{"id":58849,"date":"2025-10-16T17:13:35","date_gmt":"2025-10-16T20:13:35","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/drumwave-a-distopia-dos-dados-moeda\/"},"modified":"2025-10-16T17:13:35","modified_gmt":"2025-10-16T20:13:35","slug":"drumwave-a-distopia-dos-dados-moeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/drumwave-a-distopia-dos-dados-moeda\/","title":{"rendered":"Drumwave: A distopia dos dados-moeda"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"603\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image.jpg 1200w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image-300x151.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/image-768x386.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\"><figcaption>Arte: Hoje em Dia<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Pesquisadores da ELA-IA d\u00e3o continuidade \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise sobre a ascens\u00e3o dos dados como <em>ativo estrat\u00e9gico<\/em> e exploram as frentes de desenvolvimento dessa agenda no Brasil \u2014 da infraestrutura tecnol\u00f3gica \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o, bem como a opera\u00e7\u00e3o de mercados. Mapeiam os atores, suas t\u00e1ticas e os \u00f4nus para a sociedade, convidando o leitor a entrar na disputa. A partir da descri\u00e7\u00e3o de um ecossistema (at\u00e9 agora opaco) de monetiza\u00e7\u00e3o de dados sendo desenhado entre a Calif\u00f3rnia e Bras\u00edlia, e que carrega in\u00fameros danos em potencial, os pesquisadores mergulham no roteiro n\u00e3o contado e, sobretudo, n\u00e3o transparente \u00e0 sociedade brasileira, de uma mudan\u00e7a que afeta a vida de cada cidad\u00e3o e cidad\u00e3.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s do assunto do momento e da narrativa de \u201cempoderamento do cidad\u00e3o\u201d para uma \u201csoberania digital\u201d, projeta-se o futuro da <em>economia digital<\/em>. Se o Chile foi o laborat\u00f3rio de pr\u00e1ticas neoliberais, o Brasil poder\u00e1 ser o laborat\u00f3rio do acirramento paradigm\u00e1tico de tais pr\u00e1ticas por meio do que vem sendo chamado de <em><strong>economia de dados<\/strong><\/em><em> \u2013 <\/em>nominata usada principalmente pelas fra\u00e7\u00f5es que desenham<em><strong> a economia Big Tech-em-ester\u00f3ides<\/strong><\/em>!<\/p>\n<p>Nas <u>palavras<\/u> do brasileiro Andr\u00e9 Vellozo, CEO e cofundador da startup <u>Drumwave<\/u> com sede em Palo Alto, Calif\u00f3rnia, e que projeta e constr\u00f3i a infraestrutura para a economia de dados, \u201c<strong>entre 2024 e 2030, o mundo vai passar por mudan\u00e7as significativas.<\/strong> (\u2026) O que vem a\u00ed nestes pr\u00f3ximos anos tem muito mais de \u00c1sia, e vai al\u00e9m de China e \u00cdndia. Certamente, ter\u00e1 muito de Oriente M\u00e9dio\u201d.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4Semana-12-18-Parcerias-OP_-Armazem-do-Campo-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4Semana-12-18-Parcerias-OP_-Armazem-do-Campo-4.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/4.Semana-12-18-Parcerias-OP_-Armazem-do-Campo-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Faz sentido. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, <u>declarou<\/u>, no evento \u201cFifty States \u2013 One Israel\u201d no Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, em Jerusal\u00e9m, para a maior delega\u00e7\u00e3o de legisladores americanos a visitar Israel na hist\u00f3ria: \u201cVoc\u00ea tem um celular? (\u2026) Voc\u00ea est\u00e1 segurando um peda\u00e7o de Israel em suas m\u00e3os. Sabia disso?\u201d. Imagine um cen\u00e1rio na nova economia de dados onde os usu\u00e1rios podem monetizar a coleta massiva de suas informa\u00e7\u00f5es por aplicativos (n\u00e3o apenas de Big Techs) que rodam nesse \u201cpeda\u00e7o de Israel em suas m\u00e3os\u201d e pergunte-se: at\u00e9 que ponto a economia de dados carrega o potencial de transformar nossas vidas para melhor? Pelo lado asi\u00e1tico da equa\u00e7\u00e3o, a arquitetura dessa economia se baseia muito no <u>modelo chin\u00eas<\/u> e Vellozo \u00e9 ass\u00edduo <u>participante<\/u> de f\u00f3runs de alto-n\u00edvel do <u>BRICS<\/u>.<\/p>\n<p>O mercado da economia de dados para a DrumWave, <u>segundo<\/u> Vellozo, \u00e9 um mercado de enormes propor\u00e7\u00f5es: \u201cNossa estrat\u00e9gia \u00e9 evangelizar 162 pa\u00edses para que o tema do \u201cshift from data privacy to data ownership\u201d [mudan\u00e7a da privacidade dos dados para a propriedade dos dados] entre nas agendas dos pa\u00edses que j\u00e1 possuem legisla\u00e7\u00e3o sobre prote\u00e7\u00e3o de dados; come\u00e7amos no <u>Senado<\/u> dos Estados Unidos da Am\u00e9rica logo antes do Covid-19, e de l\u00e1 seguimos para a Europa, Brasil, e outros pa\u00edses\u201d.<\/p>\n<p>A assimetria da informa\u00e7\u00e3o e conhecimento \u00e9 not\u00f3ria na panaceia da transforma\u00e7\u00e3o digital. Muitos dos argumentos sobre os benef\u00edcios da economia de dados ser\u00e3o deturpados nas brechas de seu funcionamento complexo. A falta de compreens\u00e3o generalizada permite que seus promotores criem narrativas que servem como uma cortina de fuma\u00e7a, enquanto ignoram riscos \u201cdo neg\u00f3cio\u201d. Da financeiriza\u00e7\u00e3o \u00e0 uberiza\u00e7\u00e3o, quantas vezes j\u00e1 vimos esse mesmo roteiro que come\u00e7a com a sedutora ideia de emancipa\u00e7\u00e3o? <strong>Esta \u00e9 a crise do nosso tempo:<\/strong> a opacidade, complexidade e invisibilidade dos processos das tecnologias digitais nos alienam das for\u00e7as que moldam nossa vida, deixando-nos \u00e0 deriva. <strong>Enquanto se vende \u201cempoderamento\u201d e \u201csoberania\u201d, consolida-se uma arquitetura de poder t\u00e9cnico invis\u00edvel e inacess\u00edvel ao cidad\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>A \u201ceconomia de dados\u201d \u00e9 um conceito que requer precis\u00e3o. De um lado, tem-se o modelo vigente, amplamente denunciado por acad\u00eamicos como <u>Carissa V\u00e9liz<\/u>, da Universidade de Oxford, e <u>Shoshana Zuboff<\/u>, da Harvard Business School. Nele, a privacidade \u00e9 tratada como uma commodity e a vigil\u00e2ncia massiva se torna o modelo de neg\u00f3cio padr\u00e3o de grandes corpora\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas \u2013 um com\u00e9rcio de dados pessoais que V\u00e9liz, em seu livro \u201c<u>Privacidade \u00e9 Poder<\/u>\u201d (Editora Contracorrente), defende que deveria ser \u201ccriminalizado\u201d. Do outro lado, surge um novo paradigma que se espelha naquilo que seria uma <u>reforma<\/u> econ\u00f4mica promovida pela <u>China<\/u> em rela\u00e7\u00e3o aos dados e que o <u>governo<\/u> pretende levar \u00e0 discuss\u00e3o com o selo de uma revolu\u00e7\u00e3o: transformar o cidad\u00e3o em propriet\u00e1rio de dados.<\/p>\n<p>Em tal modelo, os dados s\u00e3o elevados \u00e0 categoria de fator de produ\u00e7\u00e3o, ao lado do capital, do trabalho e da terra. Trata-se de criar um <u>mercado<\/u> onde os dados em si s\u00e3o ativos monetiz\u00e1veis, que podem ser contabilizados no balan\u00e7o das empresas e negociados em <u>bolsas<\/u> espec\u00edficas.<\/p>\n<p>A proposta \u00e9 que, se o dado \u00e9 um recurso valioso, o indiv\u00edduo que o gera deve ser considerado seu propriet\u00e1rio original e participar da distribui\u00e7\u00e3o de riqueza gerada. Soa louv\u00e1vel, sem d\u00favida, mas uma an\u00e1lise cr\u00edtica e subsidiada em extensa investiga\u00e7\u00e3o dos pesquisadores da ELA-IA revela nuances fundamentais e complexidades no modelo de \u201cmonetiza\u00e7\u00e3o\u201d. Nas palavras de Vellozo, <u>monetizar dados<\/u> \u00e9 dar aos mesmos \u201ccaracter\u00edsticas de moeda\u201d; n\u00e3o simplesmente \u201ccomprar e vender\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o ponto de partida dessa \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d chamada \u201ceconomia de dados\u201d que come\u00e7a a ser implantada no Brasil sem o necess\u00e1rio debate p\u00fablico.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg 729w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A implementa\u00e7\u00e3o brasileira, capitaneada por empresas como a DrumWave com a chancela do Estado, sugere uma fus\u00e3o entre poder p\u00fablico e interesses corporativos in\u00e9dita. Ao seguir o roteiro chin\u00eas, onde o Banco Central e as big techs convergem para governar e gerenciar fluxos de dados, arriscamos criar um sistema em que a financeiriza\u00e7\u00e3o da vida humana se torna irrevers\u00edvel. Em um mundo onde estar offline n\u00e3o \u00e9 mais uma op\u00e7\u00e3o, e no qual a Intelig\u00eancia Artificial demanda um fluxo cont\u00ednuo de dados \u201cfrescos\u201d e de qualidade gerados por humanos, a pergunta deixa de ser apenas econ\u00f4mica \u2013 ainda que os arquitetos do sistema assim a definam. Torna-se uma quest\u00e3o existencial indagar se estamos construindo um futuro de empoderamento cidad\u00e3o ou de depend\u00eancia e vigil\u00e2ncia total, onde a pr\u00f3pria experi\u00eancia humana se torna o \u00faltimo recurso a ser extra\u00eddo e capitalizado em escala jamais vista.<\/p>\n<p><strong>Este artigo \u00e9 uma reivindica\u00e7\u00e3o por a\u00e7\u00e3o contra a mar\u00e9<\/strong> \u2013 e um apelo por tensionamento ao discurso f\u00e1cil, que promete e n\u00e3o entrega (para a maioria).<\/p>\n<h3><strong>A ascens\u00e3o dos dados como ativo estrat\u00e9gico<\/strong><\/h3>\n<p>A briga pelo controle do ativo mais cobi\u00e7ado do s\u00e9culo XXI teria, de um lado, as Big Techs, que valem trilh\u00f5es de d\u00f3lares e processam grande quantidade de dados; e, do outro, os grandes bancos, que valem bilh\u00f5es de d\u00f3lares e processam parte substancial das transa\u00e7\u00f5es financeiras. No meio, haveria uma assimetria de valor de mercado e a colis\u00e3o iminente entre duas gal\u00e1xias.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 outra <u>tese<\/u> apresentada por Andr\u00e9 Vellozo, cuja empresa, de capital majoritariamente brasileiro, se diz voltada ao desenvolvimento de infraestrutura para a nova economia de dados. A Drumwave \u00e9 ainda a empresa que subsidia o <u>Projeto de Lei Complementar 234\/2023<\/u>, de autoria do deputado <u>Arlindo Chinaglia (PT\/SP<\/u>), o qual prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de um <em>ecossistema<\/em> de monetiza\u00e7\u00e3o de dados no Brasil atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cpropriedade de dados\u201d, e foi objeto de <u>Nota T\u00e9cnica<\/u> que emitimos em julho de 2025. A \u201cevangeliza\u00e7\u00e3o\u201d est\u00e1 em curso! Trata-se de espalhar uma \u201cboa-nova\u201d com convic\u00e7\u00e3o genu\u00edna para converter outras pessoas. Vende-se uma cren\u00e7a, um prop\u00f3sito, um estilo de vida e uma solu\u00e7\u00e3o transformadora \u2013 tudo no mesmo pacote.<\/p>\n<p>A propriedade dos dados \u00e9 o empoderamento do indiv\u00edduo frente \u00e0s Big Techs \u2013 dizem os evangelistas. Isso soa, \u00e0 primeira vista, como um movimento contra os \u201cfeudos\u201d das gigantes tecnol\u00f3gicas \u2013 mas, na pr\u00e1tica, est\u00e1 longe de ser uma guerra entre dois blocos herm\u00e9ticos ou uma \u201ccolis\u00e3o entre duas gal\u00e1xias\u201d. Ao longo do artigo, veremos se tratar mais de uma converg\u00eancia de interesses e prop\u00f3sitos que precisam de uma quantidade ainda mais massiva de dados, criando o que chamamos de <em>economia<\/em> <em>Big Tech-em-ester\u00f3ides<\/em>.<\/p>\n<p>As narrativas sendo divulgadas ao redor da economia e monetiza\u00e7\u00e3o de dados soam como as notas hipn\u00f3ticas (ou que conv\u00e9m) da flauta m\u00e1gica do Flautista de Hamelin. Por isso, precisamos estar atentos \u00e0 hip\u00f3tese de estarmos sendo, deliberada e irresponsavelmente, evangelizados para servir de insumo em mais um experimento latino-americano para o capitalismo. Devemos, no m\u00ednimo, questionar e destrinchar tudo o que o envolve.<\/p>\n<p>Na <u>vis\u00e3o<\/u> trazida por Vellozo e <u>Brett King<\/u>, futurista australiano, autor de livros como \u201cBank 4.0\u201d e \u201cAugmented\u201d e cofundador do <u>Moven<\/u>, o primeiro neobanco m\u00f3vel dos EUA \u2013 tendo tamb\u00e9m atuado como consultor do governo Obama sobre o futuro do setor banc\u00e1rio, e sido citado pelo presidente Xi Jinping \u2013, estamos no fim de um \u201cmegaciclo econ\u00f4mico\u201d correspondente ao per\u00edodo \u201c1977\u20132022: do hardware ao software\u201d. O pr\u00f3ximo megaciclo, de 2022 a 2062, seria o ciclo \u201cdo software aos dados\u201d.<\/p>\n<p>Em <u>entrevista<\/u>, Vellozo afirma que ocorrer\u00e1 uma transforma\u00e7\u00e3o radical: \u201c<strong>Bancos centrais se tornar\u00e3o Big Techs. Bancos se tornar\u00e3o marketplaces e marketplaces se tornar\u00e3o bancos<\/strong>.