{"id":48145,"date":"2025-08-28T20:52:55","date_gmt":"2025-08-28T23:52:55","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/seria-a-ia-o-novo-capataz\/"},"modified":"2025-08-28T20:52:55","modified_gmt":"2025-08-28T23:52:55","slug":"seria-a-ia-o-novo-capataz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/seria-a-ia-o-novo-capataz\/","title":{"rendered":"Seria a IA o novo capataz?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1140\" height=\"912\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/tarnoff_1-032725-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/tarnoff_1-032725-1.jpg 1140w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/tarnoff_1-032725-1-300x240.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/tarnoff_1-032725-1-768x614.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1140px) 100vw, 1140px\"><figcaption>Arte: George Wylesol\/The New York Review<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Ben Tarnoff<\/strong>, no <em>The New York Review<\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>O Vale do Sil\u00edcio funciona com base na novidade. Ele \u00e9 sustentado pela busca do que Michael Lewis uma vez chamou de \u201ca nova novidade\u201d. A internet, o smartphone, as redes sociais: a nova novidade n\u00e3o pode ser um ajuste modesto nas margens. Ela tem que transformar a ra\u00e7a humana. Os incentivos econ\u00f4micos s\u00e3o claros: uma empresa que populariza uma inven\u00e7\u00e3o que quebra paradigmas pode ganhar muito dinheiro. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 algo maior em jogo. Se o Vale do Sil\u00edcio n\u00e3o continuar a entregar novas novidades, ele perde seu status privilegiado como o lugar onde o futuro \u00e9 feito.<\/p>\n<p>Em 2022, a ind\u00fastria estava tendo um ano ruim. Depois de uma pandemia lucrativa \u2014 as cinco maiores empresas de tecnologia adicionaram mais de US$ 2,6 trilh\u00f5es \u00e0 sua capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado combinada em 2020 e quase a mesma quantia em 2021 \u2014 o setor sofreu uma de suas mais severas contra\u00e7\u00f5es de todos os tempos. A Amazon perdeu quase metade de seu valor, a Meta perto de dois ter\u00e7os. O Nasdaq, com forte peso em tecnologia, caiu 33%, seu pior desempenho desde a crise financeira de 2008.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MATERIA--25.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MATERIA--25.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-5-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>As raz\u00f5es eram bastante diretas. No in\u00edcio da pandemia de covid-19, o Federal Reserve (Fed) cortou as taxas de juros para zero, e as pessoas ficaram em casa, onde passavam mais tempo e gastavam mais dinheiro online. Em 2022, ambas as tend\u00eancias estavam em revers\u00e3o. A maioria dos americanos havia decidido parar de se preocupar com o v\u00edrus e retomava alegremente suas atividades offline. Enquanto isso, o Fed come\u00e7ou a aumentar os juros em resposta \u00e0 infla\u00e7\u00e3o crescente.<\/p>\n<p>Seria um erro exagerar a severidade da \u201cdesacelera\u00e7\u00e3o da tecnologia\u201d que se seguiu. Apesar das demiss\u00f5es em massa e da receita em decl\u00ednio, as grandes empresas permaneceram maiores e mais lucrativas do que eram antes da pandemia. No entanto, um certo mal-estar havia se instalado. A ind\u00fastria precisava de uma nova inven\u00e7\u00e3o deslumbrante que pudesse atrair bilh\u00f5es de consumidores e levar os mercados de capitais a uma espuma de euforia.<\/p>\n<div>\n<figure><\/figure>\n<\/div>\n<p>Uma candidata era a Web3, uma proposta para reconstruir a internet em torno do blockchain, a tecnologia cont\u00e1bil subjacente ao Bitcoin e outras criptomoedas. Defendida em particular por capitalistas de risco, que esperavam que ela os enriquecesse ao capacitar uma nova gera\u00e7\u00e3o de startups para destronar as grandes empresas, a Web3 nunca se mostrou \u00fatil para nada al\u00e9m da especula\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo os especuladores foram prejudicados quando v\u00e1rios esquemas implodiram sob a press\u00e3o das altas taxas de juros. Outra possibilidade era o metaverso, o sonho de Mark Zuckerberg de uma internet imersiva vivenciada por meio de um headset. Ele tamb\u00e9m se esfor\u00e7ou para demonstrar qualquer vantagem pr\u00e1tica. Pior, era desagrad\u00e1vel: um simulacro cheio de falhas de um shopping p\u00f3s-apocal\u00edptico como se fosse desenhado por David Lynch, onde avatares de olhos de peixe e sem pernas flutuavam por mundos cartoonizados e escassamente povoados.