{"id":56193,"date":"2025-10-02T17:04:40","date_gmt":"2025-10-02T20:04:40","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/os-afetos-coloniais-que-forjam-o-bolsonarismo\/"},"modified":"2025-10-02T17:04:40","modified_gmt":"2025-10-02T20:04:40","slug":"os-afetos-coloniais-que-forjam-o-bolsonarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/os-afetos-coloniais-que-forjam-o-bolsonarismo\/","title":{"rendered":"Os afetos coloniais que forjam o bolsonarismo"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"401\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo-300x157.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\"><figcaption>Arte: \u201cO Retorno do Filho Pr\u00f3digo\u201d (1668-1669),  de Rembrandt<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A cena pol\u00edtica brasileira recente \u00e9 atravessada por uma coreografia curiosa: quando a ordem vacila por dentro, busca-se o amparo por fora. N\u00e3o bastam tribunais, nem parlamentos; \u00e9 preciso que uma voz estrangeira diga o que vale e o que n\u00e3o vale, quem deve ser punido e quem deve ser absolvido. A exce\u00e7\u00e3o veste uniforme importado.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas c\u00e1lculo ideol\u00f3gico: \u00e9 um regime de afeto. O desejo de tutela encontra no estrangeiro o Pai capaz de nomear, punir e purificar. A democracia aparece como vertigem, a exce\u00e7\u00e3o como cura, e a soberania s\u00f3 se confirma quando validada por um Outro imperial. O aplauso \u00e0s san\u00e7\u00f5es, as listas de proscritos, as reprimendas vindas de Washington, tudo isso funciona como liturgia de obedi\u00eancia, um sacramento pol\u00edtico em que a depend\u00eancia se transmuta em virtude.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse deslocamento libidinal (do soberano interno ao Pai estrangeiro) que proponho situar a no\u00e7\u00e3o de colonialidade afetiva. Mais que obedi\u00eancia ou submiss\u00e3o, trata-se de uma economia emocional que organiza o campo pol\u00edtico brasileiro em torno da ren\u00fancia: ren\u00fancia \u00e0 autonomia, ren\u00fancia ao conflito democr\u00e1tico, ren\u00fancia ao pr\u00f3prio nome. O ensaio que segue procura cartografar esse territ\u00f3rio afetivo e suas consequ\u00eancias, n\u00e3o apenas para entender o bolsonarismo, mas para pensar o que resta de soberania quando o desejo j\u00e1 n\u00e3o nos pertence.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5109666410044001145-3.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/5109666410044001145-3.jpg 650w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/5109666410044001145-300x69.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" width=\"650\" height=\"150\"><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>Colonialidade afetiva e a pol\u00edtica da tutelagem<\/strong><\/h3>\n<p>Um outro vetor decisivo para compreender a resposta entusi\u00e1stica de alguns setores bolsonaristas \u00e0s san\u00e7\u00f5es impostas por Trump, bem como \u00e0s suas cr\u00edticas ao sistema jur\u00eddico brasileiro, \u00e9 a persistente idealiza\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos como arqu\u00e9tipo civilizacional: pot\u00eancia geopol\u00edtica revestida de autoridade moral, erguida como totem planet\u00e1rio de legitimidade. Essa idealiza\u00e7\u00e3o opera menos no campo da an\u00e1lise do que no da afei\u00e7\u00e3o: \u00e9 uma paix\u00e3o pol\u00edtica, uma estrutura imagin\u00e1ria de reconhecimento vertical que posiciona o Brasil como filho menor de uma ordem superior. O que se dramatiza \u00e9 uma filia\u00e7\u00e3o transnacional de car\u00e1ter sacrificial: um la\u00e7o vertical no qual o poder de fora \u00e9 autorizado a separar os justos dos transgressores, reencenando o mito da reden\u00e7\u00e3o por m\u00e3os alheias.