{"id":52119,"date":"2025-09-15T14:35:55","date_gmt":"2025-09-15T17:35:55","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ambiente-para-negocios\/"},"modified":"2025-09-15T14:35:55","modified_gmt":"2025-09-15T17:35:55","slug":"ambiente-para-negocios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ambiente-para-negocios\/","title":{"rendered":"Ambiente para neg\u00f3cios"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"528\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-34.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-34.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-34-300x206.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption><em>Joseca Yanomami \u2013 Sobre a viagem de Davi Kopenawa aos Estados Unidos (2011). Acervo do Museu de Arte de S\u00e3o Paulo (MASP)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Pedro Paulo Zahluth Bastos<br \/>Do Phenomenal World<\/em><\/p>\n<p>Desde a celebra\u00e7\u00e3o do Protocolo de Kyoto, em 1997, a ideia de comprar e vender direitos de emitir carbono\u2014o chamado mercado de carbono\u2014\u00e9 a principal aposta da ONU para combater a crise clim\u00e1tica. Impulsionados em 2005, quando um n\u00famero suficiente de pa\u00edses ratificou o protocolo, os mercados de carbono estiveram no centro do Acordo de Paris em 2015 e da COP 29, realizada no ano de 2024 em Baku, no Azerbaij\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Baku, o projeto de administrar um mercado global de carbono\u2014impulsionado pelos pa\u00edses ricos\u2014foi finalmente alcan\u00e7ado. Com ele, as metas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de carbono que os pa\u00edses ricos se comprometem a alcan\u00e7ar podem ser obtidas n\u00e3o pela redu\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias emiss\u00f5es, mas pela compra dos resultados de projetos de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es realizados em locais onde os custos de mitiga\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais baixos, normalmente pa\u00edses mais pobres e que emitem menos.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre os mercados de carbono nos distrai, no entanto, do que realmente funciona no combate \u00e0 crise clim\u00e1tica: o planejamento p\u00fablico voltado a tornar os sistemas energ\u00e9ticos, produtivos e de infraestrutura independentes de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Como a descarboniza\u00e7\u00e3o desses sistemas implica a tomada de decis\u00f5es de investimentos com impactos futuros interdependentes que n\u00e3o podem se refletir nos pre\u00e7os de mercado no presente, esses pre\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o capazes de orientar e encadear as decis\u00f5es de investimento necess\u00e1rias. Por isso, a estrat\u00e9gia que promove altera\u00e7\u00f5es marginais no sistema de pre\u00e7os relativos vigente\u2014nas formas de eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o das emiss\u00f5es de carbono e de redu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os das alternativas sustent\u00e1veis\u2014para induzir decis\u00f5es descoordenadas n\u00e3o vem conseguindo alcan\u00e7ar a descarboniza\u00e7\u00e3o na velocidade e profundidade necess\u00e1rias em escala global.<\/p>\n<h2>O clima vai ao mercado<\/h2>\n<p>Os mercados de carbono fazem parte da estrat\u00e9gia de mitiga\u00e7\u00e3o favorita da governan\u00e7a clim\u00e1tica global h\u00e1 d\u00e9cadas: a precifica\u00e7\u00e3o do carbono para cobran\u00e7a do custo social das emiss\u00f5es.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-1\">1<\/a>. Essa solu\u00e7\u00e3o parte do diagn\u00f3stico (contestado) de que as emiss\u00f5es desenfreadas seriam uma falha de mercado.<\/p>\n<p>Em geral, uma falha de mercado ocorre quando uma transa\u00e7\u00e3o mercantil gera benef\u00edcios ou danos<em>\u00a0<\/em>econ\u00f4micos colaterais sobre partes n\u00e3o envolvidas, fazendo com que esse efeito colateral n\u00e3o seja capturado pelo pre\u00e7o do bem ou servi\u00e7o negociado\u2014o pre\u00e7o, segundo essa hip\u00f3tese, dependeria apenas da oferta e da demanda dos atores envolvidos em cada mercado. Uma vez que n\u00e3o s\u00e3o internalizados nos pre\u00e7os e, portanto, n\u00e3o resultam em receitas ou custos para o agente gerador, benef\u00edcios e danos colaterais s\u00e3o chamados de externalidades positivas e negativas. Havendo externalidade positiva (negativa), a contribui\u00e7\u00e3o social \u00e9 maior (menor) do que a receita obtida pelo agente privado que oferta o bem ou servi\u00e7o. Isso seria uma falha de mercado se supusermos que o mercado \u00e9 normalmente um mecanismo que maximiza a contribui\u00e7\u00e3o social dos agentes privados, ou seja, que iguala a contribui\u00e7\u00e3o social e privada de cada ofertante de bem ou servi\u00e7o atrav\u00e9s da varia\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os para equilibrar oferta e demanda.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-2\">2<\/a>\u00a0Se a explica\u00e7\u00e3o do problema \u00e9 limitada ao fato de que os pre\u00e7os de mercado n\u00e3o repassam aos ofertantes a informa\u00e7\u00e3o exata sobre sua contribui\u00e7\u00e3o social, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 trazer (ou internalizar, no jarg\u00e3o econ\u00f4mico) as externalidades para os pre\u00e7os, corrigindo a falha.\u00a0<\/p>\n<p>Para corrigir essa falha, segundo a l\u00f3gica dos mercados de carbono, basta precificar o custo social do carbono e cobr\u00e1-lo: se as emiss\u00f5es custarem tanto quanto os danos econ\u00f4micos que causam, seu pre\u00e7o ser\u00e1 igual ao custo social do carbono, cuja cobran\u00e7a<em>\u00a0<\/em>igualar\u00e1 a contribui\u00e7\u00e3o social e privada do agente econ\u00f4mico poluidor. Uma vez calculado, o custo social do carbono<em>,<\/em>\u00a0antes \u201cexterno\u201d \u00e0s atividades econ\u00f4micas dos agentes ofertantes, poderia ser cobrado de cada um deles. O encarecimento das emiss\u00f5es levaria os agentes econ\u00f4micos a reverem padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e consumo para reduzi-las. Como resultado, o consumo e o investimento privados seriam direcionados gradualmente para atividades e produtos de baixo carbono, limitando ou at\u00e9 mesmo revertendo o aquecimento global e melhorando o bem-estar social.<\/p>\n<p>A precifica\u00e7\u00e3o e cobran\u00e7a do custo social do carbono podem ser colocadas em pr\u00e1tica tanto pelo governo (por meio de impostos) quanto pela iniciativa privada. Todas as formas de precifica\u00e7\u00e3o e internaliza\u00e7\u00e3o dos custos sociais do carbono, volunt\u00e1rias ou compuls\u00f3rias, acarretam custos \u00e0s empresas envolvidas, tanto para monitorar e relatar suas emiss\u00f5es como para mitig\u00e1-las. Como resultado, elas procuram maneiras de reduzir ou compensar suas emiss\u00f5es ao menor custo poss\u00edvel. A redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es envolve investimentos ditos verdes (como ganhos de efici\u00eancia energ\u00e9tica e tecnologias limpas). A compensa\u00e7\u00e3o, por sua vez, abrange projetos de mitiga\u00e7\u00e3o, incluindo projetos de conserva\u00e7\u00e3o ambiental, ou a participa\u00e7\u00e3o em mercados de carbono, regulados ou volunt\u00e1rios. Nos mercados regulados, uma unidade pol\u00edtica (regi\u00e3o, pa\u00eds, estado) estabelece um teto geral de gases de efeito estufa e distribui cotas, permiss\u00f5es ou licen\u00e7as de emiss\u00e3o para determinados agentes econ\u00f4micos que podem us\u00e1-las ou, se conseguirem emitir menos, vender seus excedentes. Nos mercados volunt\u00e1rios, estabelece-se uma linha de base de emiss\u00f5es para cada tipo de projeto econ\u00f4mico, premiando empresas capazes de emitir menos com cr\u00e9ditos de carbono que elas podem vender para empresas que emitem mais.<\/p>\n<p>Se a compensa\u00e7\u00e3o for mais barata, vi\u00e1vel e r\u00e1pida do que o investimento verde, h\u00e1 fortes incentivos para que as empresas compensem suas emiss\u00f5es \u201cexternamente\u201d em vez de mudar tecnologias para reduzi-las \u201cinternamente\u201d. O pecado original da compensa\u00e7\u00e3o como forma de pagamento do custo social do carbono \u00e9 que, no fim das contas, esse mecanismo contribui para postergar investimentos verdes.<\/p>\n<p>O argumento favor\u00e1vel aos mercados de carbono \u00e9 que eles seriam a estrat\u00e9gia mais r\u00e1pida e custo-efetiva de combate \u00e0s emiss\u00f5es: mais f\u00e1cil de implementar do que estrat\u00e9gias regulat\u00f3rias restritivas ou punitivas, mais barata para a sociedade\u2014por mobilizar recursos do setor privado\u2014e mais \u00e1gil em produzir resultados de mitiga\u00e7\u00e3o\u2014por oferecer oportunidades de lucro favor\u00e1veis a empresas e setores que desenvolvam solu\u00e7\u00f5es de baixo carbono.<\/p>\n<p>Seja por impostos ou pelos mercados, a cobran\u00e7a do custo social do carbono depende da eleva\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de seu pre\u00e7o para que os agentes sejam incentivados a continuar reduzindo emiss\u00f5es, mesmo depois de j\u00e1 terem se ajustado a eleva\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os anteriores. Na pr\u00e1tica, no entanto, a eleva\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os\u2014quando ocorre\u2014\u00e9 bastante gradual e inst\u00e1vel (e, portanto, revers\u00edvel por prazos imprevis\u00edveis), tanto porque a instabilidade de pre\u00e7os \u00e9 uma caracter\u00edstica dos mercados financeiros que transacionam cotas ou cr\u00e9ditos,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-3\">3<\/a>\u00a0quanto em raz\u00e3o de eficazes press\u00f5es pol\u00edticas corporativas para subordinar o ritmo de degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e de aquecimento clim\u00e1tico \u00e0 viabilidade econ\u00f4mica das empresas poluidoras, cobrando impostos baixos e oferecendo muitas licen\u00e7as.