{"id":53503,"date":"2025-09-19T19:14:54","date_gmt":"2025-09-19T22:14:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/universidade-brasileira-da-euforia-a-penuria\/"},"modified":"2025-09-19T19:14:54","modified_gmt":"2025-09-19T22:14:54","slug":"universidade-brasileira-da-euforia-a-penuria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/universidade-brasileira-da-euforia-a-penuria\/","title":{"rendered":"Universidade brasileira, da euforia \u00e0 pen\u00faria"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"959\" height=\"639\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-13.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-13.jpeg 959w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-13-300x200.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-13-768x512.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-13-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 959px) 100vw, 959px\"><figcaption>Arte: David Plunkert<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>T\u00edtulo original:<br \/><strong>Dilemas do ensino superior brasileiro: entre a expans\u00e3o e o desmonte<\/strong><\/p>\n<h3> <strong>Notas introdut\u00f3rias<\/strong><\/h3>\n<p>No Brasil a concep\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica come\u00e7ou a se consolidar a partir do s\u00e9culo XIX, influenciada, dentre outros fatores, pelas transforma\u00e7\u00f5es sociais decorrentes da transi\u00e7\u00e3o do trabalho escravo para o trabalho livre. As primeiras faculdades surgiram em grandes centros, logo ap\u00f3s a independ\u00eancia, com o objetivo de formar a elite intelectual e pol\u00edtica do pa\u00eds. A exemplo, a Faculdade de Medicina da Bahia, criada em 1808, e as faculdades de Direito de S\u00e3o Paulo e de Recife, de 1827. As universidades, conjunto de faculdades, s\u00f3 seriam criadas a partir do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Hoje em dia, n\u00e3o podemos tratar das condi\u00e7\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o superior sem nos voltarmos a tr\u00eas aspectos. Um primeiro, produto da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior, marcada por um estreito acesso \u00e0 ampla parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira, cen\u00e1rio que veio a se alterar no primeiro quarto do s\u00e9culo XX. Um segundo fator, de progressivo desmonte or\u00e7ament\u00e1rio das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas federais, da qual vamos tratar adiante e um terceiro, paralelo, que se desdobrou das pol\u00edticas de liberaliza\u00e7\u00e3o no fim dos anos 1990, transformando paulatinamente o ensino superior em um grande mercado de diplomas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA--13.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA--13.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-2-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>Expans\u00e3o do acesso<\/strong><\/h3>\n<p>As universidades p\u00fablicas brasileiras se tornaram uma realidade mais ampla para a popula\u00e7\u00e3o com a primeira renova\u00e7\u00e3o do ciclo de governo dos anos 2000, com a reelei\u00e7\u00e3o de Lula (2007-2011), resultado do aumento acelerado de matr\u00edculas na gradua\u00e7\u00e3o, da expans\u00e3o de <em>campi<\/em> no interior do pa\u00eds e do aumento de investimentos em ci\u00eancia e tecnologia. Isto ocorreu por meio da corporifica\u00e7\u00e3o do programa de expans\u00e3o das universidades, o Programa de Apoio a Planos de Reestrutura\u00e7\u00e3o e Expans\u00e3o das Universidades Federais (REUNI) em 2007.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a outra face da expans\u00e3o esteve vinculada aos programas de financiamento dos estudantes na educa\u00e7\u00e3o superior privada: o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) de 1999 e o Programa Universidade para Todos (PROUNI) de 2004. Ambos se constitu\u00edram como formas de cr\u00e9dito estudantil p\u00fablico, ou seja, como porta de entrada para o ensino superior privado, em complemento \u00e0 expans\u00e3o do ensino p\u00fablico federal ent\u00e3o em curso.