{"id":50620,"date":"2025-09-08T21:19:24","date_gmt":"2025-09-09T00:19:24","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/o-lado-oculto-das-tecnofantasias-de-ia\/"},"modified":"2025-09-08T21:19:24","modified_gmt":"2025-09-09T00:19:24","slug":"o-lado-oculto-das-tecnofantasias-de-ia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-lado-oculto-das-tecnofantasias-de-ia\/","title":{"rendered":"O lado oculto das tecnofantasias de IA"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"900\" height=\"506\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/b62b8b01-05c9-4230-bffe-8ff9a17410d9.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/b62b8b01-05c9-4230-bffe-8ff9a17410d9.jpg 900w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/b62b8b01-05c9-4230-bffe-8ff9a17410d9-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/b62b8b01-05c9-4230-bffe-8ff9a17410d9-768x432.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Philip Ball<\/strong>, na <em>Aeon | <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>Em 2000, Bill Joy, cofundador e cientista-chefe da empresa de inform\u00e1tica Sun Microsystems, soou um alarme sobre a tecnologia. Em um artigo na revista <em>Wired,<\/em> intitulado \u201cPor Que o Futuro N\u00e3o Precisa de N\u00f3s\u201d Joy escreveu que devemos \u201climitar o desenvolvimento de tecnologias que s\u00e3o perigosas demais, moderando nossa busca por certos tipos de conhecimento\u201d. Ele temia um futuro no qual nossas inven\u00e7\u00f5es casualmente nos varram da face do planeta.<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es expressas no artigo, que provocaram acusa\u00e7\u00f5es de ludismo por parte de defensores da tecnologia, soam notavelmente similares \u00e0quelas que est\u00e3o sendo vocalizadas agora por alguns empres\u00e1rios do Vale do Sil\u00edcio sobre como a intelig\u00eancia artificial pode em breve nos superar em intelig\u00eancia e decidir que n\u00f3s, humanos, somos dispens\u00e1veis. No entanto, embora \u201crob\u00f4s sencientes\u201d fizessem parte do que assustou Joy, sua principal preocupa\u00e7\u00e3o era com outra tecnologia que segundo seus c\u00e1lculos poderia tornar essa perspectiva iminentemente poss\u00edvel. Ele estava perturbado pela nanotecnologia: a engenharia da mat\u00e9ria na escala de nan\u00f4metros, compar\u00e1vel ao tamanho de mol\u00e9culas.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-GERAL-9.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-GERAL-9.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Seria mais preciso dizer que Joy estava perturbado pela vers\u00e3o da nanotecnologia sobre a qual ele havia lido no livro <em>Motores da Cria\u00e7\u00e3o<\/em> (1986), do engenheiro K. Eric Drexler, um graduado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). No final do s\u00e9culo XX, era a nanotecnologia, e n\u00e3o a IA (que n\u00e3o parecia estar indo muito longe), que se surgia como fonte de utopias e distopias. O livro de Drexler descrevia uma vis\u00e3o da nanotecnologia que poderia operar maravilhas, prometendo, nas palavras de Joy, \u201cenergia solar incrivelmente barata, curas para o c\u00e2ncer e para o resfriado comum\u201d, bem como \u201c[voos] espaciais de baixo custo \u2026 e a restaura\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies extintas\u201d.<\/p>\n<p>Mas Joy tinha ouvido, do inventor Ray Kurzweil (atualmente conselheiro cient\u00edfico da Google), que a nanotecnologia de Drexler prometia algo ainda mais not\u00e1vel: a singularidade, um ponto em que nossa capacidade tecnol\u00f3gica acelerada atinge velocidade de escape e maravilhas literais se tornam poss\u00edveis \u2013 em particular, a imortalidade por meio da fus\u00e3o entre humano e m\u00e1quina, que tornaria poss\u00edvel fazer o upload de nossas mentes para computadores e viver para sempre em um nirvana digital.<\/p>\n<p>\u201cDispositivos industriais baseados em nanotecnologia ser\u00e3o capazes, na d\u00e9cada de 2020, de criar quase qualquer produto f\u00edsico a partir de mat\u00e9rias-primas e informa\u00e7\u00f5es baratas\u201d, escreveu Kurzweil em seu livro <em>A Singularidade Est\u00e1 Pr\u00f3xima<\/em> (2005). A tecnologia \u201cfornecer\u00e1 ferramentas para combater efetivamente a pobreza, limpar nosso meio ambiente, superar doen\u00e7as, estender a longevidade humana e muitas outras empreitadas valiosas\u201d.<\/p>\n<p>Mas, Joy soube, havia um lado negativo em tudo isso. A nanotecnologia de Drexler poderia sair do controle, desencadeando enxames de nanorrob\u00f4s invisivelmente min\u00fasculos que come\u00e7am cegamente a desmontar tudo, \u00e1tomo por \u00e1tomo, at\u00e9 reduzirem o mundo ao que Drexler chamou de \u201cgosma cinza\u201d (grey goo). No final dos anos 1990, o problema da gosma cinza era o <em>golem<\/em> que, como a \u201cIA superinteligente\u201d de hoje, poderia causar nossa queda arrogante.