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-4\">4<\/a>\u00a0Para tentar conciliar a acumula\u00e7\u00e3o de capital e a solu\u00e7\u00e3o gradual da emerg\u00eancia clim\u00e1tica, os defensores dos mercados de carbono alegam que os pre\u00e7os cobrados pelas emiss\u00f5es n\u00e3o devem ser nem muito altos nem muito baixos, e devem progredir em um ritmo compat\u00edvel com os prazos nos quais os pa\u00edses se comprometeram a atingir suas metas clim\u00e1ticas. N\u00edveis de pre\u00e7o muito baixos podem desestimular os agentes a emitir menos, mantendo ou at\u00e9 mesmo elevando a trajet\u00f3ria de emiss\u00f5es da economia. N\u00edveis de pre\u00e7o muito altos, por outro lado, podem afetar desproporcionalmente tanto os consumidores finais, a quem parte dos custos de mitiga\u00e7\u00e3o \u00e9 repassada, quanto os setores exportadores, que competem com bens e servi\u00e7os produzidos em geografias que n\u00e3o necessariamente adotam as mesmas restri\u00e7\u00f5es de emiss\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 claras evid\u00eancias da falha dos mercados e dos impostos sobre carbono em atribuir \u00e0s emiss\u00f5es pre\u00e7os compat\u00edveis com as metas de mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica previstas no Acordo de Paris. Em 2017, a Comiss\u00e3o de Alto N\u00edvel sobre Precifica\u00e7\u00e3o de Carbono do Banco Mundial calculou que o pre\u00e7o por tonelada de emiss\u00f5es entre 2020 e 2030 precisaria ser de USD 50-100 (USD 63-127, em valores de 2024) para manter o aquecimento global bem abaixo de 2\u00b0C. Em 2024, por\u00e9m, apenas sete mecanismos de precifica\u00e7\u00e3o de carbono no mundo inteiro\u2014que, somados, cobriam menos de 1% das emiss\u00f5es globais\u2014atingiam esse pre\u00e7o m\u00ednimo. Al\u00e9m disso, os pre\u00e7os de todos os 75 mecanismos de precifica\u00e7\u00e3o do carbono em vigor<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-5\">5<\/a>\u00a0ficaram abaixo do limite m\u00ednimo estabelecido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC). Em 2015, o IPCC estimou que, para limitar o aquecimento global a 1,5\u00b0C, a tonelada de emiss\u00f5es deveria custar USD 170-290 (USD 226-385, em 2024). O imposto sobre o carbono do Uruguai foi o que chegou mais pr\u00f3ximo dessa cifra, precificando a emiss\u00e3o de uma tonelada de gases de efeito estufa em USD 167,17. No extremo oposto, por\u00e9m, o mercado de carbono da Indon\u00e9sia cobrava apenas USD 0,61 pela mesma tonelada.<\/p>\n<p>A competi\u00e7\u00e3o internacional para redu\u00e7\u00e3o de custos \u00e9 uma caracter\u00edstica sist\u00eamica que cria um problema de coordena\u00e7\u00e3o para a\u00e7\u00f5es coletivas e inviabiliza a forma\u00e7\u00e3o de um \u00fanico pre\u00e7o internacional para o carbono (e ainda mais um pre\u00e7o \u00fanico crescente), problema que n\u00e3o ser\u00e1 superado pelo mercado global de carbono aprovado em Baku. A diverg\u00eancia internacional de pre\u00e7os de carbono \u00e9 suficiente para inviabilizar um sistema eficaz de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es globais porque induz a realiza\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es de arbitragem que buscam menores custos ao inv\u00e9s de maior efici\u00eancia no uso do carbono.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-6\">6<\/a><\/p>\n<h2>A conta n\u00e3o fecha<\/h2>\n<p>A hip\u00f3tese que justifica a cobran\u00e7a do custo social do carbono \u00e9 que seu encarecimento levaria os agentes econ\u00f4micos a substituir tecnologias intensivas em emiss\u00f5es de carbono por tecnologias verdes. Em termos t\u00e9cnicos, a suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 que a elasticidade-pre\u00e7o da demanda por tecnologias \u201csujas\u201d \u00e9 alta, ou seja, essa demanda tende a cair mais do que proporcionalmente \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o de seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a hip\u00f3tese de f\u00e1cil substitui\u00e7\u00e3o de tecnologias n\u00e3o se verifica para o mercado de energia. Ao contr\u00e1rio, v\u00e1rios estudos emp\u00edricos comprovam que a elasticidade-pre\u00e7o da demanda por tecnologias \u201csujas\u201d \u00e9 extremamente baixa. Um estudo que analisa cinco setores para um painel de 39 pa\u00edses da OCDE entre 1990 e 2016, estimando um \u201cpre\u00e7o do carbono ponderado pelas emiss\u00f5es\u201d, demonstra que a introdu\u00e7\u00e3o da precifica\u00e7\u00e3o do carbono reduziu o crescimento das emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>\u00a0em apenas 0,6% a 1,5%, em m\u00e9dia, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s emiss\u00f5es contrafactuais (caso a precifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorresse). Isso se verifica justamente porque a elasticidade-pre\u00e7o da demanda \u00e9 muito baixa: h\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o de 0,06% no crescimento das emiss\u00f5es por eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de USD 1\/tCO<sub>2<\/sub>.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-7\">7<\/a>\u00a0Para alcan\u00e7ar uma redu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia projetada de 50% at\u00e9 2030 (em rela\u00e7\u00e3o a 2020), em conformidade com o Acordo de Paris, seria necess\u00e1rio um pre\u00e7o de carbono global ponderado por emiss\u00f5es em toda a economia global superior a USD 175\/tCO<sub>2<\/sub>, valor muito distante dos pre\u00e7os atuais e invi\u00e1vel politicamente por conta dos efeitos inflacion\u00e1rios e da resist\u00eancia de grupos de interesse.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-8\">8<\/a><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a inelasticidade-pre\u00e7o da demanda significa que, mesmo que os pre\u00e7os se elevem, usu\u00e1rios de tecnologias sujas e combust\u00edveis f\u00f3sseis continuam os demandando, ainda que fiquem mais pobres, porque n\u00e3o encontram substitutos fact\u00edveis: n\u00e3o h\u00e1 tecnologias e infraestruturas substitutivas facilmente acess\u00edveis, muito menos com custos compar\u00e1veis \u00e0s alternativas f\u00f3sseis. A estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o para energias renov\u00e1veis n\u00e3o pode, portanto, come\u00e7ar com a eleva\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os do carbono, esperando que o mercado ofere\u00e7a uma solu\u00e7\u00e3o alternativa a curto prazo. Deve passar, sim, pelo planejamento governamental da oferta de novas tecnologias verdes e infraestruturas substitutas baseadas em energia sustent\u00e1vel. Somente depois que essas tecnologias e infraestruturas estejam acess\u00edveis, a eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do carbono pode induzir a substitui\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Antes disso, consumidores e empresas usu\u00e1rias s\u00e3o ref\u00e9ns das op\u00e7\u00f5es sujas. Uma vez que a rota principal de descarboniza\u00e7\u00e3o na maior parte dos pa\u00edses passa pela eletrifica\u00e7\u00e3o de sistemas e pela convers\u00e3o de energias sustent\u00e1veis em fonte principal de eletricidade, os governos n\u00e3o devem confiar no poder m\u00e1gico do sistema de pre\u00e7os para ofertar redes alternativas do nada. Ao contr\u00e1rio, devem contribuir para a cria\u00e7\u00e3o de tecnologias e infraestruturas sustent\u00e1veis para eletrifica\u00e7\u00e3o e, depois, criar incentivos de pre\u00e7o para acelerar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica para a rede sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um problema central que impede a r\u00e1pida descarboniza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da amplia\u00e7\u00e3o dos investimentos \u00e9 a baixa lucratividade observada e esperada das empresas de energia renov\u00e1vel. Enquanto a rentabilidade anual da energia verde oscila, em m\u00e9dia, entre 6% e 8%, os bancos privados procuram financiar projetos com rentabilidade superior a 10%, cifra normalmente alcan\u00e7ada por corpora\u00e7\u00f5es produtoras de combust\u00edveis f\u00f3sseis. O motivo fundamental da rentabilidade pouco atraente tem a ver com a estrutura do mercado de eletricidade, crescentemente separado em mercados de gera\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. Enquanto as empresas de petr\u00f3leo e g\u00e1s operam em mercados oligopolizados, protegidos pela OPEP e com um conjunto significativo de investimentos j\u00e1 amortizados, as barreiras \u00e0 entrada na produ\u00e7\u00e3o de renov\u00e1veis s\u00e3o muito pequenas, uma vez que os bens de capital necess\u00e1rios est\u00e3o dispon\u00edveis no mercado internacional. Logo, booms curtos de investimento descoordenado s\u00e3o sucedidos por per\u00edodos longos de superprodu\u00e7\u00e3o, pre\u00e7os e taxas de lucro baixos.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-9\">9<\/a><\/p>\n<p>Em vista da competi\u00e7\u00e3o acirrada, os geradores de energia renov\u00e1vel n\u00e3o t\u00eam poder de mercado para impor pre\u00e7os e elevar margens de lucro perante as corpora\u00e7\u00f5es que dominam a infraestrutura de transmiss\u00e3o, sendo for\u00e7ados a transferir a redu\u00e7\u00e3o de custos para os pre\u00e7os, preservando baixas taxas de lucro. Para piorar, a situa\u00e7\u00e3o da estrutura de mercado, a produ\u00e7\u00e3o de renov\u00e1veis (solar e e\u00f3lica) \u00e9 mais abundante quando a demanda por energia \u00e9 menor, o que tende a limitar ainda mais os pre\u00e7os: enquanto a oferta \u00e9 maior em momentos de ilumina\u00e7\u00e3o natural durante o dia e nas esta\u00e7\u00f5es quentes, a demanda \u00e9 maior em esta\u00e7\u00f5es frias e momentos escuros do dia imediatamente antes e depois da jornada de trabalho. Como o custo de estocagem da energia renov\u00e1vel \u00e9 elevado, as empresas precisam despachar a energia quando \u00e9 gerada, tomando pre\u00e7os desfavor\u00e1veis.