{"id":55033,"date":"2025-09-26T20:04:54","date_gmt":"2025-09-26T23:04:54","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/havera-futuro-para-os-camponeses\/"},"modified":"2025-09-26T20:04:54","modified_gmt":"2025-09-26T23:04:54","slug":"havera-futuro-para-os-camponeses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/havera-futuro-para-os-camponeses\/","title":{"rendered":"Haver\u00e1 futuro para os camponeses?"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"740\" height=\"322\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-20-08-05-essay-panos_00188335webp-imagem-WEBP-3840-2560-pixels-Redimensionada-23_-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-20-08-05-essay-panos_00188335webp-imagem-WEBP-3840-2560-pixels-Redimensionada-23_-1.jpg 740w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-20-08-05-essay-panos_00188335.webp-imagem-WEBP-3840-\u00d7-2560-pixels-Redimensionada-23_-1-300x131.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\"><figcaption>Um agricultor arando seu arrozal em Golestan, Ir\u00e3. Foto de Hossein Fatemi\/Panos Pictures <\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Maryam Aslany<\/strong>, na <em>Aeon | <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>Em 2007, as Na\u00e7\u00f5es Unidas divulgaram um relat\u00f3rio sobre a Situa\u00e7\u00e3o da Popula\u00e7\u00e3o Mundial. O documento assinalava que a vida humana na Terra estava ultrapassando silenciosamente a ultrapassar uma marca hist\u00f3rica. Em 2008, a propor\u00e7\u00e3o de pessoas residentes no campo ca\u00eda \u2013 pela primeira vez na hist\u00f3ria \u2013 para menos de 50%. Hoje, apenas 42% da humanidade vivem no campo.<\/p>\n<p>Para muitos moradores das cidades, a urbaniza\u00e7\u00e3o das sociedades \u00e9 natural e inexor\u00e1vel. Extrapolando a partir de tend\u00eancias passadas, eles imaginam um futuro no qual a grande maioria ter\u00e1 abandonado a terra, deixando-a buc\u00f3lica, automatizada e vazia. No processo, preveem \u2013 com certo al\u00edvio! \u2013 a extin\u00e7\u00e3o iminente de uma figura antiga: o campon\u00eas.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-GERA-29.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/MATERIA-GERA-29.png 681w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/MATERIA-GERAL-300x75.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" width=\"681\" height=\"171\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Essa palavra \u00e9 evitada em conversas polidas; em muitos idiomas, \u00e9 usada como um termo de insulto ou desprezo. Os pr\u00f3prios camponeses s\u00e3o vistos como um vest\u00edgio constrangedor, a ant\u00edtese do \u201cprogresso\u201d. Seja \u00e0 ireita ou esquerda, os pensadores ocidentais ensinaram que, para se tornarem modernas, as sociedades precisam livrar-se de seus camponeses. Enquanto Adam Smith ansiava pela substitui\u00e7\u00e3o dos camponeses por propriet\u00e1rios de terras (pois ent\u00e3o \u201ca terra\u2026 seria muito melhor aproveitada\u201d), Karl Marx previu sua substitui\u00e7\u00e3o pela gest\u00e3o socialista moderna. Tornou-se lugar-comum que a agricultura acabaria por ser monopolizada por grandes capitais e maquin\u00e1rio, e que as cidades absorveriam a maior parte da popula\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"795\" height=\"595\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-52-42-rf-592webp-imagem-WEBP-828-619-pixels-Redimensionada-96.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-52-42-rf-592webp-imagem-WEBP-828-619-pixels-Redimensionada-96.png 795w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-52-42-rf-592.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-619-pixels-Redimensionada-96-300x225.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-52-42-rf-592.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-619-pixels-Redimensionada-96-768x575.png 768w\" sizes=\"(max-width: 795px) 100vw, 795px\"><figcaption>Arte: Os Respigadores de Jean-Fran\u00e7ois Millet (1857) \/Mus\u00e9e d\u2019Orsay. RMN-Grand Palais\/Patrice Schmidt <\/figcaption><\/figure>\n<p>Mesmo na Europa em industrializa\u00e7\u00e3o, o processo n\u00e3o foi exatamente assim. Sim, o campo tradicional foi largamente destru\u00eddo entre os s\u00e9culos XVIII e XX \u2013 mas o \u00eaxodo resultante foi muito maior do que poderia ser absorvido pelas f\u00e1bricas urbanas. Sessenta milh\u00f5es de europeus tiveram de escapar, em vez disso, para o Novo Mundo. Mas, de qualquer forma, a Europa desempenha um papel \u00fanico na hist\u00f3ria capitalista, e seria tolo extrapolar a partir dela. Outras regi\u00f5es seguiram outros caminhos.<\/p>\n<p>Em grandes partes da \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia, a urbaniza\u00e7\u00e3o est\u00e1 desacelerarando. A maioria daqueles que entrariam em f\u00e1bricas j\u00e1 o fez. Aqueles que valorizam a seguran\u00e7a da vida na aldeia, por sua vez, t\u00eam pouca apet\u00eancia por favelas urbanas, isolamento e hipercompeti\u00e7\u00e3o. Por isso, enquanto a humanidade se urbanizava a uma taxa de 1,06% ao ano entre 1950 e 1970, essa taxa caiu agora para 0,74% e ficar\u00e1 em pouco mais de 0,6% at\u00e9 2030. Como a popula\u00e7\u00e3o mundial triplicou desde 1950, os n\u00fameros absolutos da popula\u00e7\u00e3o rural s\u00e3o hoje maiores do que nunca. Pelos meus c\u00e1lculos, at\u00e9 2 bilh\u00f5es de pessoas vivem no campo na \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina e \u00c1sia, onde as pequenas propriedades familiares dominam. Ap\u00f3s 300 anos de \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d, os camponeses ainda constituem cerca de um quarto da nossa esp\u00e9cie, superando amplamente os trabalhadores de linha de montagem, mineiros, funcion\u00e1rios de escrit\u00f3rio ou taxistas.