{"id":49768,"date":"2025-09-04T18:11:42","date_gmt":"2025-09-04T21:11:42","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/quando-a-escola-publica-vira-dados-e-negocios\/"},"modified":"2025-09-04T18:11:42","modified_gmt":"2025-09-04T21:11:42","slug":"quando-a-escola-publica-vira-dados-e-negocios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/quando-a-escola-publica-vira-dados-e-negocios\/","title":{"rendered":"Quando a escola p\u00fablica vira dados e neg\u00f3cios"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"444\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/ilustracao-de-armazenamento-dados_53876-5287.avif\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/ilustracao-de-armazenamento-dados_53876-5287.avif 740w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/ilustracao-de-armazenamento-dados_53876-5287-300x180.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\"><figcaption>Arte: Freepik<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A hist\u00f3ria da Business Intelligence (BI) \u00e9 resultado de uma ci\u00eancia colaborativa voltada ao controle de informa\u00e7\u00e3o. Seus princ\u00edpios fundamentais foram moldados por d\u00e9cadas por uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicos, acad\u00eamicos e profissionais que responderam \u00e0s crescentes necessidades do mercado por uma gest\u00e3o empresarial com controle de informa\u00e7\u00e3o. Esta hist\u00f3ria est\u00e1 intrinsecamente ligada aos avan\u00e7os na computa\u00e7\u00e3o e a uma mudan\u00e7a na forma como as organiza\u00e7\u00f5es empresariais passaram a encarar e usar os seus dados, como um ativo financeiro. Portanto, n\u00e3o estamos falando apenas de \u201corganiza\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cotimiza\u00e7\u00e3o\u201d de informa\u00e7\u00f5es. Uma empresa pode administrar os seus dados, mas como estes s\u00e3o ativos financeiros, eles dinamizam os processos matematizados constituindo os pr\u00f3prios princ\u00edpios de funcionamento de uma ferramenta BI.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma natureza cient\u00edfica nos princ\u00edpios da Business Intelligence, pois se trata de um corpo de conhecimento estruturado e metodol\u00f3gico. Os tais \u201cprinc\u00edpios\u201d s\u00e3o fundamentos conceituais e arquitet\u00f4nicos da tecnologia que visa buscar rigor, confiabilidade e replicabilidade aos processos de transforma\u00e7\u00e3o de dados em percep\u00e7\u00f5es e ideias. Essas ideias s\u00e3o como uma receita testada e aprovada, que re\u00fane conhecimentos de v\u00e1rias \u00e1reas, como computa\u00e7\u00e3o, matem\u00e1tica, administra\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o, para funcionar na pr\u00e1tica. Elas s\u00e3o tecnologias s\u00e9rias porque seguem um m\u00e9todo organizado, que permite dados testados e melhorados constantemente com base naquilo que \u00e9 apontando no processo de sua alimenta\u00e7\u00e3o. No cerne desta estrutura encontra-se o princ\u00edpio da \u201cfonte \u00fanica da verdade\u201d, que na ci\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite a ambiguidade e a contradi\u00e7\u00e3o, porque opera por meio da consolida\u00e7\u00e3o e limpeza de dados num reposit\u00f3rio central. Este conceito est\u00e1 enraizado na teoria de bases de dados, para gerar \u201cprecis\u00e3o\u201d e \u201cconsist\u00eancia\u201d desses elementos. Por este princ\u00edpio, julga-se ter an\u00e1lises sem a inconsist\u00eancia de dados subjacentes ou considerados como inapropriados.<\/p>\n<p>Para uma boa compreens\u00e3o, vamos dar um exemplo simples: imagine que uma empresa \u00e9 como uma grande casa que precisa ser organizada. Em vez de guardar as coisas aleatoriamente ou de acordo com quem as usou por \u00faltimo, entende-se que o ideal \u00e9 organiz\u00e1-las por assuntos importantes que nunca mudam, como \u201croupas\u201d, \u201cutens\u00edlios de cozinha\u201d ou \u201cferramentas\u201d. \u00c9 isso que significa orientar os dados pelos assuntos centrais do neg\u00f3cio, como clientes, produtos e vendas. Essa organiza\u00e7\u00e3o facilita enxergar a casa por completo e tomar decis\u00f5es, para apresentar o que falta, onde investir, onde cada objeto est\u00e1 etc.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-2-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-2-1.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Aqui, vamos discernir sobre estes princ\u00edpios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Para entender essa m\u00e1quina devemos ter em mente que o fundamental \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o de valor quando os dados brutos (n\u00fameros soltos, listas etc.) s\u00e3o processados e transformados em conhecimento. A BI busca transformar pontos isolados em uma an\u00e1lise completa. Dados s\u00e3o tornados informa\u00e7\u00f5es que permitem as tomadas de decis\u00e3o. Al\u00e9m disso, o desenho de tal m\u00e1quina tem que permitir acesso visual e objetivo, e estes elementos normalmente aparecem na forma de formul\u00e1rios e tabelas, o que permite resultados em gr\u00e1ficos.