{"id":48421,"date":"2025-08-29T16:41:17","date_gmt":"2025-08-29T19:41:17","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/por-que-ler-albert-camus-hoje\/"},"modified":"2025-08-29T16:41:17","modified_gmt":"2025-08-29T19:41:17","slug":"por-que-ler-albert-camus-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-que-ler-albert-camus-hoje\/","title":{"rendered":"Por que ler Albert Camus hoje?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"620\" height=\"465\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Sem-titulo-12.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Sem-titulo-12.jpeg 620w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Sem-titulo-12-300x225.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\"><figcaption>Foto: Cecil Beaton\/Cond\u00e8 Nast Archive\/Corbis<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Tornaram-se p\u00fablicos e not\u00f3rios diversos fatos sobre a vida de Albert Camus (1913\u20131960). Que morreu jovem, que adoeceu cedo, que obteve sucesso liter\u00e1rio, mesmo que com um n\u00famero diminuto de obras publicadas em vida, e que, al\u00e9m de talentoso, era ad\u00faltero. Sem embargo, ao excetuar a sedu\u00e7\u00e3o de sua prosa e sua imortalidade \u2014 decorrente, sobretudo, da consagra\u00e7\u00e3o com o Nobel de Literatura de 1957 \u2014, h\u00e1 mais o que falar sobre o cont\u00ednuo interesse, reaquecido recentemente, sobre sua obra.<\/p>\n<p>Especialmente em 2020, as vendas de <em>A peste<\/em> dispararam no Brasil. Desde ent\u00e3o, a editora Record, a casa editorial que comercializa o esp\u00f3lio de Camus em solo brasileiro, lan\u00e7ou textos in\u00e9ditos do autor no pa\u00eds, do mesmo modo que reeditou t\u00edtulos que h\u00e1 muito n\u00e3o circulavam em terras brasileiras \u2014 al\u00e9m de elaborar uma nova identidade visual para a cole\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro, pode-se associar o s\u00fabito interesse coletivo com a experi\u00eancia da pandemia, vivida especialmente entre 2020 e 2021. N\u00e3o obstante, entende-se que essa tese \u00e9 insuficiente para sustentar a atra\u00e7\u00e3o que seu trabalho manteve desperta ap\u00f3s o per\u00edodo assinalado.<\/p>\n<p>Primeiro, fa\u00e7a-se uma ressalva: malgrado <em>A peste<\/em> tenha sido o maior sucesso editorial em vida desse distinto escritor, seu <em>O estrangeiro<\/em> \u00e9 um dos t\u00edtulos liter\u00e1rios mais lidos na hist\u00f3ria da literatura franc\u00f3fona. Esse \u00faltimo, ali\u00e1s, encontra-se atr\u00e1s somente de <em>O pequeno pr\u00edncipe<\/em> (de Antoine de Saint-Exup\u00e9ry) e <em>Vinte mil l\u00e9guas submarinas<\/em> (de Jules Verne).<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MATERIA--26.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/MATERIA--26.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-3-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Logo, os dados corroboram a interpreta\u00e7\u00e3o de que sua literatura ficcional n\u00e3o erodiu com o tempo; ao contr\u00e1rio, seguiu agu\u00e7ando o grande p\u00fablico leitor, mais de seis d\u00e9cadas ap\u00f3s sua morte. N\u00e3o obstante, esse n\u00e3o seria motivo para ignorar a relev\u00e2ncia de outros textos. Afinal, al\u00e9m de captar o interesse da audi\u00eancia, possuem um papel significativo, no que concerne \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da atualidade de suas ideias.