<\/p>\n<p>Todos os programas, atualmente, t\u00eam como principal crit\u00e9rio de classifica\u00e7\u00e3o o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio, o ENEM, criado em 1998, at\u00e9 ent\u00e3o secund\u00e1rio nos processos seletivos para gradua\u00e7\u00e3o. Isto at\u00e9 2009, quando ent\u00e3o se unificou o ingresso. Para o caso das universidades federais, o ingresso passou a se dar atrav\u00e9s do Sisu. Al\u00e9m da centraliza\u00e7\u00e3o e padroniza\u00e7\u00e3o nacional, o mecanismo colaborou para a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso ao ensino superior.<\/p>\n<p>Posteriormente, em 2012, no sentido de ampliar o acesso, diante das desigualdades presentes na realidade brasileira, a Lei de Cotas foi aprovada, versando sobre a reserva de vagas para estudantes formados em escolas p\u00fablicas e para pessoas pretas, pardas e ind\u00edgenas, num esfor\u00e7o institucional de inser\u00e7\u00e3o de grupos \u00e9tnicos mais presentes na base piramidal social e com os menores \u00edndices de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, qui\u00e7\u00e1 de ensino superior.<\/p>\n<p>Assim, a trajet\u00f3ria recente do ensino superior brasileiro revela um duplo movimento: de um lado, pol\u00edticas p\u00fablicas que abriram as portas da universidade \u00e0 popula\u00e7\u00e3o; de outro, mecanismos de privatiza\u00e7\u00e3o que transformaram a educa\u00e7\u00e3o em ativo mercantil, com institui\u00e7\u00f5es pertencentes a grandes grupos financeiros internacionais e capital aberto em bolsas de valores (Ferreira; Sindeaux, 2024). \u00c9 nesse entrechoque entre expans\u00e3o, desmonte e privatiza\u00e7\u00e3o que se estrutura a reflex\u00e3o deste ensaio, voltada a suscitar a compreens\u00e3o sobre como o ensino superior se reorganizou nas \u00faltimas d\u00e9cadas e quais os efeitos desse processo para a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.<\/p>\n<h3> <strong>A contradi\u00e7\u00e3o entre expans\u00e3o e desmonte<\/strong><\/h3>\n<p>A expans\u00e3o do ensino superior ocorre em paralelo a um desmonte ou, melhor dito, da expans\u00e3o do ensino superior privado, fomentado desde as pol\u00edticas destinadas \u00e0 obten\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito estudantil. Em termos pragm\u00e1ticos, \u00e9 mais simples relegar ao setor privado a tarefa de formar a m\u00e3o-de-obra qualificada do que investir em infraestrutura e recursos humanos que demandam a institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica (Santos, 2018, p. 121).<\/p>\n<p>A esse panorama soma-se a explos\u00e3o da oferta do ensino a dist\u00e2ncia, regulamentado pela Portaria n\u00ba 4.059 de 2004 do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, que substituiu a Portaria n\u00ba 2.253 de 2001, e tratava da oferta de disciplinas na modalidade semipresencial. Posteriormente, foi revogada em 2016 pela Portaria n\u00ba 1.134 que, ao substituir a norma anterior, manteve a possibilidade de oferta de disciplinas a dist\u00e2ncia em cursos presenciais, limitadas a 20% da carga total da grade curricular, mas flexibilizou a exig\u00eancia, ao dispensar que as avalia\u00e7\u00f5es sejam presenciais. Isso valeu para todas as institui\u00e7\u00f5es com ao menos um curso de n\u00edvel superior reconhecido pelo MEC, sejam p\u00fablicas ou privadas.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Ainda que a norma n\u00e3o fa\u00e7a restri\u00e7\u00e3o \u00e0s p\u00fablicas, a modalidade de Educa\u00e7\u00e3o \u00e0 Dist\u00e2ncia (EaD) prosperou entre as institui\u00e7\u00f5es privadas, acentuando-se mais com o per\u00edodo da pandemia de covid-19, entre 2020-2022. O curso com maior incid\u00eancia na modalidade EaD \u00e9 Pedagogia, com 852.476 matr\u00edculas (Brasil, 2024, p. 26). Paradoxo: um curso para exercer um of\u00edcio na sala de aula, n\u00e3o requer, no processo de forma\u00e7\u00e3o, presen\u00e7a em sala de aula\u2026<\/p>\n<p>Conforme o<u> Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior de 2023<\/u>, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep), cerca de tr\u00eas quartos dos estudantes est\u00e3o matriculados em institui\u00e7\u00f5es privadas, ou seja, 75,5% do total. Essa predomin\u00e2ncia acompanha os 87,8% das IES do pa\u00eds que pertencem \u00e0 rede privada e concentram 95,9% das vagas de gradua\u00e7\u00e3o. J\u00e1 as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas re\u00fanem 4,1% das vagas ofertadas e apenas 24,5% dos estudantes \u2013 sendo que, nesse contingente, 65,5% est\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es federais. A modalidade de Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia (EaD) amplia ainda mais a abissal diferen\u00e7a: somente 13,4% dos cursos EaD s\u00e3o p\u00fablicos, contra 80,4% no setor privado. A face precarizada da expans\u00e3o do ensino superior \u00e9 privada, onde se concentra a imensa maioria dos cursos e matr\u00edculas, tanto na modalidade remota quanto na presencial.