{"id":55418,"date":"2025-09-29T18:19:45","date_gmt":"2025-09-29T21:19:45","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dossie-sahel-radiografia-da-africa-insubmissa\/"},"modified":"2025-09-29T18:19:45","modified_gmt":"2025-09-29T21:19:45","slug":"dossie-sahel-radiografia-da-africa-insubmissa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dossie-sahel-radiografia-da-africa-insubmissa\/","title":{"rendered":"Dossi\u00ea Sahel: Radiografia da \u00c1frica insubmissa"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"450\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-15.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-15.jpeg 800w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-15-300x169.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Sem-titulo-15-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\"><figcaption>Foto: Stringer\/Reuters<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Em setembro de 2023, na sequ\u00eancia de golpes liderados por setores progressistas das for\u00e7as armadas, os chefes de Estado do Burkina Faso, do Mali e do N\u00edger reuniram-se em Bamako (Mali) para assinar a <em>Carta de Liptako-Gourma que estabelece a Alian\u00e7a dos Estados do Sahel <\/em>(AES) (Autoridade Liptako-Gourma, 2023). O artigo VI da Carta estipula que:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Qualquer viola\u00e7\u00e3o da soberania e da integridade territorial de uma ou mais partes contratantes ser\u00e1 considerada uma agress\u00e3o contra as outras partes e dar\u00e1 origem ao dever de assist\u00eancia e socorro por todas as partes, individual ou coletivamente, incluindo o uso da for\u00e7a armada, para restaurar e garantir a seguran\u00e7a dentro da \u00e1rea coberta pela alian\u00e7a (idem, p. 3).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A iniciativa de forma\u00e7\u00e3o da AES foi uma resposta direta \u00e0 amea\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o militar no N\u00edger pela Comunidade Econ\u00f4mica dos Estados da \u00c1frica Ocidental (Cedeao), ap\u00f3s o golpe militar popularmente apoiado no pa\u00eds. A Cedeao, ao lado da Uni\u00e3o Africana (UA), tamb\u00e9m imp\u00f4s san\u00e7\u00f5es e suspendeu a filia\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas Estados-membros da AES ap\u00f3s seus respectivos golpes: Mali em agosto de 2020, Burkina Faso em janeiro de 2022 e N\u00edger em julho de 2023.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2024, Burkina Faso, Mali e N\u00edger anunciaram conjuntamente sua sa\u00edda da Cedeao. A decis\u00e3o, que se tornou oficial em janeiro de 2025, foi justificada da seguinte forma:<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/5098539296536333137.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/5098539296536333137.jpg 650w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/5098539296536333137-300x69.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" width=\"650\" height=\"150\"><\/div>\n<\/div>\n<blockquote>\n<p>Os bravos povos de Burkina Faso, Mali e N\u00edger registram com profundo pesar e grande decep\u00e7\u00e3o que a organiza\u00e7\u00e3o [Cedeao] se distanciou dos ideais de seus fundadores e do pan-africanismo. Ela n\u00e3o serve mais aos interesses de seus povos, mas se tornou uma amea\u00e7a aos seus Estados-membros e popula\u00e7\u00f5es, cuja felicidade deveria garantir. (Office National d\u2019Edition et de Presse, 2024)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Os l\u00edderes da AES \u2014 Assimi Go\u00efta, do Mali, Ibrahim Traor\u00e9, do Burkina Faso, e Abdourahamane Tchiani, do N\u00edger \u2014 se uniram por terem sa\u00eddo de golpes populares e por sua impaci\u00eancia com as pol\u00edticas pr\u00f3-ocidentais da Cedeao. Eles representam uma nova gera\u00e7\u00e3o de oficiais militares que canalizam a frustra\u00e7\u00e3o p\u00fablica generalizada com o neocolonialismo franc\u00eas, e sua sa\u00edda da organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 enraizada nas limita\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do bloco.<\/p>\n<p>Embora a Cedeao tenha sido criada em 1975 com a ret\u00f3rica pan-africana de l\u00edderes como o General Acheampong, de Gana, que prometeu que esta nova organiza\u00e7\u00e3o regional \u201celiminaria s\u00e9culos de divis\u00e3o e barreiras artificiais impostas \u00e0 \u00c1frica Ocidental pelo exterior\u201d, sempre foi um projeto limitado. Na realidade, foi criada para se concentrar em quest\u00f5es econ\u00f4micas, como a cria\u00e7\u00e3o de um mercado comum, sem objetivos s\u00e9rios de integra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (Onwuka, 1980, p. 52). Esse escopo limitado foi imediatamente prejudicado por divis\u00f5es internas e, mais significativamente, por lealdades externas conflitantes. A Comunidade Econ\u00f4mica da \u00c1frica Ocidental (CEAO), paralela e franc\u00f3fona, apoiada pela Fran\u00e7a, frequentemente subverteu os objetivos do bloco. Isso ficou evidente durante a crise chadiana de 1979-1981, quando a Fran\u00e7a e a CEAO minaram a miss\u00e3o de manuten\u00e7\u00e3o da paz da Nig\u00e9ria, transformando-a em um fracasso para a Cedeao e uma vit\u00f3ria para seu pr\u00f3prio bloco. Da mesma forma, os pactos militares existentes entre a Fran\u00e7a e suas ex-col\u00f4nias frustraram os esfor\u00e7os de cria\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia de defesa comum (idem, p. 52).<\/p>\n<p>\u00c9 essa hist\u00f3ria de divis\u00e3o interna e influ\u00eancia estrangeira persistente que orienta a perspectiva atual da AES. A alian\u00e7a argumenta que a Cedeao agora atua como uma executora regional de interesses externos, traindo seus princ\u00edpios fundadores ao cair \u201csob a influ\u00eancia de pot\u00eancias estrangeiras\u201d (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024; Prashad, 2025). Consequentemente, na c\u00fapula de Niamey, onde a AES foi lan\u00e7ada, os Estados-membros afirmaram que sua retirada da Cedeao \u00e9 definitiva, mesmo enquanto planejam transi\u00e7\u00f5es para o governo civil.<\/p>\n<p>Embora as principais institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, os comentadores pol\u00edticos e as ag\u00eancias n\u00e3o governamentais tenham reconhecido o fracasso da Cedeao e de outras parcerias de seguran\u00e7a em fornecer seguran\u00e7a significativa na regi\u00e3o, eles condenaram amplamente as medidas tomadas pela AES como \u201cum grande golpe para um projeto de integra\u00e7\u00e3o regional\u201d que provavelmente aumentaria \u201cmaiores fraturas\u201d e \u201cagravaria a situa\u00e7\u00e3o de piora [de seguran\u00e7a]\u201d na regi\u00e3o (Crisis Group, 2024; Ochieng, 2024; Edds-Reitman &amp; Boakye, 2024). No entanto, uma contranarrativa est\u00e1 se formando em todo o Sahel. Da perspectiva n\u00e3o apenas dos l\u00edderes pol\u00edticos da AES, mas tamb\u00e9m de organiza\u00e7\u00f5es locais de base e da popula\u00e7\u00e3o em geral, a alian\u00e7a foi forjada no contexto das inseguran\u00e7as e desigualdades contempor\u00e2neas mais amplas enfrentadas por muitos pa\u00edses do Sul Global que lutam ativamente com quest\u00f5es de soberania e desenvolvimento. Para os membros da AES, 2023 marcou uma ruptura coletiva com acordos de seguran\u00e7a fracassados (como o G5 Sahel), a lideran\u00e7a deslegitimada de organismos regionais como a Cedeao e a UA, e envolvimentos pol\u00edticos de longa data e desiguais com a Uni\u00e3o Europeia, a Fran\u00e7a e os Estados Unidos \u2014 tudo isso sustentado por d\u00e9cadas de pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal.<sup>1<\/sup><\/p>\n<p>Este dossi\u00ea explora o surgimento da AES e busca estimular um debate sobre a conjuntura atual na regi\u00e3o. Vemos essa nova forma\u00e7\u00e3o como um exemplo de regionalismo anti-imperialista dentro do contexto mais amplo de como os Estados do Sul Global lidam com a soberania, a depend\u00eancia e os desafios de seguran\u00e7a interna e externa. Convida \u00e0 reflex\u00e3o e ao debate sobre o significado e as implica\u00e7\u00f5es desse retorno ao caminho da soberania \u2014 n\u00e3o como um nacionalismo nost\u00e1lgico, mas como uma tentativa ousada e necess\u00e1ria de resgatar a autonomia pol\u00edtica, a autodetermina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a dignidade civilizacional diante do hiperimperialismo.<\/p>\n<hr>\n<figure><\/figure>\n<h3>Do dom\u00ednio colonial \u00e0 independ\u00eancia da bandeira<\/h3>\n<p>Burkina Faso, Mali e N\u00edger s\u00e3o vizinhos, n\u00e3o possuem litoral, com por\u00e7\u00f5es significativas de seus territ\u00f3rios estendendo-se pela fronteira sul do Saara. Juntos, representam cerca de 45% da extens\u00e3o territorial da \u00c1frica Ocidental e 17% de sua popula\u00e7\u00e3o, ou 73 milh\u00f5es de pessoas combinadas (N\u00edger, 26,2 milh\u00f5es; Mali, 23,8 milh\u00f5es; e Burkina Faso, 23 milh\u00f5es) (Banco Mundial, 2025). Essas na\u00e7\u00f5es compartilham normas culturais profundamente enraizadas, com \u00eanfase significativa em valores comunit\u00e1rios, tradi\u00e7\u00f5es orais, um estilo de vida predominantemente agr\u00e1rio e estruturas sociais e vida di\u00e1ria profundamente influenciadas pela religi\u00e3o dominante, o islamismo.<\/p>\n<p>Como grande parte da \u00c1frica Ocidental, esses pa\u00edses vivenciaram as contradi\u00e7\u00f5es do dom\u00ednio colonial de forma mais aguda durante a Segunda Guerra Mundial. Embora o desembarque na Normandia esteja entre os momentos mais celebrados da hist\u00f3ria militar francesa, o que frequentemente fica de fora dessa narrativa \u00e9 que muitas das tropas e corpos de trabalhadores que ajudaram a garantir a vit\u00f3ria sobre a Alemanha nazista eram africanos de col\u00f4nias francesas, incluindo o que hoje s\u00e3o Burkina Faso, Mali e N\u00edger. Seu sacrif\u00edcio em solo europeu contribuiu para uma crescente consci\u00eancia pol\u00edtica e lan\u00e7ou as bases para as demandas do p\u00f3s-guerra por igualdade e autodetermina\u00e7\u00e3o (Zimmerman, 2011).<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/VENETA-3.