{"id":52093,"date":"2025-09-15T12:23:42","date_gmt":"2025-09-15T15:23:42","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/moisey-pistrak-e-a-escola-do-trabalho-socialista\/"},"modified":"2025-09-15T12:23:42","modified_gmt":"2025-09-15T15:23:42","slug":"moisey-pistrak-e-a-escola-do-trabalho-socialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/moisey-pistrak-e-a-escola-do-trabalho-socialista\/","title":{"rendered":"Moisey Pistrak e a Escola do Trabalho Socialista"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"512\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Agatha-Azevedo-2025-768x512-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Agatha-Azevedo-2025-768x512-1.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Agatha-Azevedo-2025-768x512-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption><em>Foto: Agatha Azevedo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Luiz Carlos de Freitas e Roseli Salete Caldart <\/em><br \/><em>Da P\u00e1gina do MST<\/em><\/p>\n<p>Os historiadores russos fazem refer\u00eancia ao per\u00edodo de 1917 a 1931 como sendo o per\u00edodo dos \u201cpioneiros da educa\u00e7\u00e3o\u201d na hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o socialista sovi\u00e9tica. Foi uma \u00e9poca de intensa criatividade e experimenta\u00e7\u00e3o destinada a fundamentar as bases de uma escola voltada para a forma\u00e7\u00e3o da juventude que deveria enfrentar a tarefa de construir o socialismo. O legado pol\u00edtico-pedag\u00f3gico desse per\u00edodo passou a compor a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o mundial pensada e realizada pela classe trabalhadora com finalidades sociais e humanas emancipat\u00f3rias.<\/p>\n<p>O trabalho iniciado por esses \u201cpioneiros\u201d transcorreu em uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, pois logo ap\u00f3s a eclos\u00e3o revolucion\u00e1ria de 1917, seguiu-se uma guerra civil que durou os quatro anos seguintes. A R\u00fassia era um pa\u00eds agr\u00e1rio que em 1900 tinha 132 milh\u00f5es de habitantes, sendo que apenas um quinto das crian\u00e7as estudava e a propor\u00e7\u00e3o de adultos com ensino prim\u00e1rio era de 61 em 1.000. No campo, apenas 8 a cada 1.000 habitantes tinham essa escolariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o instituiu o Comissariado Nacional da Educa\u00e7\u00e3o com a tarefa de reconstituir o sistema educacional russo e toda a vida cultural do pa\u00eds, tendo na coordena\u00e7\u00e3o Anatoli Lunatch\u00e1rski, um dirigente pol\u00edtico bolchevique muito ligado \u00e0s quest\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o e da cultura. Entre o grupo de pioneiros que conduziram na pr\u00e1tica essa tarefa de reconstru\u00e7\u00e3o estavam Nadezhda Krupskaya, Moisey Pistrak e Viktor Shulgin e os coletivos de educadores militantes dos quais tomavam parte.<\/p>\n<p>Esse Comissariado (equivalente a um \u201cMinist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o\u201d) incentivou a organiza\u00e7\u00e3o de diversos experimentos de escolas que atendessem aos objetivos de forma\u00e7\u00e3o de lutadores e construtores necess\u00e1rios \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias em curso e que precisavam ter o povo como protagonista. Entre as escolas experimentais desse per\u00edodo teve especial destaque a escola organizada pelo pr\u00f3prio Comissariado Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, a Escola-Comuna Lepeshinskiy, que tamb\u00e9m ficou conhecida como a Escola-Comuna do Narkompros \u2013 sigla do Comissariado Nacional da Educa\u00e7\u00e3o em russo.<\/p>\n<p>Moisey Mikhailovich Pistrak, a quem aqui se homenageia por ocasi\u00e3o do seu anivers\u00e1rio de nascimento, coordenou essa Escola-Comuna por cinco anos, junto com um grupo entusiasta de educadores que passamos a conhecer pelos registros que eles pr\u00f3prios fizeram de suas pr\u00e1ticas. Especialmente o livro organizado por Pistrak em 1924, nos ajuda a entender o passo a passo dessa constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-pedag\u00f3gica, livro que hoje podemos ler na publica\u00e7\u00e3o, primeira em portugu\u00eas, feita pela editora Express\u00e3o Popular no ano de 2009, \u201cA Escola-Comuna\u201d.