<\/p>\n<p>Matr\u00edculas em cursos de gradua\u00e7\u00e3o no Brasil por IES (2023)<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"738\" height=\"457\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-1.png 738w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-1-300x186.png 300w\" sizes=\"(max-width: 738px) 100vw, 738px\"><\/figure>\n<p>Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria a partir do Resumo T\u00e9cnico do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior, 2023, p. 26<\/p>\n<p>Com quase 68% de matr\u00edculas, o ensino privado prevalece como maioria. Apesar de que o setor conta com institui\u00e7\u00f5es com ou sem fins lucrativos, a constata\u00e7\u00e3o \u00e9 de que o ingresso preponderante se d\u00e1 mediante contrapartida financeira, o que por si s\u00f3 desconfigura o objetivo final, que deixa de ser o percurso formativo, passando a ser, grosso modo, a mensalidade do curso. Noutra clave, de m\u00e3os dadas com o n\u00famero cada vez maior de matr\u00edculas, o n\u00famero de IES no Brasil dentre os anos 2014 e 2023, mostra uma diferen\u00e7a na quantidade abissal entre p\u00fablico e privado:<\/p>\n<p>Evolu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de Institui\u00e7\u00f5es de Educa\u00e7\u00e3o Superior no Brasil por categoria administrativa (2014-2023)<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"735\" height=\"384\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-2.png 735w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-2-300x157.png 300w\" sizes=\"(max-width: 735px) 100vw, 735px\"><\/figure>\n<p>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria com base no Resumo T\u00e9cnico do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior 2023 (pp 62-67)<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja vis\u00edvel no gr\u00e1fico por conta da escala, de 2014 a 2023, as IES federais passaram de 107 para 121 institui\u00e7\u00f5es, sendo que este n\u00famero engloba 69 unviersidades federais, 1 centro universit\u00e1rio, 10 faculdades e 41 institutos federais e centros federais de educa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica (Brasil, 2024, pp. 10 e 67). Isto n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero desprez\u00edvel em se tratando de pol\u00edtica p\u00fablica e em compara\u00e7\u00e3o com a evolu\u00e7\u00e3o do ensino superior p\u00fablico antes do Reuni. N\u00e3o se pode esquecer, tamb\u00e9m, que a mera quantidade n\u00e3o necessariamente se reflete em melhorias da condi\u00e7\u00e3o do ensino, como a pr\u00f3pria infraestrutura dos campi, tampouco na perman\u00eancia dos estudantes ou na valoriza\u00e7\u00e3o do conhecimento e da pesquisa. Ainda assim, essa dimens\u00e3o quantitativa \u00e9 \u00fatil porque visa comparar a diferen\u00e7a, que salta aos olhos, na expans\u00e3o do ensino superior. No Brasil, o fator preponderante \u00e9 inquestionavelmente privado, n\u00e3o s\u00f3 pela abrang\u00eancia do crescente mercado, mas pela quantidade de pessoas abrangidas por esse modelo, cujo perfil \u00e9 de jovens de baixa renda (Santos, 2018).<\/p>\n<p>O diploma de n\u00edvel superior apresenta-se como fator de atra\u00e7\u00e3o para investimentos privados, em especial no ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, que se consolida como um mercado lucrativo como se viu, somado, evidentemente, \u00e0 custa da precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de ensino-aprendizagem e, por sua consequ\u00eancia, do trabalho docente.