{"id":51224,"date":"2025-09-10T20:05:35","date_gmt":"2025-09-10T23:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/dossie-mexico-a-rebeldia-e-suas-origens\/"},"modified":"2025-09-10T20:05:35","modified_gmt":"2025-09-10T23:05:35","slug":"dossie-mexico-a-rebeldia-e-suas-origens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dossie-mexico-a-rebeldia-e-suas-origens\/","title":{"rendered":"Dossi\u00ea M\u00e9xico: A rebeldia e suas origens"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/9b74072c-f15a-4676-87c6-3a71df0ab7d0.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/9b74072c-f15a-4676-87c6-3a71df0ab7d0.jpeg 1200w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/9b74072c-f15a-4676-87c6-3a71df0ab7d0-300x200.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/9b74072c-f15a-4676-87c6-3a71df0ab7d0-768x512.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/9b74072c-f15a-4676-87c6-3a71df0ab7d0-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><figcaption>Foto: REUTERS<\/figcaption><\/figure>\n<h2>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 24 de abril de 2005 e, nas ruas da Cidade do M\u00e9xico, se vive um acontecimento ao mesmo tempo previs\u00edvel e in\u00e9dito. O centro hist\u00f3rico e sua emblem\u00e1tica pra\u00e7a nacional, o Z\u00f3calo, n\u00e3o s\u00e3o estranhos a protestos, com as massas organizando manifesta\u00e7\u00f5es que marcham, ocupam, se posicionam e nunca se calam. Dessa vez, se cozinha nas ruas da capital um caldo de indigna\u00e7\u00e3o, cansa\u00e7o, otimismo e teimosia, que culminar\u00e1 \u2014 13 anos depois \u2014 no primeiro governo de esquerda no M\u00e9xico em quase 100 anos, o que ficaria conhecido como a Quarta Transforma\u00e7\u00e3o. Mais de um milh\u00e3o de mexicanos e mexicanas resistem ao \u201cdesafuero\u201d de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador (AMLO), por meio do qual se buscava inviabilizar sua candidatura \u00e0 presid\u00eancia do M\u00e9xico.<sup>1<\/sup><\/p>\n<p> A estrat\u00e9gia articulada por Vicente Fox, o presidente do pa\u00eds, esbo\u00e7a uma fraude maci\u00e7a contra algu\u00e9m que parece ser uma amea\u00e7a real \u00e0 altern\u00e2ncia entre o Partido Revolucion\u00e1rio Institucional (PRI) e o Partido da A\u00e7\u00e3o Nacional (PAN). Fraude eleitoral n\u00e3o \u00e9 novidade. Uma delas ocorreu em 1988, quando Cuauht\u00e9moc C\u00e1rdenas Solorzano, companheiro de partido de AMLO e membro do extinto Partido Revolucion\u00e1rio Democr\u00e1tico (PRD), n\u00e3o foi declarado presidente apesar de ter vencido nas urnas.<\/p>\n<p>Diante da possibilidade do impedimento de AMLO, os militantes obradoristas decidiram n\u00e3o abaixar a cabe\u00e7a; tomaram o centro da cidade, mostrando que havia uma base social disposta a construir uma alternativa ao regime que come\u00e7ava a se consolidar como \u201cPrian\u201d.<sup>2<\/sup><\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-2-6.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-2-6.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p> Assim come\u00e7ou um novo cap\u00edtulo na hist\u00f3ria mexicana, uma hist\u00f3ria de lutas e conquistas, de repress\u00f5es e retrocessos, de rebeli\u00f5es e revolu\u00e7\u00f5es, de trai\u00e7\u00f5es e derrotas, e de transforma\u00e7\u00f5es ineg\u00e1veis que n\u00e3o s\u00e3o lineares, mas atravessam o tempo em idas e vindas, como toda evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este dossi\u00ea, <em>M\u00e9xico e sua Quarta Transforma\u00e7\u00e3o, <\/em>analisa este cap\u00edtulo: as mudan\u00e7as desde a chegada do Movimento de Regenera\u00e7\u00e3o Nacional (Morena) ao governo, colocando-os \u2013 para aprofundar sua compreens\u00e3o \u2013 no contexto dos processos de democratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds desde a sua independ\u00eancia. A pesquisa foi conduzida por Stephanie Weatherbee, da Assembleia Internacional dos Povos, e por Alina Duarte, jornalista e coordenadora de Forma\u00e7\u00e3o Internacional do Instituto Nacional de Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Morena.<\/p>\n<h2>As tr\u00eas transforma\u00e7\u00f5es que precedem a quarta<\/h2>\n<p>No decorrer de dois s\u00e9culos como uma rep\u00fablica nascida da violenta coloniza\u00e7\u00e3o espanhola, o M\u00e9xico percorreu uma longa e impetuosa jornada em busca de soberania, justi\u00e7a social e desenvolvimento. O Morena concebe essa hist\u00f3ria como uma hist\u00f3ria de transforma\u00e7\u00f5es subsequentes, incluindo a Guerra da Independ\u00eancia (1810-1821), a Guerra da Reforma (1858-1861) e a Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana (1910-1917). Assim, seu projeto nacional \u00e9 identificado como uma Quarta Transforma\u00e7\u00e3o, \u201ca 4T\u201d.<\/p>\n<h3>Guerra da Independ\u00eancia (1810-1821)<\/h3>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio mexicano foi um processo brutal que atacou uma popula\u00e7\u00e3o multi\u00e9tnica com uma hist\u00f3ria milenar. Olmecas, zapotecas, maias, n\u00e1uatles e outros povos viveram em todo o territ\u00f3rio atual, sobrevivendo at\u00e9 hoje em muitos deles (Escalante Gonzalbo, 2008).<\/p>\n<p>A grandiosidade da civiliza\u00e7\u00e3o pr\u00e9-hisp\u00e2nica foi referenciada pelos crioulos espanh\u00f3is durante a era da independ\u00eancia como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 domina\u00e7\u00e3o dos espanh\u00f3is peninsulares. Esse mito coletivo sobre a \u201cgrandiosidade mexicana\u201d (Gonzalez Casanova, 1981, p. 21-98) foi importante na Guerra da Independ\u00eancia e, de alguma forma, persiste at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A luta pela independ\u00eancia mexicana foi uma guerra de massas, liderada por centenas de milhares de soldados, principalmente camponeses e ind\u00edgenas. Inicialmente liderada pelo padre Miguel Hidalgo, que precisou apenas da imagem da Virgem de Guadalupe para convocar o povo \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o, evocando uma luta de propor\u00e7\u00f5es que transcendiam o \u00e2mbito material e correspondiam a uma reorganiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica de um povo que, segundo ele, estava destinado a viver em liberdade. No ideal mexicano, o Padre Hidalgo foi canonizado como uma figura heroica que deu os primeiros passos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o, como uma esp\u00e9cie de \u201cpai\u201d pol\u00edtico de um povo rebelde e sedento de liberdade. Essa mitologia e a concep\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico como um povo incans\u00e1vel com ancestrais grandiosos est\u00e3o presentes nos processos subsequentes de transforma\u00e7\u00e3o e na cultura pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n<h3>Guerra da Reforma (1858-1861)<\/h3>\n<p>O prolongado conflito entre for\u00e7as liberais e conservadoras, com vis\u00f5es nacionais opostas, culminou na Guerra da Reforma. Esse confronto representou uma luta entre um modelo centralista e mon\u00e1rquico, apoiado pelos conservadores, e um Estado liberal e federalista, promovido pelos liberais. Nesse contexto, os liberais buscavam enfraquecer o poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico do clero, cujos privil\u00e9gios tamb\u00e9m eram cobi\u00e7ados pela burguesia emergente.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/curso-rosa-luxemburgo-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/curso-rosa-luxemburgo-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/curso-rosa-luxemburgo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Antes e durante esse per\u00edodo, o M\u00e9xico foi palco de diversas invas\u00f5es estrangeiras que colocaram em risco a sua soberania: a invas\u00e3o dos Estados Unidos, em 1846, que resultou na perda de mais da metade do territ\u00f3rio nacional, e as da Fran\u00e7a, primeiro em 1838-1839 e novamente entre 1861 e 1867. Essas amea\u00e7as consolidaram uma resist\u00eancia nacionalista na qual o povo lutou fervorosamente para defender a soberania e a p\u00e1tria.<\/p>\n<p>A Guerra da Reforma foi, sem d\u00favida, um dos processos hist\u00f3ricos que mais contribu\u00edram para o desenvolvimento da consci\u00eancia nacional. A vit\u00f3ria das for\u00e7as republicanas lideradas por Benito Ju\u00e1rez e Sebasti\u00e1n Lerdo de Tejada sobre a interven\u00e7\u00e3o francesa foi um marco na hist\u00f3ria mexicana. A execu\u00e7\u00e3o do Imperador Maximiliano no Cerro de las Campanas simbolizou de forma inequ\u00edvoca a decis\u00e3o do pa\u00eds de se tornar uma na\u00e7\u00e3o soberana e antimon\u00e1rquica.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria liberal n\u00e3o apenas consolidou a independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias estrangeiras, mas tamb\u00e9m permitiu uma s\u00e9rie de reformas que transferiram o poder da Igreja. Essas transforma\u00e7\u00f5es abriram caminho para o surgimento de uma oligarquia burguesa, capaz de impulsionar a moderniza\u00e7\u00e3o e a industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<h3>Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana (1910-1917)<\/h3>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana foi o processo de transforma\u00e7\u00e3o social com a maior participa\u00e7\u00e3o popular da hist\u00f3ria do pa\u00eds, marcado pela lideran\u00e7a e proemin\u00eancia dos setores campon\u00eas e ind\u00edgena. O Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o do Sul, liderado por Emiliano Zapata, e a Divis\u00e3o do Norte, comandada por Pancho Villa, constitu\u00edram as for\u00e7as populares fundamentais da Revolu\u00e7\u00e3o. Sua unidade foi simbolicamente representada pela entrada triunfal na Cidade do M\u00e9xico em 1914.