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-10\">10<\/a>\u00a0Ademais, a gera\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel \u00e9 muito intensiva em terra, o que leva os produtores a procurar \u00e1reas onde a terra \u00e9 mais barata\u2014em geral, distantes tanto das redes de transmiss\u00e3o existentes quanto das \u00e1reas mais densamente povoadas onde se concentra a demanda.\u00a0<\/p>\n<p>Tudo isso limita a constitui\u00e7\u00e3o de redes alternativas \u00e0s f\u00f3sseis atrav\u00e9s de mecanismos de mercado, atrasando a descarboniza\u00e7\u00e3o e reduzindo a elasticidade-pre\u00e7o da demanda por combust\u00edveis sujos. E a in\u00e9rcia estrutural n\u00e3o se limita ao sistema el\u00e9trico. Os combust\u00edveis f\u00f3sseis se integram a um sistema sociotecnol\u00f3gico com enormes interdepend\u00eancias que articulam sistemas energ\u00e9ticos, produtivos, cient\u00edficos, educacionais, infraestruturais e pol\u00edticos que resultam em externalidades positivas que \u201ctrancam\u201d os usu\u00e1rios na rede existente e, se n\u00e3o inviabilizam, dificultam enormemente que a transi\u00e7\u00e3o para um sistema alternativo seja feita por meio de sinais de pre\u00e7os.<\/p>\n<h2>Escassez de florestas<\/h2>\n<p>Em virtude da enorme lucratividade e enraizamento econ\u00f4mico e pol\u00edtico dos sistemas energ\u00e9tico, produtivo e de infraestrutura baseados em combust\u00edveis f\u00f3sseis, as corpora\u00e7\u00f5es produtoras e comercializadoras desses combust\u00edveis resistem \u00e0 transi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica, enquanto empresas e consumidores usu\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam alternativas no pre\u00e7o e na escala necess\u00e1rios para induzi-los \u00e0 descarboniza\u00e7\u00e3o. Desde o ano do Protocolo de Kyoto (1997) at\u00e9 2024, o consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis aumentou 58% (pouco menos da metade do crescimento acumulado do PIB mundial, cerca de 120%).<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Como resultado, os ganhos de efici\u00eancia energ\u00e9tica e uso de tecnologias limpas v\u00eam apenas reduzindo marginalmente a participa\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis na matriz energ\u00e9tica mundial. No ano do Protocolo de Kyoto, a participa\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis na matriz energ\u00e9tica mundial era de 85,8%, caindo apenas para 81% em 2024.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Em vista desse fracasso, a escala necess\u00e1ria para que os projetos de compensa\u00e7\u00e3o dos mercados de carbono\u2014atrav\u00e9s de conserva\u00e7\u00e3o ambiental, regenera\u00e7\u00e3o de florestas ou reflorestamento\u2014assegurem emiss\u00f5es l\u00edquidas zero \u00e9 absolutamente invi\u00e1vel. A compensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode funcionar como alternativa para a descarboniza\u00e7\u00e3o dos sistemas energ\u00e9ticos, produtivos e de infraestrutura simplesmente porque n\u00e3o h\u00e1 terra suficiente para replantar florestas.<\/p>\n<p>A Shell, quarta maior empresa de petr\u00f3leo e g\u00e1s por capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado do mundo,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-11\">11<\/a>\u00a0anunciou um projeto de compensa\u00e7\u00e3o das suas emiss\u00f5es atrav\u00e9s da compra de cr\u00e9ditos de carbono mediante prote\u00e7\u00e3o de florestas e reflorestamento que exigiria, entre 2020 e 2030, um territ\u00f3rio tr\u00eas vezes maior que o dos Pa\u00edses Baixos, onde fica a sede da empresa.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-12\">12<\/a>\u00a0A pr\u00f3pria Shell alegou que seria necess\u00e1rio reflorestar 700 milh\u00f5es de hectares\u2014um territ\u00f3rio equivalente ao do Brasil\u2014at\u00e9 o final do s\u00e9culo para evitar aquecimento superior a 1,5 \u00baC, em conjunto com v\u00e1rias outras iniciativas de mitiga\u00e7\u00e3o (como transi\u00e7\u00e3o para energia sustent\u00e1vel e restaura\u00e7\u00e3o florestal). Mesmo crendo que as demais iniciativas sejam exitosas, a estimativa da Shell para o impacto do reflorestamento \u00e9 bastante irrealista: sup\u00f5e uma taxa anual de sequestro de 17 toneladas de carbono por hectare, cifra pr\u00f3xima \u00e0 alcan\u00e7ada durante o crescimento de florestas tropicais nativas e biodiversas.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-13\">13<\/a>\u00a0Uma vez que a maior parte das oportunidades de reflorestamento est\u00e1 em \u00e1reas de florestas temperadas no Hemisf\u00e9rio Norte,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-14\">14<\/a>\u00a0n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para replantar florestas tropicais nessa escala. Nesse caso, a taxa anual de sequestro de carbono pode cair pela metade (num cen\u00e1rio otimista) ou at\u00e9 menos de um ter\u00e7o da estimativa da Shell (num cen\u00e1rio realista), o que tornaria necess\u00e1rio reflorestar talvez mais do que tr\u00eas Brasis\u2014supondo o sucesso das demais iniciativas de mitiga\u00e7\u00e3o imaginadas pela empresa.<\/p>\n<p>Mesmo considerando as estimativas de estudos entusiastas da op\u00e7\u00e3o pelo reflorestamento e restaura\u00e7\u00e3o de florestas nativas, a compensa\u00e7\u00e3o florestal n\u00e3o pode funcionar como alternativa para a descarboniza\u00e7\u00e3o dos sistemas energ\u00e9ticos, produtivos e de infraestrutura. Segundo Bastin et al.,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-15\">15<\/a>\u00a0dada a degrada\u00e7\u00e3o de solos que j\u00e1 abrigaram florestas e os usos concorrentes da terra, seria poss\u00edvel reflorestar no m\u00e1ximo 0,9 bilh\u00e3o de hectares no mundo inteiro. Em seus c\u00e1lculos, tal \u00e1rea absorveria 205 bilh\u00f5es de toneladas de carbono nas d\u00e9cadas necess\u00e1rias at\u00e9 que as florestas atingissem a maturidade. O problema \u00e9 que o efeito de d\u00e9cadas de reflorestamento equivale a apenas cinco anos de emiss\u00f5es no ritmo anual atual. Ou seja, o sistema sociotecnol\u00f3gico assentado na emiss\u00e3o de carbono esgotaria em pouco tempo todo o potencial existente de compensa\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es mediante reflorestamento e restaura\u00e7\u00e3o florestal.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-16\">16<\/a>\u00a0Ademais, sem restri\u00e7\u00f5es no n\u00edvel de emiss\u00f5es, a cobertura florestal pode ser reduzida em 223 milh\u00f5es de hectares em 2050 em raz\u00e3o do impacto do aquecimento global nas florestas tropicais, mesmo que se desconsidere o desmatamento associado ao avan\u00e7o da fronteira da agropecu\u00e1ria, da minera\u00e7\u00e3o e da urbaniza\u00e7\u00e3o\u2014principais respons\u00e1veis pela redu\u00e7\u00e3o de 178 milh\u00f5es de hectares de florestas no mundo entre 1990 e 2020.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-17\">17<\/a><\/p>\n<p>Tal impacto do aquecimento global nas florestas tropicais significa que a busca de compensa\u00e7\u00f5es (<em>net zero<\/em>) atrav\u00e9s de reflorestamento n\u00e3o \u00e9 apenas uma alternativa invi\u00e1vel \u00e0 descarboniza\u00e7\u00e3o, mas autodestrutiva, caso sirva como uma cortina de fuma\u00e7a para permitir que empresas lucrem mais tempo no neg\u00f3cio de energias sujas enquanto aparentam compensar suas emiss\u00f5es. Mesmo que as florestas que abrigam projetos espec\u00edficos de \u201ccompensa\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o desapare\u00e7am em cem anos (levando consigo os projetos que autorizaram emiss\u00f5es), h\u00e1 uma disparidade de dura\u00e7\u00e3o que inviabiliza uma verdadeira compensa\u00e7\u00e3o: os projetos de mitiga\u00e7\u00e3o florestal t\u00eam um prazo relativamente curto (no m\u00e1ximo cem anos), mas 40% do g\u00e1s carb\u00f4nico emitido permanece na atmosfera por mais de um s\u00e9culo\u2014entre 20% e 35% das emiss\u00f5es permanecem de dois a vinte mil\u00eanios.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-18\">18<\/a><\/p>\n<p>Ainda, a compensa\u00e7\u00e3o mediante investimentos no \u201ccapital natural\u201d \u00e9 comumente criticada pela dificuldade de verifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica da \u201cadicionalidade\u201d\u2014a contribui\u00e7\u00e3o efetiva\u2014dos projetos de mitiga\u00e7\u00e3o florestal. Todos os tipos de compensa\u00e7\u00e3o florestal cont\u00eam riscos, mas eles s\u00e3o menores quando os projetos envolvem \u201cemiss\u00f5es negativas\u201d, associadas \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o ou ao reflorestamento, e maiores quando incluem apenas \u201cemiss\u00f5es evitadas\u201d, tendo por base de refer\u00eancia uma trajet\u00f3ria contrafactual de emiss\u00f5es que supostamente se verificaria sem o projeto.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-19\">19<\/a><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, in\u00fameros projetos foram vendidos sem a devida comprova\u00e7\u00e3o de sua contribui\u00e7\u00e3o efetiva para a conserva\u00e7\u00e3o de florestas, e outros tantos n\u00e3o conservaram as florestas que prometiam conservar por problemas de administra\u00e7\u00e3o ou mesmo de fraude. Em 2016, um estudo financiado pela Diretoria Geral da Comiss\u00e3o Europeia para A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica concluiu que 85% dos projetos de mitiga\u00e7\u00e3o florestal tinham probabilidade baixa de redu\u00e7\u00f5es de emiss\u00f5es \u201cadicionais\u201d (n\u00e3o superestimadas), contra apenas 2% com alta probabilidade.