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"552\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-53-46-insert-1-panos_00098726webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-53-46-insert-1-panos_00098726webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png 828w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-53-46-insert-1-panos_00098726.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-53-46-insert-1-panos_00098726.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-768x512.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-53-46-insert-1-panos_00098726.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"(max-width: 828px) 100vw, 828px\"><figcaption>AM Menkethana, 59, retornando de sua planta\u00e7\u00e3o de arroz em Weweldigiliya, Sri Lanka. Foto: GMB Akash\/Panos Pictures <\/figcaption><\/figure>\n<p>Os camponeses s\u00e3o definidos por pequenas propriedades familiares, geralmente com at\u00e9 4 hectares, cuja produ\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada tanto para subsist\u00eancia quanto para rendimento em dinheiro. O trabalho \u00e9 realizado principalmente pela m\u00e3o-de-obra familiar (n\u00e3o remunerada). Muito mais do que os agricultores dos pa\u00edses ricos, os camponeses est\u00e3o totalmente expostos \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es do clima e dos mercados. A sua sorte pode variar de modo dram\u00e1tico de um ano para o outro.<\/p>\n<p>Os camponeses est\u00e3o totalmente integrados na economia do s\u00e9culo XXI, que n\u00e3o poderia funcionar sem sua produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar, algod\u00e3o, cacau e outras <em>commodities<\/em> essenciais. Embora controle menos de um quarto das terras agr\u00edcolas mundiais, a agricultura camponesa \u00e9 altamente eficiente, e estimativas sugerem que 70% da popula\u00e7\u00e3o mundial depende dela para parte ou toda a sua alimenta\u00e7\u00e3o. Em muitos setores cruciais, a produ\u00e7\u00e3o camponesa \u00e9 tamb\u00e9m mais adequada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es sociais. A agricultura camponesa \u00e9 ainda melhor do que as alternativas industriais na gest\u00e3o da sa\u00fade do solo, dos recursos h\u00eddricos e da biodiversidade, sendo por isso amplamente vista como um escudo contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Sem camponeses, a economia global n\u00e3o poderia funcionar e os nossos sistemas naturais entrariam em colapso.<\/p>\n<p>A vida ainda depende do campesinato. Todos n\u00f3s somos afetados, portanto, pelo fato de esta classe social se encontrar hoje numa crise aguda. Uma crise que raramente recebe aten\u00e7\u00e3o adequada na discuss\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em raras ocasi\u00f5es, o campo consegue chegar \u00e0 primeira p\u00e1gina. Em setembro de 2020, protestos de grande escala de agricultores eclodiram na \u00cdndia ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o de novas leis que davam \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es um papel maior nos mercados agr\u00edcolas. Agricultores em v\u00e1rios estados indianos \u2013 especialmente Punjab e Haryana, onde muitos dependiam do Estado para comprar o seu trigo e arroz \u2013 realizaram manifesta\u00e7\u00f5es e bloquearam as autoestradas para D\u00e9lhi. A capital \u00e9 um centro medi\u00e1tico global; naturalmente, houve uma cobertura generalizada.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/circuito3anos-banner_outraspalavras-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/circuito3anos-banner_outraspalavras-2.jpg 729w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"552\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-20-insert-protest-panos_00353717webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-20-insert-protest-panos_00353717webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png 828w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-20-insert-protest-panos_00353717.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-20-insert-protest-panos_00353717.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-768x512.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-20-insert-protest-panos_00353717.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\"><figcaption>Agricultores em protesto queimam uma ef\u00edgie das leis agr\u00edcolas em um local de protesto nos arredores de D\u00e9li. Foto de Harsha Vadlamani\/Panos Pictures <\/figcaption><\/figure>\n<p>Essa cobertura \u00e9 rara; os protestos dos agricultores, no entanto, s\u00e3o end\u00eamicos. Em novembro e dezembro de 2020 \u2013 enquanto as estradas para D\u00e9lhi estavam bloqueadas por tratores \u2013 soldados no Peru disparavam contra agricultores que protestavam contra uma lei que isentava o agroneg\u00f3cio de obriga\u00e7\u00f5es para com os trabalhadores. No Uzbequist\u00e3o, tamb\u00e9m em 2020, agricultores protestaram contra o sistema de <em>clusters<\/em>, pelo qual a terra era for\u00e7osamente entregue a <em>clusters<\/em> corporativos, geralmente geridos por indiv\u00edduos pr\u00f3ximos da elite pol\u00edtica. Nos \u00faltimos cinco anos, protestos s\u00e9rios de agricultores ocorreram na Argentina, Brasil, Col\u00f4mbia, Equador, Gana, Qu\u00e9nia, Indon\u00e9sia, Nepal, Ir\u00e3, Paquist\u00e3o, Filipinas, Uganda \u2013 e a lista continua.