{"id":48698,"date":"2025-09-01T11:55:31","date_gmt":"2025-09-01T14:55:31","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/terra-cooperacao-e-socialismo\/"},"modified":"2025-09-01T11:55:31","modified_gmt":"2025-09-01T14:55:31","slug":"terra-cooperacao-e-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/terra-cooperacao-e-socialismo\/","title":{"rendered":"Terra, Coopera\u00e7\u00e3o e Socialismo"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/01_________mst-2-1024x682-1.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/01_________mst-2-1024x682-1.jpeg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/01_________mst-2-1024x682-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/01_________mst-2-1024x682-1-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Arquivo MST<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Cira Pascual Marquina e Chris Gilbert <\/em><br \/><em>Do Monthly Review<\/em><\/p>\n<p>O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil \u00e9 o maior movimento social da Am\u00e9rica Latina, lutando h\u00e1 d\u00e9cadas por uma Reforma Agr\u00e1ria Popular e justi\u00e7a social no Brasil. Desde sua funda\u00e7\u00e3o no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, o MST tem combinado ocupa\u00e7\u00f5es de terras, trabalho cooperativista, forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e internacionalismo para desafiar o sistema latifundi\u00e1rio altamente concentrado do pa\u00eds e resistir \u00e0 expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>O Movimento desenvolveu um modelo de luta coletiva baseado na solidariedade e na mobiliza\u00e7\u00e3o de massas, organizando centenas de milhares de fam\u00edlias no campo brasileiro. Quando o MST ocupa uma \u00e1rea de terra subutilizada ou ociosa, ele primeiro estabelece um acampamento. Um acampamento \u00e9 um m\u00e9todo de a\u00e7\u00e3o direta para pressionar o governo a redistribuir terras em conformidade com as leis de reforma agr\u00e1ria brasileiras. Durante esse per\u00edodo, o movimento organiza a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, trabalho coletivo e autogoverno.<\/p>\n<p>Se a luta for bem-sucedida, o acampamento se transformar\u00e1 em um assentamento , agora reconhecido e legalizado pelo Estado e, portanto, mais est\u00e1vel. Assim como os acampamentos, os assentamentos s\u00e3o projetos coletivos, mesmo que as fam\u00edlias neles mantenham parcelas individuais. Em um assentamento, a terra n\u00e3o pode ser comprada ou vendida. Tecnicamente, ela pertence ao Estado, mas \u00e9 administrada pelo coletivo ou pelo que poder\u00edamos chamar de comuna. Os assentamentos tamb\u00e9m s\u00e3o autogovernados, administram grande parte de sua pr\u00f3pria justi\u00e7a e autogerenciam seus processos educacionais. Em suma, tanto acampamentos quanto assentamentos expressam um alto grau de controle comunit\u00e1rio sobre sua produ\u00e7\u00e3o e vida cotidiana.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da luta pela terra, o MST trabalha para confrontar din\u00e2micas capitalistas mais amplas, adotando a agroecologia, a produ\u00e7\u00e3o cooperativa e a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Todos esses s\u00e3o elementos do que o movimento chama de \u201cReforma Agr\u00e1ria Popular\u201d. A ideia da \u201cReforma Agr\u00e1ria Popular\u201d \u00e9 que, em um mundo onde o capital financeiro e as corpora\u00e7\u00f5es multinacionais dominam a agricultura, n\u00e3o basta garantir terra para os sem-terra. \u00c9 preciso tamb\u00e9m desenvolver um modelo alternativo de produ\u00e7\u00e3o e vida, que incorpore princ\u00edpios socialistas e ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, Jo\u00e3o Pedro Stedile, porta-voz e fundador do MST, discute a \u00eanfase do Movimento na luta coletiva e na solidariedade, os desafios da organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o cooperativa e a evolu\u00e7\u00e3o dos objetivos do MST em resposta \u00e0s mudan\u00e7as na economia capitalista. Ele tamb\u00e9m examina a estrat\u00e9gia do MST de construir alian\u00e7as entre a classe trabalhadora rural e urbana e seu engajamento com as lutas internacionais, particularmente com o movimento comunit\u00e1rio na Venezuela.