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um duplo deslocamento: o da autoridade, que \u00e9 exportada; e o da autoimagem, que se organiza em torno de um eixo externo, gerando uma subjetividade perif\u00e9rica que se sonha central, desde que espelhada. Esse gesto de identifica\u00e7\u00e3o com o centro imperial n\u00e3o \u00e9 novo, mas reaparece sob a forma de colonialidade afetiva, desejo de pertencimento e ressentimento nacional: tr\u00eas faces de uma mesma estrutura m\u00edtica em que o Outro \u00e9 simultaneamente aquilo que se quer ser e aquilo que jamais se poder\u00e1 alcan\u00e7ar sem abdicar de si.<\/p>\n<p>A obedi\u00eancia ao Pai externo, conv\u00e9m insistir, assume uma dimens\u00e3o lit\u00fargica antes que estrat\u00e9gica. O que se apresenta como pol\u00edtica revela-se, na verdade, como um elaborado processo de autoaliena\u00e7\u00e3o: o deslocamento volunt\u00e1rio do poder para fora, como forma de eximir o eu da tarefa de sustent\u00e1-lo por dentro.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, vistos como horizonte civilizat\u00f3rio de for\u00e7a, riqueza e liberdade performativa, exprime mais que simples admira\u00e7\u00e3o; evidencia um desejo profundo de fus\u00e3o simb\u00f3lica com o corpo m\u00edtico do vencedor. A na\u00e7\u00e3o norte-americana, nesse imagin\u00e1rio, opera como figura escatol\u00f3gica de um futuro idealizado, um espelho no qual se tenta enxergar uma vers\u00e3o mais viril e bem-sucedida de si.<\/p>\n<p>Trump, como figura tot\u00eamica desse imagin\u00e1rio, excede o papel de representante de uma pol\u00edtica conservadora: encarna um <em>ethos<\/em> import\u00e1vel, replic\u00e1vel, contagiante, o arqu\u00e9tipo de uma autoridade que dispensa justificativas, de uma liberdade blindada por armas, de uma verdade que se imp\u00f5e sem media\u00e7\u00f5es institucionais, como se fosse revela\u00e7\u00e3o direta, quase divina.<\/p>\n<p>Esse desejo de importa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 neutro. Envolve abdica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica das diferen\u00e7as que formam o Brasil (pluralidades hist\u00f3ricas, regionais e raciais) em troca de uma filia\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria a um projeto apresentado como universal, mas efetivamente excludente, hier\u00e1rquico e colonizador. Estamos diante de uma ades\u00e3o lit\u00fargica ao sistema-mundo imperial, cujo ingresso exige, como moeda, a abdica\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da autonomia institucional, mas da pr\u00f3pria exist\u00eancia como alteridade.<\/p>\n<p>Trata-se, no limite, de uma recusa da inven\u00e7\u00e3o de si: o sujeito abdica da cria\u00e7\u00e3o para aderir \u00e0 forma j\u00e1 legitimada, j\u00e1 nomeada, j\u00e1 institu\u00edda. E nesse processo, a diferen\u00e7a local \u00e9 sacrificada no altar de uma semelhan\u00e7a imposs\u00edvel, mas desejada com f\u00faria. A particularidade se dissolve na c\u00f3pia; e a pol\u00edtica, mais uma vez, se revela como rito de autoapagamento.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/banner-outras-palavras_-02257-2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/banner-outras-palavras_-02257-2.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/banner-outras-palavras_-02257-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Ao celebrar com entusiasmo gestos autorit\u00e1rios vindos de fora, sobretudo quando voltados contra institui\u00e7\u00f5es nacionais, certos grupos revelam algo que excede o dissenso pol\u00edtico: um movimento de autoapagamento. A cr\u00edtica ao Supremo funciona como superf\u00edcie vis\u00edvel de um gesto mais profundo: a recusa do Brasil como espa\u00e7o leg\u00edtimo de enuncia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O que se desenha \u00e9 uma economia simb\u00f3lica da autodegrada\u00e7\u00e3o, em que o externo \u00e9 sin\u00f4nimo de autenticidade, e o interno, de falsifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse espelho invertido, o Brasil deixa de ser sujeito e passa a ser simulacro; um pa\u00eds condenado \u00e0 secundariedade, cuja validade s\u00f3 pode vir de fora, como selo de autenticidade. O STF, o Estado, a cultura pol\u00edtica local, tudo se torna ru\u00edna antecipada diante do mito regulador de uma \u201cna\u00e7\u00e3o verdadeira\u201d (os Estados Unidos) que simboliza, ao mesmo tempo, pot\u00eancia, pureza e verdade.