<\/p>\n<p>Por detr\u00e1s dos protestos encontra-se uma vaga ainda maior de descontentamento invis\u00edvel. Nas minhas viagens por redutos camponeses da Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e \u00c1sia, encontrei por toda parte a f\u00faria dos agricultores em resposta aos ataques \u00e0s suas terras e a pol\u00edticas concebidas para permitir que o agroneg\u00f3cio e os processadores industriais capturem cada vez mais do seu rendimento. \u201cN\u00e3o adianta o governo oferecer al\u00edvio da pobreza aos agricultores\u201d, disse-me um organizador agr\u00edcola na \u00cdndia, \u201cquando as suas pol\u00edticas os mant\u00eam na escravid\u00e3o. Primeiro \u00e9 preciso libertar os bra\u00e7os e as pernas dos agricultores.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, a crise camponesa chega aos meios de comunica\u00e7\u00e3o por outras raz\u00f5es. Os levantes da Primavera \u00c1rabe, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, acumularam for\u00e7a a partir dos protestos agr\u00e1rios no Oriente M\u00e9dio e Norte de \u00c1frica \u2013 mesmo que os agricultores tenham sido rapidamente marginalizados depois. Muito do que \u00e9 geralmente noticiado como \u201cterrorismo\u201d tamb\u00e9m tem as suas ra\u00edzes no colapso do campo. O Boko Haram e outros grupos militantes que operam ao longo da margem sul do Saara recrutam suas for\u00e7as entre agricultores e pastores deslocados pela desertifica\u00e7\u00e3o, altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e pelo fechamento de rotas n\u00f4mades tradicionais. \u201cGrupos jihadistas\u201d, escreve um perito, \u201cperceberam que certas popula\u00e7\u00f5es foram obrigadas a enfrentar sozinhas os impactos devastadores das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas nos seus meios de subsist\u00eancia tradicionais\u201d, o que \u201ccriou terreno f\u00e9rtil para o recrutamento.\u201d<\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o em massa \u00e9 outro sintoma a crise. A maioria dos refugiados rurais dirige-se \u00e0 metr\u00f3pole mais pr\u00f3xima, mas dezenas de milh\u00f5es s\u00e3o levados a cruzar as fronteiras internacionais. As caravanas de migrantes que saem da Guatemala, El Salvador e Honduras em dire\u00e7\u00e3o ao M\u00e9xico e aos Estados Unidos s\u00e3o largamente compostas por tais refugiados. Outras rotas levam do Burkina Faso, Mali, N\u00edger e Chade atrav\u00e9s do Norte de \u00c1frica, para a Europa; e da \u00c1frica Oriental para a \u00c1sia Ocidental.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"551\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-58-insert-3-panos_00191099webp-imagem-WEBP-828-551-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-58-insert-3-panos_00191099webp-imagem-WEBP-828-551-pixels.png 828w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-58-insert-3-panos_00191099.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-551-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-58-insert-3-panos_00191099.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-551-pixels-768x511.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-54-58-insert-3-panos_00191099.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-551-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\"><figcaption>Valli Kupuswamy, 55, capinando seu arrozal. Foto de Sanjit Das\/Panos Pictures <\/figcaption><\/figure>\n<p>O suic\u00eddio \u00e9 uma chaga. De acordo com defensores dos agricultores que entrevistei, mais de 400 mil agricultores indianos tiraram a pr\u00f3pria vida. A maior concentra\u00e7\u00e3o tem sido nas regi\u00f5es produtoras de algod\u00e3o de Maharashtra. O algod\u00e3o \u00e9 um recurso global cr\u00edtico, cujo pre\u00e7o tem impacto pol\u00edtico agudo. Uma malha sofisticada de leis e mercados induz os produtores a vender continuamente abaixo do custo de produ\u00e7\u00e3o \u2013 e assim a entrar numa espiral de d\u00edvida da qual muitas vezes s\u00f3 encontram sa\u00edda mortal.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o alguns dos sintomas da crise do campesinato global na era neoliberal. N\u00e3o devemos ter d\u00favidas: \u00e9 uma crise pol\u00edtica. Por toda a parte, os Estados est\u00e3o quebrando seu contrato com os camponeses e voltando-se, em vez disso, para alian\u00e7as antiagr\u00e1rias com corpora\u00e7\u00f5es globais, figur\u00f5es locais, crime organizado e gangsterismo. Se n\u00e3o for freada, esta crise trar\u00e1 consequ\u00eancias aterradoras; pode mesmo amea\u00e7ar a nossa sobreviv\u00eancia como esp\u00e9cie. \u00c9, talvez, a hist\u00f3ria mais importante do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>Durante a maior parte da hist\u00f3ria, os camponeses forneciam o recurso econ\u00f3mico b\u00e1sico: sem eles, n\u00e3o havia Estado. Existia, portanto, um v\u00ednculo especial entre camponeses e reis. Governantes bem-sucedidos \u2013 por exemplo, na China, P\u00e9rsia, \u00cdndia, Egito, Ar\u00e1bia, Eti\u00f3pia, \u00c1frica Ocidental, nos Andes \u2013 nutriam a economia agr\u00e1ria ao lan\u00e7ar obras de irriga\u00e7\u00e3o, proteger as posses de terra dos camponeses, garantir os pre\u00e7os dos cultivos, alimentar as popula\u00e7\u00f5es quando as colheitas falhavam e controlar comerciantes, intermedi\u00e1rios e especuladores de terras. Muitos desses sistemas foram destru\u00eddos pelo colonialismo europeu; restaur\u00e1-los foi um objetivo principal dos governos p\u00f3s-coloniais asi\u00e1ticos e africanos. Quest\u00f5es semelhantes assolaram a Am\u00e9rica Latina do s\u00e9culo XX, onde os movimentos democr\u00e1ticos agr\u00e1rios foram continuamente confrontados com oligarquias latifundi\u00e1rias e alian\u00e7as anticomunistas.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"552\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-55-34-insert-cocoa-farm-7webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-55-34-insert-cocoa-farm-7webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png 828w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-55-34-insert-cocoa-farm-7.