{"id":47687,"date":"2025-08-27T06:00:00","date_gmt":"2025-08-27T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/a-luta-para-voltar-para-casa\/"},"modified":"2025-08-27T06:00:00","modified_gmt":"2025-08-27T09:00:00","slug":"a-luta-para-voltar-para-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-luta-para-voltar-para-casa\/","title":{"rendered":"A luta para voltar para casa"},"content":{"rendered":"<p>Neste epis\u00f3dio, viajamos para o outro lado da barragem, onde o rio Xingu foi transformado em um reservat\u00f3rio da hidrel\u00e9trica de Belo Monte, o que expulsou centenas de fam\u00edlias ribeirinhas de suas casas em um processo traum\u00e1tico e repleto de viol\u00eancia. Se na Volta Grande a \u00e1gua falta, nessa regi\u00e3o o excesso de \u00e1gua arrancou \u00e0 for\u00e7a de suas terras nas ilhas e nas margens do Xingu os beiradeiros, que agora lutam para voltar para perto do seu rio \u2013 de onde preferiam nunca ter sa\u00eddo. A rep\u00f3rter Isabel Seta nos conduz por esta hist\u00f3ria de rea\u00e7\u00e3o e conta como os beiradeiros se organizaram para reivindicar o direito de retornar para casa e, mais do que isso: definir como esse retorno deveria acontecer. Mas, quase sete anos depois de terem conquistado esse direito, dezenas de fam\u00edlias ainda n\u00e3o foram reassentadas nas margens do Xingu. Vamos conhecer os beiradeiros envolvidos nesse processo e atrav\u00e9s deles entender por que voltar para o rio continua urgente.<\/p>\n<h2><strong>Leia abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra:<\/strong><\/h2>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Eles apareceram de repente, no meio da \u00e1gua. At\u00e9 ali, confesso que eu estava bem envolvida, at\u00e9 meio distra\u00edda por aquela paisagem amaz\u00f4nica. Eu sabia que aquele lugar tinha mudado muito e at\u00e9 perdido o brilho para quem sempre viveu ali. Mas para mim, rec\u00e9m-chegada, era dif\u00edcil n\u00e3o achar bonitas as nuvens refletidas naquele mundo de \u00e1gua, a mata verde brilhando nas margens e aquela \u00e1rvore bem mais alta que as outras, com o tronco espichado para o c\u00e9u e a copa imensa olhando tudo como uma guardi\u00e3 da floresta. Aquela era majestosa suma\u00fama, como eu ia aprender depois.<\/p>\n<p>Mas da\u00ed, eu vi aqueles troncos saindo do meio da \u00e1gua. E eram muitos. Uns estavam mais esbranqui\u00e7ados, outros quase cinza. Tinha uns ainda com os galhos retorcidos, totalmente secos, sem nenhuma folha. Outros eram s\u00f3 o tronco mesmo, nada das antigas copas. Uns palitos de madeira, vazios, meio mortos. Uma cena meio sinistra. Passar de barco do lado deles me deu calafrios. E me trouxe de volta para a realidade.<\/p>\n<p>Eram os paliteiros, \u00e1rvores que morreram afogadas quando o Estado brasileiro decidiu transformar o rio Xingu em um reservat\u00f3rio para gerar energia hidrel\u00e9trica. Essas \u00e1rvores cobriam ilhas e peda\u00e7os da margem que foram parar debaixo d \u2018\u00e1gua. Deviam ter sido removidas antes do enchimento do reservat\u00f3rio. Mas essa regra b\u00e1sica n\u00e3o foi totalmente respeitada. E elas ficaram apodrecendo devagar, soltando gases t\u00f3xicos no caminho.<\/p>\n<p>Aqueles paliteiros me fizeram pensar no mundo afogado que antes estava ali. E me pareceram uma evid\u00eancia inescap\u00e1vel da transforma\u00e7\u00e3o violenta que a usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte provocou na regi\u00e3o de Altamira, no Par\u00e1.<\/p>\n<p>Depois de passar por aquele cemit\u00e9rio de \u00e1rvores outras vezes, eu comecei a perceber algo mais. Primeiro, vi uma brom\u00e9lia solit\u00e1ria, pendurada entre os galhos mortos. Depois, um broto bem verde, lutando para crescer em cima de um tronco podre. Na hora, pensei como \u00e9 impressionante a for\u00e7a da vida. Mesmo ali, no meio daqueles troncos t\u00e3o tristes, ela estava dando um jeito, como costuma fazer. Mais um sinal de que o que tamb\u00e9m n\u00e3o falta em Altamira \u00e9 resili\u00eancia. E essa que eu vou te contar agora \u00e9 uma dessas hist\u00f3rias de rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu sou a Isabel Seta, e esse \u00e9 o terceiro epis\u00f3dio de Xingu em Disputa, podcast da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Nessa s\u00e9rie de quatro epis\u00f3dios, contamos a hist\u00f3ria da transforma\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do Xingu, de rio-fonte de vida para reservat\u00f3rio, fonte de energia. Aqui, a gente conta tamb\u00e9m, a hist\u00f3ria das consequ\u00eancias que a usina de Belo Monte, a segunda maior hidrel\u00e9trica do pa\u00eds, trouxe para o rio e para os seus habitantes.<\/p>\n<p>Nos dois primeiros epis\u00f3dios, a gente mergulhou na asfixia da Volta Grande do Xingu, trecho do rio abaixo da barragem, que teve as suas \u00e1guas desviadas para a gera\u00e7\u00e3o de energia. Se voc\u00ea ainda n\u00e3o ouviu, recomendo voltar l\u00e1 no come\u00e7o, para tudo fazer mais sentido. Porque nesse epis\u00f3dio, a gente vai viajar para a parte acima da barragem, onde o que antes era rio, virou um grande lago. Aquele lago, cheio de paliteiros. Em comum, nos dois lugares, est\u00e3o os beiradeiros, ribeirinhos que moravam nas ilhas e nas margens do Xingu, e que sempre se sentiram, e ainda se sentem, totalmente ligados ao rio. E por isso, se recusam a deix\u00e1-lo para tr\u00e1s. Pelo contr\u00e1rio, essa \u00e9 a hist\u00f3ria de quem est\u00e1 brigando para voltar.<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio 3: A luta para voltar para casa<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, foi o pior momento, quando a empresa encostou l\u00e1 e falou que a gente ia ter que sair, porque a licen\u00e7a tinha sa\u00eddo, n\u00e9? Em 2010 saiu l\u00e1, n\u00e9? O leil\u00e3o aconteceu, e a Norte Energia tinha\u2026 O cons\u00f3rcio tinha ganhado, e a gente ia ter que sair.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a Rita Cavalcante Silva. Ela \u00e9 pescadora e beiradeira. Com 52 anos vivendo na beira do Xingu, o beirad\u00e3o, ela ainda lembra, como se fosse hoje, do dia em que sua vida foi virada de cabe\u00e7a para baixo, h\u00e1 quase 15 anos.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Falei, \u201cn\u00e3o, mas a gente n\u00e3o quer sair\u201d. \u201cN\u00e3o, mas voc\u00eas t\u00eam que sair. Ou voc\u00eas saem, voc\u00eas permitem que a gente chegue na propriedade e fa\u00e7a o levantamento que voc\u00eas t\u00eam, ou ent\u00e3o, se quiser, voc\u00eas podem j\u00e1 judicializar. Vai pra justi\u00e7a. Mas daqui voc\u00eas tem que sair. \u201c<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Daqui era a Ilha Bacabal do Cotovelo, onde a fam\u00edlia da Rita vivia h\u00e1 quase cinco d\u00e9cadas. Moravam ela, a m\u00e3e, o irm\u00e3o e a irm\u00e3, cada um com a sua casa, vivendo de tudo que a floresta, o rio e a terra davam.