{"id":53491,"date":"2025-09-19T18:36:52","date_gmt":"2025-09-19T21:36:52","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-entender-o-avesso-de-marx\/"},"modified":"2025-09-19T18:36:52","modified_gmt":"2025-09-19T21:36:52","slug":"para-entender-o-avesso-de-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/para-entender-o-avesso-de-marx\/","title":{"rendered":"Para entender o avesso de Marx"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"600\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2019-04-07-at-104101.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2019-04-07-at-104101.jpeg 1000w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2019-04-07-at-10.41.01-300x180.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2019-04-07-at-10.41.01-768x461.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\"><figcaption>Arte: Esquerda Di\u00e1rio<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>T\u00edtulo original: <strong>Marx Revelado:<\/strong> <strong>Conversa filos\u00f3fica por um progressismo de verdade<\/strong><\/p>\n<p><em>O moralismo \u00e9 um sinal de fraqueza da<\/em><br \/><em>Esquerda, de sua dilui\u00e7\u00e3o em humanitarismo.<\/em><br \/>Fraser &amp; Jaeggi, <em>Capitalism<\/em>, 2018, p. 208<\/p>\n<p><strong>1 Marx filos\u00f3fico: humanista, especulativo, metaf\u00edsico?<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-GERA-17.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-GERA-17.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Quando at\u00e9 a Teoria Cr\u00edtica alem\u00e3, a mais recente, acha que cabe esse alerta (acima), embora n\u00e3o o entenda nem explore, \u00e9 sinal de que podemos estar diante de um <em>problema grave<\/em>. Sen\u00e3o vejamos. O que poderia ser uma tarefa relevante para a filosofia no Brasil, hoje? Oferecer uma decifra\u00e7\u00e3o de Marx, principalmente de sua <em>normatividade<\/em>, dada a grande influ\u00eancia que ele segue tendo entre n\u00f3s, influ\u00eancia t\u00e3o mal-entendida quanto largamente difundida, at\u00e9 para muito al\u00e9m do que normalmente se concebe como \u201cMarx\u201d. Pela en\u00e9sima vez, mas agora <em>de modo inteiramente outro<\/em>, o que \u00e9 o pensamento de Marx? O que de fato diz e prega? O que sistematicamente esconde? Sobre que <em>bases filos\u00f3ficas<\/em> e <em>escolhas conceituais<\/em>, sobre que <em>met\u00e1foras<\/em> e <em>narrativas<\/em>, o pensamento dele <em>realmente<\/em> se constr\u00f3i? <em>O que est\u00e1 no \u201cavesso\u201d do pensamento de Marx<\/em>, avesso porque acompanha, sem que se perceba, suas conclus\u00f5es mais sedutoras, que seguem sendo repetidas sem mais?<\/p>\n<p>No livro <em>O Avesso de Marx<\/em>,<sup>1<\/sup> me proponho <em>mostrar <\/em>e <em>problematizar<\/em> esse lado de seu pensamento, de uma maneira que mesmo o leitor n\u00e3o especializado possa entender, e chegar a suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es, com conhecimento de causa. O que \u00e9, no m\u00ednimo, uma maneira de \u201cdesnaturalizar\u201d o pensamento de nosso fil\u00f3sofo, e de melhor explorar seu argumento, seu dito<em> materialismo hist\u00f3rico<\/em>. Uma maneira de mostrar seus <em>verdadeiros pressupostos normativos<\/em>, frequentemente ignorados como tais, e de avaliar melhor suas<em> implica\u00e7\u00f5es<\/em>, boas ou m\u00e1s, inclusive e principalmente, as mais <em>pr\u00e1ticas<\/em>, <em>pol\u00edticas<\/em>. E da\u00ed poder ter uma ideia mais clara do que fazer com Marx, ou a partir dele, ou de como partir dele para coisa melhor, com mais clareza. Por a\u00ed o\/a leitor\/a pode tamb\u00e9m avan\u00e7ar em sua pr\u00f3pria <em>compreens\u00e3o ou compet\u00eancia filos\u00f3fica mais geral<\/em>, na \u00e1rea do pensamento dito cr\u00edtico, social e pol\u00edtico, de orienta\u00e7\u00e3o transformadora.<\/p>\n<p><em>O Avesso de Marx<\/em>, a cuja Introdu\u00e7\u00e3o volto aqui, quer dar a quem o l\u00ea, n\u00e3o s\u00f3 uma maior liberdade de pensamento com rela\u00e7\u00e3o a Marx, mas tamb\u00e9m, com isso, algumas pistas filos\u00f3ficas de abertura ao real, social e pol\u00edtico, como este pode se apresentar melhor \u00e0 sua compreens\u00e3o e, logo, interven\u00e7\u00e3o. O livro apresenta o assunto \u201cMarx\u201d <em>de uma outra maneira<\/em>, mas tamb\u00e9m apresentar <em>a <\/em>filosofia em geral como pensamento do tempo, e como <em>conversa\u00e7\u00e3o<\/em>, para nela introduzir o leitor. Por fim, com a exposi\u00e7\u00e3o de seu <em>avesso<\/em>, o livro visa encaminhar a quest\u00e3o de com quanto ficamos ou quanto reelaboramos de Marx, para tomar o lugar de um \u201cxarope humanista\u201d, supostamente de esquerda, dos nossos dias, prol\u00edfico no Brasil, na verdade deslocado de qualquer consequ\u00eancia pol\u00edtica de transforma\u00e7\u00e3o real mais efetiva, do pa\u00eds, pelo menos de um ponto de vista de povo.