\u201d Brett King vai al\u00e9m e <u>diz<\/u> que \u201c<strong>Bancos centrais v\u00e3o se tornar empresas de IA<\/strong>\u201d. O plano sendo desenvolvido no Brasil pela DrumWave, grupo de investidores com tr\u00e2nsito em Bras\u00edlia (incluindo ex-presidentes do Banco Central<sup><sup>1<\/sup><\/sup>), e o governo brasileiro (de Bolsonaro a Lula 3) \u2013 at\u00e9 onde nossa pesquisa pode mapear \u2013 \u00e9 que a moeda da nova era n\u00e3o ser\u00e1 o dinheiro de papel, de pl\u00e1stico, ou o criptoativo; mas, o pr\u00f3prio dado. \u201cDados s\u00e3o o novo lastro de valor\u201d, afirma o CEO da DrumWave.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"843\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/11.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/11-1500x843.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/11-300x169.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/11-768x432.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/11-1536x863.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/11.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<p>Imagem: Novo megaciclo econ\u00f4mico (2022\u20132062) em que Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central (2019-2024) aparece em primeiro plano, ao lado de Andr\u00e9 Vellozo (DrumWave). Reprodu\u00e7\u00e3o: <u>Not Paper, Plastic Or Crypto: Data is the New Currency, DrumWave\u2019s CEO Says<\/u>. Design: Brunno Piccoli<\/p>\n<p>Baseado em pressupostos especulativos, e de fundo te\u00f3rico question\u00e1vel, que ainda dependem da cria\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a sist\u00eamica para uma mudan\u00e7a estrutural de grandes propor\u00e7\u00f5es na economia como um todo, o <u>marketing<\/u> da empresa prop\u00f5e que cada indiv\u00edduo possa \u201cimprimir sua pr\u00f3pria moeda pessoal\u201d a partir de sua vida digital. O tema n\u00e3o seria uma discuss\u00e3o filos\u00f3fica; \u00e9, nas palavras de Vellozo, \u201cuma discuss\u00e3o financeira\u201d.<\/p>\n<p>Certamente, para a Drumwave e os arquitetos desse novo paradigma, trata-se de um aspecto primordial, visto que cada ator tem muito a ganhar se vender bem o peixe de uma economia de dados emancipat\u00f3ria. J\u00e1 para a ELA-IA, atrav\u00e9s de seus pesquisadores, e fiel a seu objetivo social de promover o uso \u00e9tico das tecnologias digitais atrav\u00e9s de pesquisa, ensino e solu\u00e7\u00f5es que protejam dados e seus titulares, cada pressuposto de ganho precisa ser avaliado em contraste com quem perde e com os processos sociais acirrados pela proposta. Ent\u00e3o, como essa verdadeira mudan\u00e7a de paradigma se d\u00e1 e por onde come\u00e7a? Quais os impactos na vida das pessoas? E, sobretudo, para quem a monetiza\u00e7\u00e3o de dados realmente ir\u00e1 gerar valor? Este artigo parte de tais perguntas, pretendendo instigar o leitor a outras tantas.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o mapeia um ecossistema desenhado para o exato prop\u00f3sito que Andr\u00e9 Vellozo revela em entrevista de 2022: unindo tecnologia, um marco legislativo \u00fanico no mundo (PLP234\/2023), setor financeiro e a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. O objetivo \u00e9 o de quebrar os silos de dados (das big techs, dos governos, dos bancos, etc) para combin\u00e1-los e recombin\u00e1-los infinitamente, criando o que conceituamos como uma <strong>Omni-Tech<\/strong>: uma tecnologia que pretende permear <em>tudo<\/em> com sua onipresen\u00e7a, do varejo ao governo, passando pela intimidade do seu lar e, sim, pelas Big Techs e sua infraestrutura.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando pelo rearranjo do sistema financeiro, que o distancia cada vez mais de decis\u00f5es pol\u00edticas, o artigo revisa o <strong>Open Finance<\/strong>, ou Sistema Financeiro Aberto, um sub-ecossistema que pretende \u201c<u>transformar o futuro das rela\u00e7\u00f5es financeiras<\/u>\u201d; e revela o <em>roadmap<\/em> em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 economia de dados atrav\u00e9s do Open X e a interoperabilidade de bases de dados p\u00fablicas e privadas sob a tutela legal do que viria a ser a lei de monetiza\u00e7\u00e3o de dados \u2013 ou o projeto de lei 234\/2023.<\/p>\n<p>O Open Finance, por sua vez, se vincula com toda a <u>agenda de inova\u00e7\u00e3o do Banco Central do Brasil<\/u>, da qual o Pix e o Drex (o Real digital) fazem parte e que tem in\u00edcio durante o governo de Michel Temer e na gest\u00e3o (2016-2019) do economista israelense-brasileiro Ilan Goldfajn, ex-diretor do Departamento do Hemisf\u00e9rio Ocidental no Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) e eleito, em 2022, <u>presidente<\/u> do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cargo que atualmente exerce. A agenda teve continuidade e foi acelerada na gest\u00e3o de seu sucessor, o economista Roberto Campos Neto (2019-2024), primeiro presidente do Banco Central sob o regime de autonomia institucional, institu\u00eddo no governo de Jair Bolsonaro e, desde 2025, Vice-Chairman e Chefe Global de Pol\u00edticas P\u00fablicas do <u>Nubank<\/u>.<\/p>\n<h3><strong>Open Finance: dados compartilhados dentro do setor financeiro e prot\u00f3tipo da economia de dados<\/strong><\/h3>\n<p>Na <u>p\u00e1gina<\/u> do Banco Central, o Open Finance \u00e9 definido como \u201ca possibilidade de clientes de produtos e servi\u00e7os financeiros levarem suas informa\u00e7\u00f5es das suas institui\u00e7\u00f5es de relacionamento para outras e movimentarem suas contas banc\u00e1rias a partir de diferentes plataformas e n\u00e3o apenas pelo aplicativo ou site do banco onde tem sua conta ou outro servi\u00e7o contratado, de forma segura, \u00e1gil e conveniente\u201d. Al\u00e9m das informa\u00e7\u00f5es sobre produtos e servi\u00e7os financeiros mais tradicionais (como contas e opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito), o Open Finance tamb\u00e9m permite \u201ccompartilhar dados de produtos e servi\u00e7os relacionados a investimentos, opera\u00e7\u00f5es de c\u00e2mbio e seguros\/previd\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Para regular essa nova estrutura de finan\u00e7as abertas no Brasil, o Banco Central do Brasil <u>criou<\/u> o \u00f3rg\u00e3o de governan\u00e7a de Open Finance, instituindo a Associa\u00e7\u00e3o <strong>Open Finance Brasil<\/strong>, reconhecida como a estrutura jur\u00eddica ideal para centralizar contratos, fornecedores e a gest\u00e3o operacional do ecossistema.<\/p>\n<p>A <strong>Open Finance Brasil <\/strong>\u00e9 uma <u>entidade<\/u> de <u>direito privado<\/u> cujo modelo adotado \u00e9 o de uma autorregula\u00e7\u00e3o supervisionada \u2013 o que significa que o Banco Central define o \u201co qu\u00ea\u201d, o \u201cporqu\u00ea\u201d e os limites do jogo (as regras gerais, quem \u00e9 obrigado a participar, as fases de implementa\u00e7\u00e3o, os princ\u00edpios de seguran\u00e7a), enquanto delega o \u201ccomo\u201d (os detalhes t\u00e9cnicos, os padr\u00f5es de APIs, a gest\u00e3o do dia a dia, a resolu\u00e7\u00e3o de disputas operacionais) a uma associa\u00e7\u00e3o civil sem fins lucrativos, formada, administrada e financiada pelos pr\u00f3prios bancos, fintechs e outras institui\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<p>A governan\u00e7a \u00e9 exercida por atores privados, compostos por mais de mil especialistas organizados em Grupos T\u00e9cnicos, um Conselho Deliberativo com 86 institui\u00e7\u00f5es e uma Secretaria de Governan\u00e7a que inclui fornecedores estrat\u00e9gicos como a empresa brit\u00e2nica <u>Raidiam<\/u>, fundada em 2016, e que se define como uma \u201corganiza\u00e7\u00e3o global na vanguarda das tecnologias de compartilhamento de dados que est\u00e3o mudando o mundo\u201d \u2013 a espinha dorsal tecnol\u00f3gica do sistema Pix. Ela fornece a arquitetura e opera a infraestrutura cr\u00edtica de seguran\u00e7a e identidade que torna poss\u00edvel a interoperabilidade em larga escala. Desde j\u00e1 pedimos desculpas se estivermos desiludindo quem acha que o Pix \u00e9 um projeto de soberania tecnol\u00f3gica. Tudo sob a chancela final do Banco Central. Ou seja, neste contexto, quem decide as melhores a\u00e7\u00f5es para estrutura\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de prot\u00f3tipo da futura economia de dados brasileira s\u00e3o as empresas privadas legitimadas pelo Banco Central do Brasil.<\/p>\n<p>O <em>ecossistema<\/em> pode ser visualizado no diagrama \u201cRadar Open Finance\u201d publicado no <u>relat\u00f3rio<\/u> de 2023 da consultoria Capgemini. Este diagrama revela o mapa de poder da iniciativa: no centro, os grandes bancos e fintechs; orbitando ao redor, os \u201cfornecedores do ecossistema\u201d \u2013 gigantes da consultoria e tecnologia como Accenture e AWS (Amazon Web Services).<\/p>\n<p>A estrutura de governan\u00e7a \u00e9 financiada pelos pr\u00f3prios participantes. Afinal, trata-se de uma \u201cONG\u201d. Ao mesmo tempo, e por manter o poder de regula\u00e7\u00e3o e fiscaliza\u00e7\u00e3o final, o Banco Central, em teoria, garante que o sistema opere dentro de certos limites. O problema \u00e9 que essa estrutura cria um clube privado (alerta de Spoiler: tamb\u00e9m presente no projeto de lei de monetiza\u00e7\u00e3o de dados).<\/p>\n<p>A porta girat\u00f3ria dentro do ecossistema e os potenciais conflitos de interesse associados s\u00e3o apenas um exemplo de como a resposta \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de quem controlar\u00e1 o ativo mais cobi\u00e7ado deste s\u00e9culo est\u00e1 sendo constru\u00edda longe do debate p\u00fablico, em uma alian\u00e7a entre o Banco Central do Brasil, o sistema financeiro, empresas de tecnologia e, no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, o governo brasileiro \u2013 como revela nossa investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDepois de atuar por 15 anos como Auditor do Banco Central do Brasil, comprometido em entregar valor \u00e0 sociedade brasileira atrav\u00e9s de supervis\u00e3o financeira estrat\u00e9gica e governan\u00e7a, fiquei impressionado com o desafio de ingressar na DrumWave e construir a espinha dorsal da nova economia de dados\u201d, <u>declarou<\/u> Rafael Andrezo, profissional que participou das primeiras iniciativas de redesenho do sistema financeiro nacional (como a implementa\u00e7\u00e3o do Pix, do Open Finance e o desenvolvimento do Drex, a moeda digital brasileira) ao anunciar sua mudan\u00e7a de emprego para assumir o cargo de Diretor de Economia na empresa e o desafio de criar as bases para uma economia de dados eficiente e sustent\u00e1vel. Durante sua passagem pelo Banco, Andrezo foi chefe de gabinete do ex-presidente Roberto Campos Neto.<\/p>\n<p>O compartilhamento de dados no Open Finance, de acordo com o Banco Central, s\u00f3 possui benef\u00edcios, otimiza\u00e7\u00e3o e efici\u00eancia: \u201cas institui\u00e7\u00f5es participantes podem, por exemplo, obter um retrato mais completo dos consumidores por meio da visualiza\u00e7\u00e3o de seus perfis financeiros e, assim, oferecer produtos mais adequados \u00e0s suas necessidades\u201d.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, a iniciativa, ao contr\u00e1rio do Pix (de quem \u00e9 prima), encontra obst\u00e1culos de ades\u00e3o \u2013 segundo <u>pesquisa<\/u> do pr\u00f3prio setor com dados de 2024: \u201c<strong>Temos um cliente com uma maturidade abaixo da m\u00e9dia.<\/strong> Esse \u00e9 um dos maiores desafios para o ecossistema, hoje: sem consumidor, n\u00e3o h\u00e1 Open Finance! Os processos de consentimento e pagamentos iniciados receberam altas avalia\u00e7\u00f5es de satisfa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m<strong> a percep\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios ao aderir ao Open Finance diminuiu. A seguran\u00e7a dos dados continua sendo uma barreira significativa para aqueles que ainda n\u00e3o adotaram a plataforma<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>O economista e ex-presidente do Banco Central (1997\u20131999), Gustavo Franco, ressalta, em <u>apresenta\u00e7\u00e3o<\/u> durante o evento DrumWave Day (2023) na sede da empresa em Palo Alto que, embora iniciativas de Open Finance j\u00e1 existam em v\u00e1rios pa\u00edses, sua implementa\u00e7\u00e3o plena ser\u00e1 lenta e depende da a\u00e7\u00e3o dos reguladores e da press\u00e3o dos usu\u00e1rios para acelerar o processo. Segundo pesquisas, pelo lado do <u>consumidor<\/u>, 57% dos respondentes sentem que o Open Finance n\u00e3o proporciona um maior controle sobre os dados financeiros; e outros 37% indicam que esse controle \u00e9 apenas parcial. Pelo lado do <u>setor<\/u>, a medi\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que a ades\u00e3o abaixo do esperado se deve, principalmente, pela \u201cfalta de conhecimento e entendimento dos consumidores, pouca percep\u00e7\u00e3o de vantagens ao aderir, falta de confian\u00e7a\/seguran\u00e7a no uso dos dados e m\u00e1 experi\u00eancia nas etapas de consentimento\u201d.