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve ter notado que nada disso aconteceu. Nenhuma cura para o c\u00e2ncer, nenhuma imortalidade por <em>upload<\/em> da mente, mas tamb\u00e9m nenhuma gosma cinza. Isso porque a vis\u00e3o de nanotecnologia de Drexler era uma quimera. Era como a pedra filosofal dos alquimistas: magia vestida com a ci\u00eancia de seu tempo, por meio da qual quase tudo se torna poss\u00edvel. Eu as chamo de <strong><em>tecnologias on\u00edricas<\/em><\/strong>: elas n\u00e3o existem e muito provavelmente n\u00e3o podem existir, mas realizam um sonho profundamente arraigado, ou um pesadelo, ou ambos.<\/p>\n<p>Elas n\u00e3o s\u00e3o simplesmente tecnologias do futuro, que ainda n\u00e3o temos os meios para realizar, como as tecnologias superavan\u00e7adas que, segundo Arthur C. Clarke, ser\u00edamos incapazes de distinguir da magia. Em vez disso, a tecnologia on\u00edrica toma um desejo (ou um terror) e o veste com uma roupagem que se assemelha \u00e0 cient\u00edfica, de modo que o observador n\u00e3o iniciado, e talvez o sonhador, n\u00e3o consiga mais distingui-la do que est\u00e1 genuinamente \u00e0 beira do poss\u00edvel. O moto perp\u00e9tuo \u00e9 uma das mais antigas tecnologias on\u00edricas, embora s\u00f3 desde o s\u00e9culo XIX saibamos por que ele n\u00e3o funciona (esse conhecimento n\u00e3o desencoraja tentativas modernas, que supostamente exploram, por exemplo, o \u201cv\u00e1cuo qu\u00e2ntico\u201d). Os escudos antigravitacionais s\u00e3o provavelmente outra.<\/p>\n<p>As tecnologias on\u00edricas atualmente em voga no Vale do Sil\u00edcio incluem a no\u00e7\u00e3o de terraformar outros planetas, transformando sua geosfera e atmosfera para torn\u00e1-los habit\u00e1veis; o congelamento cri\u00f4nico de sua cabe\u00e7a ap\u00f3s a morte, para que sua consci\u00eancia possa um dia ser retomada; e a ideia relacionada de <em>upload<\/em> da mente para circuitos computacionais. Essas tecnofantasias s\u00e3o centrais para as utopias regularmente previstas por bilion\u00e1rios da tecnologia. Elas se interconectam em um nexo para o qual a nanotecnologia drexleriana \u00e9 central.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/banner-outras-palavras-8m-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/banner-outras-palavras-8m-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/banner-outras-palavras-8m-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Vale a pena examinar esse sonho em particular, n\u00e3o apenas por causa dos paralelos com as alega\u00e7\u00f5es e medos fant\u00e1sticos sobre a IA hoje, mas porque os nanorrob\u00f4s drexlerianos ainda n\u00e3o desapareceram. Kurzweil ainda os cita como a raz\u00e3o pela qual sua singularidade est\u00e1 ainda \u201cmais pr\u00f3xima\u201d. Em 2024, ele a situou em 2045, ponto em que ser\u00e1 poss\u00edvel entrar (isto \u00e9, enviar nanorrob\u00f4s) \u201cdentro do c\u00e9rebro e capturar tudo que h\u00e1 l\u00e1\u201d. Esta forma implaus\u00edvel de nanotecnologia ainda \u00e9 parte do pensamento m\u00e1gico do Vale do Sil\u00edcio, cujo objetivo, como diz o escritor cient\u00edfico Adam Becker em seu livro <em>More Everything Forever<\/em> (2025), \u00e9 \u201cdomar o universo, transform\u00e1-lo em um playground almofadado\u201d. Nenhum sofrimento, nenhuma morte, nenhum limite f\u00edsico: um para\u00edso moldado por uma pol\u00edtica ultra-liberal \u2013 alguns dizem quase fascista \u2013 na qual ningu\u00e9m lhe dir\u00e1 que algo \u00e9 proibido ou imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Entusiasta dos sonhos de coloniza\u00e7\u00e3o espacial dos anos 1970, Drexler come\u00e7ou a pensar em nanotecnologia como estudante de gradua\u00e7\u00e3o no MIT em 1977. Ele foi inspirado por uma palestra do f\u00edsico Richard Feynman intitulada \u201cH\u00e1 Muito Espa\u00e7o L\u00e1 Embaixo\u201d (1959), na qual Feynman imaginou a engenharia em escalas extremamente min\u00fasculas, pequenas demais para ser vistas a olho nu \u2013 e talvez t\u00e3o pequenas quanto se poderia conceber. \u201cO que aconteceria se pud\u00e9ssemos arranjar os \u00e1tomos um a um da maneira que quisermos?\u201d, perguntou Feynman. Foi o mesmo que , Drexler ponderou.<\/p>\n<p>Em 1981, ele publicou sua vis\u00e3o central no artigo acad\u00eamico \u201cMolecular Engineering: An Approach to the Development of General Capabilities for Molecular Manipulation\u201d <strong>[\u201c<\/strong>Engenharia Molecular: Uma Abordagem para o Desenvolvimento de Capacidades Gerais para Manipula\u00e7\u00e3o Molecular\u201d]. Mas foi seu livro<em>Engines of Creation [Motores da Cria\u00e7\u00e3o],<\/em> cinco anos depois, um relato popular e n\u00e3o t\u00e9cnico do que essa capacidade poderia levar, que tornou Drexler a sensa\u00e7\u00e3o dos empreendedores de tecnologia.