<\/p>\n<p>Posso adiantar que, com essa preocupa\u00e7\u00e3o, exponho, de Marx, de modo digesto, seu <em>lado metaf\u00edsico<\/em>, <em>religioso<\/em>, at\u00e9 <em>m\u00edstico<\/em>, e, em rela\u00e7\u00e3o a isso, problemas com aspectos filos\u00f3ficos centrais de seu pensamento, como <em>essencialismo<\/em>, <em>substancialismo<\/em>, <em>teleologia<\/em> etc. Nisso tudo, trato de chamar a aten\u00e7\u00e3o para o que podemos chamar de seu \u201chumanismo social-transcendental\u201d, e de sua \u201chist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o\u201d, como fundamentos de sua Cr\u00edtica do Capitalismo e do Mundo. S\u00e3o elementos que t\u00eam a ver principalmente com seu <em>lado prescritivo<\/em>, isto \u00e9, com seus esfor\u00e7os por estabelecer um <em>fundamento normativo forte<\/em> para seu Comunismo. Coisa que ele faz atrav\u00e9s de uma mistura engenhosa do pensamento do comunit\u00e1rio-amoroso Ludwig Feuerbach, com o do hist\u00f3rico-dial\u00e9tico Georg Hegel, espinosanamente corrigido, ambos por oposi\u00e7\u00e3o ao subjetivismo e individualismo modernos. E em oposi\u00e7\u00e3o a mais coisas, em especial ao que Marx entende como a consequente hipostasia\u00e7\u00e3o do Mundo Humano, que acompanharia esses dois v\u00edcios modernos, hipostasia\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a um suposto sujeito humano plenamente social, a se realizar, tal como ele o concebe, no Comunismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se impressionem a cara leitora, o caro leitor, por\u00e9m, com esses termos e refer\u00eancias filos\u00f3ficas, nem com o radicalismo da nossa tese. Voc\u00ea pode passar sem um dom\u00ednio pr\u00e9vio dessas coisas, porque o que fazemos no livro \u00e9 <em>mostrar Marx diretamente <\/em><em>no seu texto<\/em>, j\u00e1 que meras cita\u00e7\u00f5es ou interpreta\u00e7\u00f5es \u201cexteriores\u201d, dele, d\u00e3o apenas em infind\u00e1veis controv\u00e9rsias, sem qualquer proveito, para qualquer lado. E, j\u00e1 que se trata de <em>sua filosofia<\/em>, junto com seu texto, partimos da <em>disputa filos\u00f3fica<\/em>, formadora, em que nosso Autor efetivamente se engaja. Partimos do que ele mesmo diz e formula <em>de filos\u00f3fico<\/em>, nesse movimento, tudo isso numa conversa\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica da qual o leitor pode se sentir participante. Pois n\u00e3o creio que exista na filosofia suporte para um <em>Ponto de Vista Superior<\/em>, para al\u00e9m do que \u00e9, em princ\u00edpio, acess\u00edvel \u00e0 compreens\u00e3o de qualquer ser humano, particularmente no campo da chamada \u201cfilosofia pr\u00e1tica\u201d, isto \u00e9, no terreno da <em>orienta\u00e7\u00e3o do agir e do fazer<\/em>.<\/p>\n<p>Pois fazemos tudo isso, como j\u00e1 sugeri, com o objetivo de liberar uma melhor compreens\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o, frente \u00e0 nossa realidade, com vistas ao desenvolvimento de <em>um melhor progressismo democr\u00e1tico entre n\u00f3s<\/em>, n\u00e3o doutrin\u00e1rio, mais transformador, em meio a <em>um mundo materialmente t\u00e3o mudado<\/em>, e frente a <em>um contexto t\u00e3o particular como o brasileiro e o do mundo em nossos dias<\/em>. O que, para mim, cobra, ao final, o desenvolvimento de <em>uma elabora\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica pr\u00f3pria<\/em>, melhor do que a mera repeti\u00e7\u00e3o de Marx, e melhor do que sua variada descend\u00eancia \u201ccr\u00edtica\u201d tem podido at\u00e9 aqui oferecer.<\/p>\n<p>Certamente poder\u00edamos entender que interessa mais <em>o estado do pensamento<\/em> filos\u00f3fico e te\u00f3rico, cr\u00edtico ou n\u00e3o cr\u00edtico, <em>dos nossos <\/em><em>dias<\/em>, em rela\u00e7\u00e3o ao social, \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 cultura, aquele associado ao desenvolvimento democr\u00e1tico de nossos arranjos sociais, um pensamento dito de esquerda ou progressista. Mas \u00e9 sobretudo <em>em rela\u00e7\u00e3o a tal estado<\/em> que Marx mais nos interessa, no caso a dimens\u00e3o filos\u00f3fica dos seus fundamentos de alcance normativo, que geralmente n\u00e3o \u00e9 examinada para al\u00e9m de uma perspectiva dogm\u00e1tica ou ing\u00eanua. E nos