{"id":47688,"date":"2025-08-27T06:00:00","date_gmt":"2025-08-27T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/o-futuro-nao-e-garantido\/"},"modified":"2025-08-27T06:00:00","modified_gmt":"2025-08-27T09:00:00","slug":"o-futuro-nao-e-garantido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-futuro-nao-e-garantido\/","title":{"rendered":"O futuro n\u00e3o \u00e9 garantido"},"content":{"rendered":"<p>Obra car\u00edssima e gigantesca, a usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte trouxe uma s\u00e9rie de consequ\u00eancias para a regi\u00e3o de Altamira, no Par\u00e1. O ciclo do rio foi alterado, afetando flora e fauna e impactando diretamente a vida de povos ind\u00edgenas e ribeirinhos. Quase dez anos depois de as \u00e1guas come\u00e7arem a ser desviadas para a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, eles ainda sofrem esses impactos e temem pelo\u00a0futuro de suas fam\u00edlias.\u00a0<\/p>\n<p>Tudo isso para qu\u00ea? O Brasil precisava de Belo Monte? E hoje a hidrel\u00e9trica faz sentido? S\u00e3o perguntas fundamentais no momento em que o Ibama est\u00e1 analisando se vai conceder a renova\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica, h\u00e1 anos vencida. No centro dessa an\u00e1lise, est\u00e3o as duas quest\u00f5es tratadas nesta s\u00e9rie: a quantidade de \u00e1gua para a Volta Grande do Xingu e o direito de retorno dos ribeirinhos para as margens do rio. O futuro de ambas tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 garantido.\u00a0<\/p>\n<h2><strong>Leia abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra:<\/strong><\/h2>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 ir para Altamira, eu n\u00e3o tinha ideia do que uma hidrel\u00e9trica faz com um rio. Quer dizer, eu sabia na teoria sobre os impactos sociais, os impactos ambientais. Sabia que alaga terras, expulsa pessoas, altera o fluxo das \u00e1guas, afeta a vida aqu\u00e1tica. Mas eu nunca tinha parado pra pensar o que realmente acontece com o rio. O que ele perde. Foi s\u00f3 ouvindo duas mulheres que eu comecei a ter alguma dimens\u00e3o disso.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 pensou o poder de uma pessoa controlar um rio, dizer: \u201cHoje eu encho ele, amanh\u00e3 eu vaso ele\u201d, gente, \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>A natureza, ela t\u00e1 presa. Ela foi presa.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Essas s\u00e3o as vozes da Rita e da Sara. Duas mulheres que t\u00eam muito em comum. As duas s\u00e3o m\u00e3es, pescadoras e beiradeiras. Nascidas e criadas na beira do rio Xingu. As duas tamb\u00e9m est\u00e3o entre os muitos impactados pela usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte. E tamb\u00e9m est\u00e3o, as duas, determinadas a proteger o Xingu. E a tentar recuperar as vidas que elas levavam antes da instala\u00e7\u00e3o da usina.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Mas s\u00f3 que tem gente que n\u00e3o desiste, tem gente que quer viver.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Eles podem estar usando, sim, as \u00e1guas do rio Xingu. Mas o povo t\u00e1 lutando para que eles n\u00e3o matem o rio. N\u00f3s estamos lutando para isso.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Eu sou a Isabel Seta e esse \u00e9 o quarto e \u00faltimo epis\u00f3dio de Xingu em Disputa, um podcast da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Nessa s\u00e9rie, a gente conta a hist\u00f3ria da transforma\u00e7\u00e3o for\u00e7ada do Xingu e das consequ\u00eancias que a usina hidrel\u00e9trica de Belo Monte, uma das maiores do mundo, trouxe para o rio e para os seus habitantes. Uma hist\u00f3ria em andamento, que ainda est\u00e1 longe de acabar.<\/p>\n<p>A Rita e a Sara, que conduziram a gente pelos tr\u00eas primeiros epis\u00f3dios, fazem parte dessa hist\u00f3ria, uma de cada lado da barragem que dividiu o Xingu. Barragem acima, a Rita teve a sua ilha afogada. E hoje vive na margem da parte do rio que virou um lago para alimentar a hidrel\u00e9trica. Ela \u00e9 uma das pessoas que trabalhou na cria\u00e7\u00e3o de uma proposta inovadora para que os beiradeiros expulsos pela usina possam voltar para perto do rio, o Territ\u00f3rio Ribeirinho. Tema do nosso terceiro epis\u00f3dio.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>Existe um projeto aprovado pelo \u00f3rg\u00e3o licenciador, pela Norte Energia, por todos os \u00f3rg\u00e3os que t\u00e1 l\u00e1 e n\u00e3o sai.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Barragem abaixo, a Sara viu o nome da sua comunidade ser apropriado pela usina que hoje desvia as \u00e1guas da regi\u00e3o em que ela mora. Ela faz parte de um grupo de beiradeiros ind\u00edgenas que organizaram uma iniciativa in\u00e9dita para monitorar os impactos que a falta da \u00e1gua est\u00e1 trazendo para a volta grande do Xingu, o MATI, que a gente falou no epis\u00f3dio 2.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o a gente falou, se a gente \u00e9 um povo, se o Xingu \u00e9 um s\u00f3, vamos nos unir em prol da vida do Xingu.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 aqui a gente ouviu elas contarem sobre o que Belo Monte, a usina, fez com o Xingu. Sobre o que aconteceu quando o rio, fonte de vida, virou rio, fonte de energia. Ent\u00e3o, se voc\u00ea est\u00e1 chegando nesse podcast s\u00f3 agora, eu recomendo que voc\u00ea volte l\u00e1 no in\u00edcio para tudo fazer mais sentido. Porque agora a gente vai discutir o outro lado dessa hist\u00f3ria, na tentativa de responder algumas perguntas. Primeiro, para que tudo isso? O Brasil precisava de Belo Monte? E se precisava, precisava tamb\u00e9m causar todo o impacto que a gente mostrou aqui? N\u00e3o dava para ser diferente? E hoje, Belo Monte faz sentido?<\/p>\n<p>Epis\u00f3dio 4: O futuro n\u00e3o \u00e9 garantido.<\/p>\n<p><strong>[Valeriano]<\/strong><\/p>\n<p>Gente, \u00e9, pra voc\u00eas poderem saber se acabou tem que ficar \u00e9 junto com pescador. N\u00e3o existe mais de voc\u00ea dizer assim vou botar um gelo na canoa, com meus filhos, pra ir pescar pra n\u00f3s se manter com a produ\u00e7\u00e3o desse peixe que n\u00f3s vamos pegar, n\u00e3o existe mais isso, ningu\u00e9m num conta mais com isso mais n\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o seu Valeriano, o pai da Sara.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Valeriano]<\/strong><\/p>\n<p>Depois dessa barragem todo ano que se passa que n\u00f3s fica, eu mais esses meninos direto nesse rio, todos os anos \u00e9 perda de tudo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O seu Valeriano vive em Volta Grande h\u00e1 quase 5 d\u00e9cadas. Quando conheci ele l\u00e1 na ilha Pacu de Seringa, ele falou uma frase que ficou comigo. Meu gravador estava desligado, bem nessa hora. Mas eu anotei. Ele estava falando sobre o tempo antes da hidrel\u00e9trica, quando pescava centenas de quilos de peixes, toda semana, com os filhos. E ele me disse: \u201cantes, o futuro tava garantido\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Pra mim, uma das coisas mais dif\u00edceis da crise clim\u00e1tica \u00e9 essa perspectiva de que a gente t\u00e1 caminhando r\u00e1pido para um mundo em que o futuro n\u00e3o vai ser algo certo, algo garantido. Com o seu Valeriano, eu entendi que, no Xingu, ele j\u00e1 tinha deixado de ser faz tempo. O que me faz voltar pra pergunta que fiz: e pra que? Em nome de que estamos sacrificando o futuro do seu Valeriano, da Sara, da Rita, dos outros beiradeiros e ind\u00edgenas que vivem do Xingu \u2013 sem falar no futuro de toda a biodiversidade da Volta Grande?<\/p>\n<p>Em dezembro de 2012, naquela correria de final de ano, 18 meses depois de ter conseguido a licen\u00e7a de instala\u00e7\u00e3o, a Norte Energia tinha acabado de instalar uma barragem provis\u00f3ria, que desviava a \u00e1gua do Xingu. Era o primeiro passo para viabilizar a constru\u00e7\u00e3o da barragem e da casa de for\u00e7a Pimental que, alguns anos depois, barraria o Xingu de vez.