<\/p>\n<p>O tempo dir\u00e1 se o Open Finance resultar\u00e1 em um prot\u00f3tipo n\u00e3o t\u00e3o exitoso da economia de dados sendo desenhada entre a Calif\u00f3rnia e Bras\u00edlia, ou se a ades\u00e3o \u2013 e sobretudo a confian\u00e7a \u2013 aumentar\u00e1 com um benef\u00edcio supostamente mais tang\u00edvel: ganhar dinheiro ao consentir em compartilhar seus dados. Para isso, o ecossistema precisa passar ainda pela etapa derradeira: a transi\u00e7\u00e3o do Open Finance ao Open X (leia-se, Open <em>Tudo: <\/em>integra dados p\u00fablicos e privados em um ecossistema interoper\u00e1vel) atrav\u00e9s do marco regulat\u00f3rio da lei de monetiza\u00e7\u00e3o de dados (PLP 234\/2023).<\/p>\n<p>O caminho do Banco Central para se tornar uma Big Tech exp\u00f5e um dilema que \u00e9, antes de mais nada, \u00e9tico: <strong>quem controla quem?<\/strong> Ao acumular fun\u00e7\u00f5es, o BC passaria a deter poder normativo, operacional e autoridade informacional \u2013 uma concentra\u00e7\u00e3o que cria conflitos de interesse intr\u00ednsecos, al\u00e9m de ampliar seu poder decis\u00f3rio, debilitando os freios pol\u00edticos \u00e0s prioridades do mercado.<\/p>\n<p>O <u>dilema<\/u> regulat\u00f3rio \u00e9 outro ponto a se considerar: de um lado, a autarquia busca estimular inova\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o, abrindo espa\u00e7o para fintechs e novos modelos de neg\u00f3cios; de outro, precisa manter a robustez e a seguran\u00e7a do Sistema Financeiro Brasileiro. A frase estampada em <u>relat\u00f3rio<\/u> do Open Finance Brasil \u00e9 emblem\u00e1tica: OPEN FINANCE \u00c9 EXPERI\u00caNCIA [de usu\u00e1rio], N\u00c3O REGULAMENTA\u00c7\u00c3O.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o Banco Central amplia seu alcance para muito al\u00e9m das fun\u00e7\u00f5es que lhe foram tradicionalmente atribu\u00eddas. A press\u00e3o por inova\u00e7\u00e3o pode levar a pontos cegos regulat\u00f3rios, permitindo que o ecossistema se constitua em uma <strong>Omni-Tech <\/strong>\u2014 h\u00edbrido de finan\u00e7as e tecnologia \u2014 que escapa de classifica\u00e7\u00f5es legais claras.<\/p>\n<h3> <strong>Do Open Finance ao Open X: leia-se \u201ctudo aberto\u201d<\/strong><\/h3>\n<p>\u201cCom um mercado estimado em mais de US$1 trilh\u00e3o, at\u00e9 2030, o Open Data [Nota do editor: Open Data diz respeito \u00e0 abertura de fluxo de dados para compartilhamento entre empresas mediante o consentimento do cliente] \u00e9 para onde caminhamos, a partir de agora. Sabemos que <strong>a mudan\u00e7a gradual para dados abertos permitir\u00e1 que bancos se transformem cada vez mais em parceiros de estilo de vida<\/strong>, tornando-se mais integrados nas jornadas dos clientes n\u00e3o financeiros, permitindo-lhes ir al\u00e9m da oferta de produtos e servi\u00e7os financeiros essenciais.\u201d<br \/>Elias Ghanem<br \/>L\u00edder Global do Capgemini Research Institute para Servi\u00e7os Financeiros<br \/><u>Relat\u00f3rio<\/u> Capgemini (2024): Estrat\u00e9gias vitoriosas a caminho do Open X<\/p>\n<p>Para compreender a magnitude do que est\u00e1 ocorrendo embaixo do nariz, mas n\u00e3o diante dos olhos, \u00e9 preciso entender que o Open Finance \u00e9 apenas o trampolim de um projeto muito mais ambicioso.<\/p>\n<p>Documentos estrat\u00e9gicos do <u>setor<\/u> revelam a imagem que vale mais que mil palavras. O roteiro se d\u00e1 em tr\u00eas etapas. Se o PLP 234\/2023 for aprovado, o Brasil entrar\u00e1 na etapa final de institui\u00e7\u00e3o de uma economia de dados: depois do Open Banking (compartilhamento de dados banc\u00e1rios) e do Open Finance (seguros e investimentos), vem a\u00ed o \u201cOpen X\u201d \u2013 a integra\u00e7\u00e3o do compartilhamento de dados de sa\u00fade, viagens, redes sociais, estilo de vida, dispositivos conectados, dados sociais e governamentais em uma malha de servi\u00e7os centrada em uma carteira digital que, ao que tudo indica, ser\u00e1 a dWallet, da DrumWave.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"856\" height=\"772\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/22.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/22.png 856w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/22-300x271.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/22-768x693.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 856px) 100vw, 856px\"><\/figure>\n<p>Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o OPEN FINANCE \u00cdNDICE DE MATURIDADE BRASIL | 2023, elaborado a partir de Banking, Finance, Data: WhiteSight, 2022, Capgemini, p.9.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que os nomes dos demais blocos de constru\u00e7\u00e3o desse ecossistema, Pix e <u>Drex<\/u> (Real Digital), t\u00eam a letra \u201cX\u201d \u2013 que simboliza, segundo <u>documentos<\/u> da constru\u00e7\u00e3o de marca, multiplicidade de usos e conex\u00f5es associada a uma tecnologia digital simples, eficiente e \u00e1gil. H\u00e1 quem discorde, mas isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante quanto desvelar o proselitismo envolvido.<\/p>\n<p>Como <u>explica<\/u> o ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto: Pix, Open Finance e a moeda digital Drex \u201cs\u00e3o pe\u00e7as de um mesmo quebra-cabe\u00e7a\u201d, projetadas para encaixar em um mesmo trilho tecnol\u00f3gico e para convergir e se interrelacionar no ecossistema Open X.<\/p>\n<p>Este ecossistema ainda prev\u00ea portabilidade no \u00e2mbito internacional, pois a ideia de Open Finance tem sido promovida em escala global. O Banco Central dos Bancos Centrais (Bank for International Settlements \u2013 BIS) est\u00e1 capitaneando o <u>Projeto Aperta<\/u> (cujo nome deve-se \u00e0 palavra latina para \u2018aberto\u2019) com o objetivo de viabilizar o compartilhamento transfronteiri\u00e7o de dados por meio da interoperabilidade do Open Finance. Pretende-se conectar infraestruturas dom\u00e9sticas de finan\u00e7as abertas de diferentes jurisdi\u00e7\u00f5es e gerar a escalabilidade nas opera\u00e7\u00f5es de comercializa\u00e7\u00e3o de dados. O projeto envolve o desenvolvimento de um prot\u00f3tipo de uma rede multilateral como resultado da colabora\u00e7\u00e3o de diversas institui\u00e7\u00f5es como BIS Innovation Hub Hong Kong Centre, o Banco Central do Brasil, o Banco Central dos Emirados \u00c1rabes Unidos, a Financial Conduct Authority do Reino Unido, a Hong Kong Monetary Authority, entre outras. Desta forma, a institucionaliza\u00e7\u00e3o de finan\u00e7as abertas, n\u00e3o \u00e9 uma ideia end\u00f3gena do Brasil.<\/p>\n<p>O que falta para o ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o de dados se concretizar no Brasil? Uma legisla\u00e7\u00e3o que confunda as disposi\u00e7\u00f5es da <u>LGPD<\/u> (Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados) e permita passar da atual \u201ctitularidade\u201d a uma \u201c<strong>propriedade de dados<\/strong>\u201d \u2013 o que o PLP 234\/2023 vem a fazer usando o incentivo financeiro da monetiza\u00e7\u00e3o de dados. Ao se tornar \u201cdono\u201d de seus dados, o cidad\u00e3o obt\u00e9m a capacidade de romper os limites de sua cust\u00f3dia, podendo autorizar o compartilhamento com terceiros mediante consentimento e em troca de um benef\u00edcio econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O objetivo final seria criar o que os pr\u00f3prios documentos chamam de \u201cexperi\u00eancias abertas\u201d: descontos personalizados, recompensas de comportamento, gest\u00e3o de assinaturas, de alugu\u00e9is, benef\u00edcios p\u00fablicos e financiamentos baseados em algoritmos que analisam cada detalhe da vida do povo brasileiro.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"844\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/33.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/33-1500x844.png 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/33-300x169.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/33-768x432.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/33-1536x864.png 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/33.png 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<p>Imagem: captura de tela\/<u>YouTube<\/u>, apresenta\u00e7\u00e3o de Roberto Campos Neto do DrumWave Day (2022) mostrando a infraestrutura completa com a carteira digital\/de dados, e na qual ele explica que o Pix, Open Finance e a Moeda Digital (Drex) \u201cn\u00e3o s\u00e3o inova\u00e7\u00f5es separadas e concorrentes; e sim bloquinhos de um mesmo quebra-cabe\u00e7a, desenhados desde o in\u00edcio para, um dia, se encaixar no final\u201d. A vis\u00e3o final, que repete como um mantra, \u00e9 \u201cjuntar tudo em um trilho conectado em uma carteira digital\u201d \u2013 a carteira da DrumWave.<\/p>\n<p>Tudo isso est\u00e1 dentro do que se chama <u>Servi\u00e7os Financeiros Embutidos<\/u> (ou <em>embedded finance<\/em>): servi\u00e7os financeiros deixam de ser entregues s\u00f3 por bancos e passam a aparecer dentro da jornada do cliente \u2013 no app do supermercado, no cart\u00e3o de fidelidade, no servi\u00e7o de delivery. A ideia \u00e9 que diferentes empresas (como bancos tradicionais, neobanks, fintechs, varejistas) colaborem em ecossistemas para desbloquear novas fontes de receita, oferecer produtos contextualizados e ao mesmo tempo cumprir regras regulat\u00f3rias com efici\u00eancia. Em outras palavras, a ferramenta financeira vem ao encontro do usu\u00e1rio, integrada ao que ele j\u00e1 faz no dia a dia. Constitui-se em um sistema que aumenta muito os pontos onde dados pessoais e financeiros s\u00e3o coletados e cruzados: hist\u00f3rico de compras, geolocaliza\u00e7\u00e3o, comportamento online e informa\u00e7\u00f5es de pagamento \u2013 tudo em um mesmo \u201clugar\u201d. Quando essas camadas de pagamentos, carteiras e dados se juntam em um ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o, cria-se um mercado em que o dado vira um ativo que pode ser precificado, negociado e usado para gerar lucro (ou n\u00e3o \u00e9 isso que o pessoal da discuss\u00e3o financeira quer?).<\/p>\n<p>Nas palavras do pr\u00f3prio setor: \u201cEssa coopera\u00e7\u00e3o entre diferentes players, em um modelo de ecossistema, \u00e9 o que chamamos de Open X.\u201d Os chamados <strong>neobanks<\/strong> (institui\u00e7\u00e3o financeira 100% digital que opera sem ag\u00eancias f\u00edsicas, oferecendo servi\u00e7os banc\u00e1rios como contas, cart\u00f5es e transfer\u00eancias atrav\u00e9s de aplicativos e plataformas online) buscam novos clientes e produtos, usando agrega\u00e7\u00e3o de dados para perfilar clientes e ofertar cr\u00e9dito, seguro e investimento; as <strong>fintechs e fornecedoras de tecnologia<\/strong> trabalham na captura, padroniza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o desses dados, vendendo infraestrutura e software como servi\u00e7o; o <strong>varejo<\/strong> v\u00ea na distribui\u00e7\u00e3o contextualizada uma oportunidade de monetizar, oferecendo produtos \u201cmarca branca\u201d ou tornando-se iniciador de transa\u00e7\u00f5es. O <u>objetivo declarado<\/u> \u00e9 extrair o m\u00e1ximo valor de cada intera\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio tendo a credibilidade dos bancos incumbentes de um lado, e a agilidade e contexto das fintechs e do varejo do outro.<\/p>\n<p>A (ainda hipot\u00e9tica)coopera\u00e7\u00e3o entre os atores do Open X movimentando essa economia de dados desenhada por tecnocratas e tecnosolucionistas soa como as notas hipn\u00f3ticas do flautista de Hamelin transmitindo o \u00eaxtase da inova\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e eficiente que torna a vida do cidad\u00e3o mais f\u00e1cil e o recompensa (literalmente) por comportamentos \u2013 como indicado na imagem do ecossistema. Por\u00e9m, como o flautista provavelmente sabe, o Open X tamb\u00e9m significa transformar tudo em fluxos monetiz\u00e1veis. Para isso, o ecossistema precisa monitorar e precificar padr\u00f5es de vida. Perfis de cr\u00e9dito e segmentos de consumo viram produtos; e a coleta massiva e o cruzamento de dados alimentam neg\u00f3cios cuja l\u00f3gica \u00e9 maximizar efici\u00eancia e lucro \u2013 o que \u00e9 razoavelmente distinto de melhorar a vida de um cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Nada nesse ecossistema e nessa economia de dados \u00e9 neutro: Open tamb\u00e9m significa (se voc\u00ea n\u00e3o estiver muito hipnotizado pelo flautista do Open X) abrir as portas da sua vida para mais <u>vigil\u00e2ncia<\/u>, decis\u00f5es automatizadas com pouco escrut\u00ednio p\u00fablico, refor\u00e7o de exclus\u00f5es por discrimina\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica e concentra\u00e7\u00e3o de poder em plataformas que det\u00eam os dados e a infraestrutura: o que inclui as Big Techs.<\/p>\n<p>Se todos os caminhos levam a Roma, todos os fluxos de dados levam \u00e0s <u>nuvens das gigantes tecnol\u00f3gicas<\/u>. \u201cA AWS acompanha de perto o desenvolvimento do Open Finance no pa\u00eds, pois a nuvem desempenha um papel fundamental na arquitetura que as institui\u00e7\u00f5es financeiras precisam para operar em novos modelos digitais, al\u00e9m de garantir infraestrutura e aplica\u00e7\u00f5es, incluindo armazenamento e compartilhamento de dados com grande flexibilidade, seguran\u00e7a e escalabilidade\u201d \u2013 declara a gerente de desenvolvimento de neg\u00f3cios para o mercado financeiro da AWS no Brasil em <u>relat\u00f3rio<\/u> setorial.