interessa tamb\u00e9m porque o pensamento dele se prolonga, nos nossos dias, numa <em>vasta heran\u00e7a te\u00f3rica e filos\u00f3fica<\/em>, al\u00e9m de em suas deriva\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, supostamente pol\u00edticas, muito difundidas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/VENETA-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/VENETA-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/VENETA-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>2 Difus\u00e3o e recalque, degenera\u00e7\u00e3o e regenera\u00e7\u00e3o \u2013 de Marx<\/strong><\/p>\n<p>Para come\u00e7o de conversa, admitamos que, quanto a sua influ\u00eancia e difus\u00e3o, \u201cMarx\u201d \u00e9 muito mais do que simplesmente o Autor, e que este n\u00e3o representa apenas uma cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, mas uma verdadeira cr\u00edtica da Civiliza\u00e7\u00e3o e da Modernidade. Uma cr\u00edtica que, \u201cno fundo\u201d, segue tendo praticamente o monop\u00f3lio do <em>pensamento social radical<\/em>, de sua <em>normatividade cr\u00edtica<\/em>, e do que \u00e9 considerado como <em>anti-capitalismo<\/em>, <em>anti-domina\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>anti-explora\u00e7\u00e3o<\/em> nos nossos dias. Marx aparece como <em>esp\u00edrito<\/em> e <em>espectro<\/em> da esquerda em geral, ainda a do nosso tempo, e mesmo, mais amplamente, como o ponto de vista do \u201chumano\u201d, \u201chumanista\u201d, \u201chumanit\u00e1rio\u201d, \u201ccomunit\u00e1rio\u201d, <em>em sua forma <\/em><em>mais acabada<\/em>. Ou, no limite, aparece simplesmente como o <em>pensamento do Bem<\/em>, quando se quer resolver o Bem em uma quest\u00e3o de conhecimento e teoria, em termos de posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica. Ultimamente, entre n\u00f3s, aparece at\u00e9 como a suposta base conceitual de uma atitude de <em>Amor<\/em>, em contraposi\u00e7\u00e3o ao <em>ego\u00edsmo<\/em> e \u00e0 <em>maldade<\/em> do Mundo.<\/p>\n<p>Assim, Marx, como esp\u00edrito e como espectro, est\u00e1 em quase toda parte, at\u00e9 inconscientemente ecoado, por orelhada e por adivinha\u00e7\u00e3o, com larga margem de ignor\u00e2ncia. E \u00e9, al\u00e9m disso, idolatrado e edulcorado, ao final deturpado e empobrecido. Marx vive desse modo em vagas e vogas cr\u00edticas \u2013 na cultura, na academia, na vida intelectual, na vida pol\u00edtica e na movimenta\u00e7\u00e3o social que contribui para articular, n\u00e3o importando a queda do muro de Berlim e o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. H\u00e1 poucos pensadores t\u00e3o geniais e influentes como ele, se \u00e9 que h\u00e1 algum, que possa presidir, sozinho, um paradigma inteiro, como sin\u00f4nimo abrangente de Cr\u00edtica, de Ideal, de Utopia, que como tal vige e se desdobra em infinitas deriva\u00e7\u00f5es. N\u00e3o admira que acabe canonizado.<\/p>\n<p>Nosso comunista, assim, n\u00e3o preside s\u00f3 o marxismo ou marxismos, n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no pensamento de partidos de esquerda ou de suas fac\u00e7\u00f5es internas pretensamente mais radicais, nem apenas no pensamento de certos movimentos sociais reivindicat\u00f3rios mais tradicionais. Ele est\u00e1 ainda, por exemplo, com adendos comunal-altru\u00edstas, tamb\u00e9m anti-modernos, de proced\u00eancias outras ou n\u00e3o t\u00e3o outras, na teologia e na filosofia latino-americanas \u201cda liberta\u00e7\u00e3o\u201d. Via Georg Luk\u00e1cs e atrav\u00e9s de Theodor Adorno, est\u00e1 na teoria cr\u00edtica da Escola de Frankfurt, at\u00e9 os nossos dias. Por fim, particularmente no Brasil, est\u00e1, na chamada \u201cesquerda hegem\u00f4nica\u201d, num certo cruzamento que inclui Marxismo e Catolicismo, este \u00faltimo por suas hist\u00f3ricas inclina\u00e7\u00f5es antimodernas e anticapitalistas, comunais e hier\u00e1rquicas.<\/p>\n<p>O autor de <em>O<\/em> <em>Capital<\/em> est\u00e1 presente em tudo isso, em \u00faltima an\u00e1lise, por seus <em>contornos ideal-normativos<\/em>, por sua <em>dimens\u00e3o cr\u00edtico-social<\/em>, <em>humanista<\/em>, que persevera em sedutoras met\u00e1foras de interpreta\u00e7\u00e3o, suas ou dele derivadas, como aliena\u00e7\u00e3o, fetichismo, coisifica\u00e7\u00e3o, trabalho vivo, pr\u00e9-hist\u00f3ria do homem, reino da liberdade etc. Como tamb\u00e9m persevera no reiterado binarismo de tantos discursos, como explorador-explorado, dominante-dominado, opressor-oprimido, hoje esgrimido por tanta gente a torto e a direito. Nessa linha, por extens\u00e3o, passado por algum Nietzsche e Heidegger, \u201cMarx\u201d seria tamb\u00e9m a chamada \u201cteoria francesa\u201d, p\u00f3s-estruturalista, entre p\u00f3s- e neo-marxista, entretanto linguoc\u00eantrica, pretensamente at\u00e9 mais radical do que Marx, e (essa \u00e9 sempre a pedra de toque) supostamente n\u00e3o menos <em>anticapitalista<\/em>.