<\/p>\n<p>Inspirados pelo Plano de Ayala, esses l\u00edderes revolucion\u00e1rios promoveram um projeto nacional alternativo, profundamente popular e transformador.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p> O campesinato ind\u00edgena do sudeste e os fazendeiros do norte personificaram essa vis\u00e3o, que continua sendo um modelo e inspira\u00e7\u00e3o para v\u00e1rios movimentos sociais no M\u00e9xico hoje.<\/p>\n<p>O papel dos Estados Unidos foi decisivo na defini\u00e7\u00e3o do curso da Revolu\u00e7\u00e3o. A interven\u00e7\u00e3o estadunidense, que incluiu a ocupa\u00e7\u00e3o do porto de Veracruz em abril de 1914 e o fornecimento de armas e muni\u00e7\u00f5es aos apoiadores de Venustiano Carranza, um l\u00edder menos radical, foi fundamental para deter e, por fim, derrotar o projeto popular liderado por Zapata e Villa. O apoio do presidente estadunidense Woodrow Wilson a Venustiano Carranza foi consolidado com o seu reconhecimento oficial, o que contribuiu decisivamente para a aniquila\u00e7\u00e3o das for\u00e7as populares revolucion\u00e1rias (Pineda G\u00f3mez, 2013).<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que emergiu da Revolu\u00e7\u00e3o seria a mais complexa e influente do M\u00e9xico moderno, e \u00e9 precisamente esse legado que o projeto pol\u00edtico contempor\u00e2neo do Morena acabar\u00e1 por confrontar. Apesar da derrota do projeto revolucion\u00e1rio popular, a Revolu\u00e7\u00e3o deixou uma marca profunda: gerou consci\u00eancia social, autoestima e confian\u00e7a popular que n\u00e3o podiam mais ser ignoradas. As for\u00e7as conservadoras foram obrigadas a pactuar com essas novas realidades.<\/p>\n<p>Por isso, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1917 incluiu muitas das reivindica\u00e7\u00f5es do campesinato e dos oper\u00e1rios, embora seu cumprimento por parte das elites dominantes tenha sido historicamente limitado. Para manter o poder em um pa\u00eds radicalizado e ainda armado, presidentes como Venustiano Carranza (1917-1920) e \u00c1lvaro Obreg\u00f3n (1920-1924) recorreram a um sistema de caudilhos revolucion\u00e1rios: chefes de militares que herdaram cargos pol\u00edticos em troca de lealdade ao \u201cChefe M\u00e1ximo\u201d da vez. Esse sistema, que representava os interesses da burguesia sobrevivente da Revolu\u00e7\u00e3o e dos antigos latifundi\u00e1rios, sobreviveu de diversas formas at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>A Quarta Transforma\u00e7\u00e3o, promovida pelo Morena, \u00e9 concebida como uma continua\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas processos que formaram a base do que \u00e9 hoje o M\u00e9xico. O legado de cada um desses processos est\u00e1 presente no chamado \u201chumanismo mexicano\u201d, que integra a antiga cultura ind\u00edgena do pa\u00eds e suas lutas hist\u00f3ricas. Por um lado, reivindica os valores dos povos origin\u00e1rios, incorporando um esp\u00edrito libert\u00e1rio e comunit\u00e1rio, oposto \u00e0 propriedade privada colonial. Al\u00e9m de reconhecer a import\u00e2ncia das culturas ind\u00edgenas e respeitar seus costumes, o humanismo mexicano reivindica os direitos das comunidades ind\u00edgenas como sujeitos pol\u00edticos. Por outro lado, inspira-se em figuras-chave como o Padre Hidalgo, Jos\u00e9 Mar\u00eda Morelos, Benito Ju\u00e1rez, Emiliano Zapata, Pancho Villa, Francisco I. Madero e L\u00e1zaro C\u00e1rdenas, que personificam valores como justi\u00e7a social, democracia e soberania (L\u00f3pez Obrador, 2024). O 4T buscou enraizar esses princ\u00edpios em um projeto transformador que revitalize a identidade nacional e construa um novo bloco de poder inclusivo, profundamente conectado ao povo mexicano e \u00e0 sua hist\u00f3ria. A concep\u00e7\u00e3o do 4T n\u00e3o busca apenas legitimar a proposta do Morena, mas tamb\u00e9m diferenci\u00e1-la do PRI e de outras propostas da esquerda ideol\u00f3gica do pa\u00eds.<\/p>\n<h3>A revolu\u00e7\u00e3o tra\u00edda<\/h3>\n<p>Ap\u00f3s o fim da Revolu\u00e7\u00e3o, em 1917, as for\u00e7as governantes tiveram que enfrentar sem descanso nem tr\u00e9gua um povo radicalizado, organizado e, em alguns casos, armado, que n\u00e3o esquecia o que havia almejado e constru\u00eddo durante dez anos de revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As lutas dos trabalhadores, camponeses e inquilinos fizeram parte de um esfor\u00e7o incans\u00e1vel para continuar a luta contra a trai\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o durante os governos de Venustiano Carranza (1917-1920), Alvaro Obreg\u00f3n (1920-1924), Plutarco E. Calles (1924-1928) e o Maximato (1928-1934).<sup>4<\/sup><\/p>\n<p> Assim, o inesgot\u00e1vel movimento campon\u00eas, oper\u00e1rio e urbano veria os frutos de sua persist\u00eancia na vit\u00f3ria de seu candidato presidencial, L\u00e1zaro C\u00e1rdenas, em 1934.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<h3>Cardenismo<\/h3>\n<p>Caudilho revolucion\u00e1rio do estado de Michoac\u00e1n, L\u00e1zaro C\u00e1rdenas estabeleceu o primeiro governo de esquerda da hist\u00f3ria mexicana. O cardenismo, de car\u00e1ter antilatifundi\u00e1rio, anti-imperialista e oper\u00e1rio, instituiu as maiores reformas populares da hist\u00f3ria do pa\u00eds: reforma agr\u00e1ria, expropria\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, Estado de bem-estar e educa\u00e7\u00e3o que visava um projeto nacional (Ben\u00edtez, 2023).<\/p>\n<p>A reforma agr\u00e1ria levada a cabo entre 1935 e 1937, apesar de ter eliminado as grandes propriedades e introduzido os <em>ejidos<\/em><sup>5<\/sup> \u2013 unidades coletivas de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola familiar \u2013, n\u00e3o conseguiu eliminar o poder pol\u00edtico do latif\u00fandio, nem gerou as estruturas econ\u00f4micas para garantir a sobreviv\u00eancia econ\u00f4mica e produtiva do <em>ejido<\/em> (Bartra, 2019). Apesar dessas limita\u00e7\u00f5es, a pol\u00edtica agr\u00e1ria de C\u00e1rdenas contribuiu inegavelmente para a retirada da paisagem rural do atraso e da marginaliza\u00e7\u00e3o impostos pelo per\u00edodo colonial e pelo latif\u00fandio. Al\u00e9m de se realizar a distribui\u00e7\u00e3o das terras mais produtivas do pa\u00eds, ampliou-se o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 cultura no campo.<\/p>\n<p>Uma longa e aguerrida luta dos sindicatos petrol\u00edferos contra o capital estrangeiro foi o impulso que criou as condi\u00e7\u00f5es para a expropria\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria petrol\u00edfera. A greve de 1935 e a greve geral de 1937 chegaram \u00e0 Suprema Corte, que decidiu a favor das reivindica\u00e7\u00f5es salariais dos oper\u00e1rios. Diante desse enfrentamento \u2013 agora n\u00e3o apenas contra o sindicalismo, mas tamb\u00e9m contra um Estado de car\u00e1ter popular \u2013, as empresas estrangeiras organizaram uma campanha de press\u00e3o e descr\u00e9dito contra o governo C\u00e1rdenas. Convencido do comportamento desleal das empresas, ele anunciou em 1938 que o Estado n\u00e3o tinha escolha a n\u00e3o ser expropriar a ind\u00fastria petrol\u00edfera para o bem do pa\u00eds (Ben\u00edtez, 2023).<\/p>\n<p>O cardenismo foi, portanto, uma ratifica\u00e7\u00e3o das lutas e do projeto nacional que pareciam ter sido derrotados ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o. Implementou uma pol\u00edtica econ\u00f4mica desenvolvimentista e redistributiva que fomentou o crescimento baseado na expans\u00e3o do mercado interno, modelo que os governos subsequentes mantiveram at\u00e9 a onda neoliberal. Em mat\u00e9ria pol\u00edtica, por\u00e9m, C\u00e1rdenas introduziu formas de organiza\u00e7\u00e3o do Estado, de exerc\u00edcio do poder e de incorpora\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es de base ao arcabou\u00e7o institucional, levando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do PRI. No campo, a reforma agr\u00e1ria foi institucionalizada, e o esfor\u00e7o para fortalecer politicamente o <em>ejido<\/em> criou organiza\u00e7\u00f5es como a Confedera\u00e7\u00e3o Nacional Camponesa, que dependia do Estado, minando a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica independente do campesinato (Bartra, 2019).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o governo C\u00e1rdenas, tanto os compromissos forjados durante a Revolu\u00e7\u00e3o quanto os avan\u00e7os do cardenismo foram tra\u00eddos. A rejei\u00e7\u00e3o da direita ao cardenismo foi consolidada pelos presidentes Manuel \u00c1vila Camacho (1940-1946) e Miguel Alem\u00e1n (1946-1952), que fundaram um projeto autorit\u00e1rio com o PRI, enterrando o horizonte socialista e reprimindo os movimentos sociais. A viol\u00eancia contra sindicalistas e camponeses, como o assassinato de Rub\u00e9n Jaramillo em 1962 e o massacre de Tlatelolco em 1968, revelou a natureza repressiva do regime. Enquanto isso, a esquerda do partido n\u00e3o conseguiu construir uma alternativa s\u00f3lida ao PRI: o Partido Socialista Popular (PPS) foi cooptado, e o Partido Comunista Mexicano (PCM) permaneceu marginalizado (Taibo, 2019). Essa aus\u00eancia contribuiu para o fechamento democr\u00e1tico, enquanto o PAN se tornou uma oposi\u00e7\u00e3o d\u00f3cil.