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-20\">20<\/a>\u00a0Em 2023, um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2023\/sep\/19\/do-carbon-credit-reduce-emissions-greenhouse-gases?CMP=Share_AndroidApp_Other\">estudo<\/a>\u00a0do jornal The Guardian e da Corporate Accountability analisou os 50 principais projetos de compensa\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es no mundo, concluindo que 78% eram in\u00fateis, 16% eram problem\u00e1ticos, 6% n\u00e3o tinham informa\u00e7\u00f5es transparentes para permitir julgamento, e nenhum demonstrava contribui\u00e7\u00e3o efetiva inequ\u00edvoca. Al\u00e9m disso, demonstrando ou n\u00e3o a \u201cadicionalidade\u201d, o reflorestamento frequentemente envolve monoculturas florestais que\u00a0<a href=\"https:\/\/navdanyainternational.org\/pt-br\/what-is-missing-from-the-climate-debate\/\">prejudicam<\/a>\u00a0a seguran\u00e7a alimentar de comunidades tradicionais voltadas \u00e0 agricultura familiar e \u00e0 agroecologia, considerando que as terras voltadas \u00e0 agroind\u00fastria s\u00e3o muito mais caras e, em geral, protegidas legalmente.<\/p>\n<h3>Investimento p\u00fablico compensa mais<\/h3>\n<p>Entre as corpora\u00e7\u00f5es campe\u00e3s de emiss\u00f5es, muitas financiaram campanhas pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas voltadas a desacreditar a exist\u00eancia e subestimar os riscos do aquecimento global, assim como para desabonar as pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas a reverter ou proibir emiss\u00f5es e planejar estrat\u00e9gias de investimento, coordenar decis\u00f5es e alocar recursos direta ou indiretamente em busca de mudan\u00e7a estrutural. Se isso \u00e9 um sintoma de sistemas pol\u00edticos nacionais injustos, em que o poder econ\u00f4mico desinforma e manipula a opini\u00e3o p\u00fablica e as decis\u00f5es governamentais e legislativas, a injusti\u00e7a internacional \u00e9 ainda maior. Afinal, a imensa maioria das 90 institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por 63% das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa entre 1751 e 2010,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-21\">21<\/a>\u00a0assim como das 57 respons\u00e1veis por 80% das emiss\u00f5es entre 2016 e 2022,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-22\">22<\/a>\u00a0s\u00e3o corpora\u00e7\u00f5es globais que t\u00eam sede em regi\u00f5es temperadas menos impactadas pelo aquecimento global\u2014embora tamb\u00e9m comandem empresas filiais e subcontratadas que produzem com custos salariais e ambientais menores nas \u00e1reas do Sul global, que ser\u00e3o mais prejudicadas pelos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Essas corpora\u00e7\u00f5es se apropriaram e abusaram de um bem comum mundial: a capacidade de absor\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa da atmosfera, dos solos e dos oceanos. Algumas delas pretendem continuar se apropriando sem limite\u2014a ponto de destinarem USD 445 milh\u00f5es ao financiamento de campanhas eleitorais em 2024 nos Estados Unidos para eleger Donald Trump e outros pol\u00edticos favor\u00e1veis a energias sujas. Outras concordam em \u201ccompensar\u201d suas emiss\u00f5es futuras\u2014mas n\u00e3o as passadas\u2014mediante projetos de mitiga\u00e7\u00e3o que t\u00eam uma escala min\u00fascula diante das emiss\u00f5es totais e cuja contribui\u00e7\u00e3o efetiva, quando existente, \u00e9 muito menor que a propalada, ainda mais se considerarmos a escala temporal multissecular em que os gases de efeito estufa, em especial o g\u00e1s carb\u00f4nico, permanecem impactando atmosfera e os oceanos. De um modo ou de outro, ambos os grupos prolongam a dura\u00e7\u00e3o de um sistema sociotecnol\u00f3gico que lhes assegura lucros extraordin\u00e1rios enquanto acumula cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas cada vez maiores.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que a eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do carbono e os projetos de compensa\u00e7\u00e3o florestal de emiss\u00f5es devam ser descartados. Depois que um sistema el\u00e9trico alternativo for constitu\u00eddo, a eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do carbono poder\u00e1 finalmente contribuir para acelerar a substitui\u00e7\u00e3o sist\u00eamica.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-23\">23<\/a>\u00a0Desde que subordinados a uma estrutura de \u201ccomando e controle\u201d de florestas tropicais, alguns projetos de compensa\u00e7\u00e3o florestal de emiss\u00f5es podem ser autorizados, caso n\u00e3o estejam exclusivamente sob a fiscaliza\u00e7\u00e3o das certificadoras privadas dos mercados volunt\u00e1rios de carbono e especialmente se apoiarem a bioeconomia da sociobiodiversidade.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-24\">24<\/a>\u00a0O que se deve descartar \u00e9 a ideia, dominante na grande imprensa mundial e at\u00e9 mesmo na ONU, de que a cobran\u00e7a do custo social do carbono e sua \u201ccompensa\u00e7\u00e3o\u201d possam substituir o planejamento p\u00fablico da transi\u00e7\u00e3o sociotecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p><em>*Esse ensaio \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/transformaeconomia.org\/um-ambiente-para-negocios-por-que-os-mercados-de-carbono-nao-podem-evitar-a-catastrofe-climatica\/\">Nota n. 12<\/a>\u00a0do projeto\u00a0<a href=\"https:\/\/transformaeconomia.org\/\">Transforma<\/a>, grupo de pesquisa sediado no Instituto de Economia da Unicamp.<\/em><\/p>\n<p>Desde a celebra\u00e7\u00e3o do Protocolo de Kyoto, em 1997, a ideia de comprar e vender direitos de emitir carbono\u2014o chamado mercado de carbono\u2014\u00e9 a principal aposta da ONU para combater a crise clim\u00e1tica. Impulsionados em 2005, quando um n\u00famero suficiente de pa\u00edses ratificou o protocolo, os mercados de carbono estiveram no centro do Acordo de Paris em 2015 e da COP 29, realizada no ano de 2024 em Baku, no Azerbaij\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Baku, o projeto de administrar um mercado global de carbono\u2014impulsionado pelos pa\u00edses ricos\u2014foi finalmente alcan\u00e7ado. Com ele, as metas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de carbono que os pa\u00edses ricos se comprometem a alcan\u00e7ar podem ser obtidas n\u00e3o pela redu\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias emiss\u00f5es, mas pela compra dos resultados de projetos de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es realizados em locais onde os custos de mitiga\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais baixos, normalmente pa\u00edses mais pobres e que emitem menos.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre os mercados de carbono nos distrai, no entanto, do que realmente funciona no combate \u00e0 crise clim\u00e1tica: o planejamento p\u00fablico voltado a tornar os sistemas energ\u00e9ticos, produtivos e de infraestrutura independentes de combust\u00edveis f\u00f3sseis. Como a descarboniza\u00e7\u00e3o desses sistemas implica a tomada de decis\u00f5es de investimentos com impactos futuros interdependentes que n\u00e3o podem se refletir nos pre\u00e7os de mercado no presente, esses pre\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o capazes de orientar e encadear as decis\u00f5es de investimento necess\u00e1rias. Por isso, a estrat\u00e9gia que promove altera\u00e7\u00f5es marginais no sistema de pre\u00e7os relativos vigente\u2014nas formas de eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o das emiss\u00f5es de carbono e de redu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os das alternativas sustent\u00e1veis\u2014para induzir decis\u00f5es descoordenadas n\u00e3o vem conseguindo alcan\u00e7ar a descarboniza\u00e7\u00e3o na velocidade e profundidade necess\u00e1rias em escala global.<\/p>\n<h3>O clima vai ao mercado<\/h3>\n<p>Os mercados de carbono fazem parte da estrat\u00e9gia de mitiga\u00e7\u00e3o favorita da governan\u00e7a clim\u00e1tica global h\u00e1 d\u00e9cadas: a precifica\u00e7\u00e3o do carbono para cobran\u00e7a do custo social das emiss\u00f5es.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-1\">1<\/a>. Essa solu\u00e7\u00e3o parte do diagn\u00f3stico (contestado) de que as emiss\u00f5es desenfreadas seriam uma falha de mercado.<\/p>\n<p>Em geral, uma falha de mercado ocorre quando uma transa\u00e7\u00e3o mercantil gera benef\u00edcios ou danos<em>\u00a0<\/em>econ\u00f4micos colaterais sobre partes n\u00e3o envolvidas, fazendo com que esse efeito colateral n\u00e3o seja capturado pelo pre\u00e7o do bem ou servi\u00e7o negociado\u2014o pre\u00e7o, segundo essa hip\u00f3tese, dependeria apenas da oferta e da demanda dos atores envolvidos em cada mercado. Uma vez que n\u00e3o s\u00e3o internalizados nos pre\u00e7os e, portanto, n\u00e3o resultam em receitas ou custos para o agente gerador, benef\u00edcios e danos colaterais s\u00e3o chamados de externalidades positivas e negativas. Havendo externalidade positiva (negativa), a contribui\u00e7\u00e3o social \u00e9 maior (menor) do que a receita obtida pelo agente privado que oferta o bem ou servi\u00e7o. Isso seria uma falha de mercado se supusermos que o mercado \u00e9 normalmente um mecanismo que maximiza a contribui\u00e7\u00e3o social dos agentes privados, ou seja, que iguala a contribui\u00e7\u00e3o social e privada de cada ofertante de bem ou servi\u00e7o atrav\u00e9s da varia\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os para equilibrar oferta e demanda.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-2\">2<\/a>\u00a0Se a explica\u00e7\u00e3o do problema \u00e9 limitada ao fato de que os pre\u00e7os de mercado n\u00e3o repassam aos ofertantes a informa\u00e7\u00e3o exata sobre sua contribui\u00e7\u00e3o social, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 trazer (ou internalizar, no jarg\u00e3o econ\u00f4mico) as externalidades para os pre\u00e7os, corrigindo a falha.\u00a0<\/p>\n<p>Para corrigir essa falha, segundo a l\u00f3gica dos mercados de carbono, basta precificar o custo social do carbono e cobr\u00e1-lo: se as emiss\u00f5es custarem tanto quanto os danos econ\u00f4micos que causam, seu pre\u00e7o ser\u00e1 igual ao custo social do carbono, cuja cobran\u00e7a<em>\u00a0<\/em>igualar\u00e1 a contribui\u00e7\u00e3o social e privada do agente econ\u00f4mico poluidor. Uma vez calculado, o custo social do carbono<em>,<\/em>\u00a0antes \u201cexterno\u201d \u00e0s atividades econ\u00f4micas dos agentes ofertantes, poderia ser cobrado de cada um deles. O encarecimento das emiss\u00f5es levaria os agentes econ\u00f4micos a reverem padr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e consumo para reduzi-las. Como resultado, o consumo e o investimento privados seriam direcionados gradualmente para atividades e produtos de baixo carbono, limitando ou at\u00e9 mesmo revertendo o aquecimento global e melhorando o bem-estar social.