{"id":57795,"date":"2025-10-10T17:40:29","date_gmt":"2025-10-10T20:40:29","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-festejar-sertanejo-em-guimaraes-rosa\/"},"modified":"2025-10-10T17:40:29","modified_gmt":"2025-10-10T20:40:29","slug":"o-festejar-sertanejo-em-guimaraes-rosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-festejar-sertanejo-em-guimaraes-rosa\/","title":{"rendered":"O festejar sertanejo em Guimar\u00e3es Rosa"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"391\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/guimaraes_rosa_casa-do-saber.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/guimaraes_rosa_casa-do-saber.jpg 640w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/guimaraes_rosa_casa-do-saber-300x183.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS) e <em>Outras Palavras <\/em>publicam<em> <\/em>o pen\u00faltimo texto da s\u00e9rie <strong>A mesa dos mineiros narra Minas<\/strong>, escrito por <strong>Maur\u00edcio Ayer<\/strong> (TEL\/UnB). O autor parte do conto \u201cUma est\u00f3ria de amor\u201d (Festa de Manuelz\u00e3o), de Guimar\u00e3es Rosa, para refletir sobre o celebrar. Mostra que, na ro\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 festa sem cacha\u00e7a, elemento que atravessa tanto a etnografia participante do sert\u00e3o quanto a elabora\u00e7\u00e3o interior de Manuelz\u00e3o. O beber farto e tranquilo indica harmonia: a cacha\u00e7a torna as pessoas mais aptas ao encontro, verdadeira raz\u00e3o da festa, que interrompe o trabalho cotidiano e aproxima os vizinhos, lembrando que s\u00e3o eles que formam nossa humanidade. Nessa conviv\u00eancia alegre e desinibida, Rosa se mostra um escritor-fermentador, que extrai da terra os aromas, cores e sabores que, ao fogo de sua arte, revelam algo do plano m\u00edtico. Curada por <strong>Jos\u00e9 Newton Coelho Meneses,<\/strong> esta s\u00e9rie da <strong>Coluna MinasMundo <\/strong>prop\u00f5e investigar a mesa mineira como linguagem e express\u00e3o de um cosmopolitismo cultural pr\u00f3prio da regi\u00e3o. Os textos est\u00e3o sendo publicados quinzenalmente \u00e0s quartas-feiras. Outros textos da s\u00e9rie podem ser conferidos aqui.<\/p>\n<p>\u201cIa haver festa\u201d, inicia Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa o seu conto \u201cUma est\u00f3ria de amor (Festa de Manuelz\u00e3o)\u201d (Rosa, 1984 [1956]), a declarar seu tema: o celebrar. Na ro\u00e7a, n\u00e3o h\u00e1 festa sem cacha\u00e7a, e \u00e9 isso vai nos ocupar neste rolo de texto virtual. \u00c9 um conto? Creio que podemos cham\u00e1-lo assim, pois um mesmo n\u00facleo mant\u00e9m a narrativa coesa, embora a esse fio muitas est\u00f3rias venham dependurar-se, ao modo de um varal raps\u00f3dico. Esse dispositivo de coes\u00e3o \u00e9, sublinhe-se, a \u201cconsci\u00eancia\u201d de Manuelz\u00e3o, que tudo acompanha de perto, j\u00e1 que ele \u00e9 ali o capataz-chefe \u2013 respeitado por todos e honrado em seu posto pela palavra do propriet\u00e1rio da terra, Federico Freyre \u2013, preocupado em assegurar o bom acontecer dos ritos, o bem-estar e a divers\u00e3o dessa comunidade ampla que se reuniu para homenagear sua capelinha. Assim, o conto constr\u00f3i uma esp\u00e9cie de etnografia participante do celebrar sertanejo, que \u00e9 atravessada, na consci\u00eancia do observador, por um mergulho em sua psicologia, ao modo n\u00e3o propriamente de uma autoan\u00e1lise, mas de um remoer em tempo real de certos \u201cn\u00f3s\u201d que Manuelz\u00e3o se esfor\u00e7a por desatar, elaborar.