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s moramos 47 anos numa ilha, ela n\u00e3o foi derrubada toda. A gente botava aquela rocinha, n\u00e9, para plantar, que nem a macaxeira, para tomar um caf\u00e9 de manh\u00e3, fazer um bolo. Plantava banana, que \u00e9 algo que voc\u00ea come direto, um p\u00e9 de laranja, um p\u00e9 de lim\u00e3o, coisas que voc\u00ea geralmente vai na feira comprar, n\u00e9? Porque o peixe, tu j\u00e1 tinha na beira do rio.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A Norte Energia, o cons\u00f3rcio que opera a usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte, passou avisando: todos os beiradeiros que moravam nas ilhas daquele trecho do Xingu iam ter que sair. A \u00e1rea ia virar um reservat\u00f3rio. Era in\u00edcio de 2012, e o governo federal j\u00e1 tinha autorizado a desapropria\u00e7\u00e3o de toda a \u00e1rea. Naquele momento, os beiradeiros s\u00f3 souberam que iam ter que sair. Mas ainda n\u00e3o estava claro quando isso ia acontecer. O presente e o futuro entraram em estado de suspens\u00e3o. Os beiradeiros ficaram com medo de abrir a ro\u00e7a, por exemplo, e serem for\u00e7ados a sair logo em seguida. Mas sabe o que acontece com obras, n\u00e9? Elas demoram. E essa, uma obra imensa e car\u00edssima, n\u00e3o ia ser diferente. Foram meses de abertura de estradas e canteiros de obras, depois de explos\u00f5es que fizeram toda a regi\u00e3o tremer para abrir o buraco das barragens que iam formar o complexo da hidrel\u00e9trica de Belo Monte. Lembra que a Sara contou no primeiro epis\u00f3dio?<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7aram a fazer uma cratera de 100 metros para baixo do ch\u00e3o. Ali, naquele momento, os peixes j\u00e1 come\u00e7aram a sentir o impacto. Come\u00e7aram j\u00e1 a sentir, porque tremia, o ch\u00e3o tremia.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Foi s\u00f3 em 2015 que tudo realmente come\u00e7ou a mudar para os beiradeiros dessa regi\u00e3o. No trecho abaixo da barragem, na Volta Grande, as \u00e1guas do Xingu come\u00e7aram a ser desviadas. Enquanto isso, rio acima, o trecho onde ficava a Ilha da Rita come\u00e7ou a encher para virar o reservat\u00f3rio da hidrel\u00e9trica. E os beiradeiros passaram a ser retirados de suas ilhas. Mais de 300 fam\u00edlias que viviam espalhadas pelas ilhas ou pelas margens do Xingu foram expulsas.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Eu fui uma que fiquei com a lona debaixo dos pau l\u00e1, num tempo desse de inverno.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A Rita \u00e9 uma mulher firme e muito corajosa. Ela n\u00e3o ia deixar a ilha da fam\u00edlia assim, sem resistir. Depois de notificados, os beiradeiros tinham 30 dias para deixar suas casas. Mas foram v\u00e1rios os que denunciaram que a Norte Energia n\u00e3o respeitava esse prazo. Antes mesmo de dar os 30 dias, a \u201cbalsa do desmancha\u201d, como o pessoal chamava, aparecia para demolir tudo o que encontrasse. A Rita botou tudo o que ela tinha debaixo de uma lona, para que as coisas n\u00e3o fossem destru\u00eddas caso a balsa do desmancha aparecesse de repente, sem que ela estivesse l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Botei cama, botei colch\u00e3o, botei arm\u00e1rio, tudo debaixo. Comprei duas lonas, uma grandona e eu botei as coisas. Molhou tudo, perdi colch\u00e3o, muitas coisas que molhavam, que n\u00e3o tem jeito de proteger debaixo de uma lona. Mas mesmo assim\u2026 E a outra era mais pequena, onde a gente botava o fog\u00e3o para fazer a comida l\u00e1 no invern\u00e3o desse. Quando a gente saiu de l\u00e1, foi dia 9 de abril, bem no tempo da chuva, de 2015. Ent\u00e3o o dia que, com muita luta, a gente conseguiu que a empresa fizesse, tirasse nossas coisas de l\u00e1 e levasse para outra ilha l\u00e1 embaixo, no Kaituk\u00e1, l\u00e1 na vaz\u00e3o reduzida, l\u00e1 embaixo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Tudo que Rita tinha foi levado para essa outra ilha, que n\u00e3o ia alagar, j\u00e1 que a dela, em pouco tempo, ia ser quase totalmente submersa. S\u00f3 ia sobrar uma ponta da ilha para fora da \u00e1gua. \u00c9 dif\u00edcil explicar qu\u00e3o traum\u00e1tico foi todo esse processo de expuls\u00e3o. Mas a viol\u00eancia chegou a n\u00edveis ainda piores, com casas de beiradeiros sendo incendiadas. Sim, houve caso em que a empresa queimou a casa das pessoas. Foi o que aconteceu com uma beiradeira chamada Dona Raimunda. Quem conta esse caso \u00e9 a antrop\u00f3loga Ana de Francesco, no livro Terror e Resist\u00eancia no Xingu.<\/p>\n<p>A Ana escreve que a Dona Raimunda estava chegando com um barco para poder tirar suas coisas da ilha em que ela morava. Mas assim que ela p\u00f4s o p\u00e9 na terra, viu que tinham ateado fogo na casa dela, com tudo que ela tinha dentro. A brasa ainda estava quente. Mas o que foi pior mesmo para a Dona Raimunda \u00e9 que botaram fogo at\u00e9 nas \u00e1rvores e nas plantas que ela foi plantando ao longo dos anos. A Ana descreve assim no livro: \u201cAs plantas, para ela, tinham uma hist\u00f3ria e exist\u00eancia pr\u00f3prias. Na frente de sua casa, ela tinha plantado um p\u00e9 de pinh\u00e3o paj\u00e9. Ela o considerava um amigo, o pinh\u00e3o paj\u00e9 a protegia, toda manh\u00e3 lhe dizia se algo ruim aconteceria naquele dia. Queimaram o pinh\u00e3o paj\u00e9, assim como todas as bananeiras, as mangueiras e o p\u00e9 de murici. Aquele p\u00e9 de murici que ela trouxe da ilha de um amigo\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 com a Dona Raimunda. H\u00e1 relatos de outras casas queimadas pela empresa. O horror foi t\u00e3o grande que o Ibama chegou a suspender, ainda que s\u00f3 por um tempo, a remo\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e a demoli\u00e7\u00e3o de casas no beirad\u00e3o. Foi um momento de muita desesperan\u00e7a. Mas alguns movimentos de rea\u00e7\u00e3o j\u00e1 estavam acontecendo naqueles meses de 2015 e 2016. Os beiradeiros n\u00e3o iam perder seu rio calados. Mas alguns movimentos de rea\u00e7\u00e3o j\u00e1 estavam acontecendo, mas ainda demoraria alguns anos para essa rea\u00e7\u00e3o ganhar contornos concretos, que iam mudar o rumo dessa hist\u00f3ria de terror. A gente vai chegar l\u00e1.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das remo\u00e7\u00f5es violentas, tinha uma outra quest\u00e3o bem problem\u00e1tica: o pagamento de indeniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Da\u00ed surgiu essa movimenta\u00e7\u00e3o entre os pr\u00f3prios ribeirinhos. Come\u00e7aram a procurar o Minist\u00e9rio P\u00fablico dizendo: \u201ceu n\u00e3o ganhei nada de indeniza\u00e7\u00e3o\u201d, indeniza\u00e7\u00e3o muito baixa que ela retirou.