<\/p>\n<p>A precifica\u00e7\u00e3o e cobran\u00e7a do custo social do carbono podem ser colocadas em pr\u00e1tica tanto pelo governo (por meio de impostos) quanto pela iniciativa privada. Todas as formas de precifica\u00e7\u00e3o e internaliza\u00e7\u00e3o dos custos sociais do carbono, volunt\u00e1rias ou compuls\u00f3rias, acarretam custos \u00e0s empresas envolvidas, tanto para monitorar e relatar suas emiss\u00f5es como para mitig\u00e1-las. Como resultado, elas procuram maneiras de reduzir ou compensar suas emiss\u00f5es ao menor custo poss\u00edvel. A redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es envolve investimentos ditos verdes (como ganhos de efici\u00eancia energ\u00e9tica e tecnologias limpas). A compensa\u00e7\u00e3o, por sua vez, abrange projetos de mitiga\u00e7\u00e3o, incluindo projetos de conserva\u00e7\u00e3o ambiental, ou a participa\u00e7\u00e3o em mercados de carbono, regulados ou volunt\u00e1rios. Nos mercados regulados, uma unidade pol\u00edtica (regi\u00e3o, pa\u00eds, estado) estabelece um teto geral de gases de efeito estufa e distribui cotas, permiss\u00f5es ou licen\u00e7as de emiss\u00e3o para determinados agentes econ\u00f4micos que podem us\u00e1-las ou, se conseguirem emitir menos, vender seus excedentes. Nos mercados volunt\u00e1rios, estabelece-se uma linha de base de emiss\u00f5es para cada tipo de projeto econ\u00f4mico, premiando empresas capazes de emitir menos com cr\u00e9ditos de carbono que elas podem vender para empresas que emitem mais.<\/p>\n<p>Se a compensa\u00e7\u00e3o for mais barata, vi\u00e1vel e r\u00e1pida do que o investimento verde, h\u00e1 fortes incentivos para que as empresas compensem suas emiss\u00f5es \u201cexternamente\u201d em vez de mudar tecnologias para reduzi-las \u201cinternamente\u201d. O pecado original da compensa\u00e7\u00e3o como forma de pagamento do custo social do carbono \u00e9 que, no fim das contas, esse mecanismo contribui para postergar investimentos verdes.<\/p>\n<p>O argumento favor\u00e1vel aos mercados de carbono \u00e9 que eles seriam a estrat\u00e9gia mais r\u00e1pida e custo-efetiva de combate \u00e0s emiss\u00f5es: mais f\u00e1cil de implementar do que estrat\u00e9gias regulat\u00f3rias restritivas ou punitivas, mais barata para a sociedade\u2014por mobilizar recursos do setor privado\u2014e mais \u00e1gil em produzir resultados de mitiga\u00e7\u00e3o\u2014por oferecer oportunidades de lucro favor\u00e1veis a empresas e setores que desenvolvam solu\u00e7\u00f5es de baixo carbono.<\/p>\n<p>Seja por impostos ou pelos mercados, a cobran\u00e7a do custo social do carbono depende da eleva\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de seu pre\u00e7o para que os agentes sejam incentivados a continuar reduzindo emiss\u00f5es, mesmo depois de j\u00e1 terem se ajustado a eleva\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os anteriores. Na pr\u00e1tica, no entanto, a eleva\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os\u2014quando ocorre\u2014\u00e9 bastante gradual e inst\u00e1vel (e, portanto, revers\u00edvel por prazos imprevis\u00edveis), tanto porque a instabilidade de pre\u00e7os \u00e9 uma caracter\u00edstica dos mercados financeiros que transacionam cotas ou cr\u00e9ditos,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-3\">3<\/a>\u00a0quanto em raz\u00e3o de eficazes press\u00f5es pol\u00edticas corporativas para subordinar o ritmo de degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e de aquecimento clim\u00e1tico \u00e0 viabilidade econ\u00f4mica das empresas poluidoras, cobrando impostos baixos e oferecendo muitas licen\u00e7as.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-4\">4<\/a>\u00a0Para tentar conciliar a acumula\u00e7\u00e3o de capital e a solu\u00e7\u00e3o gradual da emerg\u00eancia clim\u00e1tica, os defensores dos mercados de carbono alegam que os pre\u00e7os cobrados pelas emiss\u00f5es n\u00e3o devem ser nem muito altos nem muito baixos, e devem progredir em um ritmo compat\u00edvel com os prazos nos quais os pa\u00edses se comprometeram a atingir suas metas clim\u00e1ticas. N\u00edveis de pre\u00e7o muito baixos podem desestimular os agentes a emitir menos, mantendo ou at\u00e9 mesmo elevando a trajet\u00f3ria de emiss\u00f5es da economia. N\u00edveis de pre\u00e7o muito altos, por outro lado, podem afetar desproporcionalmente tanto os consumidores finais, a quem parte dos custos de mitiga\u00e7\u00e3o \u00e9 repassada, quanto os setores exportadores, que competem com bens e servi\u00e7os produzidos em geografias que n\u00e3o necessariamente adotam as mesmas restri\u00e7\u00f5es de emiss\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 claras evid\u00eancias da falha dos mercados e dos impostos sobre carbono em atribuir \u00e0s emiss\u00f5es pre\u00e7os compat\u00edveis com as metas de mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica previstas no Acordo de Paris. Em 2017, a Comiss\u00e3o de Alto N\u00edvel sobre Precifica\u00e7\u00e3o de Carbono do Banco Mundial calculou que o pre\u00e7o por tonelada de emiss\u00f5es entre 2020 e 2030 precisaria ser de USD 50-100 (USD 63-127, em valores de 2024) para manter o aquecimento global bem abaixo de 2\u00b0C. Em 2024, por\u00e9m, apenas sete mecanismos de precifica\u00e7\u00e3o de carbono no mundo inteiro\u2014que, somados, cobriam menos de 1% das emiss\u00f5es globais\u2014atingiam esse pre\u00e7o m\u00ednimo. Al\u00e9m disso, os pre\u00e7os de todos os 75 mecanismos de precifica\u00e7\u00e3o do carbono em vigor<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-5\">5<\/a>\u00a0ficaram abaixo do limite m\u00ednimo estabelecido pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC). Em 2015, o IPCC estimou que, para limitar o aquecimento global a 1,5\u00b0C, a tonelada de emiss\u00f5es deveria custar USD 170-290 (USD 226-385, em 2024). O imposto sobre o carbono do Uruguai foi o que chegou mais pr\u00f3ximo dessa cifra, precificando a emiss\u00e3o de uma tonelada de gases de efeito estufa em USD 167,17. No extremo oposto, por\u00e9m, o mercado de carbono da Indon\u00e9sia cobrava apenas USD 0,61 pela mesma tonelada.<\/p>\n<p>A competi\u00e7\u00e3o internacional para redu\u00e7\u00e3o de custos \u00e9 uma caracter\u00edstica sist\u00eamica que cria um problema de coordena\u00e7\u00e3o para a\u00e7\u00f5es coletivas e inviabiliza a forma\u00e7\u00e3o de um \u00fanico pre\u00e7o internacional para o carbono (e ainda mais um pre\u00e7o \u00fanico crescente), problema que n\u00e3o ser\u00e1 superado pelo mercado global de carbono aprovado em Baku. A diverg\u00eancia internacional de pre\u00e7os de carbono \u00e9 suficiente para inviabilizar um sistema eficaz de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es globais porque induz a realiza\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es de arbitragem que buscam menores custos ao inv\u00e9s de maior efici\u00eancia no uso do carbono.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-6\">6<\/a><\/p>\n<h3>A conta n\u00e3o fecha<\/h3>\n<p>A hip\u00f3tese que justifica a cobran\u00e7a do custo social do carbono \u00e9 que seu encarecimento levaria os agentes econ\u00f4micos a substituir tecnologias intensivas em emiss\u00f5es de carbono por tecnologias verdes. Em termos t\u00e9cnicos, a suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 que a elasticidade-pre\u00e7o da demanda por tecnologias \u201csujas\u201d \u00e9 alta, ou seja, essa demanda tende a cair mais do que proporcionalmente \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o de seu pre\u00e7o.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a hip\u00f3tese de f\u00e1cil substitui\u00e7\u00e3o de tecnologias n\u00e3o se verifica para o mercado de energia. Ao contr\u00e1rio, v\u00e1rios estudos emp\u00edricos comprovam que a elasticidade-pre\u00e7o da demanda por tecnologias \u201csujas\u201d \u00e9 extremamente baixa. Um estudo que analisa cinco setores para um painel de 39 pa\u00edses da OCDE entre 1990 e 2016, estimando um \u201cpre\u00e7o do carbono ponderado pelas emiss\u00f5es\u201d, demonstra que a introdu\u00e7\u00e3o da precifica\u00e7\u00e3o do carbono reduziu o crescimento das emiss\u00f5es de CO<sub>2<\/sub>\u00a0em apenas 0,6% a 1,5%, em m\u00e9dia, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s emiss\u00f5es contrafactuais (caso a precifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorresse). Isso se verifica justamente porque a elasticidade-pre\u00e7o da demanda \u00e9 muito baixa: h\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o de 0,06% no crescimento das emiss\u00f5es por eleva\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de USD 1\/tCO<sub>2<\/sub>.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-7\">7<\/a>\u00a0Para alcan\u00e7ar uma redu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia projetada de 50% at\u00e9 2030 (em rela\u00e7\u00e3o a 2020), em conformidade com o Acordo de Paris, seria necess\u00e1rio um pre\u00e7o de carbono global ponderado por emiss\u00f5es em toda a economia global superior a USD 175\/tCO<sub>2<\/sub>, valor muito distante dos pre\u00e7os atuais e invi\u00e1vel politicamente por conta dos efeitos inflacion\u00e1rios e da resist\u00eancia de grupos de interesse.