<\/p>\n<p>Num momento em que o capitalismo aprofunda as desigualdades e a destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, as experi\u00eancias e propostas do MST oferecem valiosos insights para a constru\u00e7\u00e3o de um futuro socialista.<\/p>\n<p><em>\u2014CG e CPM<\/em><\/p>\n<p><strong>Cira Pascual Marquina e Chris Gilbert:<\/strong> Desde os prim\u00f3rdios do MST, na d\u00e9cada de 1980, a organiza\u00e7\u00e3o tem se concentrado na reforma agr\u00e1ria e fez da ocupa\u00e7\u00e3o e do uso coletivo da terra uma parte fundamental do seu projeto. Voc\u00ea pode explicar por que a organiza\u00e7\u00e3o enfatiza a coletividade e a coopera\u00e7\u00e3o? Que tipos de comunidades \u2014 com quais valores e pr\u00e1ticas \u2014 s\u00e3o criadas antes, durante e depois da ocupa\u00e7\u00e3o da terra?<\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Pedro Stedile<\/strong> : O MST se baseou em dois conceitos-chave da experi\u00eancia hist\u00f3rica da classe trabalhadora em geral e <em>dos camponeses<\/em> em particular: luta de massas e solidariedade.<\/p>\n<p>Acreditamos que somente a luta de massas pode alcan\u00e7ar conquistas sociais e organizar as pessoas de forma eficaz. Se voc\u00ea quer mudar de vida, precisa participar da luta de massas, pois \u00e9 a\u00ed que reside a verdadeira for\u00e7a: nas pessoas. Como for\u00e7a organizadora, a luta de massas \u00e9 mais eficaz do que a motiva\u00e7\u00e3o do trabalho coletivo por si s\u00f3. \u00c9 por isso que, no trabalho de base do nosso movimento, vinculamos a luta de massas ao poder pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Nossa for\u00e7a n\u00e3o vem de nossos argumentos ou ideias; ela vem do n\u00famero de pessoas que conseguimos mobilizar. Desde o in\u00edcio, adotamos um m\u00e9todo que envolve a todos \u2014 crian\u00e7as, jovens, homens, mulheres e idosos. Toda a fam\u00edlia deve participar de uma ocupa\u00e7\u00e3o de terra para que ela tenha sucesso. Uma ocupa\u00e7\u00e3o de terra \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o coletiva de massa que deve gerar for\u00e7a suficiente para criar conflito e obrigar o governo nacional, o Estado, a aplicar as leis da reforma agr\u00e1ria. <a href=\"https:\/\/monthlyreview.org\/2025\/07\/01\/land-cooperation-and-socialism\/#en1\"><sup>1<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O segundo conceito que permeia o nosso movimento \u00e9 a solidariedade, que vemos como um princ\u00edpio civilizat\u00f3rio da raz\u00e3o humana. Os seres humanos s\u00f3 podem se realizar verdadeiramente e encontrar a felicidade por meio da solidariedade, que \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, ajuda m\u00fatua. O que isso significa? Para ocupar terras e mudar minha vida, devo me unir a outros em um ato de solidariedade como igual. Ao mesmo tempo, essas a\u00e7\u00f5es coletivas tamb\u00e9m geram uma solidariedade mais ampla da sociedade e da classe trabalhadora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa luta. Esse princ\u00edpio define nosso movimento desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>Outro desafio importante \u00e9 organizar a produ\u00e7\u00e3o depois que os povos recuperam a terra e formam o que chamamos de <em>assentamento<\/em> no Brasil. Inicialmente, havia uma forte vontade pol\u00edtica de desenvolver a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola coletivamente. No entanto, tanto nossa experi\u00eancia quanto a dos camponeses em geral t\u00eam mostrado que o trabalho cooperativo na agricultura pode ser bastante dif\u00edcil. Cada campon\u00eas interage com a natureza de forma diferente, seguindo seus pr\u00f3prios ritmos e hor\u00e1rios de trabalho. Alguns acordam cedo para come\u00e7ar suas tarefas, enquanto outros dormem at\u00e9 mais tarde e come\u00e7am mais tarde. Alguns levam seus filhos para a ro\u00e7a, enquanto outros n\u00e3o. Com o tempo, nossa experi\u00eancia vivida nos ensinou que, quando se trata de cultivar a terra, a coletiviza\u00e7\u00e3o nem sempre funciona.<\/p>\n<p>Como organizar o trabalho campon\u00eas [nos campos] coletivamente se mostrou desafiador, mudamos nosso foco para estruturas cooperativas em outras \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o. Por exemplo, o MST estabeleceu cooperativas para adquirir m\u00e1quinas agr\u00edcolas ou gerenciar a comercializa\u00e7\u00e3o de produtos agr\u00edcolas, incluindo plantas de processamento e instala\u00e7\u00f5es de armazenamento. Avan\u00e7amos para o est\u00e1gio de agroindustrializa\u00e7\u00e3o cooperativa, desenvolvendo empreendimentos para produ\u00e7\u00e3o de leite, fornecimento de cadeia fria e muito mais. A produ\u00e7\u00e3o agroindustrial \u00e9 complexa, exigindo que diversas tarefas sejam realizadas com precis\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o \u2014 por exemplo, no processamento e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos. \u00c9 a\u00ed que nossos esfor\u00e7os cooperativos est\u00e3o agora concentrados.<\/p>\n<p><strong>CPM e CG<\/strong> : A contradi\u00e7\u00e3o entre cidade e campo muda ao longo do tempo, resultando em produtores camponeses ou campesinos vivenciando diferentes formas de opress\u00e3o. Hoje, o capital financeiro e as corpora\u00e7\u00f5es multinacionais dominam os pequenos produtores, mesmo quando estes possuem suas pr\u00f3prias terras. A resposta deve ser, portanto, uma reforma agr\u00e1ria abrangente e multifacetada. Ela deve incluir a recupera\u00e7\u00e3o de terras, a (re)apropria\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia, a promo\u00e7\u00e3o da vida cultural e social no campo, o desenvolvimento da agroecologia, a conquista da soberania alimentar e a defesa dos direitos da natureza. Como o MST se engaja nessas \u00e1reas e por que recorre a solu\u00e7\u00f5es cooperativas ou comunit\u00e1rias?<\/p>\n<p><strong>JPS<\/strong> : Ao longo do s\u00e9culo XX, a maioria dos pa\u00edses operou sob a hegemonia do capitalismo industrial. Para o capitalismo industrial, era conveniente integrar os camponeses ao mercado, raz\u00e3o pela qual as reformas agr\u00e1rias foram implementadas na maioria das na\u00e7\u00f5es industrializadas do Norte Global. Chamamos essas reformas de \u201ccl\u00e1ssicas\u201d porque foram as primeiras; envolveram a expropria\u00e7\u00e3o de grandes propriedades e a redistribui\u00e7\u00e3o de terras aos camponeses. Esses camponeses foram ent\u00e3o integrados ao mercado interno. Consumiam o que era produzido pela ind\u00fastria e tamb\u00e9m o que era produzido para a agroind\u00fastria.