\u00a0<\/p>\n<p>A mais de 2 mil quil\u00f4metros dali, no Rio de Janeiro, a cidade acabava de bater recorde de temperatura, 43,2\u00baC, era a mais alta, at\u00e9 ent\u00e3o, desde o in\u00edcio dos registros, em 1915. Em alguns lugares, o calor\u00e3o estava ainda pior.<\/p>\n<p><strong>[Arquivo TV]<\/strong><\/p>\n<p>Um problema na refrigera\u00e7\u00e3o do aeroporto Santos Dumont, no rio, fez muitos passageiros sofrerem hoje. Desde o in\u00edcio do m\u00eas, o sistema de ar condicionado do aeroporto apresenta problemas, mas hoje ele parou de vez em todos os terminais. Muitos passageiros reclamaram.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Entre esses passageiros estava uma atriz famosa da Globo. Ela estava esperando no embarque quando lan\u00e7ou um: \u201cViva Belo Monte\u201d. E continuou: \u201cEssa \u00e9 a prova de que precisamos de uma nova estrutura em energia. Do jeito que t\u00e1, n\u00e3o est\u00e1 dando. Os grandes eventos est\u00e3o a\u00ed, n\u00e3o podemos pagar mico\u201d. A atriz empolgada com Belo Monte e preocupada com o Brasil n\u00e3o pagar um mico nos grandes eventos \u2013 a Copa do Mundo e as Olimp\u00edadas \u2013 era a Regina Duarte, anos antes de ela descambar oficialmente pro bolsonarismo.<\/p>\n<p>A oferta de energia do pa\u00eds n\u00e3o tinha nenhuma rela\u00e7\u00e3o com a falha pontual no sistema de ar condicionado do aeroporto. Mas essa fala da Regina Duarte, que o jornal Folha de S. Paulo noticiou na \u00e9poca, ilustra bem como a hidrel\u00e9trica vinha sendo promovida e, em parte, percebida por uma parcela da popula\u00e7\u00e3o: como fundamental para gerar a energia el\u00e9trica necess\u00e1ria para o crescimento e para o desenvolvimento do Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>Esse argumento vinha sendo repetido h\u00e1 anos \u2013 e por v\u00e1rias vozes diferentes.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s estamos, efetivamente ampliando, a capacidade energ\u00e9tica do Brasil. Energia n\u00e3o se faz de repente. N\u00e3o \u00e9 por causa da crise atual que essas obras est\u00e3o sendo feitas. Vamos continuar investindo, e fortemente, na hidreletricidade.\u201d Esse \u00e9 um trecho de um discurso do ent\u00e3o presidente Fernando Henrique Cardoso. Era 2001 e o governo estava enfrentando a crise dos apag\u00f5es, que obrigou o presidente a decretar um racionamento pesado de energia no pa\u00eds. Todo mundo queria saber o que ia ser da luz no Brasil. E o FHC foi pra S\u00e3o Paulo inaugurar uma turbina de hidrel\u00e9trica. E a\u00ed ele mandou essa: \u201cDentro de pouco tempo, vamos anunciar Belo Monte, que \u00e9 uma usina equivalente a Itaipu e que vai ser feita com capitais brasileiros, tecnologia brasileira, apoio do governo brasileiro para o bem do nosso pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Sim, depois de toda a mobiliza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e dos movimentos sociais de Altamira terem conseguido enterrar os planos de uma usina no Xingu, l\u00e1 no in\u00edcio da redemocratiza\u00e7\u00e3o, Belo Monte agora estava de volta \u00e0 mesa com o argumento de que ela era necess\u00e1ria para garantir a seguran\u00e7a energ\u00e9tica do pa\u00eds. E nove anos depois, o presidente que de fato tirou ela do papel, tamb\u00e9m veio com o mesmo papo.<\/p>\n<p><strong>[Lula \u2013 Arquivo de TV]<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 crescendo forte e vai crescer ainda mais. Precisa e precisar\u00e1 cada vez mais de energia limpa, barata e segura. Raz\u00e3o pela qual n\u00f3s temos a responsabilidade de fazer Belo Monte.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 em 2014, uma nova seca come\u00e7ou a impactar parte dos reservat\u00f3rios do pa\u00eds, e o fantasma do apag\u00e3o voltou a assombrar a ent\u00e3o presidente Dilma Rousseff. Ela j\u00e1 estava em campanha eleitoral quando foi visitar o canteiro de obras de Belo Monte.<\/p>\n<p><strong>[Arquivo de TV]<\/strong><\/p>\n<p>A candidata \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o pelo PT cumprimentou funcion\u00e1rios e conversou com jornalistas. Dilma defendeu a constru\u00e7\u00e3o de hidrel\u00e9tricas para a gera\u00e7\u00e3o de energia. E disse que, nesse momento, o Brasil n\u00e3o corre o risco de desabastecimento.<\/p>\n<p><strong>[Dilma \u2013 Arquivo de TV]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o houve racionamento durante a Copa e nem vai haver racionamento depois da Copa. Porque n\u00f3s vivemos numa situa\u00e7\u00e3o em que investimos muito, tanto, pra se ter uma ideia, tanto em transmiss\u00e3o quanto em gera\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A ideia, repetida pelos tr\u00eas presidentes, sempre foi essa: o Brasil precisava de uma usina imensa como Belo Monte. Era responsabilidade do governo fazer a hidrel\u00e9trica. Mas desde o in\u00edcio se sabia que ela n\u00e3o ia chegar perto dessa grandiosidade \u2013 por desenho do projeto mesmo. Ouve s\u00f3 essa reportagem da TV Brasil, de 2016:\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Arquivo de TV]<\/strong><\/p>\n<p>A usina de Belo Monte no Par\u00e1 entrou em opera\u00e7\u00e3o hoje e a presidenta Dilma Rousseff participou em Altamira da cerim\u00f4nia. A previs\u00e3o \u00e9 que a usina forne\u00e7a energia el\u00e9trica para 60 milh\u00f5es de pessoas em 17 estados do Brasil.<\/p>\n<p>Localizada no Rio Xingu no centro do Par\u00e1 est\u00e1 sendo projetada para produzir at\u00e9 11.233 MW de energia, mas como o funcionamento da usina depende do regime de chuvas e da vaz\u00e3o do rio, a expectativa \u00e9 de uma produ\u00e7\u00e3o m\u00e9dia fixa de 4.571 MW de energia.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Esses 4.500 MW s\u00e3o o que nos termos t\u00e9cnicos eles chamam de a energia firme de Belo Monte, ou seja, o quanto, em tese, ela ia produzir na m\u00e9dia. \u00c9 menos da metade da pot\u00eancia instalada total.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Uma energia onde s\u00f3 funciona seis meses. Os outros seis meses? A\u00ed faz o poss\u00edvel para desviar mais \u00e1gua. Onde vai gerar uma, duas turbinas. Para qu\u00ea que fizeram isso?\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Aqui \u00e9 a Sara de novo, e ela tem um ponto: a sazonalidade do Xingu. Lembra? Belo Monte n\u00e3o tem um grande reservat\u00f3rio de acumula\u00e7\u00e3o. Depende, ent\u00e3o, da vaz\u00e3o do rio. Mas essa vaz\u00e3o diminui muito no ver\u00e3o. Muito mesmo \u2013 quase 40 vezes. O que diminui, tamb\u00e9m, a gera\u00e7\u00e3o de energia.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 pra dar dimens\u00e3o dessa diferen\u00e7a, se a gente pegar 2024, nos primeiros seis meses Belo Monte gerou, na m\u00e9dia, por volta de 4 mil megawatts. J\u00e1 no segundo semestre foram, na m\u00e9dia, 500. Pra que construir uma usina com pot\u00eancia de 11 mil se ela ia gerar 4 mil megawatts e isso s\u00f3 em alguns meses do ano? Foi com essa pergunta na cabe\u00e7a que eu fui falar com o C\u00e9lio Bermann.\u00a0<\/p>\n<p>O C\u00e9lio \u00e9 um grande especialista na \u00e1rea de energia. Ele \u00e9 professor na Universidade de S\u00e3o Paulo, doutor em planejamento de sistemas energ\u00e9ticos e autor de v\u00e1rios livros. Ele participou do primeiro governo Lula, como assessor, justo da Dilma, que era ministra de Minas e Energia, entre 2003 e 2004. Depois, j\u00e1 fora do governo, ele foi um dos cientistas que se debru\u00e7ou sobre os planos de Belo Monte e os impactos que a usina iria trazer. Eu queria saber do C\u00e9lio se era normal no Brasil as usinas terem uma pot\u00eancia instalada t\u00e3o maior do que sua real capacidade de gera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, como Belo Monte. A resposta? N\u00e3o. N\u00e3o era normal.