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Tinha gente que n\u00e3o tinha recebido nada. Tinha outras que tinham recebido alguma coisa, mas muito pouco. Algumas pessoas receberam casas que a Norte Energia construiu na periferia de Altamira. Outros estavam negociando com a empresa para serem realocados em outras ilhas que n\u00e3o tinham ficado totalmente embaixo da \u00e1gua.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, percebendo o tamanho da encrenca, come\u00e7ou a se mexer. Questionou o Ibama e organizou uma inspe\u00e7\u00e3o com v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os do governo para ir at\u00e9 as \u00e1reas de remo\u00e7\u00e3o ouvir os beiradeiros e entender qual era a situa\u00e7\u00e3o de cada um. Essa confus\u00e3o toda era o \u00e1pice de um processo que para os beiradeiros j\u00e1 tinha come\u00e7ado todo errado. Porque a Norte Energia n\u00e3o reconhecia uma coisa fundamental do modo como eles viviam.<\/p>\n<p>Os ribeirinhos da regi\u00e3o de Altamira sempre circulavam entre dois ambientes: a rua, que \u00e9 como eles chamam a cidade, e o beirad\u00e3o, como chamam o conjunto de ilhas e as margens do Xingu. Em cada um desses lugares, a maioria das fam\u00edlias mantinha uma casa, num sistema reconhecido como de dupla moradia. Veja, eu n\u00e3o estou falando aqui de ter uma casa na cidade e uma ch\u00e1cara ou uma casa de lazer, de veraneio, de f\u00e9rias, no litoral ou no interior. No caso dos beiradeiros, as duas casas eram fundamentais para o funcionamento da vida e para a organiza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Na casa das ilhas ou das margens, eles pescavam a prote\u00edna de todo dia no rio, cultivavam diferentes plantas, criavam animais, mantinham uma ro\u00e7a de mandioca, coletavam a\u00e7a\u00ed, castanha, seringa e plantas medicinais. J\u00e1 a casa da rua servia de abrigo quando eles precisavam ir para a cidade vender peixe ou algum excedente da ro\u00e7a ou produto coletado na floresta. Ou, quando os filhos iam para Altamira para estudar, algu\u00e9m da fam\u00edlia se mudava para a casa da rua para ficar com as crian\u00e7as na cidade por um tempo. E mesmo quem n\u00e3o tinha uma casa constru\u00edda no beirad\u00e3o, sempre podia contar com a possibilidade de amarrar uma lona no terreno de um amigo ou em pontos j\u00e1 estabelecidos e conhecidos dos beiradeiros.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>A gente, em todo lugar que tu chegasse, tu j\u00e1 tendo uma lona, tu j\u00e1 tinha um lugarzinho para tu ficar. Tu j\u00e1 armava a lona. Ali tu passava dois dias, tr\u00eas dias. Estou falando do pescador, assim, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 que a Norte Energia n\u00e3o reconhecia esse jeito de viver. E n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil de entender por qu\u00ea, mas a antrop\u00f3loga Ana de Francesco deixou bem desenhadinho no livro dela. Vou ler aqui um trechinho: \u201cO sistema de dupla moradia foi repetidamente negado pela Norte Energia, por desconhecimento do contexto onde atuava ou de forma deliberada para evitar uma dupla repara\u00e7\u00e3o, por um duplo dano\u201d. Dupla repara\u00e7\u00e3o por um duplo dano. \u00c9 que al\u00e9m de retirar os beiradeiros das ilhas, a empresa demoliu as casas do Baix\u00e3o. O Baix\u00e3o era um bairro de palafita, na margem do Xingu, em Altamira. Essa demoli\u00e7\u00e3o era parte da reurbaniza\u00e7\u00e3o da orla da cidade, uma das medidas de compensa\u00e7\u00e3o que a empresa tinha que fazer para obter a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da usina. Acontece que muitos dos beiradeiros que perderam suas ilhas tinham suas casas na rua justamente no Baix\u00e3o. Ent\u00e3o, eles perderam essas casas tamb\u00e9m. E tudo isso sem grandes avisos e sem uma negocia\u00e7\u00e3o coletiva das compensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>[Ana de Francesco]<\/strong><\/p>\n<p>Eles n\u00e3o explicavam nada.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a antrop\u00f3loga Ana de Francesco. Ela se mudou para Altamira ainda em 2014 e acompanhou de perto o processo de demoli\u00e7\u00e3o do Baix\u00e3o e a retirada for\u00e7ada dos beiradeiros das ilhas. Aqui ela est\u00e1 falando da empresa e de como foi feito o cadastro para calcular as indeniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>[Ana de Francesco]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E ainda eles tinham que dizer onde eles moravam. Eles tinham que escolher entre morar na ilha ou morar na cidade. Porque eles s\u00f3 podiam ter direito a uma indeniza\u00e7\u00e3o, sabe? A uma repara\u00e7\u00e3o. Obrigando-os a se encaixar num funil da empresa.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Claro, a empresa n\u00e3o queria pagar duas indeniza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>[Ana de Francesco]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u201cOnde voc\u00ea mora? Aqui ou na cidade?\u201d \u201cEu moro nos dois lugares.\u201d Ela n\u00e3o pode. Ou voc\u00ea mora aqui ou voc\u00ea mora l\u00e1. Mas n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o nenhuma. Era isso. Marque uma op\u00e7\u00e3o. Ah, n\u00e3o. Voc\u00ea tem que escolher uma.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Alguns ribeirinhos que perderam as suas casas no Baix\u00e3o receberam outra nos assentamentos urbanos que a Norte Energia construiu na periferia de Altamira. Outros foram para a casa de parentes ou para algum ponto que n\u00e3o tinha sido inundado. Teve gente que foi embora.<\/p>\n<p>Semanas depois que a fam\u00edlia da Rita foi obrigada a sair da sua ilha, o Ibama reconheceu que os ribeirinhos tinham, sim, dupla moradia. E determinou que a empresa precisava considerar isso nas negocia\u00e7\u00f5es com os atingidos. Mas os beiradeiros n\u00e3o queriam s\u00f3 que o seu modo de vida entre a rua e o beirad\u00e3o fosse reconhecido. O que eles queriam mesmo era voltar para a beira do Xingu, de onde eles nunca nem teriam sa\u00eddo se tivessem tido escolha. O governo s\u00f3 come\u00e7ou a entender isso depois de muita den\u00fancia.<\/p>\n<p>Naquele momento, em 2017, aquele trecho do Xingu j\u00e1 tinha sido transformado no reservat\u00f3rio da hidrel\u00e9trica. Lembra que no primeiro epis\u00f3dio eu contei como no projeto original o reservat\u00f3rio seria bem maior que o de outras hidrel\u00e9tricas? Ent\u00e3o, a \u00e1rea de inunda\u00e7\u00e3o acabou reduzida em 60% na compara\u00e7\u00e3o com o plano antigo, herdado da ditadura. Ainda assim, como as propor\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas costumam ser bem grandes, o Xingu virou um grande lago, de 359 quil\u00f4metros quadrados. Sendo que 288 quil\u00f4metros quadrados eram a calha natural do rio.