{"id":51216,"date":"2025-09-10T19:07:01","date_gmt":"2025-09-10T22:07:01","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/critica-da-teoria-do-valor-atencao\/"},"modified":"2025-09-10T19:07:01","modified_gmt":"2025-09-10T22:07:01","slug":"critica-da-teoria-do-valor-atencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/critica-da-teoria-do-valor-atencao\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica da teoria do valor-aten\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"450\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/7-16-25-v1-800x450-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/7-16-25-v1-800x450-1.jpg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/7-16-25-v1-800x450-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/7-16-25-v1-800x450-1-768x432.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Foto: Eddie Marshall | Midjourney<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>H\u00e1 uma nova teoria do valor circulando difusamente no campo da economia pol\u00edtica. Mas ela tomou forma no teclado manipulado por Marcos Barbosa de Oliveira, professor da USP, por meio do artigo <em>Em Busca de uma Teoria do Valor-Aten\u00e7\u00e3o<\/em>, publicado pelo <em>Outras Palavras.<\/em><sup>1<\/sup>Eis como ele a apresenta sem receio de que sua bomba se transfore num traque:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c<em>Na\u00a0Teoria marxista do Valor-Trabalho, o valor de uma mercadoria \u00e9,\u00a0grosso modo, proporcional ao trabalho gasto em sua produ\u00e7\u00e3o. No dom\u00ednio das redes sociais, no lugar do trabalho, vigora a\u00a0aten\u00e7\u00e3o.\u00a0Sendo assim, faz sentido a ideia de uma\u00a0Teoria marxista do Valor-Aten\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 preciso, pois, perguntar se ao longo das \u00faltimas seis d\u00e9cadas aqueles que estavam diante de aparelhos de televis\u00e3o, estavam produzindo mais-valor para os empres\u00e1rios do ramo? Aqueles que assistem aos filmes de Hollywood ou aqueles que leem os jornais de grande circula\u00e7\u00e3o est\u00e3o produzindo mais-valor, contribuindo para a valoriza\u00e7\u00e3o do capital? De uma forma ainda mais geral, dever-se-ia perguntar, portanto, se ao longo dos mais de cinco s\u00e9culos de capitalismo os consumidores de seus produtos, dos produtos de suas ind\u00fastrias, produziram mais-valor para os donos dos meios de produ\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Do ponto de vista da <em>cr\u00edtica \u00e0 economia pol\u00edtica, <\/em>originada por Karl Marx j\u00e1 em meados do s\u00e9culo XIX, a resposta se afigura como negativa. Mas o autor que estimulou a gera\u00e7\u00e3o deste artigo parece pensar diferente. Na passagem citada, ele diz algo que precisa ser aqui repetido: \u201c<em>Na Teoria marxista do valor-trabalho, o valor de uma mercadoria \u00e9, grosso modo, proporcional ao trabalho gasto em sua produ\u00e7\u00e3o. No dom\u00ednio das redes sociais, no lugar do trabalho, vigora a aten\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. Ou seja, aqueles que se utilizam Whatsapp, X, Facebook etc. seriam produtores de mais-valor, o qual seria apropriado pelos propriet\u00e1rios desses aplicativos. Vale, pois, perguntar: faz mesmo sentido uma teoria marxista do valor-aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-5-8.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-5-8.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-5-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em determinadas situa\u00e7\u00f5es perguntar \u00e9 responder. Veja-se: a captura de aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo novo, j\u00e1 que toda mercadoria ontem, hoje e amanh\u00e3 \u201cdeseja\u201d intensamente a aten\u00e7\u00e3o. Pois, a aten\u00e7\u00e3o vem a ser, simplesmente, a contrapartida do valor de uso. Logo, a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 vendida ou comprada. Ela se dirige para os valores de uso das mercadorias, os quais podem vir a satisfazer necessidades que v\u00eam do \u201cest\u00f4mago ou da fantasia\u201d.