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-8\">8<\/a><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a inelasticidade-pre\u00e7o da demanda significa que, mesmo que os pre\u00e7os se elevem, usu\u00e1rios de tecnologias sujas e combust\u00edveis f\u00f3sseis continuam os demandando, ainda que fiquem mais pobres, porque n\u00e3o encontram substitutos fact\u00edveis: n\u00e3o h\u00e1 tecnologias e infraestruturas substitutivas facilmente acess\u00edveis, muito menos com custos compar\u00e1veis \u00e0s alternativas f\u00f3sseis. A estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o para energias renov\u00e1veis n\u00e3o pode, portanto, come\u00e7ar com a eleva\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os do carbono, esperando que o mercado ofere\u00e7a uma solu\u00e7\u00e3o alternativa a curto prazo. Deve passar, sim, pelo planejamento governamental da oferta de novas tecnologias verdes e infraestruturas substitutas baseadas em energia sustent\u00e1vel. Somente depois que essas tecnologias e infraestruturas estejam acess\u00edveis, a eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do carbono pode induzir a substitui\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Antes disso, consumidores e empresas usu\u00e1rias s\u00e3o ref\u00e9ns das op\u00e7\u00f5es sujas. Uma vez que a rota principal de descarboniza\u00e7\u00e3o na maior parte dos pa\u00edses passa pela eletrifica\u00e7\u00e3o de sistemas e pela convers\u00e3o de energias sustent\u00e1veis em fonte principal de eletricidade, os governos n\u00e3o devem confiar no poder m\u00e1gico do sistema de pre\u00e7os para ofertar redes alternativas do nada. Ao contr\u00e1rio, devem contribuir para a cria\u00e7\u00e3o de tecnologias e infraestruturas sustent\u00e1veis para eletrifica\u00e7\u00e3o e, depois, criar incentivos de pre\u00e7o para acelerar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica para a rede sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um problema central que impede a r\u00e1pida descarboniza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da amplia\u00e7\u00e3o dos investimentos \u00e9 a baixa lucratividade observada e esperada das empresas de energia renov\u00e1vel. Enquanto a rentabilidade anual da energia verde oscila, em m\u00e9dia, entre 6% e 8%, os bancos privados procuram financiar projetos com rentabilidade superior a 10%, cifra normalmente alcan\u00e7ada por corpora\u00e7\u00f5es produtoras de combust\u00edveis f\u00f3sseis. O motivo fundamental da rentabilidade pouco atraente tem a ver com a estrutura do mercado de eletricidade, crescentemente separado em mercados de gera\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. Enquanto as empresas de petr\u00f3leo e g\u00e1s operam em mercados oligopolizados, protegidos pela OPEP e com um conjunto significativo de investimentos j\u00e1 amortizados, as barreiras \u00e0 entrada na produ\u00e7\u00e3o de renov\u00e1veis s\u00e3o muito pequenas, uma vez que os bens de capital necess\u00e1rios est\u00e3o dispon\u00edveis no mercado internacional. Logo, booms curtos de investimento descoordenado s\u00e3o sucedidos por per\u00edodos longos de superprodu\u00e7\u00e3o, pre\u00e7os e taxas de lucro baixos.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-9\">9<\/a><\/p>\n<p>Em vista da competi\u00e7\u00e3o acirrada, os geradores de energia renov\u00e1vel n\u00e3o t\u00eam poder de mercado para impor pre\u00e7os e elevar margens de lucro perante as corpora\u00e7\u00f5es que dominam a infraestrutura de transmiss\u00e3o, sendo for\u00e7ados a transferir a redu\u00e7\u00e3o de custos para os pre\u00e7os, preservando baixas taxas de lucro. Para piorar, a situa\u00e7\u00e3o da estrutura de mercado, a produ\u00e7\u00e3o de renov\u00e1veis (solar e e\u00f3lica) \u00e9 mais abundante quando a demanda por energia \u00e9 menor, o que tende a limitar ainda mais os pre\u00e7os: enquanto a oferta \u00e9 maior em momentos de ilumina\u00e7\u00e3o natural durante o dia e nas esta\u00e7\u00f5es quentes, a demanda \u00e9 maior em esta\u00e7\u00f5es frias e momentos escuros do dia imediatamente antes e depois da jornada de trabalho. Como o custo de estocagem da energia renov\u00e1vel \u00e9 elevado, as empresas precisam despachar a energia quando \u00e9 gerada, tomando pre\u00e7os desfavor\u00e1veis.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-10\">10<\/a>\u00a0Ademais, a gera\u00e7\u00e3o renov\u00e1vel \u00e9 muito intensiva em terra, o que leva os produtores a procurar \u00e1reas onde a terra \u00e9 mais barata\u2014em geral, distantes tanto das redes de transmiss\u00e3o existentes quanto das \u00e1reas mais densamente povoadas onde se concentra a demanda.\u00a0<\/p>\n<p>Tudo isso limita a constitui\u00e7\u00e3o de redes alternativas \u00e0s f\u00f3sseis atrav\u00e9s de mecanismos de mercado, atrasando a descarboniza\u00e7\u00e3o e reduzindo a elasticidade-pre\u00e7o da demanda por combust\u00edveis sujos. E a in\u00e9rcia estrutural n\u00e3o se limita ao sistema el\u00e9trico. Os combust\u00edveis f\u00f3sseis se integram a um sistema sociotecnol\u00f3gico com enormes interdepend\u00eancias que articulam sistemas energ\u00e9ticos, produtivos, cient\u00edficos, educacionais, infraestruturais e pol\u00edticos que resultam em externalidades positivas que \u201ctrancam\u201d os usu\u00e1rios na rede existente e, se n\u00e3o inviabilizam, dificultam enormemente que a transi\u00e7\u00e3o para um sistema alternativo seja feita por meio de sinais de pre\u00e7os.<\/p>\n<h3>Escassez de florestas<\/h3>\n<p>Em virtude da enorme lucratividade e enraizamento econ\u00f4mico e pol\u00edtico dos sistemas energ\u00e9tico, produtivo e de infraestrutura baseados em combust\u00edveis f\u00f3sseis, as corpora\u00e7\u00f5es produtoras e comercializadoras desses combust\u00edveis resistem \u00e0 transi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica, enquanto empresas e consumidores usu\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam alternativas no pre\u00e7o e na escala necess\u00e1rios para induzi-los \u00e0 descarboniza\u00e7\u00e3o. Desde o ano do Protocolo de Kyoto (1997) at\u00e9 2024, o consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis aumentou 58% (pouco menos da metade do crescimento acumulado do PIB mundial, cerca de 120%).<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Como resultado, os ganhos de efici\u00eancia energ\u00e9tica e uso de tecnologias limpas v\u00eam apenas reduzindo marginalmente a participa\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis na matriz energ\u00e9tica mundial. No ano do Protocolo de Kyoto, a participa\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis na matriz energ\u00e9tica mundial era de 85,8%, caindo apenas para 81% em 2024.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<p>Em vista desse fracasso, a escala necess\u00e1ria para que os projetos de compensa\u00e7\u00e3o dos mercados de carbono\u2014atrav\u00e9s de conserva\u00e7\u00e3o ambiental, regenera\u00e7\u00e3o de florestas ou reflorestamento\u2014assegurem emiss\u00f5es l\u00edquidas zero \u00e9 absolutamente invi\u00e1vel. A compensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode funcionar como alternativa para a descarboniza\u00e7\u00e3o dos sistemas energ\u00e9ticos, produtivos e de infraestrutura simplesmente porque n\u00e3o h\u00e1 terra suficiente para replantar florestas.<\/p>\n<p>A Shell, quarta maior empresa de petr\u00f3leo e g\u00e1s por capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado do mundo,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-11\">11<\/a>\u00a0anunciou um projeto de compensa\u00e7\u00e3o das suas emiss\u00f5es atrav\u00e9s da compra de cr\u00e9ditos de carbono mediante prote\u00e7\u00e3o de florestas e reflorestamento que exigiria, entre 2020 e 2030, um territ\u00f3rio tr\u00eas vezes maior que o dos Pa\u00edses Baixos, onde fica a sede da empresa.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-12\">12<\/a>\u00a0A pr\u00f3pria Shell alegou que seria necess\u00e1rio reflorestar 700 milh\u00f5es de hectares\u2014um territ\u00f3rio equivalente ao do Brasil\u2014at\u00e9 o final do s\u00e9culo para evitar aquecimento superior a 1,5 \u00baC, em conjunto com v\u00e1rias outras iniciativas de mitiga\u00e7\u00e3o (como transi\u00e7\u00e3o para energia sustent\u00e1vel e restaura\u00e7\u00e3o florestal). Mesmo crendo que as demais iniciativas sejam exitosas, a estimativa da Shell para o impacto do reflorestamento \u00e9 bastante irrealista: sup\u00f5e uma taxa anual de sequestro de 17 toneladas de carbono por hectare, cifra pr\u00f3xima \u00e0 alcan\u00e7ada durante o crescimento de florestas tropicais nativas e biodiversas.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-13\">13<\/a>\u00a0Uma vez que a maior parte das oportunidades de reflorestamento est\u00e1 em \u00e1reas de florestas temperadas no Hemisf\u00e9rio Norte,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-14\">14<\/a>\u00a0n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para replantar florestas tropicais nessa escala. Nesse caso, a taxa anual de sequestro de carbono pode cair pela metade (num cen\u00e1rio otimista) ou at\u00e9 menos de um ter\u00e7o da estimativa da Shell (num cen\u00e1rio realista), o que tornaria necess\u00e1rio reflorestar talvez mais do que tr\u00eas Brasis\u2014supondo o sucesso das demais iniciativas de mitiga\u00e7\u00e3o imaginadas pela empresa.<\/p>\n<p>Mesmo considerando as estimativas de estudos entusiastas da op\u00e7\u00e3o pelo reflorestamento e restaura\u00e7\u00e3o de florestas nativas, a compensa\u00e7\u00e3o florestal n\u00e3o pode funcionar como alternativa para a descarboniza\u00e7\u00e3o dos sistemas energ\u00e9ticos, produtivos e de infraestrutura. Segundo Bastin et al.,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-15\">15<\/a>\u00a0dada a degrada\u00e7\u00e3o de solos que j\u00e1 abrigaram florestas e os usos concorrentes da terra, seria poss\u00edvel reflorestar no m\u00e1ximo 0,9 bilh\u00e3o de hectares no mundo inteiro. Em seus c\u00e1lculos, tal \u00e1rea absorveria 205 bilh\u00f5es de toneladas de carbono nas d\u00e9cadas necess\u00e1rias at\u00e9 que as florestas atingissem a maturidade. O problema \u00e9 que o efeito de d\u00e9cadas de reflorestamento equivale a apenas cinco anos de emiss\u00f5es no ritmo anual atual. Ou seja, o sistema sociotecnol\u00f3gico assentado na emiss\u00e3o de carbono esgotaria em pouco tempo todo o potencial existente de compensa\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es mediante reflorestamento e restaura\u00e7\u00e3o florestal.