<\/p>\n<p>Se a Volta Grande, como a gente contou nos dois primeiros epis\u00f3dios, ficou praticamente sem \u00e1gua, barragem acima, peda\u00e7os das margens e ilhas inteiras foram inundadas com o represamento. O Xingu que os beiradeiros conheciam como a palma da m\u00e3o, que enchia no inverno e secava no ver\u00e3o, que era cheio de corredeiras que serpenteavam entre dezenas de ilhas, era, agora, quase uma represa. Talvez voc\u00ea se pergunte, ent\u00e3o, porque, mesmo assim, eles queriam voltar. Se voc\u00ea, como eu, nasceu e cresceu na cidade, pode ser ainda mais dif\u00edcil de entender. Quando eu perguntei pra Rita se ela e a fam\u00edlia tinham chegado a\u00ed pra algum assentamento urbano que a empresa construiu, ela me deu uma olhada como se aquela ideia fosse completamente absurda.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Meu marido n\u00e3o, n\u00e3o morria logo. Ele era de beira de rio mesmo. N\u00e3o tinha jeito pra ele. Ele passava dois dias na rua, j\u00e1 era agoniado, andando do quintal pra porta, dizendo: \u201cn\u00e3o sei como \u00e9 que a pessoa vive num lugar desse\u201d, e pegava o barco dele e se mandava. Tinha que estar no rio.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>E que rio. Naqueles dias, em fevereiro de 2025, quando eu estava l\u00e1 em Altamira, eu ficava tentando imaginar que que devia ser aquele lugar antes da usina. Eu perguntei como era para todos os beiradeiros com quem conversei. E sabe qual palavra sempre aparecia? Para\u00edso.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 que nem a senhora falou, voc\u00eas n\u00e3o conheceram Xingu antes. \u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil pra mim imaginar como \u00e9 que era aqui.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Coisa mais linda, coisa mais linda.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Comer acari, um tipo de peixe assado nas praias, era o rol\u00ea do final de semana. E as praias do Xingu eram uma beleza, de areias claras, perfeitas para entrar no rio e tomar banho.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Bora, bora pra praia comer acari assado, pronto, vinha uma galera, os vizinhos tudinho, ia pra praia, assava peixe, passava o fim de semana, voltava.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>E a \u00e1gua voc\u00eas pegavam do rio que era limpa?<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Limpinha, corrente. Para consumir. \u00c1gua limpa, tu pegava \u00e1gua limpinha ali\u2026<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c1gua para banhar, pra beber, pra cozinhar, pra lavar. E s\u00f3 de lavar a lou\u00e7a na beira, os peixes vinham tudo atr\u00e1s dos restos de comida. E era s\u00f3 colocar uma rede que ela voltava cheia de pacu.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa nossa regi\u00e3o daqui de Altamira at\u00e9 l\u00e1 onde eles fecharam o rio era uma regi\u00e3o rica desse peixe de pacu, de piau, de acar\u00ed. O acari que \u00e9 uma iguaria principal do ribeirinho. N\u00e3o tem esse ribeirinho que n\u00e3o t\u00e1 com prato de acari com a farinha, o pir\u00e3o do lado. Era essa a tradicionalidade do beirad\u00e3o inteiro. De um lado e do outro era aquilo. \u201c\u00d3, hoje vamos pegar acari.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m se lembra bem disso \u00e9 Lindolfo Aranha Neto, de 64 anos. Pescador e beiradeiro. Ele e a mulher, dona Joana Gomes da Silva, de 60 anos, me falaram bastante sobre o mundo de antes.<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Onde a gente pegava, botava a malhadeira pra pegar o pacu, pegava o piau, pegava o cadete, pegava a matrinx\u00e3. L\u00e1 mesmo encostado de casa, a floresta que tinha em redor da casa que a gente usava, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A casa deles ficava na ilha de Sama\u00fama. Sama\u00fama \u00e9 o outro nome de suma\u00fama, aquela \u00e1rvore majestosa que eu falei no come\u00e7o do epis\u00f3dio. S\u00f3 naquele trecho do rio, um pouco antes e um pouco depois de Altamira, era coisa de umas 60 ilhas. Todas cobertas de floresta. V\u00e1rias, inclusive, com grandes seringais. Imagino o que era vista para aquele rio de \u00e1gua cristalina, cheio de corredeiras cortadas por grandes pedras, os sarubais brotando do leito, com as \u00e1rvores lotadas de frutas. E as v\u00e1rias ilhas formando um labirinto verde.<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Tinha a ilha de Sama\u00fama. A\u00ed l\u00e1 n\u00f3s tinha seringueira, n\u00f3s tinha cajazeira, tinha muita fruta dentro a\u00ed! E assim em redor o landi, n\u00e9? Chegava a \u00e9poca, essa \u00e9poca era a \u00e9poca que eu tava ficando com cani\u00e7o, pegando peixe.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Como na Volta Grande era uma vida de fartura, de abund\u00e2ncia, gra\u00e7as ao Xingu, como a dona Joana conta.<\/p>\n<p><strong>[Joana]<\/strong><\/p>\n<p>Eu mesmo cansei de chegar e dizer eu quero esse peixe, eu n\u00e3o quero aquele, eu quero esse. E eu escolhia o que eu queria comer. Se eu dissesse hoje eu quero comer pacu, eu ia comer o pacu. Se eu dissesse hoje eu vou comer cari assada nas praias, eu ia comer meu cari assado l\u00e1. Hoje eu vou comer uma curimat\u00e1 assada, a\u00ed eu comia. Porque a gente ia atr\u00e1s pegava, tinha e hoje em dia?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Era uma vida tamb\u00e9m de riqueza.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E as comidas, a alimenta\u00e7\u00e3o dos peixes, que nem eu falei pra ti, de Altamira at\u00e9 l\u00e1, era uma regi\u00e3o rica. A gente tinha, chamava Saroba. Aquelas ilhinhas no meio do rio, corredeira com praia, com pedra e com as frutas que eles se alimentavam. E da\u00ed in\u00fameros nomes de frutos, se a gente for falar que a gente passou um meio dia s\u00f3 falando o nome das comidas. Hoje, t\u00e1 a\u00ed o paliteiro. T\u00e1 tudo morto.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Hoje em dia, o rio \u00e9 mais uma represa do que rio. E o para\u00edso dos beiradeiros t\u00e1 debaixo d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>Quando a empresa passou perguntando pros beiradeiros onde eles moravam para fazer o cadastro dos impactados, ela tamb\u00e9m come\u00e7ou a levantar o que cada fam\u00edlia tinha, para calcular quanto que elas iam receber de indeniza\u00e7\u00e3o. Era a tal da avalia\u00e7\u00e3o patrimonial. A quest\u00e3o \u00e9 que o valor das coisas \u00e9 relativo.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eles, \u00e0s vezes, chegaram at\u00e9 a dizer que a casa de palha n\u00e3o tinha valor. Mas a gente n\u00e3o precisava de muita coisa, n\u00e3o. Entendeu?