<\/p>\n<p>Como se sabe, a mercadoria aparece como a unidade do valor de uso e do valor de troca. Logo, ela se afigura, antes de tudo, como o espa\u00e7o\/tempo de uma \u201cmaterialidade\u201d; contudo, ela \u00e9 sobretudo \u201cforma\u201d. Se a forma for confundida com o seu suporte, se o valor \u00e9 atribu\u00eddo \u00e0 materialidade das coisas que ganhou a forma de mercadoria, tem-se o fetichismo.<\/p>\n<p>A forma social \u201cmercadoria\u201d traja batata, sapato, filme, jornais de internet, m\u00fasicas etc. para que essas coisas produzidas possam ir para o mercado e serem vendidas. No com\u00e9rcio, elas se exibem sem vergonha para os desejos eventuais dos compradores. Como essa aten\u00e7\u00e3o pode faltar, a exibi\u00e7\u00e3o das mercadorias pode ser refor\u00e7ada pela propaganda. Os gritos do feirante que vende verduras nas ruas n\u00e3o s\u00e3o suas mercadorias; mas os espa\u00e7os publicit\u00e1rios nos ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o em geral, antigos ou novos, ganham, sim, essa condi\u00e7\u00e3o. Entretanto, como explicar, ent\u00e3o, o valor de troca da mercadorias publicidade?<\/p>\n<p>A teoria do valor-aten\u00e7\u00e3o acima anunciada e publicizada n\u00e3o corresponde \u00e0 teoria do valor elaborada por Marx. Eis que o valor para Marx n\u00e3o \u00e9 proporcional ao trabalho gasto, mas, precisamente, se constitui pelo quantum de trabalho abstrato e socialmente m\u00e9dio necess\u00e1rio para produzir a mercadoria. Ora, a abordagem a partir do quantum de trabalho social m\u00e9dio faz toda a diferen\u00e7a, porque antes de ser verdade na teoria do valor, \u00e9 verdade no pr\u00f3prio processo social real que ela busca explicar. O valor, como diz Marx, \u00e9 uma pura objetividade social.<\/p>\n<p>\u00c9 a mesma abordagem que se faz necess\u00e1ria para entender os processos sociais em curso nos quais se manifesta a crise mundial de reprodu\u00e7\u00e3o do capital. Como se sabe, o lucro social m\u00e9dio tem se mostrado decrescente e isso tem produzido mudan\u00e7as no pr\u00f3prio capitalismo. Em rea\u00e7\u00e3o, tem-se agora as \u201cbig techs\u201d, os criptoativos e uma s\u00e9ria de \u201cnovidades\u201d que chamam a \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d do distinto p\u00fablico. Por isso, alguns passam a enxergar um poss\u00edvel papel da utilidade dessas \u201cmercadorias\u201d especiais na produ\u00e7\u00e3o de valor. A busca s\u00f4frega pela aten\u00e7\u00e3o \u00e9, pois, uma constante na sociedade do espet\u00e1culo onde tudo vira mercadoria, mas nem tudo se constitui como produ\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n<p>Como se sabe, o movimento hist\u00f3rico da acumula\u00e7\u00e3o do capital tende a reduzir o conte\u00fado de valor das mercadorias. Ora, essa categoria engloba n\u00e3o s\u00f3 o que sai das f\u00e1bricas, mas tamb\u00e9m o que nela entra, dentre elas, inclusive, a pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho. Como tamb\u00e9m se sabe, o tempo excedente \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o social da for\u00e7a de trabalho \u00e9 o que origina o mais-valor.