{"id":55699,"date":"2025-09-30T19:12:38","date_gmt":"2025-09-30T22:12:38","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-enfrentar-a-crise-de-saude-mental-nas-universidades\/"},"modified":"2025-09-30T19:12:38","modified_gmt":"2025-09-30T22:12:38","slug":"como-enfrentar-a-crise-de-saude-mental-nas-universidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/como-enfrentar-a-crise-de-saude-mental-nas-universidades\/","title":{"rendered":"Como enfrentar a crise de sa\u00fade mental nas universidades?"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/arte-saude-mental-vida-simples-1024x683-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/arte-saude-mental-vida-simples-1024x683-1.jpg 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arte-saude-mental-vida-simples-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arte-saude-mental-vida-simples-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arte-saude-mental-vida-simples-1024x683-1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><figcaption>Imagem: Dimitar Belchev | Unsplash <\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>T\u00edtulo original: <strong>A sa\u00fade mental na Universidade e a pol\u00edtica como forma de cuidado<\/strong><\/p>\n<p>Nesta segunda quinzena de setembro de 2025, a Universidade Federal do Rio Grande (FURG), situada no extremo sul do Brasil, cancelou suas atividades acad\u00eamicas para fins de acolhimento e reflex\u00e3o sobre fatos tr\u00e1gicos ocorridos em seu campus central. O fato teve grande repercuss\u00e3o nas redes sociais e desencadeou grande como\u00e7\u00e3o a respeito da gest\u00e3o universit\u00e1ria e do cuidado da sa\u00fade mental no meio universit\u00e1rio. Como sou frequentador do meio universit\u00e1rio federal desde 1994, trabalho na doc\u00eancia desde 2000 e sou professor da FURG desde 2010 (justamente na disciplina de psicologia da educa\u00e7\u00e3o), me senti convocado a tecer algumas considera\u00e7\u00f5es sobre o cuidado em sa\u00fade mental e a gest\u00e3o do ensino superior federal. Acredito que minha vontade de ser professor come\u00e7ou quando ingressei no curso de Psicologia da UFRGS e fui convocado a participar do movimento estudantil. Naquele ano, os estudantes de psicologia, por autogest\u00e3o, organizavam encontros regionais, os EREPS, e, por sorte, naquele ano o tema do encontro foi \u201cO cotidiano universit\u00e1rio: como anda sua rela\u00e7\u00e3o com o conhecimento\u201d. Nos EREPS da regi\u00e3o sul, estudantes dos tr\u00eas estados, alojados em salas de aula da universidade, confraternizavam e travavam debates e trocas sobre as diferentes experi\u00eancias de ser e estar em um curso superior. Lembro bem que uma das mesas de debate era \u201cO pacto de mediocridade: professor finge que aprende e aluno finge que estuda\u201d. Hoje essa forma de mobiliza\u00e7\u00e3o na psicologia est\u00e1 extinta, e acredito que em outras \u00e1reas tamb\u00e9m, juntamente com o movimento estudantil em geral. Mas se eu pudesse voltar no tempo, eu organizaria um evento com a mesma tem\u00e1tica, mas mudaria o tema \u201cCotidiano universit\u00e1rio: por que sofremos e adoecemos tanto?\u201d<\/p>\n<p>O ensino superior no Brasil s\u00f3 foi oficialmente implantado no s\u00e9culo XIX, muito tempo depois do surgimento das primeiras universidades europeias e latino-americanas. At\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, jovens brasileiros que desejavam alcan\u00e7ar forma\u00e7\u00e3o superior precisavam, obrigatoriamente, viajar para o exterior, principalmente para Portugal. Isso se devia \u00e0 aus\u00eancia de universidades no territ\u00f3rio brasileiro durante o per\u00edodo colonial, reflexo da pol\u00edtica portuguesa de centraliza\u00e7\u00e3o do saber.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5107199307814734689-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5107199307814734689-2.jpg 650w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/5107199307814734689-300x69.