<\/p>\n<p>Por entre esses dois planos entremeados, Rosa faz atravessar um terceiro, de registro arquet\u00edpico. E o faz sem alarde. Vejamos. Onde a est\u00f3ria nos situa? No Norte de Minas Gerais, numa cartografia pontuada por Andrequic\u00e9, Pirapora, o rio de-Janeiro, paisagem de tantas est\u00f3rias do autor e muito bem constru\u00edda por suas coisas e personagens: os vaqueiros, as mulheres cuidando da prepara\u00e7\u00e3o da capela para a festa, as gentes que chegam e acampam, a m\u00fasica de rabeca e sanfona, as dan\u00e7as, o riachinho que secou e motivou a constru\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o de uma capela \u00e0 santa, a comida e a cacha\u00e7a. Mas o nome do lugar tudo desloca: aquele arraial chama-se \u201cSamarra\u201d, que ocorre de ser (tamb\u00e9m) o nome de uma cidade milenar da antiga Mesopot\u00e2mia, \u00e0 margem do rio Tigre, no atual Iraque, que o senso comum ensina a chamar de \u201co ber\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d. Ali \u00e9 um \u201clugar\u201d (qualquer) mas tamb\u00e9m o \u201cLugar\u201d. O recurso a uma simples inicial mai\u00fascula produz essa passagem: h\u00e1 a casa de Manuelz\u00e3o e a Casa; a festa e a Festa. E h\u00e1 ainda outros modos de desdobrar a vida mi\u00fada num plano muito mais amplo, por exemplo: os pobres a chegar \u201crogavam para o rugoso C\u00e9u, com estrelas, mas cheios de sobrolhos, serenando na estrada-de-santiago\u201d; esta express\u00e3o designa a Via L\u00e1ctea, ao mesmo tempo que reafirma: destino de <em>peregrina\u00e7\u00e3o<\/em>, nessa hora um arraialzinho no sert\u00e3o mineiro \u00e9, tamb\u00e9m, Compostela.\u00a0<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Prancheta-4-6.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Prancheta-4-6.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<figure><figcaption>Poty \u2013 Xilogravura. <em>Sagarana<\/em>, 10\u00aa ed., 1968 (1946), Jos\u00e9 Olympio Editora.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Este tr\u00edplice mover do tempo acontece ininterruptamente, em simult\u00e2neo. O tempo social da hist\u00f3ria, situ\u00e1vel na cronologia, ainda que num passo de longa dura\u00e7\u00e3o, se v\u00ea embebido daquilo que Georges Didi-Huberman chamou de \u201cinconsciente\u201d (das imagens, das cenas), que \u00e9 <em>anacr\u00f4nico<\/em> como o sonho, podendo apontar para frente ou para tr\u00e1s, numa trama multidirecional. A capela constru\u00edda por Manuelz\u00e3o ia fazer daquele fim de mundo <em>um lugar<\/em>: \u201cqueria uma festa forte, a primeira missa. Agora, por dizer, certo modo, aquele lugar da Samarra se fundava.\u201d O marco fincado no ch\u00e3o estabelece o zero do tempo-espa\u00e7o, o lugar nasce para o porvir. O nome de dois personagens condensam essa temporalidade: Jo\u00e3o Ur\u00fagem funde \u201cUr\u201d (o <em>arch\u00e9<\/em> alem\u00e3o) com \u201corigem\u201d e resulta num quase pio de coruja na noite da consci\u00eancia; outro, ajudante de Manuelz\u00e3o, cunhado de seu filho, \u00e9 o Promitivo \u2013 o \u201cprimitivo\u201d em fus\u00e3o com a \u201cpromessa\u201d, o que vir\u00e1. Ent\u00e3o esta \u00e9 a Samarra ancestral, onde nasceu a humanidade sedent\u00e1ria, cultivadora e criadora, e ao mesmo tempo uma outra onde apenas se plantou o primeiro cruzeiro. Amarras.