{"id":47686,"date":"2025-08-27T06:00:00","date_gmt":"2025-08-27T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/o-sacrificio-da-volta-grande\/"},"modified":"2025-08-27T06:00:00","modified_gmt":"2025-08-27T09:00:00","slug":"o-sacrificio-da-volta-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-sacrificio-da-volta-grande\/","title":{"rendered":"O sacrif\u00edcio da Volta Grande"},"content":{"rendered":"<p>O que acontece com um rio quando ele deixa de ter \u00e1gua suficiente para se manter? Desde que o Xingu teve suas \u00e1guas barradas pela usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte, ind\u00edgenas e ribeirinhos sentem na pele a resposta dessa pergunta. Na Volta Grande do Xingu, trecho do rio de cerca de 130 quil\u00f4metros de extens\u00e3o, eles foram os primeiros a sentir o impacto do controle das \u00e1guas, imposto pela usina. Se antes o rio enchia e secava conforme as esta\u00e7\u00f5es, num ciclo natural criado ao longo de mil\u00eanios, agora as \u00e1guas respondem \u00e0 opera\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica.\u00a0<\/p>\n<p>A usina e o governo federal sempre minimizaram os impactos dessa transforma\u00e7\u00e3o, denunciados pelos povos locais. Por isso, os moradores resolveram que eles mesmos iam levantar provas dos problemas. E nenhuma evid\u00eancia se mostraria mais vis\u00edvel do que epis\u00f3dios de morte em massa de ovas de peixes. Neste epis\u00f3dio, a rep\u00f3rter Isabel Seta nos leva para viajar pela Volta Grande com beiradeiros e ind\u00edgenas que fazem parte dessa iniciativa in\u00e9dita de monitoramento e descobrir o que eles v\u00eam registrando.<\/p>\n<h2><strong><strong>Leia abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra:<\/strong><\/strong><\/h2>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Paramos na beira do rio para esperar a fam\u00edlia da Sara, que chegou na famosa canoa de alum\u00ednio do pai dela, que brilhava no sol forte. Vi primeiro o seu valeriano, um senhor alto, imponente, com a barba branca que contrasta com a pele escura, bon\u00e9 na cabe\u00e7a, pilotando no motor. Na frente dele vinha a \u00fanica mulher do grupo, a Sara, chap\u00e9u vermelho, camiseta azul, do lado do marido, o Zeca, tamb\u00e9m protegido por um chap\u00e9u. Na ponta da canoa vinha o Orlando, irm\u00e3o da Sara, com uma camiseta de futebol com seu apelido escrito, Coc\u00e3o. Ele tamb\u00e9m de bon\u00e9.<\/p>\n<p>Da\u00ed eu me dei conta. Todo mundo tinha coberto a cabe\u00e7a, menos eu, meu primeiro erro de principiante naquele sol forte. O segundo veio quando eu fui entrar na canoa e quase ca\u00ed, encharcando a minha cal\u00e7a. Disfar\u00e7a. Fomos navegando o rio acima, at\u00e9 que o seu valeriano virou a dire\u00e7\u00e3o da canoa e encostou num ponto que eu nem achava que dava pra desembarcar, de t\u00e3o escondido pelas plantas que cresciam nas margens. Aquela ilha de mata densa era nosso primeiro destino naquela manh\u00e3 de fevereiro de 2025.<\/p>\n<p>A gente foi andando em sil\u00eancio, o som dos nossos passos marcados pelos estalos das folhas secas no ch\u00e3o. Eu caminhava olhando pro ch\u00e3o, primeiro porque eu n\u00e3o queria trope\u00e7ar em nenhuma raiz e passar vergonha de novo, mas tamb\u00e9m porque eu estava procurando formigas sa\u00favas, ou melhor, os ninhos delas e os caminhos que elas abrem no ch\u00e3o. Essa era uma pista que tinham me dito para procurar, e logo eu vi, v\u00e1rios ninhos, bem grandes, com cara de que foram constru\u00eddos tinha tempo.<\/p>\n<p>J\u00e1 o resto do grupo estava mais preocupado com as pistas acima do ch\u00e3o. Dava pra sentir a apreens\u00e3o deles. Todo mundo com os olhos nas \u00e1rvores, procurando frutos nos galhos. Mas nada. Aquela altura da viagem eu j\u00e1 tinha aprendido que folhas secas, sa\u00favas e a aus\u00eancia de frutos s\u00e3o sinais de que as coisas est\u00e3o erradas, bem erradas. Sinais de um desequil\u00edbrio, que s\u00f3 quem sabe entende.<\/p>\n<p><strong>[Orlando]<\/strong><\/p>\n<p>P\u00e9 de ingau. Isso daqui \u00f3 n\u00e3o acontecia.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E aquelas formigas, as formigas sa\u00favas.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Mais uns metros pra frente, veio a confirma\u00e7\u00e3o que todos eles j\u00e1 sabiam que ia vir. E que eles tanto temiam. A gente chegou numa clareira com quatro r\u00e9guas de madeira fincadas no ch\u00e3o. Elas estavam ali para medir o n\u00edvel do rio, que antes j\u00e1 teria inundado a mata. Mas estavam todas no ch\u00e3o seco.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Que nem aqui, a gente t\u00e1 numa piracema. Uma piracema sem \u00e1gua. Me diga, aonde que o peixe vai reproduzir?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou Isabel Seta e esse \u00e9 o segundo epis\u00f3dio de Xingu em Disputa, um podcast da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Nessa s\u00e9rie de quatro epis\u00f3dios, contamos a hist\u00f3ria da transforma\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do Xingu, de rio fonte de vida para reservat\u00f3rio fonte de energia. \u00c9 a hist\u00f3ria tamb\u00e9m das consequ\u00eancias que Belo Monte, a segunda maior hidrel\u00e9trica do pa\u00eds e a quinta maior do mundo, trouxe pro rio e pros seus habitantes. Uma hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o acabou e, por isso mesmo, precisa ser contada.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea ainda n\u00e3o ouviu o primeiro epis\u00f3dio, sugiro que voc\u00ea volte l\u00e1 pra entender essa hist\u00f3ria desde o come\u00e7o. Mas se voc\u00ea j\u00e1 ouviu o epis\u00f3dio 1, deve-se lembrar que a gente estava na Volta Grande do Xingu, onde a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica atropelou todo mundo. Cientistas, t\u00e9cnicos e, principalmente, os ribeirinhos e ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Foi assim, a gente fala de goela abaixo porque a gente gritou. A gente falou que n\u00e3o queria a hidrel\u00e9trica, mas ela est\u00e1 a\u00ed.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A usina e o governo federal sempre minimizaram os impactos apontados pelos povos locais. Eles, ent\u00e3o, resolveram que eles mesmos iam levantar provas de todos os problemas que eles estavam enfrentando. E nenhuma evid\u00eancia se mostraria mais vis\u00edvel do que a mortalidade em massa de peixes.<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio 2: O sacrif\u00edcio da Volta Grande.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de seca que a gente viu naquela manh\u00e3 era na ilha Pacu de Seringa, uma das muitas ilhas da Volta Grande, no rio Xingu, no cora\u00e7\u00e3o do Par\u00e1. Naquela altura do ano, fevereiro, era pra \u00e1gua do rio j\u00e1 ter entrado, inundando a mata.<\/p>\n<p>E nessa \u00e9poca era pra ter \u00e1gua aqui, em fevereiro?<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A \u00e1gua era pra t\u00e1.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Onde era pra estar assim?<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>L\u00e1 em cima.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Na 4?<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sim, t\u00e1 inundando isso a\u00ed tudo pros peixe andar livremente!<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Essa que voc\u00ea est\u00e1 ouvindo falar desde o in\u00edcio \u00e9 a pescadora Sara Rodrigues Lima, que voc\u00ea conheceu no primeiro epis\u00f3dio. Como a Sara disse, era pros peixes estarem nadando livremente porque, quando o rio seguia seu fluxo natural, as \u00e1guas inundavam parte da mata, criando uma condi\u00e7\u00e3o que \u00e9, ao mesmo tempo, um lugar e um tempo. E que todo mundo l\u00e1 espera ansiosamente: a piracema.