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em 30 de novembro de 2022, a OpenAI lan\u00e7ou o ChatGPT. Um sistema poderoso emparelhado com uma interface conversacional af\u00e1vel, ele permitia que qualquer pessoa fizesse uma pergunta e obtivesse uma resposta impressionantemente humanoide (embora nem sempre correta). Em janeiro de 2023, o chatbot havia acumulado 100 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, tornando-se a aplica\u00e7\u00e3o web de crescimento mais r\u00e1pido da hist\u00f3ria. Foi um conto de fadas do Vale do Sil\u00edcio: a OpenAI, que na \u00e9poca tinha apenas algumas centenas de funcion\u00e1rios, pegou todos de surpresa e, virtualmente da noite para o dia, estabeleceu a \u201cIA generativa\u201d \u2014 a categoria de software \u00e0 qual o ChatGPT pertence \u2014 como o novo conceito mestre de toda a ind\u00fastria. Os gigantes da tecnologia se apressaram para responder, desencadeando uma corrida. Tudo, dos buscadores aos clientes de e-mail, passou a incorporar recursos generativos. Em 2023, o Nasdaq subiu 55%, seu melhor desempenho desde 1999. A nova novidade havia sido encontrada.<\/p>\n<p>\u00c9 cedo demais para saber se a IA generativa se provar\u00e1 um pote de ouro ou um sopro de ar quente. As opini\u00f5es est\u00e3o divididas. Algumas empresas tiveram um desempenho fabuloso: a Nvidia, a estrela em ascens\u00e3o do boom, est\u00e1 lucrando muito, j\u00e1 que seus chips s\u00e3o a infraestrutura b\u00e1sica na qual a IA generativa \u00e9 constru\u00edda. As divis\u00f5es de nuvem da Microsoft, Google e Amazon tamb\u00e9m cresceram consideravelmente, crescimento que seus executivos atribuem ao aumento da demanda por servi\u00e7os de IA.<\/p>\n<p>Mas estas s\u00e3o, na linguagem da imprensa financeira, jogadas de \u201cp\u00e1s e picaretas\u201d (fornecer as ferramentas b\u00e1sicas para uma corrida do ouro). Ningu\u00e9m duvida que h\u00e1 dinheiro a ser ganho vendendo para as empresas o parafernalha de que precisam para usar a IA generativa. A verdadeira quest\u00e3o \u00e9 se a IA generativa ajuda essas empresas a ganharem dinheiro por conta pr\u00f3pria. Os c\u00e9ticos apontam que o alto custo de criar e executar software de IA generativa \u00e9 um obst\u00e1culo potencial. Isso nega a vantagem tradicional da tecnologia digital: seus baixos custos marginais. Iniciar uma livraria online funcionou para a Amazon porque era mais barato do que seguir o caminho f\u00edsico, como Jim Covello, chefe de pesquisa de a\u00e7\u00f5es globais da Goldman Sachs, observou em um relat\u00f3rio de junho de 2024. A IA generativa, em contraste, n\u00e3o \u00e9 barata \u2014 o que significa que \u201cas aplica\u00e7\u00f5es de IA devem resolver problemas extremamente complexos e importantes para que as empresas obtenham um retorno adequado sobre o investimento\u201d. Covello, por exemplo, duvida que elas o far\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, as empresas, como as pessoas, n\u00e3o s\u00e3o totalmente racionais. Quando uma empresa decide adotar uma nova tecnologia, raramente o faz com base apenas em considera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. \u201cTais decis\u00f5es est\u00e3o quase sempre fundamentadas em pressentimentos, f\u00e9, ego, deleite e acordos\u201d, observa o historiador David Noble. Olhando para as f\u00e1bricas americanas ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, Noble identificou v\u00e1rias raz\u00f5es para sua mudan\u00e7a para a tecnologia de \u201ccontrole num\u00e9rico\u201d: uma \u201cfascina\u00e7\u00e3o pela automa\u00e7\u00e3o\u201d, uma devo\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de progresso tecnol\u00f3gico, um desejo de estar associado ao prest\u00edgio da vanguarda e um \u201cmedo de ficar para tr\u00e1s da concorr\u00eancia\u201d, entre outros.