<\/p>\n<p>No \u00ednterim, as pedras que sustentam e d\u00e3o forma \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o v\u00e3o sendo colocadas, um roteiro que, a seu modo a cada vez, se repetir\u00e1 em toda festa. Come\u00e7a na v\u00e9spera, com a prepara\u00e7\u00e3o de tudo e a chegada das gentes de toda parte, demandando hospitalidade e sendo acolhidas com o adequado rito. Cada fam\u00edlia traz uma est\u00f3ria, um causo, um acontecido, que vai compondo o mosaico, o colorido do varal. A festa propriamente se inicia na manh\u00e3 seguinte, com a sagra\u00e7\u00e3o do lugar e do dia (a missa). Trocam-se os produtos do trabalho (o leil\u00e3o de animais). H\u00e1 m\u00fasica e dan\u00e7a, h\u00e1 olhares, gestos, namoros e saudades, quem sabe conta est\u00f3rias, como Joana Xaviel na noite da v\u00e9spera e o velho Camilo na noite seguinte, os demais ouvem e admiram. E o sol haver\u00e1 de ressurgir no horizonte para que se cumpra o turno completo da noite festeira, pequeno ciclo luminoso circunscrito nos c\u00edrculos da vida.<\/p>\n<p>\u201cE\u2026 <em>era uma vez uma vaca Vit\u00f3ria: caiu no buraco \u2013 e come\u00e7a outra est\u00f3ria\u2026 e era uma vez uma vaca Tereza: saiu do buraco \u2013 e a est\u00f3ria era a mesma\u2026<\/em>\u201d<\/p>\n<div>\n<figure><figcaption>Poty \u2013 Xilogravura. <em>Sagarana<\/em>, 10\u00aa ed., 1968 (1946), Jos\u00e9 Olympio Editora.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p>Pois ia haver festa, e onde tem festa, tem cacha\u00e7a. Naturalmente, a caninha tamb\u00e9m atravessa esse bordado de tempos, essas amarra\u00e7\u00f5es\u2026 (Par\u00eanteses: esse aflorar da cena em sua complexa temporalidade anacr\u00f4nica, Didi-Huberman chama de <em>sintoma<\/em>; mas eu, pra n\u00e3o chamar doen\u00e7a, prefiro pensar como <em>sinfonia<\/em>, esse soar junto de fluxos temporais heterog\u00eaneos, um pouco inspirado na reflex\u00e3o de Haroldo de Campos sobre mem\u00f3ria e tradi\u00e7\u00e3o, em que pondera a <em>musa<\/em> entre o <em>museu<\/em> \u00e0 <em>m\u00fasica<\/em>, e um muito inspirado na <em>Sinfonia<\/em> de Luciano Berio: o acontecimento hist\u00f3rico como um bosque qu\u00e2ntico de reminisc\u00eancias e remiss\u00f5es multidirecionais, uma perip\u00e9cia que \u00e9, paradoxalmente, anacr\u00f4nica e integralmente feita de tempo.) A cacha\u00e7a, dizia eu, permeia a etnografia participante de Manuelz\u00e3o, e tamb\u00e9m tem um papel na elabora\u00e7\u00e3o interna do her\u00f3i. E haver\u00e1 de tocar o arquet\u00edpico, como n\u00e3o?<\/p>\n<p>Quem primeiro traz a cacha\u00e7a \u00e0 cena da festa \u00e9 o m\u00fasico Chico Br\u00e0ab\u00f3z, \u201co preto da rabeca\u201d (com seu sobrenome, transfigura\u00e7\u00e3o de Barbosa, que figura na grafia a sua cara de brabo). \u201cChico Br\u00e0ab\u00f3z, que tinha fei\u00e7\u00f5es finas de mouro, nariz pontudo. Ele recendia a aguardentes, mas tinha muitas mem\u00f3rias: as m\u00fasicas, as dan\u00e7as, as cantigas\u201d (p. 171). A cacha\u00e7a se anuncia pelo cheiro de um m\u00fasico que traz, em suas fei\u00e7\u00f5es, a fus\u00e3o de (in)certas origens evocadas, mas tamb\u00e9m a mem\u00f3ria condensada do que jorrar\u00e1 para a celebra\u00e7\u00e3o. A descri\u00e7\u00e3o do m\u00fasico \u00e9 a do pr\u00f3prio motor da festa, e veremos o quanto ele \u00e9 abastecido, do princ\u00edpio at\u00e9 o fim, com seu combust\u00edvel, a aguardente:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Chico Br\u00e0ab\u00f3z, preto cores pretas, mas com fei\u00e7\u00f5es. \u00d4 homem da p\u00f3lvora quente! Se chegava, animante, simples social, o mundo inteiro pregado na ponta de seu nariz. At\u00e9 todo apelido ele aceitava: Chico dos Alvores, Chico da Sorte, Chico Seja, Chico Praz \u2013 e o que por a\u00ed se quisesse. Vinha vindo j\u00e1 todo inventado, saramicujo, fazendo muita seren\u00e2ncia. As l\u00e1bias l\u00e9rias. J\u00e1 estava meio chumbado, bebeu mais do que o copo manda (p. 202).