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" width=\"650\" height=\"150\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A chegada da fam\u00edlia real portuguesa ao Brasil, em 1808, mudou esse cen\u00e1rio. Como resposta \u00e0s necessidades administrativas e profissionais do novo centro pol\u00edtico do imp\u00e9rio, foram fundadas as primeiras escolas superiores no pa\u00eds, como a Escola de Cirurgia da Bahia e a Escola de Cirurgia do Rio de Janeiro. Outras institui\u00e7\u00f5es voltadas para \u00e1reas espec\u00edficas, como engenharia, tamb\u00e9m surgiram ao longo do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>A primeira universidade brasileira, contudo, foi criada apenas em 1920: a Universidade do Rio de Janeiro, que depois deu origem \u00e0 atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A funda\u00e7\u00e3o dessa universidade, resultado da jun\u00e7\u00e3o de faculdades isoladas, representa um marco importante para o ensino superior federal, consolidando a ideia de universidade como espa\u00e7o integrado de pesquisa, ensino e extens\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>A expans\u00e3o e a federaliza\u00e7\u00e3o do ensino superior<\/strong><\/h3>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o ensino superior brasileiro era restrito \u00e0 elite e concentrava-se em poucas cidades. A Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, liderada por Get\u00falio Vargas, trouxe uma nova l\u00f3gica para o Estado brasileiro, impulsionando a moderniza\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o do ensino, inclusive em n\u00edvel superior. Foram criadas novas universidades, como a Universidade de Minas Gerais (1930) e a Universidade de S\u00e3o Paulo (1934), esta \u00faltima sob administra\u00e7\u00e3o estadual, mas com forte influ\u00eancia no modelo federal.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1950 testemunhou a expans\u00e3o dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de universidades federais em v\u00e1rias regi\u00f5es do pa\u00eds, buscando descentraliza\u00e7\u00e3o e interioriza\u00e7\u00e3o do ensino superior. A cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura (MEC) em 1930 e, posteriormente, do Conselho Federal de Educa\u00e7\u00e3o (CFE) em 1961, foram fundamentais para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a universaliza\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 universidade.<\/p>\n<p>A Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (LDB), promulgada em 1961, estabeleceu um marco normativo para o ensino superior, regulamentando sua estrutura, gest\u00e3o e objetivos. J\u00e1 nos anos 1960, <strong>o regime militar<\/strong> implementou uma reestrutura\u00e7\u00e3o profunda nas universidades federais, com o objetivo de fortalecer a pesquisa, ampliar a oferta de vagas e aproximar a produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica das demandas do mercado e do Estado.<\/p>\n<h3><strong>Transforma\u00e7\u00f5es durante o regime militar<\/strong><\/h3>\n<p>A reforma universit\u00e1ria de 1968, impulsionada pelo governo militar, representou um divisor de \u00e1guas para as universidades federais. Ela instituiu o modelo departamental, a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o stricto sensu, a dedica\u00e7\u00e3o exclusiva para docentes, a pesquisa como eixo estruturante e incentivou a cria\u00e7\u00e3o de universidades multicampi. Apesar do contexto autorit\u00e1rio, esse per\u00edodo foi marcado por forte expans\u00e3o da rede federal e aumento expressivo do n\u00famero de estudantes matriculados.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, os anos de chumbo trouxeram repress\u00e3o pol\u00edtica ao ambiente universit\u00e1rio, com persegui\u00e7\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es nas institui\u00e7\u00f5es federais. A universidade p\u00fablica tornou-se palco de resist\u00eancia e luta por liberdade, consolidando sua tradi\u00e7\u00e3o de protagonismo nos principais debates nacionais.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/curso-rosa-luxemburgo.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/curso-rosa-luxemburgo.