<\/p>\n<p>Como explicar o valor e o mais-valor? Os economistas cl\u00e1ssicos e depois Marx analisaram a mercadoria enquanto uma formal social dos produtos do trabalho quando estes s\u00e3o produzidos para serem vendidos e comprados nos mercados. Marx, depois de longos anos de pesquisa, fez isto no Livro I de <em>O Capital<\/em> por meio de uma exposi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica que vai do abstrato ao concreto, ou seja, que come\u00e7a na mercadoria e que chega ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista como uma totalidade. Eis que no miolo desse sistema se encontra a l\u00f3gica da acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Mais de um s\u00e9culo e meio se passou desde que <em>O capital<\/em> come\u00e7ou a ser escrito. Aquilo que ali se previu, aconteceu, pois j\u00e1 ocorreu a mundializa\u00e7\u00e3o do capital. Agora, o processo de forma\u00e7\u00e3o do valor ocorre no \u00e2mbito do transnacional. Apesar disso, ele continua a se originar fundamentalmente na produ\u00e7\u00e3o direta de mercadorias, atrav\u00e9s do disp\u00eandio de energia do trabalho vivo nas redes mundial de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. Seu objetivo primeiro e \u00faltimo, e seu resultado mais vis\u00edvel, o lucro, \u00e9 o term\u00f4metro da \u201csa\u00fade\u201d do capitalismo.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o ent\u00e3o que se coloca para a teoria do valor \u00e9 saber por que o advento de novas tecnologias e da rob\u00f3tica n\u00e3o est\u00e1 conseguindo fazer crescer a lucratividade social m\u00e9dia mundial do capital. A partir da teoria do valor n\u00e3o se nega que certas empresas continuem a ter lucros e que esses possam aumentar. O que est\u00e1 em causa \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o social m\u00e9dia mundial que decresce na lucratividade m\u00e9dia do capital mundial geral.<sup>2<\/sup><\/p>\n<p>\u00c9 preciso admitir que existem limites sociais e naturais para a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. Mesmo se elas incorporam tecnologias novas e que vem aos mercados como celulares, televisores, computadores etc., elas t\u00eam de ser compradas para serem consumidas. Se a produtividade do trabalho vivo, diretamente produtivo, avoluma uma fabulosa superprodu\u00e7\u00e3o mercadorias (valores de uso e de troca) que se exprimem em pre\u00e7os no mercado consumidor, isto ocorre, mas com uma por\u00e7\u00e3o decrescente de mais-valor real por unidade-mercadoria. Este \u00e9 um fen\u00f4meno dominante para explicar a queda do lucro.<\/p>\n<p>Assim sendo, a produ\u00e7\u00e3o de mais-valor real se acha de modo generalizado em um impasse insuper\u00e1vel, porque a superprodu\u00e7\u00e3o de mercadorias, mesmo com toda publicidade e indu\u00e7\u00e3o ao consumo proliferante, com toda obsolesc\u00eancia programada, com todo o cr\u00e9dito que desloca o pagamento para o futuro, n\u00e3o consegue fazer crescer ao infinito, nem o consumo, nem o lucro social m\u00e9dio mundial. Antes disto, pela l\u00f3gica inelut\u00e1vel na produ\u00e7\u00e3o de valor e mais-valor mercantil, o capital se aprisiona a si mesmo; eis que esta vem a ser a sua iman\u00eancia autof\u00e1gica.<\/p>\n<p> O artigo <em>Em busca de uma teoria do Valor-Aten\u00e7\u00e3o <\/em>diz que \u201cno dom\u00ednio das redes sociais, no lugar do trabalho, vigora a<em>\u00a0aten\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Assim, converte a \u201caten\u00e7\u00e3o\u201d (que, de fato, \u00e9 demanda) no trabalho produtor de valor de uso e de troca que s\u00e3o as imagens sonoras. Ora, n\u00e3o \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o social geral (que usa e abusa do trabalho social geral) a \u00fanica fonte que origina o valor e mais-valor? Os consumidores possibilitam apenas a realiza\u00e7\u00e3o do valor e do mais-valor das mercadorias, inclusive \u2013 julga-se aqui \u2013 daquelas mercadorias que veiculam informa\u00e7\u00e3o e mesmo publicidade.<\/p>\n<p>Nesses setores ocorre o mesmo que ocorre com a ind\u00fastria de mercadorias materiais, mesmo as com obsolesc\u00eancia programada bem curta. Quando nos tornamos consciente que cada vez mais s\u00e3o produzidas mercadorias com valor de uso que s\u00e3o de fato \u201cin\u00fateis\u201d para o consumidor \u2013 exceto no que concerne a uma satisfa\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria e subjetiva \u2013 tais como Coca-Cola, McDonalds, a montanha de gadgets que existem no mercado transnacional, percebe-se que se est\u00e1 diante de um processo dominado pelo valor de uso fict\u00edcio.