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Acompanhando os cantos que Chico canta, com a participa\u00e7\u00e3o de toda a roda no coro, vemos que eles comp\u00f5em uma metanarrativa da vida, destilando em versos improvisados uma doutrina de humildade: os \u201cnossos\u201d grandes feitos contrastam com o porqu\u00ea que os arrazoa, traduzido como \u201cum nada\u201d, \u201cuma coisa \u00e0 toa\u201d ou uma talagada, como nessa quadrinha:<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ADC30_Engels_anuncio_OP.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ADC30_Engels_anuncio_OP.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/ADC30_Engels_anuncio_OP-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p><em>Travessei o S\u00e3o Francisco<br \/>Montado numa caba\u00e7a:<br \/>Arriscando minha vida<br \/>Por um gole de cacha\u00e7a\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u2013 Oler\u00ea, canta! (p. 207)<\/p>\n<p>E bem depois, festa adiantada, tocam \u201ca mazurca \u2018A Caninha\u2019 ou \u2018Cana Caiana\u2019\u201d (p. 228). Para o servi\u00e7o, quem administrar\u00e1 a distribui\u00e7\u00e3o da bebida \u00e9 o Jo\u00e3ozim vendeiro, que trouxera \u201cum carro-de-bois cheio, em duas viagens\u201d (p. 201), com tudo o que pudesse vender, como comidas e bebidas, inclusive \u201cgarrafas de conhaque e cacha\u00e7a\u201d. Noutro lado da festa, no leil\u00e3o, \u201calgu\u00e9m tinha arrematado uma garrafa de mo\u00e7a-branca\u201d para o dono da festa.<\/p>\n<p>Aqui j\u00e1 caminhamos plenamente na trilha da etnografia rosiana. Cerveja na ro\u00e7a n\u00e3o \u00e9 para todo dia, mas em dia especial se consome: \u201cTamb\u00e9m se bebia. As cervejas \u2013 a outra e a preta \u2013 e o bom vinho de buriti, rososo, o qual feito em princ\u00edpios de setembro, quando o coqueiro lateja mais encorpado de caldos e o fermento tange mor de virtude. Mastigavam e tomavam, nas alegrias\u201d (p. 215). E pode servir, como a pinga, para limpar a voz para um pronunciamento importante: \u201cManuelz\u00e3o espiou em redor, limpou a goela, ele tinha pensado aquele momento, decidido segurava um copo de cerveja\u201d (p. 216).<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a narrativa n\u00e3o poder\u00e1 descrever a celebra\u00e7\u00e3o em toda min\u00facia o tempo todo, j\u00e1 que \u201ca festa era o a-esmo, um acontecido de muitos, os espa\u00e7os, uma coisa que n\u00e3o se podia pegar\u201d (p. 209). Manuelz\u00e3o, para saber dos seus se estavam apreciando, convida a um trago: \u201c\u2013 \u2018Seo Leovigildo, compadre Cupertino: est\u00e3o gostando?\u2019 \u2018\u2013 Demais.\u2019 \u2018\u2013 Vamos abeirar, beber qualquer braba?\u2019 \u2018\u2013 J\u00e1 se bebeu, Manuelz\u00e3o, Deus lhe saiba\u2026\u2019 Todo o mundo se associava ali, estavam gostando, pelo esperado\u201d (p. 209). Nota-se a satisfa\u00e7\u00e3o do anfitri\u00e3o com o que aferiu em sua enquete: o beber farto \u2013 em paz \u2013 \u00e9 aqui um indicador de que a fun\u00e7\u00e3o corre bem.