{"id":53258,"date":"2025-09-18T18:51:22","date_gmt":"2025-09-18T21:51:22","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mares-caixas-pretas-da-exploracao-capitalista\/"},"modified":"2025-09-18T18:51:22","modified_gmt":"2025-09-18T21:51:22","slug":"mares-caixas-pretas-da-exploracao-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/mares-caixas-pretas-da-exploracao-capitalista\/","title":{"rendered":"Mares, caixas pretas da explora\u00e7\u00e3o capitalista"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"645\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-12.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-12.jpeg 1280w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-12-300x151.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-12-768x387.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><figcaption>Foto: Instituto Arayara<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Liam Campling<\/strong> e <strong>Alejandro Col\u00e1s<\/strong> em entrevista a <strong>Xabier Gangoiti<\/strong>, na <em>Jacobin Am\u00e9rica Latina<\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Em <em>O capitalismo e o mar<\/em>, os economistas pol\u00edticos Liam Campling e Alejandro Col\u00e1s mostram como o oceano emergiu como uma pe\u00e7a central da ordem capitalista globalizada: um espa\u00e7o oculto, juridicamente amb\u00edguo e fisicamente distante que permite extrair valor, esquivar regulamenta\u00e7\u00f5es e reproduzir a divis\u00e3o do trabalho. Do cont\u00eainer \u00e0s bandeiras de conveni\u00eancia, o mar \u00e9 o palco onde o capital circula, acumula e se protege.<\/p>\n<p>Longe de ser uma zona sem lei, os mares s\u00e3o profundamente regulados para servir ao com\u00e9rcio, enquanto a crise clim\u00e1tica, a competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica e a financeiriza\u00e7\u00e3o reconfiguram suas rotas. Campling e Col\u00e1s n\u00e3o prop\u00f5em a retirada do sistema log\u00edstico global, mas a sua reapropria\u00e7\u00e3o: repensar a infraestrutura mar\u00edtima como base para um planejamento democr\u00e1tico e p\u00f3s-capitalista.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA--12.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA--12.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"(max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Nesta entrevista com Xabier Gangoiti para a Jacobin, eles explicam como o capital molda tanto as rotas oce\u00e2nicas quanto a vida em terra firme, desde o turismo de cruzeiros at\u00e9 os iates dos \u201ctech bros\u201d. Se quisermos desafiar o capitalismo, tamb\u00e9m teremos que disputar o mar.<\/p>\n<p><strong>O Mediterr\u00e2neo continua sendo uma das fronteiras mais letais do planeta, com mais de 34 mil vidas perdidas e corpos desaparecidos desde 2015. No entanto, esta trag\u00e9dia mal tem eco no debate p\u00fablico, e a Europa continua a endurecer suas pol\u00edticas migrat\u00f3rias. O livro de voc\u00eas argumenta que o capitalismo se alimenta da invisibilidade do mar. Por que \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil ignorar as din\u00e2micas espaciais mar\u00edtimas? At\u00e9 que ponto o capital depende dessa oculta\u00e7\u00e3o para seu funcionamento?<\/strong><\/p>\n<p>Interessam-nos especialmente as distor\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e as desigualdades materiais geradas pela circula\u00e7\u00e3o de mercadorias no mar. H\u00e1 uma raz\u00e3o f\u00edsica fundamental pela qual o mar\u00edtimo permanece <em>out at sea, out of sight<\/em> (em alto mar, fora de vista): muito poucas pessoas hoje t\u00eam uma experi\u00eancia cotidiana do mar, e muito menos do transporte mar\u00edtimo. Esta separa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e espacial de sete d\u00e9cimos da superf\u00edcie do planeta permite aos capitalistas aprofundar a opacidade, a obscuridade e a mistifica\u00e7\u00e3o inerentes \u00e0 troca de mercadorias sob o capitalismo.