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/VENETA-3.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/VENETA-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ap\u00f3s a guerra, e incentivado pelo emergente bloco socialista, o apelo pela independ\u00eancia se intensificou. No N\u00edger, por exemplo, o Partido Progressista Nigeriano (PPN) foi fundado em 1946 e filiado \u00e0 Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Africana (UDA), um movimento pan-africano anticolonial liderado por figuras como Modibo Ke\u00efta, no Mali, e Ahmed S\u00e9kou Tour\u00e9, na Guin\u00e9. A RDA inicialmente exigia tratamento igualit\u00e1rio aos cidad\u00e3os franceses, mas rapidamente passou a exigir independ\u00eancia total. Em Burkina Faso, o partido Uni\u00e3o Voltaica (UV) juntou-se \u00e0 UDA na esperan\u00e7a de construir uma frente de liberta\u00e7\u00e3o nacional coordenada regionalmente, embora a UV tenha se dissolvido sob press\u00e3o francesa. Esse despertar pol\u00edtico lan\u00e7aria as bases para as lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional na \u00c1frica Ocidental.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a custosa derrota no Vietn\u00e3 em 1954 e em meio \u00e0 escalada da guerra na Arg\u00e9lia (1954-1962), a Fran\u00e7a enfrentou uma crescente press\u00e3o interna e externa. Temendo uma perda total de influ\u00eancia econ\u00f4mica e pol\u00edtica na \u00c1frica, o presidente Charles de Gaulle, rec\u00e9m de volta ao poder, convocou um referendo em 1958 como parte da nova constitui\u00e7\u00e3o da Quinta Rep\u00fablica. Foi oferecido \u00e0s col\u00f4nias africanas duas op\u00e7\u00f5es: votar \u201csim\u201d para permanecer como parte da Comunidade Franco-Africana, sob influ\u00eancia francesa (a chamada op\u00e7\u00e3o \u201ctransit\u00f3ria\u201d, que prometia independ\u00eancia adiada, mantendo os principais poderes em m\u00e3os francesas), ou votar \u201cn\u00e3o\u201d, optando por uma independ\u00eancia imediata, com a amea\u00e7a de retirada francesa repentina e instabilidade econ\u00f4mica iminente. Djibo Bakary, fundador do partido Sawaba (que significa \u201cliberdade\u201d em hausa) e posteriormente chefe do governo nigeriano ap\u00f3s as primeiras elei\u00e7\u00f5es em 1957, liderou a campanha pelo \u201cn\u00e3o\u201d. No final, apenas a Guin\u00e9, sob a lideran\u00e7a de S\u00e9kou Tour\u00e9, votou dessa forma, tornando-se a primeira col\u00f4nia francesa da \u00c1frica Ocidental a obter a independ\u00eancia em 1958.<\/p>\n<p>Os defensores de uma ruptura total com a Fran\u00e7a, como Bakary, foram recebidos com repress\u00e3o interna e marginalizados pelos colaboradores coloniais, incluindo l\u00edderes tradicionais, administradores coloniais e os chamados <em>\u00e9volu\u00e9s <\/em>(\u201cos evolu\u00eddos\u201d, ou seja, africanos que tinham sido educados em institui\u00e7\u00f5es francesas, tinham direitos ou estatuto limitados e eram preparados para servir \u00e0 ordem colonial) (Adamou, 2024). Para sabotar o referendo no N\u00edger e minar Sawaba, que tamb\u00e9m havia lutado contra a explora\u00e7\u00e3o francesa de ur\u00e2nio, de Gaulle enviou um novo governador: Don Jean Colombani. Este usou seu controle total sobre institui\u00e7\u00f5es estatais importantes \u2014 como seguran\u00e7a, finan\u00e7as e administra\u00e7\u00e3o territorial \u2014 para lan\u00e7ar uma campanha de repress\u00e3o, intimida\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo guerra psicol\u00f3gica, principalmente lan\u00e7ando panfletos de avi\u00f5es alertando que os eleitores que votaram \u201cn\u00e3o\u201d eram inimigos do Estado (Idrissa, 2021; Walraven, 2009). Apesar do amplo apoio p\u00fablico a Sawaba, uma fraude eleitoral maci\u00e7a garantiu uma vit\u00f3ria fabricada para o \u201csim\u201d no N\u00edger em 1958.<\/p>\n<p>No entanto, a vit\u00f3ria do \u201cn\u00e3o\u201d na Guin\u00e9, naquele mesmo ano, com base na independ\u00eancia anterior de Gana da Gr\u00e3-Bretanha em 1957, for\u00e7ou os franceses a cederem mais terreno na quest\u00e3o da independ\u00eancia pol\u00edtica e, em 1960, dezessete pa\u00edses africanos \u2014 incluindo quatorze ex-col\u00f4nias francesas \u2014 declararam independ\u00eancia. No entanto, essa independ\u00eancia \u201cde bandeira\u201d, formal apenas, foi alcan\u00e7ada sem nenhuma transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica real. A tutela e o arb\u00edtrio franceses continuaram, e o controle econ\u00f4mico foi mantido por meio de uma s\u00e9rie de acordos de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o\u201d, incluindo na \u00e1rea de defesa, protocolos de assist\u00eancia t\u00e9cnica e arranjos financeiros como o sistema do franco CFA. Um desses acordos foi o de defesa de abril de 1961, assinado pela Costa do Marfim, Benim (antigo Daom\u00e9) e N\u00edger, que permitiu o \u201cuso irrestrito pela Fran\u00e7a\u201d de ativos de interesse militar (Journal Officiel de la R\u00e9publique Fran\u00e7aise, 1963). No caso do N\u00edger, a Fran\u00e7a tamb\u00e9m manteve um controle significativo por meio dos seguintes mecanismos, refletindo um padr\u00e3o mais amplo empregado em toda a regi\u00e3o:<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Regimes de d\u00edvida colonial: <\/strong>o N\u00edger foi obrigado a \u201creembolsar\u201d a Fran\u00e7a pela infraestrutura da era colonial, como estradas e escolas constru\u00eddas por meio de trabalho for\u00e7ado.<\/li>\n<li><strong>Controle de recursos: <\/strong>a Fran\u00e7a manteve o direito de prefer\u00eancia sobre as exporta\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas do N\u00edger, particularmente o ur\u00e2nio, e as empresas francesas receberam acesso preferencial a setores-chave da economia.<\/li>\n<li><strong>Isen\u00e7\u00f5es fiscais: <\/strong>com base no princ\u00edpio da n\u00e3o dupla tributa\u00e7\u00e3o, as empresas francesas que operavam no N\u00edger pagavam impostos apenas na Fran\u00e7a e estavam isentas de obriga\u00e7\u00f5es locais \u2014 incluindo taxas, impostos sobre vendas, como impostos sobre valor agregado, e at\u00e9 mesmo impostos sobre combust\u00edveis \u2014, o que prejudicava significativamente a receita fiscal do pa\u00eds.<\/li>\n<li><strong>Depend\u00eancia monet\u00e1ria: <\/strong>o N\u00edger foi obrigado a usar o franco CFA, uma moeda emitida e regulamentada pelo Tesouro franc\u00eas, limitando seu controle sobre a pol\u00edtica monet\u00e1ria e fiscal.<\/li>\n<li><strong>Entrincheiramento militar:<\/strong> a Fran\u00e7a manteve bases militares e obteve o \u201clivre uso de instala\u00e7\u00f5es militares\u201d. Isso inclu\u00eda liberdade de movimento em terra, ar e \u00e1gua; livre acesso \u00e0 infraestrutura de transporte e comunica\u00e7\u00e3o; e o direito de instalar sistemas de sinaliza\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o a\u00e9reos e mar\u00edtimos.<sup>2<\/sup><\/li>\n<\/ul>\n<p>Al\u00e9m disso, o Anexo II do acordo de defesa de 1961 garantiu o papel militar como executor dos interesses do capital franc\u00eas e da pol\u00edtica econ\u00f4mica nos pa\u00edses signat\u00e1rios. Notavelmente, o Artigo I do anexo estabeleceu duas categorias de mat\u00e9rias-primas estrat\u00e9gicas: 1) hidrocarbonetos l\u00edquidos ou gasosos; e 2) ur\u00e2nio, t\u00f3rio, l\u00edtio e ber\u00edlio, bem como seus min\u00e9rios e compostos. O Artigo II afirmava que \u201ca Rep\u00fablica Francesa informar\u00e1 regularmente a Rep\u00fablica da Costa do Marfim, a Rep\u00fablica do Daom\u00e9 e a Rep\u00fablica do N\u00edger sobre a pol\u00edtica que pretende seguir em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mat\u00e9rias-primas e produtos estrat\u00e9gicos, levando em considera\u00e7\u00e3o as necessidades gerais de defesa, a evolu\u00e7\u00e3o dos recursos e a <em>situa\u00e7\u00e3o do mercado mundial <\/em>[\u00eanfase adicionada]. O Artigo V estabelecia que os africanos, por sua vez, deveriam garantir que a Fran\u00e7a fosse \u201cmantida informada sobre programas e projetos relativos \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para fora do territ\u00f3rio (\u2026) de mat\u00e9rias-primas de segunda categoria e produtos estrat\u00e9gicos\u201d. Al\u00e9m disso, todos os tr\u00eas pa\u00edses eram obrigados a \u201cfacilitar, em benef\u00edcio das for\u00e7as armadas francesas, o armazenamento de mat\u00e9rias-primas e produtos estrat\u00e9gicos\u201d e, quando os interesses da defesa assim o exigissem, \u201climitar ou proibir sua exporta\u00e7\u00e3o para outros pa\u00edses\u201d. Ao incorporar diretrizes econ\u00f4micas em estruturas de coopera\u00e7\u00e3o militar, o acordo transformou a infraestrutura de defesa do pa\u00eds em uma ferramenta para salvaguardar os interesses comerciais e geopol\u00edticos franceses.<\/p>\n<p>O Mali tamb\u00e9m tentou afirmar sua soberania econ\u00f4mica e pol\u00edtica nos anos imediatamente posteriores \u00e0 sua independ\u00eancia em 1960. Sob a lideran\u00e7a de Modibo Ke\u00efta (1960-1968), o pa\u00eds adotou pol\u00edticas econ\u00f4micas de orienta\u00e7\u00e3o socialista, como a cria\u00e7\u00e3o de empresas estatais e a ado\u00e7\u00e3o de uma moeda nacional independente do franco CFA em 1962, para romper com o dom\u00ednio monet\u00e1rio franc\u00eas. Esses esfor\u00e7os enfrentaram retalia\u00e7\u00f5es significativas, incluindo isolamento diplom\u00e1tico, restri\u00e7\u00f5es comerciais e a retirada do apoio t\u00e9cnico e financeiro franc\u00eas, o que contribuiu para o agravamento da crise econ\u00f4mica. A turbul\u00eancia econ\u00f4mica que se seguiu possibilitou o golpe militar do tenente Moussa Traor\u00e9, apoiado pela Fran\u00e7a, em 1968, levando o Mali a retornar \u00e0 zona do franco CFA em 1984.