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a repress\u00e3o da \u201cGuerra Suja\u201d,<sup>6<\/sup> setores de esquerda abandonaram a via armada e optaram pela via eleitoral. Em 1988, ap\u00f3s a fraude que imp\u00f4s Carlos Salinas como presidente, nasceu a Frente Nacional Democr\u00e1tica, liderada por Cuauht\u00e9moc C\u00e1rdenas. Em 1989, o Partido da Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (PRD) foi fundado como uma alternativa de esquerda, com o apoio de movimentos como o Comit\u00ea de Estudantes Universit\u00e1rios (CEU) da Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico (Unam) (Cedujo-Ramos, 2022). No entanto, o PRD n\u00e3o conseguiu consolidar a unidade interna: suas m\u00faltiplas correntes e pr\u00e1ticas clientelistas o enfraqueceram (Torres-Ruiz, 2021). Assim, perdeu sua dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e se tornou uma for\u00e7a eleitoral, replicando os v\u00edcios do PRI, o que contribuiu para o seu decl\u00ednio e o surgimento do Morena.<\/p>\n<h2>O Movimento Nacional de Regenera\u00e7\u00e3o (Morena) e o 4T<\/h2>\n<p>Entre 1989 e 2018, as lutas contra o neoliberalismo e pela democratiza\u00e7\u00e3o abundaram em todo o pa\u00eds. Houve o levante zapatista (1994); a mobiliza\u00e7\u00e3o de El Barz\u00f3n contra o plano de resgate financeiro de 12 bancos privados que constitu\u00edam o Fundo de Prote\u00e7\u00e3o da Poupan\u00e7a Banc\u00e1ria (FOBAPROA); a resist\u00eancia ao projeto neoliberal no Ensino Superior que desencadeou o Conselho Geral de Greve (CGH) na Unam, em 1999; a resist\u00eancia contra um novo aeroporto pelos moradores de Atenco (2001-2006); a luta em defesa dos direitos trabalhistas dos professores, conforme estabelecido na reforma educacional realizada pela Associa\u00e7\u00e3o Popular dos Povos de Oaxaca \u2014 APPO (2006); o movimento estudantil #YoSoy132 (2012); at\u00e9 o amplo movimento contra o desaparecimento de 43 alunos do Ensino Normal em Ayotzinapa (2014). De todos os movimentos de resist\u00eancia gerados durante esse per\u00edodo, o zapatismo tornou-se, sem d\u00favida, uma refer\u00eancia nacional para a esquerda social, representando uma luta antissist\u00eamica e anticapitalista que rejeitou a via eleitoral como estrat\u00e9gia de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Durante esse mesmo per\u00edodo, L\u00f3pez Obrador se estabeleceu como uma figura pol\u00edtica alternativa. Iniciou sua carreira pol\u00edtica trabalhando com comunidades ind\u00edgenas e enfrentando a exclus\u00e3o social em seu estado natal, Tabasco. Sua passagem pelo PRI e pelo PRD o levou a se tornar prefeito da Cidade do M\u00e9xico, consolidando sua posi\u00e7\u00e3o como opositor do sistema. Seu <em>impeachment<\/em>, orquestrado pelo PRI e pelo PAN, o transformou em um s\u00edmbolo de resist\u00eancia e, ap\u00f3s a fraude de 2006, o Morena come\u00e7ou a ser constru\u00eddo de baixo para cima, com uma Conven\u00e7\u00e3o Nacional Democr\u00e1tica (Bartra, 2022). Apesar de n\u00e3o ter originado ou liderado as principais lutas sociais que caracterizaram a resist\u00eancia ao neoliberalismo, L\u00f3pez Obrador conseguiu canalizar o descontentamento e a indigna\u00e7\u00e3o do povo para a constru\u00e7\u00e3o de um novo instrumento eleitoral, o Movimento de Regenera\u00e7\u00e3o Nacional (Morena), que conquistou a presid\u00eancia em 2018 com um projeto popular, plebeu e nacionalista.<\/p>\n<p>A Quarta Transforma\u00e7\u00e3o, nas palavras de Citlalli Hern\u00e1ndez \u2013 atual Secret\u00e1ria de Assuntos da Mulher e ex-Secret\u00e1ria-Geral do Morena, a quem entrevistamos para este dossi\u00ea \u2013, \u00e9 um projeto que busca criar uma nova na\u00e7\u00e3o por meio da transforma\u00e7\u00e3o das estruturas pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Os seis anos e meio desse processo nos permitem identificar os pontos medulares da proposta transformadora que emerge das lutas que constroem o Morena: a desconstru\u00e7\u00e3o do neoliberalismo e a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Ambas as dimens\u00f5es do projeto de transforma\u00e7\u00e3o sofrem de contradi\u00e7\u00f5es, algumas decorrentes da composi\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea do Morena, outras da dificuldade natural de reverter rapidamente uma estrutura econ\u00f4mica e estatal consolidada ao longo de d\u00e9cadas.<\/p>\n<h3>Reverter, reformar ou enterrar o neoliberalismo<\/h3>\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) 2019-2024, L\u00f3pez Obrador, cujo mandato (2018-2024) inaugurou a Quarta Transforma\u00e7\u00e3o (4T), declarou que o neoliberalismo havia sido definitivamente superado no M\u00e9xico e n\u00e3o mais seria a pol\u00edtica econ\u00f4mica do pa\u00eds. A declara\u00e7\u00e3o foi, sem d\u00favida, uma aspira\u00e7\u00e3o, visto que, seis anos ap\u00f3s esse momento, o pa\u00eds permanece atrelado a condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que reproduzem o neoliberalismo.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica econ\u00f4mica mexicana anterior \u00e0 presid\u00eancia de Miguel de la Madrid (1982-1988) caracterizou-se por intensa e ampla participa\u00e7\u00e3o estatal, um modelo de industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es (ISI) e um amplo portf\u00f3lio de empresas estatais. A implementa\u00e7\u00e3o de programas recomendados pelo FMI, Banco Mundial, Federal Reserve e Departamento do Tesouro dos Estados Unidos transformou drasticamente a pol\u00edtica econ\u00f4mica nacional. O sistema financeiro foi quase completamente privatizado e o com\u00e9rcio exterior foi liberalizado, permitindo a entrada de investimentos estrangeiros. A economia concentrou-se quase exclusivamente no mercado externo, notadamente nos Estados Unidos (Tello, 2014).<\/p>\n<p>A liberaliza\u00e7\u00e3o comercial iniciada em 1983 com a redu\u00e7\u00e3o de tarifas foi seguida pela ades\u00e3o ao Acordo Geral sobre Tarifas e Com\u00e9rcio (GATT, na sigla em ingl\u00eas) em 1986 e culminou em 1993 com a aprova\u00e7\u00e3o do Acordo de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (Nafta, na sigla em ingl\u00eas). A privatiza\u00e7\u00e3o agressiva de empresas p\u00fablicas, uma reforma tribut\u00e1ria regressiva e a disciplina fiscal por meio da redu\u00e7\u00e3o dos gastos p\u00fablicos destru\u00edram o j\u00e1 enfraquecido pacto entre a classe trabalhadora e o capital que os governos p\u00f3s-revolucion\u00e1rios haviam constru\u00eddo. Durante o mandato de Ernesto Zedillo (1994-2000), o desmantelamento da Suprema Corte de Justi\u00e7a permitiu que reformas inconstitucionais avan\u00e7assem sem o devido processo legal. O Pacto pelo M\u00e9xico, assinado em 2012 durante o governo de Enrique Pe\u00f1a Nieto como um acordo nacional unindo o PRI, o PAN e o PRD, representou o \u00e1pice de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de neoliberalismo no pa\u00eds. O Pacto pelo M\u00e9xico promoveu a reforma energ\u00e9tica que abriria o mercado de hidrocarbonetos para uma maior participa\u00e7\u00e3o privada em 2013, e a reforma das telecomunica\u00e7\u00f5es do mesmo ano que criou \u00f3rg\u00e3os reguladores estatais aut\u00f4nomos que favoreciam a iniciativa privada em detrimento do bem-estar p\u00fablico.<\/p>\n<p>No discurso de Obrador, o neoliberalismo foi apresentado como um vasto esquema de corrup\u00e7\u00e3o e empobrecimento sistem\u00e1tico que beneficiou apenas uma pequena parcela da popula\u00e7\u00e3o. Embora essa vis\u00e3o possa simplificar algo mais complexo, ela se encaixa no imagin\u00e1rio popular que entende as reformas do per\u00edodo neoliberal como um abuso de poder pelas classes dominantes. Pol\u00edticas neoliberais \u2013 como a venda de empresas estatais a pre\u00e7os baixos, o que favoreceu a cria\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios,<sup>7<\/sup> o perd\u00e3o de impostos que esvaziou os cofres p\u00fablicos e a expans\u00e3o da ind\u00fastria maquiladora, que deu origem a um proletariado industrial empobrecido e voltado para o mercado externo \u2014 s\u00e3o vistos como medidas que beneficiaram de forma injusta e desproporcional aqueles com acesso ao poder. O discurso sobre corrup\u00e7\u00e3o, portanto, repercutiu fortemente na maioria da popula\u00e7\u00e3o, que entende o 4T como uma salvaguarda contra esses abusos, apesar da aus\u00eancia de transforma\u00e7\u00f5es substanciais na pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Assim, a revers\u00e3o do neoliberalismo tem sido entendida como sin\u00f4nimo de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, e suas principais reformas constituem modifica\u00e7\u00f5es \u2013 e n\u00e3o transforma\u00e7\u00f5es \u2013 do Estado e da forma como arbitra as rela\u00e7\u00f5es entre capital e trabalho, entre o empresariado nacional e estrangeiro e o povo mexicano. O fim do perd\u00e3o \u00e0s empresas, a cobran\u00e7a de impostos sonegados, a nacionaliza\u00e7\u00e3o do l\u00edtio, o aumento significativo dos sal\u00e1rios e a regulamenta\u00e7\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o pela Lei Federal do Trabalho s\u00e3o exemplos dessa modifica\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Durante o segundo governo da 4T, o de Claudia Sheinbaum (2024-2030), a soberania energ\u00e9tica foi fortalecida por meio da recupera\u00e7\u00e3o do controle estatal sobre os recursos estrat\u00e9gicos do pa\u00eds. A Petr\u00f3leos Mexicanos (Pemex), ap\u00f3s anos de neglig\u00eancia deliberada que facilitou sua abertura a interesses privados, foi reconstru\u00edda com investimento p\u00fablico. A produ\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos e as reservas nacionais aumentaram, enquanto as exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo bruto e as importa\u00e7\u00f5es de gasolina, diesel e g\u00e1s dos Estados Unidos foram reduzidas. A compra da refinaria de Deer Park, no Texas, em 2022, cujo investimento foi recuperado em apenas um ano, e a constru\u00e7\u00e3o da nova refinaria de Olmeca, em Tabasco, marcaram uma mudan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 autossufici\u00eancia em combust\u00edvel. Al\u00e9m disso, contratos foram renegociados para alinhar a extra\u00e7\u00e3o ao consumo nacional, e a efici\u00eancia operacional da empresa foi aprimorada. Ao mesmo tempo, a Comiss\u00e3o Federal de Eletricidade (CFE) foi fortalecida com o apoio estatal, consolidando seu papel estrat\u00e9gico. A empresa aumentou sua receita, recuperou valor como patrim\u00f4nio p\u00fablico e se posicionou como um pilar do sistema el\u00e9trico nacional.