<\/p>\n<p>Piracema \u00e9 um lugar, como um igarap\u00e9, um fio de \u00e1gua, um laguinho, \u00e1reas que no geral s\u00e3o protegidas e adequadas pros peixes poderem se acasalar e depositar suas ovas em paz. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um tempo. O per\u00edodo da piracema. Ou seja, os meses do ano em que a \u00e1gua do Xingu, alimentada pelas chuvas do inverno amaz\u00f4nico, sobe e inunda esses espa\u00e7os protegidos, nas matas das ilhas e nas margens do rio. Criando as condi\u00e7\u00f5es ideais para as ovas se desenvolverem at\u00e9 virarem os alevinos, que s\u00e3o os peixinhos ainda beb\u00eas.<\/p>\n<p><strong>[Seu Valeriano]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Meu irm\u00e3o, vou lhe falar uma coisa, eu moro bem ali, \u00f3h, a \u00e1gua entra bem ali, n\u00e3o tem um pou\u00e7\u00e3o que tem bem ali, tem um baix\u00e3o l\u00e1 que era onde o peixe entrava, rodava por cima, no capinz\u00e3o e voltava de novo pro rio, fazia assim, uma ilha.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o seu Valeriano, tamb\u00e9m pescador e pai da Sara.<\/p>\n<p><strong>[Seu Valeriano]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Isso de longe, daqui o rio passava l\u00e1, daqui voc\u00ea estava escutando o baga\u00e7o que trouxe pra l\u00e1. 100 mil peixes a\u00ed, tudo roncando, desovando, era um absurdo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais assim. Um antigo ciclo que foi, nas palavras da Sara:<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Ele foi violado, ele foi arrancado \u00e0 for\u00e7a pela usina.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A cena de mar de peixes que o seu Valeriano descreveu parou de acontecer faz um bom tempo. Mais precisamente desde o final de 2015, quando a \u00e1gua do rio Xingu foi barrada para alimentar a usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte. Desde ent\u00e3o, a \u00e1gua do rio est\u00e1 em disputa. De um lado, os beiradeiros, como a fam\u00edlia da Sara, e os povos ind\u00edgenas, al\u00e9m de muitos outros seres (os peixes, as tartarugas, as \u00e1rvores e as plantas das florestas aluviais). Todos eles querem mais \u00e1gua para um longo trecho do Xingu, a Volta Grande. Do outro lado, a empresa que administra Belo Monte, que quer mais \u00e1gua para gerar energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a falta da \u00e1gua, a falta do Xingu em inundar os igap\u00f3 para as piracema, para os peixes poderem se reproduzir, a falta do Xingu subir em lavar, em cobrir o sar\u00e3o para que ele possa brotar quando o rio secar. N\u00e3o \u00e9? Ent\u00e3o, isso tudo teve um impacto muito grande.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 para garantir que quem n\u00e3o mora na Volta Grande possa mesmo ver esses impactos, que a fam\u00edlia da Sara passou a monitorar a situa\u00e7\u00e3o da piracema na ilha Pacu de Seringa.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea v\u00ea, a \u00e1gua numa situa\u00e7\u00e3o que t\u00e1 dessa da\u00ed, da cor, que n\u00e3o t\u00eam, que aqui n\u00e3o chegou. E nem vai chegar.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vai chegar porque a \u00e1gua t\u00e1 indo para outro lugar, para as turbinas da hidrel\u00e9trica. Lembra? Para Belo Monte funcionar sem um grande reservat\u00f3rio, evitando o alagamento de terras ind\u00edgenas, fizeram a usina a fio d \u2018\u00e1gua. Para isso, barraram o Xingu logo acima da Volta Grande, que \u00e9 esse trecho de uns 130 quil\u00f4metros em que o rio faz uma grande curva. Entre 70% e 80% da \u00e1gua que antes corria por essa regi\u00e3o \u00e9 agora desviada para a usina poder funcionar e gerar energia el\u00e9trica. S\u00f3 que essa \u00e1gua alimentava muitas, muitas vidas.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, m\u00eas que vem j\u00e1 acaba a reprodu\u00e7\u00e3o, porque a reprodu\u00e7\u00e3o do peixe aqui \u00e9 dezembro e janeiro. Sempre \u00e9 primeiro aqui na Volta Grande do Xingu. Ent\u00e3o a \u00e1gua n\u00e3o subiu agora, por esses dias, ela t\u00e1 subindo. Mas pouqu\u00edssimo demais. \u00c9 uma \u00e1gua que n\u00e3o d\u00e1 pra entrar pros igap\u00f3 para reprodu\u00e7\u00e3o do peixe.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Aquela era a minha sexta piracema naqueles dias em Volta Grande. E em todas encontrei praticamente um mesmo cen\u00e1rio:<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tem reprodu\u00e7\u00e3o de peixe, todas as piracemas secas, seca mesmo, seca, seca.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o Raimundo da Cruz e Silva, outro personagem fundamental nessa hist\u00f3ria. E meu principal guia na Volta Grande. O seu Raimundo \u00e9 beiradeiro, como se chamam muitos dos ribeirinhos na Amaz\u00f4nia, porque s\u00e3o os que vivem nas beiras dos rios. Aos 49 anos, ele \u00e9 uma lideran\u00e7a reconhecida na comunidade Goianinho, l\u00e1 em Volta Grande. Que ele diz que \u00e9 o seu lugar preferido no mundo.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A primeira vez que eu coloquei o p\u00e9 aqui foi em 94. Em 94, quando eu conheci minha esposa l\u00e1 na rua, os pais dela j\u00e1 eram daqui. Ent\u00e3o, eu vim para c\u00e1, e eu amei esse lugar.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Acho que d\u00e1 pra dizer que a paix\u00e3o do seu Raimundo por aquele canto da Volta Grande vem da paix\u00e3o pela Rose, com quem ele est\u00e1 casado h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas. Desde ent\u00e3o, ele se dedica a cuidar da comunidade. E mais recentemente, a lutar contra os impactos de Belo Monte.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>A curimat\u00e1 aqui na nossa regi\u00e3o acabou. N\u00e3o existe mais, n\u00e3o. Tu n\u00e3o v\u00ea que a curimat\u00e1 est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O curimat\u00e1 que ele est\u00e1 falando \u00e9 uma esp\u00e9cie de peixe que, antes da usina, era bem comum em Volta Grande. Uma das preferidas da galera da regi\u00e3o. Mas desde que a hidrel\u00e9trica come\u00e7ou a funcionar, a popula\u00e7\u00e3o de curimat\u00e1 vem diminuindo ano ap\u00f3s ano na avalia\u00e7\u00e3o dos beiradeiros. A ponto de hoje serem raras de encontrar. Foi justamente o sumi\u00e7o das curimat\u00e1s pequenas que levou a uma a\u00e7\u00e3o in\u00e9dita dos povos na Volta Grande. Mas para chegar nela, a gente precisa voltar um pouco no tempo.<\/p>\n<p><strong>[Dilma \u2013 Arquivo de TV]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Senhoras e senhores, com a palavra, a presidenta da rep\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Era in\u00edcio de maio de 2016. H\u00e1 poucos dias de ser afastada do seu cargo pelo Senado, a presidente Dilma Rousseff foi at\u00e9 Altamira, inaugurar a opera\u00e7\u00e3o comercial da hidrel\u00e9trica que ela tanto defendeu.<\/p>\n<p><strong>[Dilma \u2013 Arquivo de TV]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa usina, ela \u00e9 do tamanho desse povo, ela \u00e9 grandiosa, \u00e9 uma usina grandiosa. A melhor forma de descrever Belo Monte \u00e9 essa palavra, grandiosa. Como uma obra de engenharia, ela causa um grande impacto.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, acho que esse impacto que a presidente Dilma tinha em mente era outro. Mas a entrada em opera\u00e7\u00e3o da usina, ainda que n\u00e3o com todas as turbinas, marcava o in\u00edcio da desidrata\u00e7\u00e3o da Volta Grande.