<\/p>\n<p>Pistrak nasceu em 15 de setembro de 1888 e foi morto em 25 de dezembro de 1937, em um per\u00edodo convulsivo do processo revolucion\u00e1rio na R\u00fassia. Ele era doutor em ci\u00eancias pedag\u00f3gicas, professor com forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de f\u00edsica e matem\u00e1tica, passando a ser membro do Partido Comunista a partir de 1924. Anos antes de sua morte teve a fun\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o do Instituto Central de Pesquisa Cient\u00edfica de Pedagogia junto ao Instituto Superior Comunista de Educa\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Russo. No per\u00edodo em que participou da constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-pedag\u00f3gica da Escola-Comuna, Pistrak tamb\u00e9m ocupava a posi\u00e7\u00e3o de presidente da Subcomiss\u00e3o de Programas para o II n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o, na Comiss\u00e3o Estatal Cient\u00edfica do Narkompros.<\/p>\n<p>Um dos livros mais conhecidos de Pistrak, \u201cFundamentos da Escola do Trabalho\u201d, escrito em 1925, reflete os princ\u00edpios e processos desse n\u00facleo de pioneiros do in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o. Esse livro faz parceria com outro, do mesmo per\u00edodo, escrito por Viktor Shulgin, tamb\u00e9m do coletivo da Escola-Comuna do Narkompros, \u201cFundamentos da Educa\u00e7\u00e3o Social\u201d. Ambos os livros foram publicados pela Express\u00e3o Popular, o primeiro em duas edi\u00e7\u00f5es, 2000 e 2018 e o segundo em 2022.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"460\" height=\"687\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/fundamentos-da-escola-do-trabalho-novo.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/fundamentos-da-escola-do-trabalho-novo.jpg 460w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/fundamentos-da-escola-do-trabalho-novo-201x300.jpg 201w\" sizes=\"(max-width: 460px) 100vw, 460px\"><figcaption><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de uma \u201cescola \u00fanica do trabalho\u201d, nome que foi dado \u00e0 forma de escola que ia se desenhando no processo de consolida\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, tinha como finalidade educativa central a forma\u00e7\u00e3o humana multilateral das novas gera\u00e7\u00f5es de lutadores e construtores da sociedade socialista. Para essa constru\u00e7\u00e3o o coletivo de Pistrak partiu da formula\u00e7\u00e3o original de Karl Marx (1818-1883) que defendia a educa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora sustentada em tr\u00eas pilares formativos: educa\u00e7\u00e3o intelectual, educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica ou polit\u00e9cnica. Esta \u00faltima visando uma educa\u00e7\u00e3o para o trabalho pelo v\u00ednculo a processos produtivos que permitissem a apropria\u00e7\u00e3o, desde a inf\u00e2ncia, dos princ\u00edpios gerais da produ\u00e7\u00e3o, iniciando crian\u00e7as e jovens no uso e manuseio de instrumentos elementares de todos os of\u00edcios.<\/p>\n<p>As formula\u00e7\u00f5es iniciais que Marx deixou sobre a educa\u00e7\u00e3o polit\u00e9cnica foram materializadas em experi\u00eancias de escolas do trabalho realizadas nesse per\u00edodo inicial da revolu\u00e7\u00e3o russa. As formula\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas a que chegaram nos servem de refer\u00eancia ainda hoje, sistematizadas por Pistrak no livro \u201cEnsaios sobre a escola polit\u00e9cnica\u201d, escrito em 1929. Este livro tamb\u00e9m foi publicado pela primeira vez em portugu\u00eas pela Express\u00e3o Popular no ano de 2015.