<\/p>\n<p>Drexler imaginou criar um \u201cmontador molecular\u201d, um dispositivo mec\u00e2nico para agarrar \u00e1tomos e empurr\u00e1-los uns contra os outros como tijolos de Lego. Pode soar absurdamente dif\u00edcil alcan\u00e7ar esse n\u00edvel de controle e precis\u00e3o, mas Drexler argumentou que j\u00e1 temos prova de sua possibilidade. Pois n\u00e3o \u00e9 exatamente isso o que a biologia faz, usando m\u00e1quinas feitas de mol\u00e9culas de prote\u00edna para ler instru\u00e7\u00f5es de montagem codificadas no DNA e transform\u00e1-las nas partes de c\u00e9lulas vivas? Voc\u00ea pode se perguntar que tipo de manufatura pr\u00e1tica poderia ser feita de forma \u00fatil com uma m\u00e1quina em escala molecular, mas a chave para a vis\u00e3o de Drexler era uma amplia\u00e7\u00e3o progressiva: m\u00e1quinas pequenas fazem outras maiores, que fazem outras ainda maiores. A amplia\u00e7\u00e3o de escala tamb\u00e9m emprestaria outro truque da natureza: essas m\u00e1quinas moleculares seriam autorreplicantes, sendo capazes de montar c\u00f3pias de si mesmas. Voc\u00ea precisa fazer apenas uma, e ela pode se multiplicar exponencialmente. Ap\u00f3s publicar <em>Engines of Creation<\/em>, Drexler obteve seu doutorado no MIT sob a supervis\u00e3o do guru da IA Marvin Minsky. Sua tese forneceu um livro mais t\u00e9cnico, <em>Nanosystems<\/em> (1992), pretendido como o projeto cient\u00edfico para realizar as maravilhas prometidas em <em>Engines<\/em>.<\/p>\n<p>Com a manipula\u00e7\u00e3o em escala at\u00f4mica e a replica\u00e7\u00e3o dos montadores, disse Drexler, poder\u00edamos criar qualquer coisa \u2013 n\u00e3o, como fazemos atualmente, por meio de processamento qu\u00edmico rudimentar ou da laboriosa grava\u00e7\u00e3o e escultura \u201cde cima para baixo\u201d (<em>top down<\/em>) necess\u00e1ria para moldar dispositivos em miniatura, como chips de sil\u00edcio, mas de baixo para cima (<em>bottom up<\/em>), \u00e1tomo por \u00e1tomo. E enquanto as m\u00e1quinas da natureza \u2013 as prote\u00ednas \u2013 s\u00e3o delicadas e propensas a se desfazer se ficarem muito quentes ou frias, os montadores moleculares podem ser feitos de material mais resistente. Idealmente, n\u00f3s os far\u00edamos de \u00e1tomos de carbono, cada componente sendo ent\u00e3o, efetivamente, um pequeno peda\u00e7o moldado de diamante puro. Essas nanom\u00e1quinas \u201cdiamantoides\u201d \u2013 bra\u00e7os rob\u00f3ticos em nanoescala, pin\u00e7as, rotores, filtros e assim por diante \u2013 n\u00e3o quebrariam nem se corroeriam, e \u201cser\u00e3o capazes de construir virtualmente qualquer coisa que possa ser projetada\u201d. Em seu livro <em>Where Is My Flying Car?<\/em> (2021), o associado e defensor de Drexler, o cientista da computa\u00e7\u00e3o e escritor J. Storrs Hall, estimou que com nano montadores seria poss\u00edvel recriar toda a infraestrutura f\u00edsica dos Estados Unidos \u2013 estradas, pontes, cidades \u2013 em uma \u00fanica semana.<\/p>\n<p>O sonho nanotecnol\u00f3gico de Drexler, com rob\u00f4s em nanoescala patrulhando nossa corrente sangu\u00ednea, eliminando pat\u00f3genos e removendo dep\u00f3sitos escler\u00f3ticos das paredes dos vasos sangu\u00edneos, parecia exatamente o que Kurzweil precisava para realizar sua aspira\u00e7\u00e3o de escapar da morte. Tal nanotecnologia, disse Kurzweil, \u201cpromete as ferramentas para reconstruir o mundo f\u00edsico \u2013 nossos corpos e c\u00e9rebros inclu\u00eddos\u201d. Kurzweil imagina nanorrob\u00f4s zunindo em nossas cabe\u00e7as lendo os estados el\u00e9tricos dos neur\u00f4nios e, assim, coletando todas as informa\u00e7\u00f5es contidas em nosso circuito neural, transmitindo-as a detectores para criar uma r\u00e9plica virtual de nossas mem\u00f3rias e pensamentos \u2013 um clone digital do nosso estado consciente, que se experimentaria como n\u00e3o diferente da vers\u00e3o carnal de n\u00f3s. Os escritores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica adoraram. Neal Stephenson baseou seu romance <em>The Diamond Age<\/em> (1995) em uma vers\u00e3o steampunk dos \u201ccompiladores de mat\u00e9ria\u201d drexlerianos, citando Drexler e Feynman no livro.<\/p>\n<p>Os cientistas, no entanto, n\u00e3o ficaram t\u00e3o encantados. O qu\u00edmico norte-americano Julius Rebek disse \u00e0 <em>Scientific American<\/em> em 2004: \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia \u2013 \u00e9 show business\u201d. O laureado com o Nobel de Qu\u00edmica Richard Smalley envolveu-se em uma troca de cartas com Drexler publicada em 2003 na revista da American Chemical Society, <em>Chemical &amp; Engineering News<\/em>, na qual Smalley insistiu que a ideia de Drexler era analfabeta em termos qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>A ideia de manipular \u00e1tomos um a um n\u00e3o era inerentemente louca em si. Durante os anos 1980, cientistas dos laborat\u00f3rios de pesquisa da IBM desenvolveram os chamados microsc\u00f3pios de varredura por sonda (<em>scanning probe microscopes<\/em>) que movem agulhas de metal ultrafinas sobre superf\u00edcies para criar imagens de \u00e1tomos e mol\u00e9culas individuais presentes nelas. Em 1989, uma equipe da IBM na Calif\u00f3rnia usou tal instrumento para escrever o nome da empresa em letras com cinco nan\u00f4metros de altura, usando uma ponta para empurrar, individualmente, 35 \u00e1tomos do elemento xen\u00f4nio para posi\u00e7\u00e3o na superf\u00edcie de n\u00edquel.