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro impacto foi justamente a falta de \u00e1gua mesmo. A \u00e1gua come\u00e7ou a diminuir, em 2016 j\u00e1 deu uma reprodu\u00e7\u00e3ozinha pequena, mas ainda deu \u00e1gua dentro da piracema, em 2017 a gente j\u00e1 viu que diminuiu. E diminuiu tamb\u00e9m a quantidade de peixe no rio.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em 2016, a diminui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do rio estava ligada a dois fatores combinados: o barramento total do Xingu e, para piorar, uma enchente fraca. Isso porque naquele ano choveu muito pouco, especialmente nas cabeceiras do rio. Um reflexo do forte El Ni\u00f1o que come\u00e7ou em 2015. Mas ia ficar pior.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>A gente come\u00e7ou j\u00e1 a ver que n\u00e3o tinha mais aquela quantidade de peixe. A partir de 2017, 2018, a\u00ed come\u00e7ou, a\u00ed todo ano foi s\u00f3 diminuindo, s\u00f3 diminuindo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Conforme as turbinas da hidrel\u00e9trica iam sendo instaladas, aumentando a capacidade de gera\u00e7\u00e3o de energia, mais a \u00e1gua era desviada da Volta Grande. Em novembro de 2019, as 18 turbinas da casa de for\u00e7a principal foram totalmente instaladas. E naquele m\u00eas a hidrel\u00e9trica entrou em plena opera\u00e7\u00e3o comercial. Inaugurada, inclusive, pelo ex-presidente Bolsonaro. Foi nesse momento que entrou em cena um elemento important\u00edssimo, definidor, eu diria, nessa hist\u00f3ria de disputa de \u00e1gua. O chamado Hidrograma de Consenso.<\/p>\n<p>Em linhas bem gerais, o hidrograma \u00e9 um esquema que determina como fica a vaz\u00e3o do Xingu com a usina em funcionamento. O governo e a Norte Energia, a concession\u00e1ria que opera a usina, definiram uma vaz\u00e3o m\u00ednima que deve ser liberada para a Volta Grande, com o objetivo de reproduzir, ou de tentar reproduzir, o pulso sazonal de cheia e seca do Xingu. Basicamente \u00e9 uma tabela que diz que no m\u00eas tal tem que ter no m\u00ednimo tanto de \u00e1gua por segundo liberado pra Volta Grande. A ideia era tentar conciliar os dois usos da \u00e1gua, para a gera\u00e7\u00e3o de energia e para a vida de todos os seres na Volta Grande. Da\u00ed o tal consenso. Mas n\u00e3o se engane. De consenso esse hidrograma n\u00e3o tem nada. Para come\u00e7o de conversa, em nenhum momento ele foi combinado com os moradores da Volta Grande. A defini\u00e7\u00e3o do hidrograma foi feita entre a empresa e o Estado, goela abaixo do povo mesmo, como tinha dito a Sara.<\/p>\n<p>Naquele dia, em fevereiro, antes de sair para a ilha Pacu de Seringa, eu estava conversando com o seu Raimundo. A gente estava tomando um cafezinho na mesa da varanda da casa dele e da Rose, na comunidade de Goianinho, a uns poucos metros do rio. E eu perguntei se antes do desvio de \u00e1gua come\u00e7ar, eles tinham sido avisados sobre o hidrograma pela empresa.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>A conversa da Norte Energia \u00e9 assim, que o rio ia ficar natural. Natural, n\u00e3o ia ter impacto aqui.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Natural. N\u00e3o ia ter impacto. Dif\u00edcil de imaginar como isso ia ser poss\u00edvel, considerando a diferen\u00e7a enorme entre a vaz\u00e3o do rio antes e a vaz\u00e3o do hidrograma. S\u00f3 para dar uma ideia, fevereiro, o m\u00eas que eu estava l\u00e1, tinha uma m\u00e9dia hist\u00f3rica de mais de 13 mil metros c\u00fabicos de vaz\u00e3o. O hidrograma definiu como vaz\u00e3o m\u00ednima para fevereiro 1.600 metros c\u00fabicos. Era 13 mil, virou 1.600.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 tanto que a Volta Grande do Xingu, a Volta Grande do Xingu, foi impactada depois de 2019. At\u00e9 2019 ela n\u00e3o era tida como impactada.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 que naquele ano, com a usina j\u00e1 operando em plena capacidade, os danos causados pelo desvio da \u00e1gua ficaram mais do que evidentes. O Ibama logo come\u00e7ou a produzir documentos t\u00e9cnicos, relatando problemas tipo: dificuldades na navega\u00e7\u00e3o do rio, diminui\u00e7\u00e3o na quantidade e qualidade de peixes, desaparecimento de algumas esp\u00e9cies e redu\u00e7\u00e3o das \u00e1reas que antes inundavam. O Ibama considerou que era impratic\u00e1vel continuar daquele jeito. Era preciso liberar mais \u00e1gua para a Volta Grande.<\/p>\n<p>E a\u00ed foi o come\u00e7o de uma batalha judicial sobre o hidrograma entre o Ibama e a Norte Energia. \u00c9 uma hist\u00f3ria longa, cheia de detalhes t\u00e9cnicos, que eu acho melhor resumir. No final das contas, a Norte Energia levou a melhor. Mudaram um pouco o esquema, a opera\u00e7\u00e3o seguiu, e o desvio da maior parte da \u00e1gua da Volta Grande continuou. Era hora dos povos locais tentarem outras estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p><strong>[Diel]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A gente tava indo pescar e n\u00e3o tava vendo curimatazinha pequena, n\u00e9? Ent\u00e3o a gente parou pra pensar e falou: \u201copa, tem alguma coisa errada\u201d.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>E aqui a gente volta para o sumi\u00e7o das curimat\u00e1s, que o seu Raimundo tinha comentado.<\/p>\n<p><strong>[Diel]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Se n\u00e3o tem curimat\u00e1 pequena, significa que elas n\u00e3o est\u00e3o se reproduzindo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Quem me falou mais sobre esse problema foi o Josiel Pereira, mais conhecido como Diel. O Diel \u00e9 do povo Juruna, um povo ind\u00edgena canoeiro que se autodenomina Yudj\u00e1, \u201cos donos do rio\u201d. Aos 33 anos, Diel \u00e9 uma das lideran\u00e7as da aldeia Miratu, da terra ind\u00edgena Paqui\u00e7amba, localizada bem no meio da Volta Grande. E ele \u00e9 outro personagem fundamental nessa hist\u00f3ria, porque desde o come\u00e7o ele foi atr\u00e1s de buscar evid\u00eancias dos impactos da hidrel\u00e9trica. At\u00e9 porque os ind\u00edgenas sabiam o que ia acontecer antes mesmo da constru\u00e7\u00e3o da usina.<\/p>\n<p>Lembra que eu contei do cacique Juruna que fez uma previs\u00e3o sombria para um procurador da rep\u00fablica sobre os problemas que a falta de \u00e1gua ia causar? \u00c9 que os Juruna sempre viveram nas ilhas e nas margens do Xingu, e conhecem, h\u00e1 muitas gera\u00e7\u00f5es, os h\u00e1bitos de todos os seres do rio, inclusive das curimat\u00e1s. Eles sabem que elas s\u00f3 se reproduzem nas piracemas. Ent\u00e3o era s\u00f3 seguir a l\u00f3gica: se n\u00e3o tinha curimat\u00e1 pequena no rio, n\u00e3o estava tendo reprodu\u00e7\u00e3o. Ou seja, tinha algo errado nas piracemas. Mas n\u00e3o adiantava s\u00f3 os Juruna desconfiarem disso. Eles precisavam provar. E o Diel logo sacou isso.<\/p>\n<p><strong>[Diel]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E a\u00ed foi quando a gente come\u00e7ou a monitorar as piracemas. E a\u00ed aqui, nesse local onde a gente est\u00e1 na Ilha do Z\u00e9 Maria, a gente tem essas r\u00e9guas aqui e elas servem para a gente ver o n\u00edvel da \u00e1gua que est\u00e1 aqui nessa piracema.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>As r\u00e9guas foram instaladas em uma parceria com os professores da Universidade Federal do Par\u00e1 e com o Instituto Socioambiental. Nascia ent\u00e3o o Monitoramento Ambiental Territorial Independente, o MATI, que com o passar do tempo ganharia o refor\u00e7o tamb\u00e9m dos ribeirinhos, como o seu Raimundo e a fam\u00edlia da Sara. E, ainda, de pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia, o INPA.