<\/p>\n<p>Com o fim da Guerra Fria, a Fran\u00e7a mudou sua pol\u00edtica para a \u00c1frica ao introduzir a \u201ccondicionalidade pol\u00edtica\u201d na c\u00fapula de La Baule, de 1990, com o presidente Mitterrand declarando que a ajuda francesa estaria vinculada \u00e0s chamadas reformas democr\u00e1ticas, como elei\u00e7\u00f5es multipartid\u00e1rias (Cumming, 1996; Diagana <em>et al<\/em>., 1999). Isso deu in\u00edcio a uma onda de Programas de Ajustamento Estrutural (PAE) do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) e do Banco Mundial, impostos em toda a \u00c1frica na d\u00e9cada de 1980, como no Mali, onde medidas de austeridade, cortes no setor p\u00fablico e liberaliza\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio acompanharam a reentrada do pa\u00eds na zona do franco CFA em 1984. A d\u00e9cada de 1990 marcou o in\u00edcio de uma segunda onda de PAE no continente, especialmente ap\u00f3s a desvaloriza\u00e7\u00e3o do franco CFA em 1994, quando a moeda foi reduzida pela metade sob press\u00e3o da Fran\u00e7a, do FMI e do Banco Mundial. Enquadrada como uma medida para impulsionar as exporta\u00e7\u00f5es e restaurar a estabilidade financeira, na realidade a desvaloriza\u00e7\u00e3o desencadeou fortes aumentos de pre\u00e7os, eros\u00e3o salarial e agita\u00e7\u00e3o generalizada em toda a regi\u00e3o. Essa segunda fase combinou a liberaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica com reformas de governan\u00e7a impostas pelos doadores (FMI, 2025). Embora enquadradas como democratiza\u00e7\u00e3o, essas mudan\u00e7as refor\u00e7aram o controle neocolonial por meio de d\u00edvidas, privatiza\u00e7\u00f5es e reestrutura\u00e7\u00e3o estatal gerenciada externamente.<\/p>\n<p>Esses instrumentos reconfigurados de domina\u00e7\u00e3o foram acompanhados pela expans\u00e3o da presen\u00e7a militar estadunidense sob o pretexto de combater o terrorismo. Em 2002, os Estados Unidos lan\u00e7aram a Iniciativa Pan-Sahel, que marcou o in\u00edcio de uma presen\u00e7a militar ocidental sustentada em v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o, incluindo Mali, N\u00edger, Chade e Maurit\u00e2nia, expandindo-se posteriormente para Burkina Faso sob sua sucessora, a Parceria Trans-Sahara para o Contraterrorismo, em 2005.<\/p>\n<p>A crise de seguran\u00e7a regional foi, como o Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros do Mali, Abdoulaye Ma\u00efga (2024), explicou \u00e0 Assembleia Geral da ONU em 2024, \u201cexacerbada pela interven\u00e7\u00e3o militar imprudente da Otan na L\u00edbia em 2011\u201d. O colapso do Estado l\u00edbio abriu as portas para o com\u00e9rcio desregulado de armas e para o crescimento das atividades terroristas. O bombardeio daquele que era ent\u00e3o um dos Estados africanos mais desenvolvidos \u2014 com o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano mais alto do continente e grandes projetos de desenvolvimento de infraestrutura, como o projeto de irriga\u00e7\u00e3o do Grande Rio Artificial \u2014 foi amplamente visto como um ponto de virada. Tamb\u00e9m minou o Conselho de Paz e Seguran\u00e7a da Uni\u00e3o Africana, que estava pronto para enviar uma miss\u00e3o \u00e0 capital da L\u00edbia, Tr\u00edpoli, quando as primeiras bombas foram lan\u00e7adas (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2023; Altaeb, 2022).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o bombardeio da L\u00edbia em 2011 \u2013 novamente sob a bandeira do contraterrorismo -, as atividades militares francesas e estadunidenses se expandiram significativamente por todo o Sahel. Novas opera\u00e7\u00f5es de drones dos EUA, miss\u00f5es de treinamento lideradas pelo Africom e destacamentos e bases militares estadunidenses e francesas foram estabelecidos em Gao (Mali), N\u2019Djamena (Chade), Niamey (N\u00edger) e Ouagadougou (Burkina Faso). Em 2014, as tropas francesas lan\u00e7aram a Opera\u00e7\u00e3o Barkhane, consolidando sua presen\u00e7a regional e formando a for\u00e7a-tarefa conjunta G5 Sahel, que inclu\u00eda Burkina Faso, Chade, Mali, Maurit\u00e2nia e N\u00edger (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2023). No entanto, a atividade terrorista aumentou significativamente na d\u00e9cada seguinte. Autoridades malinesas alegaram repetidamente que as opera\u00e7\u00f5es militares francesas n\u00e3o s\u00f3 falharam em conter o terrorismo, como, na verdade, impulsionaram a atividade terrorista, acusando a Fran\u00e7a de visar seletivamente grupos armados, tolerar ou proteger outros e usar a crise de seguran\u00e7a para justificar sua presen\u00e7a militar prolongada e salvaguardar seus interesses estrat\u00e9gicos. Em agosto de 2022, o ent\u00e3o Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Mali, Abdoulaye Diop, acusou abertamente a Fran\u00e7a de repetidas viola\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o a\u00e9reo, espionagem e apoio direto a grupos terroristas \u2014 incluindo o lan\u00e7amento a\u00e9reo de armas e a coordena\u00e7\u00e3o com l\u00edderes jihadistas \u2014 e exigiu uma reuni\u00e3o de emerg\u00eancia do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU para interromper o que ele descreveu como \u201catos de agress\u00e3o contra a soberania e a integridade territorial [do Mali]\u201d (Black Agenda Report, 2022).<\/p>\n<p>\u00c0 medida que atores militares estrangeiros minavam a soberania nacional sob o pretexto do contraterrorismo, corpora\u00e7\u00f5es transnacionais continuavam extraindo riqueza do Sahel em condi\u00e7\u00f5es profundamente desiguais. Essas na\u00e7\u00f5es permanecem fortemente dependentes da exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas \u2014 como ur\u00e2nio do N\u00edger e ouro do Mali \u2014 em condi\u00e7\u00f5es abusivas. Em 2010, por exemplo, o N\u00edger recebeu apenas 13% do valor total das exporta\u00e7\u00f5es geradas pelas duas principais mineradoras francesas de ur\u00e2nio que operam no pa\u00eds (Oxfam, 2014). Apesar de se tornar um dos maiores produtores de ouro da \u00c1frica a partir da d\u00e9cada de 1990, o Mali manteve benef\u00edcios econ\u00f4micos m\u00ednimos. Isen\u00e7\u00f5es fiscais, estruturas de <em>royalties <\/em>injustas e outras pol\u00edticas permitiram que empresas como a Randgold Resources (que se fundiu com a Barrick Gold Corporation em 2018) e a AngloGold Ashanti extra\u00edssem lucros com pouco reinvestimento.<\/p>\n<p>Essa depend\u00eancia econ\u00f4mica refor\u00e7ou o subdesenvolvimento de longo prazo, deixando os Estados vulner\u00e1veis a press\u00f5es externas e limitando sua capacidade de diversificar suas economias ou negociar termos de troca favor\u00e1veis. A resultante falta de desenvolvimento sustent\u00e1vel contribuiu para uma s\u00e9rie de crises pol\u00edticas, sociais e de seguran\u00e7a. Desde a d\u00e9cada de 1990, golpes e mudan\u00e7as de regime tornaram-se comuns, \u00e0 medida que as elites competem pelo poder em ambientes institucionais fr\u00e1geis. A corrup\u00e7\u00e3o, os servi\u00e7os p\u00fablicos inadequados e a exclus\u00e3o de grupos marginalizados minaram ainda mais a legitimidade do Estado e aprofundaram a desconfian\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<\/p>\n<h3>Interven\u00e7\u00e3o militar pela soberania nacional<\/h3>\n<h4><em>Mobiliza\u00e7\u00f5es em massa<\/em><\/h4>\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o popular com as institui\u00e7\u00f5es estatais esvaziadas por d\u00e9cadas de reestrutura\u00e7\u00e3o neoliberal e interfer\u00eancia estrangeira explodiu em mobiliza\u00e7\u00f5es em massa no Mali, Burkina Faso e N\u00edger entre 2017 e 2022, que acabaram desembocando em golpes populares nos tr\u00eas pa\u00edses.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando com os protestos contra o franco CFA no Senegal em setembro de 2017, as manifesta\u00e7\u00f5es rapidamente se intensificaram em todo o Sahel. A moeda \u2014 emitida pelo Tesouro franc\u00eas \u2014 era amplamente vista como um instrumento de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica cont\u00ednua e um s\u00edmbolo do controle neocolonial. No Mali, protestos em larga escala eclodiram em abril de 2019 ap\u00f3s uma onda de viol\u00eancia intercomunit\u00e1ria, incluindo o massacre de cerca de 160 alde\u00f5es fulani por membros da comunidade \u00e9tnica dogon (Al Jazeera, 2019). A situa\u00e7\u00e3o se agravou em janeiro de 2021, quando um ataque a\u00e9reo franc\u00eas atingiu uma festa de casamento na vila de Bounti, matando pelo menos dezenove civis. Embora os militares franceses tenham alegado ter como alvo combatentes jihadistas, uma investiga\u00e7\u00e3o subsequente da ONU concluiu que o ataque afetou predominantemente civis, violando o direito internacional (France 24, 2021). Esses eventos alimentaram manifesta\u00e7\u00f5es em massa que exigiam a ren\u00fancia do presidente Ibrahim Boubacar Ke\u00efta e a retirada das tropas francesas e internacionais, contribuindo, em \u00faltima an\u00e1lise, para a remo\u00e7\u00e3o de Ke\u00efta e a forma\u00e7\u00e3o de um governo liderado pelos militares em agosto de 2020.<\/p>\n<p>Da mesma forma, Burkina Faso testemunhou mobiliza\u00e7\u00f5es em massa contra as pol\u00edticas de seguran\u00e7a ineficazes do presidente Roch Kabor\u00e9 a partir de 2018. Elas atingiram um ponto de inflex\u00e3o em novembro de 2021, quando manifestantes em Kaya e em outros lugares bloquearam comboios militares franceses, suspeitando de sua cumplicidade com grupos terroristas. Essa agita\u00e7\u00e3o cont\u00ednua culminou em uma revolta militar em janeiro de 2022, que levou o capit\u00e3o Ibrahim Traor\u00e9 ao poder.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, no N\u00edger, protestos eclodiram ap\u00f3s um ataque mortal de militantes do Estado Isl\u00e2mico a uma base militar em dezembro de 2019, que matou pelo menos 71 soldados nigerianos e fomentou a indigna\u00e7\u00e3o popular com a incapacidade do Estado. As tens\u00f5es voltaram a se intensificar em novembro de 2021 na cidade de Tera, onde manifestantes confrontaram um comboio militar franc\u00eas que havia sido atrasado por mais de uma semana por manifestantes em Burkina Faso. O comboio abriu fogo, matando pelo menos dois civis e ferindo v\u00e1rios outros, intensificando ainda mais a indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica (Al Jazeera, 2021; Carboni, 2019).