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia3.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia3-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Noble, no entanto, d\u00e1 \u00eanfase especial a uma motiva\u00e7\u00e3o que est\u00e1 pelo menos parcialmente enraizada na racionalidade econ\u00f4mica: a disciplina do trabalho. Ao mecanizar o processo de produ\u00e7\u00e3o, os gestores poderiam dominar mais plenamente os trabalhadores dentro dele. O fil\u00f3sofo Matteo Pasquinelli tem uma vis\u00e3o semelhante em seu recente livro <em>The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence<\/em> (O Olho do Mestre: Uma Hist\u00f3ria Social da Intelig\u00eancia Artificial). Na introdu\u00e7\u00e3o, Pasquinelli, professor da Universidade Ca\u2019 Foscari de Veneza, explica que n\u00e3o oferecer\u00e1 uma \u201chist\u00f3ria linear de conquistas matem\u00e1ticas\u201d. Em vez disso, ele quer fornecer uma \u201cgenealogia social\u201d que trata a IA n\u00e3o apenas como uma busca tecnol\u00f3gica, mas \u201ccomo uma vis\u00e3o de mundo\u201d. O ponto central dessa vis\u00e3o \u00e9 a automa\u00e7\u00e3o \u2014 e domina\u00e7\u00e3o \u2014 do trabalho. A IA contempor\u00e2nea \u00e9 melhor entendida, ele acredita, como o mais recente em uma longa linha de esfor\u00e7os para aumentar o poder do patr\u00e3o.<\/p>\n<p>Em <em>A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es<\/em>, Adam Smith argumentou, de forma c\u00e9lebre, que a fabrica\u00e7\u00e3o de alfinetes poderia se tornar mais eficiente por meio da divis\u00e3o do trabalho. Em vez de um \u00fanico fabricante de alfinetes fazer tudo, o trabalho poderia ser dividido em v\u00e1rias tarefas distintas e distribu\u00eddo, de modo a produzir os alfinetes mais rapidamente.<\/p>\n<p>Um importante popularizador desse princ\u00edpio foi Charles Babbage, uma figura central no livro de Pasquinelli. Originalmente um matem\u00e1tico, Babbage tornou-se o que hoje chamar\u00edamos de \u201cformador de pensamentos\u201d entre a burguesia brit\u00e2nica do s\u00e9culo XIX. Hoje ele \u00e9 mais conhecido como um dos inventores do computador. Seu trabalho sobre computa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou com a observa\u00e7\u00e3o de que a divis\u00e3o do trabalho poderia ser \u201caplicada com igual sucesso a opera\u00e7\u00f5es mentais e mec\u00e2nicas\u201d, como ele afirmou em um influente tratado de 1832. Babbage acreditava que o mesmo m\u00e9todo de gest\u00e3o industrial que ent\u00e3o remodelava o trabalhador brit\u00e2nico poderia ser transportado para fora da f\u00e1brica e aplicado a um tipo de trabalho muito diferente: o c\u00e1lculo matem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ele se inspirou em Gaspard de Prony, um matem\u00e1tico franc\u00eas que criou um esquema para agilizar a cria\u00e7\u00e3o de tabelas logar\u00edtmicas reduzindo a maior parte do trabalho a uma s\u00e9rie de adi\u00e7\u00f5es e subtra\u00e7\u00f5es simples. No arranjo de Prony, um punhado de especialistas e gerentes planejava o trabalho e fazia os c\u00e1lculos mais dif\u00edceis, enquanto um ex\u00e9rcito de calculadores subalternos fazia muita aritm\u00e9tica b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Se os pobres servi\u00e7ais na base desta pir\u00e2mide eram basicamente aut\u00f4matos, por que n\u00e3o automatiz\u00e1-los? Na f\u00e1brica, a divis\u00e3o do trabalho andava de m\u00e3os dadas com a automa\u00e7\u00e3o. Na verdade, de acordo com Babbage, foi precisamente a simplifica\u00e7\u00e3o do processo de trabalho que tornou poss\u00edvel introduzir maquin\u00e1rio. \u201cQuando cada processo foi reduzido ao uso de alguma ferramenta simples\u201d, escreveu ele, \u201ca uni\u00e3o de todas essas ferramentas, acionadas por uma \u00fanica for\u00e7a motriz, constitui uma m\u00e1quina\u201d.<\/p>\n<p>Em 1819, ele come\u00e7ou a projetar o que chamou de M\u00e1quina Diferencial, que automatizava o trabalho aritm\u00e9tico com tr\u00eas cilindros rotativos e era movida a vapor. A ambi\u00e7\u00e3o de Babbage era enorme. Ele queria \u201cestabelecer o neg\u00f3cio do c\u00e1lculo em escala industrial\u201d, escreve Pasquinelli, aproveitando a mesma fonte de energia que estava revolucionando a ind\u00fastria brit\u00e2nica. A produ\u00e7\u00e3o em massa de tabelas logar\u00edtmicas livres de erro tamb\u00e9m seria um neg\u00f3cio lucrativo, porque tais tabelas permitiam que as formid\u00e1veis frotas mercantes e militares do Reino Unido determinassem sua posi\u00e7\u00e3o no mar. O governo brit\u00e2nico, reconhecendo o valor econ\u00f4mico e geopol\u00edtico do empreendimento de Babbage, forneceu financiamento.