<\/p>\n<p>Em fevereiro, eu vi de perto o trabalho da equipe do MATI, coordenado justamente pelo Diel.<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Desde 2019, quando eu comecei a monitorar, n\u00e3o houve reprodu\u00e7\u00e3o aqui nessa piracema. Porque agora que seria a \u00e9poca de reprodu\u00e7\u00e3o, n\u00e9, dos peixes, agora que eles estavam entrando para desovar. E como podem ver, est\u00e1 totalmente seco.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Naquele dia, na piracema do Z\u00e9 Maria, o Diel me contou porque o monitoramento do MATI come\u00e7ou bem ali.<\/p>\n<p><strong>[Diel]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E aqui \u00e9 um local que a gente identificou como piracema Baixa, porque a gente consultou os mais velhos, n\u00e9. Ent\u00e3o, quem indicou essa piracema foi meu pai, que hoje est\u00e1 com 75 anos, n\u00e9. Ele que indicou essa piracema pra n\u00f3s, ent\u00e3o ele contou o hist\u00f3rico dessa piracema para n\u00f3s e ele falou que antes da barragem, no final de novembro, entrando em dezembro, j\u00e1 entrava peixe aqui.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos grandes diferenciais do monitoramento do MATI. Ele \u00e9 completamente informado pelo conhecimento tradicional, mantido pelos mais velhos e experientes e passado de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>piracema baixa significa que ela \u00e9 uma das primeiras a alagar, por estar num n\u00edvel mais pr\u00f3ximo do n\u00edvel do rio. Ou seja, quando o per\u00edodo de cheia come\u00e7a, a \u00e1gua n\u00e3o precisa subir tanto para j\u00e1 conseguir alcan\u00e7ar a piracema e as curimat\u00e1s come\u00e7arem a entrar para desovar.<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Mas a\u00ed agora depois da barragem n\u00e3o entrou mais \u00e1gua. A \u00e1gua que chega aqui em abril e \u00e9 uma \u00e1gua que n\u00e3o \u00e9 pra quest\u00e3o reprodutiva, \u00e9 uma \u00e1gua que n\u00e3o serve, uma \u00e1gua que n\u00e3o vale a pena, n\u00e9. At\u00e9 porque a desova, ela acontece ali m\u00eas de\u2026 Acontecia antes, n\u00e9. Novembro, dezembro, janeiro.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A falta de \u00e1gua na quantidade e no per\u00edodo adequado para ter reprodu\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi ficando mais e mais evidente, ano ap\u00f3s ano. Os pesquisadores ind\u00edgenas do MATI percebiam isso no monitoramento, mas os reflexos estavam sendo sentidos por todo mundo na Volta Grande.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>E a gente sempre procurava nossos direitos, mas sempre era barrado, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>De novo aqui o seu Raimundo. Ele me contou que foi nesse momento de desesperan\u00e7a, nos idos de 2022, que rolaram as primeiras aproxima\u00e7\u00f5es para os beiradeiros passarem a fazer parte do MATI. O seu Raimundo se animou.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>E eu disse, eu digo, a oportunidade \u00e9 essa de n\u00f3s mostrar o que realmente est\u00e1 acontecendo dentro da Volta Grande. \u00c9 porque n\u00e3o adianta a gente ficar gritando para c\u00e1, para l\u00e1, se n\u00e3o tem uma ajuda, tipo, um setor mais cient\u00edfico, uma coisa mais cient\u00edfica para mostrar. \u00c9 porque s\u00f3 gargalo, meu amigo, n\u00e3o d\u00e1.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Para ele, era a chance de tentar mudar a conversa e, quem sabe, falar uma l\u00edngua que a empresa ouvisse. A l\u00edngua da ci\u00eancia ocidental, da universidade. J\u00e1 que a l\u00edngua dos povos e dos conhecimentos tradicionais, a empresa ignorou desde o come\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>Precisa mostrar o que est\u00e1 acontecendo na Volta Grande, dentro da nossa comunidade, porque aqui \u00e9 a nossa vida, n\u00e9? A gente tem que mostrar o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O MATI \u00e9 uma iniciativa in\u00e9dita no Brasil, uma parceria entre o conhecimento tradicional e a a\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas e beiradeiros, com o conhecimento cient\u00edfico, de pesquisadores de universidades e institutos, para reunir as evid\u00eancias dos impactos na Volta Grande.<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza, o conhecimento da gente, tanto n\u00f3s ind\u00edgenas como ribeirinhos, o nosso conhecimento influenciou muito na academia, com os professores tamb\u00e9m, os professores tinham outros olhares, como fazer monitoramento, mas tamb\u00e9m eu acredito que eles tamb\u00e9m, como professores, eles sempre escutaram a gente, sempre deram voz ao nosso conhecimento. Eu acho que isso \u00e9 o que faz o monitoramento ter essa complexidade, ser o que \u00e9 hoje. E tanto a gente tamb\u00e9m, como a gente aprendeu com eles tamb\u00e9m. Ent\u00e3o est\u00e1 uma troca de saberes que est\u00e1 sendo muito bem importante.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores formais, digamos assim, trouxeram a metodologia cient\u00edfica e a t\u00e9cnica rigorosa de amostragem. Mas eles mesmos se veem como coadjuvantes no MATI. Os pesquisadores principais s\u00e3o os da \u201cuniversidade\u201d da floresta, 15 ind\u00edgenas e ribeirinhos que monitoram as piracemas. H\u00e1 alguns meses, eles publicaram seu primeiro artigo cient\u00edfico em uma revista internacional. E num reconhecimento bem significativo, quem assina primeiro s\u00e3o os ind\u00edgenas e ribeirinhos, entre eles alguns que voc\u00ea j\u00e1 conheceu aqui, o Diel, o seu Raimundo, a Sara e o seu Valeriano.<\/p>\n<p>No artigo, os pesquisadores defendem a cria\u00e7\u00e3o de um grupo de trabalho que inclua as comunidades locais para que possa ser definida uma nova vaz\u00e3o para a Volta Grande. Essa vaz\u00e3o teria que equilibrar as necessidades dos ecossistemas e a produ\u00e7\u00e3o de energia. E teria que passar por uma revis\u00e3o de tempos em tempos, por causa das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>E eu vou ler aqui s\u00f3 um trechinho da conclus\u00e3o deste artigo: \u201cA real magnitude dos impactos em curso da hidrel\u00e9trica de Belo Monte na regi\u00e3o da Volta Grande s\u00f3 vem sendo revelada pela iniciativa das comunidades locais, que come\u00e7aram o monitoramento independente dos seus territ\u00f3rios. Fruto da percebida desconex\u00e3o entre o monitoramento oficial, conduzido pela Norte Energia, e as experi\u00eancias di\u00e1rias, percep\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as no modo de vida das comunidades\u201d. Em outras palavras, \u00e9 uma disputa t\u00e9cnica.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>Para a empresa, as coisas est\u00e3o andando normalmente, tudo caminhando perfeitamente, n\u00e9? S\u00f3 mandam dados assim: ah, como a coisa est\u00e1 maravilhosa. Quando o pessoal da Norte Energia abre a boca a\u00ed, pra quem n\u00e3o conhece, meu amigo, diz: \u201crapaz, eu quero ser um ribeirinho, eu quero ser um ind\u00edgena, [ri] eu quero morar naquela regi\u00e3o, porque as coisas l\u00e1 acontecem\u201d, t\u00e1 entendendo? \u201cPorque para l\u00e1, para eles, est\u00e1 tudo a mil maravilhas\u201d. \u00c9 porque voc\u00ea n\u00e3o vai fazer um relat\u00f3rio, n\u00e9, e mandar para um \u00f3rg\u00e3o licenciador dizendo que isso aqui est\u00e1 mal feito, isso aqui est\u00e1 desse jeito, isso aqui est\u00e1 errado, ele vai colocar tudo que est\u00e1 tudo perfeito, n\u00e9.