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica vai al\u00e9m de qualquer desejo de corre\u00e7\u00e3o; exp\u00f5e a internaliza\u00e7\u00e3o ativa de uma posi\u00e7\u00e3o de inferioridade. \u00c9 colonialidade em sua vers\u00e3o mais refinada, um colonialismo volunt\u00e1rio no qual o sujeito pol\u00edtico se entrega como reflexo, como sombra, como plateia da autoridade do outro. O poder externo n\u00e3o interv\u00e9m \u00e0 revelia; ele \u00e9 convocado, desejado, celebrado, como se apenas de fora pudesse emergir o gesto capaz de restaurar uma ordem considerada inalcan\u00e7\u00e1vel pelas vias internas. O resultado \u00e9 uma soberania paradoxal, que se realiza por meio da pr\u00f3pria abdica\u00e7\u00e3o: um teatro de espelhos onde o eu pol\u00edtico s\u00f3 adquire contorno ao desaparecer na imagem do outro.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, nesse regime de afetos e representa\u00e7\u00f5es, opera como uma economia ps\u00edquica da filia\u00e7\u00e3o idealizada. O Pai distante aparece como aquele que tudo v\u00ea, tudo julga e tudo protege, enquanto o Brasil \u00e9 figurado como crian\u00e7a rebelde, imatura e sempre por civilizar, cuja salva\u00e7\u00e3o se imagina depender da imita\u00e7\u00e3o obediente do modelo exterior. Temos a\u00ed uma f\u00e1bula pol\u00edtica na qual a virtude \u00e9 sempre importada, e a soberania, um efeito colateral da imita\u00e7\u00e3o bem-sucedida.<\/p>\n<p>Essa assimetria vai al\u00e9m das dimens\u00f5es pol\u00edtica ou econ\u00f4mica; ela \u00e9, sobretudo, epistemol\u00f3gica. Opera como um sistema de valida\u00e7\u00e3o de saberes, normas e institui\u00e7\u00f5es que rebaixa tudo o que se origina fora do eixo euro-americano, classificando-o como inferior, ex\u00f3tico ou simplesmente descart\u00e1vel. No imagin\u00e1rio de alguns setores bolsonaristas, essa l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 questionada: \u00e9 refor\u00e7ada. O que se reproduz \u00e9 mais que uma geopol\u00edtica da depend\u00eancia, mas uma ontologia da inferioridade, em que formas locais de pensar, governar e existir s\u00e3o sistematicamente desautorizadas. A racionalidade brasileira (forma de organizar o pensamento, o tempo e o conflito pol\u00edtico no Brasil), marcada por contradi\u00e7\u00f5es, processos lentos, conflitos constitutivos, \u00e9 interpretada n\u00e3o como express\u00e3o de uma complexidade hist\u00f3rica, mas como defeito, insufici\u00eancia, falha diante da verdade r\u00edgida, bin\u00e1ria e armada que se atribui ao Norte.<\/p>\n<p>Nesse espelho colonial, o Brasil nunca \u00e9 o autor de sua pr\u00f3pria narrativa; \u00e9 sempre o aluno, o r\u00e9u ou o rebelde diante de um tribunal moral estrangeiro. E a pol\u00edtica torna-se, assim, um esfor\u00e7o permanente de autoadequa\u00e7\u00e3o a um Outro que nunca reconhece reciprocamente aquilo que exige ser imitado.<\/p>\n<p>Esse fen\u00f4meno atinge sua express\u00e3o mais aguda no interior do bolsonarismo, cuja estrutura discursiva \u00e9 atravessada por uma mir\u00edade de s\u00edmbolos, slogans e rituais importados do imagin\u00e1rio pol\u00edtico norte-americano. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de mera inspira\u00e7\u00e3o, mas de possess\u00e3o simb\u00f3lica. Da apropria\u00e7\u00e3o da bandeira dos Estados Unidos \u00e0s refer\u00eancias b\u00e9licas e escatol\u00f3gicas do conservadorismo <em>made in USA<\/em>, o bolsonarismo opera como uma tradu\u00e7\u00e3o ressentida de uma teologia imperial.<\/p>\n<p>A idolatria de Trump, nesse contexto, \u00e9 o sintoma vis\u00edvel de uma arquitetura mais profunda: a constitui\u00e7\u00e3o de um Pai estrangeiro como fonte de verdade, moralidade e soberania. Ao investir libidinalmente em um l\u00edder externo, o movimento faz mais do que celebrar um modelo: deslegitima a pr\u00f3pria capacidade nacional de gerar autoridade e produzir verdade.