{"id":54051,"date":"2025-09-22T17:11:15","date_gmt":"2025-09-22T20:11:15","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-iii-para-a-agroecologia-sair-do-papel\/"},"modified":"2025-09-22T17:11:15","modified_gmt":"2025-09-22T20:11:15","slug":"lula-iii-para-a-agroecologia-sair-do-papel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-iii-para-a-agroecologia-sair-do-papel\/","title":{"rendered":"Lula III: Para a agroecologia sair do papel"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"688\" height=\"386\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-22-at-17-12-47-agricultura_el_salvador_1jpg_277480955webp-imagem-WEBP-688-386-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-22-at-17-12-47-agricultura_el_salvador_1jpg_277480955webp-imagem-WEBP-688-386-pixels.png 688w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-22-at-17-12-47-agricultura_el_salvador_1.jpg_277480955.webp-imagem-WEBP-688-\u00d7-386-pixels-300x168.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 688px) 100vw, 688px\"><figcaption>Foto: El Economista<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Leia a primeira parte: <strong>Uma radiografia dos impasses no campo<\/strong><\/p>\n<h3><strong>As pol\u00edticas p\u00fablicas para a agricultura familiar no governo Lula III<\/strong><\/h3>\n<p>Neste governo a grande mudan\u00e7a apareceu na defini\u00e7\u00e3o de objetivos na etapa de transi\u00e7\u00e3o no final de 2022. O novo MDA passou a definir seus objetivos como os da promo\u00e7\u00e3o da agroecologia. A nova linguagem, entretanto, n\u00e3o teve nenhuma incid\u00eancia nas a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas do minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>O MDA retomou as mesmas pol\u00edticas dos governos passados com os mesmos v\u00edcios e defeitos, com prioridade para o cr\u00e9dito orientado para o setor modernizado da regi\u00e3o Sul e os neocriadores de gado do Nordeste. Mais ainda que nos governos anteriores, a parcela do or\u00e7amento dirigida para este cr\u00e9dito e este p\u00fablico ocupa 80% dos recursos dispon\u00edveis para os gastos final\u00edsticos. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma orienta\u00e7\u00e3o ou prefer\u00eancia para um uso do cr\u00e9dito voltado para a agroecologia e talvez isto seja uma ben\u00e7\u00e3o pois este governo ignora totalmente os condicionantes da agroecologia para opera\u00e7\u00f5es de financiamento e os riscos de desastre ou fiasco nos acessos seriam grandes.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-GERA-18.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-GERA-18.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A \u00fanica iniciativa nova adotada foi o programa de Quintais Produtivos, muito embora este tenha sido t\u00e3o mal formulado a ponto de estar condenado ao desastre. Este programa tem o potencial de beneficiar a camada mais empobrecida da AF, os minifundistas do semi\u00e1rido, sobretudo as mulheres. Mas seria preciso redefinir praticamente todo o programa e multiplicar seu or\u00e7amento por cinco, apenas para atingir o p\u00fablico de 90 mil quintais estimado pelo governo, que representa menos de 4% do p\u00fablico potencial.<\/p>\n<p>Quanto ao MDA, pode-se dizer que o ministro n\u00e3o sabe o que fazer e isto n\u00e3o incomoda o governo porque quem n\u00e3o sabe o que fazer n\u00e3o gasta recursos de um or\u00e7amento muito baixo. N\u00e3o h\u00e1 o que se esperar para a agroecologia neste governo.<\/p>\n<p>Um dos programas mais bem avaliados nos governos populares anteriores, o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos, teve dimens\u00f5es bastante diminutas. No seu auge, em 2012, investiu cerca de 840 milh\u00f5es de reais (valor corrente naquele ano, n\u00e3o corrigido) e beneficiou apenas 140 mil agricultores familiares, ou perto de 4% do total. Em 2023, no primeiro ano deste governo Lula III, foram 77 mil agricultores benefici\u00e1rios do PAA, com um investimento de 1,1 bilh\u00e3o de reais. Aumentou o valor do financiamento de cada fam\u00edlia fornecedora de alimentos, mas em termos de valor atualizado o progresso foi pequeno. Em termos sociais, surgiu uma concentra\u00e7\u00e3o maior dos projetos em menos benefici\u00e1rios. Do ponto de vista do apoio \u00e0 agroecologia, \u00e9 preciso constatar que menos de 8 mil agricultores familiares forneceram produtos org\u00e2nicos ou agroecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>A maior parte do or\u00e7amento do PAA \u00e9 coberto pelo Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social, embora o PAA esteja vinculado ao MDA.