<sup>2<\/sup> Esse \u201cMarx\u201d meio subterr\u00e2neo vem a ser agora, repetindo-se como farsa, \u201canti-moderno\u201d, \u201canti-ocidental\u201d, \u201canti-branco\u201d, e o que se mais queira de \u201canti-\u201c, que o \u201cpensamento do negativo\u201d ainda impera no campo dito cr\u00edtico quase que inteiro.<\/p>\n<p>Como sin\u00f4nimo de <em>cr\u00edtica e den\u00fancia sempre estruturais<\/em>, nas Ci\u00eancias Humanas e nas Humanidades em geral, Marx \u00e9, para o bem ou para o mal, o que veio a se denominar de \u201cteoria\u201d, termo agora seguido de todo tipo de adjetivos particularizantes, para cada poss\u00edvel discrimina\u00e7\u00e3o\/polariza\u00e7\u00e3o\/vitima\u00e7\u00e3o, bin\u00e1ria, particular, tomada justamente como \u201cestrutural\u201d. Disso resulta um pensamento de fragmenta\u00e7\u00e3o do social em infindas \u201copress\u00f5es\u201d e em seus respectivos \u201cproletariados\u201d, multiplic\u00e1veis <em>ad infinitum<\/em>, no prolongamento do Marx tradicional, classista, compondo um ampl\u00edssimo campo, apelidado de \u201cMarxismo Cultural\u201d. Marx transparece no \u201cpoliticamente correto\u201d, na reforma cr\u00edtica da linguagem, num novo \u201crousseau\u00edsmo\u201d como idealiza\u00e7\u00e3o das sociedades ditas primitivas (sem Estado, sem meios t\u00e9cnicos). Transparece numa idealiza\u00e7\u00e3o do \u201ctradicional\u201d, do \u201cn\u00e3o-moderno\u201d em geral \u2013 isso tudo em modos de pensamento que sempre pretendem ter base hist\u00f3rica e alcance pol\u00edtico e social radical. Pois, fragmentadas e diversas como sejam, todas essas supostas deriva\u00e7\u00f5es de Marx se imaginam igualmente opostas, em \u00faltima an\u00e1lise, a uma mesma figura, de sentido universal: o Opressor, o n\u00e3o-Humano, o Inumano, o Mal \u2013 como Capitalismo.<\/p>\n<p>Mas por que toda essa decomposi\u00e7\u00e3o\/prolifera\u00e7\u00e3o \u201canticapitalista\u201d, cripto-humanista, at\u00e9 <em>piedosa<\/em>, <em>moralista<\/em>, cujos eventuais v\u00edcios podem j\u00e1 estar em Marx? Porque o marxismo tornou-se hoje um ponto de vista <em>sem materialidade<\/em> e <em>sem sujeito geral ou universal<\/em>, por base social real, da\u00ed resultando num radicalismo em grande medida vazio, discursivo, expresso em termos dominantemente <em>morais<\/em>, basicamente na pouco marxiana linguagem dos \u201c<em>direitos<\/em>\u201d. O materialismo hist\u00f3rico de Marx, entretanto, registre-se, sempre sustentou uma perspectiva geral, para os seres humanos, de afirma\u00e7\u00e3o e exuber\u00e2ncia, francamente material e corp\u00f3rea. E sempre foi ao seu modo contra a <em>degrada\u00e7\u00e3o moralista<\/em> do pensamento cr\u00edtico, como advers\u00e1rio hist\u00f3rico que nosso Autor foi do chamado \u201csocialismo verdadeiro\u201d, alem\u00e3o, e, do \u201ccomunismo crist\u00e3o\u201d, amoroso e abnegado, do seu tempo. E foi advers\u00e1rio por causa das consequ\u00eancias pol\u00edticas desses dois e mais, como deixa muito claro, por exemplo, no <em>Manifesto Comunista<\/em> e na <em>Ideologia Alem\u00e3<\/em>. Podemos dizer, em termos contempor\u00e2neos, que Marx sempre se mostrou avesso a <em>pobrismos<\/em>, <em>vitimismos<\/em>, <em>migalhismos<\/em>, a <em>assistencialismos<\/em> estatais e <em>outorgas de direitos<\/em> tutelares, pouco ou nada transformadores. Avesso a posi\u00e7\u00f5es <em>sem imagina\u00e7\u00e3o<\/em> para mais nada, para al\u00e9m de serem apenas \u201chumanizantes\u201d, no mais limitado sentido.<\/p>\n<p><strong>3 Um materialismo pr\u00e1tico-produtivo, em Marx e al\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p>O lado exuberante e afirmativo do <em>humanismo de Marx<\/em>, embora ainda em \u00faltima an\u00e1lise \u201ccr\u00edtico-negativo\u201d, aparece, em sua teoria, dos mais variados modos. O <em>proletariado<\/em> para ele n\u00e3o \u00e9 tanto uma v\u00edtima quanto uma for\u00e7a\/ag\u00eancia nova, vigorosa, transformadora, em ascens\u00e3o, movida por um \u201cinteresse particular\u201d, ao final universaliz\u00e1vel. O <em>trabalho<\/em>, como \u201catividade gen\u00e9rica\u201d dos seres humanos, por seu lado, para Marx, deve encontrar condi\u00e7\u00f5es\/rela\u00e7\u00f5es