{"id":53909,"date":"2025-09-22T14:58:30","date_gmt":"2025-09-22T17:58:30","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/virando-a-chave-maquinas-chinesas-sao-aposta-do-mst-para-alimentar-o-brasil\/"},"modified":"2025-09-22T14:58:30","modified_gmt":"2025-09-22T17:58:30","slug":"virando-a-chave-maquinas-chinesas-sao-aposta-do-mst-para-alimentar-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/virando-a-chave-maquinas-chinesas-sao-aposta-do-mst-para-alimentar-o-brasil\/","title":{"rendered":"Virando a chave: m\u00e1quinas chinesas s\u00e3o aposta do MST para alimentar o Brasil"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"386\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/header-Arroz-resistencias-produtivas-C.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/header-Arroz-resistencias-produtivas-C-1024x386.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/header-Arroz-resistencias-produtivas-C-300x113.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/header-Arroz-resistencias-produtivas-C-768x289.jpg 768w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/header-Arroz-resistencias-produtivas-C-1536x578.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/header-Arroz-resistencias-produtivas-C.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Por Ma\u00edra Mathias <\/em><br \/> <em>Do O Joio e O Trigo<\/em><\/p>\n<p>\u00c0s 7 horas da manh\u00e3 de uma ter\u00e7a-feira de maio de 2025, um barulho diferente tomou conta de um dos campos de arroz do assentamento Diamante Negro Juta\u00ed. Penetrante e mon\u00f3tono, destoava de tudo o que j\u00e1 se ouvira por ali. Mesmo t\u00e3o cedo, a novidade j\u00e1 atra\u00eda p\u00fablico. Cinco homens e uma crian\u00e7a observavam com aten\u00e7\u00e3o a origem daquele som. Ele vinha da China \u2013 ou melhor, de duas pequenas m\u00e1quinas fabricadas naquele pa\u00eds. Elas tinham atravessado metade do globo at\u00e9 ali, a cidade de Igarap\u00e9 do Meio, a 220 quil\u00f4metros de S\u00e3o Lu\u00eds, no Maranh\u00e3o. As mini colheitadeiras eram um acontecimento por um motivo bem simples: faziam em poucos dias o trabalho que, antes, levava quase um m\u00eas.\u00a0\u00a0 <\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea faz um servi\u00e7o de 24 dias em apenas dois ou tr\u00eas. Se ela [a m\u00e1quina] n\u00e3o der problema, em um dia s\u00f3 a gente consegue\u201d, calculou animadamente Railson Sousa Lima, dono da planta\u00e7\u00e3o onde as colheitadeiras passeavam para l\u00e1 e para c\u00e1.\u00a0 <\/p>\n<p>As duas m\u00e1quinas da empresa Shineray\u2013 montadora chinesa que, no Brasil, tem uma f\u00e1brica de motocicletas no Complexo Industrial de Suape, em Pernambuco \u2013 n\u00e3o s\u00e3o iguais. A maiorzinha, do modelo 4lz-1.0lc, tem 15 cavalos de pot\u00eancia e, aproximadamente, o tamanho de um carrinho de golfe. A menor, com 10 cavalos de pot\u00eancia, lembra vagamente um daqueles ve\u00edculos usados por seguran\u00e7as de shopping. Com pre\u00e7o m\u00e9dio de 4 mil d\u00f3lares cada, algo em torno dos R$ 20 mil, as pequenas colheitadeiras s\u00e3o muito mais baratas do que a op\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima vendida no Brasil, a Yanmar YH880, que sai por R$ 550 mil.\u00a0<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-1-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-1-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-1-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-1.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-4.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-4-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-4-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-4-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-4.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-6.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-6-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-6-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-6-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-6.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-7.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-7-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-7-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-7-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-7.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>As duas colheitadeiras da Shineray s\u00e3o pequenas. Em cima, a menorzinha, com 10 cavalos de pot\u00eancia. Embaixo, a maior, com 15. Fotos: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>As maquininhas n\u00e3o s\u00f3 colhem como adiantam bastante o processo de limpeza do arroz. O gr\u00e3o cresce em cachos. As colheitadeiras sugam esses cachos, separando cada gr\u00e3ozinho e lan\u00e7ando o cereal em sacas. \u201cO arroz sai \u2018batido\u2019, s\u00f3 no ponto de secagem\u201d, observou Railson. Aquele momento coroava um trabalho de aproximadamente cem dias que tinha come\u00e7ado em 13 de janeiro, com a prepara\u00e7\u00e3o da terra para o plantio.<\/p>\n<p>O arroz da fam\u00edlia Sousa Lima tinha sido o primeiro a ficar no ponto de colher no assentamento Diamante Negro Juta\u00ed. E o assentamento, por sua vez, tinha sido um dos escolhidos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, para testar a viabilidade de um ambicioso plano: massificar a agroecologia por meio da mecaniza\u00e7\u00e3o da agricultura familiar. E, de quebra, contribuir para a reindustrializa\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-9.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-9-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-9-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-9-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-9.