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-55-34-insert-cocoa-farm-7.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-768x512.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-55-34-insert-cocoa-farm-7.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\"><figcaption>Fazenda de coca no Vale do Rio Apur\u00edmac, em Ene e Mantaro (Peru). Fornecido pelo autor. <\/figcaption><\/figure>\n<p>Nas d\u00e9cadas anteriores a 1980, alguns pa\u00edses em desenvolvimento testemunharam uma reforma agr\u00e1ria radical e dram\u00e1tica. Os governos redistribu\u00edram terras, garantiram que os agricultores tivessem t\u00edtulos firmes e protegeram-nos da necessidade de vender estas posses em tempos de dificuldade. As sementes tornaram-se um recurso nacional cr\u00edtico; os Estados criaram bancos de sementes e centros de investiga\u00e7\u00e3o para preservar o patrim\u00f3nio, desenvolver variedades de alto rendimento e garantir o fornecimento de comida. Os Estados tamb\u00e9m formalizaram os mercados agr\u00edcolas, estabeleceram pre\u00e7os m\u00ednimos e frequentemente tornaram-se eles pr\u00f3prios compradores de \u00faltima inst\u00e2ncia. Nos melhores casos \u2013 por exemplo, na Coreia do Sul ou no M\u00e9xico \u2013 tais estrat\u00e9gias melhoraram tanto os padr\u00f5es de vida quanto a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Muitas dessas reformas foram revertidas durante a reestrutura\u00e7\u00e3o neoliberal das d\u00e9cadas de 1980 e 90. Projetado por ag\u00eancias como o Banco Mundial, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio, este processo for\u00e7ou os Estados a reorganizarem-se em torno da competi\u00e7\u00e3o pelo capital global. Estabeleceram novas alian\u00e7as, n\u00e3o apenas com essas ag\u00eancias, mas crucialmente com o agroneg\u00f3cio global. Como resultado, um controle significativo dos assuntos rurais foi entregue a bancos e corpora\u00e7\u00f5es internacionais. A crise camponesa atual origina-se a\u00ed.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o quer dizer que os mercados globais estejam substituindo a agricultura camponesa por t\u00e9cnicas mais \u201cmodernas\u201d. \u00c9 verdade que, em alguns grupos de cultivos, grandes planta\u00e7\u00f5es substitu\u00edram as pequenas propriedades. A produ\u00e7\u00e3o de trigo, por exemplo, pode ser realizada em larga escala com pouca m\u00e3o-de-obra humana, usando mecaniza\u00e7\u00e3o e tipicamente altos insumos de combust\u00edveis f\u00f3sseis e fertilizantes. Tais t\u00e9cnicas foram generalizadas do M\u00e9xico e da Ucr\u00e2nia ao Cazaquist\u00e3o e \u00e0 \u00cdndia. As palmeirs produtoras de \u00f3leo tamb\u00e9m: em partes do sudeste asi\u00e1tico, os pequenos agricultores foram despossu\u00eddos \u00e0 for\u00e7a e depois trazidos de volta como trabalhadores assalariados em planta\u00e7\u00f5es corporativas de dendezeiros. E as galinhas: megazonas av\u00edcolas no sul da China \u2013 onde a avicultura era anteriormente um dom\u00ednio campon\u00eas \u2013 concentram agora perto de um bilh\u00e3o de galinhas em condi\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s de f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Nem toda a agricultura, no entanto, pode ser industrializada. O arroz, que \u00e9 o alimento b\u00e1sico para metade do planeta, \u00e9 pouco adequado a grandes planta\u00e7\u00f5es; requer interven\u00e7\u00e3o humana intensiva e \u00e9 melhor cultivado em pequenas propriedades familiares. Apesar de d\u00e9cadas de influ\u00eancia corporativa, ainda \u00e9 produzido por cerca de 500 milh\u00f5es de camponeses. O mesmo se aplica a outras culturas essenciais. A produ\u00e7\u00e3o de algod\u00e3o foi mecanizada nos EUA e na Europa, mas a qualidade sai prejudicada, raz\u00e3o pela qual a produ\u00e7\u00e3o camponesa continua a dominar; as pequenas propriedades familiares na \u00cdndia e na China contribuem, de longe, com a maior propor\u00e7\u00e3o do fornecimento global.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"553\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-56-08-insert-4webp-imagem-WEBP-828-553-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-56-08-insert-4webp-imagem-WEBP-828-553-pixels.png 828w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-56-08-insert-4.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-553-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-56-08-insert-4.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-553-pixels-768x513.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-56-08-insert-4.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-553-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\"><figcaption>Um agricultor de algod\u00e3o colhendo em Maharashtra, \u00cdndia. Fornecido pelo autor <\/figcaption><\/figure>\n<p>Os camponeses n\u00e3o s\u00f3 t\u00eam habilidades essenciais, como tamb\u00e9m s\u00e3o, da perspetiva corporativa, parceiros desej\u00e1veis \u2013 precisamente porque s\u00e3o pequenos, politicamente fracos e f\u00e1ceis de coagir. Em alguns setores, as corpora\u00e7\u00f5es chegaram at\u00e9 a fazer a descoberta lucrativa de que os camponeses \u2013 cujo primeiro compromisso \u00e9 com a terra \u2013 continuar\u00e3o a cultivar com preju\u00edzo. A reorganiza\u00e7\u00e3o neoliberal do campo n\u00e3o erradicou, portanto, o campesinato. Em vez disso, os camponeses foram legalmente reconstitu\u00eddos de forma a maximizar a efici\u00eancia e o lucro. No processo, os Estados que anteriormente estavam ao lado das suas popula\u00e7\u00f5es contra as multinacionais \u2013 vistas muitas vezes como uma influ\u00eancia neocolonial \u2013 mudaram de lado, alinhando-se com o grande capital contra as suas massas agr\u00e1rias.