<\/p>\n<p>O Open X na economia de dados tem todo o potencial inovador de transformar a vida cotidiana do povo brasileiro \u2013 em uma nova fronteira de extra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica!<\/p>\n<p>Nas palavras de Brett King \u2014 frequentemente citado como \u201cvision\u00e1rio\u201d por esse ecossistema \u2014 \u201co jeito que ela [a IA em sua carteira de dados] melhora sua vida \u00e9 sobre como os dados s\u00e3o gerenciados. Por isso [importa] quem \u00e9 dono desses dados, como s\u00e3o monetizados e onde est\u00e1 o valor. <strong>A melhor ilustra\u00e7\u00e3o disso \u00e9 o DNA de crian\u00e7as. Quem deve ter acesso a ele? Uma empresa de seguros que pode querer precificar o risco de potenciais doen\u00e7as no futuro, com base no genoma? Vamos ajudar as pessoas a colocar isso numa pol\u00edtica de pre\u00e7os.<\/strong>\u201d<\/p>\n<p>Um par\u00eantese para quem n\u00e3o est\u00e1 familiarizado com o setor: seguros s\u00e3o mecanismos de transfer\u00eancia e mutualiza\u00e7\u00e3o do risco. O segurado transfere ao segurador a incerteza de perder algo de valor \u2014 o carro, a casa, a sa\u00fade, a vida \u2014 e a seguradora aceita essa incerteza e a espalha entre uma coletividade para torn\u00e1-la financeiramente administr\u00e1vel. Mesmo nos contratos de vida, em que se usam tabelas de mortalidade para quantificar probabilidades, a ocorr\u00eancia individual continua sendo incerta; tabelas e modelos apenas transformam incerteza em probabilidades estimadas.<\/p>\n<p>Ao sugerir que uma seguradora poderia precificar um seguro-sa\u00fade baseado no genoma de uma crian\u00e7a \u2013 o que estaria permitido no regime de monetiza\u00e7\u00e3o de dados que o PLP 234\/2023 pretende instituir no Brasil \u2013 King parece concluir que o acesso a dados gen\u00e9ticos tornaria a precifica\u00e7\u00e3o do seguro neutra e t\u00e9cnica. Na pr\u00e1tica, dados gen\u00e9ticos fornecem informa\u00e7\u00e3o probabil\u00edstica (e com limita\u00e7\u00f5es importantes): apesar de n\u00e3o eliminarem por completo o fator da incerteza, sem o qual o risco n\u00e3o \u00e9 segur\u00e1vel, aumentam de forma significativa a previsibilidade de certas trajet\u00f3rias de doen\u00e7a. O efeito real, se esses dados forem usados na avalia\u00e7\u00e3o de risco feita pelas seguradoras, tende a ampliar a assimetria informacional entre seguradora e segurado, criando riscos de exclus\u00e3o e transformando contratos em produtos tecnicamente opacos: problemas que s\u00e3o, ao mesmo tempo, jur\u00eddicos, atuariais e \u00e9ticos no ordenamento brasileiro.<\/p>\n<p>No \u00edmpeto do tecnosolucionismo que desenha a nova economia de dados no Brasil, King arremata que isso (a monetiza\u00e7\u00e3o do DNA de uma crian\u00e7a compartilhada com uma seguradora no Open X) ser\u00e1 feito: \u201cpara que o <em><strong>uso \u00e9tico<\/strong><\/em> <em><strong>dos dados e a habilidade de comercializ\u00e1-los<\/strong><\/em> <em><strong>sejam o centro de uma transi\u00e7\u00e3o para uma sociedade altamente automatizada<\/strong><\/em>\u201d \u2013 ideia que deve ser questionada, pois fins de efici\u00eancia mercadol\u00f3gica n\u00e3o justificam (ou n\u00e3o deveriam justificar!) uma transfer\u00eancia assim\u00e9trica de poder e risco sobre os corpos das fam\u00edlias brasileiras.<\/p>\n<p>Os riscos e desdobramentos, como podemos ver (e seguiremos vendo at\u00e9 o final do artigo), n\u00e3o s\u00e3o especulativos ou alarmistas \u2013 de acordo com <u>cr\u00edticas<\/u> amplamente <u>publicadas<\/u> \u00e0 nossa Nota T\u00e9cnica. Primeiro, concentra poder: quem controla a carteira digital e a infraestrutura de liquida\u00e7\u00e3o pode ditar pre\u00e7os, regras e quem tem acesso a produtos melhores, deixando muita gente \u00e0 margem (a maioria de n\u00f3s). Segundo, h\u00e1 riscos extensamente <u>estudados<\/u> por acad\u00eamicos e especialistas de discrimina\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica (ou <u>discrimina\u00e7\u00e3o codificada<\/u>): empresas podem cobrar ou negar servi\u00e7os com base em perfis. Terceiro, a famosa \u201canonimiza\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o evita que dados sejam reidentificados quando cruzados, ent\u00e3o o argumento de que tudo ser\u00e1 protegido \u00e9 fr\u00e1gil. Quarto, quando se trata de servi\u00e7os financeiros, a \u201cpreven\u00e7\u00e3o \u00e0 fraude\u201d vira protagonista e pode ser usada para justificar coletas amplas sem consentimento real (por um cruzamento do PLP234\/2023 com a LGPD, analisado mais adiante, j\u00e1 sob a perspectiva de que a preval\u00eancia de \u201cdireitos e liberdades fundamentais do titular\u201d s\u00e3o um cabo de guerra no campo da pol\u00edtica); e quinto, essa mistura de pagamentos + dados cria depend\u00eancia tecnol\u00f3gica e geopol\u00edtica se as camadas centrais (compensa\u00e7\u00e3o, padr\u00f5es, algoritmos) forem controladas por poucos atores estrangeiros \u2013 com seus interesses particulares (como se viu no caso das tarifas de Trump, mas tamb\u00e9m se v\u00ea na ocupa\u00e7\u00e3o em Gaza).<\/p>\n<p>Como nossa Nota T\u00e9cnica alertou, o PLP 234\/2023, ou o que chamaremos de \u201cLei Open X\u201d, cria um cheque em branco, atrav\u00e9s do Art. 36, para que este ecossistema se autorregule atrav\u00e9s de \u201cconven\u00e7\u00f5es\u201d entre \u201cseus participantes\u201d \u2013 tal qual j\u00e1 ocorre no Open Finance Brasil. O mapa do Open Finance e a l\u00f3gica dos servi\u00e7os financeiros embutidos nos mostra quem estar\u00e1 sentado \u00e0 mesa escrevendo as regras do jogo: os mesmos atores que j\u00e1 controlam sua infraestrutura e opera\u00e7\u00f5es. <strong>O projeto de lei n\u00e3o cria um ecossistema do zero; ele expande o Open Finance ao Open X \u2013 o que permitir\u00e1<\/strong>, nas palavras do consultor do Capgemini Research Institute para Servi\u00e7os Financeiros, \u201c<strong>que bancos se transformem cada vez mais em parceiros de estilo de vida\u201d<\/strong> \u2013 ou, melhor dizendo, em mais uma Big Tech em nossas vidas cada vez mais digitalizadas e reduzidas a uma l\u00f3gica de m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Par\u00eanteses para uma provoca\u00e7\u00e3o: se a <u>cultura da exaust\u00e3o<\/u> \u00e9 n\u00edtida na gest\u00e3o trabalhista dessas institui\u00e7\u00f5es, imaginem voc\u00eas o que seremos de n\u00f3s com tais parceiros.<\/p>\n<p>Podemos dizer que o PLP 234\/2023 \u00e9, na pr\u00e1tica, a Lei do \u201cOpen X\u201d porque ele se constitui como a chave regulat\u00f3ria que legitima e legaliza essa expans\u00e3o, quebrando os silos de dados atrav\u00e9s de uma pseudo-propriedade do titular. O projeto de lei cria o arcabou\u00e7o legal para que os atores do Open Finance Brasil possam avan\u00e7ar para a pr\u00f3xima fase, usando a infraestrutura financeira do Pix como o \u201ctrilho\u201d sobre o qual todos os outros dados da vida do cidad\u00e3o ir\u00e3o trafegar. A narrativa de \u201cempoderamento\u201d usada na justificativa do PL \u00e9 a mesma usada para vender os \u201cbenef\u00edcios\u201d do Open X, omitindo o que nossa Nota T\u00e9cnica destacou e que nossa investiga\u00e7\u00e3o continua a desvelar.<\/p>\n<p>Uma das informa\u00e7\u00f5es mais importantes dos relat\u00f3rio setoriais relacionados ao Open X \u00e9 a de que existem estudos para expandir o modelo Open para Energia, Telecomunica\u00e7\u00f5es e Sa\u00fade. Por isso, o projeto de lei PLP 234\/2023 \u00e9 estrat\u00e9gico. Sem uma lei geral de monetiza\u00e7\u00e3o de dados, cada uma dessas expans\u00f5es (Open Health, Open Energy) exigiria uma batalha regulat\u00f3ria setorial separada. O projeto de lei age como uma \u201cchave mestra\u201d, criando um enquadramento legal \u00fanico que permite ao sistema financeiro \u201cplugar\u201d esses outros setores em seu ecossistema de forma muito mais r\u00e1pida. Afinal, o objetivo \u00e9 que \u201cbancos centrais se tornem Big Techs; bancos se tornem marketplaces e marketplaces se tornem bancos.\u201d Aqui est\u00e1 a verdadeira parceria.<\/p>\n<p>Relat\u00f3rios t\u00e9cnicos do setor revelam ainda o aperfei\u00e7oamento da interface com o usu\u00e1rio para torn\u00e1-la o mais invis\u00edvel poss\u00edvel. \u00c9 a normaliza\u00e7\u00e3o de um consentimento automatizado: uma \u201cjornada sem redirecionamento\u201d ou um \u201cPix por biometria\u201d s\u00e3o <u>projetados<\/u> para eliminar os pontos de hesita\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio.<strong> Quando o consentimento para uma transa\u00e7\u00e3o de dados se torna t\u00e3o r\u00e1pido e inconsciente quanto um pagamento por aproxima\u00e7\u00e3o, passa a ser um reflexo condicionado (ent\u00e3o, nada de se alegar decis\u00e3o \u201clivre e informada\u201d).<\/strong> O tal \u201cconsentimento\u201d pode ainda ser agrupado a uma transa\u00e7\u00e3o de pagamento de forma t\u00e3o sutil que o usu\u00e1rio nem percebe que est\u00e1 autorizando o compartilhamento de dados.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos algoritmos que definem o pre\u00e7o dos dados serem, assim como os das Big Techs, uma caixa-preta, o design de experi\u00eancia e de interface de usu\u00e1rio poderia incentivar sutilmente os usu\u00e1rios a compartilhar dados mais sens\u00edveis em troca de uma recompensa monet\u00e1ria aparentemente maior. A lista de usos da IA no projeto (\u201cpersonaliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os\u201d, \u201cavalia\u00e7\u00e3o de riscos\u201d, \u201cdisponibilidade de cr\u00e9dito\u201d) \u00e9 indicativa de que o objetivo \u00e9 replicar o que as Big Techs j\u00e1 fazem, usando os dados para tentar prever, influenciar e monetizar o comportamento humano.<\/p>\n<p>Para colocar mais lenha nessa fogueira, tramita a proposta de emenda constitucional \u2013 PEC 65\/2023 \u2013 relativa \u00e0 autonomia do Banco Central. Trata-se de uma proposta de emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o que consolida a autonomia or\u00e7ament\u00e1ria, administrativa e financeira da autoridade monet\u00e1ria. O argumento de que isso \u00e9 urgente e necess\u00e1rio se aproveita do fato do Banco Central estar alavancado pelo \u00eaxito do Pix e poder dizer que agora controla infraestruturas cr\u00edticas para o Pa\u00eds, como o Pix e o futuro Drex. Sendo assim, o BC n\u00e3o poderia estar sujeito a mudan\u00e7as de governo e precisaria ser uma \u201cpol\u00edtica de Estado\u201d, isolada do ciclo pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>A PEC 65\/2023 \u00e9 mais uma pe\u00e7a estrat\u00e9gica para fazer do Banco Central do Brasil uma Big Tech e constitui blindagem pol\u00edtica do ecossistema. <\/strong>Garante que o <em>roadmap<\/em> de longo prazo do Open X possa ser executado sem interrup\u00e7\u00f5es, independentemente de qual governo estiver no poder. O projeto se torna uma estrutura permanente, gerida por um poder tecnocr\u00e1tico sem permeabilidade a controle direto.<\/p>\n<p>Apesar de voltarmos os olhos mais detidamente ao PLP 234\/2023 por seu alinhamento com o Open Finance em termos operacionais e regulat\u00f3rios, n\u00e3o se pode negar que proposi\u00e7\u00f5es como o <u>PLP 157\/2025<\/u> s\u00e3o igualmente preocupantes. O deputado federal por S\u00e3o Paulo, <u>Guilherme Boulos (PSOL)<\/u>, prop\u00f5e mecanismos que invariavelmente fomentariam a ades\u00e3o \u00e0s plataformas por meio de uma promessa de transfer\u00eancia de renda que resvala em in\u00fameras dificuldades e impossibilidades jur\u00eddicas de implementa\u00e7\u00e3o. Observa-se, ainda, que o texto protocolizado prop\u00f5e a venda de dados, dando contornos de legalidade para anomalias que precisam ser enfrentadas de outras formas.<\/p>\n<p>Em <u>texto<\/u> publicado no <em>Outras Palavras<\/em> e JOTA, vimos tentativa de defesa dessa constru\u00e7\u00e3o, as quais merecem aten\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s suas narrativas ou falta de antecedentes. Como veremos adiante em um intricado quebra-cabe\u00e7a, o PLP234\/2023, ao criar o ecossistema brasileiro de monetiza\u00e7\u00e3o de dados, n\u00e3o fortalece qualquer soberania frente \u00e0s Big Techs. Na verdade, exp\u00f5e riscos grav\u00edssimos de operar em infraestrutura com tecnologia patenteada nos Estados Unidos e de uma empresa sediada na Calif\u00f3rnia. Fica mais tang\u00edvel em termos pr\u00e1ticos o que j\u00e1 se vislumbra h\u00e1 muito quanto \u00e0 hiperpersonaliza\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os, restri\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o de dados apenas em caso de condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para tanto e exclus\u00f5es derivadas desse resumo \u00e0 otimiza\u00e7\u00e3o em efici\u00eancia tecnol\u00f3gica e supostos ganhos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Em suma, a transi\u00e7\u00e3o que descrevemos e mapeamos (servi\u00e7os financeiros embutidos amplificam a base de dados e tornam natural a monetiza\u00e7\u00e3o em escala) \u00e9 uma converg\u00eancia que multiplica riscos de captura tecnol\u00f3gica, concentra\u00e7\u00e3o de renda, discrimina\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, eros\u00e3o pr\u00e1tica do consentimento e depend\u00eancia geopol\u00edtica \u2013 inclusive das Big Techs! Ainda que preliminar, nossa proposta de um grupo de trabalho parlamentar com debate plural e qualificado torna-se ainda mais imprescind\u00edvel.