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/curso-rosa-luxemburgo-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Com a abertura pol\u00edtica e a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a partir dos anos 1980, houve um novo impulso para a autonomia universit\u00e1ria e para a valoriza\u00e7\u00e3o do papel social das universidades federais. A Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988 reafirmou esses princ\u00edpios, garantindo a autonomia did\u00e1tico-cient\u00edfica, administrativa e de gest\u00e3o financeira e patrimonial das universidades. Al\u00e9m disso, a Carta Magna estabeleceu a gratuidade do ensino nas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas federais e refor\u00e7ou o compromisso do Estado com a expans\u00e3o do acesso e com a promo\u00e7\u00e3o da inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas seguintes, o sistema federal expandiu-se significativamente, tanto em n\u00famero de universidades quanto em vagas, cursos e campi. Movimentos sociais, pol\u00edticas afirmativas e programas de inclus\u00e3o \u2014 como o Programa Universidade para Todos (ProUni), o Sistema de Sele\u00e7\u00e3o Unificada (SiSU) e a Lei de Cotas \u2014 alteraram profundamente o perfil estudantil, intensificando a diversidade \u00e9tnica, social e regional nas universidades.<\/p>\n<h3><strong>Interioriza\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>A partir dos anos 2000, pol\u00edticas de interioriza\u00e7\u00e3o e de expans\u00e3o do ensino superior federal ganharam for\u00e7a, criando universidades e institutos federais em cidades m\u00e9dias e pequenas, especialmente nas regi\u00f5es Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Iniciativas como o Programa de Apoio a Planos de Reestrutura\u00e7\u00e3o e Expans\u00e3o das Universidades Federais (REUNI) foram decisivas para a amplia\u00e7\u00e3o do acesso, a diversifica\u00e7\u00e3o da oferta de cursos e a valoriza\u00e7\u00e3o da pesquisa e da extens\u00e3o universit\u00e1ria no interior do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O fortalecimento dos institutos federais de educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia, institu\u00eddos em 2008, tamb\u00e9m ampliou o escopo do sistema federal, integrando ensino m\u00e9dio, t\u00e9cnico e superior, e aproximando a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica das necessidades regionais e do mundo do trabalho.<\/p>\n<p>O sistema federal de ensino superior brasileiro enfrenta, atualmente, m\u00faltiplos desafios. A garantia de financiamento p\u00fablico suficiente, o combate \u00e0 evas\u00e3o e \u00e0 reten\u00e7\u00e3o de estudantes, a internacionaliza\u00e7\u00e3o das universidades, o fortalecimento da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e da pesquisa, bem como a inclus\u00e3o de grupos historicamente marginalizados, figuram entre as principais pautas contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>A crise fiscal do Estado, aliada a tens\u00f5es pol\u00edticas e or\u00e7ament\u00e1rias, imp\u00f5e limites \u00e0 expans\u00e3o sustent\u00e1vel do sistema federal. Ao mesmo tempo, as universidades federais seguem sendo respons\u00e1veis por grande parte da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional, pela forma\u00e7\u00e3o de profissionais de excel\u00eancia e pelo desenvolvimento de projetos de impacto social.<\/p>\n<p>As universidades federais brasileiras s\u00e3o reconhecidas pela excel\u00eancia em pesquisa, extens\u00e3o e ensino. Institui\u00e7\u00f5es como UFRJ, UFMG, UFBA, UFPE, UNB, entre outras, figuram em rankings internacionais, promovem inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, cient\u00edficas e culturais, e contribuem de forma decisiva para o desenvolvimento do pa\u00eds em m\u00faltiplas \u00e1reas: sa\u00fade, engenharia, educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancias humanas, sociais e ambientais.<\/p>\n<p>O sistema federal de ensino superior \u00e9, ainda, um espa\u00e7o de reflex\u00e3o cr\u00edtica, produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e constru\u00e7\u00e3o de cidadania, abrigando debates sobre direitos humanos, democracia, diversidade cultural e sustentabilidade.