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[C\u00e9lio Bermann]<\/strong><\/p>\n<p>Na \u00e9poca em que o governo Lula discutia a viabilidade dessa usina, eu tive a oportunidade de, convidado pelo bispo de Altamira, Dom Erwin Krautler, ele organizou uma comitiva junto com lideran\u00e7as ind\u00edgenas e lideran\u00e7as das popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas atingidas ou potencialmente atingidas pela obra.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o C\u00e9lio. E ele est\u00e1 falando de uma audi\u00eancia com o presidente Lula, que aconteceu em 2009, antes do leil\u00e3o de concess\u00e3o da hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p><strong>[C\u00e9lio Bermann]<\/strong><\/p>\n<p>E eu fui participar dessa reuni\u00e3o com o presidente Lula, em que estavam tamb\u00e9m presentes toda a dire\u00e7\u00e3o da Eletronorte, e da empresa de pesquisa energ\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Na \u00e9poca, ainda era a Eletronorte que capitaneava o projeto de Belo Monte.<\/p>\n<p><strong>[C\u00e9lio Bermann]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, foi bastante sintom\u00e1tico, porque n\u00f3s sentamos numa sala em que as mesas estavam dispostas de um lado o bispo de Altamira, junto com as lideran\u00e7as ind\u00edgenas e junto com as lideran\u00e7as das comunidades ribeirinhas, e do outro lado, todo o aparato tecnol\u00f3gico e interessado em, atrav\u00e9s da dire\u00e7\u00e3o da empresa de pesquisa energ\u00e9tica, de diretores da Eletronorte, interessados em viabilizar a usina. Eu tive a oportunidade de, durante n\u00e3o mais que cinco minutos, de fazer uma exposi\u00e7\u00e3o mostrando ao presidente Lula que seria um erro a constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte, porque o pre\u00e7o da eletricidade que tinha sido definido no leil\u00e3o n\u00e3o iria cobrir o investimento. A taxa de retorno seria negativa.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Taxa de retorno negativa. Ou seja: a usina ia dar preju\u00edzo. E nessa apresenta\u00e7\u00e3o, o C\u00e9lio disse mais: que, se fosse pra construir mesmo Belo Monte, que ela n\u00e3o fosse t\u00e3o imensa, que ela n\u00e3o tivesse tanta pot\u00eancia, que ela n\u00e3o fosse\u2026<\/p>\n<p><strong>[C\u00e9lio Bermann]<\/strong><\/p>\n<p>E que ela n\u00e3o seja maior que 4.200 MW, \u00e9 porque era justamente a pot\u00eancia que ela poderia ter para poder ser \u00fatil durante todo o ano. Ah, n\u00e3o, mas tem 15 mil m\u00b3 em janeiro e fevereiro, ent\u00e3o n\u00f3s precisamos aproveitar, mas e o resto do tempo?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Basicamente, ele tava sugerindo que ningu\u00e9m ali tivesse o olho maior que a boca. Se a m\u00e9dia de gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse mais que 4 mil megawatts, por que fazer um trambolh\u00e3o daquele tamanho e com tanto impacto? N\u00e3o adiantava mirar nos tais 15 mil m\u00b3, que era a vaz\u00e3o do Xingu quando ele ainda era um rio livre. Quando, realmente, era muita \u00e1gua que corria com muita for\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[C\u00e9lio Bermann]<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo assim, mesmo assim, Belo Monte foi para frente. O resultado \u00e9 que a gente tem hoje uma usina que traz problemas, n\u00e9? Inclusive, do ponto de vista econ\u00f4mico-financeiro, para a Norte Energia, que \u00e9 a empresa que administra a usina.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Eu fui procurar os relat\u00f3rios financeiros da Norte Energia, os relat\u00f3rios em que ela presta contas aos seus investidores. E a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a seguinte: desde 2010, a empresa s\u00f3 teve lucro em 3 anos \u2013 2017, 2018 e 2019. Todos os outros anos foram de preju\u00edzo. Em 2024, o preju\u00edzo foi de mais de 1 bilh\u00e3o de reais. \u00c9 que ainda tem ainda outro problema \u2013 tamb\u00e9m bastante conhecido h\u00e1 d\u00e9cadas. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Em 2015, quando a \u00e1gua da Volta Grande come\u00e7ou a ser desviada, um grande estudo encomendado pelo governo Dilma j\u00e1 mostrava que, com o agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, as secas iam ficar mais frequentes e mais intensas, reduzindo a vaz\u00e3o dos rios amaz\u00f4nicos at\u00e9 2040, a ponto de amea\u00e7ar a gera\u00e7\u00e3o de energia por hidrel\u00e9tricas na regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Os pesquisadores fizeram uma an\u00e1lise espec\u00edfica pro Xingu e a previs\u00e3o era de que a gera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, os tais 4 mil MW, poderia ser reduzida para metade. O estudo fazia proje\u00e7\u00f5es para 2040, mas a crise clim\u00e1tica j\u00e1 chegou e a realidade j\u00e1 est\u00e1 se mostrando t\u00e3o ruim quanto a previs\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[C\u00e9lio Bermann]<\/strong><\/p>\n<p>A aus\u00eancia de chuvas \u00e9 cada vez mais significativa. Ent\u00e3o, essas mudan\u00e7as elas est\u00e3o interferindo na produ\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica do Brasil, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do Brasil no mundo tamb\u00e9m. Essa ocorr\u00eancia de altera\u00e7\u00e3o no regime hidrol\u00f3gico faz com que pa\u00edses onde as usinas hidrel\u00e9tricas t\u00eam uma presen\u00e7a significativa, como o Brasil, mas tamb\u00e9m a Noruega, o Canad\u00e1, faz com que a depend\u00eancia hidrel\u00e9trica se torne cada vez mais uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a energ\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico de Belo Monte, entre 2020 e 2024, a hidrel\u00e9trica gerou, na m\u00e9dia anual, praticamente s\u00f3 um ter\u00e7o da pot\u00eancia instalada total. V\u00e1rios desses anos, \u00e9 importante lembrar, foram de secas recordes. Tanto \u00e9 que teve m\u00eas em 2021 que a opera\u00e7\u00e3o chegou assim no fundo do po\u00e7o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Arquivo de TV]<\/strong><\/p>\n<p>Em plena crise de falta de energia el\u00e9trica, por que s\u00f3 uma das 18 turbinas de belo monte est\u00e1 funcionando de verdade?<\/p>\n<p>Belo Monte, no Par\u00e1, foi constru\u00edda para contribuir com 12% do consumo nacional de energia el\u00e9trica, mas hoje n\u00e3o cobre nem 1% do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, s\u00f3 pra recapitular, at\u00e9 aqui a gente tem: uma hidrel\u00e9trica projetada para n\u00e3o chegar, na m\u00e9dia, nem na metade da sua pot\u00eancia total, que, desde o in\u00edcio, podia n\u00e3o remunerar o investimento feito e pra completar, que ia ter sua opera\u00e7\u00e3o ainda mais amea\u00e7ada com o agravamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Tudo isso a um custo de 60 bilh\u00f5es de reais em valores atualizados \u2013 a maior parte de dinheiro p\u00fablico. E com impactos sociais e ambientais grav\u00edssimos em um lugar de biodiversidade e riqueza cultural \u00fanicas.<\/p>\n<p><strong>[Sara]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Estudo? Ser\u00e1 que eles fizeram estudo? Porque se fizeram estudo, eles n\u00e3o tinham constru\u00eddo ela, n\u00e3o. Se eles tivessem ido com o beiradeiro, com o ind\u00edgena, com o pescador que est\u00e1 o dia todo no rio, que sabe, que se conecta, ele ia falar, n\u00e3o vai dar certo. \u00c9 um tiro no p\u00e9.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>C\u00e9lio Bermann n\u00e3o tem d\u00favida que foi um erro gigantesco:<\/p>\n<p><strong>[C\u00e9lio Bermann]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, talvez seja um dos piores projetos de usinas hidrel\u00e9tricas que a gente pode considerar constru\u00eddos aqui no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>E de novo: pra que? Essa pergunta, que me perseguiu o tempo todo durante a produ\u00e7\u00e3o desse podcast, tamb\u00e9m assombrou mais gente.