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Railson estava feliz com a colheita de arroz. \u201cO nosso arroz est\u00e1 sendo muito procurado. Pelo fato dele ser um arroz org\u00e2nico. E de boa qualidade\u201d, contou. Fotos: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Diferen\u00e7a gritante<\/h2>\n<p>Fundado em janeiro de 1984, o MST surgiu com a pauta da reforma agr\u00e1ria. Mas a partir dos anos 2010, agregou uma palavra \u00e0 sua bandeira de luta. Come\u00e7ou a falar em reforma agr\u00e1ria popular. As ocupa\u00e7\u00f5es, que tanto simbolizaram o movimento na d\u00e9cada de 1990, continuam acontecendo. Mas o movimento deu um passo adiante na constru\u00e7\u00e3o da sua imagem, se posicionando como um ator central na produ\u00e7\u00e3o de alimentos agroecol\u00f3gicos no Brasil.<\/p>\n<p>Mas, se os assentamentos da reforma agr\u00e1ria produzem alimentos, nem sempre isso \u00e9 feito numa escala suficiente para abastecer o resto da popula\u00e7\u00e3o. Ganhar tra\u00e7\u00e3o, musculatura, passou a ser um objetivo central. \u201cQuer dizer, sair das experi\u00eancias-piloto, sair das experi\u00eancias muito localizadas e, de fato, nacionalizar a agroecologia nos nossos assentamentos, na agricultura camponesa de forma geral\u201d, explica Luiz Zarref que, al\u00e9m de membro do MST, \u00e9 coordenador para a Am\u00e9rica Latina da Associa\u00e7\u00e3o Internacional para a Coopera\u00e7\u00e3o Popular \u2013 tamb\u00e9m conhecida como Baobab.<\/p>\n<p>Criada em 2019 por movimentos como o pr\u00f3prio MST, a Baobab tem como foco a coopera\u00e7\u00e3o internacional nas \u00e1reas de ci\u00eancia e tecnologia. Para isso, promove interc\u00e2mbios de organiza\u00e7\u00f5es populares com institui\u00e7\u00f5es governamentais, institutos de pesquisa, desenvolvedores de tecnologia, financiadores e empreendedores do chamado \u2018Sul Global\u2019. Tem escrit\u00f3rios na cidade de Acra, capital de Gana, em S\u00e3o Paulo e em Pequim, onde Zarref mora atualmente.<\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>O endere\u00e7o n\u00e3o \u00e9 por acaso. Para ganhar escala, tanto o MST quanto outras organiza\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a Baobab veem na mecaniza\u00e7\u00e3o a resposta que precisam. Mas as m\u00e1quinas para a agricultura familiar precisam ser pequenas e baratas. Reunir essas duas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o foi f\u00e1cil. Zarref conta que o movimento fez buscas em pa\u00edses como It\u00e1lia, Alemanha, Jap\u00e3o e Coreia do Sul. A procura teve que ser fora do Brasil porque os modelos adequados para esse fim n\u00e3o s\u00e3o fabricados por aqui.<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos anos, n\u00f3s descobrimos que, na realidade, seria a China o pa\u00eds que teria as tecnologias mais adequadas para a realidade camponesa brasileira\u201d, diz Zarref. \u201cNa China, s\u00e3o 240 milh\u00f5es de estabelecimentos no campo, a maioria tem at\u00e9 meio hectare.\u201d O tamanho conta, e muito: em \u00e1reas diminutas assim, do porte de meio campo de futebol, m\u00e1quinas grandes n\u00e3o fazem sentido.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria chinesa, fortemente direcionada pelo Estado, deu uma resposta a essa realidade criando maquin\u00e1rio adequado. Segundo o coordenador da Baobab, o pa\u00eds tem mais de 8 mil f\u00e1bricas de m\u00e1quinas agr\u00edcolas. \u201c\u00c9 efetivamente um pa\u00eds que fez a reforma agr\u00e1ria e que industrializou o seu campo, a partir de uma linha pol\u00edtica do governo.\u201d<\/p>\n<p>Enquanto isso, no Brasil, no mesmo ano em que a Baobab foi criada, os governadores do Nordeste decidiram fazer um contraponto \u00e0 atua\u00e7\u00e3o desastrosa do governo Jair Bolsonaro na pandemia de covid-19 criando o Cons\u00f3rcio Nordeste. Mais tarde, a entidade, que re\u00fane todos os estados da regi\u00e3o, olharia para outras \u00e1reas al\u00e9m da sa\u00fade, como a agricultura familiar.<\/p>\n<p>Sabendo do interesse do Cons\u00f3rcio Nordeste pelo tema, a Baobab o conectou com pesquisadores e fabricantes chineses de maquin\u00e1rio agr\u00edcola. \u201cFoi um grande impacto\u201d, lembra Zarref. A dist\u00e2ncia entre China e Brasil, especialmente entre a China e o Nordeste brasileiro, se revelou gritante.<\/p>\n<p>Segundo o \u00faltimo Censo Agropecu\u00e1rio do IBGE, de 2017, existem 3,8 milh\u00f5es de estabelecimentos da agricultura familiar no pa\u00eds. Metade deles fica no Nordeste. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"736\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-64.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-64-1024x736.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-64-300x216.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-64-768x552.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-64.jpg 1121w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<p>O censo n\u00e3o oferece uma m\u00e9dia da mecaniza\u00e7\u00e3o nessa categoria de propriedade, mas traz dados por alguns tipos de m\u00e1quinas. Se a medida for a mais comum delas \u2013 o trator \u2013, a mecaniza\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a 12% dos estabelecimentos da agricultura familiar. J\u00e1 no Nordeste, o \u00edndice \u00e9 de 1,3%. \u201cNa China, [a mecaniza\u00e7\u00e3o m\u00e9dia] chega a 72%. Em algumas cadeias produtivas chega a 83%\u201d, compara Zarref. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"439\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-1024x439.png 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-300x129.png 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-768x329.png 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-1-5.png 1180w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<p>A vontade de mudar o jogo rendeu frutos. Em setembro de 2022, foi assinado um memorando de entendimento entre a Baobab, o Cons\u00f3rcio Nordeste, o Instituto Belt and Road, da Universidade Agr\u00edcola da China, e a Associa\u00e7\u00e3o de Fabricantes de M\u00e1quinas Agr\u00edcolas daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>Depois de um levantamento de quais cadeias produtivas poderiam ser alavancadas com o maquin\u00e1rio fabricado na China (hortali\u00e7as, milho, feij\u00e3o e arroz), 31 m\u00e1quinas desembarcaram no Brasil em fevereiro de 2024 com destino e objetivo certos: seriam testadas em assentamentos do MST nos estados do Cear\u00e1, Rio Grande do Norte, Para\u00edba e Maranh\u00e3o.