<\/p>\n<p>Um viajante que chegou mais tarde, d\u00e1 ao anfitri\u00e3o seu \u201cmatungo\u201d pra poder \u201csatisfazer um golinho desta sua festa\u2026\u201d, e ao diz\u00ea-lo serve-se, igualando a celebra\u00e7\u00e3o a uma caninha que se degusta (p. 213). E noutro lado circula uma modalidade especial da bebida: \u201cE correr pelo povo os garraf\u00f5es da azulzinha beijadeira \u2013 neg\u00f3cio como se diz: esses palha\u00e7os no palhi\u00e7o. Eta, festa! Como se queria uma alegria\u201d (p. 218). A \u201cazulzinha\u201d, produzida tradicionalmente em v\u00e1rios lugares, costuma ser uma aguardente produzida com folhas de um c\u00edtrico, como laranja ou mexerica, colocadas no pesco\u00e7o do alambique durante a destila\u00e7\u00e3o. Ela adquire um brilho azul e um suave aroma. E aqui \u00e9 o combust\u00edvel que faz arder a alegria.<\/p>\n<p>Toda essa cacha\u00e7a torna as pessoas mais aptas ao encontro, e a festa \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, para isso. \u00c9, como explica o Rosa, a interrup\u00e7\u00e3o no trabalho cotidiano \u2013 o corte. Pois \u201ctrabalhar \u00e9 se juntar com as coisas, se separar das pessoas\u201d. Pela festa, deixamos as nossas vacas, galinhas, ro\u00e7as e computadores por um momento para estarmos dispon\u00edveis apenas \u00e0s pessoas. Cada um vai querer se mostrar no seu modo mais encantador \u2013 por isso h\u00e1 roupas especiais, cabelos ou joias, mas tamb\u00e9m as falas bem colocadas e a facilidade do sorriso, o gostar um pouco mais de quem est\u00e1 conosco em nossa trajet\u00f3ria. \u00c9 um jeito de lembrar que, dos milh\u00f5es de lugares do mundo, calhou de eu viver aqui; das bilh\u00f5es de pessoas viventes, s\u00e3o essas dezenas que constituem a minha humanidade. S\u00e3o \u201cos vizinhos de todas as veredas, o mundo\u201d. E a cacha\u00e7a desinibidora, \u00e9 provedora de simpatia. Afinal a festa deve ser \u201co risonho termo e come\u00e7o de tudo, a gente desmanchando tudo, at\u00e9 o feito com seu suor do trabalho de sempre; e sem precisar, depois, de tornar a refazer\u201d.<\/p>\n<p>No centro da festa est\u00e3o os m\u00fasicos, e o seu l\u00edder, o mencionado Chico Br\u00e0ab\u00f3z, chega mamado e segue alimentando o seu fogo. Quando faz um intervalo, \u00e9 para conversar e beber: \u201c\u2013 \u2018Vai um tome-ju\u00edzo, seo Chico?\u2019 \u2018\u2013 Pois at\u00e9 n\u00e3o desaceito, Manuelz\u00e3o. Quando bebo um gole, fico mais prazido\u2026\u2019\u201d (p. 225). Manuelz\u00e3o reflete sobre o personagem:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Chico Br\u00e0ab\u00f3z era at\u00e9 trabalhador. Plantava seu prato de feij\u00e3o, mas, com a rabeca, ele puxava toda a toada \u2013 a gente n\u00e3o se escorasse, ele mandava na gente. \u2013 \u201cOutro gole, seo Chico?\u201d \u2013 \u201cEscorre. O mundo acaba \u00e9 pra quem morre!\u201d Tomava. (\u2026) Aquela alegria era forte, mas falseava. Toda tirada expressamente da patr\u00edcia da garrafa, que nem um rem\u00e9dio bravo (p. 225). \u00a0<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O beber um gole e ficar \u201cmais prazido\u201d s\u00e3o analisados pelo psic\u00f3logo Manuelz\u00e3o (confundido com o narrador), que v\u00ea como a cacha\u00e7a tem para Chico a fun\u00e7\u00e3o de produzir uma alegria, como um rem\u00e9dio, donde talvez se entenda a bebedeira constante, o permanente falar rimando. Ele bebe para sustentar sua m\u00e1scara, que \u00e9 tamb\u00e9m um ensaio de ser, encantador at\u00e9, mas que lhe consome energia. Chico <em>deseja estar feliz<\/em>, mesmo artificialmente, com o uso de uma droga. Vemos isso, sempre, pelo olhar de Manuelz\u00e3o, que nessa hora contrasta a ansiedade do m\u00fasico com a parcim\u00f4nia do velho Camilo, esse senhor octogen\u00e1rio, que bebe apenas para n\u00e3o dizer n\u00e3o ao Chico, que o convida, como quem imp\u00f5e: \u201c\u2013 \u2018Vamos consumir uma jenu\u00e1ria, seo Camilo?