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Na vis\u00e3o da empresa, uma casa de palha n\u00e3o tinha valor. Tamb\u00e9m na vis\u00e3o da empresa, as \u00e1reas de floresta em p\u00e9, preservadas, que os beiradeiros usavam para ca\u00e7ar, para coletar castanha e seringa, n\u00e3o contavam como \u00e1reas ocupadas. Ou seja, tamb\u00e9m n\u00e3o tinham valor para indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A\u00ed tem os p\u00e9s de goiaba, tem os p\u00e9s de murici, tem os p\u00e9s de banana. \u00c9 isso aqui que deu. E voc\u00ea tem 30 dias para desocupar o local.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>30 dias?<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>30 dias. Depois que ca\u00edsse o dinheiro, eram 30 dias.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O caderno de pre\u00e7os dessa avalia\u00e7\u00e3o, obtido pela Ana de Francesco, mostra como a empresa via o conhecimento local. Por exemplo, eles classificavam as seringueiras em produ\u00e7\u00e3o de tr\u00eas formas. Nativa, tradicional ou tecnificada. Mas n\u00e3o tinha uma explica\u00e7\u00e3o sobre o significado dessas categorias. S\u00f3 os pre\u00e7os. Nativa e tradicional valiam bem menos que a tecnificada. Sendo que \u00e9 pelo conhecimento tradicional que os beiradeiros sangram seringas por anos, sem machucar ou matar a \u00e1rvore. O que que vale mais? E as ilhas, mesmo com d\u00e9cadas de ocupa\u00e7\u00e3o, estavam todas bem preservadas. Eles n\u00e3o destru\u00edam a floresta. Esse \u00e9 o modo beiradeiro.<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 que a gente nunca foi uma pessoa destruidora. Assim, destruir a mata, acabar com tudo, n\u00e3o. A gente sempre est\u00e1 conservando a natureza, n\u00e9? S\u00f3 que n\u00f3s trabalh\u00e1vamos na beiradeira. Fazia ro\u00e7a, fazia aquelas coisas, mas nunca destru\u00eda nada.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essa, de novo, \u00e9 a Dona Joana. Para a empresa, isso tinha menos valor. No caderno de pre\u00e7os, as \u00e1reas classificadas como de desmatamento mecanizado valiam mais que o dobro das \u00e1reas de desmatamento manual. Ir\u00f4nico, n\u00e9? Mas nesse ponto, a Norte Energia seguiu bem a l\u00f3gica fundi\u00e1ria na Amaz\u00f4nia: terra desmatada vale mais do que a floresta em p\u00e9. E esses valores n\u00e3o foram divulgados na \u00e9poca. Foi a Ana que descobriu depois o tal livro de pre\u00e7os. As fam\u00edlias n\u00e3o sabiam quais eram os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o do seu patrim\u00f4nio. E muitas acabaram recebendo s\u00f3 algumas centenas de reais por suas terras.<\/p>\n<p>Depois de dois anos de expuls\u00f5es, remo\u00e7\u00f5es e pagamentos injustos, em 2016, a mobiliza\u00e7\u00e3o dos beiradeiros come\u00e7ou a ganhar corpo. Os \u00f3rg\u00e3os do governo obrigaram a Norte Energia a apresentar um plano para que os beiradeiros reocupassem as \u00e1reas que n\u00e3o foram inundadas na beira do Xingu. Isso acabou virando uma das medidas que condicionam a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o. Ou seja, que a empresa precisa cumprir para conseguir renovar a licen\u00e7a e continuar funcionando.<\/p>\n<p>T\u00e1 l\u00e1, na lista de condicionantes estabelecidas pelo Ibama: \u201cexecutar a revis\u00e3o do tratamento ofertado aos ribeirinhos e moradores de ilhas e beirad\u00f5es do Xingu, garantindo o acesso \u00e0 dupla moradia a todos os atingidos que tenham direito\u201d.<\/p>\n<p>Que tenham direito. Pois \u00e9, a\u00ed que estava o pulo do gato. Quem tinha direito? A Norte Energia apresentou um mapa com \u00e1reas que poderiam ser usadas para o reassentamento. E uma lista com 217 fam\u00edlias que poderiam ser reassentadas. Uma lista bem arbitr\u00e1ria, sem muita conversa. Era a empresa querendo decidir quem era Ribeirinho, um povo tradicional e que, portanto, teria direito a ser reassentado, e quem n\u00e3o era. Muitos n\u00e3o encontraram seus nomes. E dessas pouco mais de 200, s\u00f3 121 fam\u00edlias foram reassentadas pela empresa num primeiro momento.<\/p>\n<p>Em novembro de 2016, teve uma grande audi\u00eancia em Altamira com a presen\u00e7a do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, do Ibama, da Defensoria P\u00fablica do Estado, da Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o e da Norte Energia. Na mesa, uma grande faixa com os dizeres: o rio Xingu \u00e9 das fam\u00edlias ribeirinhas. Mais de 800 beiradeiros na plateia. E, pela primeira vez nesse longo processo, eles tiveram a chance de falar. Pela primeira vez, eles eram os protagonistas da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Eu procurei registros em v\u00eddeo ou em \u00e1udio dessa audi\u00eancia, mas n\u00e3o consegui encontrar nada. Felizmente, o livro Terror e Resist\u00eancia no Xingu traz a transcri\u00e7\u00e3o de algumas das falas.<\/p>\n<p>Eu vou ler aqui um trecho do que disse um beiradeiro chamado Gilmar: \u201cA gente n\u00e3o queria a Norte Energia aqui na nossa regi\u00e3o, fomos contra Belo Monte desde o come\u00e7o. Hoje eu n\u00e3o consigo mais sobreviver da pesca. Estou mendigando o p\u00e3o, antigamente eu n\u00e3o precisava, porque tinha a\u00e7a\u00ed. A minha ilha tem cerca de dois metros de altura, segundo a empresa, a ilha seria impactada. A ilha do meu irm\u00e3o, que \u00e9 mais baixa do que a minha, n\u00e3o ia alagar, segundo a empresa. Como assim? Isso n\u00e3o \u00e9 estudo. Somos ribeirinhos e exigimos ser reconhecidos. O rio Xingu representa pra gente o nosso banco, \u00e9 a nossa vida. Senhores, tirar o pescador do rio hoje \u00e9 matar. Voc\u00eas est\u00e3o ganhando bilh\u00f5es para estar aqui. Como tocaram fogo nas nossas casas sem nem ter pagado a indeniza\u00e7\u00e3o? Isso extrapola tudo que \u00e9 direito do cidad\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois, os representantes das fam\u00edlias expulsas se organizaram no Conselho Ribeirinho, com o objetivo de lutar pelos seus direitos e mudar os rumos da reocupa\u00e7\u00e3o do beirad\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A\u00ed da\u00ed come\u00e7ou esse movimento, ent\u00e3o os pr\u00f3prios ribeirinhos se organizaram e da\u00ed houve a necessidade de criar o Conselho Ribeirinho.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, eram eles que iam dizer quem era ribeirinho e quem n\u00e3o era. Eles iam fazer o seu pr\u00f3prio cadastro. A Rita, que \u00e9 uma das conselheiras, resumiu a ideia: voc\u00ea me conhece, eu te conhe\u00e7o, num auto reconhecimento. Ou seja, os conselheiros foram organizando quem morava em qual \u00e1rea e consultando as fam\u00edlias sobre quem eram seus vizinhos, h\u00e1 quanto tempo eles moravam l\u00e1, qual era o n\u00facleo familiar e que atividades faziam. Se pescavam, viviam do conhecimento tradicional. Eles chegaram a 322 fam\u00edlias, 100 fam\u00edlias a mais do que a Norte Energia tinha listado antes. Mas era preciso fazer ainda mais, porque as \u00e1reas que a empresa pretendia oferecer tamb\u00e9m n\u00e3o eram adequadas.