<\/p>\n<p>Quanto ao PNAE, n\u00e3o se sabe quantos foram os agricultores familiares que acessaram a possibilidade de fornecer alimentos para a merenda escolar e muito menos quantos ofereceram produtos org\u00e2nicos ou agroecol\u00f3gicos. Por experiencia pr\u00f3pria, posso dizer que tirando os munic\u00edpios menores, onde os gestores das escolas conhecem os fornecedores de alimentos e as distancias s\u00e3o relativamente pequenas, os entraves para as compras de produtos da agricultura familiar s\u00e3o enormes, mesmo sem a prioridade para os produtos agroecol\u00f3gicos ou org\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Sem a organiza\u00e7\u00e3o de uma oferta de alimentos estruturada e sistem\u00e1tica, envolvendo a coleta e entrega coletivas, nenhum gestor de escola vai se meter a procurar os agricultores familiares um por um e contratar entregas em volumes e datas fixas. Quanto maior a demanda de cada col\u00e9gio mais complexa fica a opera\u00e7\u00e3o e mais dif\u00edcil a sua legaliza\u00e7\u00e3o. Estes limitante ficam ainda mais agudos para as compras de alimentos para a merenda dos col\u00e9gios nos centros urbanos. Para ganhar tempo e evitar riscos da fiscaliza\u00e7\u00e3o todo gerente vai preferir comprar alimentos nos mercados institucionais, no atacado ou no varejo.<\/p>\n<p>Para explorar a oportunidade criada pelas regras do PNAE e, em parte, as do PAA, seria preciso um movimento de organiza\u00e7\u00e3o cooperativa de produtores que atendesse \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de entrega de produtos em quantidade, qualidade e temporalidade em cada munic\u00edpio e cada escola. Sem isso, a lei fica letra morta ou tomada por intermedi\u00e1rios n\u00e3o necessariamente vinculados aos produtores. Estas observa\u00e7\u00f5es valem para projetos de mesma natureza de governos estaduais, embora seja necess\u00e1rio analisar cada caso.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUCITEC-basaglia5-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/HUCITEC-basaglia5-1.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-basaglia5-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Conclus<\/strong><strong>\u00f5<\/strong><strong>es<\/strong><\/p>\n<p>Todos os governos federais desde os anos noventa adotaram essencialmente a mesma pol\u00edtica de promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento da agricultura familiar, centrada no cr\u00e9dito banc\u00e1rio para financiar insumos qu\u00edmicos, sementes e maquin\u00e1rio no Sul e no Sudeste, ou para financiar as infraestruturas necess\u00e1rias para a cria\u00e7\u00e3o de gado bovino no Nordeste.<\/p>\n<p>A grande maioria dos agricultores familiares, sobretudo os mais pobres, ficou \u00e0 margem das pol\u00edticas p\u00fablicas de desenvolvimento, sendo apenas beneficiados pelas pol\u00edticas sociais.<\/p>\n<p>O impacto destas pol\u00edticas foi o enriquecimento de uma minoria da AFs, o abandono do mundo rural por quase um milh\u00e3o de AFs, e a manuten\u00e7\u00e3o da maioria na condi\u00e7\u00e3o de pen\u00faria e mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>A agroecologia foi adotada na linguagem do governo, mas n\u00e3o na realidade da orienta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas federais.<\/p>\n<h3><strong>Pol<\/strong><strong>\u00edticas p\u00fablicas estaduais e municipais<\/strong><\/h3>\n<p>Durante os mais 40 anos de atividades do movimento agroecol\u00f3gico, desde 1980, as campanhas por pol\u00edticas p\u00fablicas em apoio \u00e0 transi\u00e7\u00e3o para uma agricultura sustent\u00e1vel estiveram focadas na esfera federal. Com o golpe que derrubou o governo da presidente Dilma Rousseff e o desmonte das pol\u00edticas conquistadas, foi preciso mudar o foco das reivindica\u00e7\u00f5es, centrando-o nas pol\u00edticas estaduais e municipais.