<\/p>\n<p>Drexler tamb\u00e9m n\u00e3o estava errado em pensar que a montagem qu\u00edmica em escala molecular \u00e9 poss\u00edvel. Nos \u00faltimos anos, outra equipe da IBM na Su\u00ed\u00e7a fez mol\u00e9culas \u00fanicas bastante complexas \u2013 algumas delas dif\u00edceis de criar por m\u00e9todos qu\u00edmicos convencionais \u2013 empurrando seus fragmentos uns contra os outros em uma superf\u00edcie, com um microsc\u00f3pio de varredura por sonda at\u00e9 que reagissem e se unissem.<\/p>\n<p>Trabalhos como estes tornam bastante f\u00e1cil apresentar a nanotecnologia drexleriana como plaus\u00edvel. Mas h\u00e1 v\u00e1rios problemas fundamentais em usar tal abordagem para sintetizar montadores moleculares que possam se replicar e construir qualquer coisa. Primeiro, a qu\u00edmica n\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1ria: voc\u00ea n\u00e3o pode juntar \u00e1tomos de qualquer jeito. A maioria dos arranjos simplesmente n\u00e3o \u00e9 est\u00e1vel e, portanto, eles se reorganizar\u00e3o espontaneamente em arranjos mais est\u00e1veis. Livrar-se da energia liberada quando uma nova liga\u00e7\u00e3o qu\u00edmica \u00e9 feita tamb\u00e9m pode ser um grande desafio. E, talvez acima de tudo, tratar objetos moleculares como se fossem apenas dispositivos de engenharia em escala reduzida \u2013 rolamentos rotativos, alavancas, fivelas etc. \u2013 ignora as realidades do mundo molecular, que \u00e9 cheio de for\u00e7as fortes e incontrol\u00e1veis entre mol\u00e9culas e agita\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria e generalizada devido \u00e0 energia t\u00e9rmica, e onde os l\u00edquidos parecem t\u00e3o viscosos quanto mela\u00e7o. Como o falecido qu\u00edmico escoc\u00eas James Fraser Stoddart, que ganhou o Pr\u00eamio Nobel de 2016 por seu trabalho em m\u00e1quinas moleculares artificiais, disse a Becker: \u201cToda a ideia de extrapolar do mundo macrosc\u00f3pico, de um carro ou uma bicicleta ou algo assim, para os fundamentos de como voc\u00ea constr\u00f3i m\u00e1quinas moleculares artificiais simplesmente n\u00e3o faz sentido. Nunca vai funcionar\u201d.<\/p>\n<p>O trabalho premiado com o Nobel de Stoddart, em contraste, estava firmemente baseado na qu\u00edmica regular e conhecida. Ele e outros encontraram maneiras engenhosas de conectar mol\u00e9culas em estruturas que podem realizar opera\u00e7\u00f5es mec\u00e2nicas sem precisar suspender as leis f\u00edsicas e qu\u00edmicas. A inven\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de Stoddart foi um \u201c\u00f4nibus molecular\u201d (<em>molecular shuttle<\/em>) no qual uma mol\u00e9cula em forma de anel era enfiada em um eixo molecular semelhante a uma haste, tampado com grupos qu\u00edmicos volumosos que impedem seu desenfileiramento. O anel pode saltar entre duas posi\u00e7\u00f5es de ancoragem no eixo, um pouco como uma conta de um \u00e1baco. \u00c9 divertido imaginar tal montagem molecular sendo usada para fazer computa\u00e7\u00e3o no estilo do \u00e1baco \u2013 mas, como Stoddart sabia, na pr\u00e1tica seria quase imposs\u00edvel evitar que o anel fizesse saltos espont\u00e2neos devido aos seus movimentos t\u00e9rmicos, de modo que a configura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de muitos desses \u00f4nibus ser\u00e1 determinada n\u00e3o por onde inicialmente os colocamos, mas pelas leis estat\u00edsticas da termodin\u00e2mica. A mesma hist\u00f3ria vale para as \u201cm\u00e1quinas biomoleculares\u201d que foram a inspira\u00e7\u00e3o de Drexler: elas n\u00e3o funcionam como vers\u00f5es em nanoescala de motores el\u00e9tricos ou bra\u00e7os rob\u00f3ticos, mas s\u00e3o governadas por leis termodin\u00e2micas que injetam ru\u00eddo aleat\u00f3rio em seu comportamento. Na escala molecular, a natureza n\u00e3o se parece muito com a engenharia mec\u00e2nica.<\/p>\n<p>Drexler tentou evitar tais cr\u00edticas em <em>Nanosystems<\/em>, argumentando que seus cr\u00edticos estavam meramente inventando nanotecnologias mal projetadas e descartando todo o campo da \u201cmanufatura molecular\u201d por causa desse projeto ruim. Se ele parecia menosprezar as dificuldades experimentais, disse: \u201cS\u00f3 posso alegar que logo se tornaria tedioso dizer, a cada momento, que o trabalho de laborat\u00f3rio \u00e9 dif\u00edcil e que o trabalho \u00e1rduo ainda est\u00e1 por ser feito\u201d. Claro, ser\u00e1 dif\u00edcil, mas de alguma forma vamos conseguir.