<\/p>\n<p>O Conselho Ribeirinho, ent\u00e3o, organizou expedi\u00e7\u00f5es a partir de 2018, para fazer o seu pr\u00f3prio mapa. Usando seus conhecimentos, eles demarcaram os locais de extrativismo, trechos que ainda dava para pescar, pontos adequados para moradia e para ro\u00e7a, \u00e1reas de floresta e de capoeira, que \u00e9 uma vegeta\u00e7\u00e3o que nasce depois que a vegeta\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, original, \u00e9 derrubada. Marcaram at\u00e9 os lugares dos paliteiros. Com essas informa\u00e7\u00f5es, os beiradeiros fizeram a sua proposta para a empresa e para o Ibama: a cria\u00e7\u00e3o de um Territ\u00f3rio Ribeirinho, formado por tr\u00eas por\u00e7\u00f5es de terras n\u00e3o cont\u00ednuas nas duas margens do rio.<\/p>\n<p>O Ibama aprovou a ideia e determinou que a Norte Energia apresentasse a sua contra-proposta. Meses se passaram. A resposta s\u00f3 veio quase no fim de 2018. A empresa oferecia uma \u00e1rea menor do que a que o Conselho Ribeirinho tinha reivindicado. Mas voltar para o beirad\u00e3o era fundamental, urgente. Com algumas ressalvas, os beiradeiros resolveram aceitar. Era uma vit\u00f3ria gigantesca. Os beiradeiros tinham conseguido virar o jogo e colocar as suas regras para retomar o seu modo de vida e voltar para perto do seu rio.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria poderia acabar aqui, n\u00e9? Mas j\u00e1 se passaram quase sete anos desde a aprova\u00e7\u00e3o da proposta do territ\u00f3rio ribeirinho. E at\u00e9 hoje, as fam\u00edlias beiradeiras est\u00e3o esperando para serem reassentadas. Em sete anos, a Norte Energia n\u00e3o cumpriu todas as etapas necess\u00e1rias. E at\u00e9 hoje, o Estado brasileiro tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu garantir o direito de retorno.<\/p>\n<p>A dona Joana tamb\u00e9m \u00e9 conselheira do Conselho Ribeirinho. Ela e o seu Lindolfo foram reassentados naquela primeira leva, a das 121 fam\u00edlias definidas pela Norte Energia, quando ainda era a empresa que estava definindo quem tinha o direito de ser considerado beiradeiro. Eles perderam a ilha de Sama\u00fama, que foi afogada, e receberam um ponto na margem do reservat\u00f3rio, numa \u00e1rea que a empresa tinha usado durante a constru\u00e7\u00e3o da cozinha, um p\u00e1tio para m\u00e1quinas.<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Era s\u00f3 o capim e espinho.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o dava para viver como antes. Mas a dona Joana e o seu Lindolfo s\u00e3o plantadores de floresta. Quando eu conversei com eles em fevereiro, sentada na varanda da casa que eles ergueram com as pr\u00f3prias m\u00e3os, eu n\u00e3o via nem sinal de capim ou de espinho. Pelo contr\u00e1rio, a primeira coisa que eu reparei, quando a gente encostou na margem, foi nas muitas \u00e1rvores no entorno da casa.<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A gente n\u00e3o derrubou, a gente s\u00f3 matou o capim na enxada\u2026<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]<\/strong><\/p>\n<p>Arranquei o capim e plantei.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E voc\u00eas plantaram o qu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s plantamos um pouco de cacau, tem mandioca.<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s tem mogno, n\u00f3s tem teca, n\u00f3s ing\u00e1, n\u00f3s tem pequi, p\u00e9 de pequi que n\u00e3o existia mais, tem seringueira, tem muita coisa que a gente plantou.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A\u00ed pequi n\u00f3s plantamos, esses p\u00e9s de pequi quando n\u00f3s chegamos, j\u00e1 estamos colhendo pequi j\u00e1. J\u00e1, esse ano j\u00e1 deu.<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Plantamos seringueira, plantamos um bocado de coisa j\u00e1.<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]<\/strong><\/p>\n<p>Porque sabe, durante 10 anos, se voc\u00ea n\u00e3o mexer muito, as \u00e1rvores crescem, n\u00e9? A gente vai plantando, vai ajeitando.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Essas seringueiras, eles plantaram na esperan\u00e7a de agradar os pacus, que gostam muito do fruto da \u00e1rvore. O problema \u00e9 que desde que o rio virou um reservat\u00f3rio, os pacus sumiram. A dona Joana e o seu Lindolfo plantaram tamb\u00e9m uma nova suma\u00fama, para homenagear a sua antiga ilha. Mas apesar de tudo isso, eles n\u00e3o podem abrir ro\u00e7a pra plantar mandioca, que \u00e9 a base da dieta ribeirinha. \u00c9 que o reassentamento foi feito nas margens do reservat\u00f3rio. E a margem de reservat\u00f3rio \u00e9 a \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental permanente, APP. E por isso, tem v\u00e1rias limita\u00e7\u00f5es de uso. Como, no geral, s\u00e3o \u00e1reas pequenas e protegidas, elas n\u00e3o podem ser desmatadas. Ent\u00e3o, para abrir a ro\u00e7a, \u00e9 preciso ter uma autoriza\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>A Rita foi reassentada com mais 46 fam\u00edlias em 2023, tamb\u00e9m numa \u00e1rea considerada de APP. Ela recebeu um ponto na margem, dentro de uma das por\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio ribeirinho. Ela ergueu uma casa, que pintou de azul celeste, com a porta amarela e detalhes em rosa. No entorno, plantou algumas florzinhas e temperos em vasos. N\u00e3o pode fazer muito mais.<\/p>\n<p>Para resolver esse problema, a proposta do Territ\u00f3rio Ribeirinho inclui \u00e1reas que v\u00e3o ser de uso coletivo para abertura de ro\u00e7a. Acontece que essas \u00e1reas, hoje, s\u00e3o em sua maioria particulares, de produtores rurais. Ou seja, elas precisam ser compradas pela Norte Energia. O que, nos \u00faltimos sete anos, n\u00e3o aconteceu. J\u00e1 tem at\u00e9 os decretos de utilidade p\u00fablica para isso. Mas, nesse caso, as coisas n\u00e3o andam r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Eu perguntei especificamente para Norte Energia porque que, at\u00e9 agora, essas \u00e1reas n\u00e3o foram compradas. A empresa n\u00e3o me respondeu. J\u00e1 o Ibama me diz que tem acompanhado e demandado o cumprimento integral e tempestivo dessas obriga\u00e7\u00f5es. Por meio de documentos e reuni\u00f5es com a Norte Energia e com os demais \u00f3rg\u00e3os envolvidos: \u201ccom o objetivo de garantir a recomposi\u00e7\u00e3o dos modos de vida das fam\u00edlias ribeirinhas e a continuidade do reassentamento\u201d. O Ibama diz tamb\u00e9m que \u201crequer da Norte Energia o cumprimento das etapas previstas para aquisi\u00e7\u00e3o das \u00e1reas lindeiras \u00e0 APP, cuja regulariza\u00e7\u00e3o est\u00e1 em andamento\u201d.