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m esclarecer que o corpo de trabalho de Camus n\u00e3o foi constitu\u00eddo aleatoriamente. Na realidade \u2014 esclarecendo \u00e0queles que n\u00e3o o conhecem t\u00e3o bem, de maneira resumida \u2014, o escritor organizou seus trabalhos mais relevantes em \u201cciclos\u201d. Esses foram concebidos em tr\u00edades e elas correspondem a grandes temas de seu interesse, formadas sempre por um ensaio filos\u00f3fico, uma pe\u00e7a teatral e um romance.<\/p>\n<p>Dos ciclos publicados em vida, dois foram inteiramente lan\u00e7ados e trabalhados \u2014 enquanto o terceiro foi abreviado por sua morte, restando apenas uma vers\u00e3o preliminar de <em>O primeiro homem<\/em>. O primeiro tratou do \u201cabsurdo\u201d, composto de <em>Cal\u00edgula<\/em> (pe\u00e7a teatral), <em>O estrangeiro<\/em> (romance) e <em>O mito de S\u00edsifo<\/em> (ensaio filos\u00f3fico), publicados entre 1942 e 1944. Anos depois, veio a segunda tr\u00edade, agora referente \u00e0 \u201crevolta\u201d, a qual, al\u00e9m do romance <em>A peste<\/em>, contava com <em>Estado de s\u00edtio<\/em> (pe\u00e7a) e <em>O homem revoltado<\/em> (ensaio).<\/p>\n<p>Diga-se de passagem, os textos n\u00e3o s\u00e3o correspondentes de equival\u00eancia, ou seja, um n\u00e3o traduz o outro em uma linguagem diferente. Em vez disso, as obras articulam reflex\u00f5es acerca do assunto, dispondo de tratamentos e objetivos distintos.<\/p>\n<p>Dentre os temas que \u00e9 poss\u00edvel destacar, dois sobressaem ao caso: a condi\u00e7\u00e3o humana e a legitima\u00e7\u00e3o do assassinato em nome da efic\u00e1cia pol\u00edtica. Esse \u00faltimo, em especial, teve reflex\u00f5es antecipadas atrav\u00e9s de sua participa\u00e7\u00e3o como jornalista, ao longo da d\u00e9cada de 1940 e, posteriormente, na de 1950. Per\u00edodo em que participou de pleitos p\u00fablicos como publicista e que, ao cabo, marcaram o seu decl\u00ednio na vida p\u00fablica francesa.<\/p>\n<h3><strong>Sobre a condi\u00e7\u00e3o humana<\/strong><\/h3>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o humana da qual Camus falou n\u00e3o \u00e9 a mesma sobre a qual diversos soci\u00f3logos, dentre outras categorias, lan\u00e7aram-se a examinar. Sua quest\u00e3o n\u00e3o concerne \u00e0 desigualdade social, como a maioria dos demais casos parece tratar. Na verdade, sua perspectiva n\u00e3o pertence \u00e0 vida social, <em>grosso modo<\/em>. A esp\u00e9cie de \u201ccondi\u00e7\u00e3o humana\u201d sobre a qual o autor em quest\u00e3o discorreu diz respeito aos limites da exist\u00eancia. Portanto, trata-se de sua gratuidade.<\/p>\n<p>Vale a ressalva: Camus n\u00e3o foi pioneiro, tendo em vista que essa, como tantas outras quest\u00f5es, data desde os gregos antigos. Entretanto, seu argumento recobra diferentes aspectos que resultam em um verniz de originalidade. Quer dizer, \u00e9, no m\u00ednimo, arrojado pensar que algu\u00e9m, j\u00e1 durante a II Guerra Mundial, ousaria dizer que a vida n\u00e3o possui sentido \u2014 e, mais ainda, dizer que quanto menos sentido tiver, melhor ela ser\u00e1 vivida.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 ilus\u00e3o em seu argumento, pois o autor n\u00e3o recha\u00e7a ou tampouco menospreza o fato de que \u201cmuitas pessoas morrem porque consideram que a vida n\u00e3o vale a pena ser vivida\u201d. Sobretudo, se se considerar que, em diversos casos, germina uma crescente melancolia, que as desarma dessa vontade de viver. Leia-se uma invenc\u00edvel aus\u00eancia de sentido, subjacente \u00e0 pr\u00f3pria vida. Assim sendo, adquire valor, essa ideia, ao passo em que se percebe: \u201cos homens morrem e n\u00e3o s\u00e3o felizes\u201d; n\u00e3o obstante, muitos se recusam a aceitar que esse assunto permanece vivo, mesmo que atr\u00e1s de sorrisos ou discursos.