<\/p>\n<p>Embora essas reformas agr\u00e1rias cl\u00e1ssicas tenham desempenhado um papel significativo no desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, elas tamb\u00e9m representaram uma alian\u00e7a entre a burguesia industrial \u2014 que se opunha ao latif\u00fandio e \u00e0 oligarquia rural \u2014 e os camponeses que precisavam de terra para trabalhar. No entanto, como voc\u00ea apontou, desde a d\u00e9cada de 1990, o setor hegem\u00f4nico do capital mudou do capital industrial para o capital financeiro e suas corpora\u00e7\u00f5es multinacionais que dominam o mercado mundial e, por extens\u00e3o, a agricultura. Ao contr\u00e1rio do modelo anterior, que mantinha uma alian\u00e7a com os camponeses, h\u00e1 um novo modo de explorar a agricultura, conhecido como <em>agroneg\u00f3cio<\/em> . \u00c9 a maneira do grande capital dominar a agricultura como um todo. Envolve monocultura em larga escala, uso generalizado de sementes geneticamente modificadas, mecaniza\u00e7\u00e3o intensiva e uso generalizado de fertilizantes qu\u00edmicos e pesticidas.<\/p>\n<p>Diante desse novo modelo capitalista, o bloco campon\u00eas teve que repensar seu projeto, que n\u00e3o poderia mais se concentrar exclusivamente na posse da terra. Em vez disso, teria que abordar a reorganiza\u00e7\u00e3o da agricultura em geral. Novos programas, n\u00e3o apenas focados na defesa do pequeno produtor, come\u00e7aram a ser desenvolvidos. Chamamos nosso programa de \u201creforma agr\u00e1ria popular\u201d, mas em outras partes da Am\u00e9rica Latina ele \u00e9 chamado de \u201creforma agr\u00e1ria integral\u201d ou, quando se busca um foco mais pol\u00edtico, \u201creforma agr\u00e1ria radical\u201d. Esses s\u00e3o apenas nomes. No entanto, o importante \u00e9 que o programa agora \u00e9 diferente. Temos que pensar na agricultura como um todo e responder com novos paradigmas. Antigamente, as reformas agr\u00e1rias em favor dos camponeses, como exemplificadas por excel\u00eancia pela reforma de Emiliano Zapata durante a Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana, tiveram enorme influ\u00eancia em toda a Am\u00e9rica Latina. No entanto, o projeto n\u00e3o pode se limitar a distribuir a terra; tem que se concentrar em responder \u00e0s necessidades de todo o povo. Portanto, nosso objetivo agora \u00e9 atender \u00e0s necessidades do <em>povo<\/em> como um todo, e precisamos fazer isso com novos paradigmas. Na \u00e9poca de Zapata e nas reformas agr\u00e1rias asi\u00e1ticas, os camponeses buscavam se libertar da explora\u00e7\u00e3o dos latif\u00fandios ou dos senhores feudais. No entanto, no mundo de hoje, a reforma agr\u00e1ria popular deve visar, acima de tudo, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis \u200b\u200bpara toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso significa empregar a agroecologia como m\u00e9todo de produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Al\u00e9m disso, devemos defender a natureza. Se n\u00e3o reflorestarmos, protegermos as fontes de \u00e1gua e salvaguardarmos a biodiversidade, a vida neste planeta n\u00e3o ser\u00e1 sustent\u00e1vel. J\u00e1 estamos testemunhando os efeitos devastadores das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que est\u00e3o colocando milh\u00f5es de pessoas em perigo e ceifando muitas vidas. No ver\u00e3o passado, mais de 50 mil pessoas morreram na Europa devido ao calor extremo. No meu estado natal, no Brasil [Rio Grande do Sul], um dil\u00favio real afetou cerca de 5 milh\u00f5es de pessoas. Felizmente, o n\u00famero de mortos foi relativamente baixo \u2014 cerca de duzentas \u2014, mas planta\u00e7\u00f5es foram destru\u00eddas e milhares perderam suas casas, incluindo meu filho. Este \u00e9 o futuro que o capitalismo est\u00e1 criando. Cabe a n\u00f3s, nas \u00e1reas rurais, defender a natureza para que a vida neste planeta possa continuar para todos.<\/p>\n<p>A nova reforma agr\u00e1ria popular tamb\u00e9m se concentra no que chamamos de <em>emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em> . Isso significa que, na terra que reivindicamos, al\u00e9m de produzir alimentos, proteger a natureza e salvaguardar a \u00e1gua e a biodiversidade, devemos tamb\u00e9m forjar novas rela\u00e7\u00f5es sociais entre os povos que a habitam.