<\/p>\n<h2>Participa\u00e7\u00e3o massiva<\/h2>\n<p>No dia 4 de maio de 2025, um belo domingo de sol, Maria de Jesus acordou cedo, deu caf\u00e9 para os filhos e partiu para a sede da Cooperativa Mista das \u00c1reas de Reforma Agr\u00e1ria do Vale do Itapecuru (Coopevi). Chegando l\u00e1, as horas passariam r\u00e1pido, como numa corrida contra o tempo. \u00c9 que a Feira Nacional da Reforma Agr\u00e1ria \u2013 um evento do MST realizado em S\u00e3o Paulo que serve de vitrine para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos em assentamentos do pa\u00eds inteiro \u2013 seria dali a alguns dias. Dij\u00e9, como Maria de Jesus \u00e9 conhecida, se uniu \u00e0 for\u00e7a-tarefa para aprontar os produtos que partiriam para a capital paulista. Tapioca, farinha, xarope, geleia, lim\u00e3o, ab\u00f3bora\u2026 Mas, principalmente, arroz. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-10.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-10-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-10-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-10-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-10.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Maria de Jesus, a Dij\u00e9, foi a \u00fanica mulher dos assentamentos do Nordeste a pilotar uma m\u00e1quina chinesa. Foto: Ingrid Barros\/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>A primeira colheita com m\u00e1quinas chinesas tinha sido a daquele arroz e acontecido um ano antes, ali mesmo no assentamento Cristina Alves, localizado em Itapecuru-Mirim, munic\u00edpio a 119 quil\u00f4metros de S\u00e3o Lu\u00eds. Dij\u00e9 foi a \u00fanica mulher dos assentamentos do Nordeste a pilotar uma m\u00e1quina chinesa, a maior das colheitadeiras Shineray. <\/p>\n<p>\u201cEu peguei para tentar ver se conseguia [guiar]. A\u00ed quando eu consegui, eu fiz v\u00e1rias voltas l\u00e1, cortando arroz. E foi um momento muito bom, viu? A gente se sentiu muito alegre com isso\u201d, relembrou.<\/p>\n<p>Para Dij\u00e9, assim como para Railson, o choque vinha do tempo economizado na colheita, e tamb\u00e9m na limpeza, j\u00e1 que o gr\u00e3o sai sem a palha. \u201cJ\u00e1 vem no ponto de a gente colocar no sol e levar para a piladeira. E eu passava um dia todo pra cortar seis sacos, com palha, com tudo. [Com a m\u00e1quina] em quatro minutos, cinco, a gente est\u00e1 com um saco de cinquenta quilos cheio. Uma diferen\u00e7a boa, e muito grande. E a\u00ed eu me animei, porque sempre participava do campo de arroz, mas nunca tinha colocado o meu pr\u00f3prio.\u201d<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>\u00c9 mais interessante para a reforma agr\u00e1ria popular, para a agroecologia, que a participa\u00e7\u00e3o das pessoas tamb\u00e9m seja massiva. N\u00e3o s\u00f3 uma produ\u00e7\u00e3o em escala, mas uma participa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m em uma escala maior\u201d <\/em><\/p>\n<p><cite>Elias Ara\u00fajo, coordenador do setor de produ\u00e7\u00e3o do MST na regi\u00e3o amaz\u00f4nica<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>Atrair mais gente para o plantio de arroz \u00e9 a meta da Coopevi. A cooperativa est\u00e1 prestes a dar um salto, com a instala\u00e7\u00e3o de uma usina financiada pela Secretaria de Abastecimento, Cooperativismo e Soberania Alimentar do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio em conjunto com a Funda\u00e7\u00e3o Banco do Brasil. A estrutura ter\u00e1 capacidade para beneficiar 8 mil quilos de arroz por dia.<\/p>\n<p>Para que a usina funcione bem, a \u00e1rea plantada a cada safra precisa saltar dos 20 hectares atuais para 500. Mas a ideia n\u00e3o \u00e9 expandir a produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 dentro do assentamento. \u201cIsso seria monocultivo. Foge do que a gente quer debater em termos de agroecologia\u201d, explicou Elias Ara\u00fajo, quadro antigo do MST no Maranh\u00e3o que mora no assentamento desde a sua cria\u00e7\u00e3o, em 2007, e hoje coordena o setor de produ\u00e7\u00e3o do movimento em toda a regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>De acordo com ele, o plano \u00e9 ampliar gradualmente a \u00e1rea plantada dentro do Cristina Alves, de 20 hectares por safra at\u00e9 chegar a 150. E mobilizar pessoas de fora a plantarem os 350 hectares restantes. \u201c\u00c9 mais interessante para a reforma agr\u00e1ria popular, para a agroecologia, que a participa\u00e7\u00e3o das pessoas tamb\u00e9m seja massiva. N\u00e3o s\u00f3 uma produ\u00e7\u00e3o em escala, mas uma participa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m em uma escala maior.\u201d <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-11.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-11-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-11-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-11-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-11.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Elias Ara\u00fajo est\u00e1 no Cristina Alves desde a cria\u00e7\u00e3o do assentamento, em 2007. Mas sua milit\u00e2ncia no MST come\u00e7ou bem antes disso, na d\u00e9cada de 80. Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 a\u00ed que as m\u00e1quinas chinesas v\u00eam ao encontro dos planos que a cooperativa j\u00e1 tra\u00e7a h\u00e1 tempos. Elas servem de chamariz. \u201cPara colher hoje um hectare de arroz, voc\u00ea gasta uns 20 dias, no m\u00ednimo. Com essa maquininha da China, voc\u00ea consegue colher isso em um dia. \u00c9 uma revolu\u00e7\u00e3o\u201d, observou Elias. \u201cA gente quer trabalhar no entorno do assentamento, envolver outras fam\u00edlias. Aqui tem v\u00e1rios assentamentos, v\u00e1rias comunidades quilombolas\u2026\u201d<\/p>\n<h2>No DNA do Maranh\u00e3o<\/h2>\n<p>O arroz \u00e9 central na cultura maranhense. O estado tem, disparado, o maior consumo per capita do Brasil. S\u00e3o 49 quilos de arroz por habitante ao ano, segundo o IBGE. Como base de compara\u00e7\u00e3o, na Bahia e em S\u00e3o Paulo, o n\u00famero cai para 15 quilos.