<\/p>\n<p>A reforma energ\u00e9tica, apresentada em janeiro de 2025 como parte do segundo conjunto de emendas \u00e0 Quarta Transforma\u00e7\u00e3o (4T), devolve ao Estado o papel de planejar o setor el\u00e9trico, essencial tanto para a valoriza\u00e7\u00e3o das empresas mexicanas quanto para garantir um desenvolvimento econ\u00f4mico inclusivo. Dentro da mesma reforma apresenta a eletricidade como elemento fundamental de uma vida digna, o que contribui para desconstruir, tanto jur\u00eddica quanto discursivamente, sua concep\u00e7\u00e3o como mera mercadoria (Romero, 2025). A reforma tamb\u00e9m estabelece constitucionalmente que todas as atividades realizadas por empresas p\u00fablicas devem ter como objetivo a cobertura e o acesso, e n\u00e3o o lucro.<\/p>\n<p>A possibilidade de implementar essas reformas exigia a supera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo no plano ideol\u00f3gico, que n\u00e3o deve ser subestimado ou minimizado. Uma parte essencial da luta contra o neoliberalismo envolve a den\u00fancia da ideologia que vilipendia o Estado e a coletividade, enquanto diviniza o mercado. Nas palavras de H\u00e9ctor D\u00edaz Polanco, presidente do Morena na Cidade do M\u00e9xico, que entrevistamos para este dossi\u00ea:<\/p>\n<blockquote>\n<p>[No projeto do Morena havia] a constru\u00e7\u00e3o de um novo senso comum que inclu\u00eda fundamentalmente a desmistifica\u00e7\u00e3o de tudo o que o neoliberalismo triunfante e vigente no pa\u00eds implicava; era a estrutura a ser derrotada, o que implicava uma vis\u00e3o muito clara de rejei\u00e7\u00e3o da ideia de que o mercado resolvia os problemas da sociedade. Para relembrar a ideia cl\u00e1ssica de que o mercado poderia se autorregular, partimos da premissa de que o mercado n\u00e3o pode se autorregular e de todos os problemas que o pa\u00eds derivou dessa primeira ideia.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Embora se reconhe\u00e7a a import\u00e2ncia das reformas implementadas, \u00e9 necess\u00e1rio afirmar que o neoliberalismo n\u00e3o se resume \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se limita \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do papel do Estado na gest\u00e3o econ\u00f4mica. Est\u00e1 tamb\u00e9m intimamente ligado \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o para a exporta\u00e7\u00e3o e, no caso mexicano, \u00e0 integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds com os Estados Unidos e \u00e0 consequente reprodu\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Durante o primeiro governo da 4T, o de L\u00f3pez Obrador, entrou em vigor o Tratado entre o M\u00e9xico, os Estados Unidos e o Canad\u00e1 (T-MEC), depois de ter sido renegociado pelo governo de Enrique Pe\u00f1a Nieto (2012-2018). O T-MEC, longe de reverter a depend\u00eancia estabelecida pelo Nafta, a aprofundou. O acordo amplia os direitos de investimento para empresas estadunidenses, eliminando barreiras e proibindo medidas que favore\u00e7am a produ\u00e7\u00e3o nacional ou controlem fluxos especulativos de capital. Tamb\u00e9m garante tratamento preferencial para servi\u00e7os financeiros estrangeiros e pro\u00edbe nacionaliza\u00e7\u00f5es. Embora a soberania sobre os hidrocarbonetos tenha sido preservada,<sup>8<\/sup> foram abertos mais de 100 contratos de extra\u00e7\u00e3o durante a reforma energ\u00e9tica de Pe\u00f1a Nieto, que contam com prote\u00e7\u00f5es. Esse tratado tamb\u00e9m liberaliza o mercado agr\u00edcola mexicano, aumentando as importa\u00e7\u00f5es de transg\u00eanicos e limitando os subs\u00eddios para agricultores locais, consolidando a depend\u00eancia alimentar do M\u00e9xico, que j\u00e1 cobre 40% do seu consumo com exporta\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos (Calder\u00f3n Salazar, 2022).<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ser respons\u00e1vel pela renegocia\u00e7\u00e3o do tratado, o governo de AMLO lhe deu apoio pol\u00edtico, demonstrando apoio ao seu conte\u00fado e \u00e0s garantias oferecidas aos investidores, e apoiando o processo de ratifica\u00e7\u00e3o no Congresso. O tratado manteve a lucratividade das empresas nacionais e estrangeiras,<sup>9<\/sup> consolidou o privil\u00e9gio do capital estrangeiro em v\u00e1rios setores,<sup>10<\/sup> debilitou a soberania alimentar<sup>11<\/sup> e favoreceu a desapropria\u00e7\u00e3o territorial e a pol\u00edtica extrativista enfrentada pelas comunidades rurais desde a ascens\u00e3o do neoliberalismo.<sup>12<\/sup><\/p>\n<p>No caso do setor agr\u00edcola, os efeitos adversos do tratado foram mitigados pelos governos da 4T por meio de subs\u00eddios \u00e0 produ\u00e7\u00e3o para o mercado interno.<sup>13<\/sup><\/p>\n<p> Nesse sentido, vale destacar os programas Colhendo Soberania e Produ\u00e7\u00e3o para o Bem-Estar, lan\u00e7ados em 2025, que oferecem diversos tipos de apoio e servi\u00e7os a pequenos e m\u00e9dios produtores (Governo do M\u00e9xico, 2025). Esses programas se somam ao Semeando Vida, lan\u00e7ado pelo ex-presidente L\u00f3pez Obrador, que buscava oferecer aos camponeses apoio financeiro e em esp\u00e9cie, de viveiros comunit\u00e1rios a biof\u00e1bricas e centros de treinamento que, por sua vez, formavam comunidades camponesas de aprendizagem, a fim de fomentar um di\u00e1logo de conhecimento e promover iniciativas coletivas (Governo do M\u00e9xico, 2019). Dessa forma, os pre\u00e7os de diversos produtos foram mantidos e, em alguns casos, reduzidos. Ao mesmo tempo, apesar de a desapropria\u00e7\u00e3o de terras ser um dos efeitos mais negativos dos acordos comerciais com os Estados Unidos, a Quarta Transforma\u00e7\u00e3o restituiu terras. O exemplo de maior destaque nesse sentido \u00e9 a devolu\u00e7\u00e3o de 2.900 hectares ao povo Yaqui (Governo do M\u00e9xico \u2013 INPI, 2021) como parte dos Planos de Justi\u00e7a e Desenvolvimento Integral dos Povos e Comunidades Ind\u00edgenas, que introduziram mecanismos que apoiam a tomada de decis\u00f5es comunit\u00e1rias, constituindo um processo de consulta que contempla uma participa\u00e7\u00e3o popular que n\u00e3o existia em governos anteriores (Governo do M\u00e9xico \u2013 INPI, 2025).<\/p>\n<p>Para Armando Bartra, historiador e ativista do Morena, entrevistado para este dossi\u00ea, a fronteira de 3.142 km com os Estados Unidos \u00e9 uma realidade incontorn\u00e1vel e, no plano econ\u00f4mico, constitui uma vantagem comparativa que a 4T n\u00e3o poderia, nem deveria, desperdi\u00e7ar, considerando que a primeira prioridade era entregar melhorias materiais imediatas para a popula\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando voc\u00ea chega ao poder na esquerda progressista e vem de um processo de neoliberalismo excludente e empobrecedor, voc\u00ea tem um mandato. O mandato \u00e9 reduzir a pobreza. Eles n\u00e3o est\u00e3o dizendo para voc\u00ea construir o socialismo, eles n\u00e3o est\u00e3o dizendo para voc\u00ea romper com o capitalismo. Est\u00e3o dizendo para voc\u00ea reduzir a pobreza, para recuperar a esperan\u00e7a. Queremos viver melhor, n\u00e3o pior, queremos que nossos filhos tenham uma vida melhor conosco, n\u00f3s queremos isso, e, al\u00e9m disso, n\u00f3s o elegemos para isso.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Para cumprir esse mandato, a 4T adotou uma pol\u00edtica abrangente de: \u201cPara o bem de todos, os pobres primeiro\u201d, que segue a linha do progressismo recente na Am\u00e9rica Latina, definido por Bartra (2025) como \u201crevolu\u00e7\u00f5es do bem-estar\u201d, focadas na reconstru\u00e7\u00e3o do tecido social danificado pelo neoliberalismo.<sup>14<\/sup><\/p>\n<p> At\u00e9 o momento, a 4T tirou 11 milh\u00f5es de pessoas da pobreza (Banco Mundial, 2025), tanto por meio de programas sociais quanto por meio de um aumento de 241% no sal\u00e1rio m\u00ednimo (Governo do M\u00e9xico \u2013 Comiss\u00e3o Nacional de Sal\u00e1rios M\u00ednimos, 2025).