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou de forma espont\u00e2nea, com as bases territoriais de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil buscando novos espa\u00e7os de interrela\u00e7\u00e3o com os poderes p\u00fablicos locais. \u00c0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es municipais de 2020, a Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia (ANA) fez um levantamento destas campanhas e identificou mais de 700 pol\u00edticas p\u00fablicas deliberadas em 531 munic\u00edpios. Os temas abrangeram a recupera\u00e7\u00e3o de sementes de variedades crioulas, fomento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e apoio a grupos produtivos de mulheres, processamento (legisla\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria, estrutura\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de armazenamento e de beneficiamento de alimentos), distribui\u00e7\u00e3o (apoio a feiras municipais e locais, compras institucionais) e descarte (sistemas ecol\u00f3gicos de saneamento, coleta de res\u00edduos e compostagem).<\/p>\n<p>Esta base de iniciativas locais serviu como refer\u00eancia para a elabora\u00e7\u00e3o de uma carta-compromisso modelo, intitulada Pol\u00edticas de Futuro que buscou a ades\u00e3o de candidaturas em todos os estados. Foram 1.238 assinaturas, com 14,4% de compromissados eleitos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es, a ANA mobilizou as bases para traduzir estas propostas em pol\u00edticas concretas, com foco em 39 munic\u00edpios em 26 estados. Destes esfor\u00e7os resultou a cria\u00e7\u00e3o de 10 Planos Municipais de Agroecologia, votados nas c\u00e2maras de vereadores.<\/p>\n<p>Em 2022, esta iniciativa se repetiu na escala dos Estados, com cobertura neles todos e no Distrito Federal. Foram identificadas 487 pol\u00edticas estaduais, mas n\u00e3o consegui obter a distribui\u00e7\u00e3o nas diferentes unidades da Federa\u00e7\u00e3o, nem a identifica\u00e7\u00e3o dos temas mais importantes. Quero crer que os temas n\u00e3o diferem dos que marcaram o levantamento de pol\u00edticas municipais e, por outras fontes, acredito que os temas das sementes crioulas e do fomento da produ\u00e7\u00e3o est\u00e3o entre as de maior destaque.<\/p>\n<p>A ANA n\u00e3o conseguiu, ainda, avaliar o quanto destes compromissos foi transformado em a\u00e7\u00e3o p\u00fablica concreta. Outras fontes, muito parciais, de informa\u00e7\u00e3o apontam para programas de certa envergadura em apoio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica nos estados da Bahia, Pernambuco, Para\u00edba, Rio Grande do Norte e Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Nos estados da Para\u00edba e Rio Grande do Norte, os programas de maior peso se vincularam com o projeto da Diaconia, intitulando-se Algod\u00e3o Org\u00e2nico Paraibano e Algod\u00e3o Org\u00e2nico Potiguar. Nestes estados, os governos pegaram carona nos processos em curso de promo\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o org\u00e2nico e buscaram ampli\u00e1-los, levando-os para as bases de atua\u00e7\u00e3o das Empresas Estaduais de Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural (EMATER). Existem links com a iniciativa coordenada pela Diaconia, sobretudo na ado\u00e7\u00e3o do modelo t\u00e9cnico e na rela\u00e7\u00e3o com os compradores, mas quero crer que as experi\u00eancias correm em paralelo.<\/p>\n<p>Assim como no caso das pol\u00edticas p\u00fablicas federais, j\u00e1 comentado acima, estes avan\u00e7os nas pol\u00edticas p\u00fablicas estaduais e municipais tendem a ficar perdidos por problemas de execu\u00e7\u00e3o. Tal como na esfera federal, existe uma incompreens\u00e3o dos agentes p\u00fablicos no que se refere aos princ\u00edpios da agroecologia e aos conhecimentos t\u00e9cnicos e metodol\u00f3gicos dos agentes executores.