<\/p>\n<p>Considerando o exposto, salienta-se que, hoje, vive-se uma epidemia de solid\u00e3o, catalisada pelo uso excessivo de telas, al\u00e9m do pr\u00f3prio isolamento social, em decorr\u00eancia da recente pandemia \u2014 como tem sido bastante divulgado nos \u00faltimos tempos. Al\u00e9m dela, especialmente no caso brasileiro, tamb\u00e9m est\u00e1 em curso o auge da nova precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, aquela em que a maioria de uma gera\u00e7\u00e3o, em troca de uma remunera\u00e7\u00e3o moderadamente melhor, aceitou abdicar de diversos direitos trabalhistas relevantes. Esse fen\u00f4meno, conhecido no popular como \u201cpejotiza\u00e7\u00e3o\u201d, tem, inclusive, \u201ccatequizado\u201d v\u00e1rios jovens a associar a carteira de trabalho \u00e0s camadas baixas da pir\u00e2mide econ\u00f4mico-social.<\/p>\n<p>Ambas as circunst\u00e2ncias est\u00e3o ligadas por uma s\u00e9rie de fatores \u2014 como aumento do tempo da jornada, <em>home office<\/em> e assim sucessivamente \u2014, mas, aqui, deseja-se ressaltar um elemento que, por vezes, \u00e9 esquecido ou tratado de sobrevoo: o valor associado \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o profissional. Segundo uma pesquisa realizada pela antrop\u00f3loga espanhola Esther Solano, houve uma ades\u00e3o das classes C e D brasileiras ao ide\u00e1rio neoliberal, sobretudo, representado pela reprodu\u00e7\u00e3o do discurso de merecimento pr\u00f3prio. <em>Grosso modo<\/em>, perdeu-se o v\u00ednculo de pertencimento \u00e0 classe social \u00e0 qual se pertence e, em compensa\u00e7\u00e3o, v\u00ea-se no ganho salarial (via pejotiza\u00e7\u00e3o) um atalho para ascender socialmente \u2014 ou, ao menos, aparentar.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, dada a situa\u00e7\u00e3o, os sujeitos trabalham mais, investem menos em seu futuro e, como pesquisas recentes t\u00eam mostrado, est\u00e3o cada vez mais insulados em melancolia. A conjuntura atual concerne, assim, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Afinal, trabalhar de oito a doze horas di\u00e1rias, durante seis dos sete dias da semana, enclausuram o sujeito aos limites de seu pr\u00f3prio of\u00edcio.<\/p>\n<p>Escrevendo durante os anos finais do entreguerras e o in\u00edcio da II Guerra Mundial, Camus recorre \u00e0 figura de S\u00edsifo como contraponto. Condenado \u00e0 pena perp\u00e9tua pelos deuses gregos, S\u00edsifo foi obrigado a rolar uma rocha at\u00e9 o topo de uma montanha com um \u00fanico e exclusivo prop\u00f3sito: v\u00ea-la rolar para a base do monte e, ato cont\u00ednuo, reiniciar todo o processo eternamente. Entretanto, \u201c\u00e9 preciso imaginar S\u00edsifo feliz\u201d, insiste Camus. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o do autor se reflete pela permanente queda de bra\u00e7o com a falta de sentido, procurando, atrav\u00e9s do proveito dos prazeres mundanos e particulares, desafiar o infinito do vazio que circunda a humanidade. \u201cA pr\u00f3pria luta para chegar ao cume [do monte no qual se carrega a pr\u00f3pria eterna penit\u00eancia humana] basta para encher o cora\u00e7\u00e3o de um homem\u201d, escreveu. Afinal, deve-se reconhecer que o trabalho \u00e9 sem sentido, como a pr\u00f3pria vida. \u00c9 exatamente por isso que se pode ser livre: sabe-se que tudo isso n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel a tudo aquilo que nos d\u00e1 prazer e toda a experi\u00eancia que tudo o que nos faz feliz nos proporciona.