<\/p>\n<p>Para atender \u00e0 necessidade primordial de eliminar a pobreza extrema, romper ou transformar as rela\u00e7\u00f5es comerciais com os Estados Unidos seria invi\u00e1vel no curto prazo, visto que o M\u00e9xico carece de infraestrutura para implementar um modelo alternativo. Em entrevista, Bartra argumenta que os governos da Quarta Transforma\u00e7\u00e3o devem agora priorizar a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com a Am\u00e9rica Latina, superando a rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia com os Estados Unidos. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 consenso dentro do Morena sobre essa reorienta\u00e7\u00e3o. Epigmenio Ibarra, empres\u00e1rio e comunicador pr\u00f3ximo \u00e0 Quarta Transforma\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m entrevistado, argumenta que a integra\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos n\u00e3o \u00e9 apenas inevit\u00e1vel, mas essencial para o desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Uma dimens\u00e3o menos discutida, mas igualmente crucial, dos tratados econ\u00f4micos com os Estados Unidos \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico ao quadro de seguran\u00e7a dos EUA. O Nafta n\u00e3o apenas promoveu a coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mas tamb\u00e9m lan\u00e7ou as bases para que o M\u00e9xico participasse na produ\u00e7\u00e3o industrial estadunidense de armas, alinhasse suas for\u00e7as armadas ao Comando Norte e permitisse a opera\u00e7\u00e3o de ag\u00eancias de seguran\u00e7a estadunidenses em seu territ\u00f3rio. Esse processo refor\u00e7a um paradigma de seguran\u00e7a regional sob o controle e a dire\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, expandindo sua influ\u00eancia para al\u00e9m do econ\u00f4mico, passando a ter alcance estrat\u00e9gico e militar (Sandoval Palacios, 2022). A assinatura da Alian\u00e7a para a Seguran\u00e7a e a Prosperidade da Am\u00e9rica do Norte (Aspan, na sigla em espanhol), em 2005, impulsionou esse projeto de integra\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a, que ganhou forma material com a implementa\u00e7\u00e3o da Iniciativa M\u00e9rida em 2008.<sup>15<\/sup><\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico ao sistema de seguran\u00e7a dos Estados Unidos foi justificada como parte de uma estrat\u00e9gia de combate ao crime organizado, no \u00e2mbito de uma suposta \u201cGuerra \u00e0s Drogas\u201d lan\u00e7ada pelo ex-presidente Felipe Calder\u00f3n em 2006. Hoje, est\u00e1 comprovado que seu secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica fez um pacto com o crime organizado, envolvendo todo o aparato estatal e colocando as institui\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o de um cartel.<sup>16<\/sup><\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Em vez de pacificar o territ\u00f3rio e reduzir a atividade criminosa, a guerra ao narcotr\u00e1fico aumentou significativamente os \u00edndices de viol\u00eancia no pa\u00eds<sup>17<\/sup> e militarizou o territ\u00f3rio nacional. Sobre essa realidade, Citlalli Hern\u00e1ndez nos conta:<\/p>\n<blockquote>\n<p>As pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais destroem o tecido social, mas tamb\u00e9m a viol\u00eancia que se instalou, como em v\u00e1rios pa\u00edses do nosso continente, \u00e9 uma forma agressiva de desestrutura\u00e7\u00e3o da sociedade. Esta \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de combater qualquer tipo de resist\u00eancia, pois permeia a sociedade com um medo generalizado que paralisa qualquer processo. Vemos isso como algo que anda de m\u00e3os dadas com o projeto imperialista dos Estados Unidos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O saldo da Quarta Transforma\u00e7\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o ao seu objetivo principal de superar o neoliberalismo e as desigualdades que provoca, \u00e9 positivo, apesar das contradi\u00e7\u00f5es remanescentes. Al\u00e9m do que foi alcan\u00e7ado em termos de reformas constitucionais, a batalha ideol\u00f3gica contra o neoliberalismo tem sido contundente e cont\u00ednua, abrindo caminho para transforma\u00e7\u00f5es maiores no futuro.<\/p>\n<h3>Regenerar e redemocratizar<\/h3>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o, o projeto do Morena busca devolver o protagonismo pol\u00edtico ao povo, superando a desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao governo e \u00e0 pol\u00edtica, resultado do neoliberalismo. Essa orienta\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada ao processo de constru\u00e7\u00e3o do Morena, no qual a pol\u00edtica de massas e a sua participa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o do projeto sempre foram um destaque e um diferencial em rela\u00e7\u00e3o ao PRD. Para o Morena, esse processo pol\u00edtico busca gerar uma revolu\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, que Rafael Barajas, diretor do Instituto Nacional de Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Morena, entrevistado por n\u00f3s para este dossi\u00ea, descreve da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Foi uma profunda revolu\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias, um processo de transforma\u00e7\u00e3o que chegou \u00e0s bases e utilizou mecanismos de protesto e organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 descartados, como rodas de estudo, forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e visitas de porta em porta. Permitiu superar um aparato de controle altamente eficaz. E permitiu faz\u00ea-lo pacificamente algo que parecia absolutamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A 4T n\u00e3o abandonou a mobiliza\u00e7\u00e3o e a politiza\u00e7\u00e3o que a levaram ao poder, mas adotou uma abordagem de comunica\u00e7\u00e3o popular alinhada ao seu lema \u201cos pobres primeiro\u201d. Os discursos presidenciais matinais, inaugurados por L\u00f3pez Obrador e continuados por Sheinbaum, intitulados <em>La ma\u00f1anera, <\/em>n\u00e3o apenas enfrentam a oposi\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, mas tamb\u00e9m buscam integrar o p\u00fablico ao exerc\u00edcio do poder. Usando uma linguagem clara e cotidiana, relatam as a\u00e7\u00f5es do governo e incentivam o di\u00e1logo direto com os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Esse formato posicionou L\u00f3pez Obrador como figura central no debate nacional, visto que as quest\u00f5es discutidas em <em>La ma\u00f1anera <\/em>dominam a agenda p\u00fablica. Assim, sua pol\u00edtica de comunica\u00e7\u00e3o refor\u00e7a sua proximidade com a popula\u00e7\u00e3o, projeta transpar\u00eancia e neutraliza a percep\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o entre os pol\u00edticos. Ao mesmo tempo, consolidam a hegemonia do projeto da 4T.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia impulsionada pela 4T inclui o reconhecimento da desigualdade e se manifesta a partir dos pobres, do povo e dos plebeus. Segundo Teresa Rodr\u00edguez de la Vega, professora universit\u00e1ria que tamb\u00e9m entrevistamos:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Em toda a reivindica\u00e7\u00e3o do plebeu, do popular, creio que a oligarquia v\u00ea uma amea\u00e7a\u2026 porque claro que \u00e9 amea\u00e7ador, um processo de conscientiza\u00e7\u00e3o de classe em um pa\u00eds t\u00e3o profundamente desigual como este abre portas para hip\u00f3teses revolucion\u00e1rias com um impacto transformador muito al\u00e9m do que a 4T pode alcan\u00e7ar, muito al\u00e9m.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Se as ideias propostas do humanismo mexicano s\u00e3o ou n\u00e3o radicais, pr\u00f3prias da esquerda hist\u00f3rica do pa\u00eds, ou materializadas no programa da 4T, \u00e9 um debate em aberto. O que parece muito mais evidente \u00e9 que tem conseguido construir o consenso necess\u00e1rio para as vit\u00f3rias eleitorais do Morena. Para Epigmenio Ibarra, esse consenso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em um projeto que supere a divis\u00e3o de classes da sociedade e permita que todos os setores da sociedade tenham acesso \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um novo pa\u00eds, como ele mesmo aponta na entrevista j\u00e1 mencionada:<\/p>\n<blockquote>\n<p>O humanismo n\u00e3o reconhece a ideia da predomin\u00e2ncia de uma classe sobre outra. Reconhece \u2013 e este \u00e9 o seu princ\u00edpio b\u00e1sico \u2013 que, para o bem de todos, de todas as classes, os pobres v\u00eam em primeiro lugar. N\u00e3o fala da predomin\u00e2ncia de uma classe, mas da coexist\u00eancia, da conviv\u00eancia de classes, com um reconhecimento essencial: os pobres v\u00eam em primeiro.<\/p>\n<\/blockquote>\n<figure><\/figure>\n<h3>A 4T como ampla frente hegem\u00f4nica<\/h3>\n<p>A diversidade dentro do Morena \u00e9 um fator ineg\u00e1vel de seu sucesso, o que, ao mesmo tempo, ressalta a natureza abstrata e amorfa de seu projeto pol\u00edtico ideol\u00f3gico. Desde a sua concep\u00e7\u00e3o, o Morena foi projetado como uma frente ampla, o que, para Epigmenio Ibarra, era a \u00fanica estrat\u00e9gia poss\u00edvel para regenerar o pa\u00eds, visto que as antigas formula\u00e7\u00f5es de esquerda se mostraram obsoletas em um cen\u00e1rio que exigia a participa\u00e7\u00e3o de todos os setores da sociedade.