<\/p>\n<p>Isso se manifesta atrav\u00e9s de artimanhas legais como as bandeiras de conveni\u00eancia ou a contabilidade offshore, e por meio de regimes de trabalho mar\u00edtimos que mant\u00eam marinheiros e pescadores fora do alcance dos \u00f3rg\u00e3os reguladores e da prote\u00e7\u00e3o sindical. Em muitos aspectos, o cont\u00eainer de transporte \u00e9 a mercadoria capitalista por excel\u00eancia: um artefato padronizado e transnacional que atua como equivalente universal na produ\u00e7\u00e3o de valor atrav\u00e9s do transporte, mas que pode conter qualquer coisa, desde patinhos de borracha at\u00e9 pessoas v\u00edtimas de tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>A ideia de que o mar n\u00e3o tem lei \u00e9 um mito conveniente para os capitalistas mar\u00edtimos. Existem muitas normas legais, industriais, ambientais e humanit\u00e1rias que se aplicam ao mar; o problema \u00e9 que s\u00e3o aplicadas de forma desigual. Fatores geogr\u00e1ficos e f\u00edsicos influenciam, sim, mas em \u00faltima inst\u00e2ncia, esta desigualdade na aplica\u00e7\u00e3o da lei \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica tomada pelos Estados e pelo capital. O fundo do mar Mediterr\u00e2neo tornou-se, de fato, uma vala comum para aqueles que tentam atravess\u00e1-lo em busca de uma vida melhor na Europa, reflexo de um racismo antinegro profundamente arraigado em todas as suas costas. Mas trata-se de uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria forjada principalmente em terra firme, por autoridades e atores pol\u00edticos concretos, com nomes e sobrenomes.<\/p>\n<p><strong>O governo dos Estados Unidos gerou um alarme generalizado ao manifestar seu interesse em controlar espa\u00e7os mar\u00edtimos-chave como o Canal do Panam\u00e1 \u2014 que continua sendo uma art\u00e9ria estrat\u00e9gica do com\u00e9rcio global \u2014 e at\u00e9 mesmo a Groenl\u00e2ndia, onde prev\u00ea-se que o derretimento do gelo abrir\u00e1 novas rotas mar\u00edtimas no \u00c1rtico. Longe de serem movimentos isolados, estas a\u00e7\u00f5es refletem uma crescente consci\u00eancia por parte das grandes pot\u00eancias sobre a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica dos corredores mar\u00edtimos em um mundo alterado pela crise clim\u00e1tica.<\/strong><\/p>\n<p>Essa fase de competi\u00e7\u00e3o territorial oce\u00e2nica e rivalidade geopol\u00edtica no mar j\u00e1 est\u00e1 em andamento h\u00e1 bastante tempo. A China foi admitida como observadora credenciada no Conselho do \u00c1rtico em 2013, porque Pequim \u2014 como outras pot\u00eancias econ\u00f4micas n\u00e3o \u00e1rticas \u2014 antecipou as oportunidades comerciais e extrativistas que surgiriam com o derretimento polar. Tamb\u00e9m foram administra\u00e7\u00f5es democratas nos Estados Unidos que impulsionaram o \u201cpiv\u00f4 para a \u00c1sia\u201d e, mais recentemente, a \u201cestrat\u00e9gia do Indo-Pac\u00edfico\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-1.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/BANNER-outraspalavras-JULHO-corsaria-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A ordem executiva de Trump sobre a \u201cRestaura\u00e7\u00e3o do Dom\u00ednio Mar\u00edtimo dos Estados Unidos\u201d combina uma pol\u00edtica neomercantilista de constru\u00e7\u00e3o naval e cabotagem com refer\u00eancias mahanianas \u00e0 necessidade de revitalizar a frota estadunidense de \u00e1guas azuis e assegurar o controle sobre os principais gargalos mar\u00edtimos, com especial \u00eanfase na seguran\u00e7a das rotas \u00e1rticas.