<\/p>\n<p>Como o anti-her\u00f3i da mitologia greco-romana, somos condenados a empurrar nossas pr\u00f3prias rochas para o cume de um morro ao longo da semana, mas fazemos sabendo que aquilo jamais ser\u00e1 capaz de frear nossos cora\u00e7\u00f5es. Longe disso, n\u00e3o h\u00e1 semana de trabalho que propicie o que a arte confere ao esp\u00edrito. Como postulado por Camus: \u201cse o mundo fosse claro, a arte n\u00e3o existiria\u201d.<\/p>\n<p>Transeuntes do ef\u00eamero, n\u00f3s, os humanos, somos t\u00e3o passadi\u00e7os quanto qualquer outra coisa viva. N\u00e3o \u00e9 preciso, tendo isso em mente, recorrer a sofismas ou ao incerto; sen\u00e3o, compreender o vazio que circunda nossa pr\u00f3pria brevidade.<\/p>\n<h3><strong>Pol\u00edtica e moral<\/strong><\/h3>\n<p>Anos depois de publicar <em>O mito de S\u00edsifo<\/em>, a preocupa\u00e7\u00e3o de Camus era outra: a Europa n\u00e3o dava sinais de supera\u00e7\u00e3o da dicotomia estabelecida na II Guerra Mundial, ou seja, era-se v\u00edtima ou carrasco. Da segunda metade da d\u00e9cada de 1940 em diante, o jornalista procurou propor uma refunda\u00e7\u00e3o moral da civiliza\u00e7\u00e3o, de sorte a reorganizar suas rela\u00e7\u00f5es e a maneira de como os sujeitos se posicionavam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria humanidade.<\/p>\n<p>Suas tentativas foram todas em v\u00e3o. Ao passo que procurou interceder moralmente, a sociedade se reconfigurava pautada pelas ideologias em voga. A ru\u00edna da humanidade, anunciada pelos tanques e explos\u00f5es de tropas dos Aliados e do Eixo, foi envernizada pela disputa subsequente, durante a Guerra Fria. Camus n\u00e3o aceitava a situa\u00e7\u00e3o. A viol\u00eancia em regime de exce\u00e7\u00e3o se justificava at\u00e9 certo ponto, por\u00e9m, segundo sua an\u00e1lise, havia se tornado uma pol\u00edtica de Estado.<\/p>\n<p>No decorrer desse debate, rompeu com Sartre, ent\u00e3o defensor da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e se afastou da esquerda comunista. Sentia-se quase que completamente isolado do resto da intelectualidade da Fran\u00e7a da \u00e9poca, como contam seus bi\u00f3grafos. Mais do que seu sentimento de deriva, foi discutivelmente seu pior momento como homem p\u00fablico. Algo que foi agravado anos depois, durante o conflito de independ\u00eancia argelino.<\/p>\n<p>Se, entre estadunidenses e sovi\u00e9ticos, Camus se recusava a aderir a um dos lados, tampouco o fez quando surgiu o confronto entre metr\u00f3pole e col\u00f4nia. Refrat\u00e1rio \u00e0 proposta de garantir a soberania \u00e1rabe no territ\u00f3rio ultramarino \u2014 ainda mais considerando a ascens\u00e3o do pan-arabismo e da espreita franquista \u2014, defendeu uma solu\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Argelino etnicamente franc\u00eas, defendia que a Fran\u00e7a reparasse os mu\u00e7ulmanos da Arg\u00e9lia, garantindo-lhes direitos de toda sorte e uma verdadeira participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Da mesma maneira, condenava os ataques da popula\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana contra <em>pieds noirs<\/em> inocentes, \u201co terrorismo\u201d que era exercido \u201cnas ruas de Argel\u201d, como disse em uma conhecida manifesta\u00e7\u00e3o. Entendia, em s\u00edntese, que a Fran\u00e7a apenas conseguiria alcan\u00e7ar uma democracia leg\u00edtima se fornecesse o mesmo \u00e0 Arg\u00e9lia; entendendo, ademais, os v\u00e1rios povos argelinos (\u00e1rabes, berberes, espanh\u00f3is \u00e9tnicos, gregos \u00e9tnicos, franceses \u00e9tnicos etc.) como filhos da mesma terra: \u201ccondenados a viver e morrer juntos\u201d.