<\/p>\n<p><em>Nanosystems<\/em> exemplificou a estrat\u00e9gia dos tecn\u00f3logos on\u00edricos. Voc\u00ea come\u00e7a com o que parece ci\u00eancia s\u00f3lida \u2013 Drexler fala sobre movimento t\u00e9rmico, liga\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, for\u00e7as intermoleculares. Mas voc\u00ea se move quase imperceptivelmente para a pura fantasia, ao mesmo tempo que aumenta a excita\u00e7\u00e3o do leitor impression\u00e1vel. A segunda metade do livro apresenta dispositivos como classificadores moleculares \u2013 rodas que separam diferentes tipos de \u00e1tomos ou mol\u00e9culas \u2013 junto com correias transportadoras moleculares, bra\u00e7os rob\u00f3ticos e conjuntos de engrenagens interligadas. H\u00e1 computadores mec\u00e2nicos em nanoescala feitos de hastes m\u00f3veis, efetivamente vers\u00f5es em miniatura da M\u00e1quina Anal\u00edtica de Charles Babbage, seu projeto steampunk para uma m\u00e1quina calculadora de prop\u00f3sito geral, que ele esperava criar com componentes de lat\u00e3o no s\u00e9culo XIX. A essa altura, n\u00e3o h\u00e1 mais mol\u00e9culas \u00e0 vista: pede-se que assumamos que essas m\u00e1quinas maravilhosas foram de alguma forma moldadas e montadas a partir de pe\u00e7as diamantoides, embora ningu\u00e9m jamais tivesse feito nada do tipo.<\/p>\n<p>Talvez seja melhor que isso seja fantasia, porque nesse caso o problema da gosma cinza tamb\u00e9m ser\u00e1. Nesse cen\u00e1rio de nanotecnologia descontrolada, os nanorrob\u00f4es montadores moleculares escapam de nosso controle e se replicam sem freio, desmontando cada fragmento de mat\u00e9ria que conseguem colocar suas nanom\u00e3os e transformando-o em mais deles mesmos. Como cada nanorrob\u00f4 \u00e9 menor que um gr\u00e3o de poeira, o mundo acaba sendo desmontado \u2013 em uma velocidade assustadora, se voc\u00ea acreditar nos c\u00e1lculos \u2013 em uma papa informe.<\/p>\n<p>O problema da gosma cinza tornou a nanotecnologia \u2013 que muitos assumiram que seria criada no modelo de Drexler \u2013 um bicho-pap\u00e3o de tecnoc\u00e9ticos e ambientalistas nos anos 1990. Entre eles estava o pr\u00edncipe Charles, agora monarca brit\u00e2nico, cujas preocupa\u00e7\u00f5es expressas em 2003 levaram a Royal Society a produzir um relat\u00f3rio sobre os benef\u00edcios e riscos da nanotecnologia que mal mencionou Drexler e tentou redirecionar a discuss\u00e3o de volta para a ci\u00eancia real. A narrativa da gosma cinza era, no entanto, boa demais para os escritores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica resistirem: Michael Crichton, famoso por <em>Jurassic Park<\/em>, chegou primeiro com seu thriller <em>Presas<\/em> (2002).<\/p>\n<p>O pesadelo da gosma cinza pode soar familiar aos aficionados pelos \u201criscos existenciais\u201d da IA, pois \u00e9 o precursor do \u201cproblema do clipe de papel\u201d do fil\u00f3sofo Nick Bostrom. Imagine, disse Bostrom em 2003, que projetemos uma IA superinteligente e toda-poderosa \u00e0 qual atribuamos a tarefa de fazer clipes de papel. (Seria dif\u00edcil imaginar um uso mais rid\u00edculo para uma tecnologia t\u00e3o poderosa, mas essa n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o \u2013 ou melhor, a pura banalidade \u00e9 parte da quest\u00e3o.) A IA pode decidir que sua tarefa designada \u00e9 t\u00e3o importante que n\u00e3o parar\u00e1 por nada para fazer mais clipes de papel. E como n\u00f3s lhe demos tanto poder e engenhosidade, ela superar\u00e1 qualquer esfor\u00e7o nosso para desvi\u00e1-la desse objetivo \u2013 e prontamente transformar\u00e1 tudo, incluindo a n\u00f3s, em clipes de papel. O ponto de Bostrom era que seria extremamente dif\u00edcil, talvez imposs\u00edvel, garantir que uma IA superinteligente tenha objetivos que permane\u00e7am alinhados com os nossos. \u201cO futuro para o qual a IA estaria tentando se orientar seria um no qual houvesse muitos clipes de papel, mas nenhum humano\u201d, disse ele ao <em>HuffPost<\/em> em 2014.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de Bostrom tem sido muito debatido, mas seu problema central est\u00e1 exposto de forma clara. Como a gosma cinza, ele envolve uma tecnologia on\u00edrica. N\u00e3o podemos simplesmente deslig\u00e1-la? N\u00e3o, ela \u00e9 \u201cindeslig\u00e1vel\u201d. Se \u00e9 superinteligente, ela n\u00e3o vai perceber que n\u00e3o queremos nos tornar clipes de papel? N\u00e3o, ela \u00e9 superinteligente o suficiente para ser impar\u00e1vel, mas n\u00e3o o suficiente para perceber nosso desejo. E como ela transforma tudo em clipes de papel, afinal? Ela pode desmontar tudo em \u00e1tomos e depois remont\u00e1-los \u00e0 vontade: \u00e9 Drexleriana! Magicamente, ela tem precisamente as capacidades e falhas que o cen\u00e1rio exige, concedidas por uma Ci\u00eancia (com C mai\u00fasculo) n\u00e3o especificada.