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que, al\u00e9m do conflito com outras na\u00e7\u00f5es \u00e1rticas \u2014 incluindo aliados da OTAN como Canad\u00e1 e Dinamarca \u2014 resurjam tens\u00f5es no mar da China Meridional e no estreito de Taiwan. No entanto, grande parte desta din\u00e2mica poderia ser transit\u00f3ria (o \u00faltimo suspiro de um modelo falido de capitalismo f\u00f3ssil e militarizado?).<\/p>\n<p>O desafio intergeracional que sublinhamos no livro \u00e9 outro: a combina\u00e7\u00e3o do aquecimento oce\u00e2nico \u2014 j\u00e1 existente e em crescimento \u2014 com a acidifica\u00e7\u00e3o, as zonas mortas do oceano e a inevit\u00e1vel subida do n\u00edvel do mar. As respostas geopol\u00edticas a estas din\u00e2micas continuam sendo, em grande medida, desconhecidas.<\/p>\n<p><strong>Desde as origens do capitalismo, governantes, empresas, trabalhadores e at\u00e9 mesmo romancistas imaginaram o mar como uma fronteira de oportunidades e, ao mesmo tempo, uma zona de perigo. Na se\u00e7\u00e3o final do livro, voc\u00eas exploram o <em>offshore<\/em> n\u00e3o apenas como uma constru\u00e7\u00e3o legal ou financeira, mas tamb\u00e9m como uma fantasia ut\u00f3pica: um espa\u00e7o livre de interfer\u00eancia pol\u00edtica e de conflito de classes.<\/strong> <strong>Em um mundo cada vez mais marcado pelo colapso ecol\u00f3gico, pela agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e pela guerra, voc\u00eas acham que esses espa\u00e7os <em>offshore<\/em> de lazer e evas\u00e3o \u2014 iates, cruzeiros, ilhas privadas \u2014 adquirir\u00e3o um papel mais central na forma como as elites imaginam a sobreviv\u00eancia e a soberania?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o abordamos este tema em profundidade no livro, mas certamente parece haver uma continuidade entre os iates, as plataformas mar\u00edtimas e as ilhas privadas, e os ref\u00fagios p\u00f3s-apocal\u00edpticos. Estes espa\u00e7os n\u00e3o s\u00e3o apenas s\u00edmbolos de status: tamb\u00e9m refletem um desejo de isolamento, evas\u00e3o e controle por parte de certas elites. N\u00e3o se trata apenas do oceano: o espa\u00e7o exterior e regi\u00f5es terrestres remotas tamb\u00e9m est\u00e3o sendo apropriados por <em>tech bros<\/em> survivalistas e seus aliados de extrema direita.<\/p>\n<p>Em suas fantasias masculinas e libert\u00e1rias, estes atores s\u00e3o incapazes de compreender sequer os fundamentos b\u00e1sicos da civiliza\u00e7\u00e3o humana: organiza\u00e7\u00e3o social, produ\u00e7\u00e3o coletiva, reprodu\u00e7\u00e3o social e conviv\u00eancia com \u2014 e atrav\u00e9s de \u2014 a natureza. A dizer verdade, adorar\u00edamos que todos esses <em>tech bros<\/em> se reunissem e embarcassem em um cruzeiro permanente em alto mar, ou diretamente se lan\u00e7assem em um foguete rumo a Marte.<\/p>\n<p><strong>Cidades como Veneza, Barcelona ou Dubrovnik est\u00e3o cedendo sob a press\u00e3o do turismo de cruzeiros. Milhares de pessoas desembarcam, inundam as ruas por algumas horas e retornam ao mar. Este n\u00e3o \u00e9 outro exemplo de como o capitalismo mar\u00edtimo n\u00e3o apenas extrai valor em alto mar, mas tamb\u00e9m transforma a vida em terra firme, muitas vezes em detrimento de quem vive l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Totalmente. Existe atualmente uma rica literatura interdisciplinar, em diferentes idiomas, que analisa os planos de \u201cregenera\u00e7\u00e3o\u201d de zonas costeiras associadas \u00e0 expans\u00e3o dos portos de cont\u00eaineres. As ambival\u00eancias e distor\u00e7\u00f5es do capitalismo orientado para o mar tornam-se evidentes na maneira como as costas s\u00e3o valorizadas por promotores imobili\u00e1rios e tur\u00edsticos como para\u00edsos ex\u00f3ticos, \u00e0 margem da sociedade cotidiana \u2014 \u201cmar, areia e sexo\u201d no estere\u00f3tipo popular anglo-sax\u00e3o, ou \u201cpiscinas infinitas\u201d em sua vers\u00e3o mais exclusiva \u2014, ao mesmo tempo que concentram algumas das formas mais atrozes de explora\u00e7\u00e3o laboral.