<\/p>\n<p>Tanto no caso da Para\u00edba como no do Rio Grande do Norte, a fragilidade t\u00e9cnica e metodol\u00f3gica dos agentes de ATER governamentais foi identificada pelas empresas compradoras, resultando em dificuldades nos fluxos de produ\u00e7\u00e3o certificada. Segundo uma delas, entre os mil e tantos produtores familiares assistidos pelo estado potiguar em somente um munic\u00edpio,\u00a0a oferta de algod\u00e3o manteve estabilidade na quantidade e qualidade do produto, muito embora este munic\u00edpio concentre uma boa parte dos participantes do programa. J\u00e1 na Para\u00edba,\u00a0a queixa dirigiu-se a inger\u00eancias pol\u00edtico-eleitorais no programa, com promessas de pagamento acima do que o mercado estava disposto a assumir.<\/p>\n<p>Sem maior conhecimento do que vem ocorrendo nos programas governamentais, n\u00e3o posso avalizar estas observa\u00e7\u00f5es, mas a experi\u00eancia pregressa indica que deve haver algum n\u00edvel de raz\u00e3o nas cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Ao que pude perceber, os programas governamentais em qualquer n\u00edvel padecem dos mesmos defeitos: o de querer ampliar muito rapidamente a escala de participa\u00e7\u00e3o dos agricultores familiares, o de carecer de assist\u00eancia t\u00e9cnica qualificada em qualidade e quantidade e o de ignorar as peculiaridades da diversidade de situa\u00e7\u00f5es entre os produtores.<\/p>\n<p>De toda forma, este conjunto aparentemente significativo de iniciativas parece resultar em uma resposta positiva dos poderes p\u00fablicos frente \u00e0s campanhas da sociedade civil, mas a prec\u00e1ria base conceitual dos agentes governamentais pode resultar em muitos problemas pr\u00e1ticos e em eventuais fiascos. N\u00e3o se pode esquecer a maior experi\u00eancia de promo\u00e7\u00e3o estatal da agroecologia, ocorrida h\u00e1 poucos anos no Sri Lanka. Um novo governo decidiu converter toda a produ\u00e7\u00e3o do pa\u00eds para a agroecologia, atrav\u00e9s de normativas nacionais, e deu com os burros n\u2019\u00e1gua em pouco tempo, resultando no abandono da proposta.<\/p>\n<p>Um dos entraves mais importantes para o aumento de escala da produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica segue sendo a forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e metodol\u00f3gica de profissionais das ci\u00eancias agr\u00e1rias e isto n\u00e3o se resolve por decreto, seja ele municipal, estadual ou federal.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de desenvolvimento agroecol\u00f3gico ou org\u00e2nico se d\u00e3o, na maior parte dos casos, sem o apoio das pol\u00edticas p\u00fablicas federais ou estaduais. O seu sucesso e os seus problemas n\u00e3o s\u00e3o o objeto deste trabalho, mas \u00e9 preciso constatar que faz muita falta uma avalia\u00e7\u00e3o geral do que foi acumulado como sucesso e como fracasso nos \u00faltimos 40 anos. Analisar as causas de uns e de outros resultados \u00e9 essencial para poder avan\u00e7ar e influenciar as pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio abrir uma discuss\u00e3o sobre os caminhos mais amplos para a agricultura familiar nas diferentes regi\u00f5es do Brasil, mas em particular na regi\u00e3o Nordeste, que concentra a maioria dos AFs e a maioria dos mais pobres e miser\u00e1veis. Este debate dever\u00e1 levar em conta uma proje\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es ambientais que v\u00e3o afetar as diferentes regi\u00f5es e discutir o que vai ser poss\u00edvel fazer para enfrent\u00e1-las.<\/p>\n<h3><strong>O que faz falta para definir pol\u00edticas p\u00fablicas<\/strong><\/h3>\n<p>Sem um projeto de pa\u00eds e de sociedade, a formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas fica ao sabor dos interesses de uma ou outra classe ou categoria social, ou ainda de particularismos, ao sabor das press\u00f5es dos lobistas e do jogo de poder dos partidos. \u00c9 o nosso presente caso no Brasil e tem sido assim h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>Sem pretender responder a todos os elementos de um projeto nacional, vou indicar algumas ideias for\u00e7a para maiores reflex\u00f5es no futuro.