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Fel\u00edcio Pontes]<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o era para gera\u00e7\u00e3o de energia, eles n\u00e3o conseguiam contestar os dados que n\u00f3s traz\u00edamos das universidades brasileiras, das universidades estrangeiras, dizendo que a gera\u00e7\u00e3o de energia n\u00e3o seria de 11 mil MW, que ela n\u00e3o seria, ela n\u00e3o seria a terceira maior hidrel\u00e9trica do mundo, a segunda maior do Brasil, a primeira do Brasil, genuinamente nacional, aqueles dados estavam falsos, n\u00e3o iria gerar aquilo de energia.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o procurador da Rep\u00fablica, Fel\u00edcio Pontes, que voc\u00ea j\u00e1 ouviu no primeiro epis\u00f3dio. O Fel\u00edcio \u00e9 paraense e autor de muitas das primeiras a\u00e7\u00f5es judiciais contra a hidrel\u00e9trica. E ele tamb\u00e9m tentou entender: por que?\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Fel\u00edcio Pontes]<\/strong><\/p>\n<p>E n\u00f3s v\u00edamos pela rea\u00e7\u00e3o a essas a\u00e7\u00f5es na justi\u00e7a e tamb\u00e9m pelos argumentos falhos e mentirosos que vinham com muita \u00eanfase do outro lado, que n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos quais os interesses n\u00f3s est\u00e1vamos contrariando com aquela que era a obra mais cara do Brasil deste s\u00e9culo. E a\u00ed n\u00f3s nos pergunt\u00e1vamos, sabe, Isabel, naquele tempo, entre n\u00f3s, os procuradores da Rep\u00fablica e a assessoria, nas reuni\u00f5es que n\u00f3s faz\u00edamos constantemente sobre o caso, pergunt\u00e1vamos: Que interesses n\u00f3s estamos contrariando, j\u00e1 que n\u00f3s temos t\u00e3o claros, as evid\u00eancias est\u00e3o t\u00e3o flagrantes de que essa hidrel\u00e9trica n\u00e3o vai gerar essa energia, que vai ser um preju\u00edzo para o Brasil. O que a gente est\u00e1 contrariando?\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A resposta levou anos pra aparecer.<\/p>\n<p><strong>[Fel\u00edcio Pontes]<\/strong><\/p>\n<p>E eu acho que isso, ao longo dessas a\u00e7\u00f5es judiciais, ao longo do trabalho que ainda continua conosco, a gente j\u00e1 pode ter uma ideia disso, n\u00e9? A pr\u00f3pria Lava Jato mostrou bem a que servia Belo Monte. Mostrou que tinha, \u00e9 claro que tinha corrup\u00e7\u00e3o naquele meio, n\u00e9? E era isso que pautava a constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Nas investiga\u00e7\u00f5es da Lava Jato, os executivos da Andrade Gutierrez disseram, em suas dela\u00e7\u00f5es premiadas, que as construtoras tinham combinado o pagamento de 1% do valor da obra em propina para o PT e para o PMDB, hoje MDB. A empresa fechou um acordo de leni\u00eancia, em 2016, e se comprometeu a devolver 1 bilh\u00e3o e a fazer um pedido p\u00fablico de desculpas ao povo brasileiro. A Andrade Gutierrez, junto com a Odebrecht e a Camargo Corr\u00eaa, formavam o cons\u00f3rcio construtor da hidrel\u00e9trica. Sim, teve isso: um cons\u00f3rcio construtor formado por essas grandes empreiteiras e, depois, um cons\u00f3rcio para operar a Norte Energia.\u00a0<\/p>\n<p>Os delatores da Odebrecht, por sua vez, implicaram o ex-senador Edison Lob\u00e3o, do PMDB, que foi ministro de Minas e Energia entre 2011 e 2015. O que os delatores disseram \u00e9 que ele, supostamente, teria recebido quase 3 milh\u00f5es de reais, uma parte do valor do contrato da constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte. Ele se tornou r\u00e9u em 2019, mas foi absolvido em 2024, depois que o Supremo Tribunal Federal declarou a nulidade das provas obtidas no acordo de leni\u00eancia da Odebrecht. De l\u00e1 pra c\u00e1, a Lava Jato, em grande parte, desmoronou sem que a gente tenha chegado ao fundo dessa resposta. Mas pro Fel\u00edcio, ela se insere numa din\u00e2mica maior da hist\u00f3ria nacional.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Fel\u00edcio Pontes]<\/strong><\/p>\n<p>Durante a ditadura militar, era claro que havia esse clientelismo, havia essa rela\u00e7\u00e3o muito intensa entre aqueles que executavam obras do poder p\u00fablico e o poder p\u00fablico, isso que a gente pensava que pudesse ser quebrado, n\u00e3o foi quebrado. Ent\u00e3o, acho que ainda exerce, o poder econ\u00f4mico no Brasil exerce uma influ\u00eancia muito grande no governo, seja qual ele for, seja o governo da esquerda, da direita.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A Norte Energia \u00e9 um cons\u00f3rcio de diferentes empresas, cada uma tem um peda\u00e7o, um percentual das a\u00e7\u00f5es. Entre elas, est\u00e3o grandes empresas de minera\u00e7\u00e3o e siderurgia que, inclusive, compram diretamente parte da energia que Belo Monte gera. Mas enquanto isso\u2026\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Esse da\u00ed \u00e9\u2026 \u00c9 cruel, porque a gente tem uma hidrel\u00e9trica no fundo da nossa casa, no fundo mesmo, pode dizer que daqui d\u00e1 quase de ver, onde pagamos uma energia mais cara, mais cara mesmo, uma energia onde vai para fora. N\u00e3o beneficia nada a gente.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A conta de luz no Brasil varia de estado para estado por causa de v\u00e1rios fatores: as condi\u00e7\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o, a base de consumidores, infraestrutura da rede, custo de investimentos, por a\u00ed vai\u2026 E adivinha quem, nos \u00faltimos dois anos, pagou a maior tarifa? Os consumidores no Par\u00e1.\u00a0<\/p>\n<p>Se Belo Monte \u00e9 parte dessa rela\u00e7\u00e3o intensa entre poder pol\u00edtico e poder econ\u00f4mico, ela tamb\u00e9m reflete o que esses poderes sempre consideraram como modelo de desenvolvimento para a Amaz\u00f4nia. Um desenvolvimento que como a Sara j\u00e1 disse aqui n\u00e3o serve pra ela \u2013 mas tem um custo enorme.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Eu sinto falta de escolher o peixe para mim comer. Chegar l\u00e1 no rio, pegar o peixe l\u00e1, n\u00e3o vou levar esse que est\u00e1 muito pequeno, vai crescer. Deixa crescer. A\u00ed escolher o peixe que eu ia comer. A \u00e1gua, sinto falta da \u00e1gua, daquela \u00e1gua onde n\u00e3o tinha contamina\u00e7\u00e3o, que hoje a gente bebe \u00e1gua, mas a gente fica doente.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Eu comecei a entender esse \u201ccusto Belo Monte\u201d antes de chegar na Volta Grande, anos antes, quando, em 2021, fui ler o livro Banzeiro Okoto, da jornalista Eliane Brum \u2013 que por sinal eu recomendo demais. A Eliane, que mora em Altamira desde 2017, faz reportagens sobre Belo Monte h\u00e1 anos e conhece essa hist\u00f3ria como poucos. No livro, ela diz que os povos da floresta desafiam as defini\u00e7\u00f5es capitalistas de riqueza e pobreza, que s\u00f3 veem o lado material desses conceitos. Pros povos da floresta, ser rico \u00e9, pra come\u00e7ar, nem precisar de dinheiro. E ser pobre est\u00e1 muito mais ligado a n\u00e3o ter liberdade. Nas palavras de Eliane: \u201cAo arrancar beiradeiros do rio e da floresta, Belo Monte fez com que, de uma hora para outra, centenas de fam\u00edlias se descobrissem pobres\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Quando eu estava l\u00e1 em Altamira, esse diagn\u00f3stico da Eliane voltou com tudo pra mim. Ele aparecia em todas as conversas que eu tinha. Todas as vezes que eu perguntava como era a vida antes, ou do que sentiam saudade, os beiradeiros e os ind\u00edgenas Juruna tentavam me explicar que, antes da hidrel\u00e9trica, eles eram ricos.