<\/p>\n<p>O primeiro foco da reforma neoliberal no campo tem sido transformar o campesinato global em consumidor do agroneg\u00f3cio. As sementes estiveram no centro deste processo: sob a bandeira das prote\u00e7\u00f5es \u00e0 propriedade intelectual, da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), funda\u00e7\u00f5es internacionais e ag\u00eancias de financiamento persuadiram os pa\u00edses em desenvolvimento a ilegalizar a guarda e troca tradicional de sementes e a desmantelar os bancos estatais de sementes. Os agricultores tornaram-se dependentes de produtos corporativos \u2013 que muitas vezes duravam apenas uma esta\u00e7\u00e3o e, portanto, n\u00e3o podiam ser guardados. Pequenos agricultores protestaram, em muitos pa\u00edses, contra a consequente perda de \u201csoberania das sementes\u201d e biodiversidade. Milhares de agricultores ganenses, por exemplo, protestaram contra a Lei das Melhorias Vegetais de 2013, que avan\u00e7ava com os interesses do agroneg\u00f3cio ao criminalizar os agricultores que guardavam sementes para plantar no ano seguinte; o projeto de lei foi retirado sob press\u00e3o, mas reintroduzido em 2020 sob um nome diferente.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"552\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-57-30-insert-2-panos_00168655webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-57-30-insert-2-panos_00168655webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png 828w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-57-30-insert-2-panos_00168655.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-57-30-insert-2-panos_00168655.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-768x512.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-57-30-insert-2-panos_00168655.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\"><figcaption>Um agricultor trabalhando na colheita de arroz em Goseong-gun, Coreia do Sul. Foto de Bj\u00f6rn Steinz\/Panos Pictures <\/figcaption><\/figure>\n<p>Os defensores das sementes corporativas frequentemente apontam para a Revolu\u00e7\u00e3o Verde, um triunfo dos laborat\u00f3rios e funda\u00e7\u00f5es norte-americanas da d\u00e9cada de 1970. Ela foi constru\u00edda a partir de variedades de sementes geneticamente modificadas de alto rendimento, aliadas \u00e0 irriga\u00e7\u00e3o intensiva e fertilizantes. Seu legado \u00e9 duvidoso: no estado de Punjab, o ber\u00e7o da Revolu\u00e7\u00e3o Verde da \u00cdndia, as terras agr\u00edcolas est\u00e3o saturadas de qu\u00edmicos, os aqu\u00edferos est\u00e3o desastrosamente esgotados, e os agricultores est\u00e3o presos num ciclo de custos sempre crescentes. Na era da crise clim\u00e1tica, no entanto, os pr\u00f3prios camponeses est\u00e3o desesperados para encontrar sementes mais resilientes e de maior rendimento. Com as fontes alternativas de sementes removidas, as corpora\u00e7\u00f5es desfrutaram de uma bonan\u00e7a. A Bayer (Alemanha) e a Corteva (EUA) controlam 80% das patentes de sementes geneticamente modificadas. Aliadas \u00e0s sementes est\u00e3o os fertilizantes e agrot\u00f3xicos corporativos; juntamente com a ChemChina e a Sinochem (China) e a BASF (Alemanha), por exemplo, essas mesmas empresas controlam cerca de 60% do mercado global de pesticidas.<\/p>\n<p>Agora, o campesinato global gasta centenas de bilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano em sementes e qu\u00edmicos industriais. Embora a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola seja inquestionavelmente maior como resultado, esta despesa est\u00e1 perigosamente desfasada do rendimento dos camponeses. Tradicionalmente, os camponeses tentavam, tanto quanto poss\u00edvel, sobreviver sem dinheiro, que geralmente chegava em quantidade apenas na \u00e9poca da colheita. Eles gastavam pouco em sementes e fertilizantes e alimentavam-se, tanto quanto poss\u00edvel, com os seus pr\u00f3prios recursos. Hoje, precisam dispor de quantias significativas de dinheiro na \u00e9poca da semeadura e ao longo da esta\u00e7\u00e3o de crescimento das plantas, para conseguirem chegar \u00e0 colheita.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m for\u00e7am muitos camponeses a ressemearem v\u00e1rias vezes, elevando em muito o custo do cultivo. Eles tamb\u00e9m gastam quantias muito maiores em despesas regulares como a educa\u00e7\u00e3o dos filhos. A maior parte deste dinheiro precisa ser emprestada. A maioria dos governos tem esquemas de cr\u00e9dito agr\u00edcola, mas alguns camponeses carecem da garantia e da documenta\u00e7\u00e3o para cobrir as suas necessidades desta forma. Outros esgotam rapidamente o seu potencial e devem procurar empr\u00e9stimos noutros lugares. Da\u00ed o enorme espa\u00e7o ocupado, especialmente na \u00c1sia e na \u00c1frica, pelos agiotas rurais. Cobrando frequentemente 10% de juros ou mais por m\u00eas, eles podem deixar uma imensa destrui\u00e7\u00e3o humana no seu rastro.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, as pol\u00edticas neoliberais transformaram os mercados agr\u00edcolas. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os agricultores t\u00eam sido cada vez mais exclu\u00eddos das receitas resultantes da sua produ\u00e7\u00e3o. Os meios pelos quais esta exclus\u00e3o foi alcan\u00e7ada s\u00e3o, no entanto, variados e complexos.