<\/p>\n<h4><em>Golpes populares<\/em><\/h4>\n<p>A \u00c1frica tem sido frequentemente citada como sofrendo de uma \u201cepidemia de golpe\u201d (Mensah, 2023). Entre 1950 e 2022, a maioria das tentativas de golpes militares no mundo \u2014 214 de 486 \u2014 ocorreram na \u00c1frica, metade das quais foram bem-sucedidas (Al Jazeera\/AJLabs, 2023). A narrativa dominante sobre os recentes golpes no Sahel enquadrou-os, em grande parte, como mais um ciclo de instabilidade pol\u00edtica na \u00c1frica \u2014 parte de um padr\u00e3o de \u201cempreendedores pol\u00edticos autocr\u00e1ticos no cintur\u00e3o do golpe tentando conquistar o poder\u201d (Murphy, 2023). No entanto, ao contr\u00e1rio de golpes anteriores em todo o continente, estes parecem exemplificar um patriotismo distinto, que o presidente da Organiza\u00e7\u00e3o dos Povos da \u00c1frica Ocidental, Philippe Toyo Noudjnoume, descreve como \u201cinterven\u00e7\u00e3o militar pela soberania\u201d (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024b).<\/p>\n<p>Esses governos militares s\u00e3o diferentes dos anteriores na regi\u00e3o em pelo menos tr\u00eas maneiras significativas: primeiro, nas origens de classe e na orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dos l\u00edderes do golpe; segundo, na participa\u00e7\u00e3o ativa de organiza\u00e7\u00f5es populares; e terceiro, no desenvolvimento de programas nacionais end\u00f3genos pan-africanos e anti-imperialistas.<\/p>\n<p><strong>1)<\/strong> <strong>As origens de classe e a orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica dos l\u00edderes do golpe. <\/strong>Muitos dos principais l\u00edderes do golpe s\u00e3o de uma linhagem diferente em compara\u00e7\u00e3o com outros oficiais que lideraram golpes na regi\u00e3o. Os golpes t\u00edpicos das d\u00e9cadas de 1960 e 1980 foram em grande parte apoiados pelo Ocidente e visavam l\u00edderes da liberta\u00e7\u00e3o nacional para conter a dissemina\u00e7\u00e3o de governos e for\u00e7as sociais anti-imperialistas ou de esquerda. Nesses casos, a sobreviv\u00eancia de um governo militar estava menos atrelada a preocupa\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas e mais \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de apoio de elites civis e apoiadores estrangeiros (Babatope, 1981; Decalo, 1989; Mwakikagile, 2001). Esses golpes recentes n\u00e3o se encaixam nesse padr\u00e3o. Como observa Vijay Prashad, diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Pessoas como o capit\u00e3o Ibrahim Traor\u00e9 (nascido em 1988), de Burkina Faso, que foi criado na prov\u00edncia rural de Mouhoun e estudou Geologia em Ouagadougou, e o coronel Assimi Go\u00efta (nascido em 1983), de Mali, que vem da cidade de Kati, um mercado de gado e reduto militar, representam essas fra\u00e7\u00f5es de classe mais amplas. Suas comunidades foram totalmente marginalizadas pelos duros programas de austeridade do FMI, pelo roubo de seus recursos pelas multinacionais ocidentais e pelo pagamento das guarni\u00e7\u00f5es militares ocidentais no pa\u00eds. Sem uma plataforma pol\u00edtica real que fale por eles, grande parte do pa\u00eds se uniu \u00e0s inten\u00e7\u00f5es patri\u00f3ticas desses jovens militares, impulsionados por movimentos de massa, como sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es de camponeses, em seus pa\u00edses. \u00c9 por isso que o golpe no N\u00edger est\u00e1 sendo defendido em manifesta\u00e7\u00f5es de massa, da capital Niamey at\u00e9 as pequenas e remotas cidades que fazem fronteira com a L\u00edbia. Esses jovens l\u00edderes n\u00e3o chegam ao poder com uma agenda bem elaborada. Entretanto, eles t\u00eam um n\u00edvel de admira\u00e7\u00e3o por pessoas como Thomas Sankara: O capit\u00e3o Ibrahim Traor\u00e9, de Burkina Faso, por exemplo, usa uma boina vermelha como Sankara, fala com mesma franqueza, com posi\u00e7\u00f5es de esquerda, e at\u00e9 imita a dic\u00e7\u00e3o de Sankara (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2023b).<sup>3<\/sup><\/p>\n<p><strong>2) A participa\u00e7\u00e3o ativa das organiza\u00e7\u00f5es populares. <\/strong>Organiza\u00e7\u00f5es populares moldaram elementos centrais da agenda nacional e participam ativamente de sua constru\u00e7\u00e3o. Quando o golpe no N\u00edger ocorreu em julho de 2023, organiza\u00e7\u00f5es de massa de todos os setores sitiaram bases militares francesas e a embaixada francesa \u2014 n\u00e3o apenas para celebrar a queda de um regime em crise e defender o golpe, mas tamb\u00e9m para afirmar antigas reivindica\u00e7\u00f5es pela expuls\u00e3o das for\u00e7as neocoloniais francesas. Antes do golpe, os movimentos sociais j\u00e1 haviam come\u00e7ado a construir uma frente de massas contra o imperialismo, um processo que pode ser rastreado at\u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o popular em 2022, com base em d\u00e9cadas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e educa\u00e7\u00e3o. Quando o governo militar do N\u00edger rompeu com a Fran\u00e7a, sinalizou ao povo que seus interesses estavam sendo defendidos. Desde ent\u00e3o, l\u00edderes de base continuaram a exigir que a AES mantivesse seus compromissos anti-imperialistas e enfatizaram a necessidade de mecanismos institucionais que garantam tanto a responsabiliza\u00e7\u00e3o quanto a participa\u00e7\u00e3o popular. Effred Mouloul Al-Hassan, secret\u00e1rio-geral do Sindicato Escolar do N\u00edger, articulou essa din\u00e2mica de apoio condicional em uma confer\u00eancia realizada em novembro de 2024, em Niamey: \u201cApoiamos voc\u00eas enquanto estiverem a favor do povo. Caso contr\u00e1rio, lutaremos contra voc\u00eas como lutamos contra os colonialistas\u201d (Al-Hassan, 2024).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>3) O desenvolvimento de programas nacionais end\u00f3genos pan-africanos e anti-imperialistas. <\/strong>Os novos governos iniciaram novos programas nacionais com uma orienta\u00e7\u00e3o marcadamente anti-imperialista, baseadas em modelos de desenvolvimento end\u00f3genos e na heran\u00e7a social e intelectual da regi\u00e3o. O documento <em>Estrat\u00e9gia Nacional para a Emerg\u00eancia e o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel <\/em>(SNEDD 2024\u20132033), do Mali, delineia um programa de m\u00e9dio prazo para a renova\u00e7\u00e3o nacional, enraizado numa ruptura hist\u00f3rica com modelos de governan\u00e7a e desenvolvimento impostos externamente. O SNEDD 2024\u20132033 se baseia no <em>Mali Kura \u0272\u025btaasira ka b\u025bn san 2063 ma <\/em>[Um novo Mali: Uma vis\u00e3o para 2063], um relat\u00f3rio prospectivo publicado pelo governo que articula uma vis\u00e3o mais ampla para o futuro do pa\u00eds (Minist\u00e9rio da Economia e Finan\u00e7as do Mali, 2024). Juntas, essas estruturas buscam ancorar a reconstru\u00e7\u00e3o nacional no pensamento pol\u00edtico pr\u00e9-colonial e nas tradi\u00e7\u00f5es \u00e9ticas do Mali.<\/p>\n<p>Como parte de sua redefini\u00e7\u00e3o da identidade nacional e das prioridades institucionais, o SNEDD 2024-2033 vincula explicitamente a renova\u00e7\u00e3o p\u00f3s-golpe do Mali a tr\u00eas pilares da heran\u00e7a civilizacional do pa\u00eds. Primeiro, a Carta de Manden \u2014 a constitui\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio do Mali, criada em 1236 e frequentemente citada como uma das primeiras declara\u00e7\u00f5es de direitos humanos do mundo \u2014, que promoveu valores como solidariedade social, prote\u00e7\u00e3o de setores vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o e governan\u00e7a participativa por meio da tomada de decis\u00f5es em assembleia. Segundo, os c\u00f3digos legais do Imp\u00e9rio Massina (1818-1862), fundado no Delta do N\u00edger Interior, no centro do Mali, que combinava jurisprud\u00eancia isl\u00e2mica com governan\u00e7a local para institucionalizar a justi\u00e7a, a gest\u00e3o ambiental e o controle da autoridade executiva. Terceiro, as tradi\u00e7\u00f5es manuscritas de Timbuktu, que abrangem direito, ci\u00eancia, \u00e9tica e administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e refletem s\u00e9culos de produ\u00e7\u00e3o intelectual e debate nacionais sobre governo justo, as responsabilidades morais da lideran\u00e7a e a busca do conhecimento a servi\u00e7o do bem comum.<\/p>\n<p>Juntas, essas tradi\u00e7\u00f5es servem como base para uma nova vis\u00e3o anti-imperialista da identidade e da pol\u00edtica malinesas, baseada na justi\u00e7a social, na governan\u00e7a coletiva e na dignidade civilizacional (Minist\u00e9rio da Economia e Finan\u00e7as do Mali, 2024; Minist\u00e9rio da Refunda\u00e7\u00e3o do Estado, 2023). O documento <em>Um novo Mali\u2026<\/em> apela ao desenvolvimento de \u201cum novo indiv\u00edduo malin\u00eas (\u2026) um cidad\u00e3o respons\u00e1vel, patriota, respeitador de valores, [que] \u00e9 trabalhador, consciencioso e de mente aberta \u2014 que trabalha pela soberania e bem-estar de todos\u201d (Minist\u00e9rio da Economia e Finan\u00e7as do Mali, 2024, p. 4).<\/p>\n<p>Esta estrat\u00e9gia nacional afirma a reconstru\u00e7\u00e3o do Mali como um projeto nacional e civilizacional baseado em \u201cum Estado forte, est\u00e1vel e economicamente soberano\u201d que \u201cdeve garantir a sua soberania sobre v\u00e1rios setores estrat\u00e9gicos\u201d (ibidem). Ancorado na participa\u00e7\u00e3o popular e na resist\u00eancia \u00e0 influ\u00eancia neocolonial, prop\u00f5e uma transforma\u00e7\u00e3o hol\u00edstica centrada num \u201cnovo modelo de desenvolvimento end\u00f3geno\u201d em \u00e1reas como governan\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e soberania econ\u00f4mica (idem, p. 22). Essa vis\u00e3o fundamental coloca a integridade cultural e a soberania no centro do desenvolvimento nacional, marcando um claro afastamento das estruturas neocoloniais orientadas por doadores do passado.