<\/p>\n<p>Em Marx, fonte te\u00f3rica e pol\u00edtica inspiradora de todas as pedagogias que se colocam a servi\u00e7o da classe trabalhadora e de uma transforma\u00e7\u00e3o radical da ordem social capitalista, a afirma\u00e7\u00e3o do trabalho como princ\u00edpio educativo se refere a seu sentido gen\u00e9rico de atividade humana criadora. Marx firmou a compreens\u00e3o de que como atividade produtiva socialmente necess\u00e1ria na constitui\u00e7\u00e3o do ser humano o trabalho tem uma for\u00e7a material insubstitu\u00edvel na forma\u00e7\u00e3o humana. Ele define o modo humano de ser, criando e recriando o ser humano em qualquer tempo hist\u00f3rico, sendo princ\u00edpio b\u00e1sico da sociabilidade humana: o trabalho n\u00e3o apenas como \u201cmeio de vida\u201d, mas como necessidade da vida humana.<\/p>\n<p>Por isso mesmo o trabalho sempre est\u00e1 no centro da educa\u00e7\u00e3o, embora com finalidades e conte\u00fados diferentes conforme o tipo de rela\u00e7\u00f5es sociais que predominem em cada \u00e9poca e em cada forma\u00e7\u00e3o social. A pedagogia socialista busca fortalecer o potencial formativo do trabalho para confrontar a forma capitalista do trabalho explorado e alienado e preparar construtores de novas rela\u00e7\u00f5es sociais do ser humano com a natureza de que \u00e9 parte e entre os seres humanos.<\/p>\n<p>Nessa vis\u00e3o n\u00e3o se trata de reduzir a educa\u00e7\u00e3o \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para um determinado trabalho e sim de pensar a totalidade formadora do ser humano com base no trabalho, de modo a superar as condi\u00e7\u00f5es concretas de trabalho que sejam deformadoras e preparar a classe trabalhadora para que assuma, com suas lutas e organiza\u00e7\u00e3o coletiva, a condu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>A partir dessa compreens\u00e3o o trabalho passou a ser categoria central da organiza\u00e7\u00e3o do sistema educativo socialista. Na constru\u00e7\u00e3o da escola do trabalho ponteada pelo coletivo de Pistrak, o trabalho \u00e9 entendido como fundamento da vida humana, devendo ser pensado ao mesmo tempo como objeto de estudo e como m\u00e9todo de forma\u00e7\u00e3o. E o trabalho na escola, ou mediado por ela, precisa se ligar ao trabalho social, \u00e0 produ\u00e7\u00e3o real, com atividades concretas socialmente necess\u00e1rias. Somente assim a participa\u00e7\u00e3o dos estudantes no trabalho cumprir\u00e1 a finalidade da educa\u00e7\u00e3o socialista, na qual a escola ajuda a formar uma determinada atitude frente ao mundo, \u00e0s quest\u00f5es da vida e leva ao conhecimento concreto dos fen\u00f4menos da realidade.<\/p>\n<p>Na escola do trabalho dos pioneiros da educa\u00e7\u00e3o socialista russa as categorias centrais do processo educativo enfatizavam o trabalho com significa\u00e7\u00e3o social e no contexto da atualidade: trabalho tanto intelectual como manual que organiza e auto-organiza e ao qual se soma a categoria de coletivo de estudantes, instrumento pr\u00e1tico de sua participa\u00e7\u00e3o e auto-organiza\u00e7\u00e3o, habilidades fundamentais em uma constru\u00e7\u00e3o social coletiva.<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas sistematizadas desse per\u00edodo rico da hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o socialista v\u00eam inspirando novas pr\u00e1ticas em diferentes lugares, presentes especialmente nas a\u00e7\u00f5es educativas de movimentos populares que se vinculam \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do projeto hist\u00f3rico da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>No MST, a rela\u00e7\u00e3o entre escola e trabalho esteve desde o in\u00edcio como foco de constru\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica. Antes mesmo de conhecer esse legado da pedagogia socialista russa as comunidades dos assentamentos e acampamentos entenderam que n\u00e3o deveriam se conformar com uma escola que, como dizia Pistrak, ficasse aqu\u00e9m das exig\u00eancias da vida. Foi com esta preocupa\u00e7\u00e3o que as primeiras educadoras come\u00e7aram a construir o que primeiro chamaram de uma \u201cescola diferente\u201d. Diferente da escola que conheciam e diferente a ponto de acolher as necessidades e os objetivos formativos da organiza\u00e7\u00e3o e das pessoas que conquistaram a terra em que essa escola agora se fazia.