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Se voc\u00ea precisasse de um peixe, a Volta Grande tinha muita riqueza em peixe, a Volta Grande tinha riqueza em fruta, em ca\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o Diel Juruna que praticamente desenhou pra mim essa explica\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o tudo o que voc\u00ea precisaria voc\u00ea tirava da Volta Grande do Xingu. \u00c9\u2026 e voc\u00ea tinha aquela liberdade de que voc\u00ea tinha de banhar, de pescar, de quando voc\u00ea ia, de quando voc\u00ea ia comer um peixe, quando voc\u00ea n\u00e3o ia. Se voc\u00ea queria trabalhar ou n\u00e3o, se\u2026 Voc\u00ea tinha sua liberdade.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Mas, para as autoridades, para a empresa, para o olhar de fora, para a mentalidade urbana, riqueza \u00e9 dinheiro, \u00e9 infraestrutura, \u00e9 casa de alvenaria, \u00e9 rua asfaltada, \u00e9 supermercado. Por esse olhar, Belo Monte seria o suposto vetor de riqueza, de desenvolvimento. Ningu\u00e9m foi l\u00e1 perguntar o que os povos do Xingu entendiam por desenvolvimento \u2013 nem se eles queriam isso \u2013 uma viola\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 consulta que \u00e9 garantido aos povos tradicionais.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Com seis meses s\u00f3 gera um pingo de energia, n\u00e3o gera muito, porque se hoje tem um pouquinho de \u00e1gua \u00e9 n\u00f3is brigando ali. E eles brigando: n\u00e3o, porque. Se a gente briga por \u00e1gua pra Piracema da\u00ed vai um decreto: \u201cn\u00e3o, tem que colocar \u00e1gua pra volta grande do Xingu pras piracema\u201d. A Norte Energia vai l\u00e1: \u201cah isso vai acabar com o desenvolvimento, com o progresso, com a economia\u201d. Foi assim que eles falaram. Da\u00ed v\u00e3o l\u00e1 e massacram a Volta Grande.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>E o problema \u00e9 que esse desenvolvimento massacrante n\u00e3o cansa de dar as caras. A amea\u00e7a mais recente \u00e9 a mineradora Belo Sun que tenta, h\u00e1 anos, destravar seu projeto para instalar a maior mina de ouro a c\u00e9u aberto do Brasil. Sabe onde? Bem em Volta Grande.\u00a0<\/p>\n<p>O projeto, por enquanto, ainda n\u00e3o saiu no papel, porque, entre outros entraves, est\u00e1 em disputa na Justi\u00e7a. Mas ele \u00e9 mais uma amea\u00e7a de mega empreendimento que ronda a regi\u00e3o \u2013 e n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica.<\/p>\n<p><strong>[Arquivo de TV]<\/strong><\/p>\n<p>A maior usina hidrel\u00e9trica 100% brasileira \u00e9 um pilar para a estabilidade do sistema interligado Nacional. Seu papel estruturante colabora com os reservat\u00f3rios de outras usinas.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o trecho de um v\u00eddeo da Norte Energia, divulgado no canal da empresa no YouTube em novembro de 2024. Ele ilustra como a empresa vem respondendo a grande pergunta de \u201cpra que?\u201d. A ideia central, que aparece n\u00e3o s\u00f3 nesse v\u00eddeo, mas nos documentos da empresa pro governo, \u00e9 a de que Belo Monte seria uma bateria do sistema el\u00e9trico nacional.\u00a0<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 a seguinte: como a usina gera mais energia nos meses finais e iniciais de cada ano, isso permitiria poupar os reservat\u00f3rios das hidrel\u00e9tricas do Sudeste e do Centro Oeste, que da\u00ed teriam tempo para encher no ver\u00e3o e depois ter \u00e1gua nos meses mais secos do meio do ano. Pode at\u00e9 ser. At\u00e9 porque esse argumento n\u00e3o \u00e9 usado s\u00f3 pela Norte Energia. O Operador Nacional do Sistema El\u00e9trico, o ONS, e o Minist\u00e9rio de Minas e Energia tamb\u00e9m costumam destacar a import\u00e2ncia pro pa\u00eds da gera\u00e7\u00e3o de Belo Monte nos meses chuvosos. Mas faltou falar de um problema fundamental.\u00a0<\/p>\n<p>A \u00e9poca que Belo Monte tem mais \u00e1gua para funcionar \u00e9, justamente, o per\u00edodo de reprodu\u00e7\u00e3o de muitas esp\u00e9cies de peixes da regi\u00e3o, como a gente j\u00e1 falou aqui. \u00c9 aquela disputa entre as vidas dos seres da Volta Grande e a gera\u00e7\u00e3o de energia.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>T\u00e3o roubando \u00e1gua para reprodu\u00e7\u00e3o do peixe que vai fazer 10 anos.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>10 anos\u2026<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Sem reprodu\u00e7\u00e3o do peixe.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Acaba que s\u00e3o os povos, os peixes e todos os outros seres do Xingu que pagaram e continuam pagando o pre\u00e7o para que a hidrel\u00e9trica possa gerar alguma energia nos meses de chuva. E, recentemente, veio outra amea\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p>Em abril de 2025, a Norte Energia levou alguns jornalistas para conhecer as opera\u00e7\u00f5es em Altamira. Foi nessa ocasi\u00e3o que executivos da empresa contaram que eles t\u00e3o com uma ideia, que seria ainda preliminar, de construir mais uma barragem no Xingu. Essa, disseram os executivos, seria feita para criar um reservat\u00f3rio de acumula\u00e7\u00e3o. Como se fosse uma \u201ccaixa d\u2019\u00e1gua\u201d que ia encher durante o per\u00edodo de chuvas para da\u00ed, na seca, essa reserva poder ser usada pela hidrel\u00e9trica para gerar energia.\u00a0<\/p>\n<p>Um dos supostos objetivos seria o de minimizar o conflito em torno da \u00e1gua. Mas ningu\u00e9m explicou se estavam falando do conflito com a Volta Grande, nem o que outra barragem pode fazer para minimizar a disputa pela \u00e1gua. O que eles disseram \u00e9 que esse reservat\u00f3rio teria que ter, pelo menos, uns 1.000 km\u00b2 \u2013 em um lugar que ainda n\u00e3o foi definido. 1.000 km\u00b2 \u00e9 quase o tamanho do reservat\u00f3rio do projeto original, que foi pensado d\u00e9cadas atr\u00e1s pela ditadura. Aquela primeira ideia era ter um reservat\u00f3rio de 1.200 km\u00b2, que ia alagar terras ind\u00edgenas, e que por isso foi descartado pelo governo na hora de fazer Belo Monte.<\/p>\n<p>Agora o que os executivos da Norte Energia falaram pros jornalistas \u00e9 que o pressuposto b\u00e1sico para um eventual novo reservat\u00f3rio \u00e9 que n\u00e3o vai alagar \u00e1reas ind\u00edgenas, nem ribeirinhas, nem \u00e1reas de pesca\u2026 Eu perguntei especificamente sobre essa ideia de uma nova barragem para a empresa. Eu queria saber por que que ela \u00e9 necess\u00e1ria, qual seria o tamanho do reservat\u00f3rio formado e, principalmente, onde ele seria implementado. Eu perguntei tamb\u00e9m se a empresa j\u00e1 informou essa ideia ao Ibama. A Norte Energia n\u00e3o me deu nenhuma resposta para essas perguntas. J\u00e1 o Ibama me disse que n\u00e3o recebeu solicita\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o tem registro de \u201cqualquer processo de licenciamento ambiental relacionado \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de nova barragem\u201d.<\/p>\n<p>Por mais que seja uma ideia preliminar, ela dispara um alarme na regi\u00e3o. Porque ia ser mais uma interven\u00e7\u00e3o no Xingu, que j\u00e1 passou por tanto. E \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o que pode acabar nem resolvendo o problema. Como \u00e9 que vai ter \u00e1gua para encher um novo reservat\u00f3rio se n\u00e3o choveu o suficiente? A crise clim\u00e1tica est\u00e1 a\u00ed e ela \u00e9 um problem\u00e3o para as hidrel\u00e9tricas.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[C\u00e9lio Bermann]<\/strong><\/p>\n<p>Os dados hidrol\u00f3gicos que temos no Brasil desde 1934, com o C\u00f3digo das \u00c1guas, se h\u00e1 registros hist\u00f3ricos de vaz\u00f5es m\u00ednimas, vaz\u00f5es m\u00e1ximas, vaz\u00f5es m\u00e9dias, esque\u00e7am esses dados, porque as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas elas est\u00e3o hoje alterando o regime das \u00e1guas no mundo inteiro. Ent\u00e3o, isso \u00e9 um problema para as futuras usinas hidrel\u00e9tricas que se prev\u00eaem serem constru\u00eddas, aumenta a quest\u00e3o da inseguran\u00e7a energ\u00e9tica que as usinas hidrel\u00e9tricas promovem. E a gente n\u00e3o v\u00ea, por exemplo\u2026 investimento atrav\u00e9s da Ag\u00eancia Nacional de \u00c1guas e atrav\u00e9s das inst\u00e2ncias regionais das bacias hidrogr\u00e1ficas, de poder melhorar, tornar mais real os dados, as informa\u00e7\u00f5es hidrol\u00f3gicas. E esse tipo de situa\u00e7\u00e3o acaba fazendo com que a gest\u00e3o de cada usina n\u00e3o encontre amparo nas informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para fazer isso. Ent\u00e3o, \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o bastante delicada.