<\/p>\n<p>Os princ\u00edpios da BI constituem um sistema operacional, informacional, que se apresenta como um rigor cient\u00edfico associada \u00e0 pr\u00e1tica empresarial. A sua efic\u00e1cia reside na aplica\u00e7\u00e3o combinada e coerente destes preceitos, que em conjunto, segundo os seus admiradores, transformam a incerteza em clareza, e os dados em decis\u00e3o. A cientificidade do BI n\u00e3o est\u00e1 na aplica\u00e7\u00e3o disciplinada de um m\u00e9todo que torna a tomada de decis\u00e3o mais informada e como gostam de dizer os gestores, \u201cestrat\u00e9gica\u201d. Portanto, a implementa\u00e7\u00e3o da Super BI pela SEDUC-SP, nas escolas p\u00fablicas, serve fundamentalmente como\u00a0<strong>tecnologia de gest\u00e3o empresarial. <\/strong>Ela n\u00e3o funciona como uma ferramenta pensada para aprimorar a educa\u00e7\u00e3o em sua ess\u00eancia. Quando o governo do estado diz que esta ferramenta foi \u201cadaptada\u201d para fins de gest\u00e3o escolar, n\u00e3o est\u00e3o mentido. Essa tecnologia foi acomodada \u00e0s escolas. As escolas s\u00e3o apenas o terreno de sua aplicabilidade.<\/p>\n<h3><strong>Breve hist\u00f3rico da tecnologia em quest\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Um poss\u00edvel marco conceitual inicial ocorreu em 1958, quando o pesquisador da IBM, Hans Peter Luhn cunhou o termo \u201cBusiness Intelligence\u201d, ou ao menos o popularizou, pois h\u00e1 controv\u00e9rsias sobre isso (Marques, 2024). Luhn prop\u00f4s um sistema autom\u00e1tico para disseminar informa\u00e7\u00f5es por todos os n\u00edveis de uma empresa, com o objetivo claro de transformar dados em a\u00e7\u00e3o orientada para objetivos espec\u00edficos. Nas d\u00e9cadas seguintes, entre 1960 e 1970, os alicerces dos Sistemas de Apoio \u00e0 Decis\u00e3o (DSS) representaram um salto conceitual ao posicionar o computador n\u00e3o apenas como uma m\u00e1quina de processar transa\u00e7\u00f5es, mas como uma ferramenta importante para apoiar a tomada de decis\u00f5es gerenciais, o que estabelece a ideia de que a tecnologia est\u00e1 anexada \u00e0s decis\u00f5es de maneira que o princ\u00edpio de valor e confiabilidade se conectasse a esta pr\u00e1tica \u201ch\u00edbrida\u201d, movimento de gente e produtos em larga escala (Power, s.p.).<\/p>\n<p>Historicamente, um impulso que permitiu a amplifica\u00e7\u00e3o da BI aparece com a ideia de <em>Data Warehouse<\/em> nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, com os desenvolvedores de processos Bill Inmon e Ralph Kimball que, embora tenham abordagens diferenciadas, ambos concordam que a data warehouse deve integrar dados heterog\u00eaneos provenientes de m\u00faltiplas fontes e manter a consist\u00eancia dessas informa\u00e7\u00f5es para an\u00e1lise. S\u00e3o eles que instalam os princ\u00edpios de limpeza, harmoniza\u00e7\u00e3o e padroniza\u00e7\u00e3o de dados (Yessad, Labiod, 2016). Dentre as transa\u00e7\u00f5es do dia a dia, dados precisam ser extra\u00eddos, limpos, integrados e armazenados num reposit\u00f3rio separado, exclusivamente desenhado como suporte \u00e0 decis\u00e3o, como j\u00e1 explicamos. Esta ideia de separar o ambiente operacional do ambiente anal\u00edtico tornou-se o cerne daquilo que se chama a arquitetura de BI.<\/p>\n<p>O analista Howard Dresner da Gartner resgatou e popularizou o termo \u201cBusiness Intelligence\u201d nos anos 1980. Este termo passou a ser usado como conceito primordial para descrever todos os processos, m\u00e9todos e tecnologias que visam apoiar a decis\u00e3o empresarial por meio de sistemas baseados em fatos (Faria, 2024). No meio empresarial, no \u00e2mbito de mercado, pensando apenas em lucro (e n\u00e3o necessariamente em \u201ccultura empresarial\u201d, j\u00e1 que esta, como todo agrupamento social, \u00e9 repleta de imperfei\u00e7\u00f5es e imprecis\u00f5es), a dita tecnologia foi aceita como tal e passou a estar unida aos processos mercadol\u00f3gicos de maneira leg\u00edtima e referendada.