<\/p>\n<p>Segundo Paco Ignacio Taibo II, escritor, ativista pol\u00edtico e diretor do Fundo de Cultura Econ\u00f4mica, entrevistado para este dossi\u00ea, o Morena enfrenta uma contradi\u00e7\u00e3o: sua abertura, necess\u00e1ria para ganhar for\u00e7a eleitoral, tamb\u00e9m permitiu a inclus\u00e3o de ex-membros do PRI e de pessoas com diversas afinidades ideol\u00f3gicas no projeto de transforma\u00e7\u00e3o, gerando tens\u00f5es internas em sua estrutura pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O Morena busca construir um projeto pol\u00edtico com conota\u00e7\u00f5es de esquerda. No entanto, sua diversidade interna reflete um amplo espectro ideol\u00f3gico, em parte devido \u00e0 filia\u00e7\u00e3o oportunista gerada pela consolida\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o como for\u00e7a pol\u00edtica dominante ap\u00f3s a conquista do poder. Para Diana Fuentes, acad\u00eamica entrevistada para este dossi\u00ea, isso n\u00e3o se deve tanto \u00e0s fragilidades atuais do Morena, mas sim \u00e9 um resultado da cultura pol\u00edtica mexicana de mais de um s\u00e9culo, marcada pelo corporativismo e pelo caudilhismo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O M\u00e9xico \u00e9 um pa\u00eds onde o corporativismo, como mecanismo de jogo de poder, de gera\u00e7\u00e3o de quadros pol\u00edticos, \u00e9 um fator fundamental no exerc\u00edcio da for\u00e7a\u2026 O que significa que, quando uma for\u00e7a pol\u00edtica chega\u2026 Ela n\u00e3o vem sozinha. N\u00e3o \u00e9 apenas o indiv\u00edduo que chega, mas quantos traz? Quantos camponeses voc\u00ea traz? Quantos trabalhadores? Quantos? Em outras palavras, quantas for\u00e7as pol\u00edticas v\u00eam com voc\u00ea?<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A hegemonia que o Morena conseguiu construir \u00e9 evidente nas margens brutais de vit\u00f3ria eleitoral, em sua capacidade de ditar o tom do debate pol\u00edtico nacional, mas tamb\u00e9m na aus\u00eancia de for\u00e7as de direita de oposi\u00e7\u00e3o significativa e de cr\u00edticas ou contesta\u00e7\u00f5es ao projeto pela esquerda (Modonesi, 2023). \u00c9 um fato manifesto que a natureza massiva e triunfante da 4T acabou por subsumir outras refer\u00eancias de esquerda hoje em dia marginais em termos de for\u00e7a pol\u00edtica e discursiva.<\/p>\n<p>H\u00e9ctor D\u00edaz Polanco enfatiza que as virtudes dos movimentos sociais s\u00e3o necess\u00e1rias para construir um processo da magnitude da 4T. Segundo ele, em entrevista, os movimentos sociais operam com \u201cum processo de articula\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, participa\u00e7\u00e3o e senso de pertencimento e com a for\u00e7a da profundidade social que tamb\u00e9m alimenta positivamente o partido pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p>Para Bartra, a aus\u00eancia e a relativa fragilidade da esquerda social, dentro ou fora da base do Morena, comprometem a capacidade transformadora do projeto, uma vez que a proposta de ser um partido-movimento pressup\u00f5e a necessidade de luta social. Segundo ele,<\/p>\n<blockquote>\n<p>Hoje somos um partido eleitoral e n\u00e3o somos um movimento, e acho que n\u00e3o seremos mais um movimento. Porque a composi\u00e7\u00e3o do partido j\u00e1 mudou, porque hoje temos 10 milh\u00f5es de membros, filiados, a maioria dos quais, 9 em cada 10, nunca tiveram uma participa\u00e7\u00e3o org\u00e2nica na vida social, como havia h\u00e1 7, 8 ou 9 anos, quando se fundou o partido<em>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Ainda de acordo com Bartra, isso se deve, em parte, \u00e0 incapacidade dos movimentos sociais de transitar da oposi\u00e7\u00e3o resistente \u00e0 constru\u00e7\u00e3o ativa de um governo de transforma\u00e7\u00e3o: os movimentos continuam se comportando da mesma forma que se comportavam sob governos repressivos e neoliberais, no quais a capacidade de di\u00e1logo e constru\u00e7\u00e3o colaborativa era inexistente. Para Diana Fuentes, na entrevista que nos concedeu, o pr\u00f3prio partido n\u00e3o desempenhou seu papel de unir a organiza\u00e7\u00e3o social que permitiria o fortalecimento do projeto por meio da a\u00e7\u00e3o dos sujeitos em luta. Ela observa:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u00e9 necess\u00e1rio que o governo crie mecanismos que possibilitem a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nesses outros estratos da vida que comp\u00f5em a esfera social. E que, em vez de v\u00ea-la como uma amea\u00e7a\u2026 \u00e9 onde poderiam ser geradas lideran\u00e7as naturais, demandas sociais estrat\u00e9gicas e at\u00e9 mesmo, digamos, muito claramente definidas em certos setores da sociedade que eles v\u00e3o alimentar os quadros pol\u00edticos do Morena. Porque, na minha opini\u00e3o, o problema do Morena agora na constru\u00e7\u00e3o de sua base \u00e9 que eles seguem a l\u00f3gica de nutrir os quadros pol\u00edticos do Estado, mas n\u00e3o pensam mais em ter l\u00edderes sociais que liderem lutas que emanam das tens\u00f5es geradas pelo presente.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>Conclus\u00f5es<\/h3>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Claudia Sheinbaum em 2024 e o desempenho bem-sucedido de sua administra\u00e7\u00e3o at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste material desafiam a interpreta\u00e7\u00e3o da 4T como um projeto exclusivo de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador. Como afirma a entrevistada Teresa Rodr\u00edguez de la Vega, a inten\u00e7\u00e3o de estabelecer um regime que promova uma transforma\u00e7\u00e3o em termos de reformas constitucionais e na forma como o poder \u00e9 exercido \u00e9 evidente e irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>O segundo conjunto de transforma\u00e7\u00f5es da 4T, conhecido como \u201csegundo andar\u201d, n\u00e3o est\u00e1 isento de enormes desafios. Segundo Rafael Barajas, na entrevista mencionada, o colapso da oposi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria n\u00e3o significa que a 4T n\u00e3o tenha inimigos importantes.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O inimigo agora \u00e9 o grande capital internacional, o governo dos Estados Unidos, a direita internacional, a Atlas Network \u2013 n\u00e3o \u00e9 um inimigo pequeno\u2026 \u00c9 um inimigo muito mais poderoso e perigoso. \u00c9 um inimigo muito tem\u00edvel, especialmente porque \u00e9 um sem freios \u00e9ticos, sem vis\u00e3o humanista, \u00e9 muito destrutivo e, \u00e9 preciso dizer, \u00e9 totalmente monstruoso.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Sem d\u00favida, estabelecer um relacionamento com os Estados Unidos de Trump em termos que reafirmem a soberania nacional \u00e9 uma das principais prioridades do governo Sheinbaum. Eliminar a pobreza e a desigualdade \u00e9 um projeto inacabado e, segundo Armando Bartra, exige novos conte\u00fados, pois n\u00e3o bastar\u00e1 fazer mais do mesmo; reformas de segunda gera\u00e7\u00e3o que abordem a pobreza multidimensional tamb\u00e9m ser\u00e3o necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o papel do partido-movimento na proposi\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da pr\u00f3xima onda de transforma\u00e7\u00f5es \u00e9 indiscut\u00edvel. Diana Fuentes enfatizou a import\u00e2ncia de um processo de democratiza\u00e7\u00e3o interna do partido, permitindo que surjam espa\u00e7os de debate e cr\u00edtica ao governo, aprofundando assim a transforma\u00e7\u00e3o e interrompendo a burocratiza\u00e7\u00e3o \u00e0 qual todo regime \u00e9 vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>Rafael Barajas acredita que os processos de assembleias populares, centrados no debate sobre o projeto nacional, s\u00e3o uma ferramenta essencial para enraizar a Quarta Transforma\u00e7\u00e3o na base e tornar o povo protagonista e gestor do programa de governo. Em sua opini\u00e3o, sem essa participa\u00e7\u00e3o ativa e program\u00e1tica dos cidad\u00e3os na discuss\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o do projeto, corre-se o risco de o Morena se limitar a ser uma m\u00e1quina eleitoral, repetindo o erro de v\u00e1rios processos progressistas na regi\u00e3o, onde o povo foi relegado \u00e0 governan\u00e7a, mobilizando-se apenas por apoio eleitoral.<\/p>\n<p>Citlalli Hern\u00e1ndez resume os desafios da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Agora, as amea\u00e7as s\u00e3o outras e, nesse sentido, o desafio do Morena \u00e9 evitar cair na burocracia, no institucionalismo pelo institucionalismo, na falta de cr\u00edtica e autocr\u00edtica. N\u00e3o devemos cair no erro de pensar que nossa conquista j\u00e1 terminou. Talvez o mais dif\u00edcil seja alcan\u00e7ar tr\u00eas coisas: exercer o poder, manter uma boa governan\u00e7a e continuar a conquistar o apoio do povo mexicano para este projeto.<\/p>\n<\/blockquote>\n<hr>\n<figure><\/figure>\n<hr>\n<h3>Refer\u00eancias<\/h3>\n<p>Alegria, Alejandro. \u201cEUA vencem painel de milho GM\u201d. <em>O Dia. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.jornada.com.mx\/2024\/12\/21\/economia\/012n1eco.<\/p>\n<p>Banco Mundial. \u201cPlataforma Pobreza e Desigualdade\u201d. Junho de 2025. Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/pip.worldbank.org\/home.<\/p>\n<p>Bartra, Armando. <em>Os novos herdeiros de Zapata: um s\u00e9culo de resist\u00eancia mexicana. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Fundo de Cultura Econ\u00f4mica, INEHRM, 2019.<\/p>\n<p>Bartra, Armando. \u201cPor um Partido em Movimento\u201d. <em>Consci\u00eancia: Pensando sobre Transforma\u00e7\u00e3o. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Instituto Nacional de Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica, n. 2, jan-mar 2022, p. 12-16.<\/p>\n<p>Bartra, Armando. \u201cA esquerda mexicana na encruzilhada: da resist\u00eancia \u00e0 fraude eleitoral \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o Nacional Democr\u00e1tica\u201d. <em>Observat\u00f3rio Social da Am\u00e9rica Latina (OBSAL)<\/em>, v. 7, n. 20, 2006, pp. 57-68. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.aacademica.org\/armando.bartra\/64.<\/p>\n<p>Ben\u00edtez, Fernando. <em>L\u00e1zaro C\u00e1rdenas e a Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana III: Cardenismo. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Fundo de Cultura Econ\u00f4mica, 2023.<\/p>\n<p>Brooks, David. \u201cGarc\u00eda Luna, a chave para a ascens\u00e3o do Cartel de Sinaloa: \u2018O Grande\u2019\u201d. <em>O Dia. <\/em>Cidade do M\u00e9xico, 2023.<\/p>\n<p>Calder\u00f3n Salazar, Jorge Alfonso. \u201cAn\u00e1lise de alguns cap\u00edtulos do USMCA: Aprofundando a subordina\u00e7\u00e3o da economia mexicana \u00e0 domina\u00e7\u00e3o dos EUA\u201d. Em: <em>Do NAFTA ao USMCA, 26 anos de livre com\u00e9rcio<\/em>. Buenos Aires: Clacso, 2023.<\/p>\n<p>Cece\u00f1a, Ana Esther. \u201cDomina\u00e7\u00e3o de espectro total sobre a Am\u00e9rica Latina\u201d. <em>Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Am\u00e9ricas.<\/em> Bras\u00edlia: Departamento de Estudos Latino-Americanos, Universidade de Bras\u00edlia, v. 8, n. 2, 2014.<\/p>\n<p>Cecena, Ana Esther; Rodriguez, Violet Nunez; Veiga, Joshua Garcia e Ramirez, Sandy. <em>Observa\u00e7\u00f5es sobre a Declara\u00e7\u00e3o de Impacto Ambiental \u2013 Maya Train. <\/em>Observat\u00f3rio Latino-Americano de Geopol\u00edtica. Cidade do M\u00e9xico: Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico, 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/geopolitica.iiec.unam.mx\/sites\/default\/files\/2020-07\/OLAG%20%282020%29%20Observaciones%20MIA-R.pdf.<\/p>\n<p>Cedujo Ramos, Denisse de Jesus. \u201cDisputas pela Moderniza\u00e7\u00e3o: Estrat\u00e9gias e Argumentos do Conselho Estudantil Universit\u00e1rio Contra o Plano do Reitor Jorge Carpizo no M\u00e9xico, 1986-1987\u201d. <em>Esbo\u00e7os: Hist\u00f3rias em Contextos Globais<\/em>, v. 29, n. 51. Florian\u00f3polis: maio-ago. 2022, pp. 389-408. Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/periodicos.ufsc.br\/index.php\/esbocos\/article\/view\/84421\/51506.<\/p>\n<p>Escalante Gonzalbo, Pablo. \u201cM\u00e9xico Antigo\u201d. Em: <em>Nova breve hist\u00f3ria ilustrada do M\u00e9xico. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: El Colegio de M\u00e9xico, 2008.<\/p>\n<p>Escobar, Dalila. \u201cO USMCA protege a soberania energ\u00e9tica do M\u00e9xico\u201d, reitera AMLO. <em>Processo, <\/em>Cidade do M\u00e9xico, 2022.<\/p>\n<p>Feuer, Allan. \u201cEx-chefe de seguran\u00e7a do M\u00e9xico condenado a 38 anos por suborno de cartel\u201d. <em>New York Times, <\/em>Nova York, 2024.<\/p>\n<p>Garavito El\u00edas, Rosa. \u201cO<em> impeachment<\/em> de AMLO, ou como nossa democracia incipiente estava em s\u00e9rio perigo\u201d. <em>O Di\u00e1rio<\/em>, n. 132, julho-agosto, p. 17-25. Universidade Aut\u00f4noma Metropolitana \u2013 Unidade Azcapotzalco, M\u00e9xico, 2005. Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/www.redalyc.org\/pdf\/325\/32513203.pdf.<\/p>\n<p>Glockner, Fritz. <em>Mem\u00f3ria Vermelha. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Editorial Planeta, 2021.<\/p>\n<p>Governo do M\u00e9xico \u2013 Conselho Nacional de Avalia\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica de Desenvolvimento Social (Coneval). \u201cPobreza no M\u00e9xico\u201d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.coneval.org.mx\/Medicion\/Paginas\/PobrezaInicio.aspx.<\/p>\n<p>Governo do M\u00e9xico \u2013 Comiss\u00e3o Nacional do Sal\u00e1rio M\u00ednimo. \u201cEvolu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo. \u00cdndice do sal\u00e1rio m\u00ednimo real\u201d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.gob.mx\/conasami\/documentos\/evolu\u00e7\u00e3o-do-sal\u00e1rio-m\u00ednimo. Acesso em: 1 ago. 2025.<\/p>\n<p>Governo do M\u00e9xico \u2013 Instituto Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (INPI). \u201cCome\u00e7a a restitui\u00e7\u00e3o de terras, territ\u00f3rios e \u00e1gua ao povo Yaqui\u201d. Set. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.gob.mx\/inpi\/articulos\/plan-de-justicia-del-pueblo-yaqui-284974?idiom=es.<\/p>\n<p>Governo do M\u00e9xico \u2013 Instituto Nacional dos Povos Ind\u00edgenas (INPI). \u201cPlanos de Justi\u00e7a\u201d. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.inpi.gob.mx\/planes-de-justicia\/. Acesso em: 1 ago. 2025.<\/p>\n<p>Governo do M\u00e9xico \u2013 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. \u201cPresidente apresenta plano para garantir a soberania alimentar e a autossufici\u00eancia com um investimento de quase 54 bilh\u00f5es de pesos este ano\u201d. 4 abr. 2025. Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/www.gob.mx\/presidencia\/prensa\/presidenta-apresenta-plano-para-garantizar-la-soberania-y-la-autosuficiencia-alimentaria-com-uma-invers\u00e3o-de-cerca-de-54-mil-mdp-este-ano#:~:text=Como%20parte%20del%20Plan%20M%C3%A9xico,peque%C3%B1os%20y%20medianos%20productores%20y.<\/p>\n<p>Governo do M\u00e9xico. \u201cSembrando Vida Gazette\u201d. 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.gob.mx\/bienestar\/sembrandovida.<\/p>\n<p>Governo do M\u00e9xico. Programas de Bem-Estar. \u201cColhendo Soberania\u201d. Abr. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/programasparaelbienestar.gob.mx\/cosechando-soberania\/.<\/p>\n<p>Gonz\u00e1lez Casanova, Pablo. <em>O Estado e os partidos pol\u00edticos no M\u00e9xico. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Era Editions, 1981.<\/p>\n<p>Jim\u00e9nez, N\u00e9stor e Arturo S\u00e1nchez Jim\u00e9nez. \u201cAMLO: Posi\u00e7\u00e3o firme em rela\u00e7\u00e3o ao milho geneticamente modificado\u201d. <em>A Jornada<\/em>. Cidade do M\u00e9xico, 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.jornada.com.mx\/noticia\/2023\/02\/16\/economia\/amlo-firme-postura-sobre-maiz-transgenico-3285.<\/p>\n<p>L\u00f3pez Obrador, Andr\u00e9s Manuel. <em>Na metade do caminho. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Editorial Planeta, 2021.<\/p>\n<p>L\u00f3pez Obrador, Andr\u00e9s Manuel. <em>Obrigado! <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Editorial Planeta, 2024.<\/p>\n<p>Matari, Pierre. \u201cA Situa\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica e Econ\u00f4mica do Quarto Governo de Transforma\u00e7\u00e3o\u201d. <em>In<\/em>: Fuentes, Diana e Modonesi, Massimo (orgs.) <em>Hegemonia e 4T, um debate gramsciano. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Editorial Itaca, 2023.<\/p>\n<p>Mendoza Garc\u00eda, Jorge. \u201cA Tortura no Contexto da Guerra Suja no M\u00e9xico: Um Exerc\u00edcio de Mem\u00f3ria Coletiva\u201d. <em>Polis. Pesquisa e an\u00e1lise sociopol\u00edtica e psicossocial<\/em>, v. 7, n. 2. Cidade do M\u00e9xico: UAM, 2011. Dispon\u00edvel em: https:\/\/dialnet.unirioja.es\/servlet\/articulo?codigo=5333572.<\/p>\n<p>Modonessi, Massimo. \u201cA Hegemonia do Centro Obradorista\u201d. <em>In:<\/em> Fuentes, Diana e Modonesi, Massimo (eds.). <em>Hegemonia e 4T, um debate gramsciano. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Editorial Itaca, 2023.<\/p>\n<p>Pineda, C\u00e9sar Enrique. \u201cA P\u00e1tria que Depende de um Homem: Classes Subalternas, Populismo e Hegemonia na Era L\u00f3pez Obrador\u201d. <em>In:<\/em> <em>Hegemonia e 4T, um debate gramsciano. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Editorial Itaca, 2023.<\/p>\n<p>Pineda G\u00f3mez, Francisco. <em>Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o 1915. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Era Editions, 2013.<\/p>\n<p>Quintanar, Hector Alejandro. \u201cRegenerar contra quem? Os antagonismos pol\u00edticos de Morena como elemento identit\u00e1rio em seu processo formativo\u201d. <em>Consci\u00eancia: Pensando em transforma\u00e7\u00e3o. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Instituto Nacional de Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica, n. 2, jan.-mar. 2022, p. 18-21.<\/p>\n<p>Rede Mexicana de Atingidos pela Minera\u00e7\u00e3o \u2013 Rema. \u201cA USMCA aprofunda o modelo de minera\u00e7\u00e3o extrativista\u201d<em>. <\/em>M\u00e9xico, 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.remamx.org\/2020\/07\/comunicado-con-el-tmec-se-aprofunda-el-modelo-extractivo-minero\/.<\/p>\n<p>Romero, Alonso. \u201cReformas e Soberania\u201d. <em>O Dia. <\/em>Cidade do M\u00e9xico, 2025. Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/www.jornada.com.mx\/2025\/02\/03\/opinion\/016a1pol.<\/p>\n<p>Salmer\u00f3n, Pedro. <em>Cem Perguntas Sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Brigada para Ler em Liberdade, 2014.<\/p>\n<p>Sandoval Palacios, Juan Manuel. \u201cO Nafta Renovado, a Seguran\u00e7a Regional e a Forma\u00e7\u00e3o de um Ex\u00e9rcito Transnacional na Am\u00e9rica do Norte\u201d. Em: <em>Do NAFTA ao USMCA, 26 anos de livre com\u00e9rcio<\/em>. Buenos Aires: Clacso, 2023.<\/p>\n<p>Minist\u00e9rio do Interior do M\u00e9xico \u2013 Comiss\u00e3o Nacional de Busca. \u201cVers\u00e3o Estat\u00edstica RNPDNO\u201d. Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/versionpublicarnpdno.segob.gob.mx\/Dashboard\/ContextoGeneral.<\/p>\n<p>Taibo, Paco Ignacio II. <em>Bolcheviques. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Editorial Planeta, 2019.<\/p>\n<p>Tello, Carlos. <em>Estado e desenvolvimento econ\u00f4mico: M\u00e9xico 1920-2006. <\/em>Cidade do M\u00e9xico: Universidade Nacional Aut\u00f4noma do M\u00e9xico, 2014.<\/p>\n<p>Torres-Ruiz, Ren\u00e9. \u201cHist\u00f3ria do PRD: Ascens\u00e3o, Desenvolvimento e Decl\u00ednio de um Partido de Esquerda\u201d. <em>Revista Mexicana de Estudos Eleitorais<\/em>, v. 5, n. 26, jul.-dez. Cidade do M\u00e9xico, 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/rmee.org.mx\/index.php\/RMEstudiosElectorales\/article\/view\/385.<\/p>\n<hr>\n<h3>Entrevistas<\/h3>\n<p>Realizadas em maio de 2025 por Stephanie Weatherbee e Alina Duarte para esta publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Rafael Barajas \u2014 Presidente do Instituto Nacional de Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Morena<\/p>\n<p>Armando Bartra \u2014 Soci\u00f3logo e escritor; membro do Conselho Interno do Instituto Nacional de Forma\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica do Morena.<\/p>\n<p>Hector D\u00edaz Polanco \u2014 Antrop\u00f3logo e escritor; presidente do Comit\u00ea Estadual do Morena na Cidade do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Diana Fuentes \u2014 Fil\u00f3sofa, acad\u00eamica da Universidade Aut\u00f4noma Metropolitana e da Faculdade de Filosofia e Letras da Unam.<\/p>\n<p>Citlalli Hern\u00e1ndez \u2014 Secret\u00e1ria de Assuntos da Mulher na gest\u00e3o da presidente Claudia Sheinbaum Pardo. Ex-secret\u00e1ria-geral do Morena.<\/p>\n<p>Epigmenio Ibarra \u2014 Jornalista e produtor.<\/p>\n<p>Teresa Rodr\u00edguez de la Vega \u2014 Soci\u00f3loga, professora da Faculdade de Ci\u00eancias Pol\u00edticas da Unam.<\/p>\n<p>Paco Ignacio Taibo II \u2014 Escritor e ativista do Morena; Diretor do Fundo de Cultura Econ\u00f4mica (FCE)<\/p>\n<hr>\n<h3>Notas<\/h3>\n<p><sup>1<\/sup> L\u00f3pez Obrador, ent\u00e3o prefeito da Cidade do M\u00e9xico, teve sua imunidade cassada pelo Congresso mexicano em resposta a uma acusa\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico. A acusa\u00e7\u00e3o era de que ele havia descumprido uma ordem judicial para interromper a constru\u00e7\u00e3o de uma estrada em um terreno que havia sido desapropriado por administra\u00e7\u00f5es municipais anteriores. O governo Fox sabia que, mesmo se fosse absolvido, L\u00f3pez Obrador n\u00e3o poderia concorrer \u00e0 presid\u00eancia nas elei\u00e7\u00f5es de 2006 enquanto o processo judicial continuasse, o qual, como previsto, foi prolongado. L\u00f3pez Obrador foi impedido de concorrer.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> L\u00f3pez Obrador introduziu no debate pol\u00edtico o termo \u201cPrian\u201d, que representa a uni\u00e3o e a cumplicidade entre os partidos PRI e PAN, como uma cr\u00edtica \u00e0 falsa democracia e \u00e0 altern\u00e2ncia que se construiu entre ambos os partidos ap\u00f3s o governo de Vicente Fox (2000-2006).<\/p>\n<p><sup>3<\/sup> Este plano, promulgado por Emiliano Zapata em 1911, estabeleceu a distribui\u00e7\u00e3o de terras ao povo e a expropria\u00e7\u00e3o de grandes propriedades como reivindica\u00e7\u00f5es fundamentais da Revolu\u00e7\u00e3o, sem as quais n\u00e3o haveria concilia\u00e7\u00e3o entre o povo revoltoso. O Plano de Ayala transformou uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica proposta por Francisco I. Madero em uma revolu\u00e7\u00e3o social (Salmer\u00f3n, 2014; Pineda G\u00f3mez, 2013).<\/p>\n<p><sup>4<\/sup> O per\u00edodo do M\u00e1ximo \u00e9 conhecido como \u201cMaximato\u201d, nome que deriva do \u201cL\u00edder M\u00e1ximo da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, como era conhecido Plutarco E. Calles, o pol\u00edtico e militar mais influente da \u00e9poca. Os presidentes Emilio Portes Gil, Pascual Ortiz Rubio e Abelardo Rodr\u00edguez foram presidentes durante esse per\u00edodo.<\/p>\n<p><sup>5<\/sup>O <em>ejido<\/em>, estabelecido ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana, \u00e9 uma forma de propriedade comunal na qual os <em>ejidatarios<\/em> t\u00eam o direito ao uso e usufruto da terra.<\/p>\n<p><sup>6<\/sup>Conjunto de medidas de repress\u00e3o militar e pol\u00edtica destinadas a dissolver movimentos de oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e grupos guerrilheiros que atuavam contra o Estado mexicano (Mendoza, 2011).<\/p>\n<p><sup>7<\/sup> A venda da empresa estatal de telecomunica\u00e7\u00f5es Telmex \u00e9 o exemplo mais significativo. A empresa foi privatizada em 1990, e um plano tarif\u00e1rio regulado de cinco anos foi posteriormente aprovado, aumentando o valor da empresa. At\u00e9 hoje, os pre\u00e7os dos servi\u00e7os telef\u00f4nicos no M\u00e9xico s\u00e3o considerados altos devido ao monop\u00f3lio criado.<\/p>\n<p><sup>8<\/sup> Essa garantia da soberania energ\u00e9tica do pa\u00eds se deve \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de L\u00f3pez Obrador (Escobar, 2022).<\/p>\n<p><sup>9<\/sup> O economista Pierre Matari (2023, p. 147-148) afirma que a abordagem neoliberal da pol\u00edtica econ\u00f4mica do pa\u00eds n\u00e3o foi significativamente modificada e que as reformas realizadas pelo 4T deixaram intocado o regime de acumula\u00e7\u00e3o centrado na exporta\u00e7\u00e3o de bens e no investimento estrangeiro direto.<\/p>\n<p><sup>10<\/sup> Especificamente, o tratado concede \u00e0s empresas estrangeiras tratamento nacional ou tratamento de na\u00e7\u00e3o mais favorecida no setor de servi\u00e7os financeiros e elimina a capacidade do governo mexicano de regular o fluxo de capital especulativo (Calder\u00f3n Salazar, 2023).<\/p>\n<p><sup>11<\/sup>Em 2023, o governo mexicano aprovou uma medida que pro\u00edbe o consumo de milho geneticamente modificado, em um esfor\u00e7o para mitigar os efeitos nocivos \u00e0 sa\u00fade das importa\u00e7\u00f5es de produtos agr\u00edcolas permitidas pelo USMCA (Jim\u00e9nez e S\u00e1nchez Jim\u00e9nez, 2023). Essa medida foi contestada por corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, que levaram o caso aos tribunais do USMCA, que decidiram contra o M\u00e9xico e a favor da importa\u00e7\u00e3o de milho geneticamente modificado (Alegr\u00eda, 2024).<\/p>\n<p><sup>12<\/sup>A Rede Mexicana de Afetados pela Minera\u00e7\u00e3o declarou na data de entrada em vigor do USMCA que o tratado deu continuidade ao marco regulat\u00f3rio e \u00e0 pol\u00edtica de minera\u00e7\u00e3o que permitiram a devasta\u00e7\u00e3o de comunidades (Rema, 2020).<\/p>\n<p><sup>13<\/sup>O Plano M\u00e9xico apresentado pela presidente Claudia Sheinbaum prev\u00ea um investimento de 53,971 bilh\u00f5es de pesos para pequenos e m\u00e9dios produtores de milho, feij\u00e3o, arroz, cacau e mel (Governo do M\u00e9xico \u2013 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 2025).<\/p>\n<p><sup>14<\/sup> As principais pol\u00edticas redistributivas da 4T inclu\u00edram pens\u00f5es assistenciais para pessoas com defici\u00eancia e idosos, um programa para filhos de m\u00e3es trabalhadoras, entre outras (Secretaria de Bem-Estar Social). Juntos, os programas e pol\u00edticas da 4T resultaram em uma redu\u00e7\u00e3o da pobreza patrimonial de 48,8% em 2018 para 43,5% em 2022, em compara\u00e7\u00e3o com o aumento de 9,4 pontos percentuais durante o governo Felipe Calder\u00f3n e a redu\u00e7\u00e3o de 3,5 pontos percentuais durante os governos Calder\u00f3n e Pe\u00f1a Nieto, respectivamente (Governo do M\u00e9xico \u2013 Coneval, 2022).<\/p>\n<p><sup>15<\/sup> No \u00e2mbito da Iniciativa M\u00e9rida, o M\u00e9xico recebeu bilh\u00f5es de d\u00f3lares em armas e treinamento militar. Em 2013, o M\u00e9xico recebeu 154 milh\u00f5es de d\u00f3lares, enquanto a Col\u00f4mbia recebeu 279 milh\u00f5es no \u00e2mbito do Plano Col\u00f4mbia. No caso do M\u00e9xico, esses valores n\u00e3o se justificam apenas pelo apelo ao combate ao narcotr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m pela inten\u00e7\u00e3o de conter a migra\u00e7\u00e3o ao longo da fronteira sul do pa\u00eds. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m por meio da Iniciativa M\u00e9rida e da Aspan, agentes da DEA, da CIA e do FBI operam em todo o territ\u00f3rio mexicano (Cece\u00f1a, 2014, p. 133).<\/p>\n<p><sup>16<\/sup> O processo contra o ex-secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, Gen\u00e1ro Garc\u00eda Luna, por meio do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Nova York, o acusa de ter recebido milh\u00f5es de d\u00f3lares do cartel de Sinaloa como pagamento para facilitar o tr\u00e1fico de coca\u00edna para os Estados Unidos (Brooks, 2023). Em outubro de 2024, Luna foi condenado a 38 anos de pris\u00e3o (Feuer, 2024).<\/p>\n<p><sup>17<\/sup> Dados oficiais do governo relatam 367.402 pessoas desaparecidas entre 31 de dezembro de 1952 e 9 de julho de 2025, das quais 130.006 ainda n\u00e3o foram localizadas. O n\u00famero de pessoas desaparecidas aumentou agressivamente a partir de 2007. Entre 1952 e 2006, a m\u00e9dia anual de desaparecimentos foi de 70, enquanto desde 2007 a m\u00e9dia anual tem sido de 17 mil desaparecimentos (Comiss\u00e3o Nacional de Busca, Secretaria do Governo).<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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