<\/p>\n<h3><strong>O Governo Brasileiro na Economia de Dados<\/strong><\/h3>\n<p>Para entender como o governo entra na equa\u00e7\u00e3o da estrutura\u00e7\u00e3o de uma economia de dados, lembremos do diagrama do Open X que mostra \u201cdados governamentais\u201d e \u201cdados sociais\u201d. A an\u00e1lise dos <u>documentos<\/u> do governo que desenham a Pol\u00edtica de Governan\u00e7a de Dados e a Infraestrutura Nacional de Dados (IND), uma esp\u00e9cie de \u201csistema nervoso central\u201d para os dados da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, com o nobre objetivo de \u201cmais cidadania\u201d \u2013 iniciativa liderada pelo Minist\u00e9rio da Gest\u00e3o e da Inova\u00e7\u00e3o (MGI) \u2013 revela como o setor p\u00fablico e o privado podem convergir na economia de dados. Em resposta ao pedido via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o (NUP 18002010929202559), o MGI reconhece que \u201crealiza estudos preliminares voltados \u00e0 defini\u00e7\u00e3o de modelos e ferramentas para o compartilhamento de dados entre o setor p\u00fablico e o setor privado\u201d.<\/p>\n<p>A IND visa consolidar os grandes bancos de dados do governo (SUS, Cad\u00danico, Receita) em uma \u201cBase de Dados do Brasil\u201d. Este seria o maior e mais valioso conjunto de dados do pa\u00eds, superando o de qualquer empresa privada. O objetivo declarado \u00e9 usar essa base para \u201credu\u00e7\u00e3o de falhas\u201d, \u201cautoma\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios\u201d, \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d e \u201cpersonaliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"360\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44.png 640w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/44-300x169.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\"><\/figure>\n<p>Imagem: Pol\u00edtica de Governan\u00e7a e Compartilhamento de Dados. <u>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/u> webinar 31-07-2025<\/p>\n<p>A sinergia potencial entre Open X + Infraestrutura Nacional de Dados (IND), que pode ser sacramentada pelo projeto de lei de monetiza\u00e7\u00e3o de dados, \u00e9 o ponto mais delicado aqui. A interoperabilidade entre dados governamentais e de mercado \u00e9 preocupante, para dizer o m\u00ednimo. Imagine um banco, atrav\u00e9s do Open X, podendo analisar (com seu consentimento \u2013 afinal, a \u2018poupan\u00e7a de dados\u2019 aumenta todo dia) o cruzamento dos seus dados de consumo com seus dados do Cad\u00danico ou da Receita Federal. A IND pode se tornar a ponte que conecta o ecossistema privado aos dados mais sens\u00edveis do Estado \u2013 como o diagrama do Open X j\u00e1 adianta, mostrando apenas cen\u00e1rios de benef\u00edcios e vantagens.<\/p>\n<p>A cidade de Amsterd\u00e3 possui o emblem\u00e1tico <u>caso<\/u> do \u201cSmart Check\u201d, um sistema pensado para identificar fraudes em pedidos de assist\u00eancia social usando intelig\u00eancia artificial \u2013 um projeto que se vincula com quase todos os resultados elencados da IND na imagem acima. O projeto consumiu milhares de euros e foi interrompido em novembro de 2023. Mesmo com bons m\u00e9todos t\u00e9cnicos, e boas inten\u00e7\u00f5es, a ferramenta n\u00e3o ajudou a identificar corretamente os casos de fraude e se comprovou um verdadeiro fracasso em tomar decis\u00f5es que s\u00e3o, antes de tudo, pol\u00edticas e \u00e9ticas. N\u00e3o bastou simplesmente \u201cajustar o c\u00f3digo\u201d.<\/p>\n<p>O caso holand\u00eas serve de alerta ao entusiasmo de achar que tudo se soluciona a partir dos dados e ao perigo de cruzar dados sens\u00edveis do governo em um Open Tudo rodando como uma Omni-Tech.<\/p>\n<h3><strong>A Infraestrutura da Economia de Dados no Ecossistema Brasileiro<\/strong><\/h3>\n<p>Mas como isso se daria na pr\u00e1tica? As respostas, at\u00e9 onde pudemos desvelar, est\u00e3o na tecnologia da DrumWave. A empresa conduz, desde 2022, provas de conceito, pesquisa e desenvolvimento em sistemas do governo (notadamente, <u>Serpro<\/u> e <u>Dataprev<\/u>) para lan\u00e7ar uma carteira digital (chamada dWallet) atrav\u00e9s da qual a monetiza\u00e7\u00e3o de dados, se aprovado o PLP234\/2023, se dar\u00e1. Em conjunto com seu algoritmo propriet\u00e1rio (d-Score), a carteira funcionaria como uma camada de interface entre o cidad\u00e3o e os dois grandes p\u00f3los do ecossistema: o p\u00fablico e o privado. A DrumWave se posicionaria como o \u201cagregador universal\u201d ou o \u201cagente de dados do cidad\u00e3o\u201d. A identidade digital do cidad\u00e3o (o Gov.br) seria integrada \u00e0 dWallet que funcionaria dentro de outros Apps, mas principalmente dentro dos Apps dos bancos \u2013 como o Pix. Atrav\u00e9s de sua carteira de dados, o cidad\u00e3o gerenciaria tanto suas permiss\u00f5es de compartilhamento e revoga\u00e7\u00e3o, quanto suas transa\u00e7\u00f5es de monetiza\u00e7\u00e3o de dados.<\/p>\n<p>Ressalta-se que nossa tentativa de descrever como isso funcionaria \u00e9 ainda hipot\u00e9tica, j\u00e1 que, at\u00e9 a finaliza\u00e7\u00e3o deste artigo, n\u00e3o foram reveladas ou divulgadas as interfaces de uso para um exame minucioso e os projetos de prova de valor (Serpro, 2022) e piloto (Dataprev, 2025) permanecem inacess\u00edveis. Tentativas de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o realizadas por meio dos canais estabelecidos pela Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o (LAI) esbarram em negativas sob a justificativa de segredo comercial. Dessa forma, nossas principais fontes de dados sobre a tecnologia da DrumWave s\u00e3o as patentes e os conte\u00fados de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da empresa.<\/p>\n<p>O \u00fanico contato direto que tivemos com a DrumWave foi por meio de uma <u>reuni\u00e3o tem\u00e1tica<\/u> realizada em julho deste ano e da qual participamos. Organizada pelas entidades da sociedade civil envolvidas na <u>Campanha Internet Legal<\/u>, da qual a ELA-IA participa, a reuni\u00e3o teve a participa\u00e7\u00e3o do diretor de opera\u00e7\u00e3o da DrumWave, o brasileiro Patrick Hruby, e do CEO, Andr\u00e9 Vellozo, em seu tramo final. Vellozo fez de sua fala um \u201cpitch\u201d sobre a propriedade e a economia de dados referenciando seu artigo <u>Welcome to the Age of the Techno-Proletariat | Exame<\/u>. Aproveitando a oportunidade, a pesquisadora e presidente da ELA-IA, Fabiana Cunha, perguntou o que viria a dar origem \u00e0 esta investiga\u00e7\u00e3o: como era a solu\u00e7\u00e3o da DrumWave, a dWallet, e como funcionava, especificamente? O diretor de opera\u00e7\u00f5es da empresa respondeu que era \u201cuma tecnologia como o Pix\u201d. Para entender a resposta e suas interconex\u00f5es com o projeto de lei, arrega\u00e7amos as mangas e nos pusemos a investigar a empresa e a tecnologia que nitidamente o subsidia.<\/p>\n<p>Debru\u00e7ando-nos sobre extensos materiais no website e contas da empresa em redes sociais, descobrimos uma <u>apresenta\u00e7\u00e3o<\/u> no evento DrumWave Day de 2023, onde o diretor de opera\u00e7\u00f5es, Patrick, e a diretora de programa, Varu Likki, deram uma pr\u00e9via da carteira de dados ilustrando casos de uso direcionados ao ecossistema brasileiro de monetiza\u00e7\u00e3o de dados.<\/p>\n<p>A \u201cdWallet\u201d (carteira de dados) \u00e9 definida como um mecanismo para transformar dados pessoais em ativos financeiros. Cada usu\u00e1rio teria uma \u201cData Savings Account\u201d (conta poupan\u00e7a de dados) vinculada \u00e0 carteira, onde o valor dos dados se acumularia progressivamente, criando um \u201cpatrim\u00f4nio digital\u201d. A dupla apresenta alguns casos de uso, como publicidade direcionada a gamers e pesquisa em sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em exemplos pr\u00e1ticos, descreve-se cen\u00e1rios comerciais como o licenciamento de perfis de usu\u00e1rios \u201cwhales\u201d em jogos on-line (termo da ind\u00fastria para jogadores que gastam grandes quantias em seus produtos) para empresas interessadas em ofertas direcionadas. Nas palavras proferidas na apresenta\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 como ir a um cassino sendo um grande apostador: eles pagam seu voo, sua limusine, seu jantar, porque sabem que voc\u00ea vai gastar muito. Ent\u00e3o, se voc\u00ea \u00e9 um grande f\u00e3 de Candy Crush, outra empresa pode dizer: \u2018Aqui est\u00e3o cem d\u00f3lares, venha jogar meu novo game\u2019. E voc\u00ea vai aceitar, \u00e9 claro.\u201d<\/p>\n<p>Outro caso de uso explicitado \u00e9 no campo da sa\u00fade, citando a parceria com uma grande operadora de sa\u00fade no Brasil. A plataforma da DrumWave permite que pacientes autorizem o uso de dados de exames como mamografias para serem cruzados com outros dados cl\u00ednicos e de estilo de vida para pesquisa, gerando valor para empresas farmac\u00eauticas e centros de pesquisa \u2013 segundo a apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com a exposi\u00e7\u00e3o, a DrumWave vem construindo parcerias com empresas que atingem 85% da popula\u00e7\u00e3o brasileira (185 milh\u00f5es de pessoas), incluindo o maior banco p\u00fablico, dois dos maiores bancos privados, o segundo maior grupo de sa\u00fade, al\u00e9m de empresas de energia e telecomunica\u00e7\u00f5es. Tudo para criar o ecossistema onde dados de diferentes setores (financeiro, sa\u00fade, consumo) sejam interoper\u00e1veis e monetiz\u00e1veis de acordo com a legisla\u00e7\u00e3o do PLP234\/2023 \u2013 ou a Lei Open X, como preferimos dizer.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja poss\u00edvel determinar ou descobrir at\u00e9 que ponto as parcerias j\u00e1 foram ou ainda est\u00e3o sendo estabelecidas (a DrumWave n\u00e3o revelou em sua apresenta\u00e7\u00e3o os nomes das empresas que estariam participando do ecossistema), a ades\u00e3o de empresas de diversos setores que det\u00eam dados de 85% da popula\u00e7\u00e3o sugere um risco alt\u00edssimo (e sem precedentes) de concentra\u00e7\u00e3o de poder e eros\u00e3o da privacidade em nome de um \u201cempoderamento\u201d ilus\u00f3rio.<\/p>\n<p>Essa rede de parcerias sugere uma estrat\u00e9gia da DrumWave vir a ser a espinha dorsal de um ecossistema onde dados pessoais sens\u00edveis estar\u00e3o sob o controle de poucos atores corporativos \u2013 o que demanda uma intensa agenda de defesa de interesses N\u00e3o por acaso, seu diretor de opera\u00e7\u00f5es deve <u>participar<\/u> em Bras\u00edlia de espa\u00e7os como a audi\u00eancia p\u00fablica requerida pelo Deputado Federal Saulo Pedroso (PSD\/SP) na Comiss\u00e3o Especial sobre Intelig\u00eancia Artificial com o tema \u201cConceitos de IA no \u00e2mbito da sa\u00fade, utilizando-se de tecnologias inovadoras que protejam os dados pessoais da popula\u00e7\u00e3o em geral\u201d. E que participa\u00e7\u00e3o dos representantes parlamentares de S\u00e3o Paulo nesse tema, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1285\" height=\"671\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/55.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/55.jpg 1285w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/55-300x157.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/55-768x401.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1285px) 100vw, 1285px\"><\/figure>\n<p>Imagem: captura de tela\/<u>YouTube<\/u>, apresenta\u00e7\u00e3o \u201cDrumWave e a Plataforma dWallet\u201d sobre o roadmap do produto com a participa\u00e7\u00e3o dos colaboradores da DrumWave Patrick Hruby e e Varu Likki, no evento DWDAY 4 | MIND GRENADES, em Palo Alto, Calif\u00f3rnia (2023).<\/p>\n<h3>O discurso de \u201cpropriedade\u201d mascara um modelo onde o verdadeiro benef\u00edcio em potencial \u00e9 capturado por quem processa e agrega dados (n\u00e3o por quem os gera).<\/h3>\n<h3><strong>Entre perguntas e respostas, uma an\u00e1lise das pe\u00e7as do quebra-cabe\u00e7a \u2013 e porque \u00e9 urgente mobilizar a sociedade sobre o PLP 234\/2023 que institui a Lei Geral de Empoderamento de Dados<\/strong><\/h3>\n<p>Como vimos, o Projeto de Lei Complementar PLP 234\/2023 que institui a Lei Geral de Empoderamento de Dados visa estabelecer um ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o de dados no Brasil e institucionalizar uma economia de dados. O projeto tem o potencial de impactar a vida de milh\u00f5es de brasileiros e brasileiras; por isso, n\u00e3o pode passar batido no campo dos debates e das disputas.