<\/p>\n<h3><strong>Explicando a frase \u201cdados como ativos financeiros\u201d<\/strong><\/h3>\n<p>Entende-se que os princ\u00edpios do Business Intelligence (BI) resultam em ativos financeiros \u00e9 uma analogia que vai ao cerne do que se chama \u201cvalor estrat\u00e9gico\u201d do BI nas corpora\u00e7\u00f5es, empresas. Essa afirma\u00e7\u00e3o est\u00e1 baseada em uma l\u00f3gica econ\u00f4mica. Em primeiro lugar, \u00e9 importante entender que um ativo financeiro \u00e9 um recurso com valor econ\u00f4mico e que se espera a gera\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios futuros. Tradicionalmente, pensamos em f\u00e1bricas, equipamentos ou investimentos. No entanto, no que atualmente \u00e9 chamado de \u201ceconomia do conhecimento\u201d, os dados tratados e organizados, ou seja, a mat\u00e9ria-prima do BI, s\u00e3o entendidos como ativo, do tipo \u201cintang\u00edvel\u201d. Mas, isso pode ser contestado. Como dissemos acima, os princ\u00edpios do BI transformam dados brutos (que inicialmente s\u00e3o um custo para a empresa) em algo valioso. Imagine que voc\u00ea apresenta informa\u00e7\u00f5es tecnicamente s\u00f3lidas, j\u00e1 que passaram por uma \u201climpeza\u201d daquilo que n\u00e3o diz respeito aos comandos esperados previamente. O resultado disso se apresenta \u201cconfi\u00e1vel\u201d, precisamente porque se mostra como o cerne daquilo que se queria saber inicialmente.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Os resultados concretos que se materializam em ganhos financeiros diretos s\u00e3o apresentados por meio de v\u00e1rios caminhos. A mais direta \u00e9 a otimiza\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es e a redu\u00e7\u00e3o de custos. Um sistema de BI pensado por uma empresa e que segue o princ\u00edpio da \u201corienta\u00e7\u00e3o de assunto\u201d permite identificar \u201cinefici\u00eancias\u201d em cadeias de insumos; desperd\u00edcio de recursos; ou processos de trabalho desnecess\u00e1rios. Por exemplo, ao analisar padr\u00f5es de consumo de energia ou de uso de mat\u00e9rias-primas, uma empresa pode implementar mudan\u00e7as que resultam em economias de gastos. Cada fra\u00e7\u00e3o percentual da dita \u201cefici\u00eancia\u201d \u00e9 lucro retido que se traduz diretamente no fluxo de caixa.<\/p>\n<p>A BI tamb\u00e9m pode ser estrat\u00e9gica para aumento de receita, quando analisa os dados dos clientes, tendo o conhecimento sobre comportamento, tend\u00eancias, prefer\u00eancias, irrita\u00e7\u00f5es, descontentamentos. No mundo produtivo, por meio da \u201ceconomia da informa\u00e7\u00e3o\u201d, o consumidor \u00e9 parceiro, coprodutor (mesmo sem saber disso) das ideias que ser\u00e3o repostas na forma de dados, depois, informa\u00e7\u00f5es, para depois gerar o ciclo de conhecimentos que permitem o aumento da receita. Isto tamb\u00e9m permite a cria\u00e7\u00e3o de campanhas de marketing direcionadas, o desenvolvimento de produtos que respondem a necessidades apontadas ao mercado e a descoberta de novas oportunidades de neg\u00f3cio. Temos aqui uma m\u00e1quina capaz de prever demandas, por meio da an\u00e1lise de s\u00e9ries temporais. Portanto, o tal princ\u00edpio ativo n\u00e3o \u00e9 \u201cintang\u00edvel\u201d porque mexe com o fluxo de informa\u00e7\u00f5es geradas pelos pr\u00f3prios clientes por meio de uma m\u00e1quina repleta de parafusos e sistemas operacionais. O benef\u00edcio econ\u00f4mico \u00e9 tang\u00edvel, dinheiro, e o princ\u00edpio ativo financeiro s\u00e3o as pessoas.<\/p>\n<p>Enfim, dizer que os princ\u00edpios do BI resultam em ativos financeiros n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora, mas uma realidade econ\u00f4mica.<\/p>\n<h3><strong>O uso de BI pelo estado de S\u00e3o Paulo nas escolas p\u00fablicas: o que os atuais governantes alegam<\/strong><\/h3>\n<p>A Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00e3o Paulo (SEDUC-SP) justifica a implementa\u00e7\u00e3o do Super BI em nossa rede escolar p\u00fablica com um discurso centrado na moderniza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o educacional e na melhoria concreta dos resultados de aprendizagem. Em suas divulga\u00e7\u00f5es e comunicados, a secretaria enfatiza que a ferramenta n\u00e3o \u00e9 um produto gen\u00e9rico de mercado, mas sim uma solu\u00e7\u00e3o desenvolvida sob medida para atender \u00e0s complexidades espec\u00edficas da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica paulista, seja por meio de suas equipes internas especializadas ou mediante a contrata\u00e7\u00e3o de empresas de tecnologia com conhecimento (<em>expertise<\/em>, como dizem) no setor.