<\/p>\n<p>O investimento falhou. Babbage conseguiu construir um pequeno prot\u00f3tipo, mas o projeto completo mostrou-se muito complicado de implementar. Em 1842, o governo retirou seu apoio, momento em que Babbage j\u00e1 come\u00e7ara a sonhar com uma m\u00e1quina ainda menos constru\u00edvel: a M\u00e1quina Anal\u00edtica. Projetada com a ajuda da matem\u00e1tica Ada Lovelace, esse mecanismo extraordin\u00e1rio teria sido o primeiro computador de uso geral, capaz de ser programado para realizar qualquer c\u00e1lculo. Assim, em meio \u00e0 fuma\u00e7a e ao fuligem da Inglaterra vitoriana, nasceu a ideia de software.<\/p>\n<p>A divis\u00e3o do trabalho nunca foi apenas sobre efici\u00eancia; tamb\u00e9m era sobre controle. Ao fragmentar a produ\u00e7\u00e3o artesanal\u2014 imagine um sapateiro fazendo um par de sapatos \u2014 em um conjunto de rotinas modulares, a divis\u00e3o do trabalho eliminou a autonomia do artes\u00e3o. Agora a gest\u00e3o reunia os trabalhadores sob um mesmo teto, o que significava que podiam ser mandados e vigiados enquanto trabalhavam.<\/p>\n<p>Pasquinelli acredita que as m\u00e1quinas de Babbage, originadas como se originaram em um \u201cprojeto para mecanizar a divis\u00e3o do trabalho mental\u201d, eram movidas pelos mesmos imperativos gerenciais. Elas eram, escreve ele, \u201cuma implementa\u00e7\u00e3o do olhar anal\u00edtico do mestre da f\u00e1brica\u201d, uma esp\u00e9cie de representa\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica do patr\u00e3o vigilante e desp\u00f3tico. Pasquinelli chega a cham\u00e1-las de \u2018primas\u2019 do not\u00f3rio pan\u00f3ptico de Jeremy Bentham.<\/p>\n<p>Mas esses imperativos presumivelmente permaneceram latentes, uma vez que os aparelhos nunca funcionaram como projetado. Babbage tentou usar engrenagens mec\u00e2nicas para representar n\u00fameros decimais, o que significou que ele lutou com o problema de como automatizar o \u201cvai-um\u201d \u2014 o processo pelo qual uma coluna reinicia para zero e a pr\u00f3xima coluna aumenta em um\u2014 quando um d\u00edgito atinge 10. Seriam necess\u00e1rias as simplifica\u00e7\u00f5es do sistema bin\u00e1rio, a inven\u00e7\u00e3o da eletr\u00f4nica e os muitos avan\u00e7os financiados pelos amplos or\u00e7amentos militares da Segunda Guerra Mundial para tornar a computa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica finalmente vi\u00e1vel na d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, o capitalismo havia se internacionalizado, o que tornou a quest\u00e3o de gerenciar os trabalhadores mais complicada. \u201cQuanto mais a divis\u00e3o do trabalho se estendia para um mundo globalizado\u201d, escreve Pasquinelli, \u201cmais problem\u00e1tica se tornava sua gest\u00e3o\u201d, j\u00e1 que \u201ca \u2018intelig\u00eancia\u2019 do mestre da f\u00e1brica n\u00e3o podia mais inspecionar todo o processo de produ\u00e7\u00e3o com um \u00fanico olhar\u201d. Assim, ele argumenta, surgiu a necessidade de \u201cinfraestruturas de comunica\u00e7\u00e3o\u201d que \u201cpudessem alcan\u00e7ar esse papel de supervis\u00e3o e quantifica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O computador moderno, nas d\u00e9cadas seguintes \u00e0 sua chegada nos anos 1940, ajudou a satisfazer essa necessidade. Os computadores estenderam o \u201colho do mestre\u201d atrav\u00e9s do espa\u00e7o, argumenta Pasquinelli, permitindo que os capitalistas coordenassem a log\u00edstica cada vez mais inc\u00f4moda da produ\u00e7\u00e3o industrial. Se Babbage tivesse desejado construir uma pr\u00f3tese para projetar o poder gerencial, como sugere Pasquinelli, ent\u00e3o o triunfo da computa\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XX, como instrumento indispens\u00e1vel da globaliza\u00e7\u00e3o capitalista, deve ser entendido como a realiza\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito fundador da tecnologia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esse esp\u00edrito parece ter se intensificado \u00e0 medida que os computadores continuaram a evoluir. \u201cDesde o final do s\u00e9culo XX\u201d, escreve Pasquinelli,<\/p>\n<p>&lt;a gest\u00e3o do trabalho transformou toda a sociedade em uma \u201cf\u00e1brica digital\u201d e assumiu a forma do software dos mecanismos de busca, mapas online, aplicativos de mensagens, redes sociais, plataformas de gig economy, servi\u00e7os de mobilidade e, em \u00faltima an\u00e1lise, algoritmos.