<\/p>\n<p>Assim sendo, as \u201cind\u00fastrias de mercadorias ideais\u201d a que se refere a teoria do \u201cvalor-aten\u00e7\u00e3o\u201d, por fazerem parte da economia social mundial, sofre os mesmos condicionamentos e \u201cleis\u201d tendenciais dos setores cl\u00e1ssicos do capitalismo. Pensamos, portanto, que no artigo em causa ocorre, pois, uma grande confus\u00e3o entre tais categorias dos processos sociais reais que faz seu autor \u201cobservar que, assim como o trabalho, a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 um bem escasso\u201d.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, no que concerne ao trabalho \u00e9 poss\u00edvel mesmo defender a tese contr\u00e1ria. N\u00e3o existem escassez de trabalhadores dispon\u00edveis. Todavia, o volume crescente da popula\u00e7\u00e3o excedente \u00e0s necessidades do capital tem transformado essa superpopula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m incessantemente, em desempregados, em desistentes da busca de emprego, em precarizados, naqueles que jamais conseguir\u00e3o emprego regular para sua for\u00e7a de trabalho, em exclu\u00eddos pois, e em in\u00fateis e ainda, nos atuais cinicamente denominados \u201cinvis\u00edveis\u201d das ag\u00eancias oficiais de estat\u00edsticas.<\/p>\n<p>Existe uma superpopula\u00e7\u00e3o relativa ao capital que se acha em disfun\u00e7\u00e3o produtiva, exacerbada pela rob\u00f3tica, pelas \u201cnovas tecnologias\u201d e pelas \u201cbig techs\u201d das m\u00eddias e da comunica\u00e7\u00e3o em geral. \u00c9 poss\u00edvel pois, defender a tese de que a popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o consegue, em seu conjunto, ser um mercado total e infinito para essas mercadorias \u201cimateriais\u201d para as quais contribuiriam com seu suposto \u201cvalor-aten\u00e7\u00e3o\u201d na produ\u00e7\u00e3o de uma suposta mais-valia geral. \u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m defender, ao menos a hip\u00f3tese, de que tais setores n\u00e3o conseguir\u00e3o elevar o n\u00edvel m\u00e9dio das taxas e das massas de lucro ao n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>Na busca por uma \u201cteoria do valor-aten\u00e7\u00e3o\u201d, Oliveira abandona a teoria do valor de <em>O Capital<\/em> e passa a utilizar a lei da oferta e da procura. Diz o artigo que \u201ca escassez \u00e9 um atributo que, na Economia ortodoxa, \u00e9 considerado essencial para que um bem possa funcionar como mercadoria\u201d. A acumula\u00e7\u00e3o de capital no setor das \u201cbig techs\u201d precisa da aten\u00e7\u00e3o dos consumidores para se realizar. Diz Oliveira que,<\/p>\n<p>uma pe\u00e7a publicit\u00e1ria s\u00f3 tem valor se for lida, ouvida ou assistida, pelas pessoas a quem \u00e9 veiculada, e \u2018para isso \u00e9 necess\u00e1rio que elas lhe dediquem\u00a0<em>aten\u00e7\u00e3o<\/em>. Como veremos, a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 metaforicamente a moeda com a qual os internautas pagam pelo acesso aos conte\u00fados que lhes interessam. Obviamente, quanto mais aten\u00e7\u00e3o um an\u00fancio recebe, maior \u00e9 seu valor.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, na verdade, para depositar aten\u00e7\u00e3o os internautas ou telespectadores precisam estar em condi\u00e7\u00f5es de pagar o acesso \u00e0 rede de telefonia, aos aplicativos usados em cada demanda requerida, al\u00e9m de pagar por um ou v\u00e1rios aparelhos (wifi, roteador, celular, computador, televisor etc.) e pelas \u201cmercadorias ideais\u201d que tais aparelhos possibilitam. Nada disto constitui trabalho vivo em um processo produtivo, muito menos a aten\u00e7\u00e3o que \u00e9 atributo dos consumidores. Constitui a utiliza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio obtido por aqueles que conseguem t\u00ea-lo no dia a dia da pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o de suas for\u00e7a de trabalho e de seu emprego, fora dos circuitos onde se exige aten\u00e7\u00e3o para o consumo dos produtos das \u201cbig techs\u201d.