 caindo no seco. A gente est\u00e1 falando do sar\u00e3o que est\u00e1 morrendo. A gente est\u00e1 falando da bananinha. A gente est\u00e1 falando da goiabinha, de v\u00e1rios outros frutos. Da capurana, de todos os frutos. Da caferana, que depende da \u00e1gua, que \u00e9 seis meses cheio, e seis meses seco. H\u00e1 mais tempo no seco do que \u00e1gua. Essa mata est\u00e1 morrendo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Mas \u00e9 que n\u00e3o era pra ser assim. Os impactos deveriam, podiam ter sido contidos. Mitigados, no termo t\u00e9cnico. Antes da usina come\u00e7ar a funcionar, o Ibama concedeu uma licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o com dezenas de medidas de compensa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o as chamadas medidas condicionantes. No papel tava tudo ali, bem estabelecido. A usina tinha obriga\u00e7\u00f5es claras. Do tipo, monitorar a qualidade da \u00e1gua do Xingu, fazer a reurbaniza\u00e7\u00e3o da Orla de Altamira, realocar fam\u00edlias removidas pelas obras, criar e tocar programas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental e de desenvolvimento social. Era o que se chamava de compensa\u00e7\u00f5es. Tipo uma troca. J\u00e1 que o impacto era inevit\u00e1vel, a Norte Energia ia ter que, pelo menos, cuidar das consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Uma das principais condicionantes da licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o t\u00e1 justamente ligada \u00e0 Volta Grande. Essa condicionante diz que a Norte Energia tem que controlar a vaz\u00e3o de \u00e1gua na regi\u00e3o de forma a reduzir todos os impactos. Na qualidade da \u00e1gua, na fauna, na vegeta\u00e7\u00e3o e nos modos de vida das popula\u00e7\u00f5es tradicionais da Volta Grande. O problema \u00e9 que esse compromisso n\u00e3o t\u00e1 sendo respeitado.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ai os nossos filhos, que hoje muitos que est\u00e3o nascendo por agora e os que n\u00e3o conseguiram ver o que era o rio Xingu antes, a gente conta a hist\u00f3ria do que foi o rio Xingu. \u00c9 triste, porque hoje em dia ele v\u00ea a piraiba, que \u00e9 o filhote, por foto. Ele v\u00ea por foto. E n\u00e3o \u00e9\u2026 Assim, tem gente que conta uma hist\u00f3ria, que essa hist\u00f3ria eu consegui alcan\u00e7ar pelo meu pai, eu vi o rio, o que era o rio Xingu. E hoje eu estar falando pro meu filho o que era o rio e ele n\u00e3o poder ver o que era o rio Xingu, que eu vi, que eu presenciei, n\u00e3o \u00e9 bom, \u00e9 triste. \u00c9 triste a gente contar a hist\u00f3ria de um rio que est\u00e1 sendo morto. Morto, est\u00e1 sendo devorado pela gan\u00e2ncia. E ai eu quero saber se o dinheiro que eles t\u00e3o fazendo. Se eles v\u00e3o beber dinheiro.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Mas essa hist\u00f3ria ainda n\u00e3o acabou. E como dizem os beiradeiros e ind\u00edgenas com quem eu conversei, ela n\u00e3o \u00e9 um fato consumado.<\/p>\n<p>E \u00e9 aqui que a gente chega num ponto crucial, que \u00e9 justamente o momento que pode definir os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos dessa hist\u00f3ria. A licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da usina venceu em 2021, mas a Norte Energia pode continuar operando at\u00e9 a licen\u00e7a ser renovada ou n\u00e3o. J\u00e1 sabe com quem t\u00e1 essa bola, n\u00e9? Sim, com ele, o Ibama. Talvez o \u00f3rg\u00e3o que tenha passado por mais press\u00e3o nesse governo Lula 3 por causa do projeto da Petrobras de perfurar a margem equatorial na foz do rio Amazonas, atr\u00e1s de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p><strong>[Suely Ara\u00fajo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E o Ibama tem estudado entre os muitos programas derivados das condicionantes da licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o que v\u00e3o desde ribeirinhos e a lidar com a quest\u00e3o da vaz\u00e3o na Volta Grande at\u00e9 o saneamento na cidade de Altamira.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Essa, de novo, \u00e9 a Sueli Ara\u00fajo, coordenadora de pol\u00edticas p\u00fablicas do Observat\u00f3rio do Clima.<\/p>\n<p><strong>[Suely Ara\u00fajo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o tem um monte de programas diferentes, recursos para fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental. Ent\u00e3o o que o Ibama faz quando t\u00e1 analisando esse pedido de renova\u00e7\u00e3o da LO \u00e9 pegar cada um desses programas e ver como t\u00e1.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A LO, que ela comenta, \u00e9 a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o. At\u00e9 2022, um levantamento do Ibama mostrou que das 47 condicionantes da licen\u00e7a, s\u00f3 13 tinham sido integralmente cumpridas pela Norte Energia. Ou seja, n\u00e3o est\u00e3o respeitando nem o combinado que eles mesmos fizeram. Um dos pontos que continuam abertos \u00e9 justamente o controle da vaz\u00e3o da Volta Grande.<\/p>\n<p>Eu procurei a Norte Energia com v\u00e1rias perguntas sobre as medidas condicionantes e sobre a vaz\u00e3o da Volta Grande. A empresa me respondeu com um texto corrido, dizendo que a quantidade de \u00e1gua pra Volta Grande foi estudada e estabelecida pelo Estado brasileiro no leil\u00e3o de concess\u00e3o da usina e que o atual modelo \u00e9 uma medida de mitiga\u00e7\u00e3o ambiental. A Norte Energia tamb\u00e9m disse que investiu 8 bilh\u00f5es de reais em a\u00e7\u00f5es socioambientais na regi\u00e3o. Nas palavras da empresa, abre aspas: \u201cs\u00e3o a\u00e7\u00f5es transformadoras que v\u00eam proporcionando melhor qualidade de vida e moradia para as pessoas\u201d. Fecha aspas. Voc\u00ea pode ler a nota completa no nosso site, apublica.org.