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-16\">16<\/a>\u00a0Ademais, sem restri\u00e7\u00f5es no n\u00edvel de emiss\u00f5es, a cobertura florestal pode ser reduzida em 223 milh\u00f5es de hectares em 2050 em raz\u00e3o do impacto do aquecimento global nas florestas tropicais, mesmo que se desconsidere o desmatamento associado ao avan\u00e7o da fronteira da agropecu\u00e1ria, da minera\u00e7\u00e3o e da urbaniza\u00e7\u00e3o\u2014principais respons\u00e1veis pela redu\u00e7\u00e3o de 178 milh\u00f5es de hectares de florestas no mundo entre 1990 e 2020.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-17\">17<\/a><\/p>\n<p>Tal impacto do aquecimento global nas florestas tropicais significa que a busca de compensa\u00e7\u00f5es (<em>net zero<\/em>) atrav\u00e9s de reflorestamento n\u00e3o \u00e9 apenas uma alternativa invi\u00e1vel \u00e0 descarboniza\u00e7\u00e3o, mas autodestrutiva, caso sirva como uma cortina de fuma\u00e7a para permitir que empresas lucrem mais tempo no neg\u00f3cio de energias sujas enquanto aparentam compensar suas emiss\u00f5es. Mesmo que as florestas que abrigam projetos espec\u00edficos de \u201ccompensa\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o desapare\u00e7am em cem anos (levando consigo os projetos que autorizaram emiss\u00f5es), h\u00e1 uma disparidade de dura\u00e7\u00e3o que inviabiliza uma verdadeira compensa\u00e7\u00e3o: os projetos de mitiga\u00e7\u00e3o florestal t\u00eam um prazo relativamente curto (no m\u00e1ximo cem anos), mas 40% do g\u00e1s carb\u00f4nico emitido permanece na atmosfera por mais de um s\u00e9culo\u2014entre 20% e 35% das emiss\u00f5es permanecem de dois a vinte mil\u00eanios.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-18\">18<\/a><\/p>\n<p>Ainda, a compensa\u00e7\u00e3o mediante investimentos no \u201ccapital natural\u201d \u00e9 comumente criticada pela dificuldade de verifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica da \u201cadicionalidade\u201d\u2014a contribui\u00e7\u00e3o efetiva\u2014dos projetos de mitiga\u00e7\u00e3o florestal. Todos os tipos de compensa\u00e7\u00e3o florestal cont\u00eam riscos, mas eles s\u00e3o menores quando os projetos envolvem \u201cemiss\u00f5es negativas\u201d, associadas \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o ou ao reflorestamento, e maiores quando incluem apenas \u201cemiss\u00f5es evitadas\u201d, tendo por base de refer\u00eancia uma trajet\u00f3ria contrafactual de emiss\u00f5es que supostamente se verificaria sem o projeto.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-19\">19<\/a><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, in\u00fameros projetos foram vendidos sem a devida comprova\u00e7\u00e3o de sua contribui\u00e7\u00e3o efetiva para a conserva\u00e7\u00e3o de florestas, e outros tantos n\u00e3o conservaram as florestas que prometiam conservar por problemas de administra\u00e7\u00e3o ou mesmo de fraude. Em 2016, um estudo financiado pela Diretoria Geral da Comiss\u00e3o Europeia para A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica concluiu que 85% dos projetos de mitiga\u00e7\u00e3o florestal tinham probabilidade baixa de redu\u00e7\u00f5es de emiss\u00f5es \u201cadicionais\u201d (n\u00e3o superestimadas), contra apenas 2% com alta probabilidade.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-20\">20<\/a>\u00a0Em 2023, um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2023\/sep\/19\/do-carbon-credit-reduce-emissions-greenhouse-gases?CMP=Share_AndroidApp_Other\">estudo<\/a>\u00a0do jornal The Guardian e da Corporate Accountability analisou os 50 principais projetos de compensa\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es no mundo, concluindo que 78% eram in\u00fateis, 16% eram problem\u00e1ticos, 6% n\u00e3o tinham informa\u00e7\u00f5es transparentes para permitir julgamento, e nenhum demonstrava contribui\u00e7\u00e3o efetiva inequ\u00edvoca. Al\u00e9m disso, demonstrando ou n\u00e3o a \u201cadicionalidade\u201d, o reflorestamento frequentemente envolve monoculturas florestais que\u00a0<a href=\"https:\/\/navdanyainternational.org\/pt-br\/what-is-missing-from-the-climate-debate\/\">prejudicam<\/a>\u00a0a seguran\u00e7a alimentar de comunidades tradicionais voltadas \u00e0 agricultura familiar e \u00e0 agroecologia, considerando que as terras voltadas \u00e0 agroind\u00fastria s\u00e3o muito mais caras e, em geral, protegidas legalmente.<\/p>\n<h3>Investimento p\u00fablico compensa mais<\/h3>\n<p>Entre as corpora\u00e7\u00f5es campe\u00e3s de emiss\u00f5es, muitas financiaram campanhas pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas voltadas a desacreditar a exist\u00eancia e subestimar os riscos do aquecimento global, assim como para desabonar as pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas a reverter ou proibir emiss\u00f5es e planejar estrat\u00e9gias de investimento, coordenar decis\u00f5es e alocar recursos direta ou indiretamente em busca de mudan\u00e7a estrutural. Se isso \u00e9 um sintoma de sistemas pol\u00edticos nacionais injustos, em que o poder econ\u00f4mico desinforma e manipula a opini\u00e3o p\u00fablica e as decis\u00f5es governamentais e legislativas, a injusti\u00e7a internacional \u00e9 ainda maior. Afinal, a imensa maioria das 90 institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por 63% das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa entre 1751 e 2010,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-21\">21<\/a>\u00a0assim como das 57 respons\u00e1veis por 80% das emiss\u00f5es entre 2016 e 2022,<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-22\">22<\/a>\u00a0s\u00e3o corpora\u00e7\u00f5es globais que t\u00eam sede em regi\u00f5es temperadas menos impactadas pelo aquecimento global\u2014embora tamb\u00e9m comandem empresas filiais e subcontratadas que produzem com custos salariais e ambientais menores nas \u00e1reas do Sul global, que ser\u00e3o mais prejudicadas pelos impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Essas corpora\u00e7\u00f5es se apropriaram e abusaram de um bem comum mundial: a capacidade de absor\u00e7\u00e3o de gases de efeito estufa da atmosfera, dos solos e dos oceanos. Algumas delas pretendem continuar se apropriando sem limite\u2014a ponto de destinarem USD 445 milh\u00f5es ao financiamento de campanhas eleitorais em 2024 nos Estados Unidos para eleger Donald Trump e outros pol\u00edticos favor\u00e1veis a energias sujas. Outras concordam em \u201ccompensar\u201d suas emiss\u00f5es futuras\u2014mas n\u00e3o as passadas\u2014mediante projetos de mitiga\u00e7\u00e3o que t\u00eam uma escala min\u00fascula diante das emiss\u00f5es totais e cuja contribui\u00e7\u00e3o efetiva, quando existente, \u00e9 muito menor que a propalada, ainda mais se considerarmos a escala temporal multissecular em que os gases de efeito estufa, em especial o g\u00e1s carb\u00f4nico, permanecem impactando atmosfera e os oceanos. De um modo ou de outro, ambos os grupos prolongam a dura\u00e7\u00e3o de um sistema sociotecnol\u00f3gico que lhes assegura lucros extraordin\u00e1rios enquanto acumula cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas cada vez maiores.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que a eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do carbono e os projetos de compensa\u00e7\u00e3o florestal de emiss\u00f5es devam ser descartados. Depois que um sistema el\u00e9trico alternativo for constitu\u00eddo, a eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do carbono poder\u00e1 finalmente contribuir para acelerar a substitui\u00e7\u00e3o sist\u00eamica.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-23\">23<\/a>\u00a0Desde que subordinados a uma estrutura de \u201ccomando e controle\u201d de florestas tropicais, alguns projetos de compensa\u00e7\u00e3o florestal de emiss\u00f5es podem ser autorizados, caso n\u00e3o estejam exclusivamente sob a fiscaliza\u00e7\u00e3o das certificadoras privadas dos mercados volunt\u00e1rios de carbono e especialmente se apoiarem a bioeconomia da sociobiodiversidade.<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-list-24\">24<\/a>\u00a0O que se deve descartar \u00e9 a ideia, dominante na grande imprensa mundial e at\u00e9 mesmo na ONU, de que a cobran\u00e7a do custo social do carbono e sua \u201ccompensa\u00e7\u00e3o\u201d possam substituir o planejamento p\u00fablico da transi\u00e7\u00e3o sociotecnol\u00f3gica.<\/p>\n<h4><em>Esse ensaio \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/transformaeconomia.org\/um-ambiente-para-negocios-por-que-os-mercados-de-carbono-nao-podem-evitar-a-catastrofe-climatica\/\">Nota n. 12<\/a>\u00a0do projeto\u00a0<a href=\"https:\/\/transformaeconomia.org\/\">Transforma<\/a>, grupo de pesquisa sediado no Instituto de Economia da Unicamp.<\/em><\/h4>\n<h2>Notas de Rodap\u00e9<\/h2>\n<p>1.\u00a0Nos referimos a \u201ccarbono\u201d, e n\u00e3o ao conjunto de gases de efeito estufa, por facilidade de exposi\u00e7\u00e3o. A rigor, por\u00e9m, a express\u00e3o \u201ccarbono\u201d aqui diz respeito ao g\u00e1s carb\u00f4nico equivalente (CO<sub>2e<\/sub>), uma m\u00e9trica empregada para comparar e poder padronizar a contribui\u00e7\u00e3o dos diferentes tipos de emiss\u00e3o para o aquecimento global. Nela, cada g\u00e1s de efeito estufa \u00e9 equiparado ao principal deles, o g\u00e1s carb\u00f4nico (CO<sub>2<\/sub>), em fun\u00e7\u00e3o de seu potencial de aquecimento global (GWP, na sigla em ingl\u00eas).\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-1\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>2.\u00a0Na escola neocl\u00e1ssica de economia, isso \u00e9 chamado de \u201c\u00f3timo de Pareto\u201d. Ver: Hill, R., &amp; Myatt, T. (2022). The Microeconomics Anti-Textbook: A Critical Thinker\u2019s Guide (2nd ed.). London: Zed Books.