<\/p>\n<p>Mais de tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <em>Nanosystems<\/em>, a nanotecnologia de Drexler n\u00e3o est\u00e1 um nan\u00f4metro mais pr\u00f3xima. N\u00e3o \u00e9 que fazer um montador molecular diamantoide autorreplicante tenha se mostrado um pouco mais dif\u00edcil do que Drexler imaginou. \u00c9 que nunca houve nenhum programa real para como isso pudesse ser feito, nem qualquer raz\u00e3o para pensar que fosse poss\u00edvel. Nem um \u00fanico \u00e1tomo de carbono foi colocado no lugar na tentativa. Nenhum cientista considerou que valesse a pena tentar.<\/p>\n<p>No entanto, a nanotecnologia em si \u00e9 agora uma ci\u00eancia madura. Pe\u00e7as de mat\u00e9ria de todos os tipos em escala nanom\u00e9trica podem ser montadas usando processos qu\u00edmicos e s\u00e3o usadas em \u00e1reas que v\u00e3o desde c\u00e9lulas fotovoltaicas at\u00e9 t\u00e9cnicas de imageamento biom\u00e9dico. Al\u00e9m do Nobel de Stoddart por m\u00e1quinas moleculares sint\u00e9ticas, o Pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica de 2023 foi concedido por trabalhos sobre aglomerados de \u00e1tomos em escala nanom\u00e9trica chamados \u201cpontos qu\u00e2nticos\u201d (<em>quantum dots<\/em>), que t\u00eam uma pan\u00f3plia de aplica\u00e7\u00f5es da biomedicina \u00e0s tecnologias da informa\u00e7\u00e3o. Os qu\u00edmicos descobriram como \u201cprogramar\u201d fitas de DNA para que elas se dobrem espontaneamente, no estilo origami, em formas e padr\u00f5es complexos menores que uma bact\u00e9ria, incluindo um mapa min\u00fasculo das Am\u00e9ricas. Microsc\u00f3pios de varredura por sonda s\u00e3o agora usados regularmente como ferramentas para manipula\u00e7\u00e3o molecular. Tubos ocos e ultra-resistentes de carbono com cerca de um nan\u00f4metro de largura, descobertos em 1991, s\u00e3o as fibras de carbono definitivas e t\u00eam sido amplamente usados em dispositivos biom\u00e9dicos, eletr\u00f4nicos vest\u00edveis e materiais compostos resistentes. O material de carbono com espessura de um \u00e1tomo, o grafeno, \u00e9 outra estrela dessa \u201cnanotecnologia do carbono\u201d, da qual Smalley foi um pioneiro. O sequenciamento de DNA, como o usado para rastrear novas variantes do v\u00edrus COVID-19, agora \u00e9 frequentemente feito arrastando as fitas atrav\u00e9s de poros proteicos em nanoescala embutidos em membranas, um m\u00e9todo desenvolvido pela empresa Oxford Nanopore. Nenhum desses trabalhos, no entanto, usa qualquer coisa parecida com a abordagem defendida por Drexler. Em vez disso, depende da qu\u00edmica como sempre a conhecemos.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que a vis\u00e3o de Drexler n\u00e3o teve valor. Ela ajudou a estimular o interesse inicial na \u00e1rea, e at\u00e9 o pr\u00f3prio Smalley atestou que inicialmente ficou entusiasmado com as possibilidades que ela esbo\u00e7ava para a engenharia da mat\u00e9ria em escalas min\u00fasculas. Drexler atraiu capital de risco suficiente para estabelecer em 1986 uma organiza\u00e7\u00e3o chamada Foresight Institute, sediada em San Francisco, que hoje continua a oferecer bolsas e apoio a pesquisas sobre nanotecnologia convencional e a conceder pr\u00eamios (batizados em homenagem a Feynman) a cientistas l\u00edderes que trabalham na \u00e1rea. O instituto organiza confer\u00eancias que atraem muitos cientistas respeit\u00e1veis, trabalhando em temas como o design de prote\u00ednas, que ganhou o Pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica de 2024. \u00c0 primeira vista, o instituto parece ter silenciosamente deixado de lado a pr\u00f3pria vers\u00e3o on\u00edrica da nanotecnologia de Drexler.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que deixou? Seu logotipo continua sendo uma das engrenagens diamantoides imagin\u00e1rias de Drexler. Ele diz que agora apoia trabalhos em neurotecnologia, biotecnologia da longevidade, espa\u00e7o e \u201cesperan\u00e7a existencial\u201d. Para qualquer pessoa alerta \u00e0s tecnologias on\u00edricas das tecnoutopias e distopias, estas s\u00e3o bandeiras vermelhas. Neurotech \u2013 pense na iniciativa muito divulgada de Elon Musk, a Neuralink, para conectar c\u00e9rebros a m\u00e1quinas \u2013 conecta-se \u00e0 fantasia do <em>upload<\/em> da mente, que Musk acredita ser poss\u00edvel. \u201cPoder\u00edamos baixar as coisas que acreditamos nos tornar t\u00e3o \u00fanicos\u201d, disse ele em uma entrevista em 2022. \u201cAcho que poder\u00edamos faz\u00ea-lo no que diz respeito a preservar nossas mem\u00f3rias, nossa personalidade\u201d. Musk diz que um objetivo de longo prazo da Neuralink \u00e9 \u201carmazenar suas mem\u00f3rias como um backup\u201d. \u00c9 importante reconhecer que essas ideias n\u00e3o devem ser confundidas com extrapola\u00e7\u00f5es ambiciosas das capacidades cient\u00edficas atuais; elas nem mesmo s\u00e3o conceitos coerentes.