&gt;<\/p>\n<p>A IA generativa, conclui ele, est\u00e1 acelerando essa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que os computadores s\u00e3o frequentemente usados em benef\u00edcio dos empregadores, desde o software de escalas que reduz os custos trabalhistas sobrecarregando funcion\u00e1rios de varejo e restaurantes com hor\u00e1rios imprevis\u00edveis at\u00e9 as v\u00e1rias esp\u00e9cies de \u201csoftware de patr\u00e3o\u201d que permitem a vigil\u00e2ncia e supervis\u00e3o remota de funcion\u00e1rios de escrit\u00f3rio, motoristas da Uber e caminhoneiros de longa dist\u00e2ncia. Mas argumentar que tais usos s\u00e3o a raz\u00e3o de ser da tecnologia digital, como Pasquinelli parece fazer, \u00e9 exagerar o caso.<\/p>\n<p>A disciplina do trabalho \u00e9 um uso ao qual os computadores podem ser aplicados; h\u00e1 muitos outros. E isso n\u00e3o foi central para o desenvolvimento da tecnologia: as inova\u00e7\u00f5es centrais da computa\u00e7\u00e3o surgiram em resposta a prerrogativas militares, n\u00e3o econ\u00f4micas. Os desejos de decifrar a criptografia inimiga, calcular os \u00e2ngulos corretos para mirar a artilharia e realizar a matem\u00e1tica necess\u00e1ria para fazer a bomba de hidrog\u00eanio foram algumas das motiva\u00e7\u00f5es para construir computadores nos anos 1940. O governo dos EUA se apaixonou pela tecnologia e gastou milh\u00f5es em pesquisa e aquisi\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas subsequentes. Os computadores provariam ser integrantes de uma variedade de empreendimentos imperiais, desde montar m\u00edsseis intercontinentais capazes de (precisamente) incinerar milh\u00f5es de sovi\u00e9ticos at\u00e9 armazenar e analisar intercepta\u00e7\u00f5es provenientes de esta\u00e7\u00f5es de escuta em todo o mundo. As corpora\u00e7\u00f5es americanas seguiram atr\u00e1s, adaptando as engenhocas de seguran\u00e7a criadas pelo Estado para v\u00e1rios fins comerciais.<\/p>\n<p>Ainda assim, se as alega\u00e7\u00f5es de Pasquinelli nem sempre convencem, h\u00e1 muito a aprender com o material que ele apresenta. As editoras inundaram os leitores com livros sobre IA nos \u00faltimos anos \u2014 o suficiente para encher uma pequena livraria. A maioria parecem ainda cruas. The Eye of the Master est\u00e1, se \u00e9 que podemos dizer, \u2018cozido demais\u2019: h\u00e1 uma quantidade enorme de pensamento comprimida em suas p\u00e1ginas. O intelecto on\u00edvoro de Pasquinelli frequentemente hipnotiza. Ainda assim, \u00e0s vezes eu me pegava desejando que ele desacelerasse, estruturando suas provoca\u00e7\u00f5es com mais evid\u00eancias.<\/p>\n<p>O fato de Babbage ter se inspirado no manual da gest\u00e3o industrial ao projetar seus protocomputadores \u00e9 um epis\u00f3dio hist\u00f3rico interessante. Mas sua relev\u00e2ncia para desenvolvimentos posteriores, ou mesmo apenas sua resson\u00e2ncia com eles, s\u00f3 pode ser determinada ao se observar de perto como os computadores realmente transformaram o trabalho nos s\u00e9culos XX e XXI, o que Pasquinelli n\u00e3o faz. Em vez disso, ele d\u00e1 uma guinada brusca no meio do livro, passando da Gr\u00e3-Bretanha industrial do s\u00e9culo XIX para os primeiros pesquisadores da Am\u00e9rica do s\u00e9culo XX, concentrando-se em particular na escola \u2018conexista\u2019 do campo.<\/p>\n<p>O conexionismo, como observa Pasquinelli, divergiu de formas significativas da computa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de Babbage. Para Babbage, a alma do computador era o algoritmo, um procedimento passo a passo que tradicionalmente comp\u00f5e o ingrediente principal de um programa de computador. Quando Alan Turing, John von Neumann e outros criaram o computador moderno no s\u00e9culo XX, o que criaram foi um dispositivo para executar algoritmos. O programador escreve um conjunto de regras para transformar uma entrada em uma sa\u00edda, e o computador obedece.