<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o se trata apenas de defender o modo de vida campon\u00eas. Precisamos de escolas, agroind\u00fastrias e, acima de tudo, novas rela\u00e7\u00f5es humanas. A vida deve ser emancipat\u00f3ria, baseada na conviv\u00eancia, no respeito \u00e0 diversidade, \u00e0s mulheres, \u00e0s diversas identidades sexuais, aos negros e pardos, a todas as culturas. Este \u00e9 o novo paradigma que estamos construindo; uma tarefa cont\u00ednua e permanente.<\/p>\n<p>No fim das contas, este n\u00e3o \u00e9 apenas um programa te\u00f3rico escrito no papel que as pessoas simplesmente seguir\u00e3o. \u00c9 um processo educacional cont\u00ednuo, um processo de autoforma\u00e7\u00e3o e autotransforma\u00e7\u00e3o dentro das comunidades. Requer mudan\u00e7as na economia de maneiras que tamb\u00e9m transformem a sociedade. Por exemplo, n\u00e3o podemos superar o patriarcado sem garantir que as mulheres tenham renda e trabalho aut\u00f4nomo. Ningu\u00e9m imagina um futuro em que as mulheres trabalhem no campo o dia todo como bestas de carga. O que buscamos \u00e9 trabalho digno e renda para as mulheres, para os jovens, para todos. Para n\u00f3s, isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com o desenvolvimento de cooperativas agroindustriais. A produ\u00e7\u00e3o cooperativa criar\u00e1 novas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais capazes de combater as distor\u00e7\u00f5es do capitalismo \u2014 o patriarcado, a discrimina\u00e7\u00e3o racial e todas as outras formas de opress\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>CPM e CG<\/strong> : O capitalismo evoluiu de tal forma que hoje a burguesia \u00e9 incapaz de liderar um processo de liberta\u00e7\u00e3o e desenvolvimento nacional; somente a classe trabalhadora pode faz\u00ea-lo. Pode-se argumentar que \u00e9 por isso que, mesmo que o MST tenha come\u00e7ado inicialmente confrontando uma contradi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica no capitalismo \u2013 a batalha pela reforma agr\u00e1ria \u2013, a dial\u00e9tica da luta levou o movimento a desafiar o sistema capitalista como um todo. Desde 1990, o MST adotou o socialismo como seu objetivo estrat\u00e9gico. Hoje, ele v\u00ea sua tarefa como nada menos do que organizar toda a classe trabalhadora para enfrentar o capitalismo e o imperialismo. Gostar\u00edamos de ouvir suas reflex\u00f5es sobre essa trajet\u00f3ria e como a luta do MST pelo controle coletivo da terra e pela constru\u00e7\u00e3o de cooperativas se encaixa em uma estrat\u00e9gia nacional mais ampla voltada para o socialismo. Al\u00e9m disso, como esse projeto se traduz em uma estrat\u00e9gia internacional?<\/p>\n<p><strong>JPS<\/strong> : O socialismo n\u00e3o \u00e9 idealismo nem uma f\u00f3rmula pronta que resolve tudo. Trata-se de superar o capitalismo em sua totalidade \u2014 da explora\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e muito mais. Embora sejamos um movimento campon\u00eas que defende o projeto de uma reforma agr\u00e1ria popular, sabemos que, para alcan\u00e7ar essa reforma hoje, um paradigma centrado apenas nas for\u00e7as camponesas n\u00e3o \u00e9 suficiente. Isso \u00e9 especialmente verdade porque, na maioria dos nossos pa\u00edses, os camponeses s\u00e3o uma minoria. A maioria da classe trabalhadora est\u00e1 nas cidades, o que significa que nosso trabalho pol\u00edtico deve ser feito em conjunto com os setores urbanos. Essa unidade ser\u00e1 constru\u00edda por meio de um programa que defenda o acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, \u00e0 renda e ao trabalho para todos, e tamb\u00e9m defenda a natureza.