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o se apresenta s\u00f3 como territ\u00f3rio marcado pela coloniza\u00e7\u00e3o; configura-se como uma consci\u00eancia colonizada. Um lugar que j\u00e1 n\u00e3o acredita em sua pr\u00f3pria capacidade de reden\u00e7\u00e3o, esperando que a salva\u00e7\u00e3o venha de fora, pronunciada num idioma estrangeiro, por um verbo que jamais se conjuga em portugu\u00eas. A pol\u00edtica, assim, torna-se ato lit\u00fargico de m\u00edmese. O bolsonarismo surge como um culto nacional \u00e0 pr\u00f3pria insufici\u00eancia.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, e talvez inevitavelmente, ao buscar for\u00e7a, legitimidade e reden\u00e7\u00e3o fora de si, esses grupos corroem justamente aquilo que dizem defender: a soberania nacional, a liberdade do povo, a autonomia das institui\u00e7\u00f5es. O apelo a um Pai autorit\u00e1rio estrangeiro que intervenha na cena pol\u00edtica brasileira escancara uma crise de autoridade interna, e sobretudo revela uma recusa mais funda: a incapacidade de reconhecer o Brasil como espa\u00e7o leg\u00edtimo de maturidade pol\u00edtica e subjetiva.<\/p>\n<p>A exalta\u00e7\u00e3o de Trump atua menos como gesto ideol\u00f3gico do que como encena\u00e7\u00e3o de uma fantasia de tutelagem restaurada, o desejo de ser governado por um Outro superior, mais forte, mais verdadeiro. \u00c9 rendi\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica consentida, n\u00e3o for\u00e7ada. Um retorno \u00e0 casa colonial, reencenada no palco expandido da pol\u00edtica global.<\/p>\n<p>O Brasil, nesse gesto, \u00e9 reinscrito como periferia moral de um imp\u00e9rio imagin\u00e1rio, e seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os, em vez de autores de um projeto nacional, tornam-se personagens secund\u00e1rios de uma narrativa estrangeira. A subalternidade deixa de ser imposta e passa a ser desejada, reafirmando com zelo quase devocional o lugar do pa\u00eds como filho menor da hist\u00f3ria, incapaz de governar-se sem espelhos.<\/p>\n<h3><strong>Desejo, colonialidade e autoridade<\/strong><\/h3>\n<p>Chegamos ao ponto onde a an\u00e1lise se dissolve no feiti\u00e7o. N\u00e3o estamos diante de um fen\u00f4meno pol\u00edtico em sentido estrito, mas de uma cosmopol\u00edtica afetiva, em que os sujeitos n\u00e3o apenas defendem ideias: eles encarnam entidades. Trump n\u00e3o \u00e9 uma figura: \u00e9 um esp\u00edrito. Um operador de autoridade transfigurada, convocado para corrigir, punir e salvar. N\u00e3o porque entenda o Brasil, mas porque se ergue acima dele como inst\u00e2ncia de legitima\u00e7\u00e3o c\u00f3smica, pot\u00eancia transcendental a quem se atribui a tarefa de purgar a aldeia.<\/p>\n<p>Em sua vertente mais simb\u00f3lica e devocional, o bolsonarismo, \u00e9 menos um programa pol\u00edtico do que uma m\u00e1quina a convidar o esp\u00edrito estrangeiro para ocupar o corpo do pa\u00eds com a promessa de que, possu\u00eddo, seremos enfim purificados. H\u00e1 mais que submiss\u00e3o: h\u00e1 entrega desejante, possess\u00e3o consentida. Um regime de subjetiva\u00e7\u00e3o no qual o desejo de tutela \u00e9 t\u00e3o intenso que se transforma em voca\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica.<\/p>\n<p>O Pai n\u00e3o est\u00e1 perdido, ele est\u00e1 no exterior. E \u00e9 preciso traz\u00ea-lo de volta, mesmo que, para isso, o pre\u00e7o seja a abdica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da soberania. O que se desenha \u00e9 uma economia pol\u00edtica da autoridade: um deslocamento da fonte de poder para al\u00e9m das fronteiras, como se s\u00f3 no corpo do Outro residisse a verdade do Eu. O Brasil, nesse teatro, n\u00e3o fala, ele \u00e9 ventr\u00edloquo; n\u00e3o age, \u00e9 m\u00e9dium; n\u00e3o decide, \u00e9 decidido.