<\/p>\n<p>Sua solu\u00e7\u00e3o, na melhor das hip\u00f3teses, era ut\u00f3pica: os franceses metropolitanos precisariam, de bom grado, abrir m\u00e3o de parcela de sua hegemonia pol\u00edtica e, assim, conced\u00ea-la aos mu\u00e7ulmanos da Arg\u00e9lia e, em grau muito menor, aos <em>pieds noirs<\/em>.<\/p>\n<p>Poder-se-ia dizer, n\u00e3o obstante, que sua principal preocupa\u00e7\u00e3o durante a conflagra\u00e7\u00e3o era com a fal\u00eancia moral que se alastrava pela popula\u00e7\u00e3o argelina. Assassinavam-se pais, m\u00e3es, filhos e filhas; jovens e idosos; combatentes e civis, todos supostamente v\u00edtimas das necessidades beligerantes que se impunham como destino do territ\u00f3rio. Fossem elas associadas \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o, \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o colonial, ou qualquer que seja o ideal em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Camus prop\u00f4s que, em carne e osso, os l\u00edderes pol\u00edticos e religiosos se encontrassem em uma mesa redonda com o prop\u00f3sito de ver que o conflito sequer possu\u00eda sentido. Tamb\u00e9m suplicou por tr\u00e9guas, com a finalidade de poupar as vidas dos inocentes e daqueles que eram coagidos ao conflito. Al\u00e9m de advogar pela coexist\u00eancia das diferentes etnias magrebinas, como referido anteriormente.<\/p>\n<p>Malgrado suas ideias repercutiriam possivelmente de modo positivo na atualidade, pelo endosso a valores que hoje parecem ser panflet\u00e1rios; \u00e0 \u00e9poca, foi associado \u00e0 defesa do colonialismo, sem embargo. Feita essa ressalva, bem como a inexequibilidade de suas propostas, h\u00e1 de se reiterar alguns pontos.<\/p>\n<p>Falando grosseiramente, presenciam-se disputas bipolares h\u00e1 algum tempo: Aliados <em>versus<\/em> Eixo, Estados Unidos <em>versus<\/em> Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mais recentemente R\u00fassia <em>versus<\/em> Ucr\u00e2nia e, com dura\u00e7\u00e3o distinta, Israel <em>versus<\/em> Hamas, para n\u00e3o citar outras tantas. Importa salientar a despolitiza\u00e7\u00e3o das coberturas, por um lado, e, por outro, o partidarismo. Se o primeiro deteriora a qualidade do debate a ponto de esterilizar seu conte\u00fado, o segundo, na conforma\u00e7\u00e3o atual, torna-o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 como se, na \u00e9poca de Camus, todos se sentassem \u00e0 mesa e conversassem civilizadamente, esperando sua vez de falar, com interesse verdadeiro no que seus interlocutores tivessem a dizer. Embora houvesse debate, ele n\u00e3o acontecia sem pol\u00eamicas. No entanto, havia debate, como \u00e9 poss\u00edvel aferir atrav\u00e9s da hist\u00f3ria do jornalismo e dos intelectuais.<\/p>\n<p>Os esfor\u00e7os de Camus foram, em determinado sentido, para lembrar seus interlocutores metropolitanos e ultramarinos de que aquela guerra era resultado de uma degrada\u00e7\u00e3o moral generalizada em que as verdadeiras v\u00edtimas eram seus pr\u00f3prios habitantes. Sua experi\u00eancia na pobreza lhe servia como testemunho: via \u00e1rabes e descendentes de europeus conviverem pacificamente. Acreditava na coexist\u00eancia como um expediente, n\u00e3o um horizonte. Diante do fracasso de suas ideias \u2014 em parte, ignoradas, e noutra, vilipendiadas, fez voto de sil\u00eancio sobre a trag\u00e9dia argelina.