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"512\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sim-Eu-Posso-MST-PB-Foto_-Carla-Batista.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sim-Eu-Posso-MST-PB-Foto_-Carla-Batista.jpeg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sim-Eu-Posso-MST-PB-Foto_-Carla-Batista-300x200.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption><em>Foto: Carla Batista<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O primeiro encontro dos educadores do MST com a pedagogia socialista russa, ainda no final dos anos 1980, foi para ajudar a pensar um desenho de escola que permitisse seu v\u00ednculo org\u00e2nico aos processos de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o nos primeiros assentamentos conquistados, e ajudasse no objetivo formativo de prepara\u00e7\u00e3o da juventude para o trabalho cooperativo e a participa\u00e7\u00e3o coletiva nas decis\u00f5es sobre como organizar a vida social nas \u00e1reas de reforma agr\u00e1ria. Nesse primeiro momento a leitura foi limitada \u00e0 \u00fanica obra de Pistrak dispon\u00edvel em portugu\u00eas (\u201cFundamentos da Escola do Trabalho\u201d, Brasiliense, 1981) e algumas ideias compiladas de textos de Krupskaya publicados em espanhol, trabalhados nos cursos de forma\u00e7\u00e3o de educadores.<\/p>\n<p>O objetivo de vincular a escola \u00e0 tarefa de implementa\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o agr\u00edcola nos assentamentos motivou especial interesse pelas formula\u00e7\u00f5es da pedagogia socialista sobre a auto-organiza\u00e7\u00e3o dos estudantes e a participa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e dos jovens no trabalho produtivo e que se ligavam a outra categoria central no desenho da escola \u00fanica do trabalho: a atualidade. As escolas precisavam garantir um modo de estudar que levasse a compreender a realidade atual para poder agir consciente e organizadamente sobre ela. Para isso era necess\u00e1rio quebrar o isolamento da escola em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es da vida, do trabalho social. Era o que buscavam os educadores russos e o que se buscava agora ao vincular as escolas aos desafios de constru\u00e7\u00e3o dos assentamentos.<\/p>\n<p>A auto-organiza\u00e7\u00e3o dos estudantes logo foi associada ao princ\u00edpio do MST de que todos os Sem Terra deveriam estar organizados em seus n\u00facleos de base, para garantir sua participa\u00e7\u00e3o efetiva nas diferentes inst\u00e2ncias da organiza\u00e7\u00e3o. E se entendeu que intencionalizar uma organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria dos estudantes, que poderia avan\u00e7ar para a constitui\u00e7\u00e3o de coletivos infantis ou juvenis e a sua participa\u00e7\u00e3o efetiva na condu\u00e7\u00e3o da vida escolar ajudaria na forma\u00e7\u00e3o para o trabalho coletivo e a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Algo que segue como desafio pr\u00e1tico, no confronto cotidiano com a l\u00f3gica dominante de escola, cuja fun\u00e7\u00e3o social a servi\u00e7o do capital precisa excluir tanto o trabalho coletivo como o protagonismo dos\/das estudantes.<\/p>\n<p>Pistrak inspirou importantes experi\u00eancias\/ensaios de inser\u00e7\u00e3o orientada no trabalho social combinada com auto-organiza\u00e7\u00e3o dos estudantes e sua participa\u00e7\u00e3o ativa na vida escolar, em escolas de assentamentos e acampamentos. E esse di\u00e1logo ajudou a construir uma primeira s\u00edntese do que seria a \u201cescola diferente\u201d pretendida pelas educadoras do MST: as escolas devem se inserir na atualidade pela rela\u00e7\u00e3o entre estudo e trabalho, intencionalizando a auto-organiza\u00e7\u00e3o dos estudantes.