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 preciso saber qual \u00e9 o lugar da agricultura na constru\u00e7\u00e3o de um futuro sustent\u00e1vel para o Brasil. Tirando a quest\u00e3o da sustentabilidade, os formuladores da pol\u00edtica para os AFs nos anos 90 tinham um projeto de sociedade, na verdade, uma c\u00f3pia do modelo americano. Para eles, a agricultura familiar seria um nicho pequeno em um mercado de produtos agr\u00edcolas totalmente dominado pelo agroneg\u00f3cio. Reparem que o papel principal atribu\u00eddo \u00e0 agricultura pelos neoliberais de FHC era garantir o balan\u00e7o de pagamentos do pa\u00eds, mantendo um superavit junto com as exporta\u00e7\u00f5es de min\u00e9rios. A produ\u00e7\u00e3o para o abastecimento interno nunca foi objeto de programas espec\u00edficos, deixando-se o abastecimento local \u00e0 merc\u00ea dos mercados.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, certamente, isto que queremos para o Brasil.<\/p>\n<p>O papel da agricultura e dos agricultores \u00e9, ou dever\u00e1 ser, muito mais amplo e complexo do que imaginaram os neoliberais. Em primeiro lugar, o objetivo central da agricultura deve ser o de garantir uma alimenta\u00e7\u00e3o correta em qualidade nutricional e em quantidade para toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Centrar no abastecimento interno tem a ver com uma an\u00e1lise da crise energ\u00e9tica que vai se abater sobre o planeta e que dever\u00e1 tornar o transporte de bens e pessoas muito mais caro do que hoje e obrigar a uma desglobaliza\u00e7\u00e3o. As economias de energia dever\u00e3o obrigar uma relocaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, limitando muito o com\u00e9rcio internacional e at\u00e9 interno em pa\u00edses da dimens\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>Reduzir a milhagem viajada pelos produtos alimentares colocados no mercado significa diversificar ao m\u00e1ximo a produ\u00e7\u00e3o em cada bioma e ecossistema. Isto significa, por exemplo, repensar o consumo di\u00e1rio do p\u00e3o, elemento central de todas as dietas. N\u00e3o sendo o trigo uma cultura adapt\u00e1vel em todos os nossos biomas, deveria ser reduzido o consumo do \u201cp\u00e3ozinho franc\u00eas\u201d ao Rio Grande do Sul ou ao Sul.<\/p>\n<p>No resto do pa\u00eds ter\u00edamos como escolhas a volta da broa de milho (que j\u00e1 foi dominante at\u00e9 os anos cinquenta) ou da tapioca (de mandioca). Existem outras esp\u00e9cies agr\u00edcolas apropriadas para biomas e ecossistemas que podem produzir substitutos nutritivos e saborosos para o p\u00e3o de trigo (ou de centeio), algumas nativas e outras ex\u00f3ticas como o amaranto ou a quinoa. O essencial a se apreender neste ponto \u00e9 a necessidade de uma nova orienta\u00e7\u00e3o na dieta e na produ\u00e7\u00e3o de alimentos de modo a reduzir o investimento em transporte.<\/p>\n<p>A esta nova orienta\u00e7\u00e3o se agrega a necessidade de se produzir de forma sustent\u00e1vel os alimentos destas novas dietas diversificadas e regionalizadas. A agroecologia \u00e9 um paradigma de produ\u00e7\u00e3o que trabalha com a m\u00e1xima diversidade dos sistemas de cultivo e com a m\u00e1xima adapta\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e variedades \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais locais. A sua maior utiliza\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e variedades no desenho dos sistemas produtivos combina com a oferta diversificada de alimentos para uma demanda que dever\u00e1 ser mais local, territorial e microrregional.<\/p>\n<p>A agroecologia tem grande economia no uso de energia em compara\u00e7\u00e3o com os sistemas convencionais, mas tem baixa produtividade do trabalho na compara\u00e7\u00e3o com estes mesmos sistemas. Isto implica que a agricultura ter\u00e1 que se centrar na produ\u00e7\u00e3o familiar em escala de baixa motomecaniza\u00e7\u00e3o, sempre no sentido de poupar energia (mesmo que eletricidade produzida por ventos ou sol).