<\/p>\n<p>Essa cultura j\u00e1 teve algumas reviravoltas e at\u00e9 proibi\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o das Am\u00e9ricas, o Maranh\u00e3o era um territ\u00f3rio disputado por espanh\u00f3is, franceses e portugueses. Esses \u00faltimos levaram para l\u00e1 o arroz consumido no arquip\u00e9lago dos A\u00e7ores \u2013 uma variedade de cor vermelha, que teve enorme sucesso. At\u00e9 que a Coroa proibiu sua produ\u00e7\u00e3o, em 1772. <\/p>\n<p>Na \u00e9poca, Portugal vivia uma crise de abastecimento. Mas a metr\u00f3pole s\u00f3 queria saber do arroz branco. Como resultado, os maranhenses foram proibidos de plantar o arroz vermelho de que tanto gostavam. E os brasileiros, quem sabe, perderam a chance de ter mais variedade no prato. <\/p>\n<p>Hoje, o arroz vermelho at\u00e9 voltou \u2013 mas como um produto nichado para classes m\u00e9dias e altas em busca de um estilo de vida saud\u00e1vel. Atualmente, 70% do arroz consumido no pa\u00eds \u00e9 o branco polido. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-12.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-12-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-12-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-12-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-12.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>No assentamento Cristina Alves, se produz arroz vermelho de olho em um nicho de mercado, segundo Elias Ara\u00fajo. Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O arroz tamb\u00e9m tem a ver com a hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio maranhense \u2013 e com as suas injusti\u00e7as. \u00c9 uma cultura de abertura de \u00e1rea. Aquilo que se planta depois de derrubar a floresta. \u201cRetirar a madeira e fazer a primeira ro\u00e7a. E a primeira ro\u00e7a que vem \u00e9 a de arroz\u201d, observou Elias. <\/p>\n<p>\u201cE, no rastro dessa lavoura itinerante, voc\u00ea tinha os criadores de gado. E, no rastro disso tudo, veio o que a gente chamou aqui de legaliza\u00e7\u00e3o das \u00e1reas. As pessoas mais esclarecidas \u2013 comerciantes, pessoas de fora \u2013 foram documentando as \u00e1reas. E os camponeses foram sendo expulsos.\u201d Sendo empurrados mais e mais para dentro da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>O Maranh\u00e3o chegou a ser o segundo maior produtor de arroz do Brasil. A \u00faltima vez em que o estado chegou a essa posi\u00e7\u00e3o foi em 2006, segundo o Censo Agropecu\u00e1rio. <\/p>\n<p>Hoje, o Rio Grande do Sul concentra 70% da produ\u00e7\u00e3o brasileira, com 7 milh\u00f5es de toneladas em 2023. \u00c9 seguido por Santa Catarina, Tocantins e Mato Grosso do Sul. O Maranh\u00e3o fica na quinta coloca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Maranh\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de arroz no Brasil<\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"705\" height=\"798\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-2-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-2-2.png 705w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-2-265x300.png 265w\" sizes=\"(max-width: 705px) 100vw, 705px\"><\/figure>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"383\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-3-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-3-1.png 750w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image-3-300x153.png 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\"><\/figure>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Elias, que \u00e9 agr\u00f4nomo, o Maranh\u00e3o perdeu espa\u00e7o porque n\u00e3o se atualizou. \u201cA cultura se deslocou para regi\u00f5es onde teve resposta, onde as for\u00e7as produtivas avan\u00e7aram.\u201d Mesmo dentro do estado, diz ele, a produ\u00e7\u00e3o de arroz vem mais do agroneg\u00f3cio do que de assentamentos ou territ\u00f3rios tradicionais. \u201cNo sul do Maranh\u00e3o, onde est\u00e3o as m\u00e1quinas, onde \u00e9 poss\u00edvel plantar e colher.\u201d<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio MST tem no arroz produzido no Rio Grande do Sul, um dos seus principais orgulhos. Segundo o Instituto Riograndense do Arroz (Irga), o movimento \u00e9 o maior produtor de arroz org\u00e2nico do Brasil. E, pelo tamanho da produ\u00e7\u00e3o, provavelmente o maior da Am\u00e9rica Latina. Segundo o MST, na \u00faltima safra (24\/25) foram semeados 2.850 hectares de arroz agroecol\u00f3gico nos assentamentos riograndenses por 290 fam\u00edlias \u2013 uma m\u00e9dia de 9,8 hectares para cada uma.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 reproduzir esse cen\u00e1rio no Maranh\u00e3o. \u201cAquele campon\u00eas que fazia a ro\u00e7a de arroz e colhia manualmente ainda existe, mas existe para uma necessidade de consumo. Quando essa fam\u00edlia melhora financeiramente e pode comprar o arroz fora, ela n\u00e3o vai mais ficar na atividade do arroz\u201d, afirma Elias, para quem a forma de manter as pessoas no campo maranhense passa necessariamente pela mecaniza\u00e7\u00e3o da cultura do arroz.<\/p>\n<h2>A ro\u00e7a do toco<\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-13.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-13-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-13-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-13-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-13.