<\/p>\n<p>Esse ethos tamb\u00e9m orientou o \u2018simbolismo\u2019, a filosofia que passou a dominar a primeira gera\u00e7\u00e3o de pesquisas. Seus adeptos acreditavam que, programando um computador para seguir uma s\u00e9rie de regras, poderiam transformar uma m\u00e1quina em uma mente. Esse m\u00e9todo tinha seus limites. Formalizar uma atividade como uma sequ\u00eancia l\u00f3gica funciona bem se a atividade for relativamente simples. No entanto, \u00e0 medida que se torna mais complexa, instru\u00e7\u00f5es codificadas rigidamente se tornam menos \u00fateis. Eu poderia fornecer um conjunto exato de instru\u00e7\u00f5es para ir da minha casa \u00e0 sua, mas n\u00e3o poderia usar a mesma t\u00e9cnica para explicar como dirigir.<\/p>\n<p>Uma abordagem alternativa emergiu da cibern\u00e9tica, um movimento intelectual do p\u00f3s-guerra com interesses extremamente ecl\u00e9ticos. Entre eles estava a aspira\u00e7\u00e3o de criar aut\u00f4matos com a adaptabilidade dos seres vivos. \u201cEm vez de imitar as regras do racioc\u00ednio humano\u201d, escreve Pasquinelli, os cibern\u00e9ticos \u201cvisavam imitar as regras pelas quais os organismos se organizam e se adaptam ao ambiente\u201d. Esses esfor\u00e7os levaram \u00e0 inven\u00e7\u00e3o da rede neural artificial, uma arquitetura de processamento de dados vagamente modelada no c\u00e9rebro. Ao usar essas redes para perceber padr\u00f5es nos dados, os computadores podem treinar-se em uma tarefa espec\u00edfica. Uma rede neural aprende a fazer coisas n\u00e3o simplificando um processo em um procedimento, mas observando um processo \u2014 de novo e de novo e de novo \u2014 e extraindo rela\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas entre os muitos exemplos.<\/p>\n<p>Um dos progenitores do conexionismo foi Friedrich Hayek, o assunto do cap\u00edtulo mais intrigante de Pasquinelli. Hayek \u00e9 mais conhecido como um dos principais te\u00f3ricos do neoliberalismo, mas quando jovem desenvolveu um interesse pelo c\u00e9rebro enquanto trabalhava no laborat\u00f3rio de Zurique do famoso neuropatologista Constantin von Monakow. Para Hayek, a mente era como um mercado: ele via ambos como entidades auto-organizadoras das quais uma ordem espont\u00e2nea surge atrav\u00e9s da intera\u00e7\u00e3o descentralizada de seus componentes. Essas ideias ajudariam a influenciar o desenvolvimento de redes neurais artificiais, que de fato funcionam muito como a mente de mercado da imagina\u00e7\u00e3o hayekiana. Quando um psic\u00f3logo chamado Frank Rosenblatt implementou a primeira rede neural com o apoio de uma bolsa da Marinha em 1957, ele reconheceu sua d\u00edvida para com Hayek.<\/p>\n<p>Mas Hayek tamb\u00e9m divergiu dos cibern\u00e9ticos em aspectos importantes. A cibern\u00e9tica, como o fil\u00f3sofo Norbert Wiener a definiu em seu livro hom\u00f4nimo de 1948, envolvia o estudo cient\u00edfico do \u201ccontrole e comunica\u00e7\u00e3o no animal e na m\u00e1quina\u201d. O termo, cunhado por Wiener, foi derivado da palavra grega antiga para o timoneiro de um navio, que compartilha a mesma raiz que a palavra para governo. Os cibern\u00e9ticos queriam criar sistemas tecnol\u00f3gicos que pudessem se governar \u2014 uma perspectiva que agradava ao Pent\u00e1gono, que procurava maneiras de obter uma vantagem militar na Guerra Fria. A Marinha financiou Rosenblatt na esperan\u00e7a de que sua rede neural pudesse auxiliar na \u201cautoma\u00e7\u00e3o da classifica\u00e7\u00e3o de alvos\u201d, explica Pasquinelli, usando seus poderes de reconhecimento de padr\u00f5es para detectar embarca\u00e7\u00f5es inimigas.