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da expans\u00e3o privada reconfigurou o ensino superior em bases quantitativas, mas com efeitos colaterais qualitativos. O diploma tornou-se menos express\u00e3o de um percurso formativo e mais um resultado da capacidade de pagamento. Esse quadro de precariza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, longe de se restringir ao setor privado, incide sobre as universidades p\u00fablicas, que passaram a enfrentar um ciclo de restri\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias severas. \u00c9 nesse ponto que o debate se desloca para a quest\u00e3o financeira das institui\u00e7\u00f5es federais de ensino superior, onde o impacto dos cortes de investimentos se faz sentir de maneira mais dr\u00e1stica no cotidiano do ensino e da pesquisa.<\/p>\n<h3><strong>As universidades p\u00fablicas federais, entre crescimento e pen\u00faria<\/strong><\/h3>\n<p>A expans\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior p\u00fablica no Brasil foi uma euforia que perdeu f\u00f4lego de forma paulatina a partir de 2014, com uma queda de investimentos e de despesas do governo federal direcionado \u00e0s IES.<\/p>\n<p>O desmonte, ap\u00f3s um per\u00edodo de forte expans\u00e3o entre 2004 e 2010, se aprofundou, em \u00faltima an\u00e1lise, como resultado direto dos rumos fiscais tomados com a Emenda Constitucional 95 de 2016, conhecida como \u201cteto de gastos\u201d. Ao congelar o gasto p\u00fablico, a medida relegou a segundo plano a crescente necessidade de manuten\u00e7\u00e3o e de novos investimentos nas universidades federais, decorrente da pr\u00f3pria expans\u00e3o realizada nos anos anteriores. Os investimentos do governo federal (em vermelho, no gr\u00e1fico abaixo) ca\u00edram abruptamente de R$ 6,586 bilh\u00f5es em 2014 para apenas R$ 413 milh\u00f5es em 2021, pen\u00faltimo ano do governo Bolsonaro. Uma redu\u00e7\u00e3o de 93%:<\/p>\n<p>Or\u00e7amento anual das universidades federais (2014-2021)<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"901\" height=\"404\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-3-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-3-1.png 901w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-3-1-300x135.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-3-1-768x344.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 901px) 100vw, 901px\"><\/figure>\n<p>Fonte: In\u00e1cio; Ferreira; Rodrigues, 2024, p. 14<\/p>\n<p>A queda ou, particularmente, a insufici\u00eancia de or\u00e7amento, significa falta de vagas para aplcar a demanda, infraestrutura prec\u00e1ria, evas\u00e3o dos estudantes e perda de capacidade da pesquisa nacional. Como ilustra o gr\u00e1fico, al\u00e9m dos investimentos, tamb\u00e9m as despesas correntes (em cinza) ca\u00edram de R$14,1 bilh\u00f5es em 2014 para R$7 bilh\u00f5es em 2021, sofrendo uma redu\u00e7\u00e3o de praticamente 50%. Essas despesas cobrem gastos de funcionamento, tais como luz, \u00e1gua e limpeza, fundamentais para a manuten\u00e7\u00e3o das IES. Fora isso, o estrangulamento financeiro<\/p>\n<p>est\u00e1 evidenciado no aumento proporcional de gastos com pessoal e encargos, que subiram de 72,8% para 83,3% no mesmo per\u00edodo (embora tenham se reduzido em termos absolutos\u2026), acompanhando a queda geral do or\u00e7amento.<\/p>\n<p><em>Pari passu<\/em> ao sucateamento via redu\u00e7\u00e3o de verbas do governo federal, para se manter, as IES federais passaram a buscar outras fontes de financiamento. Foram muitas vezes salvas na corda bamba pelas emendas parlamentares a fim de sustentar os custos b\u00e1sicos, numa busca pela sobreviv\u00eancia m\u00eas a m\u00eas. As emendas, como n\u00e3o comp\u00f5em o planejamento or\u00e7ament\u00e1rio, s\u00e3o fontes vol\u00e1teis de recursos. Al\u00e9m disso, apenas tal ou qual universidade se beneficia do recurso, trazendo \u00e0 tona o recebimento desigual do or\u00e7amento das emendas.<\/p>\n<p>As emendas parlamentares n\u00e3o s\u00e3o recursos do poder executivo. Embora estejam contempladas no ordenamento or\u00e7ament\u00e1rio, previstas na Lei Or\u00e7ament\u00e1ria Anual (LOA) e reguladas na Lei de Diretrizes Or\u00e7ament\u00e1rias (LDO), n\u00e3o est\u00e3o no projeto or\u00e7ament\u00e1rio do governo federal enviado ao Legislativo, j\u00e1 que s\u00e3o, justamente, modifica\u00e7\u00f5es dos parlamentares ao projeto do Executivo. Essa natureza vol\u00e1til as configura, por um lado, como recursos incertos, dependentes de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos gestores com os parlamentares e, por outro, como <u>instrumento de atua\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos legisladores<\/u> (In\u00e1cio, 2023, p. 4).