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-2\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>3.\u00a0Hache, F. (2019, May).\u00a0<em>50 Shades of Green Part II: The Fallacy of Environmental Markets<\/em>. Green Finance Observatory, Policy Report.\u00a0<a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.2139\/ssrn.3547414\">http:\/\/dx.doi.org\/10.2139\/ssrn.3547414<\/a>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-3\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>4.\u00a0Luke, T.W. (2006). The system of sustainable degradation.\u00a0<em>Capitalism Nature Socialism<\/em>,\u00a0<em>17<\/em>(1), 99-112.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-4\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>5.\u00a0World Bank (2024).\u00a0<em>State and Trends of Carbon Pricing 2024<\/em>. Washington, DC: World Bank.\u00a0<a href=\"http:\/\/hdl.handle.net\/10986\/41544\">http:\/\/hdl.handle.net\/10986\/41544<\/a>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-5\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>6.\u00a0Stiglitz, J. E. (2013). Sharing the burden of saving the planet: Global social justice for sustainable Development. Lessons from the theory of public finance. In:\u00a0\u00a0Stiglitz, J. E., &amp; Kaldor, M. (Eds.).\u00a0<em>The quest for security: Protection without protectionism and the challenge of global governance.<\/em>\u00a0Columbia University Press\u00a0(pp. 161-204).\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-6\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>7.\u00a0Rafaty, R., Dolphin, G., &amp; Pretis, F. (2025). Carbon pricing and the elasticity of CO<sub>2<\/sub>\u00a0emissions.\u00a0<em>Energy Economics<\/em>, 108298.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-7\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>8.\u00a0Ver tamb\u00e9m: Lilliestam, J., Patt, A., &amp; Bersalli, G. (2021). The effect of carbon pricing on technological change for full energy decarbonization: A review of empirical ex\u2010post evidence.\u00a0<em>Wiley Interdisciplinary Reviews: Climate Change<\/em>,\u00a0<em>12<\/em>(1), e681.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-8\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>9.\u00a0Christophers, B. (2024).\u00a0<em>The Price is Wrong: Why Capitalism Won\u2019t Save the Planet<\/em>. Verso Books. Cap\u00edtulos 4 e 7.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-9\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>10.\u00a0Christophers, B. (2024).\u00a0<em>The Price is Wrong: Why Capitalism Won\u2019t Save the Planet<\/em>. Verso Books. Cap\u00edtulo 5.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-10\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>11.\u00a0Conforme o ranking da CompaniesMarketCap (2025).\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-11\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>12.\u00a0ActionAid International. (2021).\u00a0<a href=\"their-lands:%20The%20land%20impact%20of%20Royal%20Dutch%20Shell\">Not-their-lands: The land impact of Royal Dutch Shell\u2019s net zero climate target<\/a>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-12\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>13.\u00a0Ibid. Em 2023, a Shell abandonou projetos pouco lucrativos em energia renov\u00e1vel e anunciou grande expans\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s (Christophers, op. cit., loc. 3985). Em fevereiro de 2025, a BP noticiou corte de 70% nos investimentos em renov\u00e1veis para focar em combust\u00edveis f\u00f3sseis: Moore, M. &amp; Wilson, T. (2025, February 26). BP pivots back to oil and gas after \u2018misplaced\u2019 faith in green energy.\u00a0<em>Financial Times.<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/8bcf131f-c820-493f-8ea6-6a35440facd3\">https:\/\/www.ft.com\/content\/8bcf131f-c820-493f-8ea6-6a35440facd3<\/a>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-13\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>14.\u00a0Bastin, J. F., Finegold, Y., Garcia, C., Mollicone, D., Rezende, M., Routh, D., . . . &amp; Crowther, T. W. (2019). The global tree restoration potential.\u00a0<em>Science<\/em>,\u00a0<em>365<\/em>(6448), 76-79.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-14\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>15.\u00a0Ibid.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-15\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>16.\u00a0O estudo de Lewis, Wheeler, Mitchard e Koch (2019) \u00e9 mais pessimista que o de Bastin et al. (2019), estimando a absor\u00e7\u00e3o de 42 bilh\u00f5es de toneladas de carbono at\u00e9 2100, um valor pr\u00f3ximo ao das emiss\u00f5es de carbono em 2024. E isso na melhor das hip\u00f3teses: a de que a estrat\u00e9gia preferida pelos governos n\u00e3o seja a planta\u00e7\u00e3o lucrativa de monoculturas florestais, e, sim, a restaura\u00e7\u00e3o de florestas naturais. Pelo c\u00e1lculo dos autores, monoculturas florestais absorveriam apenas 1 bilh\u00e3o de toneladas de carbono, e opera\u00e7\u00f5es agroflorestais, 7 bilh\u00f5es. Logo, na pior das hip\u00f3teses, todo o potencial global de reflorestamento mediante monoculturas s\u00f3 compensaria nove (9) dias das emiss\u00f5es de carbono de 2024. Ver: Lewis, S. L., Wheeler, C. E., Mitchard, E. T., &amp; Koch, A. (2019). Regenerate natural forests to store carbon.\u00a0<em>Nature, 568<\/em>(7750), 25-28.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-16\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>17.\u00a0FAO \u2013 Food and Agriculture Organization of the United Nations. (2020).\u00a0<em>Global Forest Resources Assessment 2020 \u2013 Key findings.<\/em>\u00a0Rome: FAO.\u00a0<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.4060\/ca8753en\">https:\/\/doi.org\/10.4060\/ca8753en<\/a>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-17\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>18.\u00a0Mackey, B., Prentice, I., Steffen, W. et al. (2013). Untangling the confusion around land carbon science and climate change mitigation policy.\u00a0<em>Nature Climate Change, 3<\/em>, 552-557.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-18\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>19.\u00a0Bumpus, A. G., &amp; Liverman, D. M. (2008). Accumulation by Decarbonization and the Governance of Carbon Offsets.\u00a0<em>Economic Geography, 84<\/em>(2), 127-155.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-19\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>20.\u00a0Cames, M., Harthan, R. O., F\u00fcssler, J., Lazarus, M., Lee, C. M., Erickson, P., &amp; Spalding-Fecher, R. (2016<em>). How additional is the clean development mechanism: analysis of the application of current\u00a0<\/em>tools and proposed alternatives. Berlin: Institute for Applied Ecology.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-20\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>21.\u00a0Heede, R. (2014). Tracing anthropogenic carbon dioxide and methane emissions to fossil fuel and cement producers, 1854\u20132010.\u00a0<em>Climatic Change<\/em>,\u00a0<em>122<\/em>(1), 229-241.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-21\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>22.\u00a0InfluenceMap. (2024, April).\u00a0<em>The Carbon Majors Database: Launch Report<\/em>.\u00a0<a href=\"https:\/\/influencemap.org\/briefing\/The-Carbon-Majors-Database-26913\">https:\/\/influencemap.org\/briefing\/The-Carbon-Majors-Database-26913<\/a>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-22\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>23.\u00a0Lonergan, E., &amp; Sawers, C. (2022).\u00a0<em>Supercharge me: net zero faster<\/em>. Agenda Publishing.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-23\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>24.\u00a0Fernandes, D. A., Costa, F. D. A., Folhes, R., Silva, H., &amp; Ventura Neto, R. (2022).\u00a0<em>Por uma bioeconomia da socio-biodiversidade na Amaz\u00f4nia: li\u00e7\u00f5es do passado e perspectivas para o futuro.<\/em>\u00a0Nota de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica n. 23. S\u00e3o Paulo: Made-USP; Bastos, P. P. Z. (2023)\u00a0<em>Fundo Amaz\u00f4nia e desenvolvimento socioambiental inclusivo: problemas e recomenda\u00e7\u00f5es.<\/em>\u00a0Nota T\u00e9cnica n. 20. CECON-Unicamp \u2013 Centro de Estudos de Conjuntura e Pol\u00edtica Econ\u00f4mica da Universidade Estadual de Campinas.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phenomenalworld.org\/pt-br\/analises\/ambiente-para-negocios\/#footnote-24\">(Back)<\/a><\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/09\/15\/ambiente-para-negocios\/\">Ambiente para neg\u00f3cios<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mst-ocupa-area-do-banco-do-brasil-destinada-a-reforma-agraria-no-rs\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/f571ad79-82bc-4b14-8588-e617c3ecc50d-1-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">MST ocupa \u00e1rea do Banco do Brasil destinada \u00e0 Refo...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/reimont-pede-prisao-de-vick-vanilla-por-apologia-ao-nazismo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Reimont pede pris\u00e3o de Vick Vanilla por apologia a...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ucrania-admite-negociar-tregua-com-base-na-linha-de-frente-atual-do-conflito\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/a299a0ad-7984-43a5-9416-b9bffa825958-5a091b962d430ff3dd83f9178f4256f8-1760731135-extra-large-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ucr\u00e2nia admite negociar tr\u00e9gua com base na linha d...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/viagens-mongolia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Viagens: Mong\u00f3lia<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joseca Yanomami \u2013 Sobre a viagem de Davi Kopenawa aos Estados Unidos (2011). 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