em que possa desenvolver as dimens\u00f5es de express\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o e liberdade, tamb\u00e9m de enriquecimento, que lhe cabem, frustradas nas condi\u00e7\u00f5es capitalistas de assalariamento. E a principal <em>for\u00e7a produtiva<\/em> que uma verdadeira transforma\u00e7\u00e3o social deve <em>liberar<\/em>, por via de novas rela\u00e7\u00f5es de trabalho, de livre acesso a meios materiais, s\u00e3o para Marx, em primeiro lugar, os pr\u00f3prios produtores, seres humanos comuns, com suas compet\u00eancias e potencialidades. A express\u00e3o \u201cfor\u00e7as produtivas\u201d, ali\u00e1s, aparece em outros pensadores do s\u00e9c. XIX, Nietzsche por exemplo, com a conota\u00e7\u00e3o, vitalista, de for\u00e7a criadora, exuberante, afirmativa.<\/p>\n<p>O problema, ainda assim, \u00e9 que, se em Marx os trabalhadores seriam os <em>autores<\/em> de sua pr\u00f3pria <em>emancipa\u00e7\u00e3o<\/em> (coisa que o marxismo n\u00e3o assume t\u00e3o consistentemente), o <em>conte\u00fado<\/em> dessa emancipa\u00e7\u00e3o est\u00e1 dado por cima de suas cabe\u00e7as. Est\u00e1 dado pela Teoria, que, como L\u00eanin reconhece com sua caracter\u00edstica franqueza, \u00e9 coisa de \u201cintelectuais burgueses\u201d. Da\u00ed, ali\u00e1s, que o Partido (Comunista), segundo nosso \u201ccorifeu da filosofia da pr\u00e1xis\u201d (L\u00eanin, para Gramsci), fica na posi\u00e7\u00e3o de \u201cinstrutor, chefe, guia\u201d, e da\u00ed impositor de \u201cuma unidade absoluta de Vontade\u201d, como \u201c<em>subordina\u00e7\u00e3o de milhares \u00e0 vontade de Um s\u00f3<\/em>\u201d. Pois, no fim de contas, o que se visa e mais interessa, no Marxismo, \u00e9 a supress\u00e3o da \u201c<em>subordina\u00e7\u00e3o escravizadora dos indiv\u00edduos \u00e0 divis\u00e3o do trabalho<\/em>\u201d (Marx, na Cr\u00edtica ao Programa de Gotha), tal supress\u00e3o representando sua verdadeira autodetermina\u00e7\u00e3o e liberdade.<\/p>\n<p><strong>*<\/strong><\/p>\n<p>Depois disso, com respeito \u00e0 parte propositiva, renovada, a que deve conduzir minha elabora\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica pr\u00f3pria, adianto que \u00e9 o que temos desenvolvido como um \u201c<em>ponto de vista materialista pr\u00e1tico-po\u00e9tico<\/em>\u201d, para o qual ofere\u00e7o refer\u00eancias no percurso do <em>O Avesso de Marx<\/em>, em seus v\u00e1rios passos, sem que esse seja o foco do livro. De todo modo, com respeito a suas consequ\u00eancias pol\u00edticas, que j\u00e1 deixei claro constituem a <em>motiva\u00e7\u00e3o<\/em> relevante desse livro, tal ponto de vista pode ser entendido, resumidamente, como uma <em>reconstru\u00e7\u00e3o de Marx<\/em>, de sentido pr\u00e1tico e atualizador. Desde que n\u00e3o se entenda com isso que tal ponto de vista tenha a ver, p. ex., com a \u201ca\u00e7\u00e3o comunicativa\u201d e a \u201cdemocracia deliberativa\u201d de Habermas, nem com \u201csocial-democracia\u201d, nem muito menos com um \u201cneoliberalismo social\u201d, complementado por <em>pol\u00edticas compensat\u00f3rias<\/em> ou <em>identit\u00e1rias<\/em>. Desde que tampouco, finalmente, se entenda que tal ponto de vista tenha a ver com alguma f\u00f3rmula normativa a-priori e universalista, a mesma para todos os contextos ou conjunturas nacionais, em todos os cantos do mundo.<\/p>\n<p>Em vez disso, nosso \u201c<em>ponto de vista materialista pr\u00e1tico-produtivo<\/em>\u201d, o de uma \u201c<em>filosofia da pr\u00e1tica como poiesis<\/em>\u201d, tem a ver com uma no\u00e7\u00e3o de democracia e de cidadania <em>materiais<\/em>, n\u00e3o apenas <em>formais<\/em>. Como <em>acesso<\/em>, individual e coletivo, a <em>meios<\/em>, <em>recursos e compet\u00eancias<\/em>, <em>produtivos<\/em>, junto com uma ambi\u00eancia de <em>arranjos institucionais e materiais<\/em>, particulares e gerais, que lhe deem suporte. E isso por contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00e1rias formas de <em>escamoteamento dessa luta material<\/em>, como aquelas patrocinadas pelos <em>linguocentrismo<\/em> ou <em>discursivismo<\/em> que se imaginam radicalmente \u201ccr\u00edticos\u201d. \u00c0s vezes tamb\u00e9m patrocinadas pelo pr\u00f3prio marxismo e socialismo tradicionais, fixados fora do tempo, enquanto \u201ca Revolu\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o vem. Tal como Marx, tamb\u00e9m acho que todos esses problemas \u2013 pol\u00edticos \u2013 envolvem uma incontorn\u00e1vel dimens\u00e3o filos\u00f3fica, s\u00f3 que, nesse caso, no <em>Avesso<\/em>, trato de \u201cdespreg\u00e1-la\u201d, de sua obra, pela cr\u00edtica de v\u00edcios que seu pr\u00f3prio pensamento envolve, embora mantendo bastante de seu \u201cesp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p>Voltando, assim, ao come\u00e7o: Por onde pegamos o <em>fundo metaf\u00edsico e especulativo<\/em>, <em>normativo<\/em>, de Marx, no <em>O Avesso de Marx<\/em>? Pelos ditos e n\u00e3o-ditos <em>de seus pr\u00f3prios textos<\/em>, em rela\u00e7\u00e3o aos desafios reais do contexto te\u00f3rico a que eles tentam responder. Tratamos de conduzir nosso fil\u00f3sofo ao seu pr\u00f3prio texto e, junto com isso, reconduzi-lo a seu <em>contexto filos\u00f3fico formador<\/em>, o que implicar\u00e1 na desmistifica\u00e7\u00e3o de narrativas sobre sua posi\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o aos fil\u00f3sofos de que se distingue. Fazemos isso, em primeiro lugar, por uma <em>leitura cr\u00edtica imanente<\/em>, que chamo de \u201cMarx por ele mesmo\u201d, sem o que a\/o leitor\/a pode n\u00e3o acreditar no que dizemos. E, para tanto, n\u00e3o precisamos de nenhuma \u201cdesconstru\u00e7\u00e3o p\u00f3s-estruturalista\u201d do texto marxiano, mas apenas de um velho e bom conhecimento\/esclarecimento conceitual e hist\u00f3rico-filos\u00f3fico, rigoroso, sobre ele, o que significa uma explora\u00e7\u00e3o minuciosa dos <em>meandros do seu pensamento<\/em>. Precisamos apenas de uma disposi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica e hermen\u00eautica, cr\u00edtica, para explorar suas implica\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas, seus compromissos e pressupostos, seus argumentos, pegando assim seu <em>fundo<\/em> ou <em>avesso<\/em> <em>normativo<\/em>, no detalhe, na sua laboriosa labuta com interlocutores e advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Nisso tudo, n\u00e3o vale guiarmo-nos apenas, acriticamente, pelo que Marx diz de si mesmo, sobre o que representa e faz, nem muito menos, de modo ing\u00eanuo, pelo que ele diz de seus advers\u00e1rios, de suas posi\u00e7\u00f5es, do que eles s\u00e3o e fazem. Para isso n\u00e3o precisamos ver Marx todo, sua obra inteira com a mesma min\u00facia, depois de tomar o suficiente dela para estabelecer o tipo de leitura e de compreens\u00e3o filos\u00f3fica que propomos no livro. Sem nisso esquecer, por exemplo, que Marx <em>converteu-se ao Comunismo<\/em>, como Ideal, por uma <em>via filos\u00f3fica<\/em> (como Engels admite candidamente), <em>antes<\/em> de elaborar seu materialismo hist\u00f3rico ou qualquer cr\u00edtica da economia pol\u00edtica que devessem garantir e cobrar, \u201ccientificamente\u201d, a <em>sustenta\u00e7\u00e3o<\/em> e <em>realiza\u00e7\u00e3o<\/em> daquele.<\/p>\n<p><strong>4 Cr\u00edtica Imanente, do Jovem Marx ao Velho Marx, do <\/strong><em><strong>Capital<\/strong><\/em><\/p>\n<p> Dizem que Marx, depois dos escritos \u201cde juventude\u201d, teria sido pela \u00faltima vez fil\u00f3sofo, para se despedir definitivamente da filosofia, na <em>Ideologia<\/em> <em>Alem\u00e3<\/em>, obra que para uns \u00e9 o texto de sua <em>transi\u00e7\u00e3o<\/em> para a \u201cmaturidade\u201d, mas para a maioria pertence completamente a ela. Essa narrativa da \u201cdespedida da filosofia\u201d, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 verdadeira, pois, como trato de mostrar, Marx segue tamb\u00e9m fil\u00f3sofo, e mesmo \u201chegeliano de esquerda\u201d \u2013 que todos os <em>hegelianos de esquerda<\/em> s\u00e3o, ao seu modo e apesar do nome, <em>anti-hegelianos<\/em>. Marx segue sendo fil\u00f3sofo por todo o resto de sua obra, no <em>Manifesto<\/em>, nos <em>Grundrisse<\/em>, na sua <em>Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em> em geral, e no <em>O Capital<\/em> em particular, este \u00faltimo como o coroamento de todo o seu esfor\u00e7o de pensamento.<\/p>\n<p>\u00c9 apenas, por raz\u00f5es did\u00e1ticas, que, no <em>O Avesso<\/em>, eu comece minha leitura \u201ccr\u00edtica-imanente\u201d por aqueles textos em que Marx se bate diretamente com outros pensadores enquanto fil\u00f3sofos. Para em seguida remeter \u00e0s demais obras, em que ele pode n\u00e3o parecer filosofar, nem parecer t\u00e3o expressamente continuar a tomar sua <em>cr\u00edtica do Cristianismo<\/em>, originalmente feuerbachiana, como <em>primeira cr\u00edtica<\/em> e refer\u00eancia fundamental de sua <em>Cr\u00edtica geral<\/em> da Modernidade e do Mundo.