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m fui atr\u00e1s do Ibama para saber como \u00e9 que t\u00e1 a an\u00e1lise das medidas condicionantes no processo de renova\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a. O \u00f3rg\u00e3o me respondeu que se trata de uma avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, complexa e multidisciplinar e que, por isso, n\u00e3o tem uma previs\u00e3o definida para a conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o momento em que essa an\u00e1lise do Ibama t\u00e1 acontecendo n\u00e3o \u00e9 qualquer um. \u00c9 bem significativo. Em 2025, o Brasil ser\u00e1 sede da mais importante confer\u00eancia global sobre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, a COP30. Um encontro em que os mais de 190 pa\u00edses t\u00eam uma miss\u00e3o clara. Eles t\u00eam que oferecer um mapa do caminho para o fim do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, que est\u00e3o causando o aquecimento global. As hidrel\u00e9tricas s\u00e3o tidas como fontes de energia bem mais limpas do que as termel\u00e9tricas movidas a carv\u00e3o ou a diesel. Mas, para funcionar, elas precisam de \u00e1gua, um recurso que est\u00e1 ficando escasso nesses anos de falta de chuvas e aumento de secas extremas. A transforma\u00e7\u00e3o do clima j\u00e1 chegou. E os povos da Volta Grande est\u00e3o vendo como \u00e9 viver nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>A gente quer que n\u00e3o haja mais nenhum tipo de destrui\u00e7\u00e3o dos nossos rios, na nossa floresta. Chega de explora\u00e7\u00e3o. Que nem est\u00e3o querendo explorar o petr\u00f3leo na Amaz\u00f4nia. Chega, gente. Chega. A natureza n\u00e3o t\u00e1 aguentando mais. A gente t\u00e1 entrando no colapso. A gente t\u00e1 entrando no colapso clim\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo epis\u00f3dio, a gente vai ouvir o que os povos da Volta Grande t\u00eam a dizer sobre esse colapso. E entender o que o desvio da \u00e1gua do Xingu t\u00e1 provocando nesta regi\u00e3o. At\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>Xingu em Disputa \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o original da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Para fazer essa s\u00e9rie, eu li centenas de p\u00e1ginas de documentos oficiais e entrevistei mais de 25 pessoas. Algumas que voc\u00ea ouviu aqui. Deixo meu agradecimento a todas elas.<\/p>\n<p>Esse podcast foi produzido e escrito por mim, Isabel Seta, que viajei a Altamira com o apoio do Instituto Socioambiental. A edi\u00e7\u00e3o dos roteiros \u00e9 da Giovana Girardi, com colabora\u00e7\u00e3o da Cl\u00e1udia Jardim. Sofia Amaral faz a dire\u00e7\u00e3o da locu\u00e7\u00e3o e a coordena\u00e7\u00e3o geral da s\u00e9rie. A pesquisa de arquivos \u00e9 da Rafaela de Oliveira, da Stela Diogo e minha. A locu\u00e7\u00e3o foi gravada no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica, com trabalhos t\u00e9cnicos da Stela Diogo e do Ricardo Terto. O design de som, edi\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o por Pedro Pastoriz, com trilhas sonoras do Epidemic Sound. A identidade visual \u00e9 do Matheus Pigozzi. A equipe de divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por Marina Dias, Lorena Morgana, Renata Cons, Leticia Gouveia, Ethieny Karen, Ester Nascimento, Edgar Chulve e Vanice Christine.<\/p>\n<p>Nesse epis\u00f3dio, a gente usou \u00e1udios de TV Brasil, Arquivo Nacional, Rep\u00f3rter Brasil, TITV Weekly e Studio Line Films. Os sons de ambiente gravados em Altamira s\u00e3o do Instituto Socioambiental e foram captados pela fot\u00f3grafa Jennifer Bandeira. Raimundo da Cruz e Silva, gentilmente cedeu \u00e1udios captados na sua comunidade no Xingu.<\/p>\n<p>Muito obrigada por acompanhar a gente at\u00e9 aqui. At\u00e9 o pr\u00f3ximo epis\u00f3dio.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/gdf-revoga-portaria-que-reduzia-salarios-mas-professores-do-df-mantem-paralisacao-nesta-quinta-23\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">GDF revoga portaria que reduzia sal\u00e1rios, mas prof...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/app-mei-veja-funcoes-que-facilitam-a-vida-do-empreendedor\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/MEI-1-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">App MEI: Veja fun\u00e7\u00f5es que facilitam a vida do empr...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sp-a-periferia-que-engula-o-lixao\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/e114e033-fbe0-453e-ae64-559d5a5c597b-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">SP: \u201cA periferia que engula o lix\u00e3o!\u201d<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/receita-identifica-267-postos-e-r-45-bilhoes-em-nova-operacao-contra-o-pcc\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/699e5d21-c4cb-4a86-b027-9e5dd5ea53d9-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Receita identifica 267 postos e R$ 4,5 bilh\u00f5es em ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epis\u00f3dio resgata hist\u00f3ria de Belo Monte, projeto herdado da ditadura, e mostra como aconteceu a transforma\u00e7\u00e3o do Xingu<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[109,13745,18,5557,4845],"tags":[],"class_list":["post-47685","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-amazonia","category-belo-monte","category-meio-ambiente","category-portugues","category-xingu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47685"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47685\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}