<\/p>\n<p>Obviamente, as grandes corpora\u00e7\u00f5es t\u00eam o poder de ditar os pre\u00e7os de mercado, em detrimento de milh\u00f5es de pequenos produtores. Nesse sentido, os mercados \u201clivres\u201d parecem atuar contra os agricultores. Mas a hist\u00f3ria completa \u00e9 mais matizada. Os agricultores do cacau, da cana-de-a\u00e7\u00facar ou do algod\u00e3o do mundo em desenvolvimento raramente obt\u00eam os pre\u00e7os de mercado pelo seu produto. Entre eles e esses pre\u00e7os est\u00e3o, frequentemente, as mesmas institui\u00e7\u00f5es estatais que foram criadas no s\u00e9culo XX para proteger seu rendimento. Estas institui\u00e7\u00f5es derivaram para uma fun\u00e7\u00e3o quase oposta.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"553\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-06-insert-6webp-imagem-WEBP-828-553-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-06-insert-6webp-imagem-WEBP-828-553-pixels.png 828w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-06-insert-6.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-553-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-06-insert-6.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-553-pixels-768x513.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-06-insert-6.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-553-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\"><figcaption>Uma fam\u00edlia de produtores de arroz em Bihar, \u00cdndia. Fornecido pelo autor <\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1947, por exemplo, Gana criou monop\u00f3lios de mercado para garantir que pre\u00e7os justos fossem pagos aos produtores de cacau. Agora, essas institui\u00e7\u00f5es interpretam o \u201cinteresse nacional\u201d de forma oposta. Elas atuam para manter os pre\u00e7os baixos e, assim, gerar um subs\u00eddio, n\u00e3o apenas para o Estado, mas tamb\u00e9m para exportadores, processadores e consumidores de chocolate. Em 2023-24, os pre\u00e7os internacionais do cacau dispararam para at\u00e9 12 mil d\u00f3lares por tonelada, mas o rendimento dos agricultores foi limitado ao pre\u00e7o do governo, que oscilou entre US$ 1,8 mil e 3 mil por tonelada. As intera\u00e7\u00f5es entre os gigantes internacionais da produ\u00e7\u00e3o de doces e as ag\u00eancias governamentais da \u00c1frica Ocidental s\u00e3o complexas, mas os resultados n\u00e3o o s\u00e3o. Na d\u00e9cada de 1970, os produtores de cacau ganhavam at\u00e9 50% do valor do chocolate acabado; isso caiu para 16% na d\u00e9cada de 1980 e \u00e9 provavelmente para cerca de 6% agora. Enquanto o valor da ind\u00fastria do chocolate ultrapassou os 100 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, alguns produtores de cacau nesses pa\u00edses ganham menos de 300 d\u00f3lares por ano. Gana e Costa do Marfim, cujas ind\u00fastrias de cacau costumavam assegurar empregos a migrantes de toda a \u00c1frica Ocidental, s\u00e3o agora fontes significativas de migra\u00e7\u00e3o para a Europa.<\/p>\n<p>Grande parte do campesinato mundial \u00e9 agora v\u00edtima tanto dos mercados livres quanto dos resqu\u00edcios socialistas regredidos e controlados pelo Estado. A pol\u00edtica camponesa \u00e9, portanto, mais complexa do que geralmente se imagina. Muitos camponeses seguem o movimento de esquerda Via Campesina, que procura restaurar os sistemas camponeses tradicionais e, assim, opor-se \u00e0s sementes geneticamente modificadas e \u00e0 tomada corporativa da agricultura. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m gente comprometida com uma posi\u00e7\u00e3o quase oposta. Em lugares onde as antigas prote\u00e7\u00f5es socialistas se transformaram em instrumentos de compress\u00e3o de pre\u00e7os, muitos agricultores sonham com mercados \u201clivres\u201d.<\/p>\n<p>O terceiro alvo da reforma neoliberal do campo \u00e9 a terra camponesa. Ao contr\u00e1rio da sabedoria convencional \u2013 urbana \u2013, a maioria dos camponeses deseja manter a sua terra. Recentemente perguntei a um agricultor de algod\u00e3o indiano por que continuava o seu trabalho \u00e1rduo, quando mal cobria o custo de cultivo e tinha de trabalhar noutros empregos para financiar sua pequena propriedade deficit\u00e1ria. Por que ele simplesmente n\u00e3o vendia a sua terra e se concentrava nessas atividades mais lucrativas? \u201cA terra \u00e9 a nossa m\u00e3e\u201d, respondeu ele. \u201cVoc\u00ea vende a sua m\u00e3e?\u201d O seu sentimento \u00e9 partilhado por muitos camponeses, para quem a terra representa n\u00e3o apenas seguran\u00e7a econ\u00f4mica, mas tamb\u00e9m heran\u00e7a, os antepassados e as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>Em muitos pa\u00edses, al\u00e9m disso, vender terras agr\u00edcolas n\u00e3o \u00e9 apenas indesej\u00e1vel, \u00e9 tamb\u00e9m dif\u00edcil. As pol\u00edticas pr\u00f3-camponesas adotadas pelo Egito, \u00cdndia, M\u00e9xico e tantos outros pa\u00edses nas d\u00e9cadas de 1950 e 60 \u2013 que ilegalizaram os grandes latif\u00fandios e impediram que terras agr\u00edcolas fossem adquiridas para outros usos \u2013 agora garantem que os mercados de terras rurais permanecem fracos e os pre\u00e7os baixos. Vender a terra pode nem sequer fornecer aos agricultores capital suficiente para come\u00e7ar uma nova vida noutro lugar. Muito frequentemente, portanto, eles continuam a cultivar. Mesmo que as suas terras tenham encolhido, ap\u00f3s gera\u00e7\u00f5es de partilha heran\u00e7a, e ficado abaixo do limiar de viabilidade; mesmo que tenham se degradado devido a uma falta perene de investimento; mesmo que as receitas se tornem negativas \u2013 eles continuam a cultiv\u00e1-lo, em vez de permitir que retorne ao estado selvagem. A pequena propriedade n\u00e3o \u00e9, portanto, uma fonte de rendimento: fornece apenas estabilidade, uma base familiar, uma sensa\u00e7\u00e3o de lar. Para mant\u00ea-lo, os camponeses envolvem-se de modo subalterno em atividades hipermodernas. Fazem turnos em f\u00e1bricas para subsidiar o cultivo, enviam familiares para trabalhar na constru\u00e7\u00e3o no exterior, gerem transportes e servi\u00e7os locais. Grande parte da produ\u00e7\u00e3o camponesa \u00e9 hoje financiada a partir de outras fontes e funciona como um servi\u00e7o p\u00fablico deficit\u00e1rio. As novas fachadas brilhantemente pintadas nas aldeias cambojanas s\u00e3o pagas n\u00e3o com os lucros inexistentes do arroz, mas com as remessas de familiares que migraram e trabalham em f\u00e1bricas sul-coreanas.