<\/p>\n<p>Mas o que est\u00e1 acontecendo agora? Desde a ascens\u00e3o do neoliberalismo e o dom\u00ednio do capital financeiro e das multinacionais, vivemos uma \u00e9poca hist\u00f3rica em que o movimento de massas est\u00e1 em decl\u00ednio, aliado a uma crise ideol\u00f3gica na esquerda. A dial\u00e9tica da luta de classes tem seus altos e baixos, que tamb\u00e9m afetam o campo. No entanto, devemos reconhecer que esta \u00e9 uma fase hist\u00f3rica particular \u2014 uma que, como todas as outras, n\u00e3o durar\u00e1 para sempre. Eric Hobsbawm e os historiadores marxistas brit\u00e2nicos nos ensinaram que a luta de classes, tanto nacional quanto globalmente, ocorre em ondas. H\u00e1 momentos em que as massas tomam a iniciativa e impulsionam os movimentos, e h\u00e1 momentos de refluxo, quando as massas s\u00e3o derrotadas e a burguesia afirma a hegemonia total.<\/p>\n<p>No entanto, tamb\u00e9m h\u00e1 per\u00edodos em que vivenciamos um retorno ao equil\u00edbrio de for\u00e7as e as massas come\u00e7am a se levantar novamente. Na minha opini\u00e3o, sofremos uma grande derrota com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o consequente fim do bloco socialista. Esse evento provocou um refluxo nos movimentos de massa em todo o Ocidente. Eu diria que ainda estamos nesse momento, mas j\u00e1 conseguimos reequilibrar a situa\u00e7\u00e3o em muitos pa\u00edses e as massas est\u00e3o come\u00e7ando a se levantar novamente. No entanto, ainda n\u00e3o somos um movimento internacional, o que \u00e9 crucial para o sucesso de nossas lutas. A \u00fanica vantagem, se podemos cham\u00e1-lo assim, \u00e9 que o capitalismo se tornou totalmente internacionalizado. \u00c9 por isso que tamb\u00e9m devemos canalizar nossa energia para a constru\u00e7\u00e3o de conex\u00f5es internacionais que, a m\u00e9dio prazo, lan\u00e7ar\u00e3o as bases para um ressurgimento dos movimentos de massa em escala global.<\/p>\n<p>A outra quest\u00e3o a considerar \u00e9 que, nesta nova fase de renascimento do movimento de massas, provavelmente veremos um per\u00edodo de governos populares no poder antes do pr\u00f3prio socialismo emergir. A Venezuela \u00e9 um exemplo. N\u00e3o houve uma revolu\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, mas sim um ressurgimento do movimento de massas que come\u00e7ou com o Caracazo em 1989 [uma rebeli\u00e3o popular]. A repress\u00e3o popular durante o Caracazo provocou profunda indigna\u00e7\u00e3o em setores das For\u00e7as Armadas, levando \u00e0 rebeli\u00e3o de 1992 e ao surgimento de um l\u00edder, Hugo Ch\u00e1vez. Ent\u00e3o, em 1998, Ch\u00e1vez foi eleito e um governo popular assumiu o poder. No entanto, ainda n\u00e3o era um governo resultante de uma revolu\u00e7\u00e3o [cl\u00e1ssica].<\/p>\n<p>No Brasil, n\u00e3o temos sequer um governo popular nesse sentido. Lula, embora venha de um partido de esquerda [o Partido dos Trabalhadores, PT], governa por meio de uma alian\u00e7a com setores da burguesia. \u00c9 um governo de frente ampla que visa conter a ascens\u00e3o da extrema direita. No Brasil de hoje, ainda n\u00e3o existem as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e organizacionais necess\u00e1rias para acumular for\u00e7as revolucion\u00e1rias, o que significa que o ressurgimento do movimento de massas ainda est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p><strong>CPM e CG<\/strong> : O MST mant\u00e9m uma brigada na Venezuela desde 2005, que tem trabalhado muito com as comunas. O projeto comunal socialista de Hugo Ch\u00e1vez influenciou o MST? Por outro lado, houve influ\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o oposta?