\u2019 \u2018Ser\u00e1 d\u00favida? J\u00e1 estou bebido, por sua bondade\u2026\u2019 \u2018\u2013 Pois mais, seo Camilo. Hoje \u00e9 festa\u2026\u2019 Tinha de tomar. Tomava. Assaz vagaroso, fechando meio os olhos. Seo Camilo \u2013 era o velho delicado\u201d (p. 227).<\/p>\n<p>De perto, portanto, a cacha\u00e7a \u2013 e o modo de consumi-la \u2013 mostra um acesso \u00e0s personalidades, nos seus modos e modula\u00e7\u00f5es, de cada um. E aqui j\u00e1 estamos naquela segunda inst\u00e2ncia temporal, a do remoer interno. \u00c9 claro que quem mais o faz, por ser a consci\u00eancia aberta a n\u00f3s leitores, \u00e9 Manuelz\u00e3o. Este consome seu tempo a ruminar sobre sua condi\u00e7\u00e3o de homem maduro, j\u00e1 come\u00e7ando a ser velho, que n\u00e3o se casou, e permaneceu ligado \u00e0 m\u00e3e \u2013 talvez excessivamente? At\u00e9 a capelinha que motivou a festa \u00e9 um presente p\u00f3stumo \u00e0 genitora. Imerso neste tema, que cutuca sua inseguran\u00e7a de ser homem <em>suficientemente<\/em>, Manuelz\u00e3o, no \u00edntimo, perquire os casais, projeta-se no lugar do homem, como \u00e9 o caso de seu olhar insistente sobre Joana Xaviel, colocando em d\u00favida se o velho Camilo <em>comparece como homem<\/em>. Mas \u00e9 principalmente o caso de Leon\u00edsia, sua nora, que ele admira em sua beleza e na inteireza do exerc\u00edcio de seu papel de mulher, com todos os cuidados inclusive para com ele, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual ele p\u00f5e em d\u00favida o m\u00e9rito de seu filho como homem. Adelso parece n\u00e3o ter presen\u00e7a e iniciativa, e toca-o especialmente o fato de o filho (fruto de um relacionamento passageiro) n\u00e3o se propor a tomar o seu lugar na condu\u00e7\u00e3o de uma boiada, que sair\u00e1 ap\u00f3s a festa.<\/p>\n<p>\u00c9 em meio a essa rumina\u00e7\u00e3o que Manuelz\u00e3o vai em busca de um argumento: \u201cN\u00e3o sabendo, se chegou, com uns, para a barraquinha do Jo\u00e3ozim da Venda. Queria <em>beber uma janu\u00e1ria<\/em>\u201d (p. 209, grifo meu). Aqui cabe acrescentar umas informa\u00e7\u00f5es: a cidade portu\u00e1ria de Janu\u00e1ria, \u00e0 margem do S\u00e3o Francisco, \u00e9 famosa por sua cacha\u00e7a armazenada em enormes dornas de amburana, essa madeira muito arom\u00e1tica que se tornou, expandindo-se a partir da tradi\u00e7\u00e3o norte-mineira, um patrim\u00f4nio cachaceiro do pa\u00eds. Rosa fala dela em outros escritos, como no <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em> ou no conto \u201cMinha Gente\u201d, do <em>Sagarana<\/em>. Uma \u201cjanu\u00e1ria\u201d, assim, com letra min\u00fascula, \u00e9 um tipo muito espec\u00edfico de cacha\u00e7a, com aroma e sabor peculiares, que Manuelz\u00e3o busca n\u00e3o para prover-se de anima\u00e7\u00e3o, mas, ao contr\u00e1rio, para melhorar o trato e o contato consigo mesmo. Nessa hora, o trago acalma e nos torna mais \u00edntimos de n\u00f3s mesmos, e \u00e9 o que o her\u00f3i parece buscar: a festa em pleno curso, \u00e9 tempo de soltar as r\u00e9deas de seu trabalho interno, sua escuta de si.