<\/p>\n<p>Desde j\u00e1, por\u00e9m, podemos registrar aqui que <em>O Capital<\/em>, n\u00e3o por acaso conhecido no seu tempo como \u201cB\u00edblia do Proletariado\u201d, pode ser entendido como o cap\u00edtulo mais desenvolvido da <em>narrativa materialista-hist\u00f3rica, dial\u00e9tica, de Marx<\/em> (que data de antes), aquele cap\u00edtulo que trata particularmente do Capitalismo. Uma narrativa, o materialismo hist\u00f3rico, segundo a qual este modo de produ\u00e7\u00e3o deve necessariamente desembocar, primeiro, no Socialismo, e, por \u00faltimo, concluindo a \u201cpr\u00e9-hist\u00f3ria\u201d ou \u201chist\u00f3ria natural\u201d do \u201cg\u00eanero humano\u201d, no Comunismo, como nada menos do que passagem do Reino da Necessidade ao Reino da Liberdade (livro 3, cap. XLVIII).<\/p>\n<p> <em>O Capital<\/em> trata, Marx mesmo reconhece, da lei mais geral do <em>movimento<\/em> do Capitalismo, e, em termos l\u00f3gico-dial\u00e9ticos hegelianos, podemos dizer, da <em>passagem<\/em> da Subst\u00e2ncia (Necessidade) a Sujeito (Liberdade). Por um movimento reconstitu\u00eddo por ele atrav\u00e9s de categorias filos\u00f3ficas dial\u00e9ticas, tais como contradi\u00e7\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o determinada, supera\u00e7\u00e3o, media\u00e7\u00e3o, imediatidade etc. N\u00e3o por acaso, para o revolucion\u00e1rio russo Aleksander Hertzen, a dial\u00e9tica \u00e9 a \u201c\u00e1lgebra da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d, e, para L\u00eanin, a <em>Grande L\u00f3gica<\/em> de Hegel, a um s\u00f3 tempo o <em>organon<\/em> (instrumento de conhecimento) e a ontologia de seu Idealismo transcendental, \u00e9 a chave para entender <em>O Capital<\/em>. Chave sem a qual, L\u00eanin conclui, ningu\u00e9m o entendeu nas d\u00e9cadas que antecederam sua pr\u00f3pria leitura dele.<\/p>\n<p>Junto com nossa aten\u00e7\u00e3o ao texto de Marx, como adiantei, empreendo por a\u00ed, no <em>O Avesso de Marx<\/em>, uma \u201crecondu\u00e7\u00e3o\u2019 de nosso Autor ao seu <em>contexto filos\u00f3fico de discuss\u00e3o<\/em> \u2013 aquele da interlocu\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de seu pensamento. Contexto que \u00e9 inicialmente o movimento Jovem Hegeliano, ou Esquerda Hegeliana, em que, na Alemanha, em meio ao colapso do Cristianismo (ortodoxo), entre pensadores (como Goethe e Herder) e fil\u00f3sofos (como Hegel, Strauss e Feuerbach), disputa-se o sentido do Moderno e do Humano verdadeiro. E se faz isso em torno de ideias como autonomia, autoconsci\u00eancia, g\u00eanero humano, cria\u00e7\u00e3o etc., cujas interpreta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o interessassem ao Comunismo nosso Autor tratou de exorcizar como \u201cideologia\u201d, isto \u00e9, basicamente, como idealismo subjetivo e como (quase-) religi\u00e3o.<\/p>\n<p>De modo semelhante, mais adiante, <em>na cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>, aquela disputa se d\u00e1 em torno de ideias dominantemente n\u00e3o alem\u00e3s, mas brit\u00e2nicas, que envolvem centralmente o que Marx, no <em>O<\/em> <em>Capital<\/em>, critica como \u201crobinsonada\u201d (isto \u00e9, como individualismo anist\u00f3rico e pr\u00e9-social). E o que ele denuncia como a ilus\u00e3o do <em>fetichismo da mercadoria<\/em> e, mais genericamente, do n\u00edvel da circula\u00e7\u00e3o, isto \u00e9,o n\u00edvel <em>da apar\u00eancia<\/em>, na economia. Tais <em>ilus\u00f5es<\/em> <em>modernas<\/em> correspondem, para Marx, ao \u201cpara\u00edso\u201d da ideologia burguesa, agora inglesa e francesa, o \u201cpara\u00edso\u201d onde imperam o liberalismo, os direitos humanos, o utilitarismo etc. No <em>O<\/em> <em>Capital<\/em>, Marx contrap\u00f5e tal esfera \u201cindividualista\u201d, da <em>apar\u00eancia<\/em>, do emp\u00edrico, do engano, justamente \u00e0 esfera da <em>ess\u00eancia<\/em> (social), de fundo, determinante, em que se dissolveriam aquelas quase-religiosas ilus\u00f5es burguesas e pequeno-burguesas \u2013 <em>ideol\u00f3gicas<\/em>.<\/p>\n<p>Trata-se da esfera em que se dissolveria a Ilus\u00e3o geral, tamb\u00e9m o Cristianismo, como Marx constr\u00f3i e decifra em <em>O<\/em> <em>Capital<\/em>, no que chega a parecer sua preocupa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica central, como uma verdadeira \u201cTeoria do Desconhecimento\u201d de si mesmo dos homens, como se oferece em primeiro lugar no Cristianismo. Com o que podemos ver que o problema para Marx continua sendo a\u00ed o individualismo\/subjetivismo moderno, para n\u00e3o dizer que continua sendo o \u201cSelf\u201d moderno. Ele, entretanto, n\u00e3o vai repetir, no <em>O Capital<\/em>, simplesmente a <em>acusa\u00e7\u00e3o de idealismo hist\u00f3rico<\/em>, que