<\/p>\n<p>O cerne do argumento da SEDUC reside na promessa de transformar a enorme quantidade de dados gerados diariamente nas escolas, como frequ\u00eancia, notas, conte\u00fado ministrado e ocorr\u00eancias disciplinares, em resultados acion\u00e1veis e de f\u00e1cil compreens\u00e3o. A secretaria defende que, ao integrar-se diretamente \u00e0 Plataforma Escola Total, o Super BI permite uma visualiza\u00e7\u00e3o clara do que acontece em cada unidade escolar, tornando-se um instrumento para o que denominam de \u201cgest\u00e3o baseada em evid\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>No discurso oficial, a ferramenta \u00e9 apresentada como um mecanismo de \u201cempoderamento\u201d para diretores, coordenadores e supervisores de ensino. Para os gestores locais, \u00e9 vendida como uma aliada no combate \u00e0 evas\u00e3o escolar, ao emitir alertas sobre alunos com infrequ\u00eancia, e no apoio \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o de aprendizagem, ao identificar turmas ou disciplinas com baixo rendimento. Para a gest\u00e3o central, \u00e9 caracterizada como essencial para um planejamento de macroan\u00e1lise, permitindo a aloca\u00e7\u00e3o de recursos.<\/p>\n<p>Em suma, o discurso em torno do Super BI da SEDUC-SP constr\u00f3i uma narrativa de inova\u00e7\u00e3o, transpar\u00eancia e efici\u00eancia, posicionando a tecnologia como pe\u00e7a-chave para uma \u201ceduca\u00e7\u00e3o p\u00fablica mais qualificada\u201d.<\/p>\n<h3><strong>As cr\u00edticas gerais, resumidas, que a BI recebe por seu uso nas escolas p\u00fablicas<\/strong><\/h3>\n<p>A implementa\u00e7\u00e3o do Super BI na rede p\u00fablica de ensino tem sido alvo de cr\u00edticas fortes e sens\u00edveis por parte de educadores, pesquisadores, gestores escolares, familiares que vivenciam o seu dia a dia operacional. Essas cr\u00edticas destacam como sua aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica esbarra em realidades educacionais diversas e tem sido usada para ampliar as desigualdades existentes que j\u00e1 demarcam, historicamente, diferentes facetas do ensino p\u00fablico paulista.<\/p>\n<p>Uma das principais cr\u00edticas est\u00e1 centrada na sobrecarga de trabalho que a ferramenta gera. Para que os dados sejam alimentados com a precis\u00e3o e a velocidade que o sistema exige, professores e coordenadores precisam dedicar tempo significativo a registros e lan\u00e7amentos, em grande parte das vezes em detrimento do planejamento de aulas, do atendimento individualizado aos alunos, da observa\u00e7\u00e3o atenta aos variados problemas de todas as ordens: sentimentais, emocionais, ligadas ao desamparo econ\u00f4mico, familiar etc. Essa burocratiza\u00e7\u00e3o do trabalho pedag\u00f3gico transforma o ato de educar em um processo de preenchimento de planilhas, esvaziando o tempo destinado \u00e0 intera\u00e7\u00e3o humana, que \u00e9 a base mais significativa da aprendizagem.<\/p>\n<p>Outro ponto cr\u00edtico frequentemente levantado \u00e9 o risco de reducionismo de todos os tipos de conhecimentos. N\u00e3o apenas os intelectuais, mas os pol\u00edticos, de educa\u00e7\u00e3o emocional, t\u00e1cita e gestual. Ao transformar processos educacionais em indicadores quantitativos (como notas, frequ\u00eancia, taxa de aprova\u00e7\u00e3o, tempo de leitura, de uso da m\u00e1quina), o sistema tende a simplificar realidades imprescind\u00edveis do que seja uma educa\u00e7\u00e3o aberta e humana. Um aluno \u00e9 reduzido a um alerta no sistema (\u201caluno com 15% de risco de evas\u00e3o\u201d, por exemplo), ignorando seu contexto socioecon\u00f4mico, territorial, suas dificuldades emocionais ou seus talentos, que n\u00e3o s\u00e3o mensur\u00e1veis por m\u00e9tricas pr\u00e9-editadas e padronizadas. Essa vis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas fragmentada, no sentido de que n\u00e3o contextualiza a humanidade que aprende em grupo, e n\u00e3o somente de forma individualizada. Ela conduz \u00e0 mec\u00e2nica de valora\u00e7\u00e3o de \u00edndices que resultam em interven\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas que n\u00e3o resolvem problemas de fundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m preocupa\u00e7\u00f5es quanto ao uso punitivista dos dados. Da parte dos altos chefes da SEDUC, ela deve servir como ferramenta de apoio da administra\u00e7\u00e3o de cada uma das escolas. Mas o que vemos, cada vez mais nas m\u00eddias e pelos apelos dos movimentos sociais e familiares, \u00e9 que pain\u00e9is de gest\u00e3o est\u00e3o sendo utilizados para pressionar escolas, diretores e professores a cumprirem metas de desempenho sem que lhes sejam dadas as condi\u00e7\u00f5es materiais, humanas, psicol\u00f3gicas para tal coisa. Escolas em contextos vulner\u00e1veis, que j\u00e1 partem do princ\u00edpio da desvantagem social, s\u00e3o frequentemente penalizadas por indicadores ruins. N\u00e3o precisa ser disc\u00edpulo de Pierre Bourdieu para saber que esse procedimento amplifica um ciclo de cobran\u00e7a sem suporte adequado, deixando ainda pior o clima socioemocional das escolas. Isso tudo tem gerado um ambiente de estresse e competi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 por coincid\u00eancia que vemos, cada vez mais, cenas de explos\u00e3o de viol\u00eancias de estudantes para com seus pares, estudantes para com docentes, funcion\u00e1rios e gestores pedindo licen\u00e7as m\u00e9dicas. Tudo isso s\u00e3o dados n\u00e3o computados pela tal ferramenta BI.