<\/p>\n<p>No \u00ednterim entre seu sil\u00eancio (em meados de 1956) e o dia de sua morte (nos primeiros dias de 1960), falou em raras ocasi\u00f5es e sem a ambi\u00e7\u00e3o que empregava em seu jornalismo. N\u00e3o obstante, jamais deixou de agir: escreveu cartas e peti\u00e7\u00f5es ao presidente da Rep\u00fablica, intercedendo pela vida de mu\u00e7ulmanos condenados \u00e0 pena de morte. Em alguns casos, com sucesso e noutros sem, mas nunca de costas para aquilo que lhe era caro.<\/p>\n<h3><strong>Palavras finais<\/strong><\/h3>\n<p>Camus n\u00e3o foi um santo salvador, que resolveria os problemas da humanidade e, destarte, tornar-se-ia uma unanimidade capaz de resolver todas as diferen\u00e7as de um tempo hist\u00f3rico turbulento, cujos povos sangravam a torto e a direito. N\u00e3o, era um homem. Apenas um homem. Em certa medida, era um homem como outro qualquer, com a diferen\u00e7a que procurava exercer seu of\u00edcio de homem p\u00fablico por meio de uma irrepreens\u00edvel capacidade de express\u00e3o, desde seus posicionamentos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Desde <em>O homem revoltado<\/em>, apareceram eventuais detratores do homem e de sua obra. Mesmo assim, seu nome permanece, enquanto uma parte de seus difamadores \u00e9 soterrada pelas areias do tempo. As \u00e9pocas passam e novas \u00e9pocas v\u00eam; Camus segue sendo lido. O falso moralismo puritano desempenhado contra ele ora arrefece e ora reaquece, mas \u00e9 sempre incapaz de deteriorar o artesanato que esse pensador p\u00fablico legou a seus leitores.<\/p>\n<p>\u201cEm uma era de intelectuais da m\u00eddia que se autopromovem, enfeitando-se inexpressivamente diante do espelho admirador de seu p\u00fablico eletr\u00f4nico\u201d, escreveu o historiador brit\u00e2nico Tony Judt, \u201ca honestidade patente de Camus tem apelo de um artigo genu\u00edno, uma obra-prima artesanal em um mundo de reprodu\u00e7\u00f5es de pl\u00e1stico\u201d.<\/p>\n<p>Passados os diversos conflitos que pautaram o s\u00e9culo XX, a contemporaneidade permanece, mais ou menos, no mesmo lugar, no que concerne ao tratamento de seu esp\u00edrito. A reflex\u00e3o camusiana sobreviveu relativamente intacta, malgrado \u00e0 sombra do grande brilho e valoriza\u00e7\u00e3o dado \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Afinal, \u00e9 poss\u00edvel considerar que a humanidade segue perturbada por sua falta de sentido.<\/p>\n<p>Tal como o oficial kafkiano de <em>Na col\u00f4nia penal<\/em>, vive-se um comportamento contemplativo, sen\u00e3o hipn\u00f3tico, em dire\u00e7\u00e3o a todo tipo de luz emanada por todo o maquin\u00e1rio dispon\u00edvel no presente. Tem-se terceirizado o encontro e o destino. T\u00e3o logo se permitir\u00e1, ademais, a concess\u00e3o do pr\u00f3prio esp\u00edrito \u2014 h\u00e1 quem o diga, outrossim.<\/p>\n<p>De mesma sorte, tamb\u00e9m sofre com o binarismo superficial em disputas pol\u00edticas. Camus almejou doutrinar o p\u00fablico em dire\u00e7\u00e3o a uma nova moral. Essa seria erigida a partir de um objetivo comum, que, ao menos supostamente, seria a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que agisse e pensasse de maneira coletiva, cujos objetivos estivessem, por primazia, no combate ao arrivismo. A moral que defendia era avessa \u00e0 efic\u00e1cia e baseada em um pacifismo cr\u00edtico e na justi\u00e7a (como valor universal).<\/p>\n<p>Por mais que esses valores, hoje, sejam ut\u00f3picos \u2014 ou, ao menos pare\u00e7am assim \u2014, a atualidade de Camus, portanto, encontra-se em sua fortuna, sem demagogia: reivindicar o humano que pertence ao pr\u00f3prio humano; e \u00e9 preciso, mais do que nunca, imagin\u00e1-lo feliz.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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