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o bem delicada mesmo \u2013 e no geral, n\u00e3o t\u00f4 nem falando s\u00f3 de Belo Monte. E \u00e9 um neg\u00f3cio que realmente n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de resolver.\u00a0<\/p>\n<p>As hidrel\u00e9tricas emitem menos gases do efeito estufa que outras fontes de energia, mais poluentes, como as termel\u00e9tricas, por isso, costumam ser celebradas nas discuss\u00f5es sobre transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e energia limpa. Mas as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tornam mais dif\u00edcil de confiar nelas. A Coaliz\u00e3o Energia Limpa, formada por diferentes institutos, olhou para isso. Eles fizeram um estudo sobre as vulnerabilidades do sistema el\u00e9trico, e mostraram que a tend\u00eancia \u00e9 de uma diminui\u00e7\u00e3o na quantidade de energia que as hidrel\u00e9tricas podem gerar na m\u00e9dia. A solu\u00e7\u00e3o proposta pela Coaliz\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9 investir mais em e\u00f3lica e em energia solar, fontes que dependem de duas coisas que devem aumentar com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: a intensidade dos ventos e a irradia\u00e7\u00e3o solar.\u00a0<\/p>\n<p>Ainda assim, a Empresa de Pesquisa Energ\u00e9tica, que \u00e9 vinculada ao Minist\u00e9rio de Minas e Energia, tem um projeto de uma nova hidrel\u00e9trica na Amaz\u00f4nia. \u00c9 a hidrel\u00e9trica Bem Querer, que seria constru\u00edda no rio Branco, em Roraima, a 24 km da Terra Ind\u00edgena Yanomami. Essa hidrel\u00e9trica ainda n\u00e3o recebeu nenhuma licen\u00e7a do Ibama, que at\u00e9 devolveu os estudos do projeto, que precisam passar por mudan\u00e7as. Esses estudos mostram que a hidrel\u00e9trica pode afetar milhares de pescadores e as rotas migrat\u00f3rias dos peixes, como revelou uma reportagem do rep\u00f3rter Vinicius Sassine do jornal <em>Folha de S. Paulo<\/em>. Deja vu que fala?<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>A gente est\u00e1 numa guerra aqui, porque todo dia a gente levanta, a gente tem que respirar fundo com a pouca for\u00e7a que tem e bater de frente.Todo dia a gente briga, todo dia a gente t\u00e1 brigando pela vida do rio.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>De volta \u00e0 guerra que os beiradeiros ind\u00edgenas est\u00e3o vivendo na Volta Grande, d\u00e1 pra dizer que eles s\u00e3o, hoje, os olhos do Xingu. E a boca tamb\u00e9m. S\u00e3o eles que vem denunciando a quem pare pra ouvir que o rio deles est\u00e1 definhando.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Se n\u00e3o for os pr\u00f3prios pescadores ind\u00edgenas, beiradeiros, pesquisadores beiradeiros, est\u00e1 a\u00ed fazendo monitoramento para mostrar o que est\u00e1 acontecendo no nosso rio Xingu.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O monitoramento que a Sara fala \u00e9 o Monitoramento Ambiental Territorial Independente, o MATI, que a gente falou no segundo epis\u00f3dio. Um trabalho de ind\u00edgenas e beiradeiros que est\u00e1 investigando a situa\u00e7\u00e3o das piracemas. E mais que isso.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>O que precisa acontecer \u00e9 que soltem \u00e1gua. Deixem a vida fluir em Volta Grande. Soltem \u00e1gua para as piracemas. Soltem \u00e1gua no momento certo, porque todo mundo sabe que hoje quem manda \u00e9 ela, a hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>A disputa pela \u00e1gua para Volta Grande \u00e9 um dos maiores enroscos do processo de renova\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da usina, que est\u00e1 sob an\u00e1lise do Ibama.\u00a0<\/p>\n<p>Lembra: a hidrel\u00e9trica controla a quantidade de \u00e1gua que corre pra regi\u00e3o, a vaz\u00e3o, a partir de um esquema, o hidrograma, que foi definido junto com o \u00f3rg\u00e3o ambiental. Mas uma das condicionantes da licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o diz que a Norte Energia precisa controlar essa vaz\u00e3o de forma a reduzir os impactos na qualidade da \u00e1gua, na fauna, na vegeta\u00e7\u00e3o, na pesca, na navega\u00e7\u00e3o e nos modos de vida das popula\u00e7\u00f5es tradicionais.\u00a0<\/p>\n<p>Os beiradeiros e ind\u00edgenas v\u00eam reunindo evid\u00eancias de que isso n\u00e3o est\u00e1 sendo respeitado. A \u00e1rea t\u00e9cnica do Ibama tamb\u00e9m reconhece isso em v\u00e1rios documentos. E at\u00e9 j\u00e1 pediu para que seja definido um novo esquema de vaz\u00e3o \u2013 no termo t\u00e9cnico, um novo hidrograma \u2013 que garanta o modo de vida dos povos da Volta Grande. A Norte Energia quer manter o atual esquema em vigor. J\u00e1 o pessoal do MATI t\u00e1 na batalha por outra ideia. Um modelo alternativo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>O hidrograma Piracema \u00e9 diferente porque ele n\u00e3o \u00e9 um hidrograma pensado para gera\u00e7\u00e3o de recursos, n\u00e9.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Aqui, de novo, o Diel Juruna, que \u00e9 coordenador do MATI.<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Ele \u00e9 um hidrograma que ele segue um pouco o ciclo natural de que era antes o rio. E\u2026 ele \u00e9 um hidrograma pensado ecologicamente, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Ser pensado ecologicamente significa que o hidrograma piracema procura reproduzir de forma mais pr\u00f3xima o ciclo natural do rio. O pulso de cheia e de seca. Aquele pulso que sempre determinou toda a vida na regi\u00e3o. O hidrograma Piracema ainda fica abaixo da m\u00e9dia hist\u00f3rica da vaz\u00e3o do Xingu. Mas ele faz uma coisa fundamental: que \u00e9 aumentar a \u00e1gua nos meses cr\u00edticos para a reprodu\u00e7\u00e3o dos peixes, entre dezembro e abril mais ou menos.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 a quantidade de \u00e1gua e o tempo que essa \u00e1gua chega.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c1gua na quantidade e no tempo certo pras piracemas, para que os peixes possam se reproduzir. \u00c1gua para garantir o futuro hoje amea\u00e7ado.\u00a0<\/p>\n<p>Entre a Norte Energia e o MATI t\u00e1 o Ibama. Como eu falei, a \u00e1rea t\u00e9cnica j\u00e1 fez v\u00e1rios pareceres e vistorias l\u00e1 na Volta Grande que mostram como a falta de \u00e1gua no Xingu t\u00e1 trazendo impactos al\u00e9m dos que foram previstos inicialmente. V\u00e1rios deles a gente j\u00e1 falou aqui: redu\u00e7\u00e3o na riqueza e abund\u00e2ncia de peixes, problemas na reprodu\u00e7\u00e3o deles, falta de alagamento nas \u00e1reas de piracema, morte da vegeta\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as negativas na vida dos moradores da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de tudo isso, agora em agosto de 2025, a diretoria de licenciamento do Ibama concluiu em um documento: \u201cfato \u00e9 que, ap\u00f3s uma d\u00e9cada de opera\u00e7\u00e3o do empreendimento e realiza\u00e7\u00e3o de diversos estudos ainda n\u00e3o foi poss\u00edvel estipular um ciclo de vaz\u00f5es que permita assegurar a manuten\u00e7\u00e3o dos ecossistemas naturais, os modos de vida das comunidades residentes e a compatibiliza\u00e7\u00e3o com a gera\u00e7\u00e3o de energia\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Isso \u00e9 importante, porque a diretoria de licenciamento foi al\u00e9m e recomendou que em 4 meses a Norte Energia apresentasse uma proposta de um novo ciclo de hidrogramas. Basicamente sugerindo que do jeito que t\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 pra ficar. A diretoria disse que essa proposta de novas vaz\u00f5es deve considerar os aspectos da gera\u00e7\u00e3o de energia, as orienta\u00e7\u00f5es do Ibama para reduzir os impactos ambientais e, mais que isso, que deveria levar em conta tamb\u00e9m as sugest\u00f5es do MATI. Essas recomenda\u00e7\u00f5es foram passadas para a presid\u00eancia do Ibama, que est\u00e1 acima da diretoria de licenciamento. Ent\u00e3o, est\u00e1 na m\u00e3o da presid\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o decidir se encaminha, ou n\u00e3o, esse pedido para Norte Energia. Um novo hidrograma \u00e9 tudo que os povos da Volta Grande vem pedindo. E eles t\u00eam pressa.