<\/p>\n<p>H\u00e1 falta de contextualiza\u00e7\u00e3o dos dados inclusive relacionado ao ensino dos conte\u00fados. O sistema pode identificar que uma escola tem baixo desempenho em matem\u00e1tica, mas n\u00e3o explica o porqu\u00ea. Ele indica que tarefas n\u00e3o s\u00e3o feitas, por exemplo. Sem an\u00e1lises qualitativas que complementem os n\u00fameros, as a\u00e7\u00f5es resultantes geram vis\u00f5es distorcidas. Podemos dizer que se pode indicar o investimento de mais simulados em matem\u00e1tica, em vez de apontar o excesso de licen\u00e7as dos professores ou um poss\u00edvel contexto de fome dos alunos.<\/p>\n<p>Por fim, critica-se a ilus\u00e3o da neutralidade tecnol\u00f3gica. O Super BI \u00e9 apresentado como uma ferramenta objetiva, mas seus algoritmos e estruturas de an\u00e1lise carregam vis\u00f5es de mundo e prioridades de quem os desenhou. Quando m\u00e9tricas de efici\u00eancia se sobrep\u00f5em a valores pedag\u00f3gicos, a educa\u00e7\u00e3o pode passar a servir mais aos crit\u00e9rios do sistema do que \u00e0s reais necessidades da cultura escolar. A aten\u00e7\u00e3o fixada na ferramenta refor\u00e7a l\u00f3gicas disfuncionais, burocr\u00e1ticas e excludentes.<\/p>\n<p>Reiterando o que foi escrito acima, a Super BI representa uma mente geradora de dados que intrinsecamente \u00e9 pensada para a limpeza do que se considera uma \u201cl\u00f3gica disfuncional\u201d. Ela representa uma mente reprodutora de dados pr\u00e9-estabelecidos para um \u201cfundamento de verdade\u201d que, no caso, \u00e9 matem\u00e1tico, pensando a aplica\u00e7\u00e3o desta tecnologia como um princ\u00edpio de ativo financeiro.<\/p>\n<p>Portanto, do ponto de vista tecnol\u00f3gico, ela funciona perfeitamente para o que foi criada: transformar dados em informa\u00e7\u00f5es pr\u00e9-determinadas para fins de ativos. Como tecnologia operat\u00f3ria, para os fins que foi programada, a BI \u00e9 uma m\u00e1quina com concretude. Funciona bem. A quest\u00e3o \u00e9 como foi pensada para fins e resultados, a complexidade humana, a viv\u00eancia, a experi\u00eancia, s\u00e3o coisas sem import\u00e2ncia. A quest\u00e3o fundamental \u00e9 que estudantes violentos, nervosos, com fome; professores com problemas de sa\u00fade, diretores sob amea\u00e7a, s\u00e3o os elementos que devem ser \u201climpados\u201d dentro de um sistema baseado em fatos estabelecidos pelos crit\u00e9rios previamente programados.<\/p>\n<h3><strong>Por que n\u00e3o se trata de educa\u00e7\u00e3o? O que o BI faz no espa\u00e7o escolar<\/strong><\/h3>\n<p>A implementa\u00e7\u00e3o do Super BI na rede p\u00fablica de S\u00e3o Paulo, quando observada por meio das lentes dos ganhos econ\u00f4micos, mostra um modelo em que o conhecimento se torna uma moeda de valor estrat\u00e9gico e financeiro. Podemos dizer que no plano da escola, supervisores, diretores, docentes e alunos desempenham um papel duplo: atuam simultaneamente como provedores de dados e consumidores indiretos das solu\u00e7\u00f5es integradas na plataforma implementada. O termo otimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 para uso do governo do estado e de parceiros econ\u00f4micos, que aproveitam desse ciclo cont\u00ednuo para \u201cotimizar\u201d recursos e gerar novas fontes de valor.<\/p>\n<p>Educadores e alunos tornam-se, assim, produtores (in)volunt\u00e1rios de dados que alimentam diariamente o sistema. Cada registro de frequ\u00eancia, cada nota lan\u00e7ada, cada indicador de rendimento ou mesmo sinal de evas\u00e3o s\u00e3o convertidos em mat\u00e9ria-prima bruta. Quando processada pelo Super BI, essa mat\u00e9ria-prima transforma-se em percep\u00e7\u00f5es sobre efici\u00eancia, produtividade e necessidades espec\u00edficas que s\u00e3o apontamentos disponibilizados a partir de crit\u00e9rios antecipados. Esse fluxo permanente de informa\u00e7\u00e3o permite \u00e0 SEDUC identificar padr\u00f5es: quais turmas exigem mais incrementos, quais regi\u00f5es carecem de interven\u00e7\u00f5es urgentes e de quais tipos, quais metodologias oferecem o melhor retorno sobre o investimento. Sob uma perspectiva de sistema p\u00fablico, pensando o ponto de vista econ\u00f4mico, esses dados poderiam ser entendidos economicamente; esta efici\u00eancia de dados poderia se traduzir na redu\u00e7\u00e3o de desperd\u00edcios, gerando economias diretas para o estado. Mas a condi\u00e7\u00e3o de funcionamento do sistema est\u00e1 toda direcionada ao mundo privado; portanto, quem est\u00e1 ganhando com as tais \u201credu\u00e7\u00f5es de desperd\u00edcios\u201d, caso haja isso mesmo?