<\/p>\n<p>Este programa est\u00e1 sendo implementado gradualmente por meio de diversas iniciativas importantes. Os principais projetos de infraestrutura incluem a moderniza\u00e7\u00e3o da rodovia dupla Bamako-Koulouba-Kati e da estrat\u00e9gica Rodovia Transaariana (trecho Bourem-Kidal), al\u00e9m da constru\u00e7\u00e3o da usina solar Sanankoroba de 200 MW (autorizada em 2024) (Presid\u00eancia da Rep\u00fablica do Mali, 2025, 2024). No setor de minera\u00e7\u00e3o, descrito pelo governo como a \u201calavanca estrat\u00e9gica de crescimento e desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d, grandes reformas foram promulgadas por meio do C\u00f3digo de Minera\u00e7\u00e3o de 2023, emiss\u00e3o de licen\u00e7as de ouro em larga escala (como a licen\u00e7a Korali-Sud na regi\u00e3o de Kayes) e aquisi\u00e7\u00e3o pelo Mali de uma participa\u00e7\u00e3o de 80% na mina de ouro de Yatela, que antes era detida por empresas estrangeiras (Minist\u00e9rio da Economia e Finan\u00e7as do Mali, 2024; Chukwu, 2024). O C\u00f3digo de Minera\u00e7\u00e3o de 2023 revisou os termos de compromisso com todas as multinacionais estrangeiras, determinando o aumento da participa\u00e7\u00e3o estatal em at\u00e9 30% nos empreendimentos de minera\u00e7\u00e3o, eliminando isen\u00e7\u00f5es fiscais e abrindo caminho para que o Estado busque impostos e dividendos n\u00e3o pagos. Essas medidas visam recuperar bilh\u00f5es de francos CFA perdidos anteriormente por meio de acordos injustos (uma auditoria recente revelou uma perda de 300 a 600 bilh\u00f5es de francos CFA em receitas estatais devido a esses acordos) e sinalizam uma postura agressiva em rela\u00e7\u00e3o aos saqueadores hist\u00f3ricos da riqueza em ouro do Mali (Mining Weekly, 2025). O governo tamb\u00e9m avan\u00e7ou com planos para construir uma refinaria de ouro apoiada pela R\u00fassia e desenvolver a extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio com assist\u00eancia chinesa por meio do projeto Goulamina, posicionando o Mali de modo a subir na cadeia de valor em vez de permanecer como um fornecedor de min\u00e9rios brutos (Venditti, 2024).<\/p>\n<figure><\/figure>\n<h3>A forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da AES<\/h3>\n<p>Os pa\u00edses da AES continuam enfrentando desafios econ\u00f4micos substanciais. Por exemplo, em 2023, o PIB <em>per capita<\/em> do N\u00edger era de apenas 560 d\u00f3lares \u2014 um dos mais baixos do mundo \u2014, com um \u00edndice de pobreza de 47,8% e uma expectativa de vida de 61 anos (Banco Mundial, 2024). Mali e Burkina Faso tamb\u00e9m apresentam indicadores compar\u00e1veis, refletindo pobreza generalizada e acesso limitado a servi\u00e7os essenciais. Os desafios de seguran\u00e7a foram agravados pelos desafios econ\u00f4micos prevalecentes. Nos \u00faltimos quinze anos, o Sahel sofreu um aumento dr\u00e1stico na atividade terrorista, com um aumento de 2.860% nas mortes e de 1.266% nos incidentes. Somente em 2023, quase 4 mil pessoas foram mortas em ataques terroristas na regi\u00e3o, representando 47% das mortes por terrorismo no mundo e 26% de todos os incidentes registrados. A grande maioria ocorreu em Burkina Faso, Mali e N\u00edger (Institute for Economics &amp; Peace, 2024). A viol\u00eancia cont\u00ednua, combinada com a degrada\u00e7\u00e3o ambiental, deslocou milh\u00f5es de pessoas em toda a regi\u00e3o, contribuindo para uma popula\u00e7\u00e3o crescente de deslocados internos e refugiados (IDMC, 2024). Essas press\u00f5es demogr\u00e1ficas e de seguran\u00e7a influenciam coletivamente as prioridades estrat\u00e9gicas e as decis\u00f5es pol\u00edticas da AES.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto e contra o pano de fundo do crescente sentimento antifranc\u00eas que a AES come\u00e7ou a tomar forma. Em fevereiro de 2022, o Mali expulsou as for\u00e7as diplom\u00e1ticas e militares francesas e se retirou de parcerias regionais de seguran\u00e7a, como o G5 Sahel, condenando sua incapacidade de atender \u00e0s necessidades de seguran\u00e7a da regi\u00e3o. Em julho, o Mali aprofundou a coopera\u00e7\u00e3o militar com a R\u00fassia por meio de novos acordos para treinamento e opera\u00e7\u00f5es conjuntas. Em setembro daquele ano, Burkina Faso vivenciou seu segundo golpe do ano, levando ao poder uma nova lideran\u00e7a que ecoava a postura antiocidental do Mali e buscava parcerias alternativas de seguran\u00e7a. No Mali, as tens\u00f5es com a Fran\u00e7a aumentaram ainda mais, culminando na suspens\u00e3o dos programas de ajuda franceses em novembro de 2022.<\/p>\n<p>O ano de 2023 marcou o estabelecimento formal da AES como um bloco regional. Em janeiro, Burkina Faso exigiu a retirada das tropas francesas, encerrando efetivamente os acordos militares e as bases francesas no pa\u00eds. Em julho, o N\u00edger juntou-se ao Mali e ao Burkina Faso na rejei\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia pol\u00edtica e militar ocidental ap\u00f3s seus respectivos golpes militares. Em agosto, a AES declarou um pacto de defesa coletiva \u2014 posteriormente formalizado na <em>Carta de Liptako-Gourma <\/em>assinada no m\u00eas seguinte \u2014 declarando que um ataque a um membro seria considerado um ataque a todos. A alian\u00e7a tamb\u00e9m expandiu suas parcerias internacionais na C\u00fapula R\u00fassia-\u00c1frica em S\u00e3o Petersburgo, onde os Estados-membros firmaram novos acordos militares e econ\u00f4micos com a R\u00fassia. Em setembro, os Estados-membros da AES expulsaram diplomatas estadunidenses e europeus acusados de interfer\u00eancia e iniciaram negocia\u00e7\u00f5es formais com a China para explorar investimentos em infraestrutura e projetos de compartilhamento de recursos.<\/p>\n<p>Em 2024, a AES empreendeu uma s\u00e9rie de iniciativas estrat\u00e9gicas para aprofundar sua presen\u00e7a regional e afirmar sua soberania. Em julho, realizou sua primeira C\u00fapula de Chefes de Estado e formalizou sua retirada da CEDEAO. Nos meses seguintes, a alian\u00e7a realizou seus primeiros exerc\u00edcios militares conjuntos, centrados em opera\u00e7\u00f5es coordenadas de contraterrorismo e seguran\u00e7a de fronteiras. Em mar\u00e7o, logo ap\u00f3s o N\u00edger encerrar as opera\u00e7\u00f5es de uma das maiores bases a\u00e9reas de drones dos EUA, a AES expandiu ainda mais seus acordos de seguran\u00e7a com a R\u00fassia, com foco na aquisi\u00e7\u00e3o de armas e no compartilhamento de intelig\u00eancia (Sguazzin &amp; Hoije, 2024).<\/p>\n<p>Em abril de 2024, os l\u00edderes da AES participaram de um F\u00f3rum de Seguran\u00e7a Pan-Africano, defendendo maior autonomia regional e solu\u00e7\u00f5es lideradas por africanos para os desafios de seguran\u00e7a. Em junho, a alian\u00e7a reafirmou seu compromisso com a soberania dos recursos, destacando a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica do ur\u00e2nio no N\u00edger, do ouro no Mali e dos recursos agr\u00edcolas em Burkina Faso. Em julho, a AES rejeitou os apelos das Na\u00e7\u00f5es Unidas e das pot\u00eancias ocidentais por transi\u00e7\u00f5es aceleradas para um regime civil democr\u00e1tico liberal, priorizando a estabilidade em vez de cronogramas impostos externamente. A alian\u00e7a tamb\u00e9m emitiu uma declara\u00e7\u00e3o condenando as san\u00e7\u00f5es ocidentais em curso contra os Estados-membros, enquadrando-as como instrumentos imperialistas concebidos para minar a soberania regional. Em 6 de julho de 2024, os membros da AES adotaram um tratado que institui oficialmente a Confedera\u00e7\u00e3o dos Estados do Sahel, aprofundando a alian\u00e7a formada sob a <em>Carta de Liptako-Gourma<\/em>. O tratado descreve prioridades compartilhadas em seguran\u00e7a e defesa, combate ao terrorismo e promo\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, comercial e cultural entre os tr\u00eas pa\u00edses (Klomegah, 2024).<\/p>\n<p>Esses acontecimentos refor\u00e7am o compromisso da AES com o fortalecimento da autonomia regional e a promo\u00e7\u00e3o de uma abordagem unificada para enfrentar os complexos desafios do Sahel. Com a expuls\u00e3o da Fran\u00e7a e a diminui\u00e7\u00e3o de sua influ\u00eancia, a regi\u00e3o expandiu suas rela\u00e7\u00f5es com a China e a R\u00fassia. Essa mudan\u00e7a gerou preocupa\u00e7\u00f5es em Washington e no Ocidente quanto \u00e0 eros\u00e3o da influ\u00eancia ocidental na regi\u00e3o, transformando o Sahel em um campo de batalha para conflitos internacionais.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<h3>Desafios econ\u00f4micos futuros<\/h3>\n<p>A AES enfrenta restri\u00e7\u00f5es fundamentais, pois suas economias permanecem ancoradas na depend\u00eancia de recursos extrativos, refletindo padr\u00f5es neocoloniais cont\u00ednuos de rela\u00e7\u00f5es comerciais desiguais e agrega\u00e7\u00e3o limitada de valor.<\/p>\n<figure>\n<table>\n<thead>\n<tr>\n<th>Pa\u00eds<\/th>\n<th>Principal produto de exporta\u00e7\u00e3o (2023)<\/th>\n<th>Participa\u00e7\u00e3o nas Exporta\u00e7\u00f5es (%)<\/th>\n<th>Exporta\u00e7\u00f5es Totais (US$ bilh\u00f5es)<\/th>\n<th>Destino principal<\/th>\n<\/tr>\n<\/thead>\n<tbody>\n<tr>\n<td>Burkina Faso<\/td>\n<td>Ouro<\/td>\n<td>81.8%<\/td>\n<td>3.65<\/td>\n<td>Su\u00ed\u00e7a (67%)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Mali<\/td>\n<td>Ouro<\/td>\n<td>94.1%<\/td>\n<td>5.02<\/td>\n<td>Emirados \u00c1rabes Unidos (72%)<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Niger<\/td>\n<td>Ouro, oleaginosas, ur\u00e2nio<\/td>\n<td>~68.5% combinado<\/td>\n<td>0.8<\/td>\n<td>Emirados \u00c1rabes Unidos (25%), China (20%)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<tfoot>\n<tr>\n<td colspan=\"5\">Compilado do Atlas de Complexidade Econ\u00f4mica de Harvard com base em dados da UN Comtrade (Harvard\u2019s Atlas of Economic Complexity, 2025).