<\/p>\n<p>Quando a terra agr\u00edcola \u00e9 desviada para outros usos, o processo \u00e9 frequentemente violento. No Brasil, Camboja, Gana, \u00cdndia, Filipinas e muitos outros pa\u00edses, os agricultores foram expropriados \u00e0 for\u00e7a para que as suas terras possam ser reutilizadas para planta\u00e7\u00f5es, minas e projetos tur\u00edsticos. Frequentemente, estes despejos s\u00e3o executados por ag\u00eancias estatais. Na Eti\u00f3pia, Honduras e noutros lugares, as for\u00e7as policiais prenderam ou at\u00e9 dispararam contra agricultores por protestarem. Mas grandes \u00e1reas do campo global tamb\u00e9m est\u00e3o sendo criminalizadas, e os agricultores encontram-se em competi\u00e7\u00e3o com for\u00e7as n\u00e3o estatais violentas. Os camponeses s\u00e3o as principais v\u00edtimas, por exemplo, dos mineiros de ouro ilegais no Peru e na Col\u00f4mbia; dos traficantes de madeira e minera\u00e7\u00e3o em Myanmar; de grupos paramilitares ligados \u00e0 R\u00fassia que ocupam dep\u00f3sitos minerais no Mali e na Rep\u00fablica Centro-Africana. As minas que tantas vezes emergem de tal turbul\u00eancia poluem as terras agr\u00edcolas restantes com cianeto e outros qu\u00edmicos, destruindo ainda mais a economia camponesa.<\/p>\n<p>Dois bilh\u00f5es de pessoas n\u00e3o podem ser realocadas para as cidades. Sim, a popula\u00e7\u00e3o rural da China caiu de 80% em 1980 para 35% \u2013 mas a China \u00e9 \u00fanica. Mesmo na vizinha \u00cdndia, a popula\u00e7\u00e3o rural permanece em 65%, ou 900 milh\u00f5es de pessoas. Toda a ind\u00fastria transformadora, constru\u00e7\u00e3o e minera\u00e7\u00e3o do mundo emprega atualmente apenas 800 milh\u00f5es de pessoas: claramente, o campesinato global n\u00e3o pode ser absorvido pela ind\u00fastria. \u00c9 preciso perceber que, na aus\u00eancia de n\u00edveis excepcionais de industrializa\u00e7\u00e3o, nada pode sustentar grandes popula\u00e7\u00f5es t\u00e3o bem quanto a terra. Precisamos parar de ver a urbaniza\u00e7\u00e3o como o principal \u00edndice de progresso desenvolvimentista e perceber que ela \u00e9, em muitos casos, o sinal de um grande desastre: a destrui\u00e7\u00e3o da vida rural pela grande agricultura e ind\u00fastria, e a perda de sistemas humanos e ecol\u00f3gicos irrepar\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>O inimigo quotidiano do campesinato \u00e9 o mesmo que o de todos n\u00f3s: as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Elas trazem temperaturas crescentes, secas, tempestades mais violentas e muitas irregularidades sazonais. As chuvas n\u00e3o chegam no momento em que as sementes precisam de ser plantadas; chuvas fora de \u00e9poca arru\u00ednam as colheitas e incentivam a propaga\u00e7\u00e3o de pragas. O que os camponeses realmente precisam \u00e9 de um vasto programa de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, que envolver\u00e1 principalmente a mudan\u00e7a para outras variedades e culturas. Tal adapta\u00e7\u00e3o, no entanto, requer capital. As pequenas propriedades precisam ser refeitas; um novo repert\u00f3rio bot\u00e2nico \u00e9 necess\u00e1rio; tem de haver provis\u00e3o, como em qualquer experi\u00eancia, para o fracasso. Dado o cen\u00e1rio descrito, n\u00e3o \u00e9 surpreendente que a maioria dos agricultores n\u00e3o consiga reunir o capital necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tradicionalmente, os camponeses devolviam os nutrientes ao solo sob a forma de res\u00edduos vegetais, excrementos humanos e animais, peles e fibras decompostas. Como a maioria dos produtos agr\u00edcolas \u00e9 agora consumida nas cidades, grande parte desse material acumula-se como esgoto e lixo urbano \u2013 e a \u00fanica forma de os nutrientes poderem ser restaurados \u00e0 terra \u00e9 sob a forma de fertilizantes qu\u00edmicos. Com o tempo, isto faz com que a fertilidade do solo decline. Na minha pr\u00f3pria pesquisa de campo, vi agricultores chorarem pelos danos que causaram \u00e0s terras agr\u00edcolas com insumos qu\u00edmicos. Ao contr\u00e1rio das corpora\u00e7\u00f5es, os camponeses n\u00e3o podem simplesmente dar de ombros diante do esgotamento de uma determinada extens\u00e3o e seguir em frente. A sua terra chegou-lhes dos seus antepassados, que legaram tamb\u00e9m uma responsabilidade sagrada.<\/p>\n<p>O fato de o estoque de terras ar\u00e1veis do mundo estar t\u00e3o gravemente prejudicado deve ser motivo de enorme alarme. Se as economias camponesas da Am\u00e9rica Latina, \u00c1frica e \u00c1sia forem destru\u00eddas, nosso sistema alimentar entrar\u00e1 em colapso. Dados os vastos n\u00fameros envolvidos, entretanto, mesmo pequenas deteriora\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas podem for\u00e7ar milh\u00f5es de novos refugiados a sair da terra. Dependendo de como as coisas progredirem, a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es da ONU prev\u00ea que haver\u00e1 entre 25 milh\u00f5es e 1 bilh\u00e3o de refugiados clim\u00e1ticos at\u00e9 2050. Essas pessoas provavelmente n\u00e3o encontrar\u00e3o f\u00e1bricas ou escrit\u00f3rios onde trabalhar. A hist\u00f3ria sugere que alguns ser\u00e3o for\u00e7ados a extrair um sustento pela for\u00e7a, juntando-se a grupos criminosos ou terroristas financiados por contrabando, sequestro e extors\u00e3o. O equil\u00edbrio pol\u00edtico global j\u00e1 \u00e9 fr\u00e1gil.