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Eu vivo aqui, eu n\u00e3o destruo, porque eu sei que a PP tem que ser preservada. E ela t\u00e1 na nossa Constitui\u00e7\u00e3o Federal, assim tamb\u00e9m como t\u00e1 o meu direito de ribeirinho, de comunidade tradicional, de permanecer no Beirad\u00e3o. N\u00e9? Ent\u00e3o, um erro n\u00e3o justifica o outro. S\u00e3o duas leis.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto isso, a Rita vai sobrevivendo como pode. Se virando. Resistindo. Como a brom\u00e9lia no meio dos paliteiros.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Hoje eu t\u00f4 com o cart\u00e3o l\u00e1 na boca do caixa, vendo se j\u00e1 caiu os 1300 reais. Que ela paga por m\u00eas. Ent\u00e3o, fiquei dependente daquilo. E n\u00e3o \u00e9 isso que o ribeirinho quer. O ribeirinho quer viver, ter sua vida.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Os 1.300 reais que a Rita fala se referem ao pagamento de um benef\u00edcio que a Norte Energia precisa pagar pras fam\u00edlias. Depender desse valor era algo impens\u00e1vel para ela antes da barragem.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, voc\u00ea tinha fartura de peixe, a gente pescava pra vender continuamente. Ent\u00e3o, rapidinho a gente ia encher uma caixa, duas caixas de peixe na rua, vendia e comprava o que n\u00e3o tinha. Ainda guardava dinheiro. Eu guardei dinheiro. Eu tinha dinheiro guardado quando a Norte Energia chegou l\u00e1 na minha porta pra dizer que eu ia sair de l\u00e1. Porque eu pescava e o que sobrava eu tinha uma poupan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Mas como aconteceu na Volta Grande, a transforma\u00e7\u00e3o do rio mudou tudo. Se l\u00e1 \u00e9 \u00e1gua de menos, na regi\u00e3o do territ\u00f3rio ribeirinho \u00e9 \u00e1gua de mais. Com isso, v\u00e1rias esp\u00e9cies de peixe ou diminu\u00edram muito ou desapareceram, como o pacu e o acari, que eles comiam assado nas praias no final de semana. A pesca, base da alimenta\u00e7\u00e3o e da renda, foi totalmente afetada. E at\u00e9 hoje, centenas de pescadores, tanto da Volta Grande quanto da \u00e1rea do reservat\u00f3rio, est\u00e3o lutando para poder receber uma indeniza\u00e7\u00e3o da empresa pela enorme perda que tiveram. E assim como acontece l\u00e1 na Volta Grande, os projetos para mitigar esses impactos e gerar alguma renda pros ribeirinhos ou n\u00e3o saem do papel ou n\u00e3o chegam perto do que as fam\u00edlias tinham antes.<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos nem como plantar cacau, que n\u00f3s n\u00e3o nunca mexemos com isso, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>E n\u00e3o teve assist\u00eancia?<\/p>\n<p><strong>[Joana]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o teve.<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]<\/strong><\/p>\n<p>E agora a gente \u00e9 obrigado a plantar.<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Eles falam que tem assist\u00eancia. Eles chegam aqui: \u201cOi, boa tarde, bom dia, como \u00e9 que t\u00e1 por a\u00ed, t\u00e1 tudo bem, a\u00ed vou embora\u201d. A\u00ed isso \u00e9 assist\u00eancia? Eu n\u00e3o chamo isso a\u00ed n\u00e3o. Eu chamo de visita. Passar, dar tchau e tchau.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente, em abril deste ano, 2025, a Norte Energia informou pro Ibama que, pra ela comprar as \u00e1reas privadas, precisa que sejam realizadas algumas \u201cetapas pr\u00e9vias\u201d, como a defini\u00e7\u00e3o jur\u00eddica do futuro territ\u00f3rio ribeirinho e a elabora\u00e7\u00e3o de um procedimento para confirmar o real interesse de todas as fam\u00edlias pelo projeto. Palavras da empresa.<\/p>\n<p>S\u00e3o dez anos desde que os beiradeiros foram expulsos das ilhas. Dez anos de espera para centenas de fam\u00edlias que s\u00f3 querem voltar pro Xingu e viver o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel de como viviam antes de seus mundos serem transformados \u00e0 for\u00e7a. S\u00f3 que o tempo n\u00e3o espera. O que pode acontecer em dez anos de vida? Em dez anos d\u00e1 tempo de casar, de ter filhos. D\u00e1 tempo de se separar e casar de novo. D\u00e1 tempo de beb\u00eas virarem crian\u00e7as e adolescentes virarem adultos. D\u00e1 tempo de entrar e sair de v\u00e1rios empregos. D\u00e1 tempo de adoecer, envelhecer, morrer.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O que eu acho mais grave em toda essa expuls\u00e3o do ribeirinho com toda a sua tradicionalidade do beirad\u00e3o s\u00e3o essas crian\u00e7as. Tem crian\u00e7a com oito anos, nove anos, que nasceu em Altamira, que foi retirada do beirad\u00e3o. Ser\u00e1 que quando o pai dela voltar vai ser reassentado, essa crian\u00e7a vai ser? Foi um rompimento de la\u00e7os, porque era pra aquela crian\u00e7a nascer no beirad\u00e3o. Ent\u00e3o ela j\u00e1 nasceu na cidade. E o pai doido querendo voltar pro beirad\u00e3o, porque ele \u00e9 de l\u00e1. E a\u00ed quando ele vier, ser\u00e1 que o menino j\u00e1 t\u00e1 acostumado \u00e0 internet? Vai, ele n\u00e3o tem mais o v\u00ednculo. Foi uma extin\u00e7\u00e3o da nossa tradicionalidade. Isso t\u00e1 acontecendo. Isso pra mim \u00e9 o mais grave poss\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 ainda mais grave se a gente parar para pensar que o discurso da empresa e do Estado era bem diferente. A conversa era de que Belo Monte ia trazer desenvolvimento, que ia melhorar a vida.<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, falaram que iam construir a barragem, ia ter uma mudan\u00e7a, mas a vida da gente ia melhorar mais do que a gente j\u00e1 vivia antes.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Falaram que ia melhorar?<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Era.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Mas disseram que ia melhorar como?<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O empreendimento ia dar suporte pra gente melhorar de vida, n\u00e9? Ia ser melhor, ia ter muitas coisas que eles s\u00f3 vinham informar a parte boa. A parte ruim eles nunca falaram pra ningu\u00e9m que ia acontecer.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Mas eles explicaram que ia acontecer isso? Que as ilhas iam sumir?<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Que ia virar esse lago?<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nada disso. Falaram que ia encher, n\u00e9? Falaram que ia encher. Mas a gente morava aqui. Nasceu esse clima aqui. A gente nunca pensou que esse rio ia ficar desse jeito.