<\/td>\n<\/tr>\n<\/tfoot>\n<\/table>\n<\/figure>\n<p>\u00c0 medida que os pa\u00edses da AES alavancam sua riqueza mineral para impulsionar mudan\u00e7as em suas economias, o fazem em um contexto de depend\u00eancia, diversifica\u00e7\u00e3o e agrega\u00e7\u00e3o de valor (idem). Embora os destinos comerciais tenham se afastado do dom\u00ednio franc\u00eas, hoje a Su\u00ed\u00e7a (um polo de refino de ouro) e os Emirados \u00c1rabes Unidos (um crescente centro regional de com\u00e9rcio e refino) dominam as exporta\u00e7\u00f5es dos AES. Enquanto a Su\u00ed\u00e7a funciona em grande parte como um polo de tr\u00e2nsito, reexportando ouro refinado com m\u00ednima agrega\u00e7\u00e3o de valor local para os Estados africanos, os Emirados \u00c1rabes Unidos se dedicam a algum refino, refletindo uma ligeira melhora estrat\u00e9gica na diversifica\u00e7\u00e3o. No entanto, em ambos os casos, a cadeia de valor permanece esmagadoramente fora do controle africano, sustentando a depend\u00eancia de <em>commodities<\/em>. As economias dos AES, portanto, permanecem vulner\u00e1veis \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es globais dos pre\u00e7os das <em>commodities<\/em>. Por exemplo, uma queda nos pre\u00e7os do ouro ou interrup\u00e7\u00f5es nos mercados financeiros dos Emirados \u00c1rabes Unidos podem impactar severamente as receitas cambiais do Mali e de Burkina Faso. Enquanto isso, a depend\u00eancia do N\u00edger em rela\u00e7\u00e3o ao ur\u00e2nio permanece politicamente sens\u00edvel. Como um importante fornecedor do setor de energia nuclear da Europa \u2014 particularmente da Fran\u00e7a \u2014, o realinhamento pol\u00edtico do pa\u00eds ap\u00f3s o golpe e as tens\u00f5es com as pot\u00eancias ocidentais levantaram preocupa\u00e7\u00f5es sobre a seguran\u00e7a do fornecimento. Essas tens\u00f5es foram exacerbadas por san\u00e7\u00f5es e suspens\u00f5es de ajuda, transformando o ur\u00e2nio tanto em uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica quanto em uma moeda de troca geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Embora os pa\u00edses da AES tenham demonstrado uma clara aspira\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao desenvolvimento econ\u00f4mico soberano, ainda persistem vulnerabilidades estruturais, desde a propriedade de recursos at\u00e9 a hegemonia da moeda CFA. A autossufici\u00eancia genu\u00edna exigir\u00e1 n\u00e3o apenas a diversifica\u00e7\u00e3o dos destinos e produtos de exporta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma altera\u00e7\u00e3o fundamental das estruturas de produ\u00e7\u00e3o: constru\u00e7\u00e3o de capacidade interna de refino, controle da pol\u00edtica monet\u00e1ria, fortalecimento do com\u00e9rcio regional e industrializa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da depend\u00eancia de <em>commodities<\/em>.<\/p>\n<figure><\/figure>\n<h3>Buscando Fortemente a Soberania<\/h3>\n<p>\u00c0 medida que a maioria dos l\u00edderes africanos chegava \u00e0 C\u00fapula R\u00fassia-\u00c1frica de 2023, a imprensa internacional acompanhava de perto. Quando o presidente do Burkina Faso, Ibrahim Traor\u00e9, e o presidente do Mali, Assimi Go\u00efta, entrou no local, houve um frenesi na m\u00eddia sobre esses l\u00edderes \u201crenegados\u201d que adotaram um comportamento cada vez mais assertivo, indicativo da mudan\u00e7a geopol\u00edtica mais ampla em andamento nos n\u00f3s estrat\u00e9gicos do Sul Global.<\/p>\n<p>Durante o encontro bilateral com o presidente russo, Vladimir Putin, Traor\u00e9 priorizou a seguran\u00e7a nacional e os acordos de desenvolvimento, mas tamb\u00e9m se referiu incisivamente aos \u201cacontecimentos no N\u00edger\u201d, em que o general Abdourahamane Tchiani liderava um golpe militar naquele exato momento. Esse gesto sinalizou alinhamento com a ruptura pol\u00edtica no N\u00edger e refor\u00e7ou uma narrativa de luta compartilhada dentro de uma ordem internacional injusta que, segundo os l\u00edderes da AES, precisa ser reformulada (Kremlin, 2023). As estrat\u00e9gias diplom\u00e1ticas de Traor\u00e9 e Go\u00efta refletiram uma mudan\u00e7a deliberada de posi\u00e7\u00e3o, afastando-se dos envolvimentos neocoloniais e aproximando-se de parcerias soberanas de desenvolvimento, ecoando uma tend\u00eancia crescente entre muitos Estados do Sul Global, dentro da arquitetura atual do hiperimperialismo, de adotar o que poderia ser chamado de uma postura de \u201cforte busca pela soberania\u201d (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024c).<\/p>\n<p>Esses engajamentos diplom\u00e1ticos \u2014 incluindo realinhamentos estrat\u00e9gicos e iniciativas econ\u00f4micas ou de seguran\u00e7a conjuntas \u2014, n\u00e3o s\u00e3o simplesmente alian\u00e7as oportunistas, mas express\u00f5es de aspira\u00e7\u00f5es mais profundas por reposicionamento estrutural. A AES n\u00e3o est\u00e1 meramente equilibrando amea\u00e7as no sentido predominante nos estudos de seguran\u00e7a (ou seja, alinhando-se com uma pot\u00eancia para neutralizar outra), nem est\u00e1 meramente buscando novos patrocinadores. Em vez disso, sua postura poderia ser descrita como uma \u201cofensiva \u00e0 soberania\u201d \u2014 uma condi\u00e7\u00e3o na qual Estados, confrontados com as restri\u00e7\u00f5es de uma ordem hiperimperialista, afirmam pol\u00edticas e estrat\u00e9gias institucionais que visam romper com a depend\u00eancia e reconfigurar seu lugar no sistema global.<\/p>\n<p>Na Confer\u00eancia Internacional em Solidariedade com os Povos do Sahel, realizada em novembro de 2024, em Niamey, o Brigadeiro-General Abdou Assoumane Harouna, l\u00edder do Conselho Nacional para a Salvaguarda da P\u00e1tria (CNSP) do N\u00edger e governador de Niamey, declarou: \u201cEnfrentaremos o poder do imperialismo (\u2026) Nenhum poder militar no mundo pode deter a tentativa de independ\u00eancia e a rejei\u00e7\u00e3o da antiga ordem mundial\u201d (Peoples Dispatch, 2024). Esse enquadramento reflete uma aspira\u00e7\u00e3o mais ampla, n\u00e3o apenas no Sahel, mas em todo o Sul Global, de se libertar da camisa de for\u00e7a do comando imperial e de afirmar caminhos independentes de desenvolvimento, coopera\u00e7\u00e3o regional e clareza ideol\u00f3gica (idem).<\/p>\n<p>O reposicionamento soberano da AES n\u00e3o \u00e9 ideologicamente espont\u00e2neo; ele emerge de tradi\u00e7\u00f5es profundamente enraizadas de lutas de liberta\u00e7\u00e3o e da rejei\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia que os movimentos populares h\u00e1 muito reivindicam. Os apelos fervorosos vindos de baixo moldaram distintamente a forma como os l\u00edderes da AES enquadraram suas transi\u00e7\u00f5es lideradas pelos militares como formas de \u201csoberania corretiva\u201d.<\/p>\n<p>Embora alguns analistas reduzam essas mudan\u00e7as a uma \u201cades\u00e3o\u201d \u00e0 R\u00fassia ou a um populismo militar oportunista, tal enquadramento ignora a din\u00e2mica estrutural da desvincula\u00e7\u00e3o de um sistema de subordina\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Como observou o Presidente Go\u00efta em suas negocia\u00e7\u00f5es bilaterais com o Presidente Putin durante a c\u00fapula R\u00fassia-\u00c1frica de 2023:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Numerosos pa\u00edses africanos, especialmente o Mali, est\u00e3o sofrendo com a press\u00e3o sem precedentes de v\u00e1rios pa\u00edses que est\u00e3o quase prontos a impor san\u00e7\u00f5es contra n\u00f3s pela nossa parceria com a R\u00fassia \u2014 pela nossa <em>escolha soberana. <\/em>Estamos chocados com essa pr\u00e1tica neocolonialista que deve ser coibida por meio de um esfor\u00e7o conjunto em n\u00edvel internacional (Kremlin, 2023, grifo nosso).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essa \u201cescolha soberana\u201d adv\u00e9m de interesses compartilhados e de processos hist\u00f3ricos mais longos que ainda est\u00e3o em andamento. O presidente Traor\u00e9, de Burkina Faso, explicou, durante seu discurso na c\u00fapula, que a R\u00fassia era como uma fam\u00edlia para o povo africano devido \u00e0 sua hist\u00f3ria compartilhada. \u201cA R\u00fassia fez enormes sacrif\u00edcios para libertar o mundo do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. O povo africano, nossos av\u00f3s, tamb\u00e9m foi deportado \u00e0 for\u00e7a para ajudar a Europa a se livrar do nazismo\u201d, explicou. \u201cCompartilhamos a mesma hist\u00f3ria no sentido de que somos os povos esquecidos do mundo\u201d (Lalla, 2023).<\/p>\n<p>Esta postura da AES continua significativa. Quando o presidente Ibrahim Traor\u00e9 declara que \u201cum escravo que n\u00e3o consegue assumir a sua pr\u00f3pria revolta n\u00e3o merece ser lamentado\u201d, ou quando o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Mali, Abdoulaye Diop, afirma que o destino dos nossos pa\u00edses n\u00e3o ser\u00e1 decidido em Bruxelas, Paris, Washington ou Londres; ser\u00e1 decidido em Bamako, Ouagadougou, Niamey , n\u00e3o se trata apenas de um floreio ret\u00f3rico (Malga, 2024; Glazkova, 2024; Peoples Dispatch, 2023). Tais declara\u00e7\u00f5es s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que ressoam com um sentimento popular de soberania por meio da luta armada e institucional \u2014 uma ruptura com os regimes liberais desmobilizados e liderados por compradores das \u00faltimas d\u00e9cadas. Isso ficou bem claro quando uma s\u00e9rie de tentativas de ataque e interven\u00e7\u00f5es contra Traor\u00e9 foram recebidas com m\u00faltiplos atos, protestos e manifesta\u00e7\u00f5es em apoio \u00e0 sua lideran\u00e7a em 30 de abril de 2025 em pa\u00edses do continente e do mundo, de Burkina Faso, Costa do Marfim e Qu\u00eania aos Estados Unidos, Reino Unido e Fran\u00e7a (Sanusi, 2025).<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de romantizar a AES. Esses governos enfrentam profundas contradi\u00e7\u00f5es internas e precisam navegar pelos perigos de antigas e novas depend\u00eancias. Mudan\u00e7as no cen\u00e1rio geopol\u00edtico podem alterar rapidamente a capacidade da AES de alavancar seus novos relacionamentos. Como Vijay Prashad escreve sobre os eventos na S\u00edria e suas repercuss\u00f5es no Sahel:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A mudan\u00e7a de governo na S\u00edria n\u00e3o apenas enfraqueceu o Ir\u00e3 no curto prazo, mas tamb\u00e9m enfraqueceu a R\u00fassia (um objetivo estrat\u00e9gico de longo prazo dos Estados Unidos), que anteriormente usava os aeroportos s\u00edrios para reabastecer seus avi\u00f5es de suprimentos a caminho de v\u00e1rios pa\u00edses africanos. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel para a R\u00fassia usar essas bases, e ainda n\u00e3o est\u00e1 claro onde os avi\u00f5es militares russos poder\u00e3o reabastecer para viagens \u00e0 regi\u00e3o, principalmente para os pa\u00edses do Sahel. Isso dar\u00e1 aos Estados Unidos a oportunidade de pressionar os pa\u00edses que fazem fronteira com o Sahel, como a Nig\u00e9ria e o Benin, a lan\u00e7ar opera\u00e7\u00f5es contra os governos de Burkina Faso, Mali e N\u00edger. Isso exigir\u00e1 uma observa\u00e7\u00e3o atenta. (Prashad, 2024)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Apesar de suas conquistas simb\u00f3licas e estrat\u00e9gicas at\u00e9 o momento, o sucesso da alian\u00e7a depende de sua capacidade de criar institui\u00e7\u00f5es duradouras, promover a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e alinhar seus objetivos internos com a estabilidade regional. Novas iniciativas \u2014 como a coordena\u00e7\u00e3o regional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o de recursos; propostas para uma moeda saheliana; um passaporte \u00fanico AES que permita a livre circula\u00e7\u00e3o entre Estados; interconex\u00e3o de redes; for\u00e7as militares conjuntas; e apelos \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul \u2014 refletem os primeiros passos em dire\u00e7\u00e3o a um novo paradigma de desenvolvimento enraizado na soberania, autossufici\u00eancia e participa\u00e7\u00e3o popular. O paradigma emergente no Sahel permanece fr\u00e1gil, mas reflete uma rejei\u00e7\u00e3o decisiva do modelo de comando imperial e um horizonte pol\u00edtico alinhado \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es emancipat\u00f3rias do Sul Global.<\/p>\n<hr>\n<figure><\/figure>\n<h3>Notas<\/h3>\n<p><sup>1<\/sup> Os caminhos hist\u00f3ricos percorridos por Burkina Faso, Mali e N\u00edger para lidar com seus legados coloniais diferem de forma significativa. Mali tentou seguir uma agenda socialista na d\u00e9cada de 1960, que foi frustrada por um golpe em 1968; Burkina Faso embarcou em um projeto de desenvolvimento soberano liderado pelo Estado entre 1983 e 1987, que culminou no assassinato de Thomas Sankara; e os principais grupos anticoloniais do N\u00edger foram em grande parte esmagados no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960. Embora uma an\u00e1lise completa dessas diferen\u00e7as esteja fora do escopo deste dossi\u00ea, as experi\u00eancias hist\u00f3ricas compartilhadas por esses tr\u00eas pa\u00edses \u2014 como o colonialismo franc\u00eas, os arranjos econ\u00f4micos neocoloniais, os frequentes golpes militares e a depend\u00eancia de recursos minerais \u2014 s\u00e3o pontos em comum suficientes para justificar uma an\u00e1lise conjunta.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> As cinco \u00e1reas listadas foram delineadas em uma entrevista n\u00e3o publicada com Mamane Sani Adamou da Organiza\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria para a Nova Democracia (ORDN) \u2014 Tarmouwa, conduzida por Mikaela Nhondo Erskog, em 9 set. 2024.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup> Para mais informa\u00e7\u00f5es sobre a biografia de Traor\u00e9, ver Kraft, 2025.Acima<\/p>\n<h3>Refer\u00eancias<\/h3>\n<p>Adamou, Mamane Sani. Entrevista n\u00e3o publicada concedida a Mikaela Nhondo Erskog, 9 set. 2024.<\/p>\n<p>Al Jazeera. \u201cThousands Rally in Mali to Protest against Ethnic Violence\u201d. <em>Al Jazeera<\/em>, 5 abr. 2019. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2019\/4\/5\/thousands-rally-in-mali-to-protest-against-ethnic-violence.<\/p>\n<p>Al Jazeera. \u201cDeaths in Niger as Protesters Confront French Army Convoy\u201d. <em>Al Jazeera<\/em>, 27 nov. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2021\/11\/27\/three-killed-in-niger-as-protesters-confront-french-army-convoy<\/p>\n<p>Al-Hassan, Effred Mouloul. Comunica\u00e7\u00e3o oral na Confer\u00eancia Internacional em Solidariedade com os Povos do Sahel, Niamey, Niger, nov. 2024.<\/p>\n<p>Al Jazeera\/AJLabs. \u201cMapping Africa\u2019s Coups d\u2019etat across the Years\u201d, <em>Al Jazeera<\/em>, 30 ago. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2023\/8\/30\/mapping-africas-coups-detat-across-the-years.<\/p>\n<p>Altaeb, Malak. \u2018What\u2019s Next for Libya\u2019s Great Man-Made River Project?\u2019, <em>Middle East Institute<\/em>, 10 August 2022, https:\/\/www.mei.edu\/publications\/whats-next-libyas-great-man-made-river-project.<\/p>\n<p>Autoridade Liptako-Gourma. \u201cCarta de Liptako-Gourma que estabelece a Alian\u00e7a dos Estados do Sahel\u201d, set. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/maliembassy.us\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/LIPTAKO-GOURMA-Engl___-2.pdf.<\/p>\n<p>Babatope, Ebenezer. <em>Coups: Africa and the Barrack Revolts<\/em>. Ibadan: African Books Collective, 1981.<\/p>\n<p>Banco Mundial. \u201cPopula\u00e7\u00e3o Total \u2013 Burkina Faso, Mali, N\u00edger\u201d, <em>Indicadores de Desenvolvimento Mundial<\/em>, jun. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/data.worldbank.org\/indicator\/SP.POP.TOTL?locations=BF-ML-NE<\/p>\n<p>Banco Mundial. \u201cMacro Poverty Outlook: Sub-Saharan Africa\u201d. Washington, DC: World Bank, out. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.worldbank.org\/en\/publication\/macro-poverty-outlook\/mpo_ssa.<\/p>\n<p>Black Agenda Report. \u201cLetter from Republic of Mali to UN on French Aggression and Support for Terrorism in Region\u201d. 24 ago. 2022. Dispon\u00edvel em:\u00a0 http:\/\/www.blackagendareport.com\/letter-republic-mali-un-french-aggression-and-support-terrorism-region.<\/p>\n<p>Carboni, Andrea. \u201cRegional Overview: Africa 8-14 December 2019\u201d. <em>Armed Conflict<\/em> Location &amp; Event Data, 16 dez. 2019, https:\/\/acleddata.com\/2019\/12\/16\/regional-overview-africa-8-14-december-2019\/.<\/p>\n<p>Chukwu, Joy. \u201cMali Takes Full Control Of Yatela Gold Mine From Foreign Companies\u201d. <em>West Africa Weekly<\/em>, 20 out. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/westafricaweekly.com\/mali-takes-full-control-of-yatela-gold-mine-from-foreign-companies\/<\/p>\n<p>Crisis Group. \u201cA Splinter in the Sahel: Can the Divorce with ECOWAS Be Averted?\u2019, <em>Crisis Group<\/em>, 5 dez. 2024. Dispon\u00edvel em:\u00a0 https:\/\/www.crisisgroup.org\/africa\/sahel\/burkina-faso-mali-niger\/splinter-sahel-can-divorce-ecowas-be-averted<\/p>\n<p>Cumming, Gordon. \u201cFrench Aid to Africa: Towards a New Consensus?\u201d, <em>Modern &amp; Contemporary France<\/em> 4, n. 4, 1 jan. 1996, p. 453-62. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1080\/09639489608456334.<\/p>\n<p>Decalo, Samuel , \u201cModalities of Civil-Military Stability in Africa\u201d, <em>The Journal of Modern African Studies<\/em> 27, n. 4, 1989, p. 547-578.<\/p>\n<p>Diagana, Bocar <em>et al<\/em>., \u201cEffects of the CFA Franc Devaluation on Urban Food Consumption in West Africa: Overview and Cross-Country Comparisons\u201d, <em>Food Policy<\/em> 24, n. 5, 1 out. 1999, p. 465-78. Dispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1016\/S0306-9192(99)00060-3.<\/p>\n<p>Edds-Reitman, Matthew &amp; Boakye, Rachel Yeboah. \u201cSahel Coup Regime\u2019s Split from ECOWAS Risks Instability in Coastal West Africa\u201d, <em>United States Institute of Peace<\/em>, dez. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.usip.org\/publications\/2024\/10\/sahel-coup-regimes-split-ecowas-risks-instability-coastal-west-africa<\/p>\n<p>FMI. \u201cBackground Information from the Study Guide to The Fabric of Reform \u2013 An IMF Video\u201d. Acesso em 12 jun. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.imf.org\/external\/pubs\/ft\/fabric\/backgrnd.htm.<\/p>\n<p>France 24. \u201cUN Finds French Strike in Mali in January Killed 19 Civilians; France Refutes Report\u201d. <em>France 24<\/em>, 30 mar. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.france24.com\/en\/live-news\/20210330-un-probe-finds-french-strike-in-mali-in-january-killed-19-civilians.<\/p>\n<p>Glazkova, Christina. \u201cFuture of Sahel Is Now Decided by Its People, Malian Foreign Minister Declares in EU\u201d. <em>Sputnik Africa<\/em>, 28 jun. 2024, Dispon\u00edvel em: https:\/\/en.sputniknews.africa\/20240628\/future-of-sahel-is-now-decided-by-its-people-malian-foreign-minister-declares-in-eu-1067286390.html<\/p>\n<p>Harvard\u2019s Atlas of Economic Complexity. \u2018Growth Lab\u2019, 10 jun. 2025 (acesso). Dispon\u00edvel em: https:\/\/atlas.hks.harvard.edu\/explore.<\/p>\n<p>IDMC \u2013 Internal Displacement Monitoring Centre. \u201cInternal Displacement in Africa Triples in 15 Years since Landmark Treaty to Address It\u201d. 26 nov. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.internal-displacement.org\/news\/internal-displacement-in-africa-triples-in-15-years-since-landmark-treaty-to-address-it.<\/p>\n<p>Idrissa, Rahmane. \u201cHot Water\u201d. <em>London Review of Books Blog<\/em>, 9 abr. 2021. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.lrb.co.uk\/blog\/2021\/april\/hot-water<\/p>\n<p>Institute for Economics &amp; Peace, Global Terrorism Index 2024: Measuring the Impact of Terrorism, Sydney, fev. 2024, Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.visionofhumanity.org\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/GTI-2024-web-290224.pdf.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cFran\u00e7a fora da \u00c1frica \u00e9 a palavra de ordem do momento. Carta semanal 49 (2024)\u201d, 5 dez. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/newsletterissue\/cartasemanal-sahel-soberania\/<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Defendendo nossa soberania: as bases militares dos EUA na \u00c1frica e o futuro da unidade africana. <em>Dossi\u00ea n. 42<\/em>, 9 jun. 2023, https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/dossie-42-militarizacao-africa\/<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cDemocracy is Like Rice. We Need to Grow It Ourselves: The Twelfth Pan-Africa Newsletter (2024)\u201d, 31 dez. 2024b. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pan-africa\/newsletterissue-niger-conference\/.