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Perguntado se trocaria a ro\u00e7a do toco por m\u00e1quinas, Juca respondeu que n\u00e3o. Mas a esposa dele, Maria Helena, sem pestanejar respondeu que sim Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O jeito tradicional de plantar arroz \u00e9 conhecido como \u201cro\u00e7a do toco\u201d. Trata-se de um sistema agr\u00edcola com ra\u00edzes em comunidades ind\u00edgenas e quilombolas onde se derruba a mata, se queima a mat\u00e9ria org\u00e2nica e, aproveitando esses nutrientes, se planta \u2013 arroz, maniva, milho.<\/p>\n<p>Ali mesmo, no assentamento Cristina Alves, n\u00e3o s\u00e3o poucas as pessoas que mant\u00eam viva a tradi\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria Dij\u00e9, animada com as m\u00e1quinas, desde criancinha acompanhava o pai na lida, sendo reconhecida como uma das pessoas mais \u00e1geis na colheita manual. M\u00e3e de cinco filhos, ela conta que uma das suas meninas tamb\u00e9m leva jeito pra coisa. \u201cEu tenho uma que as pessoas falam que vai ser a minha c\u00f3pia porque ela gosta, n\u00e9? E essa ro\u00e7a minha, de toco, quem me ajudou a plantar foi ela e o mais novinho.\u201d<\/p>\n<p>Outro assentado verdadeiramente entusiasta da ro\u00e7a de toco \u00e9 o Juca \u2013 ou, conforme a certid\u00e3o de nascimento, Geraldo de Matos Barbosa \u2013, um agricultor de 56 anos que \u00e9 pura simpatia. Ao mostrar a \u00e1rea onde produz arroz e mandioca, ele detalhou o passo a passo do plantio.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>\u00c0s vezes d\u00e1 pra gente vender. N\u00e3o \u00e9 muito, mas d\u00e1. Mas o que a gente gosta mesmo \u00e9 de comer\u201d <\/em><\/p>\n<p><cite>Geraldo de Matos Barbosa, agricultor<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cA gente ro\u00e7a de foice, \u2018derriba\u2019 de machado, depois toca fogo. Com 60, 70 dias, que ela [a folhagem] j\u00e1 est\u00e1 seca, a gente queima. E, depois que queima, a gente vai juntar o chamado garrancho ou coivara, que \u00e9 o restante que o fogo deixa\u201d, ensinou. <\/p>\n<p>Se a l\u00f3gica \u00e9 ir derrubando um pouco da mata a cada safra, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que, na ro\u00e7a do toco, as terras usadas descansam por anos. At\u00e9 que a mata cres\u00e7a e a \u00e1rea esteja em condi\u00e7\u00f5es de ser manejada de novo.<\/p>\n<p>O arroz do Juca estava quase no ponto de colher naquele come\u00e7o de maio. Ele apresentou os instrumentos que usaria. Basicamente um fac\u00e3o e uma cesta de palha pendurada a tiracolo. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-14.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-14-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-14-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-14-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-14.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Juca, orgulhoso da tradi\u00e7\u00e3o, mostra a \u201cench\u00f3\u201d, usada para cortar o arroz, e a cesta de palha onde os cachos s\u00e3o guardados. Fotos: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Ele calculava que a ro\u00e7a renderia umas 25 sacas de arroz. Longe de ser o suficiente para vender, mas o bastante para a fam\u00edlia comer quase o ano todo. \u201cAssim, n\u00f3s n\u00e3o gosta de vender porque \u00e9 um arroz muito gostoso. Se a gente vende, a\u00ed n\u00e3o vai alcan\u00e7ar o ano que vem. \u00c0s vezes d\u00e1 pra gente vender. N\u00e3o \u00e9 muito, mas d\u00e1. Mas o que a gente gosta mesmo \u00e9 de comer.\u201d<\/p>\n<p>Mas, se o objetivo for viver da renda do arroz, dar escala \u00e0 opera\u00e7\u00e3o, os agricultores ouvidos pelo Joio no Maranh\u00e3o acreditam que a sa\u00edda \u00e9 a mecaniza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 porque as condi\u00e7\u00f5es objetivas mudaram. Em termos de terra dispon\u00edvel, educa\u00e7\u00e3o e, mesmo, sucess\u00e3o rural.<\/p>\n<h2>Grandes mudan\u00e7as<\/h2>\n<p>\u201cNo tempo que a floresta ainda era em p\u00e9, a gente conseguia fazer a ro\u00e7a do toco. Mas era \u00e1rea coletiva. Voc\u00ea tinha grandes \u00e1reas que voc\u00ea podia cortar, derrubar, tocar fogo e plantar. Mudava, deixando aquela \u00e1rea em repouso, e ela se regenerava com o tempo. Hoje, o assentamento j\u00e1 foi dividido, cada um tem sua parcela\u201d, explicou Lucas Machado, agricultor do assentamento Diamante Negro Juta\u00ed. Por l\u00e1, os lotes s\u00e3o de 30 hectares, sendo dez de reserva legal. \u201cA alternativa da gente era mecanizar.\u201d<\/p>\n<p>Essa certeza veio depois de um longo percurso. Apesar de terem lutado pela conquista da terra por anos debaixo de lona, os pais do Lucas n\u00e3o queriam que ele tomasse o caminho da ro\u00e7a. Pioneiros na ocupa\u00e7\u00e3o que levaria \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do assentamento, eles desejavam que o primog\u00eanito seguisse outro rumo na vida. \u201cA \u00e1rea da inform\u00e1tica, a \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o\u2026 A minha fam\u00edlia n\u00e3o queria que eu fizesse a escolha da agricultura por nunca ter conseguido fruto. Nunca ter conseguido renda diretamente da agricultura\u201d, contou, um pouco mexido.<\/p>\n<p>Aos 32 anos, ele estava prestes a ser pai pela primeira vez. A companheira, Maria Tha\u00eds, tinha ces\u00e1rea marcada para o dia seguinte, 7 de maio. Um pouco mais animado depois de alguns segundos de sil\u00eancio, Lucas arrematou: \u201cMe formei aqui e ainda hoje continuo. N\u00e3o tenho expectativa de mudar para lugar nenhum. [Quero] continuar vivendo aqui.\u201d <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-16.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-16-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-16-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-16-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-16.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Maria Tha\u00eds e Lucas no quintal de casa. No dia seguinte, a primeira filha do jovem casal nasceria. Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Muito disso tem a ver com a desobedi\u00eancia. Em 2015, Lucas agarrou a chance de fazer uma faculdade pelo Pronera, o Programa Nacional de Educa\u00e7\u00e3o na Reforma Agr\u00e1ria, voltado \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o da juventude no campo. Escolheu agronomia. <\/p>\n<p>Colocava em pr\u00e1tica no lote da fam\u00edlia tudo o que aprendia no curso. Tinha em mente um objetivo. \u201cVir para c\u00e1 e mostrar que a gente, dentro do assentamento, consegue produzir igualmente fosse um grande fazendeiro. Que o assentamento tamb\u00e9m tem esse potencial.\u201d Sabendo da aptid\u00e3o do assentamento para a produ\u00e7\u00e3o de arroz, ele quis se aprofundar no estudo sobre a cultura mecanizada. <\/p>\n<p>A forma tradicional de plantar arroz \u00e9 bastante diferente da lavoura mecanizada, come\u00e7ando pela prepara\u00e7\u00e3o do solo. Para arar e nivelar a terra, se usa um trator. Para fertilizar, se usam adubos qu\u00edmicos, como ureia, ou naturais, como urina de vaca curtida. A semente precisa ser comprada \u2013 a variedade usada hoje no assentamento \u00e9 a BRS 502, desenvolvida pela Embrapa, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Depois, vem o trabalho de cuidar das plantas. Se optar por n\u00e3o usar agrot\u00f3xicos, como manda a agroecologia, o agricultor precisa ficar direto na ro\u00e7a, ao longo de uns tr\u00eas meses, para controlar as plantas que poderiam competir por nutrientes com o arroz. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros_IngridBarro.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros_IngridBarro-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros_IngridBarro-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros_IngridBarro-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros_IngridBarro.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Arroz no ponto de colheita no lote de Railson Sousa Lima Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Na hora da colheita, podem entrar as colheitadeiras \u2013 como as da Shineray. E, finalmente, chega o momento de beneficiar. <\/p>\n<p>Na cadeia produtiva do arroz, uma m\u00e1quina puxa a outra. Isso porque, para produzir em escala e vender, existem certas exig\u00eancias de mercado a serem cumpridas. O gr\u00e3o precisa ser longo e fino. Arroz quebrado n\u00e3o \u00e9 valorizado, da\u00ed a classificadora. <\/p>\n<p>A secadora, por exemplo, \u00e9 uma m\u00e1quina que n\u00e3o tem serventia para quem planta no toco, porque a pessoa colhe o arroz no cacho. E, como esse cacho protege da umidade, d\u00e1 para armazenar num paiol simples \u2013 que pode ser a pr\u00f3pria porta de casa.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante novidade. A mecaniza\u00e7\u00e3o nos assentamentos \u00e9 um processo em aberto, com experimenta\u00e7\u00f5es que \u00e0s vezes d\u00e3o errado. <\/p>\n<p>\u00c9 o que aconteceu com a semente BRS 502 no caso do assentamento Cristina Alves. \u201cA variedade deu um rendimento muito bom no Diamante Negro Juta\u00ed\u201d, contou Elias Ara\u00fajo. \u201cMas aqui ela manifestou um percentual de germina\u00e7\u00e3o muito abaixo, algo em torno de 20%. Ent\u00e3o comprometeu, ficou invi\u00e1vel a lavoura.\u201d <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, mesmo com as m\u00e1quinas chinesas \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, o Cristina Alves ficou sem arroz para colher e teve que se virar com estoques das safras passadas.<\/p>\n<p>Outro fator arrasador tamb\u00e9m pesou: a emerg\u00eancia clim\u00e1tica. As chuvas, que eram pra ter come\u00e7ado em janeiro na regi\u00e3o, atrasaram um m\u00eas. \u201cE a gente vai ter que aprender a conviver com isso, esse fator na agricultura vai ser permanente agora\u201d, lamentou Elias. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-18.webp\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-18-1024x699.webp 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-18-300x205.webp 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-18-768x524.webp 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-18.webp 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Elias mostra \u00e1rea que tinha plantado em janeiro com o arroz que n\u00e3o vingou. Em maio, seu lote j\u00e1 estava cultivado com feij\u00e3o. No detalhe, um gr\u00e3o de feij\u00e3o. Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h2>Retomada da produ\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Todas essas mudan\u00e7as para entrar no circuito do mercado acabam, num primeiro momento, sendo caras. Rec\u00e9m-sa\u00eddo da universidade, Lucas resolveu plantar por conta pr\u00f3pria. Ele n\u00e3o estava sozinho: outros dois assentados, tamb\u00e9m agr\u00f4nomos pelo Pronera \u2013 Sime\u00e3o e Pedrinho \u2013, j\u00e1 perseguiam a ideia. O pontap\u00e9 para os tr\u00eas foi a troca com pesquisadores da Universidade Estadual do Maranh\u00e3o (Uema), que volta e meia estavam no assentamento estudando as diferentes camadas de solo, e tamb\u00e9m com a Embrapa. <\/p>\n<p>\u201cEles queriam fazer a transfer\u00eancia de tecnologia do modo que eles plantam, n\u00e3o s\u00f3 para o assentamento, mas em outros locais do Maranh\u00e3o. E a\u00ed a gente recebeu a transfer\u00eancia de tecnologia da Embrapa, ensinando como \u00e9 que planta no modo convencional\u201d, contou Lucas. Um pacote que envolvia n\u00e3o s\u00f3 o uso das m\u00e1quinas, mas tamb\u00e9m o de fertilizantes qu\u00edmicos e agrot\u00f3xicos. \u201cAgronegocinho.\u201d<\/p>\n<p>Sendo parte do MST, por\u00e9m, os assentados quiseram adaptar os ensinamentos da Embrapa em dire\u00e7\u00e3o a uma produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica. \u201cO MST procura muito capacitar a gente numa forma de produ\u00e7\u00e3o mais natural, a gente tem que procurar ir mais al\u00e9m\u201d, resumiu Lucas, que admitiu que, n\u00e3o fosse a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dada pelo movimento, provavelmente eles teriam adotado todo o pacote tecnol\u00f3gico da Embrapa sem grandes questionamentos.