<\/p>\n<p><strong>[Diel]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E o MAT hoje \u00e9 um monitoramento que ele vem para mostrar a realidade que est\u00e1 acontecendo na Volta Grande, n\u00e9? Colhendo os dados, informa\u00e7\u00f5es para poder rebater os monitoramentos que a Norte Energia vem fazendo, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O seu Raimundo e o Diel est\u00e3o falando dos relat\u00f3rios que a Norte Energia precisa mandar para o Ibama, desde que em 2023 o \u00f3rg\u00e3o ambiental determinou que a empresa tamb\u00e9m tinha que monitorar as piracemas, como o MATI j\u00e1 vinha fazendo. A Norte Energia diz que fez um levantamento com pescadores locais e identificou mais de 140 \u00e1reas de piracema na Volta Grande. Para o Ibama, a empresa diz que monitorou 22 delas semanalmente. A gente foi procurar a empresa para perguntar como \u00e9 que foi esse monitoramento e com qual metodologia. Eles responderam que: \u201cboa parte dessas \u00e1reas passa a ser inundada j\u00e1 no in\u00edcio da cheia, garantindo condi\u00e7\u00f5es adequadas para a reprodu\u00e7\u00e3o de muitas esp\u00e9cies\u201d. A gente vai deixar a nota completa com o posicionamento da Norte Energia l\u00e1 no nosso site, apublica.org.<\/p>\n<p>Acontece que os pesquisadores do MATI me explicaram que v\u00e1rias dessas piracemas que a Norte Energia levantou est\u00e3o em igarap\u00e9s. Um igarap\u00e9 \u00e9 basicamente um c\u00f3rrego que muitas vezes des\u00e1gua em um rio maior. Isso significa que ele tem o seu pr\u00f3prio fluxo de \u00e1gua, criando um ambiente que n\u00e3o serve para a reprodu\u00e7\u00e3o de todas as esp\u00e9cies. O que os moradores da Volta Grande sabem muito bem.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>E o que acontece? Esse igarap\u00e9, ele \u00e9 mais de enxurrada, ele joga, ele fica correndo forte demais. Ele n\u00e3o tem o mesmo ambiente do igap\u00f3. O igap\u00f3 \u00e9 aquela marasma, aquela \u00e1gua parada. O igarap\u00e9 n\u00e3o, o igarap\u00e9 \u00e9 aquela \u00e1gua corrente todinha.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O Ibama se ligou nisso e disse basicamente que n\u00e3o adianta a Norte Energia olhar apenas para as piracemas em igarap\u00e9s, porque elas n\u00e3o refletem a diversidade de habitat de reprodu\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o. Eu tamb\u00e9m perguntei para a empresa se eles j\u00e1 incorporaram essas orienta\u00e7\u00f5es do Ibama, mas eles n\u00e3o mandaram nenhuma resposta sobre isso.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Vai ter algum peixe que vai reproduzir l\u00e1? Claro. Com certeza tem tipos de peixe que reproduzem, na \u00e1gua mais corrente, n\u00e3o reproduzem na \u00e1gua t\u00e3o parada, que nem a curimat\u00e1, que praticamente sumiu, n\u00e9? Mas a\u00ed a pergunta \u00e9, essa reprodu\u00e7\u00e3o \u00e9 suficiente que t\u00e1 dando nesses igarap\u00e9s pra ter uma sobrevida na Volta Grande?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 justamente esse o principal ponto que o MATI procura responder. E as evid\u00eancias que eles v\u00eam reunindo s\u00e3o assustadoras.<\/p>\n<p><strong>[Diel]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>2023, foi dia 3 de fevereiro, quando eu vim aqui, n\u00e9? Os peixes tinham desovado e as ovas tinham ficado no seco. 2024, foi dia 8 de fevereiro tamb\u00e9m, quando eu vim, n\u00e9? Caiu uma chuva grande, eu vim aqui. E tinha muita ova no seco tamb\u00e9m, os peixes entraram, a \u00e1gua tinha secado e as ovas tinham ficado no seco. E esse ano, \u00e9, agora, 2025, n\u00e9? Quando eu vim aqui, foi dia 19 de janeiro.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Isabel: Mesma coisa?<\/p>\n<p><strong>[Diel]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Mesma coisa, as ovas no seco.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ovas no seco \u00e9 uma senten\u00e7a de morte. As ovas de peixe precisam ficar na \u00e1gua para sobreviver. Mas n\u00e3o \u00e9 o que tem acontecido na piracema do Odilo, outra piracema com o nome de gente. Aquele dia 3 de fevereiro de 2023, que o Diel citou, foi a primeira vez que ele encontrou um cemit\u00e9rio no que devia ser um ber\u00e7\u00e1rio, como revelou na \u00e9poca a ag\u00eancia de jornalismo Suma\u00fama.<\/p>\n<p>A antrop\u00f3loga Thais Mantovanelli, do Instituto Socioambiental, que participa do trabalho do MATI, estava l\u00e1 tamb\u00e9m. E ela me contou que quando eles chegaram na piracema e se depararam com as ovas no ch\u00e3o seco da mata, n\u00e3o conseguiram conter as palavras de desespero. At\u00e9 que eles come\u00e7aram a andar pela \u00e1rea e perceber que tinham muito mais ovas do que imaginavam. Era um tapete de ovas no ch\u00e3o sem \u00e1gua. Metros e metros de ovas que jamais se tornaram peixes. A cada passo, as palavras deixaram de dar conta do horror. Thais e Diel ficaram em sil\u00eancio. S\u00f3 faziam chorar.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que esse n\u00e3o foi o \u00fanico epis\u00f3dio de morte em massa. Aconteceu a mesma coisa em 2024. E de novo no come\u00e7o desse ano. Tr\u00eas anos de curimat\u00e1s perdendo seus filhotes. Pouco antes de eu chegar na Volta Grande, tinha acontecido de novo. Dessa vez, em outra piracema.<\/p>\n<p><strong>[Jani]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00d3ia o tanto de peixinho pulando dentro, ainda t\u00e3o vivo esse aqui. Mas esses outros aqui. Aqui tamb\u00e9m \u00f3. \u00d3ia s\u00f3 a\u00ed a quantidade, muito muito muito, uma tristeza.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quem encontrou as ovas no seco foi a Jainy de Almeida, que tamb\u00e9m faz parte do monitoramento do MATI. Alguns dias depois eu encontrei com ela nessa piracema. Ela me contou que quando ela chegou, a \u00e1gua devia ter acabado de descer, porque ela ainda conseguia ver os peixinhos dentro das ovas, se mexendo. \u00c9 que o problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quantidade de \u00e1gua, mas tamb\u00e9m o efeito sanfona causado pela usina.<\/p>\n<p>O hidrograma define a vaz\u00e3o m\u00ednima que a Norte Energia precisa liberar para a Volta Grande por m\u00eas. Mas al\u00e9m desse m\u00ednimo, o controle da vaz\u00e3o \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, que responde n\u00e3o mais ao antigo ciclo natural, mas sim \u00e0s determina\u00e7\u00f5es da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas e \u00e0s ordens do Operador Nacional do Sistema El\u00e9trico. Quando \u00e9 preciso colocar mais energia no sistema nacional, as comportas da barragem se fecham e menos \u00e1gua corre para a Volta Grande.<\/p>\n<p>O hidrograma tem regras que determinam que essa varia\u00e7\u00e3o da vaz\u00e3o n\u00e3o pode ser muito grande em um mesmo dia. Mas o que os moradores da Volta Grande v\u00eam denunciando \u00e9 que tem vezes que o rio enche, ou desce, vaza, como eles dizem, da noite para o dia, bagun\u00e7ando a vida das pessoas e dos peixes.<\/p>\n<p>\u00c9 esse efeito sanfona, como chamam os beiradeiros, que causa esses epis\u00f3dios de morte em massa. Quando tem um pouco de \u00e1gua, as curimat\u00e1s entendem que \u00e9 hora de entrar para desovar. Mas da\u00ed, em poucos dias, a \u00e1gua recua, volta para o rio, e as ovas v\u00e3o parar no seco. \u00c0s vezes, at\u00e9 peixes adultos ficam presos, sem conseguir voltar para o rio, e acabam morrendo.