<\/p>\n<p>Afinal, trata-se de uma proposta de <em>ecossistema de inova\u00e7\u00e3o<\/em> que levar\u00e1 a uma mudan\u00e7a estrutural na economia. Nesse sentido, uma s\u00e9rie de preocupa\u00e7\u00f5es fundamentais sobre o texto do projeto e o desenvolvimento da infraestrutura foram levantadas pela <u>Nota T\u00e9cnica<\/u> da Estrat\u00e9gia Latino-Americana de Intelig\u00eancia Artificial (<u>ELA-IA<\/u>) em conjunto com o Laborat\u00f3rio de Pol\u00edticas P\u00fablicas e Internet (<u>LAPIN<\/u>), publicada em 28\/07\/2025.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da nota nos sites da ELA-IA e do LAPIN, e igualmente reproduzida no portal <u>Outras Palavras<\/u>, tanto o LAPIN, quanto o Outras Palavras receberam <u>r\u00e9plica<\/u> (reproduzida em v\u00e1rios outros meios) do consultor legislativo, advogado e professor colaborador da Ebape\/FGV, Sr. Luiz Alberto dos Santos, aludindo a um \u201cvi\u00e9s contr\u00e1rio \u00e0 monetiza\u00e7\u00e3o, aus\u00eancia de propostas concretas e desconsidera\u00e7\u00e3o de dispositivos do PLP que j\u00e1 tratam das preocupa\u00e7\u00f5es levantadas\u201d.<\/p>\n<p>O objetivo central da Nota T\u00e9cnica foi introduzir a necessidade de se questionar a proposta a partir de um \u201cresumo da \u00f3pera\u201d, j\u00e1 que todas as quest\u00f5es a serem debatidas n\u00e3o caberiam em um documento (e n\u00e3o ser\u00e3o trazidas aqui tamb\u00e9m, por \u00f3bvio). Como a pr\u00f3pria r\u00e9plica menciona, \u201co texto da Nota prop\u00f5e um debate p\u00fablico amplo para discutir as implica\u00e7\u00f5es do projeto, com foco em quest\u00f5es como a prote\u00e7\u00e3o da privacidade, o risco de amplifica\u00e7\u00e3o de desigualdades sociais e a possibilidade de que o PLP enfraque\u00e7a a LGPD, em vigor desde 2020\u201d. Em se tratando de um ecossistema de inova\u00e7\u00e3o com efeitos de grande escala na economia e sociedade, tal debate n\u00e3o cabe dentro de artigos e Notas T\u00e9cnicas. <strong>Por isso, refor\u00e7amos o chamado \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e instaura\u00e7\u00e3o de um Grupo de Trabalho pelo parlamento onde se possa dar o debate nas camadas e profundidade que o tema requer, inclusive por meio de mobiliza\u00e7\u00e3o social.<\/strong><\/p>\n<p>Refletir de forma cr\u00edtica e rigorosa acerca do que \u00e9 a monetiza\u00e7\u00e3o de dados como espec\u00edfica e concretamente desenhada no ecossistema brasileiro \u2013 e a partir de an\u00e1lise cuidadosa com informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas dispon\u00edveis sobre a tecnologia que serve de infraestrutura para tal \u2013 longe de ser apenas um \u201cvi\u00e9s contr\u00e1rio \u00e0 monetiza\u00e7\u00e3o\u201d, \u00e9 um exerc\u00edcio de teste do benef\u00edcio social prometido em face do monop\u00f3lio que possivelmente se desenha para uma empresa em espec\u00edfico. Entender como o sistema funcionaria em suas min\u00facias (inclusive se realmente existiria o potencial de monop\u00f3lio), analisando danos iminentes, faz parte da compreens\u00e3o de seus reais efeitos e impactos socioecon\u00f4micos, pol\u00edticos e at\u00e9 culturais. A pr\u00f3pria an\u00e1lise do texto da lei fica comprometida se n\u00e3o houver um consenso a priori do que se entende por \u201cpropriedade de dados\u201d e de como isso impacta o direito \u00e0 prote\u00e7\u00e3o de dados \u2013 estabelecido como fundamental.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que os ditos benef\u00edcios seriam gerados em uma arquitetura econ\u00f4mica que, na pr\u00e1tica, faria dos cidad\u00e3os meros fornecedores \u201cempoderados\u201d \u2013 entenda-se, precarizados! \u2013 de recursos, expondo-os a riscos de manipula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica, eros\u00e3o da transpar\u00eancia no fluxo de dados e mercantiliza\u00e7\u00e3o de mais essa dimens\u00e3o \u2013 de forma ainda pior (em impacto e escala) que os da atual economia da aten\u00e7\u00e3o projetada pelas Big Techs. Como a pr\u00f3pria <u>justificativa<\/u><sup><sup>2<\/sup><\/sup> do projeto de lei aponta:<\/p>\n<p>\u201c<strong>A possibilidade de<\/strong> um opt-out e <strong>exerc\u00edcio pleno de direito de propriedade sobre dados<\/strong> n\u00e3o \u00e9 uma unanimidade, e <strong>pode acarretar externalidades prejudiciais aos titulares de dados<\/strong>. (\u2026) <strong>trata-se de solu\u00e7\u00e3o que pode vir a ter efeitos diferenciados entre diferentes grupos de cidad\u00e3os ou consumidores, e at\u00e9 mesmo ampliar a exclus\u00e3o digital<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, prossegue o texto da justificativa do Deputado Federal Arlindo Chinaglia (PT-SP):<\/p>\n<p>\u201c<strong>entendemos que as externalidades positivas e as oportunidades de crescimento econ\u00f4mico e gera\u00e7\u00e3o de renda superam, largamente, esses potenciais efeitos<\/strong>, os quais, ademais, podem ser enfrentados por iniciativas como o Plano Nacional de Inclus\u00e3o Digital\u201d.<\/p>\n<p>Sem nenhum dado que fundamente tal afirmativa, tudo se resume a uma jogada de marketing que precisa ser questionada em suas fragilidades. \u00c9 compreens\u00edvel que muitos dos aspectos que consideramos em nossa an\u00e1lise possam ser do desconhecimento de quem nos l\u00ea. Novamente, o objetivo \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que o tema \u00e9 amplo, complexo <strong>e exige reflex\u00e3o \u00e9tico-pol\u00edtica antes de abra\u00e7ar a panaceia de um suposto milagre econ\u00f4mico.<\/strong> Isso, especialmente pensando se <strong>as externalidades positivas e as oportunidades de crescimento econ\u00f4mico e gera\u00e7\u00e3o de renda superam, largamente, esses potenciais \u00f4nus sociais, bem como se o Estado estaria em condi\u00e7\u00f5es de \u201cenfrentar\u201d tais consequ\u00eancias.<\/strong><\/p>\n<p>As inven\u00e7\u00f5es inseridas na sociedade n\u00e3o s\u00e3o neutras. Elas moldam e alteram a pr\u00f3pria sociedade que as criou, influenciando a forma como as pessoas interagem, trabalham e vivem. Nesse sentido, um ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o de dados que pode criar uma nova forma de ser-no-mundo, onde o fluxo de dados viraria uma \u201cmoeda\u201d de troca, e cujos ind\u00edcios de nossa investiga\u00e7\u00e3o apontam a um projeto sem transpar\u00eancia entre alguns setores do governo e uma empresa privada estrangeira com sede no Vale do Sil\u00edcio em pleno contexto geopol\u00edtico de n\u00edtido intervencionismo norte-americano \u00e9 um fato que por si s\u00f3 \u2013 e pela t\u00e3o proclamada <em>Soberania Digital<\/em> \u2013 <strong>merece an\u00e1lise cr\u00edtica e escrut\u00ednio p\u00fablico.<\/strong> A inten\u00e7\u00e3o aqui \u00e9, assim como o setor financeiro faz costumeiramente em an\u00e1lise de risco, apontar os riscos desta transforma\u00e7\u00e3o, as \u201c<em>red flags<\/em>\u201d \u2013 sem tamb\u00e9m achar que s\u00e3o apenas riscos.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica, para in\u00edcio de debate, n\u00e3o pode ser (ainda) propositiva. At\u00e9 mesmo porque falta-nos, enquanto pesquisadores, pe\u00e7as importantes de um quebra-cabe\u00e7a que esbarra na opacidade e termos de confidencialidade em Acordos de Coopera\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica entre o governo brasileiro \u2013 por meio das empresas SERPRO (para \u201cprova de valor\u201d, em 2022) e DATAPREV (para piloto, em 2025) \u2013 e a DrumWave.<\/p>\n<p>Ressalta-se que o <u>protocolo de inten\u00e7\u00f5es assinado com a Dataprev<\/u>, em 29\/04\/2025, visa mapear \u201ccondi\u00e7\u00f5es para eventual contrata\u00e7\u00e3o voltada ao uso da plataforma da DrumWave, possibilitando a atua\u00e7\u00e3o da Dataprev em ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o de dados\u201d. Dado que o ordenamento jur\u00eddico brasileiro ainda n\u00e3o reconhece a monetiza\u00e7\u00e3o de dados e a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica (direta e indireta) \u00e9 conduzida pelo princ\u00edpio da legalidade, importa a transpar\u00eancia sobre os termos e a operacionaliza\u00e7\u00e3o deste pacto.<\/p>\n<p>Antes de apelar ao solucionismo, precisamos retroceder, analisar e entender todos os elementos e inter-rela\u00e7\u00f5es de como esse ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o de dados foi projetado, a constru\u00e7\u00e3o e os testes de sua infraestrutura tecnol\u00f3gica, sua l\u00f3gica socioecon\u00f4mica e como seus impactos sociocognitivos e culturais se d\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, precisamos indagar: <strong>estamos diante de fato consumado?<\/strong><\/p>\n<p>A opacidade em torno desses arranjos fragiliza a capacidade de avalia\u00e7\u00e3o de seus impactos e de fiscaliza\u00e7\u00e3o. Um ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o de dados se enquadra na defini\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de <strong>ecossistema de inova\u00e7\u00e3o<\/strong><sup><strong><sup>3<\/sup><\/strong><\/sup>: uma rede heter\u00e1rquica e intencional de atores \u2013 governos, autarquias e ag\u00eancias p\u00fablicas, plataformas privadas, associa\u00e7\u00f5es setoriais, universidades, investidores, auditores independentes e a sociedade civil \u2013 que, por meio de plataformas e padr\u00f5es compartilhados, co-criam e apropri\u00adam valor. Ora, se este ecossistema \u00e9 uma rede hier\u00e1rquica, \u00e9 importante analisar quem o est\u00e1 estruturando, j\u00e1 que hierarquia implica rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p>Como pesquisadores, revisamos as patentes da DrumWave. Para al\u00e9m da problem\u00e1tica dos acordos de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica permitirem, desde 2022, que uma tecnologia patenteada nos EUA seja potencialmente testada em ambiente p\u00fablico no Brasil sem nenhuma supervis\u00e3o direta, e com uma escala que nenhuma empresa privada conseguiria testar em fase de desenvolvimento de produto\/solu\u00e7\u00e3o sem gastar milhares, e at\u00e9 milh\u00f5es de d\u00f3lares, a revis\u00e3o das patentes encontra forte correspond\u00eancia com o texto da legisla\u00e7\u00e3o proposta. N\u00e3o deixa de ser compreens\u00edvel, j\u00e1 que a tecnologia da DrumWave parece subsidiar fortemente o desenho do ecossistema e h\u00e1 in\u00fameros registros p\u00fablicos de <u>eventos<\/u> com a participa\u00e7\u00e3o de servidores da Dataprev e do Banco Central do Brasil \u2013 inclusive na figura de ex-presidentes da autarquia \u2013 inclusive promovendo as solu\u00e7\u00f5es da empresa. Por\u00e9m, como correla\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica causalidade, entendemos que isso \u00e9 uma quest\u00e3o a ser tratada de forma cuidadosa, criteriosa e com total transpar\u00eancia no \u00e2mbito do Grupo de Trabalho.<\/p>\n<p>A tecnologia descrita nas patentes p\u00fablicas da DrumWave, e registradas no <u>USPTO<\/u>, <em>United States Patent and Trademark Office<\/em>, revelam mecanismos de <em>scoring<\/em> e <em>valuation<\/em>, carteira digital, APIs de oferta\/exchange, e representam o complemento t\u00e9cnico que, se adotado como padr\u00e3o, passa a configurar a infraestrutura, o conhecimento codificado e os princ\u00edpios arquitet\u00f4nicos do ecossistema. Em uma rede hier\u00e1rquica como a de um ecossistema de inova\u00e7\u00e3o, o agente econ\u00f4mico que estabelece a tecnologia adotada por todos os outros captura a maior parte dos benef\u00edcios econ\u00f4micos na intera\u00e7\u00e3o com outros agentes. Trata-se de um fen\u00f4meno econ\u00f4mico e social onde o vencedor leva tudo (\u201cwinner takes all\u201d). Quem define os padr\u00f5es tecnol\u00f3gicos passa a ter poder de monop\u00f3lio sobre o ecossistema.<\/p>\n<p>Ressalta-se que o Art. 36 do PLP234\/2023 menciona que \u201cas institui\u00e7\u00f5es participantes devem celebrar conven\u00e7\u00e3o, com observ\u00e2ncia das disposi\u00e7\u00f5es desta Lei, sobre aspectos relativos: I- aos padr\u00f5es tecnol\u00f3gicos e aos procedimentos operacionais; II- \u00e0 padroniza\u00e7\u00e3o do leiaute dos dados e servi\u00e7os; entre outros\u201d. Por\u00e9m, o risco de que o Art. 36, ao remeter a defini\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es tecnol\u00f3gicos para uma conven\u00e7\u00e3o em um clube fechado \u201centre participantes\u201d (similar ao do Open Finance Brasil), funcione apenas como uma cl\u00e1usula de cobertura para padr\u00f5es j\u00e1 definidos em tecnologia patenteada nos EUA, est\u00e1, pelos fatos que emergem de nossa investiga\u00e7\u00e3o, latente.<\/p>\n<p>Sob a perspectiva do <strong>design ecossist\u00eamico<\/strong> e do <strong>direito regulat\u00f3rio<\/strong>, a configura\u00e7\u00e3o descrita imp\u00f5e exig\u00eancias jur\u00eddicas e de governan\u00e7a muito concretas. Ecossistemas de inova\u00e7\u00e3o gerenciam riscos de iniciativa, interdepend\u00eancia e integra\u00e7\u00e3o. Quando os componentes cr\u00edticos (algoritmos de valora\u00e7\u00e3o, reposit\u00f3rios de consentimento, liquida\u00e7\u00e3o e hospedagem) s\u00e3o concentrados ou padronizados por um ator (estrangeiro!) com vantagem t\u00e9cnica e de infraestrutura, aumentam sobremaneira os riscos de captura normativa, eros\u00e3o do controle social e deslocamento distributivo do valor p\u00fablico para operadores privados \u2013 como vimos que j\u00e1 ocorre em algumas dimens\u00f5es no Open Finance Brasil com o qual o ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o de dados est\u00e1 vinculado em termos de atores e tecnologia.