<\/p>\n<p>Para suprir as necessidades alimentares e outras de origem agropecu\u00e1ria de forma sustent\u00e1vel,\u00a0ser\u00e3o necess\u00e1rias (estimativas do autor) cerca de 30 milh\u00f5es de fam\u00edlias produtoras, dispondo de 10 hectares em m\u00e9dia para cultivos e cria\u00e7\u00f5es. Isto permitir\u00e1 a recupera\u00e7\u00e3o de centenas de milh\u00f5es de hectares de terras degradadas e florestas parcialmente desmatadas e queimadas. A recupera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o das matas brasileiras dever\u00e1 ocupar permanentemente mais 5 milh\u00f5es de fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A realoca\u00e7\u00e3o de 35 milh\u00f5es de fam\u00edlias vai ser uma necessidade vital para a sobreviv\u00eancia da sociedade brasileira e ela vai necessitar de um apoio de pelo menos outras 15 milh\u00f5es de fam\u00edlias que se ocupar\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o de produtos, do mercado, dos servi\u00e7os, da constru\u00e7\u00e3o civil, da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e do lazer em um espa\u00e7o rural muito mais ocupado do que hoje. Os espa\u00e7os administrativos ter\u00e3o que ser redimensionados (e muito diminu\u00eddos) e se tornar\u00e3o mais importantes neste novo mundo do que os espa\u00e7os nacionais e estaduais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 demais lembrar que este modelo de produ\u00e7\u00e3o e de consumo ter\u00e1 enorme impacto na redu\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, aliviando e estancando o processo de aquecimento global hoje em curso acelerado. A mudan\u00e7a na cobertura vegetal promovida pelo modelo agroecol\u00f3gico e pela recupera\u00e7\u00e3o das matas nativas vai minimizar a variabilidade da oferta h\u00eddrica provocada pelo aquecimento global.<\/p>\n<p>No entanto, precisamos entender que o abastecimento de \u00e1gua n\u00e3o pode seguir o modelo predat\u00f3rio e insustent\u00e1vel do presente. Tanto nas \u00e1reas rurais quanto nas urbanas, um vasto processo de constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas de pequeno porte de capta\u00e7\u00e3o, estocagem e conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de chuva dever\u00e1 reduzir a demanda dos grandes rios e permitir a recupera\u00e7\u00e3o das bacias hidrogr\u00e1ficas. Simultaneamente, os servi\u00e7os de saneamento dever\u00e3o acompanhar a estrat\u00e9gia de descentraliza\u00e7\u00e3o, gerando um m\u00e1ximo de tratamento local de lixo e de esgoto, diminuindo as emiss\u00f5es de GEE, reaproveitando a \u00e1gua e produzindo composto org\u00e2nico para uso na agricultura. Isto poder\u00e1 resolver um dos maiores problemas da manuten\u00e7\u00e3o da fertilidade dos solos cultivados, ampliando em muito o n\u00edvel de sustentabilidade da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos e dever\u00edamos prosseguir discutindo a gera\u00e7\u00e3o de energia sustent\u00e1vel para substituir os combust\u00edveis f\u00f3sseis. Por outro lado, n\u00e3o podemos cair na ilus\u00e3o de que basta trocar um pelo outro. N\u00e3o vai haver energia em quantidade suficiente para substituir gasolina e diesel ou carv\u00e3o e g\u00e1s. Por isso, a import\u00e2ncia da relocaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e o encurtamento dos trajetos entre produ\u00e7\u00e3o e consumo. Isto significa descentralizar a popula\u00e7\u00e3o e diminuir muito as cidades, sobretudo as grandes metr\u00f3poles. Vai ser preciso descentralizar a oferta de energia e multiplicar o uso local de pain\u00e9is solares ou moinhos de vento, abandonando as mega fazendas de vento e de sol. A produ\u00e7\u00e3o descentralizada \u00e9 notavelmente mais rent\u00e1vel do que a concentrada, sobretudo pelos custos e perdas energ\u00e9ticas na distribui\u00e7\u00e3o de eletricidade produzida de forma concentrada.<\/p>\n<p>O transporte dever\u00e1 ser o mais racional poss\u00edvel na economia energ\u00e9tica e isto elimina o sacrossanto autom\u00f3vel de uso individual. Os modais de transporte dever\u00e3o abandonar ao m\u00e1ximo o uso de estradas pelo de hidrovias, cabotagem, trens e metros (nas cidades). O transporte a\u00e9reo ser\u00e1 necessariamente muito diminu\u00eddo e dirigido a prioridades sociais essenciais. Vai ser um mundo muito menos conectado diretamente pelo fluxo de pessoas, sobretudo entre os continentes.