<\/p>\n<p>Usadas para tapar buracos nas contas dos servi\u00e7os essenciais, as emendas parlamentares, desde 2014, vem ganhando centralidade no quadro or\u00e7ament\u00e1rio das universidades:<\/p>\n<p>Emendas parlamentares autorizadas na LOA (2014 e 2024)<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"734\" height=\"402\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-4.png 734w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-4-300x164.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/graf-4-219x121.png 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 734px) 100vw, 734px\"><\/figure>\n<p>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, com dados do Portal de Execu\u00e7\u00e3o Or\u00e7ament\u00e1ria da Andifes<sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>Esse aumento massivo, da ordem de 300%, reflete a aus\u00eancia do poder decis\u00f3rio do Executivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 destina\u00e7\u00e3o dos recursos, o que fortalece o protagonismo de deputados e senadores na aloca\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento. As IES, nesse cen\u00e1rio, tornam-se cada vez mais vulner\u00e1veis, vez que as emendas parlamentares, como t\u00eam um car\u00e1ter paliativo, visando cobrir despesas correntes, n\u00e3o s\u00e3o sustent\u00e1veis a longo prazo por n\u00e3o comporem o planejamento do governo, basilar do ciclo das pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<h3> <strong>Notas finais<\/strong><\/h3>\n<p>Em paralelo aos apontamento aqui tratados, especialmente quanto \u00e0 ascens\u00e3o do ensino privado e \u00e0 dist\u00e2ncia, n\u00e3o podemos nos esquecer da significativa inser\u00e7\u00e3o da base da pir\u00e2mide social brasileira no ensino superior, especialmente no p\u00fablico. Este fen\u00f4meno social tem implica\u00e7\u00f5es n\u00e3o apenas te\u00f3ricas. Simboliza uma dimens\u00e3o de ruptura: a hist\u00f3rica concentra\u00e7\u00e3o de renda e de riqueza do pa\u00eds foi tradicionalmente acompanhada de baixos \u00edndices de instru\u00e7\u00e3o aos pobres urbanos e rurais, o que retroalimentou a engrenagem do sistema educacional p\u00fablico. Isso ocorreu at\u00e9 a virada de chave, situada nos marcos da expans\u00e3o das universidades p\u00fablicas atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de novos campi, condicionada ao objetivo maior de amplia\u00e7\u00e3o do acesso e perman\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o superior (Brasil, 2007).<\/p>\n<p>N\u00e3o se h\u00e1 esquecer o movimento de mercantiliza\u00e7\u00e3o e desnacionaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o mas, no limite do poss\u00edvel, jovens desprivilegiados ingressaram na gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, sendo os primeiros de suas fam\u00edlias a obter t\u00edtulos de graduados e p\u00f3s-graduados. N\u00e3o \u00e9 incomum ouvirmos, nos corredores das institui\u00e7\u00f5es, os relatos sobre o pioneirismo dos jovens em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a nos cursos e o que isso significa para suas fam\u00edlias. O mesmo ocorre no campo cient\u00edfico, onde h\u00e1 muito a ganhar com a amplia\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os e democratiza\u00e7\u00e3o no acesso aos recursos necess\u00e1rios ao fazer ci\u00eancia. Tal feito foi assegurado com as a\u00e7\u00f5es afirmativas para estudantes de escolas p\u00fablicas e de baixa renda, al\u00e9m das reservas de vagas \u00e9tnico-raciais, vagas para transg\u00eanero, para pessoas com defici\u00eancia e pessoas refugiadas, categorias apartadas do ensino b\u00e1sico e, por conseguinte, do superior. Ao fim e ao cabo, esse acesso, que n\u00e3o pode ser analisado dissociado da perman\u00eancia estudantil, \u00e9 um avan\u00e7o significativo. No entanto, ascendem medidas no sentido inverso, que disputam o locus de enuncia\u00e7\u00e3o. O desmonte das universidades p\u00fablicas caminha de m\u00e3os dadas com o processo de desnacionaliza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil, essencialmente medidas de sucateamento cujo cerne \u00e9 a mercantiliza\u00e7\u00e3o do processo educacional.