<\/p>\n<p>A Plataforma Escola Total, ao hospedar o Super BI e integrar m\u00faltiplas empresas que comercializam materiais did\u00e1ticos e instrucionais, cria um mercado profundamente orientado por estes mesmos dados e entregues aos parceiros. A SEDUC passa a poder negociar com fornecedores com base em evid\u00eancias concretas, como quais conte\u00fados digitais ou livros efetivamente ser\u00e3o vendidos e por quais custos. As compras p\u00fablicas s\u00e3o direcionadas para condu\u00e7\u00f5es com desempenho nos dados do sistema, mas os modelos de assinatura ou licenciamento, os conte\u00fados ofertados por esses produtos did\u00e1ticos, acompanham essa mesma \u201cefici\u00eancia\u201d? Est\u00e1 evidente, pela grita geral, que n\u00e3o. Os materiais s\u00e3o pobres intelectualmente, n\u00e3o s\u00e3o estimuladores, n\u00e3o s\u00e3o bonitos. Portanto, as percep\u00e7\u00f5es geradas pelos sistemas abastecem o oferecimento de produto de m\u00e1 qualidade, enquanto os dados s\u00e3o coletados como commodities? \u00c9 o sistema p\u00fablico que est\u00e1 ganhando com isso?<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o ac\u00famulo de dados educacionais em larga escala \u00e9 um ativo potencialmente negoci\u00e1vel. Empresas de tecnologia educacional, investigadores e institutos de pol\u00edticas p\u00fablicas manifestam interesse em acessar esses conjuntos de dados para desenvolver produtos, estudos ou modelos preditivos. O governo do estado pode, assim, licenciar o acesso a esses conjuntos de dados ou estabelecer agremia\u00e7\u00f5es p\u00fablico-privadas alavancando percep\u00e7\u00f5es exclusivas geradas pelo pr\u00f3prio sistema, lan\u00e7ando-as ao mercado. Cabe saber se os gestores p\u00fablicos n\u00e3o s\u00e3o eles mesmos os sujeitos que vendem, direta ou indiretamente, os tais produtos did\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Para supervisores e diretores de escola, esta l\u00f3gica se assemelha \u00e0 gest\u00e3o de unidades de neg\u00f3cio. Eles s\u00e3o incentivados a cumprir metas de redu\u00e7\u00e3o de evas\u00e3o, melhoria de notas e efici\u00eancia no uso de recursos, espelhando pr\u00e1ticas do setor privado. Mais uma vez, esses indicadores de rentabilidade e produtividade n\u00e3o est\u00e3o programados para dimens\u00f5es subjetivas, relacionais e humanas do processo de ensino e aprendizagem; porque s\u00e3o mais um artefato existente na hist\u00f3ria da ci\u00eancia e t\u00e9cnica que evita esses aspectos, que s\u00e3o considerados impurezas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pureza dos dados observados e analisados. N\u00e3o surpreende que esta m\u00e1quina tenha este car\u00e1ter opressor, dada a realidade autorit\u00e1ria, inconstitucional, ilegal como ela foi fixada e est\u00e1 sendo mantida.<\/p>\n<p>A Super BI ativa um ciclo econ\u00f4mico completo: os dados educacionais s\u00e3o capturados gratuitamente por meio do trabalho de educadores e do comportamento dos alunos; s\u00e3o transformados em intelig\u00eancia para orientar a aloca\u00e7\u00e3o de recursos e pol\u00edticas privadas; criam oportunidades de monetiza\u00e7\u00e3o via parcerias, licenciamento de dados ou comercializa\u00e7\u00e3o direta e indireta no seio da pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Este modelo, ainda que potencialmente eficiente do ponto de vista informacional, levanta quest\u00f5es \u00e9ticas profundas sobre a transforma\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica numa commodity. Porque os estudantes e professores se tornam, sem consentimento racional (porque os governantes v\u00e3o advogar que as fam\u00edlias d\u00e3o o consentimento do uso de dados pela assinatura de algum contrato) ou benef\u00edcio direto a eles mesmos, os geradores prim\u00e1rios de um valor que \u00e9, na sequ\u00eancia, redistribu\u00eddo pelo estado e seus parceiros econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o dos dados do Super BI pela SEDUC para orientar pol\u00edticas como leil\u00f5es de escolas, terceiriza\u00e7\u00f5es e implementa\u00e7\u00e3o de escolas c\u00edvico-militares reflete uma aplica\u00e7\u00e3o desta intelig\u00eancia de dados. O que vemos est\u00e1 no dom\u00ednio da engenharia social de n\u00edvel corporativo. Os dados sobre desempenho acad\u00eamico, evas\u00e3o escolar, infraestrutura e contexto socioecon\u00f4mico das escolas permitem identificar as unidades com \u201cbaixo desempenho\u201d ou \u201calto custo de opera\u00e7\u00e3o\u201d. Esses indicadores podem ser usados para justificar interven\u00e7\u00f5es como a terceiriza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o ou mesmo a convers\u00e3o para o modelo c\u00edvico-militar, argumentando que tais medidas s\u00e3o \u201cnecess\u00e1rias\u201d com base em \u201cevid\u00eancias\u201d.