<\/p>\n<p>Quando eu estava l\u00e1 na ilha Pacu de Seringa, eu perguntei para o S\u00e1rio e para o seu Valeriano sobre esse problema do efeito sanfona:<\/p>\n<p><strong>[Seu Valeriano]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Isso da\u00ed \u00e9 uma derrota muito grande.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Principalmente para o peixe.<\/p>\n<p><strong>[Seu Valeriano]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>principalmente para o peixe, confunde tudo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Confunde porque \u00e9 a l\u00edngua da hidroel\u00e9trica, e n\u00e3o da natureza, que os peixes sabiam falar. E al\u00e9m de n\u00e3o conseguirem se reproduzir, os peixes tamb\u00e9m parecem n\u00e3o estar comendo como antes. O Diel explica:<\/p>\n<p><strong>[Diel]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Antes desse\u2026 da barragem de Belo Monte, at\u00e9 esses locais aqui, al\u00e9m de ser um local de desova, era um local de alimenta\u00e7\u00e3o dos peixes. O Igap\u00f3, ele inundava, n\u00e9, um metro, dois metros de \u00e1gua e v\u00e1rias frutas ca\u00edam, n\u00e9. Tanto o pacu, como o matrinx\u00e3, a curimat\u00e1 que entrava para fazer a desova, para se alimentar tamb\u00e9m, trair\u00e3o, tra\u00edra, arraia, tudo voc\u00ea via dentro dessas ilhas, a gente entrava pra pescar e via, n\u00e9. E agora n\u00e3o d\u00e1 mais, n\u00e9. Essas frutas caem tudo no seco.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Os pesquisadores do MAT trabalham para registrar tudo isso nas 12 piracemas que eles monitoram em Volta Grande. Eles registram se as \u00e1rvores est\u00e3o dando flores e frutos, e se os frutos tamb\u00e9m est\u00e3o ficando secos. Mais recentemente, o monitoramento tamb\u00e9m est\u00e1 olhando para o len\u00e7ol fre\u00e1tico e para as \u00e1rvores, para descobrir se elas est\u00e3o deixando de crescer por falta de \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3xima a dos peixes com os frutos que vai parar at\u00e9 no nome deles. A ilha Pacu de Seringa, por exemplo, onde fica a piracema monitorada pela fam\u00edlia da Sara, tem esse nome porque tem um tipo de pacu, um peixe gordo muito apreciado na Volta Grande, que come justamente o fruto da seringueira. Na ilha, eles vinham em bandos para fazer banquete. Hoje, a \u00e1gua n\u00e3o chega nas matas. Ano a ano, os beiradeiros percebem a diminui\u00e7\u00e3o dos frutos. A Sara tem certeza que os peixes est\u00e3o passando fome.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Antigamente, quando a gente abria, principalmente, um pacu, a banha do pacu era diferenciada, era uma banha clara. \u00c9 uma banha, assim, onde a gente tinha gosto de abrir um peixe para ver o que tinha dentro. Ah, ser\u00e1 que ele est\u00e1 gordo? Sempre estava gordo, porque ele tinha alimenta\u00e7\u00e3o. Hoje n\u00e3o, a gente pega um peixe. Al\u00e9m dele estar muito magro, ele est\u00e1 cheio de verme e cheio de pintinha preta. Principalmente, o pacu-seringa era um pacu muito, muito apreciado aqui na Volta Grande, que \u00e9 um pacu de carne mole, era um pacu mesmo, assim, que era chamado \u201cisso aqui \u00e9 peixe de primeira\u201d, leva quase um ano para a gente pegar um pacu-seringa. Quando a gente pega, a colora\u00e7\u00e3o que ele tinha, uma colora\u00e7\u00e3o alaranjada, aquele alaranjado mesmo, assim, que tu via de longe, assim, chega a cor da escama do pacu-seringa, era t\u00e3o, assim, quando o sol batia, assim, brilhava, parecia um diamante. Hoje em dia, ele perdeu, ficou opaco, a cor dele, e sem contar que est\u00e1 magro, n\u00e3o existe mais, assim, ele est\u00e1, parece, assim, tipo que pegou uma doen\u00e7a, assim, n\u00e3o est\u00e1 conseguindo se desenvolver mais.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Opacos, magros, doentes, os peixes tamb\u00e9m est\u00e3o ficando meio estranhos. A fam\u00edlia da Sara foi uma das primeiras a encontrar a pescada, uma outra esp\u00e9cie que era comum na regi\u00e3o, com um formato estranho. Em vez de alongada, como de costume, era uma pescada arredondada, com a cauda mais curta. Outros pescadores e beiradeiros tamb\u00e9m me contaram que viram essa pescada esquisita.<\/p>\n<p>Essa anomalia acabou chamando a aten\u00e7\u00e3o de pesquisadores da Federal do Par\u00e1, que at\u00e9 publicaram um artigo cient\u00edfico em 2023 descrevendo essa m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o. Segundo eles, ela pode estar sendo causada nos est\u00e1gios iniciais do desenvolvimento dos peixes. E por causa de dois fatores: primeiro, pela redu\u00e7\u00e3o do fluxo de \u00e1gua no Xingu, que est\u00e1 sendo provocada pela hidrel\u00e9trica. E segundo, pela presen\u00e7a de metais pesados nas \u00e1guas, que v\u00eam dos garimpos ilegais e do uso de agrot\u00f3xicos na agricultura. Agora, \u00e9 curioso que esse trabalho cient\u00edfico contou com o financiamento da Norte Energia, mas para o Ibama, a empresa diz que est\u00e1 tudo bem com os peixes da Volta Grande.<\/p>\n<p>Para os beiradeiros ind\u00edgenas, n\u00e3o est\u00e1 nada bem, e eles sentem isso todos os dias h\u00e1 anos, no prato e no bolso.<\/p>\n<p><strong>[Seu Valeriano]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s passamos dois dias pescando, n\u00f3s passamos, a gente trazia, ele trazia, cansava de trazer 600 quilos de peixe, eu trazia 400, 500, que era s\u00f3 eu e minha esposa, viu? Esses outros ali traziam 300 quilos. O peixe era bastante, n\u00f3s n\u00e3o adiantava, n\u00f3s era tanto peixe que n\u00f3s nem imaginava de se esfor\u00e7ar, porque peixe tinha bastante.<\/p>\n<p><strong>[Orlando]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nosso sal\u00e1rio mensal era entre 12 e 13 mil todo m\u00eas.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esses s\u00e3o o seu Valeriano e o filho, Orlando. Pelo que eles me contaram, era uma renda confort\u00e1vel. E n\u00e3o s\u00f3 para eles, inclusive. V\u00e1rios pescadores, tanto ind\u00edgenas quanto beiradeiros, me falaram que viviam muito bem da pesca, que nunca precisaram de aux\u00edlio nenhum do governo, que tinham tudo o que precisavam e queriam para sustentar suas fam\u00edlias e criar seus filhos. Essa realidade acabou.<\/p>\n<p><strong>[Orlando]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nossos filhos, o que eles queriam, a gente dava, porque a nossa renda era boa. Hoje, para estar o que est\u00e1 hoje, a gente chega na casa da gente, o filho da gente chega e diz: \u201cpai, eu quero isso dali, pai\u201d. Poxa, para a gente, hoje, o que a gente est\u00e1 passando hoje, o que essa empresa velha fez com n\u00f3s a\u00ed, essa maldita fez com n\u00f3s hoje, \u00e9 uma humilha\u00e7\u00e3o muito grande o que a gente est\u00e1 fazendo com a gente, para a gente estar passando o que est\u00e1 passando hoje.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O que ofereceram de alternativa? O que voc\u00eas est\u00e3o fazendo?<\/p>\n<p><strong>[Orlando]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s? Olha o jeito que t\u00e1 meu bra\u00e7o, \u00f3h\u2026<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O que o Orlando estava me mostrando era o bra\u00e7o dele, todo pipocado com feridas. J\u00e1 o seu Valeriano me mostrou uma ferida grande, vermelha, bem no meio do pesco\u00e7o, ainda longe de cicatrizar.<\/p>\n<p><strong>[Orlando]<\/strong><\/p>\n<p>Queimando castanha de caju para sobreviver.