<\/p>\n<p>Mas o fato \u00e9 que, com os resultados da ro\u00e7a mecanizada, Sime\u00e3o, Pedrinho e Lucas foram animando mais gente da Cooperativa de Produ\u00e7\u00e3o Agropecu\u00e1ria dos Produtores da Microrregi\u00e3o da Baixada Maranhense (Coopervid), sediada no assentamento. Como explicaria o Jos\u00e9 Wanderlei Silva, presidente da cooperativa, por algum tempo as coisas ficaram paradas por l\u00e1. Muitos assentados perderam a f\u00e9 na agricultura e foram fazer outras coisas da vida. \u201cDe tr\u00eas passamos para cinco, depois passamos para dez agricultores trabalhando por conta\u201d, relembrou. Ou seja, sem financiamento.<\/p>\n<p>Logo a produ\u00e7\u00e3o passaria a ser financiada pela Finapop, uma plataforma de investimentos criada em 2020 pelo MST, por meio da qual cooperativas podem captar recursos. Mas, segundo o Wanderlei, o sistema de financiamento tinha exig\u00eancias dif\u00edceis de atender no est\u00e1gio de refunda\u00e7\u00e3o em que a cooperativa se encontrava. \u201c\u00c9 um fundo excelente, essa quest\u00e3o do recurso, mas ele ainda era muito limitado para n\u00f3s, porque exigiu a quest\u00e3o da qualifica\u00e7\u00e3o profissional, de assist\u00eancia t\u00e9cnica, que o fundo n\u00e3o cobria, ent\u00e3o tivemos alguns problemas em fazer a renova\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou ele.<\/p>\n<p>O financiamento p\u00fablico tamb\u00e9m n\u00e3o foi uma solu\u00e7\u00e3o. \u201cFora o Finapop, n\u00f3s n\u00e3o consegu\u00edamos financiamento em um banco, uma institui\u00e7\u00e3o financeira, chegar e dizer, \u2018olha, eu quero financiar um hectare de arroz\u2019. A desculpa era que n\u00e3o h\u00e1 capacidade de pagamento.\u201d E a\u00ed veio a Vale.<\/p>\n<h2>Projeto financiado pela Vale<\/h2>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-20.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-20-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-20-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-20-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-20.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Lucas olha na dire\u00e7\u00e3o do lote de seu pai enquanto o trem da Vale, fazendo a rota Caraj\u00e1s-S\u00e3o Lu\u00eds, passa debaixo de uma ponte constru\u00edda no assentamento. Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O Assentamento Diamante Negro Juta\u00ed \u00e9 um lugar carregado de simbologia por ser fruto da primeira ocupa\u00e7\u00e3o do movimento sem-terra na Baixada Maranhense, em 1989. Uma regi\u00e3o onde se percebe uma presen\u00e7a mais forte do agroneg\u00f3cio. Beirando a BR 222 \u2013 uma t\u00edpica rodovia do agro, esburacada e cheia de caminh\u00f5es, que liga Marab\u00e1, no Par\u00e1, a Fortaleza \u2013, o assentamento tamb\u00e9m \u00e9 cortado por dentro por outra importante via de exporta\u00e7\u00e3o de commodities: a Estrada de Ferro Caraj\u00e1s, operada pela Vale.<\/p>\n<p>Para se ter ideia do porte dessa opera\u00e7\u00e3o, em fevereiro de 2025 a mineradora anunciou um investimento de R$ 70 bilh\u00f5es para atingir a seguinte meta: extrair 200 milh\u00f5es de toneladas de min\u00e9rio de ferro, anualmente, de Caraj\u00e1s \u2013 o que deve se tornar realidade em 2030.<\/p>\n<p>Segundo assentados que preferiram se manter an\u00f4nimos, depois de anos atuando num esp\u00edrito de dividir para conquistar (jogando a associa\u00e7\u00e3o do assentamento contra a cooperativa \u2013 e vice-versa), recentemente a mineradora teria mudado de t\u00e1tica. A imagem que uma fonte usou \u00e9 a de uma jiboia. Que vai se enroscando, subindo no corpo da presa, apertando.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-21.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-21-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-21-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-21-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-21.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Reuni\u00e3o da Vale com os cooperados, na sede da Coopervid, sobre a ind\u00fastria de beneficiamento de arroz. Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Mas o fato \u00e9 que a Vale chegou junto da cooperativa e perguntou o que havia de planos por l\u00e1. \u201cA Vale abra\u00e7ou um sonho nosso, que \u00e9 um sonho dos agricultores de plantar arroz em uma condi\u00e7\u00e3o melhorada\u201d, disse Wanderlei, usando uma camisa onde, na frente, se lia \u201cProjeto Arroz Diamante\u201d e, nas costas, havia a logomarca da mineradora e da Coopervid.<\/p>\n<p>Mas a Vale n\u00e3o estava s\u00f3 na camisa. Dois assessores da empresa estavam l\u00e1 no dia 5 de maio, quando o Joio foi recebido na sede da cooperativa. Cerca de meia hora depois da chegada da reportagem, decidiram fazer uma reuni\u00e3o com os assentados sobre uma usina de beneficiamento de arroz, que a mineradora vai bancar como parte do Projeto Arroz Diamante.<\/p>\n<p>O projeto come\u00e7ou financiando 25 agricultores a plantarem um hectare de arroz cada. Um valor, segundo Wanderley, de R$ 96 mil. A mineradora tamb\u00e9m financia assist\u00eancia t\u00e9cnica \u2013 no caso, o trabalho do Lucas Machado, que orienta os demais agricultores \u2013 e, agora, a compra de equipamentos e a constru\u00e7\u00e3o da usina. \u201cE ela [a Vale vai] fazer todo o processo, da mecaniza\u00e7\u00e3o at\u00e9 o beneficiamento, que \u00e9 o futuro pr\u00f3ximo, que j\u00e1 est\u00e1 desenhado para n\u00f3s. J\u00e1 est\u00e1 concreto, vamos come\u00e7ar a constru\u00e7\u00e3o da usina, j\u00e1 temos boa parte dos equipamentos comprados: a piladeira, a classificadora, a empacotadeira\u2026\u201d, contou o presidente da Coopervid.<\/p>\n<p>Wanderley entrou para o MST em 1992, quando se juntou a uma das ocupa\u00e7\u00f5es do movimento. Foi parar no assentamento Diamante Negro Juta\u00ed anos mais tarde, como coordenador dos cursos do Pronera. Como presidente da cooperativa, ele est\u00e1 numa saia justa: n\u00e3o pode cuspir na m\u00e3o que financia a produ\u00e7\u00e3o de arroz, mas tamb\u00e9m, aos poucos, n\u00e3o deixa de admitir que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 estranha. <\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"699\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-2-1024x699.jpg 1024w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-2-300x205.jpg 300w, https:\/\/mst.