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Cada ano diminui, diminui, diminui, que t\u00e1 quase estaca zero. Com certeza, daqui cinco anos n\u00e3o vai ter mais nada de peixe nessa Volta Grande. Ent\u00e3o, praticamente vai extinguir tudo, vai ficar do zero, n\u00e9, curimat\u00e1 vai acabar que quase j\u00e1 n\u00e3o tem. Os tucunar\u00e9 vai sumir tudo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 o seu Raimundo, pesquisador do MATI e lideran\u00e7a na Volta Grande, que nos conduziu pelo epis\u00f3dio 2.<\/p>\n<p>[<strong>Raimundo<\/strong>]\u00a0<\/p>\n<p>Entendeu? Ent\u00e3o, o meu medo \u00e9 de n\u00f3s n\u00e3o conseguir reverter a vaz\u00e3o, no tempo certo, aqui para a Volta Grande, entendeu? E o rio entrar num colapso total assim de falta de peixe, de acabar mesmo, de ir para extin\u00e7\u00e3o as esp\u00e9cies, n\u00e9, de ficar de voc\u00ea quando pegar um peixe aqui dentro da Volta Grande voc\u00ea se admirar, t\u00e1 pensando que t\u00e1 pegando uma coisa de outro mundo.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, a ideia do hidrograma Piracema \u00e9 t\u00e3o importante.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>Porque se n\u00e3o reverter esse quadro da vaz\u00e3o de \u00e1gua no per\u00edodo certo, o que vai acontecer \u00e9 isso.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal tamb\u00e9m est\u00e1 de olho nessa amea\u00e7a. Em 2024, a procuradora Thais Santi abriu um inqu\u00e9rito para investigar a destrui\u00e7\u00e3o dos modos de vida e dos ecossistemas em Volta Grande. Ela pediu, inclusive, um estudo t\u00e9cnico sobre o conceito de ecoc\u00eddio.\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto isso, o Ibama segue analisando se a Norte Energia cumpriu todas as medidas que condicionam a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o. Essa an\u00e1lise \u00e9 parte do processo de renova\u00e7\u00e3o da licen\u00e7a, que est\u00e1 vencida desde 2021. O Ibama me disse que algumas obriga\u00e7\u00f5es foram sim cumpridas, outras ainda est\u00e3o em andamento e algumas apresentam pend\u00eancias, para essas, eles pediram adequa\u00e7\u00f5es e informa\u00e7\u00f5es complementares para empresa. Entre as muitas medidas, duas s\u00e3o especialmente importantes e seguem em aberto. S\u00e3o as duas que a gente tratou nessa s\u00e9rie, uma que mencionei h\u00e1 pouco: o hidrograma de vaz\u00f5es para Volta Grande. A outra \u00e9 o reassentamento das fam\u00edlias beiradeiras no Territ\u00f3rio Ribeirinho. Essas duas medidas passam pela luta di\u00e1ria dos povos tradicionais da regi\u00e3o. S\u00e3o duas medidas que, para centenas de fam\u00edlias, v\u00e3o determinar suas fontes de renda e seu jeito de estar no mundo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Que o nosso monitoramento vem com a inten\u00e7\u00e3o de tanto manter vida na Volta Grande, como manter cultura, como manter o modo de vida, como manter um povo naquela regi\u00e3o, n\u00e9, que n\u00e3o queira sair, tanto n\u00f3s, eu, como ind\u00edgenas, como ribeirinhos, que nascemos e se criamos nessa beira de rio, n\u00e9, que a gente consiga \u00e1gua para que esse povo n\u00e3o saia dos seus locais, n\u00e9, que vem de gera\u00e7\u00f5es, vem de povos ancestrais, nossos ancestrais<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Manter a cultura, o modo de vida. Isso ia permitir, por exemplo, que o Diel tivesse a chance de ensinar pro filho dele o que ele aprendeu com as gera\u00e7\u00f5es anteriores.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Diel]<\/strong><\/p>\n<p>Eu tive a oportunidade de aprender a mergulhar. Eu tive a oportunidade que o meu pai me ensinou a pescar de cani\u00e7o, a botar uma tiradeira, a conhecer v\u00e1rias esp\u00e9cies de frutas, quando ca\u00eda, quando n\u00e3o ca\u00eda, que tempo ca\u00eda, que tempo a \u00e1gua estava bom para pegar uma esp\u00e9cie de peixe.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O mergulho que o Diel fala \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o dos juruna de pegar peixes ornamentais, Hoje, n\u00e3o d\u00e1 pra fazer mais nada disso, porque os ambientes deixaram de existir.<\/p>\n<p><strong>[Rita]<\/strong><\/p>\n<p>E o que eu acho mais grave em toda essa expuls\u00e3o do ribeirinho com toda a sua tradicionalidade do Beirad\u00e3o, s\u00e3o essas crian\u00e7as. Tem crian\u00e7a com 8 anos, 9 anos que nasceu em Altamira, que foi retirado do Beirad\u00e3o. Ser\u00e1 que quando o pai dela voltar vai ser reassentado, essa crian\u00e7a vai ter? Foi um rompimento de la\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Voltar para a beira do Xingu no Territ\u00f3rio Ribeirinho poderia retomar esses la\u00e7os. E fazer com que os pais possam compartilhar com seus filhos o rio que eles conheceram.<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>A\u00ed os nossos filhos, que hoje muitos que est\u00e3o nascendo por agora e os que n\u00e3o conseguiram ver o que era o rio Xingu antes, a gente conta a hist\u00f3ria do que foi o rio Xingu. O meu filho, a gente tava na balsa, a gente tava passando na balsa, e eu contando pra ele como \u00e9 que foi a minha a minha a experi\u00eancia de crian\u00e7a no Xingu. Que meu primeiro banho foi com a \u00e1gua do Xingu, que eu fui pega por parteira. A\u00ed eu mostrei pra ele: \u201c\u00f3, tu t\u00e1 vendo aquela pedra, a m\u00e3e pulava l\u00e1 de cima. A gente pula, a gente ia pro rio pescar, eu via tucunar\u00e9, muito tucunar\u00e9, nadando assim. A m\u00e3e naquela \u00e9poca pescava com os anzolzinho que tinham na ponta tinha uma minhoca, e eu tentando pegar o tucunar\u00e9 com quase 5kg\u201d. A\u00ed falando pra ele: \u201ce era, m\u00e3e?\u201d, contando dos filhotes que existia, que hoje n\u00e3o existe mais, tucunar\u00e9 l\u00e1 tamb\u00e9m n\u00e3o existe mais.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Como \u00e9 pra voc\u00ea como m\u00e3e contar essas hist\u00f3rias e n\u00e3o poder mostrar tudo isso?<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 triste, porque hoje em dia ele v\u00ea a pira\u00edba, que \u00e9 o filhote, por foto, ele v\u00ea por foto. E n\u00e3o \u00e9, assim, ah tem gente que conta uma hist\u00f3ria, que essa hist\u00f3ria eu conseguia alcan\u00e7ar pelo meu pai, eu vi o rio, o que era o rio Xingu. E hoje eu t\u00e1 falando pro meu filho o que era o rio, e ele n\u00e3o poder ver o que era o rio Xingu que eu vi, que eu presenciei. N\u00e3o \u00e9 bom, \u00e9 triste. \u00c9 triste a gente contar a hist\u00f3ria de um rio que est\u00e1 sendo morto.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>T\u00e1 sendo morto. Mas ainda n\u00e3o morreu. Como mostram as propostas do Territ\u00f3rio Ribeirinho e do hidrograma Piracema, a briga ainda n\u00e3o acabou.