<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. \u201cO povo de N\u00edger e a vontade de dar um fim \u00e0 submiss\u00e3o\u201d | <em>Carta semanal 34<\/em> (2023), 24 ago. 2023b. Dispon\u00edvel em: https:\/\/thetricontinental.org\/pt-pt\/newsletterissue\/cartasemanal-niger-intervencao-militar\/<\/p>\n<p>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Hiperimperialismo: um novo est\u00e1gio decadente perigoso. Dilemas Contempor\u00e2neos. n. 4, 23 jan. 2024c. Dispon\u00edvel em https:\/\/thetricontinental.org\/studies-on-contemporary-dilemmas-4-hyper-imperialism.<\/p>\n<p>Journal Officiel de la R\u00e9publique Fran\u00e7aise. \u201cAccord de coop\u00e9ration en mati\u00e8re de d\u00e9fense entre la R\u00e9publique fran\u00e7aise et la R\u00e9publique du Niger\u201d, assinado em Paris, em 24 abr. 1961. <em>In:<\/em> \u201cAccords de coop\u00e9ration sign\u00e9s par la France avec la C\u00f4te d\u2019Ivoire, le Dahomey et le Niger\u201d, <em>Journal Officiel de la R\u00e9publique Fran\u00e7aise <\/em>n. 69, 23 mar. 1963. Dispon\u00edvel em: https:\/\/afriquexxi.info\/IMG\/pdf\/accord_france_niger_1961_0_.pdf.<\/p>\n<p>Klomegah, Kester Kenn. \u201cThe Alliance of Sahel States: Implications, Challenges and Prospects in West Africa\u201d, <em>Modern Diplomacy<\/em>, 17 set. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/moderndiplomacy.eu\/2024\/09\/17\/the-alliance-of-sahel-states-implications-challenges-and-prospects-in-west-africa\/.<\/p>\n<p>Kraft, Jack G. <em>Ibrahim Traor\u00e9: The Youngest Leader of Burkina Faso: From Military Officer to Interim President<\/em>. Publicado de forma independente, 2025.<\/p>\n<p>Kremlin. \u201cMeeting with Interim President of Burkina Faso Ibrahim Traore\u201d, 29 jul. 2023. Dispon\u00edvel em: http:\/\/en.kremlin.ru\/events\/president\/news\/71838.<\/p>\n<p>Kremlin. \u201cMeeting with Interim President of Mali Assimi Go\u00efta\u201d, 29 jul. 2023. Dispon\u00edvel em: http:\/\/en.kremlin.ru\/events\/president\/news\/71842.<\/p>\n<p>Lalla, Steve. \u201cBurkina Faso\u2019s President Traor\u00e9 Delivers Anti-Imperialist Speech at Russia\u2013Africa Summit\u2019, <em>MR Online<\/em>, 5 ago. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/mronline.org\/2023\/08\/05\/burkina-fasos-president-traore-delivers-anti-imperialist-speech-at-russia-africa-summit\/.<\/p>\n<p>Ma\u00efga, Abdoulaye. \u201cSpeech at the General Debate of the 79th Session of the United Nations General Assembly\u201d, 28 set. 2024, New York. Dispon\u00edvel em: https:\/\/gadebate.un.org\/sites\/default\/files\/gastatements\/79\/ml_fr.pdf<\/p>\n<p>Malga, Amarana. \u201cLe sort des Etats de l\u2019Alliance du Sahel ne se d\u00e9cidera pas dans les capitales occidentales (Abdoulaye Diop)\u201d, 30 jun. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.aa.com.tr\/fr\/afrique\/le-sort-des-etats-de-lalliance-du-sahel-ne-se-d\u00e9cidera-pas-dans-les-capitales-occidentales-abdoulaye-diop-\/3262012<\/p>\n<p>Mensah, Kent. \u201cAfrica\u2019s Coup Epidemic: Has Democracy Failed the Continent?\u201d. <em>Al Jazeera<\/em>, 23 set. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.aljazeera.com\/features\/2023\/9\/22\/africas-coup-epidemic-has-democracy-failed-the-continent.<\/p>\n<p>Mining Weekly. \u201cMali to Get $1.2bn from Miners after Talks\u201d, 1 mar. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.miningweekly.com\/article\/mali-to-get-12bn-from-miners-after-talks-2025-01-13.<\/p>\n<p>Minist\u00e9rio da Economia e Finan\u00e7as do Mali. \u201cMali Kura \u019d\u025btaasira Ka B\u025bn San 2063 and National Strategy for Emergence and Sustainable Development (SNEDD 2024-2033)\u201d. Bamako: Government of Mali, dez. 2024.<\/p>\n<p>Minist\u00e9rio da Refunda\u00e7\u00e3o do Estado da Rep\u00fablica do Mali. \u201cProgramme National d\u2019\u00c9ducation aux Valeurs\u201d, Bamako, 5 jan. 2023, https:\/\/cdi.gouv.ml\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Programme-National-DEducation-aux-Valeurs.pdf.<\/p>\n<p>Murphy, Theodore. \u201cMiddle Powers, Big Impact: Africa\u2019s \u2018Coup Belt\u2019, Russia, and the Waning Global Order\u201d. European Council on Foreign Relations, 6 set. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/ecfr.eu\/article\/middle-powers-big-impact-africas-coup-belt-russia-and-the-waning-global-order\/.<\/p>\n<p>Mwakikagile, Godfrey. <em>Military Coups in West Africa Since the Sixties<\/em>. New York: Nova Science Publishers, 2001.<\/p>\n<p>Ochieng, Beverly. \u201cWill the Sahel Military Alliance Further Fragment ECOWAS?\u201d. <em>Center for Strategic &amp; International Studie<\/em>s, 15 fev. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.csis.org\/analysis\/will-sahel-military-alliance-further-fragment-ecowas.<\/p>\n<p>Office National d\u2019Edition et de Presse. \u201cCommuniqu\u00e9 conjoint du Burkina Faso, de la R\u00e9publique du Mali et de la R\u00e9publique du Niger: Les trois pays d\u00e9cident de leur retrait sans del\u00e1i de la Cedeao\u201d, 28 jan. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.lesahel.org\/communique-conjoint-du-burkina-faso-de-la-republique-du-mali-et-de-la-republique-du-niger-les-trois-pays-decident-de-leur-retrait-sans-delai-de-la-cedeao\/.<\/p>\n<p>Onwuka, R. I. \u201cThe ECOWAS Treaty: Inching Towards Implementation\u201d. <em>The World Today<\/em> 36, n. 2, 1980. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.jstor.org\/stable\/40395168.<\/p>\n<p>Oxfam. \u201cAreva in Niger: Who Is Benefiting from the Uranium?\u201d, <em>Oxfam Internacional<\/em>, 21 ago. 2014. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.oxfam.org\/en\/press-releases\/areva-niger-who-benefiting-uranium.<\/p>\n<p>Peoples Dispatch. \u201cThe Anti-Imperialist Upsurge in the Sahel Is Irreversible, Say Leaders at Historic Conference in Niamey\u201d, 19 nov. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/peoplesdispatch.org\/2024\/11\/19\/the-anti-imperialist-upsurge-in-the-sahel-is-irreversible-say-leaders-at-historic-conference-in-niamey\/.<\/p>\n<p>Peoples Dispatch, \u201c\u2018A Slave Who Cannot Assume His Own Revolt Does Not Deserve to Be Pitied,\u2019 Says Ibrahim Traor\u00e9 of Burkina Faso\u201d, <em>Peoples Dispatc<\/em>h, 2 ago. 2023. Dispon\u00edvel em: https:\/\/peoplesdispatch.org\/2023\/08\/02\/a-slave-who-cannot-assume-his-own-revolt-does-not-deserve-to-be-pitied-says-ibrahim-traore-of-burkina-faso\/.<\/p>\n<p>Prashad, Vijay. \u201cThe Sahel stands up and the world must pay attention\u201d. <em>People\u2019s Dispatch<\/em>, 7 jul. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/peoplesdispatch.org\/2024\/07\/08\/o-sahel-se-levanta-e-o-mundo-deve-prestar-atencao\/<\/p>\n<p>Prashad, Vijay. Como entender a mudan\u00e7a de governo na S\u00edria | <em>Carta semanal 51<\/em> (2024), 19 dez. 2024, https:\/\/thetricontinental.org\/newsletterissue\/how-to-understand-the-change-of-government-in-syria\/.<\/p>\n<p>Presid\u00eancia da Rep\u00fablica do Mali. \u201cSanankoroba: coup d\u2019envoi de la construction d\u2019une nouvelle centrale solaire de 200 MWc\u201d, <em>Koulouba<\/em>, 12 jul. 2025 (acesso). Dispon\u00edvel em: https:\/\/koulouba.ml\/sanankoroba-coup-denvoi-de-la-construction-dune-nouvelle-centrale-solaire-de-200-mwc\/<\/p>\n<p>Presid\u00eancia da Rep\u00fablica do Mali. \u201cCommuniqu\u00e9 du Conseil des Ministres du jeudi 02 mai 2024\u201d, <em>Koulouba<\/em>, 12 jul. 2025 (acesso). Dispon\u00edvel em:, https:\/\/koulouba.ml\/communique-du-conseil-des-ministres-du-jeudi-02-mai-2024\/.<\/p>\n<p>Sanusi, Oluwasegun. \u201cDemonstrators March, Picket Western Embassies in Ouagadougou, Accra, London, Paris in Support of Ibrahim Traor\u00e9\u201d. <em>West Africa Weekly<\/em>, 1 maio 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/westafricaweekly.com\/demonstrators-march-picket-western-embassies-in-ouagadougou-accra-london-paris-in-support-of-ibrahim-traore\/.<\/p>\n<p>Sguazzin, Antony &amp; Hoije, Katarina. \u201cNiger\u2019s Military Junta Ditches America and Courts Russia\u201d. <em>Bloomberg<\/em>, 19 mar. 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/newsletters\/2024-03-19\/next-africa-us-right-to-operate-drone-base-in-niger-terminated-by-junta.<\/p>\n<p>Venditti, Bruno. \u201cGanfeng Begins Production at Goulamina Lithium Mine in Mali\u201d. <em>Mining<\/em>, 26 dez. 2024, https:\/\/www.mining.com\/ganfeng-begins-production-at-goulamina-lithium-mine-in-mali\/.<\/p>\n<p>Walraven, Klaas Van. \u201cDecolonisation by Referendum: The Anomaly of Niger and the Fall of Sawaba, 1958\u20131959\u201d. <em>The Journal of African History<\/em> 50, n. 2, 2009, p. 269-292. FDispon\u00edvel em: https:\/\/doi.org\/10.1017\/S0021853709990053.<\/p>\n<p>Zimmerman, Sarah Jean. \u201cViver al\u00e9m das fronteiras: militares da \u00c1frica Ocidental em conflitos coloniais franceses, 1908-1962\u201d. Berkeley, 2011. Dispon\u00edvel em: https:\/\/escholarship.org\/uc\/item\/4x19q2xb.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Dossi\u00ea Sahel: Radiografia da \u00c1frica insubmissa appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/com-apoio-de-movimentos-populares-parlamento-frances-ratifica-posicao-contra-acordo-mercosul-ue\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Com apoio de movimentos populares, parlamento fran...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-democratizacao-do-galinheiro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">A democratiza\u00e7\u00e3o do galinheiro<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lula-com-empresarios-exportadores-de-carne-nosso-papel-e-abrir-portas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/cf6906a9-f47a-435b-97bd-19ac628f7df2-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Lula com empres\u00e1rios exportadores de carne: Nosso ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/eua-autorizaram-que-chevron-explore-petroleo-na-venezuela-diz-maduro\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">EUA autorizaram que Chevron explore petr\u00f3leo na Ve...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s levantes militares com apoio popular, Burkina Faso, Mali e N\u00edger tateiam um caminho soberano, que desafia o Ocidente. O que prop\u00f5em? 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