<\/p>\n<p>No caso de leil\u00f5es de escolas ou parcerias p\u00fablico-privadas, os dados do Super BI podem atrair investidores ao apresentar m\u00e9tricas claras sobre custos, desempenho e potencial de \u201cretorno\u201d social ou simb\u00f3lico; definir crit\u00e9rios de concess\u00e3o com base em efici\u00eancia financeira a despeito de problemas pedag\u00f3gicos; monitorar contratos usando indicadores de produtividade e redu\u00e7\u00e3o de gastos. Assim, a Super BI pode funcionar como uma ferramenta de racionaliza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para decis\u00f5es pol\u00edticas j\u00e1 pr\u00e9-determinadas, mascarando op\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas sob um v\u00e9u de objetividade num\u00e9rica.<\/p>\n<p>Vale ainda falar um pouco sobre as escolas c\u00edvico-militares, que entram neste complexo de justifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica baseada em dados. A BI fornece um aparato estat\u00edstico e anal\u00edtico que, instrumentalizado, passa a legitimar as decis\u00f5es pol\u00edticas mais uma vez sob o manto da efici\u00eancia administrativa. A SEDUC identifica escolas com indicadores de baixo desempenho acad\u00eamico, alta evas\u00e3o ou ocorr\u00eancias disciplinares, categorizando-as como \u201cproblem\u00e1ticas\u201d ou \u201cde risco\u201d. Estes dados s\u00e3o ent\u00e3o mobilizados para justificar interven\u00e7\u00f5es via modelo c\u00edvico-militar, argumentando que tais escolas requerem uma \u201cgest\u00e3o de ordem e disciplina\u201d supostamente respaldada por evid\u00eancias num\u00e9ricas.<\/p>\n<p>O modelo c\u00edvico-militar \u00e9 promovido como mais \u201ceficiente\u201d em termos de gest\u00e3o de recursos e redu\u00e7\u00e3o de conflitos, e a BI pode fornecer as m\u00e9tricas para sustentar esta alega\u00e7\u00e3o. Ao comparar indicadores como custo por aluno, taxa de rotatividade de professores ou \u00edndices de clima escolar. Da mesma forma que o sistema apaga imprecis\u00f5es, pode sugerir que o modelo militar resulta em estabilidade, ainda que o processo altamente disciplinador n\u00e3o entre na conta como antipedag\u00f3gico, mas entre na conta como estabilizador do sistema, dentro da equa\u00e7\u00e3o. Ainda que se possa analisar uma ampla s\u00e9rie hist\u00f3rica, que necessita de tempo, logicamente, a BI prioriza indicadores de curto prazo, como redu\u00e7\u00e3o de faltas e aumento de notas em provas padronizadas, que se alinham ao discurso de \u201cdisciplina e resultados\u201d, cab\u00edveis no modelo c\u00edvico-militar. Escolas sob este regime podem mostrar resultados \u201cotimizados\u201d por estes indicadores superficiais, quando se tomam os casos de sucesso estat\u00edstico em detrimento da participa\u00e7\u00e3o estudantil em mobiliza\u00e7\u00f5es sociais, o enfoque do controle apagando os processos de emancipa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica etc. Podemos enumerar todas as \u201cbelas qualidades\u201d da casta militar que cabem muito bem aos desejos de uma parcela da sociedade que aprova o governo do estado. Gente que visualiza a superf\u00edcie da apar\u00eancia, referenda os n\u00fameros desta m\u00e1quina, e desdenha da pol\u00edtica perversa que pode estar metida em toda e qualquer luta est\u00e9tica, inovadora, tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Finalmente, ao apresentar a implementa\u00e7\u00e3o de escolas c\u00edvico-militares como decis\u00e3o \u201cbaseada em dados\u201d, o governo substitui debates democr\u00e1ticos sobre projetos educacionais por justificativas t\u00e9cnicas que se apresentam e ganham espa\u00e7o cada vez maior, como leg\u00edtimas, e vamos seguindo vendo este tipo de coisa acontecendo no seio da escola p\u00fablica que v\u00ea a sua comunidade sendo a coprodutora de valores dados a grupos econ\u00f4micos muito distantes de suas necessidades.<\/p>\n<p>A economia de dados sobre a escola p\u00fablica age como a Matrix que suga a energia dos membros da comunidade da escola para ter ganhos financeiros. A escola \u00e9 coprodutora de informa\u00e7\u00f5es valiosas para estes grupos mercadol\u00f3gicos; a retirada de dados dos membros da escola \u00e9 predat\u00f3ria, \u00e9 uma esp\u00e9cie de mais-valia inovadora j\u00e1 prevista pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC) d\u00e9cadas atr\u00e1s quando apontava a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica como um veio vultoso de constitui\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>Portanto, de maneira estrita, n\u00e3o estamos mais falando de \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d, porque a Super BI implementada nas escolas p\u00fablicas de S\u00e3o Paulo \u00e9 uma tecnologia de gera\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es com l\u00f3gica empresarial, para ganhos imediatos. Alunos, professores, diretores s\u00e3o as fontes de dados brutos. A escola \u00e9 terreno de aplica\u00e7\u00e3o, tal como um laborat\u00f3rio para uma gest\u00e3o tecnocr\u00e1tica de cunho corporativo, para a monetiza\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es e a justificativa legitimada de interven\u00e7\u00f5es externas, terceiriza\u00e7\u00f5es, leil\u00f5es, modelos c\u00edvico-militares.