<\/p>\n<p><strong>JPS<\/strong> : Acredito que houve um processo de integra\u00e7\u00e3o e aprendizado m\u00fatuo entre venezuelanos, brasileiros e latino-americanos em geral. Desenvolvemos diversas formas de nos unir. Um exemplo importante, de longa data, \u00e9 o papel do movimento campon\u00eas na luta contra o neoliberalismo e a iniciativa dos EUA de impor a \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas [ALCA]. A ALCA teria submetido nossos pa\u00edses \u00e0 completa liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado sob o dom\u00ednio do capital americano. No in\u00edcio dos anos 2000, a luta contra a ALCA resultou na uni\u00e3o e no trabalho conjunto de in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es latino-americanas. A luta culminou na hist\u00f3rica marcha de 2005 em Mar del Plata [Argentina], onde derrotamos e enterramos com sucesso a ALCA.<\/p>\n<p>A luta continental contra a ALCA tamb\u00e9m levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novos \u00f3rg\u00e3os de coordena\u00e7\u00e3o, como a Coordenadora Latino-Americana de Organiza\u00e7\u00f5es Rurais [CLOC-V\u00eda Campesina]. Desde sua cria\u00e7\u00e3o, camponeses venezuelanos e trabalhadores rurais de toda a Am\u00e9rica Latina participaram da CLOC. Em seguida, foi criada a ALBA Movements [Alian\u00e7a Bolivariana para os Movimentos dos Povos da Nossa Am\u00e9rica], que seria a contrapartida da ALCA. Esses projetos internacionalistas serviram \u2014 e continuam a servir \u2014 como espa\u00e7os de integra\u00e7\u00e3o, onde trocamos experi\u00eancias e constru\u00edmos solidariedade. Posteriormente, os Movimentos da ALBA enviaram brigadas pela Am\u00e9rica Latina com diversos objetivos. Essas brigadas foram inspiradas pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, que as desenvolveu desde seus prim\u00f3rdios como um m\u00e9todo para organizar a milit\u00e2ncia em um coletivo que enfrentaria desafios espec\u00edficos.<\/p>\n<p>A primeira grande brigada que os cubanos organizaram nos primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o foi uma brigada de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Posteriormente, formaram brigadas para colher cana-de-a\u00e7\u00facar e, com o tempo, essas brigadas viajaram pelo mundo, refletindo seu esp\u00edrito internacionalista de solidariedade com outros povos. Milhares de cubanos passaram a apoiar outros pa\u00edses em \u00e1reas como sa\u00fade, agronomia e educa\u00e7\u00e3o. Isso representa um processo de aprendizado coletivo que n\u00e3o afetou apenas o Brasil, a Venezuela e Cuba \u2014 o esp\u00edrito das brigadas se espalhou por toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O MST tamb\u00e9m promoveu brigadas em v\u00e1rios pa\u00edses \u2014 sempre a convite de organiza\u00e7\u00f5es locais de base e dentro de um contexto de entendimento m\u00fatuo. Tivemos brigadas em Cuba, Haiti, Am\u00e9rica Central, Col\u00f4mbia e Paraguai, e uma brigada permanente aqui na Venezuela. Tamb\u00e9m enviamos brigadas para v\u00e1rios pa\u00edses africanos.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s aprendemos muito com essas experi\u00eancias, e elas nos ajudam a desenvolver nossas ideias e programas de novas maneiras. As brigadas nos ajudam a abordar problemas comuns na agricultura, na educa\u00e7\u00e3o em geral, na forma\u00e7\u00e3o de quadros ou na \u00e1rea da sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>CPM e CG<\/strong> : Por fim, gostar\u00edamos de ouvir suas reflex\u00f5es sobre a comuna, entendida em sentido amplo como um mecanismo para desmantelar o metabolismo do capital por meio do autogoverno democr\u00e1tico e do controle coletivo sobre as condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p><strong>JPS<\/strong> : Na Venezuela, devido \u00e0 sua cultura pol\u00edtica, as pessoas usam o termo \u201ccomuna\u201d. A comuna pode ser entendida de duas maneiras: por um lado, como um espa\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o de processos produtivos ou, por outro, como um espa\u00e7o de poder pol\u00edtico nos n\u00edveis municipal e distrital. Prefiro pensar na comuna como uma experi\u00eancia de coopera\u00e7\u00e3o produtiva, que \u00e9 a quest\u00e3o central.