<\/p>\n<p>E isso n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia. Como vimos, o Open Finance, al\u00e9m de estar restrito aos dados financeiros (bancos, seguros e investimentos), precisa estar em conformidade com a LGPD. Apesar de se configurar como um ecossistema, a LGPD o impede de quebrar os silos de dados em escala \u2013 algo que a chamada \u201cpropriedade de dados\u201d foi desenhada para fazer atrav\u00e9s do PLP234\/2023, de modo que se chegue, como explicado anteriormente, \u00e0 pr\u00f3xima etapa de implementa\u00e7\u00e3o desse ecossistema de inova\u00e7\u00e3o: o Open X, onde o pr\u00f3prio titular e pseudo-propriet\u00e1rio de dados poder\u00e1 permitir o compartilhamento de dados entre o setor p\u00fablico e o setor privado.<\/p>\n<p>Mas de que dados o PLP 234\/2023 fala especificamente? A \u201cLei Open X\u201d cria uma nova categoria jur\u00eddica chamada \u201cdados pessoais abertos\u201d, que vai muito al\u00e9m do que o p\u00fablico em geral entende como simples \u201cinforma\u00e7\u00f5es cadastrais\u201d. Pelo texto<sup><sup>4<\/sup><\/sup>, esse conceito inclui n\u00e3o s\u00f3 nome, endere\u00e7o, CPF, t\u00edtulo de eleitor e identificadores on-line, mas tamb\u00e9m hist\u00f3rico de compras, geolocaliza\u00e7\u00e3o, dados de navega\u00e7\u00e3o na internet, registros de voz e imagem, informa\u00e7\u00f5es biom\u00e9tricas e at\u00e9 infer\u00eancias sobre comportamento, prefer\u00eancias e capacidades cognitivas. Em outras palavras, qualquer dado que possa ser razoavelmente associado a uma pessoa ou a seu n\u00facleo familiar, inclusive os gerados por dispositivos dom\u00e9sticos ou veiculares conectados \u00e0 internet, passa a ser considerado \u201caberto\u201d para fins de compartilhamento dentro de um ecossistema de monetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O artigo 8\u00ba amplia ainda mais esse alcance ao prever que o Ecossistema Brasileiro de Monetiza\u00e7\u00e3o de Dados poder\u00e1 incluir, no m\u00ednimo, esses \u201cdados pessoais abertos\u201d, registros de consumo e transa\u00e7\u00f5es comerciais, informa\u00e7\u00f5es financeiras e at\u00e9 dados sens\u00edveis \u2014 desde que anonimizados ou pseudonimizados; o que n\u00e3o os impede de serem reidentificados atrav\u00e9s da grande combina\u00e7\u00e3o de dados dentro do ecossistema. A lei permite ainda que, por acordo entre institui\u00e7\u00f5es participantes, novos tipos de dados sejam acrescentados. Isso significa que praticamente toda a vida digital e f\u00edsica de uma pessoa, do hist\u00f3rico m\u00e9dico ao padr\u00e3o de deslocamento di\u00e1rio, pode entrar em um mercado de dados interconectado entre governo, bancos, seguradoras e empresas privadas, transformando em ativo econ\u00f4mico o que antes era protegido como esfera \u00edntima. Cabe ressaltar que nenhuma Big Tech tem acesso ao volume e \u00e0 qualidade de dados que a Lei Open X permitir\u00e1 desbloquear.<\/p>\n<p>O cruzamento do PLP234\/2023 com a LGPD cria brechas cr\u00edticas: ao permitir, por exemplo, a inclus\u00e3o de novos conjuntos de dados por conven\u00e7\u00f5es privadas (Art. 8\u00ba, \u00a71\u00ba, PLP234), o processamento de dado apoiado na al\u00ednea \u201cg\u201d do inciso II ao Art. 11 da LGPD (\u201cpreven\u00e7\u00e3o de fraude e seguran\u00e7a\u201d) abre um canal pelo qual qualquer dado \u2013 por mais sens\u00edvel que seja \u2013 pode ser coletado sem a necessidade de consentimento expl\u00edcito como base legal. Trata-se de uma cadeia de falsas garantias (consentimento, anonimiza\u00e7\u00e3o e ciberseguran\u00e7a) que, na pr\u00e1tica, legitima um vale-tudo: basta alegar preven\u00e7\u00e3o de fraude, triangular dados financeiros, de consumo e comportamentais, e o resultado s\u00e3o infer\u00eancias de alto valor econ\u00f4mico e risco social, totalmente fora do alcance do titular e da prote\u00e7\u00e3o efetiva da LGPD.<\/p>\n<p>O otimismo dos apoiadores do PLP 234\/2023 sustenta que esse projeto fortaleceria uma <em>soberania de dados<\/em> do Brasil devido ao pioneirismo na implementa\u00e7\u00e3o. Contudo, uma an\u00e1lise ainda que breve do ecossistema sendo desenhado em conjunto com a Drumwave aponta quest\u00f5es aos que se entende por soberania nesse contexto \u2013 revelando, em verdade, quest\u00f5es pol\u00edticas sens\u00edveis.<\/p>\n<p>A <u>International Data Reserve<\/u> (IDR) \u00e9 uma entidade da qual a DrumWave aparenta ser membro-fundadora<sup><sup>5<\/sup><\/sup> e que atua para criar a confian\u00e7a sist\u00eamica e a interoperabilidade necess\u00e1rias para que os dados se tornem uma classe de ativo leg\u00edtima e l\u00edquida; sendo central para o funcionamento do ecossistema de dados. O fato da entidade estar constitu\u00edda, segundo seu site, como uma <u>DAO<\/u> (Organiza\u00e7\u00e3o Aut\u00f4noma Descentralizada) sediada na Su\u00ed\u00e7a, representa um deslocamento de poder fundamental. Como parte de sua investiga\u00e7\u00e3o e pesquisa sobre o tema, a ELA-IA, atrav\u00e9s da p\u00e1gina da International Data Reserve, solicitou informa\u00e7\u00f5es sobre como se tornar membro da organiza\u00e7\u00e3o como um ator vinculado ao mundo acad\u00eamico, mas n\u00e3o recebeu resposta at\u00e9 a finaliza\u00e7\u00e3o deste artigo.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica da economia de dados \u00e9 a de que os dados s\u00e3o subutilizados por estarem \u201cparados\u201d em silos, sem serem combinados e recombinados em escala para gerar valor. Nesse sentido, o IDR precisa incentivar a \u201cPoupan\u00e7a de Dados\u201d: assim como um banco incentiva a poupan\u00e7a monet\u00e1ria, o \u00f3rg\u00e3o criaria pol\u00edticas para que indiv\u00edduos e empresas vejam seus dados como um ativo que pode ser \u201cdepositado\u201d, valorizado e depois \u201cresgatado\u201d ou negociado. Ao padronizar a valora\u00e7\u00e3o e a troca, facilita-se a economia de dados.<\/p>\n<p><strong>O pa\u00eds adotante arrisca ceder o controle sobre sua pol\u00edtica de dados, uma vez que os padr\u00f5es t\u00e9cnicos e regulat\u00f3rios que governar\u00e3o a valora\u00e7\u00e3o, o interc\u00e2mbio e a monetiza\u00e7\u00e3o de dados forem definidos por uma entidade extraterritorial, aut\u00f4noma e descentralizada<\/strong>.<\/p>\n<p>Ainda, a DrumWave, ao criar tanto a tecnologia quanto o \u00f3rg\u00e3o de padr\u00f5es, estaria posicionada de forma \u00fanica para liderar e definir as regras de toda uma nova economia que ela exportaria a outros pa\u00edses! Isso vai muito al\u00e9m de vender uma ferramenta de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que \u201cajude\u201d o governo com seu projeto de Estado-plataforma, segundo a lei de Governo Digital.<\/p>\n<p>A \u201cpropriedade de dados\u201d que o PLP tenta instituir seria, em sua ess\u00eancia, uma <strong>pseudo-propriedade:<\/strong> uma vez que o usu\u00e1rio n\u00e3o queira mais monetizar seus dados, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pedir uma \u201creintegra\u00e7\u00e3o de posse\u201d dos dados, pois ele continuar\u00e1 compondo an\u00e1lises agregadas devido ao fato de que as an\u00e1lises tamb\u00e9m levam em conta n\u00e3o apenas os dados, mas an\u00e1lises anteriores feitas sobre os dados. Al\u00e9m disso, diversos <u>estudos e documentos<\/u> evidenciam que o valor atribu\u00eddo aos dados brutos \u00e9 \u00ednfimo, frequentemente avaliado em menos de um d\u00f3lar por indiv\u00edduo. O verdadeiro potencial econ\u00f4mico dos dados, como qualquer empresa de tecnologia sabe, n\u00e3o reside em sua forma bruta, mas sim na \u201crefinaria\u201d: no processamento, an\u00e1lise sofisticada e combina\u00e7\u00e3o de vastos volumes de dados para gerar insights preditivos, padr\u00f5es de comportamento e intelig\u00eancia de mercado.<\/p>\n<p>Em outras palavras, a <strong>pseudo-propriedade<\/strong> permite ao cidad\u00e3o licenciar o uso de seus dados que entram na base da pir\u00e2mide abaixo. Dali, seus dados passam a ser combinados e refinados pelos operadores do ecossistema, se transformando em modelos de propriedade das empresas que os refinam e vendem a pre\u00e7o de ouro na bolsa de valores IDR.<\/p>\n<p>Um mesmo dado pode ser reutilizado em incont\u00e1veis combina\u00e7\u00f5es para infinitos usos \u2013 e, como tudo nesse neg\u00f3cio opaco de uma economia de dados sendo vendida como a mais nova panaceia da era digital, n\u00e3o est\u00e1 claro se a reutiliza\u00e7\u00e3o <em>ad infinitum<\/em> de um dado licenciado ser\u00e1 apropriadamente remunerada ao gerador do valioso insumo.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"809\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/66.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/66-1500x809.png 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/66-300x162.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/66-768x414.png 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/66-1536x828.png 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/66.png 1690w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<p>Vale ressaltar que, segundo Wang Jiandong, vice-diretor e pesquisador do Centro de Monitoramento de Pre\u00e7os da Comiss\u00e3o Nacional de Desenvolvimento e Reforma (<u>publicado<\/u> em Teoria e Pr\u00e1tica de Pre\u00e7os, Edi\u00e7\u00e3o 3, 2023), no modelo chin\u00eas, \u201ca valoriza\u00e7\u00e3o dos dados pode ser comparada ao \u2018refino do petr\u00f3leo\u2019. Ap\u00f3s o min\u00e9rio de petr\u00f3leo ser extra\u00eddo do subsolo, ele \u00e9 transformado, por um enorme sistema de refinarias, em combust\u00edveis e mat\u00e9rias-primas qu\u00edmicas adequadas a diferentes finalidades, de modo a maximizar o seu valor. O mesmo se aplica aos dados: eles cont\u00eam leis e mecanismos de funcionamento econ\u00f4mico e social, do macro ao micro, e t\u00eam potencial de valor alt\u00edssimo; por\u00e9m, os dados em si n\u00e3o geram valor diretamente e, em geral, precisam ser combinados com cen\u00e1rios de neg\u00f3cio espec\u00edficos para que esse potencial se concretize, por meio do aumento de efici\u00eancia, da redu\u00e7\u00e3o de custos e da amplia\u00e7\u00e3o de receitas pelos agentes de mercado. Por isso, a precifica\u00e7\u00e3o no n\u00edvel da transforma\u00e7\u00e3o dos dados em ativos refere-se ao pre\u00e7o de produtos de dados profundamente processados, gerados a partir de recursos de dados, sendo adequada a ado\u00e7\u00e3o de um modelo de partilha de receitas.\u201d<\/p>\n<p>O modelo proposto pelo PLP 234\/2023 legitimaria a venda dessa \u201cmat\u00e9ria-prima\u201d barata diretamente pelos indiv\u00edduos. Aqui entra a infraestrutura tecnol\u00f3gica da DrumWave que fornece um modelo onde os dados pessoais n\u00e3o s\u00e3o vendidos no sentido tradicional. Na verdade, ela configura um sofisticado <u>sistema de poupan\u00e7a e capitaliza\u00e7\u00e3o de dados<\/u>, semelhante a um sistema financeiro.<\/p>\n<p>Ao observar o modelo t\u00e9cnico e de governan\u00e7a revelado no whitepaper DrumWave \/ International Data Reserve, nota-se que <strong>o cidad\u00e3o pseudo-propriet\u00e1rio de dados<\/strong> teria acesso a rendas marginais (estimadas inicialmente em US$50 mensais no texto da justificativa do projeto, redigido entre 2022 e 2023), enquanto o valor estrutural seria apropriado por quem det\u00e9m a <strong>infraestrutura de armazenamento e processamento<\/strong>; os <strong>algoritmos de transforma\u00e7\u00e3o de dados<\/strong>, e a <strong>interoperabilidade normativa<\/strong> (padr\u00f5es t\u00e9cnicos e legais que definem a circula\u00e7\u00e3o dos dados).<\/p>\n<p>Detalhe: o projeto de lei, como vimos no exemplo de Brett King sobre a venda de DNA de crian\u00e7as, permite a monetiza\u00e7\u00e3o de dados desde o nascimento \u2013 o que cria incentivos para <strong>explora\u00e7\u00e3o de dados infantis<\/strong> por motivos econ\u00f4micos, contrariando o esp\u00edrito protetivo da LGPD e tratados internacionais de direitos de crian\u00e7as e adolescentes. O design ontol\u00f3gico desse sistema coloca o menor como um \u201csujeito-dado\u201d antes mesmo de ser um sujeito de direitos plenos. Assim, a identidade digital nasce atrelada ao valor de mercado, transformando tamb\u00e9m a inf\u00e2ncia em mais um ativo na economia de dados.<\/p>\n<p>Como diz a <u>apresenta\u00e7\u00e3o<\/u> em evento ocorrido em 2023 na sede da DrumWave, em Palo Alto, \u201c<em>A Aposentadoria Come\u00e7a no Nascimento<\/em>\u201c, da qual participou Rodrigo Assump\u00e7\u00e3o, diretor da Dataprev: <strong>um rec\u00e9m-nascido gera 9 gigabytes de dados de imenso interesse e valor para pesquisa, sa\u00fade e com\u00e9rcio<\/strong>.