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A Norte Energia me disse que os monitoramentos que ela desenvolveu com a Universidade Federal do Par\u00e1, e que t\u00eam sido feitos ao longo de 13 anos, mostram que: \u201ca maioria das esp\u00e9cies manteve a propor\u00e7\u00e3o de peixes maduros\u201d. Propor\u00e7\u00e3o. A empresa n\u00e3o est\u00e1 falando de n\u00fameros absolutos. Nessa resposta que a Norte Energia me deu, ela reconhece que algumas esp\u00e9cies tiveram mudan\u00e7as no padr\u00e3o de reprodu\u00e7\u00e3o, mas disse que isso estava previsto no estudo de impacto ambiental. E falou que o monitoramento do MATI tem \u201clacunas metodol\u00f3gicas relevantes e t\u00eam indicado altera\u00e7\u00f5es j\u00e1 previstas no licenciamento\u201d. Para essas altera\u00e7\u00f5es, a empresa diz que faz a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o e compensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de muitos peradeiros \u00e9 diferente. Para muitas das mais de mil fam\u00edlias da Volta Grande, pescar ficou muito dif\u00edcil. Se sustentar tamb\u00e9m. E determina\u00e7\u00f5es do Ibama n\u00e3o est\u00e3o conseguindo resolver os problemas.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Foi em 2021, uma coisa que nunca tinha acontecido aqui. O meu filho estava na rua e ele disse: \u201cpai, eu vou passar o final de semana a\u00ed\u201d. Eu disse: \u201cvem que n\u00f3s vamos pescar\u201d. E ele veio em setembro, o m\u00eas de setembro era o melhor per\u00edodo de peixe aqui, o m\u00eas de setembro. Era um per\u00edodo que, mo\u00e7o, pra tucunar\u00e9 n\u00e3o tem per\u00edodo melhor n\u00e3o. E ele veio e n\u00f3s fomos, a\u00ed que chegou cedo, n\u00f3s sa\u00edmos, fomos remando mesmo, batendo tela e remando. N\u00f3s sa\u00edmos sete horas, chegamos l\u00e1 onze horas, na hora do almo\u00e7o. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos pego um peixe, n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos pego um peixe para poder se alimentar, n\u00e9? N\u00e3o, esse dia, esse dia eu falei, rapaz, foi tipo assim um balde de \u00e1gua fria. Eu digo, \u00f3h, acabou, acabou o peixe da Volta Grande. Acabou mesmo. E de l\u00e1 pra c\u00e1 est\u00e1 dram\u00e1tico.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Perguntei para o seu Raimundo se ele tinha vivido algo assim antes da usina. Ele deu uma risada melanc\u00f3lica. Antes da hidrel\u00e9trica, ele me falou que ningu\u00e9m nem sequer fazia esse trajeto que ele e o filho fizeram nesse dia em 2021. N\u00e3o precisava. Era s\u00f3 entrar no rio, rodar por coisa de uma hora e o peixe da semana estava garantido.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 que, bem nesse per\u00edodo que seu Raimundo falou, agosto e setembro de 2021, a hidrel\u00e9trica tamb\u00e9m n\u00e3o estava a pleno vapor. Bem longe disso, na verdade. Belo Monte foi obrigada a desligar 17 das 18 turbinas da casa de for\u00e7a principal. Estava funcionando s\u00f3 com uma, porque n\u00e3o tinha \u00e1gua, uma consequ\u00eancia da grave seca que tinha atingido o Brasil naquele ano. Isso s\u00f3 acirrou a disputa pela \u00e1gua na regi\u00e3o. 2021 era governo Bolsonaro, e o ent\u00e3o presidente do Ibama, Eduardo Bim, atropelou pareceres dos t\u00e9cnicos do \u00f3rg\u00e3o que recomendavam que a Norte Energia aumentasse a vaz\u00e3o do Xingu. Ele simplesmente foi l\u00e1 e assinou um termo de compromisso ambiental com a empresa. O TCA, como \u00e9 conhecido esse termo, at\u00e9 hoje d\u00e1 o que falar em Volta Grande.<\/p>\n<p>Ele determinava que a empresa poderia continuar tocando o hidrograma que estava secando a Volta Grande. Mas tinha uma contrapartida. A Norte Energia ia ter que investir 157 milh\u00f5es de reais em medidas de mitiga\u00e7\u00e3o e compensa\u00e7\u00e3o para a regi\u00e3o. As medidas inclu\u00edam criar a\u00e7\u00f5es experimentais de alimenta\u00e7\u00e3o de peixes e tartarugas, fazer melhorias nas estradas e no saneamento da Volta Grande, e desenvolver programas de gera\u00e7\u00e3o de renda para a popula\u00e7\u00e3o. Para pessoas que estavam acostumadas a todo dia sair para pescar e pegar peixes com a maior facilidade do mundo, foi dada a op\u00e7\u00e3o de criar tambaquis em tanques. Esses tanques s\u00e3o colocados dentro do rio com algumas centenas de tambaquis, que precisam ser alimentados todos os dias, duas vezes por dia, num programa que tamb\u00e9m \u00e9 alvo de v\u00e1rias cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Um dos beiradeiros com quem eu conversei, o seu Zeca, me disse que na primeira vez que a Norte Energia entregou para ele 500 alevinos de tambaqui, todos morreram. Porque eles foram levados no ver\u00e3o e a \u00e1gua estava muito quente para eles. S\u00f3 na terceira tentativa o seu Zeca teve sorte. S\u00f3 que o ciclo do tambaqui \u00e9 de nove meses. S\u00e3o nove meses para o peixe crescer e poder ser vendido. Na \u00faltima leva, o seu Zeca vendeu todos os que sobreviveram. Tirou 6 mil reais. 6 mil reais para nove meses.<\/p>\n<p>Outra op\u00e7\u00e3o oferecida no TCA \u00e9 a planta\u00e7\u00e3o de cacau, o fruto nativo da Amaz\u00f4nia. N\u00e3o muito longe de Altamira tem uma cidade, inclusive, que se intitula como a capital do cacau, Medicil\u00e2ndia, com cooperativas que viram no cacau uma alternativa ao gado e que j\u00e1 trabalham tamb\u00e9m no desenvolvimento de chocolates mais finos. Mas na Volta Grande do Xingu, essa nunca foi uma tradi\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m ali fazia a menor ideia de como lidar com uma produ\u00e7\u00e3o de cacau em escala.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o cacau foi introduzido, voc\u00ea foi obrigado a fazer aquele trabalho mesmo sem conhecer o procedimento.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sem conhecer o procedimento. Voc\u00ea imagina iniciar uma nova empreitada assim, um novo neg\u00f3cio? A coisa que tem que dar certo para sua fam\u00edlia poder comer?<\/p>\n<p>De todas as a\u00e7\u00f5es previstas pelo TCA, metade tinha sido conclu\u00edda at\u00e9 outubro de 2024. Isso segundo o Ibama. E algumas com atraso. A outra metade n\u00e3o tinha sido conclu\u00edda. Estavam, portanto, atrasad\u00edssimas, j\u00e1 que o TCA acabou, pelo menos em tese, em 2024. Eu tamb\u00e9m perguntei para a Norte Energia sobre esse atraso e sobre os problemas que os moradores relatam, mas eles n\u00e3o me deram uma resposta. Eles s\u00f3 disseram que investiram 8 bilh\u00f5es de reais em a\u00e7\u00f5es socioambientais para proporcionar melhor qualidade de vida e moradia para as pessoas. J\u00e1 o Ibama me disse que v\u00e1rias dessas medidas ainda est\u00e3o em execu\u00e7\u00e3o e que devem ser continuadas por outros programas. E \u00e9 assim que, sem piracema, com menos peixe no rio, sem apoio, os moradores v\u00e3o fazendo de tudo para segurar as pontas.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E a\u00ed ficou uma regi\u00e3o desorganizada, entendeu? Eu digo que ficou uma regi\u00e3o desorganizada, onde n\u00f3s t\u00ednhamos uma vida pacata e uma vida que n\u00f3s consegu\u00edamos dar um sustento para os nossos filhos. E hoje ficou uma regi\u00e3o que tem que se voltar para outra cultura de trabalho, uma galera que vai para um cacau, para um gado, sem ter nunca mexido com esse projeto de nada. E acaba que muitos quebram a cara, voc\u00ea sabe, que a gente entra num trabalho que a gente n\u00e3o sabe lidar com ele, \u00e0s vezes n\u00e3o consegue e fica mais frustrado. Acaba o que? Acaba que vende a propriedade para outras pessoas que n\u00e3o aguentam mais, entendeu? Tem gente que desiste: \u201cn\u00e3o, n\u00e3o aguento mais aqui n\u00e3o, eu n\u00e3o consigo mais pegar um peixe pra alimentar meus filhos\u201d.