<\/p>\n<p>E o mais perturbador: isso \u00e9 desejado. Mais do que erro, o que se firma \u00e9 um v\u00ednculo afetivo com a autoridade como feiti\u00e7o de sentido. Um culto estrutural \u00e0 insufici\u00eancia local que transforma o nacional em ru\u00edna antecipada, e o estrangeiro em totem escatol\u00f3gico. Um pa\u00eds que, em vez de inventar-se, imita. Que, em vez de narrar-se, copia. Que, em vez de habitar sua diferen\u00e7a, exila-se num espelho.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa chave que a obedi\u00eancia ao Pai da exce\u00e7\u00e3o pode ser lida: como processo de estabiliza\u00e7\u00e3o frente \u00e0 vertigem democr\u00e1tica. A democracia, como m\u00e1quina de negocia\u00e7\u00e3o permanente, de indetermina\u00e7\u00e3o generalizada, aparece como amea\u00e7a. E a exce\u00e7\u00e3o, como promessa de cura. O desejo de Trump n\u00e3o \u00e9 desejo de Trump: \u00e9 desejo de simplifica\u00e7\u00e3o do mundo. O bolsonarismo, portanto, se revela como cosmologia pol\u00edtica reativa, um sistema simb\u00f3lico que mobiliza a transcend\u00eancia estrangeira para resolver o colapso do imanente local. Uma pol\u00edtica na qual o poder n\u00e3o vem do outro mundo para equilibrar este, mas deste mundo para subjugar o nosso.<\/p>\n<p>No tempo em que o del\u00edrio se disfar\u00e7a de destino, urge mais do que nomear o feiti\u00e7o: \u00e9 preciso romp\u00ea-lo. \u00c9 preciso desfazer o encantamento que transforma o Brasil em periferia de si mesmo.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. Fa\u00e7a parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Os afetos coloniais que forjam o bolsonarismo appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/apos-convocar-exterminio-de-petistas-empresario-de-ms-e-denunciado-a-policia-federal-vai-dar-morte\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ap\u00f3s convocar exterm\u00ednio de petistas, empres\u00e1rio d...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fux-e-nunes-marques-analisaram-em-apenas-9-minutos-afastamento-do-chefe-da-pf\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-09-at-125734-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fux e Nunes Marques analisaram em apenas 9 minutos...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/putin-discursa-no-dia-da-vitoria-e-defende-guerra-na-ucrania-toda-a-russia-apoia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Putin discursa no Dia da Vit\u00f3ria e defende guerra ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/fazendeiro-diz-ter-mantido-selo-starbucks-mesmo-apos-caso-de-trabalho-escravo\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/trabalho-escravo-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Fazendeiro diz ter mantido \u2018selo Starbucks\u2019 mesmo ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que h\u00e1 por tr\u00e1s da idolatria da ultradireita a Trump? Talvez, o desejo de ser governado por um Pai distante \u2013 superior e capaz de intervir sobre a ordem interna. E a f\u00e9 na pol\u00edtica de tutelagem, onde o eu s\u00f3 adquire contorno ao desaparecer no Outro mais forte<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/os-afetos-coloniais-que-forjam-o-bolsonarismo\/\">Os afetos coloniais que forjam o bolsonarismo<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":56194,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[3024,114,79,2687,1023,423,2427,4488,3641,23065,7173,13988],"tags":[],"class_list":["post-56193","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autoritarismo","category-bolsonarismo","category-colonialismo","category-crise-civilizatoria","category-donald-trump","category-extrema-direita","category-flavio-bolsonaro","category-prisao-de-bolsonaro","category-tarifaco","category-tutela-politica","category-ultradireita","category-washington"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56193"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56193\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/56194"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}