<\/p>\n<p>As duas \u00faltimas d\u00e9cadas representaram uma grande expans\u00e3o do sistema de ensino superior federal, por\u00e9m tamb\u00e9m foram marcadas por cortes gigantescos no or\u00e7amento, por um per\u00edodo de ataques pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos da extrema direita e principalmente por um lento processo de engessamento administrativo, privatiza\u00e7\u00e3o silenciosa pela terceiriza\u00e7\u00e3o e recrudescimento da democracia, especialmente da redu\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o estudantil, especialmente ap\u00f3s a pandemia e com a ascens\u00e3o da digitaliza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em redes sociais privadas.<\/p>\n<p>O que chamo de privatiza\u00e7\u00e3o silenciosa \u00e9 a naturaliza\u00e7\u00e3o do fato de que tanto docentes quanto estudantes pagam para trabalhar e estudar. N\u00f3s docentes j\u00e1 adotamos como banal usarmos nossos notebooks em sala de aula, bem como pagarmos por insumos de laborat\u00f3rios ou mesmo para os coffee breaks em eventos comemorativos, al\u00e9m de muitos campi n\u00e3o contarem com restaurante universit\u00e1rio ou cantina. Os estudantes passam pelas mesmas prova\u00e7\u00f5es, al\u00e9m da precariedade do transporte coletivo, que hoje n\u00e3o \u00e9 mais p\u00fablico, e sim concedido, que \u00e9 caro e muito prec\u00e1rio.<\/p>\n<p>Trabalho em um campus que fica no litoral norte, 80 km distante de minha resid\u00eancia, e, mesmo recebendo aux\u00edlio-transporte, nas aulas do per\u00edodo noturno, dependo de meu autom\u00f3vel particular para trabalhar. A cidade n\u00e3o conta com linhas de \u00f4nibus diretas para o campus, obrigando a Universidade a fazer um esfor\u00e7o descomunal fora de suas atribui\u00e7\u00f5es e bancar uma linha privada. Essa realidade se repete nas Federais de todo o Brasil.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, em toda sua hist\u00f3ria, nunca as Universidades Federais pararam para pensar em seu modelo administrativo e pedag\u00f3gico, apesar de seus detratores frequentemente nos acusarem de disc\u00edpulos comunistas de Paulo Freire. Minha tese vai justamente no sentido contr\u00e1rio: somos a institui\u00e7\u00e3o mais conservadora e reacion\u00e1ria no quesito metodologia de ensino e pedagogia.<\/p>\n<p>Para formar um psic\u00f3logo ou um economista, \u00e9 preciso cinco anos de curso superior. Para formar um professor universit\u00e1rio, basta escrever disserta\u00e7\u00e3o e tese e publicar artigos. Pelas grades de pontua\u00e7\u00e3o de curr\u00edculo nos concursos, uma pessoa com quatro semestres de pr\u00e1tica docente, \u00e0s vezes nenhum, entra em uma Federal onde, al\u00e9m de dar aulas, vai ter que fazer pesquisa, extens\u00e3o e cumprir fun\u00e7\u00f5es administrativas (para as quais n\u00e3o somos capacitados).<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o \u00e9 n\u00e3o haver fomento \u00e0 participa\u00e7\u00e3o dos estudantes nas fun\u00e7\u00f5es representativas da universidade previstas por lei. Assim, nas Federais, por exemplo, a maioria dos cursos \u00e9 gerida por dois ou tr\u00eas professores que decidem tudo, at\u00e9 as coordena\u00e7\u00f5es de curso. Sem democracia e participa\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00e3o para apagar inc\u00eandio de sa\u00fade mental que resista. Esse problema possui v\u00e1rias causas e ele \u00e9 um sintoma social mundial, o des\u00e2nimo, a descren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, a dificuldade em relacionamentos presenciais, a cultura do cancelamento\u2026<\/p>\n<p>Os problemas universit\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o pontuais e, de perto, se resumem a casos extremos, mas o ac\u00famulo de pequenos autoritarismos ou uma gest\u00e3o n\u00e3o democr\u00e1tica ou engessada s\u00e3o o caldo de cultura para problemas muito s\u00e9rios. A gest\u00e3o democr\u00e1tica e a participa\u00e7\u00e3o efetiva do corpo discente nos processos decis\u00f3rios ou o encaminhamento coletivo de demandas criam la\u00e7os, v\u00ednculos e consci\u00eancia de classe e de que a pol\u00edtica n\u00e3o se resume \u00e0 burocracia, antagonismo e cismog\u00eanese. Em geral, as estrat\u00e9gias utilizadas dizem respeito a den\u00fancias na ouvidoria, avalia\u00e7\u00f5es an\u00f4nimas ou mesmo manifesta\u00e7\u00f5es em redes sociais que, al\u00e9m de in\u00f3cuas, fortalecem o fascismo digital das <em>big techs<\/em>.