<\/p>\n<p>Longevidade? Drexler tornou-se intimamente associado \u00e0 comunidade que se autodenominava Extropianos, uma refer\u00eancia \u00e0 ideia de que podemos impor cada vez mais ordem e design (extropia) ao Universo, em vez de nos rendermos \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da entropia aparentemente exigida pela segunda lei da termodin\u00e2mica. O Extropianismo tem uma enorme intersec\u00e7\u00e3o com o transumanismo, a ideia de que n\u00f3s, humanos, podemos nos transcender com ajuda tecnol\u00f3gica, eventualmente nos fundindo com m\u00e1quinas ou redesenhar completamente a forma humana.<\/p>\n<p>Espa\u00e7o? N\u00e3o se trata de fazer telesc\u00f3pios ou espa\u00e7onaves rob\u00f3ticas melhores. Tecnoutopistas como Musk, Jeff Bezos e o influente engenheiro de software e capitalista de risco Marc Andreessen acreditam no destino manifesto da coloniza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pela humanidade. Como Becker explica em <em>More Everything Forever<\/em>, Kurzweil vislumbra enviar frotas de nanorrob\u00f4s replicantes drexlerianos que transformam planetas e, por fim, transformam todo o universo acess\u00edvel em um supercomputador gigantesco com \u201cformas de intelig\u00eancia estranhas e sublimes\u201d. Novamente, nada disso est\u00e1 ancorado em tecnologias atuais, mas requer inven\u00e7\u00f5es essencialmente m\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Esperan\u00e7a existencial? Aqui, o Foresight Institute direciona voc\u00ea ao Abundance and Growth Fund [Fundo de Abund\u00e2ncia e Crescimento] da organiza\u00e7\u00e3o de financiamento e assessoria filantr\u00f3pica Open Philanthropy, em S\u00e3o Francisco, que visa \u201cacelerar o crescimento econ\u00f4mico e impulsionar o progresso cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico\u201d e se opor a \u201cregulamenta\u00e7\u00f5es governamentais (mesmo bem-intencionadas)\u201d que atrasem o progresso. Em outras palavras, este conceito de \u201cesperan\u00e7a existencial\u201d est\u00e1 alinhado com o tipo de projeto ultra-libert\u00e1rio e anti-regulamenta\u00e7\u00e3o sonhado por Andreessen, Musk e outros bilion\u00e1rios da tecnologia.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel a aus\u00eancia, Entre tais objetivos ut\u00f3picos, de qualquer men\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, amea\u00e7as \u00e0 democracia, prolifera\u00e7\u00e3o de armas, ou lucro corporativo \u2014 ou qualquer dos problemas urgentes que o mundo enfrenta aqui e agora. Tais quest\u00f5es n\u00e3o interessam aos tecn\u00f3logos on\u00edricos, porque n\u00e3o h\u00e1 nada de transcendente nelas. Elas n\u00e3o dialogam com imortalidade, crescimento infinito, futuros gal\u00e1cticos, aquele universo reduzido a um playground almofadado. Bill Joy resumiu a quest\u00e3o em seu artigo de 2000. \u201cLembro-me de me sentir bem com a nanotecnologia depois de ler <em>Engines of Creation<\/em>\u201c, escreveu ele. \u201cSe a nanotecnologia era o nosso futuro, eu n\u00e3o me sentia pressionado a resolver tantos problemas no presente. Eu chegaria ao futuro ut\u00f3pico de Drexler no devido tempo; eu poderia muito bem aproveitar mais a vida no aqui e agora.\u201d<\/p>\n<p>O que estragou tudo para Joy n\u00e3o foi o fato de a nanotecnologia drexleriana ser um sonho irrealiz\u00e1vel (como qualquer cientista bem-informado poderia ter-lhe dito). Como todos os bar\u00f5es da tecnologia, ele permaneceu dentro do clube, conversando com Kurzweil (\u201cNo bar do hotel, Ray me deu uma pr\u00e9via parcial de seu ent\u00e3o pr\u00f3ximo livro <em>The Age of Spiritual Machines<\/em>\u201c, diz Joy, n\u00e3o sugerindo nenhum lampejo de desconfian\u00e7a com aquele t\u00edtulo) e com o futurista da rob\u00f3tica Hans Moravec (t\u00edtulo do livro: <em>Robot: Mere Machine to Transcendent Mind<\/em>). Joy ficou sabendo da gosma cinza, e isso o fez pensar em Hiroshima, e sua vis\u00e3o de uma utopia imagin\u00e1ria se transformou numa de apocalipse imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Joy estava tentando fazer a coisa certa: pensar eticamente sobre tecnologias poderosas. Mas carecia dos recursos para saber por qu\u00ea se entusiasmar e o que temer. Ele fez sua fortuna por atuando na inven\u00e7\u00e3o de tecnologia de computa\u00e7\u00e3o que mudou o mundo. Quando escrevi uma resenha cr\u00edtica de <em>Nanosystems<\/em> como editor da <em>Nature<\/em> em 1993, eu estava a meros cinco anos de ter conclu\u00eddo meu doutorado e ainda era muito jovem. Como pude perceber que aquela vis\u00e3o n\u00e3o ia a lugar nenhum, mas Joy n\u00e3o? Certamente n\u00e3o era porque eu era algum tipo de garoto-prod\u00edgio. N\u00e3o era por quem eu era, mas por quem eu n\u00e3o era. Meu c\u00edrculo social n\u00e3o inclu\u00eda outros l\u00edderes de tecnologia; eu n\u00e3o estava no bar com Kurzweil; eu n\u00e3o estava na bolha on\u00edrica do Vale do Sil\u00edcio. Ao contr\u00e1rio, tive a sorte de beneficiar do contato com cientistas fazendo pesquisa de bancada, com gente parecida a Smalley e Stoddart.