fez aos jovens hegelianos, na <em>Ideologia<\/em>), que, obviamente, ele sabe disso, n\u00e3o encaixaria t\u00e3o bem em economistas e utilitaristas brit\u00e2nicos. Agora, quase ao contr\u00e1rio, Marx vai insistir na acusa\u00e7\u00e3o, a esses novos advers\u00e1rios, economistas, de n\u00e3o serem hegelianamente hist\u00f3ricos, dial\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Assim, depois dos seus acertos cr\u00edticos, inicialmente \u201cfeuerbachianos\u201d, contra Hegel, e, logo, depois, acertos cr\u00edticos \u201chegelianos\u201d, contra o pr\u00f3prio Feuerbach, foram o naturalismo amoralista de Stirner, e o kantismo liberal-republicano de Bauer Bruno, que mais amea\u00e7aram Marx filosoficamente, segundo ele pr\u00f3prio diz, com rela\u00e7\u00e3o a suas no\u00e7\u00f5es, robustas, de comunidade, objetividade, subst\u00e2ncia, ess\u00eancia etc., que seu Comunismo cobra. \u00c9 bem o mesmo materialismo hist\u00f3rico, dial\u00e9tico, entretanto, que Marx levar\u00e1 adiante, com avesso e tudo, no <em>O Capital<\/em>, como j\u00e1 apresentei mais acima, contra a economia pol\u00edtica burguesa. Como uma cr\u00edtica que ainda se p\u00f5e como coextensiva \u00e0 pr\u00f3pria religi\u00e3o, o Cristianismo. \u00c9 tudo isso que fica bem explicado, desdobrado e demostrado no <em>Avesso de Marx<\/em>.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1 Ver meu <em>O Avesso de Marx<\/em>, Ed. Ateli\u00ea de Humanidades, R. J., 2024. Na Ateli\u00ea: https:\/\/ateliedehumanidades.com\/produto\/o-avesso-de-marx-jose-crisostomo-de-souza\/?utm_source=chatgpt.com. Na Amazon: https:\/\/www.amazon.com.br\/avesso-Marx-conversas-filos%C3%B3ficas-filosofia\/dp\/6586972264?utm_source=chatgpt.com\/.<\/p>\n<p>2 Sobre isso, est\u00e1 no prelo nosso Para al\u00e9m de Marx, Foucault, Teoria Cr\u00edtica (Ateli\u00ea de Humanidades, 2025).<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, contribua com um PIX para <strong>outrosquinhentos@outraspalavras.net<\/strong> e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico.<\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Para entender o avesso de Marx appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/abolicionistas-penais-podem-fazer-churrasco-para-comemorar-a-prisao-de-bolsonaro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Abolicionistas penais podem fazer churrasco para c...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/juros-altos-sufocam-a-economia-e-reforcam-a-urgencia-de-democratizar-a-politica-monetaria\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/juros-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Juros altos sufocam a economia e refor\u00e7am a urg\u00eanc...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eduardo-bolsonaro-and-alexandre-ramagem-lose-diplomatic-passports-after-removal-from-office\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Eduardo Bolsonaro and Alexandre Ramagem lose diplo...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/stf-tem-4-votos-a-favor-da-manutencao-da-prisao-do-ex-presidente-collor\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/Collor-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">STF tem 4 votos a favor da manuten\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o do...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes, esquerdas reduzem obra do pensador alem\u00e3o a um moralismo humanit\u00e1rio pouco transformador. E se nos libert\u00e1ssemos de uma leitura dogm\u00e1tica, repetitiva ou de \u201cpromessa de salva\u00e7\u00e3o\u201d para reconstru\u00ed-la de forma mais criativa, como ponto de partida?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/para-entender-o-avesso-de-marx\/\">Para entender o avesso de Marx<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":53492,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[20697,20698,1311,5599,20699,20700,6903,2026,2027],"tags":[],"class_list":["post-53491","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-a-ideologia-alema","category-avesso-de-marx","category-comunismo","category-descolonizacoes","category-economia-politica","category-filosofia-marxista","category-humanismo","category-karl-marx","category-o-capital"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53491","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53491"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53491\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53492"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53491"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}