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"828\" height=\"552\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-51-insert-8webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-51-insert-8webp-imagem-WEBP-828-552-pixels.png 828w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-51-insert-8.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-51-insert-8.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-768x512.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Screenshot-2025-09-26-at-19-58-51-insert-8.webp-imagem-WEBP-828-\u00d7-552-pixels-272x182.png 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 828px) 100vw, 828px\"><figcaption>Um produtor de cana-de-a\u00e7\u00facar em Maharashtra, \u00cdndia. Fornecido pelo autor <\/figcaption><\/figure>\n<p>Previsivelmente, o agroneg\u00f3cio tenta apresentar-se como a solu\u00e7\u00e3o. Os <em>websites<\/em> das grandes empresas alimentares retratam felizes trabalhadores de planta\u00e7\u00f5es com uniformes corporativos. Eles orgulham-se do seu compromisso com uma agricultura \u201csustent\u00e1vel\u201d ou \u201cregenerativa\u201d. Empresas como McDonald\u2019s, Bayer, Mars e PepsiCo fazem parte de uma for\u00e7a-tarefa do agroneg\u00f3cio dentro da Iniciativa de Mercados Sustent\u00e1veis, que declara como objetivo projetar um sistema alimentar global mais sustent\u00e1vel e resiliente. \u201cS\u00f3 podemos alcan\u00e7ar isto\u201d, explicou o CEO da Bayer em 2022, \u201cse n\u00f3s, enquanto ind\u00fastria, intensificarmos coletivamente os nossos esfor\u00e7os para adotar pr\u00e1ticas agr\u00edcolas regenerativas.\u201d<\/p>\n<p>Mesmo que tais declara\u00e7\u00f5es sejam feitas com sinceridade, os \u00faltimos 40 anos devem torn\u00e1-las suspeitas. A parceria entre as grandes corpora\u00e7\u00f5es e o campesinato global permitiu que as primeiras capturassem as receitas do segundo e, assim, removessem muita liquidez do pr\u00f3prio campo global. As pessoas que l\u00e1 vivem, cujos bens mais preciosos l\u00e1 se localizam e cujos meios de subsist\u00eancia est\u00e3o l\u00e1, viram a sua capacidade de gest\u00e3o e investimento respons\u00e1veis diminuir catastroficamente. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o real \u00e9 entregar a responsabilidade \u00e0s pessoas que t\u00eam um interesse de vida ou morte na agricultura regenerativa.<\/p>\n<p>O modo de vida campon\u00eas \u00e9 um amortecedor cr\u00edtico contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. As aldeias camponesas reciclam res\u00edduos bioqu\u00edmicos de volta para a terra; muitos camponeses tamb\u00e9m suprem as suas necessidades nutricionais das suas pr\u00f3prias propriedades. Os camponeses, que gerem diretamente cerca de 10% da terra no planeta \u2013 uma \u00e1rea cinco vezes maior do que todas as vilas e cidades \u2013 fornecem um contraponto ao extrativismo e ao curtoprazismo corporativos. Eles tamb\u00e9m preservam conhecimentos locais cr\u00edticos sobre os sistemas de terra e clima, e as intera\u00e7\u00f5es com plantas e animais. O campesinato \u00e9 um dos recursos econ\u00f4micos, sociais e ecol\u00f3gicos mais cruciais da humanidade. Precisamos investir nele se quisermos prosperar. Se for afluente e inovadora, esta classe poder\u00e1 protegern-nos de uma degrada\u00e7\u00e3o mais extrema dos sistemas naturais. Empobrecida e aterrorizada, ser\u00e1 for\u00e7ada, no final das contas, a deixar a terra em massa, com m\u00faltiplas consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p>Em 1979, quando escrevia de uma aldeia remota no leste de Fran\u00e7a, John Berger observou que o objetivo do campon\u00eas era transmitir os meios de sobreviv\u00eancia (se poss\u00edvel tornados mais seguros, em compara\u00e7\u00e3o com o que herdou) aos seus filhos. Os seus ideais est\u00e3o localizados no passado; as suas obriga\u00e7\u00f5es s\u00e3o para com o futuro, que ele pr\u00f3prio n\u00e3o viver\u00e1 para ver.<\/p>\n<p>Far\u00edamos todos bem \u2013 e nossa sobreviv\u00eancia pode depender disso \u2013 em generalizar a caracteriza\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica e elegante de Berger da rela\u00e7\u00e3o do campon\u00eas com a vida e a terra. A crise do campesinato global situa-se no centro de todas as outras crises, e temos de resolv\u00ea-la. Temos de recolocar os camponeses no centro da nossa vis\u00e3o do mundo. A sua luta para manter o seu lugar e papel vitais \u00e9 a nossa luta. Uma luta da esp\u00e9cie.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Eles podem ser parte de uma alternativa<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/havera-futuro-para-camponeses\/\">Haver\u00e1 futuro para os camponeses?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":55034,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[5511,98],"tags":[],"class_list":["post-55033","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-capa","category-desigualdades"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55033","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55033"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55033\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55034"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55033"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55033"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55033"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}