<\/p>\n<p>Para acumular for\u00e7as para superar o capitalismo e alcan\u00e7ar o socialismo, precisamos gerar diversas formas de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o que empoderem as pessoas. \u00c9 somente no local de produ\u00e7\u00e3o que as pessoas podem controlar os produtos do seu trabalho e desenvolver novas rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o. Como mencionei ao discutir a experi\u00eancia brasileira, \u00e9 por meio da coopera\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o que se pode desenvolver um novo n\u00edvel de consci\u00eancia de classe nas massas e entre os militantes. Mesmo que se ofere\u00e7a educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, aulas de literatura, cursos de hist\u00f3ria e assim por diante, a consci\u00eancia de massa s\u00f3 avan\u00e7ar\u00e1 por meio da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A comuna \u00e9 uma forma de organizar a coopera\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o, mas, sem d\u00favida, existem outras formas, com nomes diferentes, aqui na Venezuela e em toda a Am\u00e9rica Latina. Por exemplo, na Venezuela, fala-se do <em>conuco<\/em> como um modelo agroecol\u00f3gico enraizado nas tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Outras formas associativas ou cooperativas tamb\u00e9m podem persistir e devem ser levadas em considera\u00e7\u00e3o. Existem m\u00faltiplas maneiras de desenvolver formas colaborativas de trabalho. Em \u00faltima an\u00e1lise, o objetivo \u00e9 organizar o trabalho e a produ\u00e7\u00e3o de forma cooperativa.<\/p>\n<h2>Notas<\/h2>\n<ol>\n<li>O MST se apoia em dois marcos legais fundamentais para apoiar suas ocupa\u00e7\u00f5es de terra e pressionar por uma reforma agr\u00e1ria popular. O primeiro \u00e9 o Estatuto da Terra de 1964, que define os princ\u00edpios da posse da terra, enfatizando a produtividade e estabelecendo mecanismos para a desapropria\u00e7\u00e3o de terras improdutivas. O segundo \u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira de 1988, particularmente os Artigos 184 e 186, que autorizam o governo a desapropriar terras que n\u00e3o cumpram sua fun\u00e7\u00e3o social da propriedade . Essa fun\u00e7\u00e3o social \u00e9 definida pelo uso racional e adequado, preserva\u00e7\u00e3o ambiental e benef\u00edcios tanto para propriet\u00e1rios quanto para trabalhadores. Tal legisla\u00e7\u00e3o fornece uma base legal para uma reforma agr\u00e1ria popular, permitindo que terras improdutivas sejam desapropriadas e redistribu\u00eddas aos trabalhadores rurais sem terra.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Link original: <a href=\"https:\/\/monthlyreview.org\/2025\/07\/01\/land-cooperation-and-socialism\/#lightbox\/0\/\">https:\/\/monthlyreview.org\/2025\/07\/01\/land-cooperation-and-socialism\/#lightbox\/0\/<\/a>\u00a0<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/09\/01\/terra-cooperacao-e-socialismo\/\">Terra, Coopera\u00e7\u00e3o e Socialismo<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/cultura\/2025\/11\/noite-dos-museus-reune-mais-de-100-atracoes-neste-sabado-29\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Palacio-Piratini-Credito-For-Real-Company-5X6A1335-scaled.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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