<\/p>\n<p>Contudo, a experi\u00eancia demonstra que \u00e9 poss\u00edvel, e relativamente simples, fazer diferente e o exemplo \u00e9 caseiro. O curso de psicologia da FURG, do qual fui docente por sete anos, desde sua funda\u00e7\u00e3o h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas mant\u00e9m, conforme o estatuto da universidade, reuni\u00f5es mensais e, por vezes, quinzenais do seu Comit\u00ea Assessor com representa\u00e7\u00e3o discente ativa e permanente e um Centro Acad\u00eamico composto por representantes de turma. O corpo discente participa de todos os processos decis\u00f3rios do curso, at\u00e9 mesmo das grades de hor\u00e1rios, e, quando h\u00e1 algum problema com um docente, o centro acad\u00eamico se coloca como um canal de media\u00e7\u00e3o e express\u00e3o e os conflitos s\u00e3o administrados ao vivo.<\/p>\n<p>O curso de Psicologia (como em muitas federais) tamb\u00e9m conta com um servi\u00e7o de atendimento psicol\u00f3gico p\u00fablico e gratuito que atende a comunidade universit\u00e1ria e faz parte da rede de servi\u00e7os de sa\u00fade mental de Rio Grande. Eu mesmo tive a oportunidade de atender nesse servi\u00e7o durante alguns anos e escutar o sofrimento ps\u00edquico da popula\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Nosso of\u00edcio \u00e9 muito importante, mas \u00e9 preciso ressaltar que ele \u00e9 apenas auxiliar; n\u00e3o h\u00e1 atendimento m\u00e9dico ou psicol\u00f3gico que d\u00ea conta de um sistema social estruturalmente desigual e problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, como todo processo democr\u00e1tico, nem tudo s\u00e3o flores e h\u00e1 conflitos, mas \u00e9 evidente que \u00e9 poss\u00edvel resgatar o protagonismo decis\u00f3rio estudantil sem grandes manobras administrativas e isso faz toda a diferen\u00e7a, porque nem os discentes est\u00e3o sozinhos nem os docentes s\u00e3o condenados ao ostracismo das pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas e administrativas.<\/p>\n<p>Isso inclusive pode se refletir na eterna caixa-preta da pedagogia universit\u00e1ria. Muitos colegas, sobrecarregados pelo chamado \u201ctrip\u00e9\u201d e pela car\u00eancia de vagas, muitas vezes reproduzem os velhos modelos escolares aprendidos de provas bimestrais e chamadas, e apresentam planos de ensino onde n\u00f3s, professores, damos respostas a coisas que ningu\u00e9m perguntou. Afinal, como em nossas vidas pudemos aprender diferente?<\/p>\n<p>E todos os grandes pensadores progressistas da educa\u00e7\u00e3o convergem nisso: a educa\u00e7\u00e3o precisa mais de perguntas que respostas.<\/p>\n<p>E a pol\u00edtica, enfim, pode ser uma forma de cuidado.<\/p>\n<p>Para aprofundar o tema, recomendo dois textos meus anteriores sobre o assunto: \u201cA greve acabou, e da\u00ed? O Big Brother n\u00e3o est\u00e1 olhando\u201d e \u201cO capitalismo acad\u00eamico e a shoppiniza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia no Brasil\u201d<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Iniciativas de atendimento psicol\u00f3gico nos campi s\u00e3o importantes, mas insuficientes\u2026 <\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/como-enfrentar-a-crise-de-saude-mental-nas-universidades\/\">Como enfrentar a crise de sa\u00fade mental nas universidades?<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":55700,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[6188,22629,22630,22631,22632,22633,22634,6796],"tags":[],"class_list":["post-55699","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-alem-da-mercadoria","category-atendimento-psicologico","category-democracia-nas-universidades","category-gestao-autoritaria-nas-universidades","category-participacao-dicente","category-politica-de-cuidado","category-saude-mental-nas-universidades","category-universidade-publica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55699","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55699"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55699\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55700"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}