<\/p>\n<p>A largada da expans\u00e3o foi do p\u00fablico, mas quem tomou a frente foi o privado, majoritariamente na modalidade EaD. Em contraste com a abertura da universidade p\u00fablica para todos, gra\u00e7as \u00e0s pol\u00edticas afirmativas, assistimos ao seu desmonte, acompanhado da acelera\u00e7\u00e3o da precariza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o em duas frentes. Numa, falta de estrutura da universidade p\u00fablica e de recursos humanos para o seu funcionamento, al\u00e9m do baixo financiamento em pesquisas. E noutra: expans\u00e3o r\u00e1pida do privado, acompanhada da precariza\u00e7\u00e3o do ensino-aprendizagem, da dimens\u00e3o coletiva do conhecimento e, sobretudo, da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep). Resumo T\u00e9cnico do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior 2023. Bras\u00edlia, DF: Inep, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.gov.br\/inep\/pt-br\/areas-de-atuacao\/pesquisas-estatisticas-e-indicadores\/censo-da-educacao-superior\/resultados. Acesso em: 28 ago. 2025.<\/p>\n<p>FERREIRA, S. M. L. .; SINDEAUX, R. V. . A Transforma\u00e7\u00e3o Financeira do Ensino Superior Privado no Brasil: Explorando Fus\u00f5es e Aquisi\u00e7\u00f5es na Busca de uma Educa\u00e7\u00e3o de Qualidade. Pesquisa &amp;amp; Debate Revista do Programa de Estudos P\u00f3s-Graduados em Economia Pol\u00edtica, [S. l.], v. 36, n. 2(66), 2024. DOI: 10.23925\/1806-9029.36i2(66)68880. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistas.pucsp.br\/index.php\/rpe\/article\/view\/68880. Acesso em: 2 set. 2025.<\/p>\n<p>IN\u00c1CIO, Let\u00edcia; FERREIRA, Luciana da Silva; RODRIGUES, Roberto de Souza. Educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil: o impacto do \u201cTeto dos Gastos\u201d no or\u00e7amento das universidades federais. Revista de Pol\u00edticas P\u00fablicas, S\u00e3o Lu\u00eds, v. 28, n. 1, p. 339-359, jan.\/jun. 2024. DOI: https:\/\/doi.org\/10.18764\/2178-2865.v28n1.2024.19. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.redalyc.org\/article.oa?id=621178617020. Acesso em: 27 ago 2025<\/p>\n<p>IN\u00c1CIO, Let\u00edcia. Emendas parlamentares: o ganho de import\u00e2ncia relativa no Or\u00e7amento do Conhecimento. Novembro de 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/observatoriodoconhecimento.org.br\/observatorio-revela-dependencia-crescente-de-emendas-parlamentares\/ Acesso em 28 ago 2025<\/p>\n<p>LOPES FERREIRA, Sergio Moreno; SINDEAUX, Roney Versiani. Efeitos da comercializa\u00e7\u00e3o na expans\u00e3o do Ensino Superior Privado brasileiro em compara\u00e7\u00e3o ao sul coreano . Revista Economia e Pol\u00edticas P\u00fablicas, [S. l.], v. 12, n. 2, p. 168\u2013188, 2024. DOI: 10.46551\/epp2024v12n0209 . Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.periodicos.unimontes.br\/index.php\/economiaepoliticaspublicas\/article\/view\/6899. Acesso em: 10 set. 2025.<\/p>\n<p>SANTOS, F\u00e1bio Luis Barbosa dos. Uma hist\u00f3ria da onda progressista sul-americana (1998-2016). S\u00e3o Paulo: Editora Elefante, 2018.<\/p>\n<p>1 Dispon\u00edvel em https:\/\/www.andifes.org.br\/2020\/08\/30\/execucao-orcamentaria\/ Acesso em 28 ago 2025<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Mas vieram os ajustes fiscais, o predom\u00ednio das \u201cf\u00e1bricas de diplomas\u201d e o desmonte da ci\u00eancia. Reflex\u00f5es para uma virada<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/universidade-brasileira-da-euforia-a-penuria\/\">Universidade brasileira, da euforia \u00e0 pen\u00faria<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":53504,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5511,6007,9135,20709,20710],"tags":[],"class_list":["post-53503","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capa","category-crise-brasileira","category-educacao-brasileira","category-fabrica-de-diplomas","category-produtivismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53503\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53504"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}