<\/p>\n<p>Referimo-nos aqui a trabalhadores do setor hoteleiro, de lazer e hotelaria, em sua maioria prec\u00e1rios e empregados de forma tempor\u00e1ria ou sazonal. O trabalho de Francesca Savoldi sobre os portos de Val\u00eancia ou do Pireu, por exemplo, documenta as consequ\u00eancias sociais e ecol\u00f3gicas da expans\u00e3o portu\u00e1ria sobre bairros oper\u00e1rios que durante d\u00e9cadas sustentaram essas comunidades portu\u00e1rias.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o haja nada excepcional nestas experi\u00eancias costeiras de explora\u00e7\u00e3o capitalista, especula\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Mas existe um contraste particularmente intenso entre a forma e a apar\u00eancia destas paisagens, uma tens\u00e3o que a liminaridade terrestre da costa n\u00e3o faz sen\u00e3o acentuar.<\/p>\n<p>Uma transi\u00e7\u00e3o verdadeiramente verde \u2014 uma que priorize as necessidades humanas acima da acumula\u00e7\u00e3o de capital \u2014 provavelmente exigiria formas de produ\u00e7\u00e3o e consumo mais localizadas, especialmente em termos de energia renov\u00e1vel. No entanto, vivemos em um mundo profundamente moldado pelas vastas redes log\u00edsticas e tecnol\u00f3gicas constru\u00eddas pelo capitalismo, em particular atrav\u00e9s do espa\u00e7o mar\u00edtimo.<\/p>\n<p><strong>Neste contexto, \u00e9 poss\u00edvel \u201cdesvincular-se\u201d da f\u00e1brica planet\u00e1ria sem cair no isolacionismo ou na austeridade? Como poderia ser constru\u00eddo um sistema de distribui\u00e7\u00e3o coletiva e planejamento democr\u00e1tico, globalmente conectado mas p\u00f3s-f\u00f3ssil?<\/strong><\/p>\n<p>Bem, essa n\u00e3o \u00e9 a hip\u00f3tese comunista? Como seria um cont\u00eainer comunista? N\u00e3o vemos nenhum benef\u00edcio real em uma desvincula\u00e7\u00e3o aut\u00e1rquica da economia mundial; h\u00e1 pouqu\u00edssimos exemplos hist\u00f3ricos disso que nos pare\u00e7am atraentes. Mas existem formas de socializar e reutilizar a log\u00edstica e a infraestrutura capitalistas para satisfazer necessidades mais democr\u00e1ticas. Um mundo p\u00f3s-capitalista, presumivelmente, continuar\u00e1 precisando comercializar medicamentos e tecnologia, e querer\u00e1 facilitar a livre mobilidade para o trabalho e o lazer.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, ent\u00e3o, passa a ser uma quest\u00e3o de escala e poder pol\u00edtico: qual \u00e9 a escala mais eficaz para socializar a distribui\u00e7\u00e3o coletiva? Regional, entre cidades, nacional, macrorregional? Toda sociedade que aspire a uma democracia significativa ter\u00e1 que consumir coletivamente menos e redistribuir mais.<\/p>\n<p>Da mesma forma, os tempos ser\u00e3o distintos: viajar de trem ou de navio pode ser mais lento que voar, mas isso abre a possibilidade de viver, trabalhar e desfrutar de formas radicalmente distintas. Existem maneiras de prefigurar esse mundo, por exemplo, por meio de uma semana laboral de quatro dias, ou transformando profundamente as cadeias de suprimentos de alimentos e os padr\u00f5es de consumo nas grandes cidades do Norte Global.<\/p>\n<p>Mas estas devem ser mudan\u00e7as estruturais e duradouras em nossas rotinas cotidianas, e isso s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel com um amplo respaldo popular, que por sua vez requer organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e poder democr\u00e1tico. O mundo mar\u00edtimo, em muitos aspectos, \u00e9 simplesmente um conduto ou um palco: n\u00e3o a causa dos desequil\u00edbrios de poder e das lutas que os acompanham.