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe educa\u00e7\u00e3o por essa tecnologia pensada por ela mesma. Devemos reclamar com for\u00e7a por uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, democr\u00e1tica, enquanto existir esse tipo de m\u00e1quina e esta governan\u00e7a no estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><em>Este texto \u00e9 parte integrante da Campanha +Hist\u00f3ria, organizada pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria, por sua se\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo (ANPUH-SP), em defsa da hist\u00f3ria, dos profissionais de hist\u00f3ria, docente e pesquisador, em defesa da escola p\u00fablica paulista.<\/em><\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong>:<\/p>\n<p>FARIAS, Bruno Wanderley. Uso estrat\u00e9gico de dados na Internacionaliza\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior: Elabora\u00e7\u00e3o de requisitos informacionais para constru\u00e7\u00e3o de Business Intelligence. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado Profissional). Universidade Federal de Santa Catarina, 2024.<\/p>\n<p>MARQUES, Eliane Cunha. Solu\u00e7\u00e3o de Business Intelligence para An\u00e1lise Cr\u00edtica e Monitoramento de Riscos de Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o: Estudo de Caso da Rede Ebserh. Orientador Ricardo Matos Chaim. Bras\u00edlia, 2024.<\/p>\n<p>YESSAD, Lamia; LABIOD, Aissa. Comparative Study of Data Warehouses Modeling Approaches: Inmon, Kimball and Data Vault. In: 2016 International Conference on System Reliability and Science (ICSRS). 2016, Algiers, Algeria. Anais. IEEE, 2016.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, contribua com um PIX para <strong>outrosquinhentos@outraspalavras.net<\/strong> e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico.<\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Quando a escola p\u00fablica vira dados e neg\u00f3cios appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/politica\/2025\/08\/oposicao-elege-presidente-e-relator-da-cpmi-do-inss\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1655091&amp;o=node') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Oposi\u00e7\u00e3o elege presidente e relator da CPMI do INS...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-e-noticia-no-jornal-tvt-news-primeira-edicao-18-02-2026\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/jornal_tvt_news-13-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O que \u00e9 not\u00edcia no Jornal TVT News Primeira Edi\u00e7\u00e3o...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/justica-britanica-decide-que-definicao-legal-de-mulher-e-baseada-no-sexo-biologico\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Justi\u00e7a brit\u00e2nica decide que defini\u00e7\u00e3o legal de \u2018m...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sob-lula-petrobras-reduz-49-preco-da-gasolina-nas-refinarias-valor-caiu-mais-de-20-desde-a-posse\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Sob Lula, Petrobras reduz 4,9% pre\u00e7o da gasolina n...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><i>Business Intelligence \u2013 BI<\/i>. Sob nome herm\u00e9tico, governo de SP implementa tecnologia que trata a Educa\u00e7\u00e3o como ativo financeiro. Sobrecarrega professores, ignora a complexidade do ensino e pune o \u201cbaixo desempenho\u201d. Essa \u201cmais-valia\u201d pode ir parar nas m\u00e3os do privado\u2026  <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/quando-escola-publica-vira-dados-e-negocios\/\">Quando a escola p\u00fablica vira dados e neg\u00f3cios<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":49769,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6188,17901,14627,17902,17903,17904],"tags":[],"class_list":["post-49768","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alem-da-mercadoria","category-business-intelligence","category-captura-de-dados","category-educacao-no-brasil","category-gestao-empresarial","category-tecnologia-nas-escolas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49768\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49769"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}