<\/p>\n<p>Todas as mercadorias consumidas pela aten\u00e7\u00e3o do consumidor comum s\u00e3o pagas com seus recursos (sal\u00e1rios ou renda), atrav\u00e9s de um pre\u00e7o estabelecido no mercado, mas que reflete o tempo social m\u00e9dio \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho social mundial. A lei da oferta e da procura age nos seus circuitos, mas n\u00e3o como determina\u00e7\u00e3o fundamental, nem muito menos sem limites que s\u00e3o aqueles mesmos da lei do valor.<\/p>\n<p>Esse consumidor n\u00e3o age produzindo valor quando consome, ainda que sua maior ou menor aten\u00e7\u00e3o possa aumentar ou reduzir o pre\u00e7o (que pode ser igual, maior, ou menor que o valor de troca da mercadoria f\u00edsica ou ideal) que ele paga no mercado para usufruir do valor de uso dos produtos das \u201cbig techs\u201d. Somente os trabalhadores em a\u00e7\u00e3o produtiva nas \u201cbig techs\u201d (como produtores de tecnologia ou criadores de aplicativos e discursos imag\u00e9ticos e textuais) produzem mais-valor. Mas j\u00e1 n\u00e3o era assim quando os oper\u00e1rios-engenheiros projetavam e elaboravam (e depois aplicavam) as tecnologias na produ\u00e7\u00e3o, no com\u00e9rcio e nos servi\u00e7os?<\/p>\n<p>A ideia da escassez de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 enigm\u00e1tica. Mesmo admitindo que a popula\u00e7\u00e3o mundial n\u00e3o \u00e9 completamente absorvida no consumo dos produtos das \u201cbig techs\u201d, como considerar a exist\u00eancia real de \u201cescassez\u201d de aten\u00e7\u00e3o para tais produtos, quando no pr\u00f3prio artigo e a toda hora nos notici\u00e1rios se observa que a utiliza\u00e7\u00e3o das tecnologias e de seus produtos t\u00eam causado tantos males a estratos cada vez mais importantes das sociedades no planeta? Aos produtos com valor de uso fict\u00edcio se juntam aqueles com valor de uso destrutivo como aqueles produzidos pelas rede de pedofilia e das mais diversas fantasmagorias, aberra\u00e7\u00f5es e patologias como as que induzem e imp\u00f5em mutila\u00e7\u00f5es e suic\u00eddios.<\/p>\n<p>O recurso \u00e0 teoria de Polanyi e \u00e0 ideia de que a aten\u00e7\u00e3o pode ser<em>\u00a0mercantilizada<\/em> n\u00e3o ajuda na explica\u00e7\u00e3o de uma suposta transi\u00e7\u00e3o a um \u201cmodo de produ\u00e7\u00e3o novo\u201d como querem alguns novos int\u00e9rpretes. Isto porque a \u201cmercantiliza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o\u201d realiza, de fato, uma fixa\u00e7\u00e3o na apar\u00eancia, na circula\u00e7\u00e3o de mercadorias f\u00edsicas e ideais, e n\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o direta delas. Foi exatamente esta \u00faltima que possibilitou o deslocamento de uma importante massa de capital oriunda da maior acumula\u00e7\u00e3o de capital da hist\u00f3ria do capitalismo (1945-1975), para a superprodu\u00e7\u00e3o de tecnologias as mais diversas, quer seja sob o formato f\u00edsico ou l\u00f3gico \u201cnumerizado\u201d, que utilizamos o tempo todo escrevendo nos computadores, lendo nos \u201ctablets\u201d ou em \u201ckindles\u201d, comprando criptomoedas ou vendo filmes em alguma plataforma de \u201cstreaming\u201d.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1 Oliveira, Marcos Barbosa, Em busca de uma teoria do valor-aten\u00e7\u00e3o. Boletim <em>Outras Palavras<\/em> em 15\/07\/2025,<\/p>\n<p>2 Fran\u00e7ois Chesnais. <em>Finance capital today corporations and banks in the lasting global slump<\/em>. Boston, Brill Academic Pub., 2016.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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