<\/p>\n<p><strong>Embora escrito por economistas, <em>O capitalismo e o mar<\/em> est\u00e1 impregnado de literatura, cultura e at\u00e9 mesmo poesia. Foi um desafio integrar esses elementos em um campo acad\u00eamico que costuma ser r\u00edgido? Ou foi uma aposta necess\u00e1ria para captar a profundidade pol\u00edtica e simb\u00f3lica do mar?<\/strong><\/p>\n<p>Provavelmente um pouco de ambas as coisas. Nenhum de n\u00f3s dois tem forma\u00e7\u00e3o em estudos liter\u00e1rios ou culturais, ent\u00e3o as refer\u00eancias mais est\u00e9ticas do livro buscavam, por um lado, aliviar o texto e, por outro, mostrar at\u00e9 que ponto o mar \u2014 e as m\u00faltiplas formas humanas e naturais que transporta e cont\u00e9m \u2014 esteve profundamente arraigado na cultura de diferentes sociedades<\/p>\n<p>Nosso objetivo era dar vida ao mar como um espa\u00e7o socio-natural carregado de vitalidade, dinamismo e, \u00e9 claro, crueldade e barb\u00e1rie: tudo aquilo presente na experi\u00eancia humana que, em nossa opini\u00e3o, se refrata de forma particular atrav\u00e9s do poder espec\u00edfico do capitalismo.<\/p>\n<p>O mar tem sido, dentro e fora do capitalismo, uma fonte potente de mitos, linguagem, narrativa, can\u00e7\u00f5es, m\u00fasica e poesia. Interessava-nos especialmente sublinhar o lugar da fic\u00e7\u00e3o, do cr\u00e9dito, das utopias e da fantasia no desenvolvimento capitalista atrav\u00e9s do mar: n\u00e3o para denunci\u00e1-las como meras ilus\u00f5es ou encobrimentos, mas para assinalar que os imagin\u00e1rios mar\u00edtimos tamb\u00e9m podem ser distor\u00e7\u00f5es materiais e concretas de uma realidade vivida em e atrav\u00e9s dos oceanos.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Mares, caixas pretas da explora\u00e7\u00e3o capitalista appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/politica\/2025\/11\/lula-celebra-retirada-de-tarifas-pelos-eua-e-diz-que-sinaliza-respeito\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula celebra retirada de tarifas pelos EUA e diz q...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fuvest-divulga-2a-convocacao-da-lista-de-espera-no-dia-10-de-marco\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Alunos_FUVEST_Foto-Cecilia-Bastos_USP-Imagens-14-e1765828102764-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fuvest divulga 2\u00aa convoca\u00e7\u00e3o da Lista de Espera no...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/sexta-feira-santa-e-feriado-nacional-confira-o-que-abre-e-fecha\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Sexta-feira Santa \u00e9 feriado nacional? 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Opacos aos olhos da sociedade, distantes da regula\u00e7\u00e3o, tornam-se espa\u00e7os perfeitos para a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do trabalho, da pesca e do turismo. Superar o sistema exige disput\u00e1-los<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/mares-caixas-pretas-da-exploracao-capitalista\/\">Mares, caixas pretas da explora\u00e7\u00e3o capitalista<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":53259,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6188,5511,20530,5836,20531,3905,20532,20533,20534,1478,1232],"tags":[],"class_list":["post-53258","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alem-da-mercadoria","category-capa","category-cruzeiros-de-luxo","category-exploracao-do-trabalho","category-fluxo-de-mercadorias","category-globalizacao","category-o-capitalismo-e-o-mar","category-ocenos","category-offshore","category-precarizacao-do-trabalho","category-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53258","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53258"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53258\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53259"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}