<\/p>\n<p>As finalidades educativas dessas escolas e o di\u00e1logo com as categorias pedag\u00f3gicas sistematizadas especialmente por Pistrak motivaram experi\u00eancias de redesenho dos tempos e espa\u00e7os educativos e de mudan\u00e7as nos processos de gest\u00e3o da escola. Quando estudantes podem participar da gest\u00e3o democr\u00e1tica de sua escola e experimentar a organiza\u00e7\u00e3o coletiva do trabalho est\u00e3o se preparando para ajudar mais efetivamente no avan\u00e7o das pr\u00e1ticas de coopera\u00e7\u00e3o e da condu\u00e7\u00e3o coletiva da vida social no assentamento.<\/p>\n<p>Dois aspectos principais possivelmente tenham permitido aquela primeira aproxima\u00e7\u00e3o das educadoras e educadores do MST \u00e0s formula\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas russas, t\u00e3o distantes no tempo e no espa\u00e7o. O primeiro aspecto tem a ver com a linguagem direta do livro de Pistrak, o que agora sabemos ser uma caracter\u00edstica do conjunto das obras dessa primeira gera\u00e7\u00e3o dos pedagogos da revolu\u00e7\u00e3o russa. Essa forma de escrita passa ao mesmo tempo uma firmeza de concep\u00e7\u00e3o e a defesa vibrante de ideias, mostrando, pelos exemplos simples e diversos, como essas ideias podem ser e j\u00e1 foram realizadas.<\/p>\n<p>Nossas primeiras educadoras, protagonistas da cria\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da \u201cescola diferente\u201d, conseguiam se enxergar em pr\u00e1ticas que n\u00e3o pareciam t\u00e3o diferentes do que estavam tentando fazer. Era ent\u00e3o um di\u00e1logo entre processos de constru\u00e7\u00e3o viva de uma nova escola e esta identifica\u00e7\u00e3o facilitava a compreens\u00e3o te\u00f3rica. At\u00e9 hoje, em rela\u00e7\u00e3o ao conjunto dos livros, \u00e9 poss\u00edvel perceber como s\u00e3o mais facilmente entendidos por quem est\u00e1 inserido em processos de transforma\u00e7\u00e3o da escola.<\/p>\n<p>O segundo aspecto \u00e9 que esses textos conseguem transmitir uma ideia de cria\u00e7\u00e3o viva e radical: n\u00e3o se est\u00e1 \u201creformando\u201d a escola, mas buscando reconstru\u00ed-la dentro de uma revolu\u00e7\u00e3o social. Isso al\u00e9m de alimentar a m\u00edstica revolucion\u00e1ria, ajuda a dessacralizar a forma escolar: sendo ela uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, pode sim ser transformada a partir de finalidades educativas diferentes daquelas que a desenharam como \u00e9.<\/p>\n<p>Por sua vez a dist\u00e2ncia de realidades permite uma maior liberdade de s\u00edntese: n\u00e3o estamos em uma revolu\u00e7\u00e3o socialista e nosso tempo \u00e9 outro. Ent\u00e3o n\u00e3o se trata de copiar a pedagogia russa, mas sim de aprender com ela e se inspirar no que esses pioneiros tentaram fazer. N\u00e3o se fica pressionado a \u201caplicar\u201d suas formula\u00e7\u00f5es nem se trata de filia\u00e7\u00e3o a uma corrente pedag\u00f3gica. Importam mais os fundamentos e as quest\u00f5es que nos ligam a um mesmo projeto hist\u00f3rico de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O livro \u201cFundamentos da escola do trabalho\u201d continuou sendo estudado nos cursos de forma\u00e7\u00e3o de educadores organizados pelo MST ao longo dos anos, o que levou a editora Express\u00e3o Popular a public\u00e1-lo no ano 2000, depois de esgotada a edi\u00e7\u00e3o da antiga editora Brasiliense. N\u00e3o se tem a dimens\u00e3o exata de quantas escolas ou quantos coletivos de educa\u00e7\u00e3o do Movimento estudaram essas categorias pedag\u00f3gicas. O que se sabe \u00e9 que em boa medida elas foram incorporadas como chaves para pensar as transforma\u00e7\u00f5es da escola na dire\u00e7\u00e3o constru\u00edda por esses coletivos. A rela\u00e7\u00e3o estudo e trabalho, o v\u00ednculo com a realidade atual e a auto-organiza\u00e7\u00e3o dos estudantes tornaram-se princ\u00edpios pedag\u00f3gicos que orientam a constru\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica do MST at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>No per\u00edodo mais recente os estudos da pedagogia socialista russa tiveram novo impulso a partir da amplia\u00e7\u00e3o de fontes sobre as pr\u00e1ticas e reflex\u00f5es desse coletivo de pioneiros. Foi no ano de 2005 que o MST soube da exist\u00eancia da obra \u201cA escola-comuna\u201d, organizada por Pistrak. Mas foi depois da sua publica\u00e7\u00e3o em 2009 pela Express\u00e3o Popular e das publica\u00e7\u00f5es seguintes, que estas leituras come\u00e7aram a ser mais difundidas.