<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Mudou muito. A situa\u00e7\u00e3o mudou demais mesmo. Nossas vidas aqui da beira do rio mudou. Eu n\u00e3o acho que melhorou nada. Porque a nossa casa era de palha assim. Eu adoro minha casinha aqui de\u2026<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 lindo esse telhado!<\/p>\n<p><strong>[Joana]<\/strong><\/p>\n<p>\u2026de palha.<\/p>\n<p><strong>[Lindolfo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A nossa casa l\u00e1 era assim<\/p>\n<p><strong>[Joana]<\/strong><\/p>\n<p>A nossa casa a vida toda foi de palha, fechadinha, ent\u00e3o eu n\u00e3o acho, porque de tauba, de telha. Agora eles falaram assim, que a gente ia ter outra vida, n\u00e9, uma vida melhor do que antes, mas t\u00e1 sendo pior. Porque a vida de antes ela era muito mais boa do que hoje.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Para mim era, porque Deus o livre, para mim antigamente era muito melhor do que hoje n\u00f3s t\u00e1 aqui, porque n\u00f3s est\u00e1vamos no que era nosso. Ningu\u00e9m perturbava a gente. N\u00f3s t\u00ednhamos o peixe, com\u00edamos o peixe que a gente queria.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Podia escolher, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Joana]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Podia escolher.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Naqueles dias, conversando com os beiradeiros, eu toda vez ficava impressionada com o jeito que eles falavam dessa vida de antes. De antes da usina. Um passado recente, mas que hoje parece muito distante. Todo mundo ficava com os olhos brilhando quando falavam do Xingu. A voz carregada de saudade. Mas a saudade tem dessas, n\u00e9? Faz muitas vezes as coisas parecerem melhores do que realmente eram. Queria entender se era esse o caso. E perguntei pra Rita quais eram as dificuldades e os problemas que eles tinham antes. Nunca vou esquecer essa resposta:<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Bom, eu n\u00e3o consigo descrever um problema pra ti. De quando antes da barragem. Porque eu comia o peixe que eu queria. Eu pescava o peixe que eu queria. Eu ia pra Altamira se eu quisesse passar dois meses, tr\u00eas meses, quatro meses l\u00e1. Eu passava. Ningu\u00e9m estava indo l\u00e1 dizer: \u201c\u00f3h, a Rita n\u00e3o t\u00e1 na casa dela. T\u00e1 abandonado l\u00e1\u201d. Se eu precisasse no caso. Entendeu? N\u00e3o tinha ningu\u00e9m me vigiando. Entendeu? N\u00f3s viv\u00edamos. N\u00f3s t\u00ednhamos a nossa vida.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Pro Territ\u00f3rio Ribeirinho sair do papel, todas as fam\u00edlias precisam que as \u00e1reas coletivas sejam compradas pela empresa e disponibilizadas para que eles possam abrir ro\u00e7a. E pelo menos 155 fam\u00edlias ainda precisam ser reassentadas nas margens do Xingu.<\/p>\n<p><strong>[Rita]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A gente luta mesmo. Com as unhas e dente pra ver se as coisas melhoram. E a\u00ed, \u00e9 por isso que a gente n\u00e3o consegue entender. Eu acho que a gente j\u00e1 fez tanto. O projeto, ele t\u00e1 prontinho. Ele n\u00e3o precisa mais de nada. S\u00f3 precisa ser executado.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Tanto o Conselho Ribeirinho, quanto o Territ\u00f3rio Ribeirinho s\u00e3o inova\u00e7\u00f5es. Pra mim, eles mostram como \u00e9 sim poss\u00edvel ter um processo participativo, representativo, feito de baixo pra cima. Para que os pr\u00f3prios impactados decidam como querem e devem ser reparados. \u00c9 uma alternativa ao modelo vigente, em que algu\u00e9m l\u00e1 longe, em Bras\u00edlia ou em S\u00e3o Paulo, formula uma pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o ou projeto de compensa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que sem ouvir as reivindica\u00e7\u00f5es dos atingidos.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um projeto maravilhoso, porque seria uma forma de exemplo pras outras barragens. Quando eles fossem fazer, j\u00e1 poderia fazer da mesma forma. J\u00e1 n\u00e3o fazer como eles fizeram com as pessoas aqui. Que nem eles fazem. A barragem faz isso, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Faz isso: afoga mundos. Expulsa as pessoas de onde elas viviam e n\u00e3o deixa elas voltarem. Mas n\u00e3o d\u00e1 pra ser pelo menos um pouco diferente?<\/p>\n<p>No pr\u00f3ximo epis\u00f3dio, o \u00faltimo dessa s\u00e9rie, a gente vai continuar na trilha dessa pergunta: n\u00e3o dava pra ser diferente? Belo Monte fez sentido? Te espero l\u00e1.<\/p>\n<p>Xingu em Disputa \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o original da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Para fazer essa s\u00e9rie, eu li centenas de p\u00e1ginas de documentos oficiais e entrevistei mais de 25 pessoas. Algumas que voc\u00ea ouviu aqui. Deixo meu agradecimento a todas elas.<\/p>\n<p>Esse podcast foi produzido e escrito por mim, Isabel Seta, que viajei \u00e0 Altamira com apoio do Instituto Socioambiental. A edi\u00e7\u00e3o dos roteiros \u00e9 da Giovana Girardi, com colabora\u00e7\u00e3o da Cl\u00e1udia Jardim. Sofia Amaral faz a dire\u00e7\u00e3o da locu\u00e7\u00e3o e a coordena\u00e7\u00e3o geral da s\u00e9rie. A pesquisa de arquivos \u00e9 da Rafaela de Oliveira, da Stela Diogo e minha. A locu\u00e7\u00e3o foi gravada no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica, com trabalhos t\u00e9cnicos da Stela Diogo e do Ricardo Terto. O design de som, edi\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o do Pedro Pastoriz, com trilhas sonoras do Epidemic Sound. A identidade visual \u00e9 do Matheus Pigozzi. A equipe de divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por Marina Dias, Lorena Morgana, Renata Cons, Leticia Gouveia, Ethieny Karen, Ester Nascimento, Edgar Chulve e Vanice Christine. Os sons de ambiente gravados em Altamira s\u00e3o do Instituto Socioambiental e foram captados pela fot\u00f3grafa Jennifer Bandeira. Raimundo da Cruz e Silva gentilmente cedeu \u00e1udios gravados na sua comunidade no Xingu. Muito obrigada por acompanhar a gente at\u00e9 aqui. At\u00e9 o pr\u00f3ximo epis\u00f3dio.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/impeachment-de-alexandre-de-moraes-no-contexto-do-banco-master-o-que-a-imprensa-esta-dizendo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Impeachment de Alexandre de Moraes no contexto do ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/morre-raimundo-pereira-o-maior-dos-jornalistas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Morre Raimundo Pereira, o maior dos jornalistas<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sou-macho-alfa-provedor-voce-femea-beta-submissa-escreveu-tenente-coronel-dias-antes-de-matar-esposa-pm\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">\u201cSou macho alfa provedor; 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