<\/p>\n<p>Com a IA, estamos fazendo tudo isso de novo. Estamos aceitando as profecias fant\u00e1sticas de pessoas como o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, que previu que \u201cem tr\u00eas a cinco anos teremos \u2026 intelig\u00eancia geral [artificial], que pode ser definida como um sistema t\u00e3o inteligente quanto o matem\u00e1tico, f\u00edsico, artista, escritor, pensador, pol\u00edtico mais inteligente\u201d (sendo \u201co artista mais inteligente\u201d um conceito que aparentemente significa algo dentro do Vale do Sil\u00edcio). Sem nenhum tra\u00e7o de ironia, Schmidt acrescenta que \u201ceu chamo isso \u2026 de consenso de S\u00e3o Francisco, porque todos que acreditam nisso est\u00e3o em S\u00e3o Francisco\u201d. Como parte do pacote, somos solicitados a aceitar n\u00e3o apenas os sonhos fant\u00e1sticos dessa comunidade, mas tamb\u00e9m sua escatologia, na qual uma superintelig\u00eancia maqu\u00ednica nos elimina. Ficamos encantados com tal discurso de \u201crisco existencial\u201d quando vem de um Musk, um Bezos ou outros que ca\u00edram na \u00f3rbita do consenso de S\u00e3o Francisco. E se aceitamos o sonho deles, temos que aceitar seu pesadelo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s n\u00e3o somos obrigados. N\u00f3s n\u00e3o temos que comprar os mitos das tecnologias on\u00edricas. Podemos dar uma olhada no que aconteceu com a nanotecnologia drexleriana e captar os sinais de alerta. Podemos escolher recusar essa distra\u00e7\u00e3o, dar ouvidos a especialistas humildes em vez de g\u00eanios aclamados pela m\u00eddia. Talvez n\u00e3o seja t\u00e3o emocionante, e pode exigir que pensemos em riscos chatos e regulamenta\u00e7\u00e3o mundana da pesquisa em vez de fantasia cient\u00edfica. Mas \u00e9 aqui que vivemos.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post O lado oculto das tecnofantasias de IA appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/prefeitura-barrou-atuacao-de-coletivos-na-cracolandia-dias-antes-de-regiao-ser-esvaziada\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Prefeitura barrou atua\u00e7\u00e3o de coletivos na Cracol\u00e2n...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/cantor-amado-batista-e-byd-entram-na-lista-suja-do-trabalho-escravo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/alojamento-em-que-foram-resgatados-trabalhadores-chineses-da-obra-da-byd-na-bahia-1734986553694_v2_9-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Cantor Amado Batista e BYD entram na Lista Suja do...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/48a-romaria-da-terra-do-rs-tem-tema-e-lema-definidos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/image-1-15-150x92.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">48\u00aa Romaria da Terra do RS tem tema e lema definid...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/favor-so-ler-se-for-ariano\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Favor s\u00f3 ler se for ariano<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Outra vez, um avan\u00e7o tecnol\u00f3gico engendra sonhos e pesadelos.  H\u00e1 algo por tr\u00e1s deles: a cren\u00e7a alienada de que problemas da humanidade podem ser resolvidos por meio de c\u00e1lculos \u201ccient\u00edficos\u201d distantes dos dramas e conflitos da vida social<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/o-lado-oculto-das-tecnofantasias-de-ia\/\">O lado oculto das tecnofantasias de IA<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":50621,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6477,5511,10547,10873,18582,14173,18583,18584,6219,1228,10,18585,18586,18587,18588,18589,18590,5493,18591,18592,18593,18594],"tags":[],"class_list":["post-50620","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bilionarios","category-capa","category-disputas-tecnologicas","category-distopias","category-distopias-de-bilionarios","category-ficcao-cientifica","category-ficcao-distopica","category-fusao-homem-maquina","category-ia","category-inteligencia-artificial","category-internet","category-libertarianismo-e-ciencia","category-nanotecnologia","category-neoliberalismo-e-ciencia","category-singularidade","category-tecno-distopias","category-tecno-utopias","category-tecnologia-em-disputa","category-tecnologias-oniricas","category-transumanismo","category-ultracapitalismo-e-ciencia","category-utopias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50620","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50620"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50620\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50620"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50620"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50620"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}