<\/p>\n<p>A partir da segunda d\u00e9cada dos anos 2000, no bojo do VI Congresso Nacional do MST (fevereiro de 2014) e das formula\u00e7\u00f5es do projeto de Reforma Agr\u00e1ria Popular, os desafios de luta e constru\u00e7\u00e3o v\u00e3o se tornando mais complexos. Pela dureza da luta que enfrenta as for\u00e7as do capital, mas tamb\u00e9m pelas novas possibilidades de reorganizar a vida nos assentamentos. Pelo encontro da reforma agr\u00e1ria com a agroecologia e as diferentes dimens\u00f5es do modo de produ\u00e7\u00e3o da vida que ela expressa e projeta, juntando-se com a coopera\u00e7\u00e3o e com as finalidades de uma produ\u00e7\u00e3o voltada para a soberania alimentar, para novas rela\u00e7\u00f5es sociais, de g\u00eanero, entre gera\u00e7\u00f5es e a supera\u00e7\u00e3o da crise ambiental a que o sistema do capital nos levou como humanidade.<\/p>\n<p>O encontro do MST com a pedagogia socialista russa possivelmente entre em um novo ciclo no contexto de constru\u00e7\u00e3o da Reforma Agr\u00e1ria Popular porque especialmente a rela\u00e7\u00e3o estudo e trabalho, ci\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o se coloca em outro n\u00edvel de complexidade e de exig\u00eancias formativas. Segue, portanto, como uma quest\u00e3o a ser enfrentada pela constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-pedag\u00f3gica de seus coletivos e no di\u00e1logo com outros educadores.<\/p>\n<p>Todos devemos muito ao di\u00e1logo com o coletivo de Pistrak a partir da leitura dos escritos que esse coletivo nos deixou. E ainda temos muito a aprender com o legado da revolu\u00e7\u00e3o de 1917 e o trabalho dos seus \u201cpioneiros da educa\u00e7\u00e3o\u201d. Honremos esse legado difundindo suas obras e, sobretudo, fortalecendo a luta pelo socialismo e continuando a cria\u00e7\u00e3o social e pedag\u00f3gica que lhe corresponde.<\/p>\n<h2>Para saber mais<\/h2>\n<p>Caldart, R. S. Caminhos para transforma\u00e7\u00e3o da escola: pedagogia do MST e pedagogia socialista russa. In: <em>Pedagogia Socialista: legado da revolu\u00e7\u00e3o de 1917 e desafios atuais<\/em>. Express\u00e3o Popular, 2017, p. 261-285.<br \/>Caldart, R. S. <em>Sobre as tarefas educativas da escola e a atualidade<\/em>. Express\u00e3o Popular, 2023.<br \/>Freitas, L. C. A luta por uma pedagogia do meio: revisitando o conceito. In: Pistrak, M. M. <em>A Escola-Comuna<\/em>. Express\u00e3o Popular, 2009.<br \/>Freitas, L. C. \u201cEscola \u00danica do Trabalho\u201d. <em>Dicion\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o do Campo<\/em>. EPSJV\/Express\u00e3o Popular, 2012, p. 337-341.<br \/>Krupskaya, N. K. <em>A Constru\u00e7\u00e3o da Pedagogia Socialista<\/em>. Express\u00e3o Popular, 2017.<br \/>Lunatch\u00e1rski, A. <em>Revolu\u00e7\u00e3o, arte e cultura<\/em>. Sele\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o de textos por Douglas Estevam e In\u00e1 Camargo Costa. Express\u00e3o Popular, 2018.<br \/>MST. Educa\u00e7\u00e3o no MST: Mem\u00f3ria \u2013 Documentos 1987-2015. <em>Caderno de Educa\u00e7\u00e3o<\/em>, n. 14, S\u00e3o Paulo, junho 2017.<\/p>\n<p><em>*Editado por Fernanda Alc\u00e2ntara<\/em><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/09\/15\/moisey-pistrak-e-a-escola-do-trabalho-socialista\/\">Moisey Pistrak e a Escola do Trabalho Socialista<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/governo-federal-busca-interessados-em-abrir-tres-canais-de-tv-e-41-radios-em-pernambuco\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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