<\/p>\n<p>Entrando mais em quest\u00f5es espec\u00edficas, fica a pergunta sobre qual a voca\u00e7\u00e3o da agropecu\u00e1ria nordestina, particularmente a do semi\u00e1rido. Na l\u00f3gica do liberalismo, a agricultura nos sert\u00f5es est\u00e1 condenada e cerca de 10 milh\u00f5es de pessoas deveriam emigrar para outro lugar, deixando as \u00e1reas para explora\u00e7\u00e3o de minerais, para fazendas e\u00f3licas ou solares, e para a cria\u00e7\u00e3o de gado bovino, algo que faz parte da ocupa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica destes rinc\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a solu\u00e7\u00e3o de retirar a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre um choque, mas o capitalismo nunca hesitou em aplicar solu\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas. O que \u00e9 real e tem que ser levado em conta \u00e9 que as terras est\u00e3o muito desgastadas, que a irregularidade das chuvas \u00e9 cada vez maior e que 1,5 milh\u00f5es de AFs que vivem na regi\u00e3o est\u00e3o e sempre estiveram na mis\u00e9ria. O que propor para eles?<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es Duque, entre outros ilustres estudiosos do bioma caatinga, do clima semi\u00e1rido e do potencial produtivo da regi\u00e3o, indicaram h\u00e1 muito tempo que a voca\u00e7\u00e3o dos sert\u00f5es nordestinos era a cria\u00e7\u00e3o de gado bovino e, sobretudo, caprino e ovino. Pesquisadores da Embrapa Caprinos em Sobral desenvolveram propostas de manejo da caatinga que permitem dobrar a carga animal de caprinos, de forma sustent\u00e1vel e mantendo a vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Outros estudiosos mostraram que se pode manejar as plantas xer\u00f3filas da caatinga de modo a fornecer forragem farta mesmo nos per\u00edodos de seca, para qualquer tipo de gado.<\/p>\n<p>Os estudos em quest\u00e3o n\u00e3o enfrentaram o problema da oferta h\u00eddrica para os rebanhos. Isto foi feito em outra linha, desde os tempos do imp\u00e9rio, com a pol\u00edtica de \u201ccombate \u00e0 seca\u201d atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de barragens e a\u00e7udes de tamanhos muito variados. Todos os rios perenes do Nordeste est\u00e3o barrados em v\u00e1rios pontos e at\u00e9 os tempor\u00e1rios o s\u00e3o tamb\u00e9m. O excesso gerou um problema generalizado de saliniza\u00e7\u00e3o dos corpos d\u2019\u00e1gua pelo fato do volume circulante ser insuficiente para sangrar as barragens.<\/p>\n<p>Os grandes criadores de gado bovino nunca tiveram problemas maiores com falta de \u00e1gua para o rebanho beber, j\u00e1 que em suas imensas terras sempre era poss\u00edvel construir infraestruturas de reten\u00e7\u00e3o e\/ou capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua. S\u00f3 nas super secas ocorreram perdas muito elevadas por morte de sede ou fome. Os rebanhos dos latifundi\u00e1rios sofriam e emagreciam, abortavam crias ou adoeciam por efeito das grandes secas, mas os pequenos criadores de caprinos podiam, muitas vezes, perder tudo. Acesso a reservas de \u00e1gua \u00e9 e sempre foi uma quest\u00e3o estrat\u00e9gica para todos os produtores, com consequ\u00eancias tr\u00e1gicas para quem n\u00e3o o tem.<\/p>\n<p>O futuro da agricultura familiar no sert\u00e3o vai ter que passar por sistemas diversificados, t\u00edpicos da agroecologia, mas com algumas especificidades.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, vai ser preciso oferecer infraestruturas de capta\u00e7\u00e3o de recursos h\u00eddricos de forma tamb\u00e9m diversificada, com cisternas de placas para consumo da casa, barreiros trincheira para animais beberem, cisternas cal\u00e7ad\u00e3o e barragens subterr\u00e2neas para quintais de autoabastecimento e pequenos excedentes para os mercados locais. Sistemas irrigados, estes modelos independem da regularidade das chuvas e sim do volume total chovido. Um ano seco que entregue 400 mm de chuva captado nas diferentes estruturas citadas permite atravessar o ano sem perdas maiores.