<\/p>\n<p>Para Hayek, em contraste, o conexionismo oferecia uma maneira de pensar sobre um sistema que escapava ao controle. Ele tinha um tipo especial de controle em mente: o planejamento econ\u00f4mico. Em sua vis\u00e3o, a complexidade semelhante \u00e0 do c\u00e9rebro e a arquitetura distribu\u00edda do mercado significavam que o socialismo nunca poderia funcionar. Da\u00ed a necessidade de pol\u00edticas neoliberais que, nas palavras do historiador Quinn Slobodian, \u201cencapsulariam a economia incognosc\u00edvel\u201d, protegendo-a da interfer\u00eancia do governo. No entanto, Hayek e os outros conexionistas estavam muito no mesmo time. Rosenblatt e seus colegas conseguiram garantir financiamento para sua pesquisa porque o governo dos EUA acreditava que suas ideias poderiam ajudar a derrotar ex\u00e9rcitos socialistas. Hayek estava no neg\u00f3cio de derrotar ideias socialistas.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, o conexismo n\u00e3o conseguiu cumprir sua promessa. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, havia ca\u00eddo em desuso no mundo. Ainda assim, redes neurais continuaram a se desenvolver silenciosamente nas d\u00e9cadas seguintes, alcan\u00e7ando alguns avan\u00e7os importantes nos anos 1980 e 1990. Ent\u00e3o, na d\u00e9cada de 2010, ocorreu o salto qu\u00e2ntico do conexismo.<\/p>\n<p>Treinar uma rede neural, como Rosenblatt certa vez observou, requer \u201cexposi\u00e7\u00e3o a uma grande amostra de est\u00edmulos\u201d. O tamanho importa: como as redes neurais aprendem estudando dados, o quanto podem aprender depende, em parte, da quantidade de dados dispon\u00edveis. Durante grande parte da hist\u00f3ria da computa\u00e7\u00e3o, os dados eram caros de armazenar e dif\u00edceis de transmitir. Na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, ambas as barreiras haviam desaparecido. A queda vertiginosa nos custos de armazenamento, combinada com o nascimento e crescimento da Web, significava que uma montanha de palavras, fotos e v\u00eddeos estava acess\u00edvel a qualquer pessoa com conex\u00e3o \u00e0 Internet. Pesquisadores usaram essas informa\u00e7\u00f5es para treinar redes neurais. A abund\u00e2ncia de dados de treinamento, junto a novas t\u00e9cnicas e hardware mais potente, levou a avan\u00e7os r\u00e1pidos em \u00e1reas como processamento de linguagem natural e vis\u00e3o computacional. Hoje, baseado em redes neurais, est\u00e1 em toda parte, atuando em tudo, desde a Siri at\u00e9 carros aut\u00f4nomos e algoritmos que selecionam o conte\u00fado das redes sociais.<\/p>\n<p>As redes neurais tamb\u00e9m sustentam sistemas generativos como o ChatGPT. Tais sistemas s\u00e3o particularmente grandes \u2014 significando que s\u00e3o compostos por muitas camadas de redes neurais \u2014 e seu apetite por dados \u00e9 imenso. A raz\u00e3o pela qual o ChatGPT soa t\u00e3o realista e parece saber tantas coisas sobre o mundo \u00e9 que o \u201cmodelo de linguagem grande\u201d dentro dele foi treinado em terabytes de texto extra\u00eddos da Internet, incluindo milh\u00f5es de sites, artigos da Wikipedia e livros completos. Isto \u00e9 o que Pasquinelli quer dizer quando escreve que as redes neurais da IA contempor\u00e2nea s\u00e3o \u201cn\u00e3o um modelo do c\u00e9rebro biol\u00f3gico, mas da mente coletiva\u201d, um empreendimento social ao qual muitas pessoas contribu\u00edram.<\/p>\n<p>Nem todos est\u00e3o satisfeitos com este fato. A voracidade da IA generativa \u00e9 respons\u00e1vel pelo que o apresentador de podcast Michael Barbaro chama de seu \u201cpecado original\u201d: material com direitos autorais est\u00e1 entre a informa\u00e7\u00e3o ingerida. O <em>New York Times<\/em> processou a OpenAI por viola\u00e7\u00e3o de direitos autorais; assim como a Authors Guild, ao lado de Jonathan Franzen, George Saunders e v\u00e1rios outros escritores. Embora a OpenAI e os outros principais \u201ccriadores de modelo\u201d n\u00e3o divulguem os detalhes de seus dados de treinamento, a OpenAI admitiu que obras protegidas por direitos autorais est\u00e3o inclu\u00eddas \u2014 mas mant\u00e9m que isso se enquadra no uso justo (fair use). Enquanto isso, a demanda por dados de treinamento continua crescendo, compelindo as empresas de tecnologia a encontrar novas maneiras de obt\u00ea-los. OpenAI, Meta e outras firmaram acordos de licenciamento com editoras como Reuters, Axel Springer e Associated Press, e est\u00e3o explorando arranjos semelhantes com est\u00fadios de Hollywood.