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Todo dia a gente t\u00e1 brigando pelas viola\u00e7\u00f5es. Com tudo que est\u00e3o fazendo contra n\u00f3s. As viola\u00e7\u00f5es da natureza. Est\u00e3o violando, todo dia est\u00e3o violando a natureza. Ent\u00e3o\u2026 N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Nas conversas que eu tive l\u00e1 em Altamira, eu comecei a perceber esse cansa\u00e7o em bastante gente. E perguntei sobre ele. O Diel, apesar de toda sua disposi\u00e7\u00e3o, me disse que \u00e0s vezes se sente esgotado. O Seu Raimundo, por mais bem humorado que seja, tamb\u00e9m tem seus momentos de des\u00e2nimo, como mostra um dos poemas que ele leu pra mim.<\/p>\n<p><strong>[Raimundo]<\/strong><\/p>\n<p>Insensatez. Uma muralha que estrangula. O rio que definha. A insensatez que impulsiona a caneta e destina, destina a vida que tinha vida perder a vida. E a escassez \u00e9 rotina.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Por tr\u00e1s de toda a firmeza da Rita, tamb\u00e9m desamparo. E, no caso da Sara, por mais determinada que ela seja, tem hora que uma melancolia vem com tudo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Tem dia que eu n\u00e3o quero nem levantar. Tem dia que eu\u2026 A\u00ed eu deito, eu levo. Hoje mesmo foi um dos dias. Falei: \u201cIsh\u2026 ai meu Deus\u201d, eu levantei, botei a cabe\u00e7a pra cima assim, a\u00ed fiquei pensando. A\u00ed me deu vontade assim, vontade de desistir, sumir, deixar. Deixar a\u00ed o que tem que acontecer. Se quer destruir, destr\u00f3i, acaba logo com tudo. Porque se vai acabar com o rio, se vai acabar com a floresta, se vai acabar com tudo, todos v\u00e3o padecer. A\u00ed eu\u2026 Parece que tem uma for\u00e7a maior, que chega: \u201cEpa, t\u00e1 falando besteira\u201d.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>O que voc\u00ea acha que \u00e9 essa for\u00e7a?<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o rio. \u00c9 a floresta. Chega e fala: \u201cT\u00e1 falando besteira, mulher. Porque eu preciso de ti. N\u00f3s precisamos de cada um de voc\u00eas\u201d. Ent\u00e3o \u00e9 isso. A gente n\u00e3o desiste ainda. A gente n\u00e3o desistiu ainda. Porque o rio, ele \u00e9 a nossa maior inspira\u00e7\u00e3o. \u00c9 a nossa maior for\u00e7a de resist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Quando a Sara me falou isso, eu voltei a pensar nos rios da minha cidade. Eles come\u00e7aram a ser mortos h\u00e1 muito tempo. Eles tamb\u00e9m foram desviados, concretados e asfixiados. E mesmo que alguma vida continue resistindo neles, e que as margens at\u00e9 ganhem ciclovias e projetos de revitaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 pra gente dizer que tem um grande movimento da sociedade paulistana para recuperar esses rios. Se a gente ainda conseguisse ouvir, o que os nossos rios diriam?<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>Ele est\u00e1 resistindo ali, isso para n\u00f3s \u00e9 gratificante, a gente tem for\u00e7a. Porque quem t\u00e1 aguentando o pepino todo, aguentando tudo isso \u00e9 ele. Ent\u00e3o, a gente tem for\u00e7a para poder falar em nome dele.<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Se o rio Xingu ainda n\u00e3o morreu \u00e9 por causa da luta de muita gente. Principalmente dos beiradeiros e dos ind\u00edgenas, que falam com o Xingu e pelo o Xingu. E, por isso mesmo, n\u00e3o pretendem desistir. Eles ainda querem garantir um futuro.\u00a0<\/p>\n<p><strong>[Sara]<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas falam assim: \u201cai, \u00e9 fato consumado\u201d. T\u00e1 certo \u00e9 fato consumado at\u00e9 quando a gente permitir. Porque enquanto a gente tiver vida, n\u00e3o vai ser fato consumado, n\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p><strong>[Isabel Seta]<\/strong><\/p>\n<p>Esse foi o podcast Xingu em disputa, uma produ\u00e7\u00e3o original da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Para fazer essa s\u00e9rie, eu li centenas de p\u00e1ginas de documentos oficiais e entrevistei mais de 25 pessoas, algumas que voc\u00ea ouviu aqui. Eu deixo meu agradecimento a todas elas. E agrade\u00e7o a voc\u00ea tamb\u00e9m, que chegou at\u00e9 aqui. Muito obrigada por acompanhar essa hist\u00f3ria.\u00a0<\/p>\n<p>E se mexeu com voc\u00ea ou despertou o seu interesse, te digo que essa \u00e9 uma das muitas hist\u00f3rias de Belo Monte. O gigantismo da usina significa que seus impactos tamb\u00e9m s\u00e3o muitos. Eles v\u00e3o al\u00e9m dos tratados nesta s\u00e9rie. A hidrel\u00e9trica tamb\u00e9m trouxe tamb\u00e9m trouxe consequ\u00eancias para diferentes povos das v\u00e1rias Terras Ind\u00edgenas da bacia do Xingu, para toda zona urbana de Altamira, pros munic\u00edpios do entorno, para diferentes esp\u00e9cies de animais e plantas. Muitos desses impactos v\u00eam sendo relatados em livros, reportagens, document\u00e1rios e pesquisas. Ent\u00e3o, quem quiser, pode seguir na trilha dessas hist\u00f3rias.\u00a0<\/p>\n<p>Esse podcast foi produzido e escrito por mim, Isabel Seta, que viajei para Altamira com apoio\u00a0 do Instituto Socioambiental. A edi\u00e7\u00e3o dos roteiros \u00e9 de Giovana Girardi. Sofia Amaral fez a dire\u00e7\u00e3o da locu\u00e7\u00e3o e a coordena\u00e7\u00e3o geral da s\u00e9rie. A pesquisa de arquivos \u00e9 da Rafaela de Oliveira, da Stela Diogo e minha. A locu\u00e7\u00e3o foi gravada no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica, com trabalhos t\u00e9cnicos da Stela Diogo e do Ricardo Terto. O design de som, edi\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o do Pedro Pastoriz, com trilhas sonoras do Epidemic Sound. A identidade visual \u00e9 do Matheus Pigozzi. A equipe de divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por Marina Dias, Lorena Morgana, Renata Cons, Leticia Gouveia, Ethieny Karen, Ester Nascimento, Edgar Chulve e Vanice Christine. Nesse epis\u00f3dio, usamos \u00e1udios da TV Globo, da TV Brasil, da Band Jornalismo e do canal no Youtube da Norte Energia. A gente usou tamb\u00e9m material do Instituto Socioambiental captado pela fot\u00f3grafa Jennifer Bandeira. Obrigada pela companhia e at\u00e9 uma pr\u00f3xima.\u00a0<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/54-anos-sem-josina-machel-heroina-da-libertacao-mocambicana\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/37pbpcx-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">54 anos sem Josina Machel, hero\u00edna da liberta\u00e7\u00e3o m...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/primeiro-contato-entre-lula-e-trump-deve-ocorrer-no-pior-momento-das-relacoes-bilaterais-diz-el-pais\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/captura-de-tela-2025-09-23-133414-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Primeiro contato entre Lula e Trump deve ocorrer \u2018...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/caso-honduragate-revela-o-que-todos-ja-sabiamos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/55257407178_f268592384_c-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Caso Honduragate revela o que todos j\u00e1 sab\u00edamos<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/frente-popular-para-a-libertacao-da-palestina-o-acordo-de-cessar-fogo-e-um-primeiro-passo-rumo-ao-fim-do-genocidio\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Brigada-Ghassan-Kanafani-Palestina-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Frente Popular para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina: O A...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Povos tradicionais ainda enfrentam impactos de Belo Monte &#8211; e para qu\u00ea? No \u00faltimo epis\u00f3dio, vamos atr\u00e1s dessa resposta<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[109,13745,18,5557,4845],"tags":[],"class_list":["post-47688","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-amazonia","category-belo-monte","category-meio-ambiente","category-portugues","category-xingu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47688"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47688\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}