<\/p>\n<p>E como a cacha\u00e7a toca o arquet\u00edpico? Diria que esta, como outras narrativas de Rosa, tem algo da cacha\u00e7a em sua estrutura mesma, que est\u00e1 relacionado ao processo alqu\u00edmico da destila\u00e7\u00e3o. Em algum momento uma ess\u00eancia se revela, se desmistura da mat\u00e9ria farta da vida para figurar-se no plano neoplat\u00f4nico de uma verdade. \u201cA hora e vez de Augusto Matraga\u201d \u00e9 assim, \u201cCorpo Fechado\u201d tamb\u00e9m (ambos do <em>Sagarana<\/em>). Como se Rosa fosse primeiro um escritor-fermentador, que procura extrair da mat\u00e9ria-prima colhida na (sua) terra o m\u00e1ximo de aromas, cores e sabores, os quais ele espalha e deixa proliferar ao longo da escrita; ent\u00e3o, Rosa exp\u00f5e essa mat\u00e9ria m\u00faltipla e rica ao fogo direto de sua arte, revelando algo que, em sua imperenidade, toca o plano arquet\u00edpico, ou m\u00edtico.<\/p>\n<p>Nessa raps\u00f3dia sertaneja, o grande ato \u00e9 o que revela o velho Camilo como contador de est\u00f3rias. Ele, que \u00e9 descrito no in\u00edcio como \u201capenas uma esp\u00e9cie dom\u00e9stica de mendigo, recolhido, inv\u00e1lido, que ali viera ter e fora adotado por bem-fazer, surgido do mundo do Norte\u201d, de repente se revela o rapsodo por excel\u00eancia \u2013 ao lado de sua companheira, que abrira a festa, Joana Xaviel. \u201cCom facho, tocha, rolo de cera aceso, e espertem essas fogueiras \u2013 seo Camilo \u00e9 contador!\u201d (p. 242). Mas se \u201cJoana Xaviel sabe mil est\u00f3rias\u201d, e atua principalmente na v\u00e9spera, desdobrando-se entre crian\u00e7as, mulheres e homens com seu corpo vibrante e presente, seo Camilo, j\u00e1 quase descorporificado, vai contar uma s\u00f3 est\u00f3ria, a do Menino, do Cavalo, do Boi Bonito\u2026 a modo de mito do <em>lugar<\/em>, onde um riachinho se enuncia: \u201cSou riacho que nunca seca\u2026\u201d (p. 253). Como a \u00e1gua-da-vida que corre nos cursos de um certo lugar sagrado onde se chega ap\u00f3s o mundo se acabar. Joana Xaviel \u00e9 a fermenta\u00e7\u00e3o dos frutos da terra, seo Camilo \u00e9 a sua destila\u00e7\u00e3o. E a express\u00e3o \u201cest\u00f3ria de amor\u201d, que d\u00e1 t\u00edtulo ao conto, quando aparece \u00e9 para falar dos dois.<\/p>\n<p>O mundo da Samarra, finalmente, n\u00e3o se acaba. Mas a folia, sim. V\u00ea-se que \u201cA festa n\u00e3o \u00e9 pra se consumir \u2013 mas para depois se lembrar\u2026\u201d \u00c9 quando a hist\u00f3ria come\u00e7a, e a hist\u00f3ria, ensina o benjaminiano Didi-Huberman (2025: 101), \u201cest\u00e1 sempre por recome\u00e7ar\u201d.<\/p>\n<p>Fica dif\u00edcil n\u00e3o terminarmos c\u00e1 com as pr\u00f3prias palavras finais do conto, na voz de Manuelz\u00e3o: \u201cA boiada vai sair. Somos que vamos\u201d (p. 258).<\/p>\n<figure><figcaption>Poty \u2013 Xilogravura. <em>Sagarana<\/em>, 10\u00aa ed., 1968 (1946), Jos\u00e9 Olympio Editora.<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Nele, a cacha\u00e7a e a m\u00fasica nos conduzem atrav\u00e9s de uma etnografia da celebra\u00e7\u00e3o no interior do pa\u00eds, que faz soar uma sinfonia de est\u00f3rias, entre os dramas da consci\u00eancia do her\u00f3i e antigos arqu\u00e9tipos revividos<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/o-festejar-sertanejo-em-guimaraes-rosa\/\">O festejar sertanejo em Guimar\u00e3es Rosa<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":57796,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[9401,5599,18927,9335,24431,24432,1052],"tags":[],"class_list":["post-57795","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bvps","category-descolonizacoes","category-guimaraes-rosa","category-literatura-brasileira","category-manuelzao","category-minasmundo","category-sertanejo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57795","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57795"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57795\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}