<\/p>\n<p>As infraestruturas citadas e outras de pequeno porte permitem manter entre 1,5 e 2,5 hectares \u201cmolhados\u201d ao longo do ano e garantem uma alimenta\u00e7\u00e3o em hortas, pequenos ro\u00e7ados e pomares para uma fam\u00edlia de at\u00e9 cinco pessoas, com vendas de excedentes aos mercados locais e de vizinhan\u00e7a. Isto permite a estas fam\u00edlias sair da mis\u00e9ria e garantir a alimenta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o lhes d\u00e1 promessas de uma vida mais digna, mesmo na suposi\u00e7\u00e3o de um consumo total dentro do essencial. Qual seria a fonte de renda maior? Qual seria o produto de mercado?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um produto \u00fanico, mas o crit\u00e9rio seria um produto vegetal ou animal resistente \u00e0 seca.<\/p>\n<p>No caso dos animais, a resposta seria a cria\u00e7\u00e3o de ovinos deslanados ou caprinos e existem v\u00e1rias ra\u00e7as bem adaptadas tanto ao estresse h\u00eddrico quanto \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o r\u00fastica, as pastagens nativas da caatinga. Tudo depende mais do tamanho da \u00e1rea dispon\u00edvel para este pastejo natural e da possibilidade de reservas de \u00e1gua.<\/p>\n<p>No caso das plantas, o algod\u00e3o moc\u00f3 \u00e9 o candidato mais evidente, desde que possa usar de irriga\u00e7\u00e3o, pelo menos de salva\u00e7\u00e3o. Outras plantas t\u00eam muito potencial, como a mamona e o agave que j\u00e1 foram exploradas no passado, ou o pinh\u00e3o bravo, objeto de estudos nunca terminados. Todas s\u00e3o plantas com alto potencial de mercado, mas com cobran\u00e7a de experi\u00eancias concretas para que se possa propor a sua generaliza\u00e7\u00e3o. De qualquer forma, estas s\u00e3o apenas sugest\u00f5es e as respostas podem ser muito variadas e diversificadas.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que estas ideias enfrentam problemas de todo tipo ao sair do papel para o mundo real. A cria\u00e7\u00e3o de caprinos, por exemplo, entrou em decl\u00ednio ap\u00f3s ter sido uma marca do sertanejo nordestino, devido a uma aparente benesse do legislativo.<\/p>\n<p>No come\u00e7o dos anos 80, foi votada uma lei que se chamou no vulgo de \u201clei da cerca\u201d. Teoricamente, ela visava impedir que os criadores de gado bovino deixassem suas manadas invadirem as lavouras dos agricultores familiares. Os latif\u00fandios foram obrigados a cercar as suas terras e manter o seu gado dentro delas. Ocorre que a lei de cercas tamb\u00e9m obrigou os agricultores familiares a cercarem as suas terras e manterem suas cabras dentro delas.<\/p>\n<p>O custo para cercar as terras e para dividir os pastos nas propriedades dos AFs foi enorme e dif\u00edcil de executar, sobretudo porque o gado caprino \u00e9 de tipo arisco e capaz de passar cercas de muitos fios farpados. Al\u00e9m disso, o fato de que cessou de existir o pastoreio extensivo na caatinga, a carga animal poss\u00edvel dentro das cercas dos AFs ficou menor do que no sistema anterior. O resultado foi a diminui\u00e7\u00e3o dos rebanhos ou o sobre pastoreio, implicando no desgaste da vegeta\u00e7\u00e3o e dos solos.<\/p>\n<p>Por ser um gado mais f\u00e1cil de controlar e manejar, muitos AFs passaram a trocar caprinos por ovinos. Foi uma solu\u00e7\u00e3o muito parcial, dado o mercado de carne de ovelha ser muito menor do que o de cabra e pelo fato de que os roubos de ovelhas s\u00e3o mais f\u00e1ceis do que os de cabras. Por estes efeitos, os criat\u00f3rios de caprinos e ovinos diminu\u00edram muito no semi\u00e1rido.<\/p>\n<p>Para concluir, n\u00e3o tenho resposta para estas perguntas aqui levantadas a n\u00e3o ser do ponto de vista dos crit\u00e9rios a aplicar para obter as respostas. Mas defendo que este debate seja conduzido de forma ampla pelos movimentos sociais, pelas organiza\u00e7\u00f5es de apoio e pelos meios cient\u00edficos do Brasil, de forma regionalizada e at\u00e9 territorializada, pois acredito que as respostas ser\u00e3o tamb\u00e9m diversificadas.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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