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Norte Energia j\u00e1 disse para o Ibama que a cada ano percebe uma diminui\u00e7\u00e3o de cerca de 10% das fam\u00edlias de beiradeiros que vivem em Volta Grande. A Volta Grande vai lentamente deixando de ser o que era. As pessoas viviam de um jeito, at\u00e9 serem for\u00e7adas a viver de outro. E o conhecimento que tinham perde seu lugar no mundo. Como resume o Diel:<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o tudo que a gente sabe hoje, a gente aprendeu com nossos pais na Volta G. E hoje ela est\u00e1 se acabando, a gente est\u00e1 vendo ela sendo destru\u00edda. E tudo que a gente aprendeu, tudo que a gente viveu, hoje a gente s\u00f3 tem mem\u00f3rias. A gente n\u00e3o consegue fazer o que a gente fazia antes, nem ensinar para os nossos filhos o que a gente fazia antes.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 claro que o mundo muda, transformando o jeito que as pessoas vivem. Mas aqui a gente est\u00e1 falando de uma mudan\u00e7a radical de todo o universo, em menos de uma gera\u00e7\u00e3o. E de forma mais objetiva, a gente est\u00e1 falando tamb\u00e9m de uma mudan\u00e7a que nem podia acontecer. J\u00e1 que a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica estabeleceu como medida condicionante a garantia do modo de vida tradicional.<\/p>\n<p>Em outubro de 2024, a \u00e1rea t\u00e9cnica do Ibama terminou uma avalia\u00e7\u00e3o dessas medidas do TCA, o Termo de Compromisso Ambiental, que tinha sido assinado com a Norte Energia. Eu li esse e muitos outros documentos do licenciamento de Belo Monte, mais de 200 p\u00e1ginas. Eles s\u00e3o a forma de comunica\u00e7\u00e3o no governo federal. Com o tempo, a gente vai pegando o jeito para ler as entrelinhas desses textos t\u00e9cnicos. Vai percebendo quando eles s\u00e3o mais leves e quando eles s\u00e3o mais categ\u00f3ricos. E esse parecer do TCA me marcou, porque ele era muito direto, muito incisivo. E aqui eu vou ler s\u00f3 um trecho:<\/p>\n<p>\u201cO insucesso das medidas mitigadoras propostas no TCA nos leva novamente a informar \u00e0s autoridades competentes que este empreendimento gera impactos sociais inaceit\u00e1veis relacionados \u00e0 perda do modo de vida ribeirinho na Volta Grande do Xingu. Portanto, \u00e9 de suma import\u00e2ncia e urgente definir um hidrograma que garanta o modo de vida dos ribeirinhos da Volta Grande do Xingu\u201d.<\/p>\n<p>\u201cImpactos sociais inaceit\u00e1veis\u201d. \u201cPerda do modo de vida\u201d. S\u00e3o palavras duras, mas que ainda assim n\u00e3o d\u00e3o conta da dor de quem vive, na pele, um fim de mundo.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Ai, a gente chega com o documento, a gente vai, muitas das vezes, no Ibama, que nem aconteceu j\u00e1, a\u00ed, falar assim, olhar, pegar, a\u00ed eu vou olhar com carinho. Ai, meu Deus do c\u00e9u. Se carinho resolvesse alguma coisa, o rio n\u00e3o estava nesse estado. Porque mais carinho do que a gente d\u00e1 para esse rio. Mais cuidado do que a gente d\u00e1 para esse rio. A gente cuida do rio. Eu s\u00f3 sei dizer que quem est\u00e1 dentro de um ar condicionado, sentado em uma mesa, assinando papel, para eles l\u00e1 \u00e9 f\u00e1cil eles fazerem isso. S\u00f3 vai assinar. Mas para n\u00f3s aqui, que somos linha de frente, estamos lutando aqui para que ele n\u00e3o destrua, eles n\u00e3o destruam o nosso territ\u00f3rio, a nossa casa.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A Sara me falou que, recentemente, uns representantes da empresa passaram perguntando se os moradores iriam embora caso recebessem uma indeniza\u00e7\u00e3o. Ela ficou revoltada com a mera possibilidade.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Antes deles chegarem aqui, da Hidrel\u00e9trica chegar aqui, eu j\u00e1 existia, o meu pai j\u00e1 existia, todos j\u00e1 existiam aqui, os ancestrais da Volta Grande j\u00e1 existiam. Todos eles. Vem falar em dar dinheiro pela morte dos n\u00e3o-humanos? N\u00e3o. Falar em indeniza\u00e7\u00e3o e querer que a gente v\u00e1 embora do que \u00e9 nosso? A nossa vida toda est\u00e1 aqui. Toda est\u00e1 aqui a nossa vida. Tem uma fam\u00edlia\u2026Eu tenho entes queridos que foram enterrados aqui. Ent\u00e3o, para n\u00f3s isso \u00e9 solo sagrado. O rio para n\u00f3s \u00e9 sagrado.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo epis\u00f3dio, a gente vai para uma outra regi\u00e3o afetada pela usina, de onde os ribeirinhos tamb\u00e9m n\u00e3o querem sair. No trecho do rio acima da barragem, que virou um reservat\u00f3rio, eles lutam h\u00e1 anos para n\u00e3o deixar de ser ribeirinhos. E ser ribeirinho, como me falou o seu Raimundo, \u00e9 ainda mais do que um modo de vida. E nada melhor do que um poema dele pr\u00f3prio para demonstrar isso. A gente termina com um trechinho desse poema:<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sou ribeirinho de v\u00e1rias etnias, caboclo, preto, branco, pardo, amarelo, de mista tradi\u00e7\u00e3o. Sou legado, sou paix\u00e3o, que guardo no peito. Sou ribeirinho do Alto Iriri, que faz do caxiri pernas e m\u00e3os. Do extrativismo, sua renda, a ro\u00e7a, sua fazenda, da mandioca, o pir\u00e3o. Do peixe, a mistura, do milho, o p\u00e3o. Sou ribeirinho, a parte esquecida pela ferida que corrompe nosso pa\u00eds. N\u00e3o tenho vis\u00e3o, mas sou da na\u00e7\u00e3o, na\u00e7\u00e3o mista, esquecida, brasileira. Sou ribeirinho de cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Xingu em Disputa \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o original da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Para fazer essa s\u00e9rie, eu li centenas de p\u00e1ginas de documentos oficiais e entrevistei mais de 25 pessoas. Algumas que voc\u00ea ouviu aqui. Deixo meu agradecimento a todas elas.<\/p>\n<p>Esse podcast foi produzido e escrito por mim, Isabel Seta, que viajei a Altamira com o apoio do Instituto Socioambiental. A edi\u00e7\u00e3o dos roteiros \u00e9 da Giovana Girardi, com colabora\u00e7\u00e3o da Cl\u00e1udia Jardim. Sofia Amaral faz a dire\u00e7\u00e3o da locu\u00e7\u00e3o e a coordena\u00e7\u00e3o geral da s\u00e9rie. A pesquisa de arquivos \u00e9 da Rafaela de Oliveira, da Stela Diogo e minha. A locu\u00e7\u00e3o foi gravada no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica, com trabalhos t\u00e9cnicos da Stela Diogo e do Ricardo Terto. O design de som, edi\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o do Pedro Pastoriz, com trilhas sonoras do Epidemic Sound. A identidade visual \u00e9 do Matheus Pigozzi. A equipe de divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por Marina Dias, Lorena Morgana, Renata Cons, Leticia Gouveia, Ethieny Karen, Ester Nascimento, Edgar Chulve e Vanice Christine.<\/p>\n<p>Nesse epis\u00f3dio, a gente usou \u00e1udios da TV Brasil. Os sons de ambiente gravados em Altamira s\u00e3o do Instituto Socioambiental e foram captados pela fot\u00f3grafa Jennifer Bandeira. Raimundo da Cruz e Silva gentilmente cedeu \u00e1udios gravados na sua comunidade no Xingu. Muito obrigada por acompanhar a gente at\u00e9 aqui. At\u00e9 o pr\u00f3ximo epis\u00f3dio.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eau-buscam-linha-de-swap-de-dolares-com-eua-em-meio-a-crise-provocada-por-ormuz-fechado\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">EAU buscam linha de swap de d\u00f3lares com EUA em mei...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/os-estados-unidos-sao-o-pais-com-o-maior-numero-de-consumidores-de-drogras-e-consequentemente-de-carteis\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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