<\/p>\n<p>Para Pasquinelli, h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o aqui. A depend\u00eancia do contempor\u00e2neo de nossas contribui\u00e7\u00f5es agregadas prova que a intelig\u00eancia \u00e9 um \u201cprocesso social por constitui\u00e7\u00e3o\u201d. Ela \u00e9 comunit\u00e1ria, emergente, difusa \u2014 e, portanto, combina perfeitamente com o paradigma conexista. \u201cN\u00e3o \u00e9 surpresa que a t\u00e9cnica mais bem-sucedida, ou seja, as redes neurais artificiais, seja aquela que melhor consegue espelhar e, portanto, capturar a coopera\u00e7\u00e3o social\u201d, escreve ele.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma colora\u00e7\u00e3o marxista neste argumento: a intelig\u00eancia reside na criatividade das massas. Mas tamb\u00e9m \u00e9 um argumento que poderia ter sido feito pelo profundamente anti-marxista Hayek. O velho austr\u00edaco ficaria gratificado em saber que o \u201cintelecto\u201d do software mais sofisticado da hist\u00f3ria \u00e9 originado das atividades n\u00e3o planejadas de uma multid\u00e3o. Ele teria se divertido ainda mais com o fato de que tal software \u00e9, assim como seu amado mercado, fundamentalmente incognosc\u00edvel.<\/p>\n<p>A estranheza no cerne do boom generativo \u00e9 que ningu\u00e9m realmente sabe como a tecnologia funciona. Sabemos como os grandes modelos de linguagem dentro do ChatGPT e seus equivalentes s\u00e3o treinados, mesmo que nem sempre saibamos em quais dados eles est\u00e3o sendo treinados: pede-se a eles que prevejam a pr\u00f3xima sequ\u00eancia de caracteres em uma sequ\u00eancia. Mas exatamente como eles chegam a qualquer previs\u00e3o espec\u00edfica \u00e9 um mist\u00e9rio. Os c\u00e1lculos que ocorrem dentro do modelo s\u00e3o simplesmente muito intrincados para qualquer humano compreender. Voc\u00ea n\u00e3o pode simplesmente abrir o cap\u00f4 e observar as engrenagens se movendo.<\/p>\n<p>Na aus\u00eancia de observa\u00e7\u00e3o direta, resta um m\u00e9todo mais obl\u00edquo: a interpreta\u00e7\u00e3o. Todo um campo t\u00e9cnico surgiu em torno da \u201cinterpretabilidade\u201d ou \u201cexplicabilidade\u201d, com o objetivo de decifrar como tais sistemas funcionam. Seus praticantes na academia e na ind\u00fastria falam em termos cientificistas, mas seu esfor\u00e7o tem uma qualidade devocional, n\u00e3o diferente da exegese de textos sagrados ou das entranhas de ovelhas rec\u00e9m-sacrificadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um limite para quanto significado pode ser produzido. Os mortais devem contentar-se com verdades parciais. Se os \u201cmonop\u00f3lios de IA\u201d de hoje representam \u201co novo \u2018olho do mestre\u2019\u201d, como Pasquinelli acredita, \u00e9 um olho com um campo de vis\u00e3o limitado. As f\u00e1bricas dos dias de Babbage eram zonas de visibilidade: ao concentrar o trabalho e os trabalhadores, elas colocavam o processo de trabalho plenamente \u00e0 vista. A IA contempor\u00e2nea \u00e9 o oposto. Seu inv\u00f3lucro \u00e9 teimosamente opaco. Nem mesmo o mestre pode ver dentro.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Ela seria antes de tudo ferramenta do capital para controle dos trabalhadores, como sustenta autor italiano? Sua g\u00eanese e aplica\u00e7\u00e3o atuais indicam algo muito mais complexo\u2026 <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/seria-a-ia-o-novo-capataz\/\">Seria a IA o novo capataz?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":48146,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5511,16813,9382,6798,16814,16815,16816,5493,12740],"tags":[],"class_list":["post-48145","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capa","category-charles-babbage","category-chatgpt","category-ia-e-trabalho","category-ia-generativa","category-mente-social","category-pasquinelli","category-tecnologia-em-disputa","category-vale-do-silicio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48145","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48145"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48145\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48146"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48145"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48145"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48145"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}