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-2-768x524.jpg 768w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Foto-Ingrid_Barros-2.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption><em>Tentando reerguer a cooperativa num contexto complexo, Wanderley defende o Projeto Arroz Diamante, mas admite que \u00e9 algo \u201cmin\u00fasculo\u201d diante dos impactos da Vale. Foto: Ingrid Barros \/ O Joio e O Trigo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cO assentamento Diamante Negro Juta\u00ed \u00e9 uma \u00e1rea impactada pela Vale. E h\u00e1 33 anos a gente vinha tentando trabalhar isso. [A mineradora] sempre escapulindo. Tivemos algumas conquistas, mas [tudo] muito pontual\u201d, refletiu, emendando: \u201cA Vale tem um objetivo e, dentro dessa quest\u00e3o, ela \u00e9 obrigada a fazer a parte social dela. Qual \u00e9 a parte social? \u00c9 esse min\u00fasculo, essas coisas min\u00fasculas, que \u00e9 o Projeto do Arroz Diamante. \u00c9 muito pequeno isso para ela, em rela\u00e7\u00e3o ao ganho ela, em rela\u00e7\u00e3o ao impacto no assentamento. Isso \u00e9 muito claro pra n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<h2>Pr\u00f3ximos passos<\/h2>\n<p>Se nos diferentes territ\u00f3rios, as circunst\u00e2ncias variam bastante \u2013 sendo, em alguns casos, bastante desafiadoras \u2013, no fim, os assentamentos do Maranh\u00e3o selecionados para testar as m\u00e1quinas chinesas perseguem uma mesma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: produzir alimentos agroecol\u00f3gicos em escala.<\/p>\n<p>Em maio de 2025, um segundo documento de parceria com a China foi assinado. Desta vez envolvendo o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio e Agricultura Familiar (MDA). A nova fase envolve a testagem de mais 50 m\u00e1quinas nos assentamentos do MST, e tamb\u00e9m na Universidade de Bras\u00edlia (UnB). L\u00e1, foi criado o Centro Brasil-China de Pesquisa, Desenvolvimento e Promo\u00e7\u00e3o de Tecnologia e Mecaniza\u00e7\u00e3o para Agricultura Familiar, que tamb\u00e9m vai se dedicar ao estudo de bioinsumos e tecnologias de digitaliza\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o da mecaniza\u00e7\u00e3o\u201d, explica Luiz Zarref.<\/p>\n<p>Em paralelo, o MST tenta implantar f\u00e1bricas para a produ\u00e7\u00e3o dessas m\u00e1quinas pequenas e baratas no Brasil. Originalmente, o movimento pensava que daria para atrair o capital chin\u00eas de forma direta, porque algumas das empresas que produzem as maquininhas na China est\u00e3o instaladas no pa\u00eds, mas produzindo outras coisas \u2013 como motos, caso da pr\u00f3pria Shineray. <\/p>\n<p>Mas sem uma pol\u00edtica espec\u00edfica que garanta mercado para as empresas, n\u00e3o foi poss\u00edvel. \u201cN\u00e3o ter uma pol\u00edtica mais consistente de mecaniza\u00e7\u00e3o para a agricultura familiar acaba inibindo as empresas a tomarem a iniciativa de virem ao Brasil, que \u00e9 um mercado distante, e estabelecerem uma planta industrial que produza m\u00e1quinas para essa agricultura. Porque, uma vez que n\u00e3o tem a pol\u00edtica para ela, provavelmente essas m\u00e1quinas v\u00e3o ficar encalhadas\u201d, afirma Zarref.<\/p>\n<p>Agora, os planos mudaram ligeiramente. Envolve triangula\u00e7\u00f5es com poder p\u00fablico, capital nacional e as cooperativas do MST. \u201cEnt\u00e3o, n\u00f3s estamos, nesse momento, nos di\u00e1logos com as empresas chinesas, para tentar encontrar caminhos que sejam poss\u00edveis de criar ou joint ventures ou parcerias tecnol\u00f3gicas\u201d, conta o coordenador da Baobab e integrante do MST.<\/p>\n<p>Funcionaria mais ou menos assim: a empresa chinesa transfere a tecnologia. E a cooperativa do MST, com respaldo de investimentos p\u00fablicos e privados, produz as m\u00e1quinas. <\/p>\n<p>\u201cVia parceria p\u00fablico-privada e popular. A cooperativa do movimento entra junto, tem participa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 importante que tenha um recurso p\u00fablico nisso e que tenha um investidor dispon\u00edvel para isso. Ent\u00e3o, enquanto n\u00e3o tiver essas tr\u00eas coisas convergindo, n\u00e3o vai ter ind\u00fastria no Brasil\u201d, sustenta Elias Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Em Maric\u00e1, no Rio de Janeiro, algo nesse sentido j\u00e1 est\u00e1 em curso \u2013 tamb\u00e9m fruto da articula\u00e7\u00e3o com a Baobab e o MST. Em julho de 2025, a prefeitura assinou um memorando com a empresa chinesa Sinomach Digital Technology e a brasileira OZ.Earth. O plano \u00e9 instalar f\u00e1bricas de m\u00e1quinas agr\u00edcolas para agricultura familiar e desenvolver plataformas digitais para gest\u00e3o dos maquin\u00e1rios.<\/p>\n<p>A cidade fluminense, na opini\u00e3o de Elias, \u00e9 exemplo de que mudar a realidade da mecaniza\u00e7\u00e3o no Brasil n\u00e3o \u00e9 um ideal distante. \u201cA ind\u00fastria de m\u00e1quinas em Maric\u00e1 vai come\u00e7ar agora. Sem m\u00e1quinas adequadas, sem ind\u00fastrias adequadas, voc\u00ea n\u00e3o tem uma agroecologia na escala que a gente est\u00e1 demandando.\u201d<\/p>\n<figure>\n<div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/2025\/09\/22\/virando-a-chave-maquinas-chinesas-sao-aposta-do-mst-para-alimentar-o-brasil\/\">Virando a chave: m\u00e1quinas chinesas s\u00e3o aposta do MST para alimentar o Brasil<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/mst.org.br\/\">MST<\/a>.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wellington-rainho-presente-por-uma-sociedade-sem-manicomios\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Wellington Rainho, presente! 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