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1281\" height=\"676\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/77.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/77.png 1281w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/77-300x158.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/77-768x405.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1281px) 100vw, 1281px\"><\/figure>\n<p>Imagem: captura de tela\/<u>YouTube<\/u>, apresenta\u00e7\u00e3o \u201cA Aposentadoria Come\u00e7a no Nascimento\u201d com a participa\u00e7\u00e3o do Presidente da Dataprev, Rodrigo Assump\u00e7\u00e3o, no evento DWDAY 4 | MIND GRENADES, em Palo Alto, Calif\u00f3rnia. A viagem do servidor foi autorizada segundo processo n\u00ba <u>14021.188669 \/ 2023-85<\/u>.<\/p>\n<p>O futurista Michael Clark apresenta o conceito como revolucion\u00e1rio: o nascimento n\u00e3o \u00e9 apenas um marco biol\u00f3gico, mas o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o de um patrim\u00f4nio digital. Refere-se \u00e0 primeira hora de vida de um beb\u00ea, conhecida como \u201ca hora de ouro\u201d, como uma fonte massiva de gera\u00e7\u00e3o de dados.<\/p>\n<p>\u201cA crian\u00e7a, nessa primeira hora, criar\u00e1 nove gigabytes de dados\u201d, afirma. \u201cSe voc\u00ea quer saber (\u2026) isso (\u2026) equivale a 24.000 p\u00e1ginas de conte\u00fado de websites\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o entusiasta da poupan\u00e7a de dados, se esses dados fossem investidos desde a primeira hora de vida \u2013 e somados a poss\u00edveis dados herdados dos av\u00f3s, que se valorizariam com o tempo \u2013, criaria um efeito de juros compostos em uma \u201ccarteira de poupan\u00e7a de dados\u201d para a crian\u00e7a. E conclui que ag\u00eancias de pesquisa poderiam ter interesse nesses dados de sa\u00fade e at\u00e9 mesmo nas emo\u00e7\u00f5es dos pais, oferecendo valor em troca.<\/p>\n<p>Clark amplia a perspectiva ao citar que uma pessoa, ao longo de 73 anos de vida, geraria cerca de seis milh\u00f5es de gigabytes de dados. \u201cN\u00e3o podemos perder de vista que a quantidade de dados que criamos s\u00f3 vai aumentar\u201d, conclui, defendendo que, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a humanidade tem a oportunidade de armazenar, possuir e gerar renda a partir desse ativo pessoal.<\/p>\n<p>Pausa para respirar: se estamos falando de dados de menores de idade, devemos nos perguntar a quem beneficiam. E j\u00e1 sabemos a resposta. O resultado pr\u00e1tico \u00e9 que qualquer pessoa pode virar fornecedora atomizada de recursos, compar\u00e1vel a um minerador artesanal diante de uma petroleira multinacional: possui o \u201cpo\u00e7o\u201d de dados, mas n\u00e3o os meios t\u00e9cnicos de refino nem poder de barganha real.<\/p>\n<p>Dessa forma, a assimetria de poder de barganha, que j\u00e1 \u00e9 um problema cr\u00f4nico no ecossistema digital atual que tanto criticamos das Big Techs, n\u00e3o seria corrigida; ao contr\u00e1rio, ela seria formalizada e perpetuada sob a \u00e9gide de um novo contrato de ades\u00e3o, no qual o indiv\u00edduo permanece como o elo mais fraco. O que se vende como um \u201cdireito\u201d poderia, na realidade, ser uma armadilha. Nesse sentido, poder\u00edamos dizer que o ecossistema para essa pessoa, (n\u00f3s e voc\u00eas), \u00e9 o de <strong>monetiza\u00e7\u00e3o de migalhas<\/strong>.<\/p>\n<p>A narrativa da propriedade de dados n\u00e3o pode ser dissociada dos impactos da economia da inten\u00e7\u00e3o (<u>Chaudhary &amp; Penn, Cambridge, 2023<\/u>), que representa a evolu\u00e7\u00e3o da economia da aten\u00e7\u00e3o para um modelo em que os dados n\u00e3o apenas capturam o olhar, mas tentam antecipar e moldar desejos, inten\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es humanas. Nesse cen\u00e1rio, os dados \u201cmonetizados\u201d poderiam ser utilizados para influenciar, com precis\u00e3o cir\u00fargica, processos eleitorais (a desinforma\u00e7\u00e3o poder\u00e1 se tornar personalizada); escolhas de consumo e acesso a cr\u00e9dito; aloca\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os essenciais, como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pergunta que emerge de nossa investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 se <strong>o objetivo do ecossistema seria o de \u201cempoderar pessoas\u201d ou capitalizar a partir de rearranjos pol\u00edticos abertos pela conjuntura, criando um \u201cnovo\u201d sistema financeiro baseado em dados?<\/strong><\/p>\n<p>Isso j\u00e1 foi tentado pelas grandes empresas de tecnologia, mas n\u00e3o obtiveram \u00eaxito porque talvez seja mais f\u00e1cil digitalizar as finan\u00e7as via setor banc\u00e1rio do que financeirizar os dados via setor de telecomunica\u00e7\u00f5es; afinal, express\u00f5es monet\u00e1rias j\u00e1 foram transmutadas em bits pelos bancos centrais e grandes bancos privados. A consequ\u00eancia desse casamento das empresas de tecnologia de telecomunica\u00e7\u00f5es com empresas financeiras pode ser o nascimento de Omni-Techs, acentuando ainda mais os desequil\u00edbrios e desigualdades do setor e intermediando toda a economia financeirizada baseada em sistemas de informa\u00e7\u00e3o automatizados.<\/p>\n<p>A \u201cexternalidade positiva\u201d de renda individual pode esconder um ciclo de <strong>depend\u00eancia e eros\u00e3o participativa<\/strong>. A redu\u00e7\u00e3o da opacidade de como este processo est\u00e1 sendo conduzido \u00e9 fundamental. Antes de propor solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas ou regulat\u00f3rias detalhadas, \u00e9 imperativo que se discuta os aspectos de valor filos\u00f3fico e pol\u00edtico intr\u00ednsecos ao projeto.<\/p>\n<p>Ao projetar um ecossistema onde a \u201cparticipa\u00e7\u00e3o\u201d na sociedade digital estaria atrelada \u00e0 monetiza\u00e7\u00e3o de \u201csi mesmo\u201d, desenha-se um novo tipo de incentivo \u00e0 autoexplora\u00e7\u00e3o. Mais uma modalidade de pseudo-propriet\u00e1rio \u201cempreendendo\u201d para pagar as contas ou complementar renda. E se houver renda, porque n\u00e3o h\u00e1 garantias.<\/p>\n<p>Antes da certid\u00e3o de nascimento, os pais de um rec\u00e9m-nascido estariam fazendo sua carteira digital para depositar 9 gigabytes em sua poupan\u00e7a de dados? Ao recorrer o corpo de um parente falecido em um hospital, estariam os familiares verificando o saldo dos gigabytes que sua morte gerou em dados?<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1337\" height=\"683\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/88.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/88.png 1337w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/88-300x153.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/88-768x392.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1337px) 100vw, 1337px\"><\/figure>\n<p>Imagem: captura de tela\/<u>YouTube<\/u>, publicidade \u201cCrie sua pr\u00f3pria moeda\u201d, DrumWave (2022), cuja premissa central \u00e9 que a liberdade m\u00e1xima \u00e9 alcan\u00e7ada quando toda experi\u00eancia humana \u2013 come\u00e7ando pelo nascimento \u2013 \u00e9 transformada em dados transacion\u00e1veis, tornando o pr\u00f3prio sujeito uma plataforma de neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>O argumento dos defensores do projeto de que o cidad\u00e3o tem a liberdade de consentir ou n\u00e3o \u00e9 bastante question\u00e1vel na medida em que estruturar a economia ao redor da monetiza\u00e7\u00e3o de dados n\u00e3o deixar\u00e1 muita escolha ao cidad\u00e3o comum \u2013 assim como, hoje, na economia digital, ningu\u00e9m pode escolher n\u00e3o usar suas ferramentas e estruturas sem ser exclu\u00eddo da vida social. Melhor dizendo, sim, algumas pessoas t\u00eam essa escolha: os bilion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O coment\u00e1rio ir\u00f4nico de um usu\u00e1rio no Instagram em <u>postagem<\/u> da dw.brasil sobre a not\u00edcia do projeto DrumWave-Dataprev ilustra a necess\u00e1ria reflex\u00e3o ontol\u00f3gica de forma ainda mais enf\u00e1tica: \u201cVenda a imagem do seu rosto, da sua \u00edris, das suas digitais, venda o seu sangue, seus \u00f3vulos, seu s\u00eamen, seus rins, seu f\u00edgado, venda sequ\u00eancias do seu DNA. Quando poderei vender a minha alma?\u201d.<\/p>\n<p>Essas discuss\u00f5es n\u00e3o podem ser resolvidas apenas por conven\u00e7\u00f5es ou interesses de um setor privado com a ben\u00e7\u00e3o do governo, por mais inovador que se apresente. Em um primeiro momento, parece se tratar menos de uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica emancipat\u00f3ria (uma de tantas outras, da uberiza\u00e7\u00e3o aos influencers) e mais de uma institucionaliza\u00e7\u00e3o jur\u00eddica de assimetrias tecnol\u00f3gicas j\u00e1 em curso \u2013 com riscos de captura da agenda p\u00fablica por interesses privados espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Enquanto a narrativa convergente do sistema financeiro com o governo aponta para um inimigo em comum (as Big Techs), desvia-se a aten\u00e7\u00e3o do silencioso avan\u00e7o de um projeto que, na pr\u00e1tica, implementar\u00e1 uma vers\u00e3o ainda mais radical da financeiriza\u00e7\u00e3o da vida, e sob a \u00e9gide estatal.<\/p>\n<h3><strong>Em suma<\/strong><\/h3>\n<p>Ecoando a cr\u00edtica de Morozov, a ascens\u00e3o da <u>economia de dados<\/u> coloca em xeque a pr\u00f3pria trama da pol\u00edtica representativa: quando os dados e os algoritmos passam a orientar decis\u00f5es por efici\u00eancia, a legitima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 desabonada pela regula\u00e7\u00e3o \u201ct\u00e9cnica\u201d, e de conhecimento de poucos. H\u00e1 uma d\u00e9cada <u>relat\u00f3rios<\/u> como o <em>Device democracy \u2013 Saving the future of the Internet of Things<\/em> escrito pelo IBM Institute for Business Value anunciavam a inten\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de \u201cliquefazer\u201d \u00e1reas da vida antes inacess\u00edveis ao capital, transformando rotinas, espa\u00e7os e corpos em fluxos continuamente monetiz\u00e1veis. Direcionamento absorvido pelo PLP234\/2023, ressalta-se que o projeto cria a propriedade de dados aplic\u00e1vel a dados de IoT. Nesse quadro, a efici\u00eancia torna-se crit\u00e9rio \u00faltimo: princ\u00edpios \u00e9ticos, processos democr\u00e1ticos e prote\u00e7\u00e3o aos dados ou viram obst\u00e1culos de fric\u00e7\u00e3o a serem reduzidos em nome da produtividade e da rentabilidade ou s\u00e3o objeto de adequa\u00e7\u00e3o narrativa.<\/p>\n<p>Ao cruzar essa economia de dados sendo desenhada entre a Calif\u00f3rnia e Bras\u00edlia com a met\u00e1fora de Zygmunt Bauman da modernidade l\u00edquida, a liquefa\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica aparece n\u00e3o s\u00f3 como extrativismo material (mais sensores, mais datacenters, mais consumo de recurso), mas tamb\u00e9m como dissolu\u00e7\u00e3o da solidez dos la\u00e7os sociais e das identidades pol\u00edticas.<\/p>\n<p>As <u>frases<\/u> p\u00fablicas de atores como Santiago Ortiz, diretor de dados e cofundador da DrumWave, em que afirma n\u00e3o se tratar de \u201c<strong>como preparamos as m\u00e1quinas para substitu\u00edrem humanos, mas como preparamos humanos para serem substitu\u00eddos por m\u00e1quinas<\/strong>\u201d, revelam uma ambi\u00e7\u00e3o conceitual: tratar o humano como insumo otimiz\u00e1vel. Essa vis\u00e3o casa com <u>correntes ideol\u00f3gicas do Vale do Sil\u00edcio<\/u> que compartilham uma vis\u00e3o de futuro centrada no avan\u00e7o tecnol\u00f3gico radical, defendendo a transforma\u00e7\u00e3o da humanidade por meio de, entre outras coisas, uma intelig\u00eancia artificial superpoderosa e a maximiza\u00e7\u00e3o do progresso cient\u00edfico e econ\u00f4mico, \u201cresultando em sistemas que prejudicam grupos marginalizados e centralizam o poder, ao mesmo tempo em que usam a linguagem de \u201cseguran\u00e7a\u201d e \u201cbenef\u00edcio da humanidade\u201d para fugir da responsabiliza\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 como bem apontam Timnit Gebru e \u00c9mile P. Torres. O efeito conjunto \u00e9 inquietante: pessoas vistas como vetores de dados e processos pol\u00edticos reduzidos a otimiza\u00e7\u00e3o de m\u00e9tricas por meio da engenharia de efici\u00eancia \u2013 quest\u00f5es que permanecem abertas e urgentes de problematizar.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximo passo: formar um grupo de trabalho e, refor\u00e7ando o tom \u201calarmista\u201d, antes que seja tarde demais.<\/p>\n<h4> Tabela por categoria de risco: o que \u00e9, quem \u00e9 afetado, o mecanismo pelo qual ocorre<\/h4>\n<figure>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><strong>Categoria<\/strong><\/td>\n<td><strong>Risco<\/strong><\/td>\n<td><strong>O que \u00e9 \/ como funciona<\/strong><\/td>\n<td><strong>Impacto social<\/strong><\/td>\n<td><strong>Por que ocorre \/ mecanismo<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Pol\u00edtico \/ Soberania<\/strong><\/td>\n<td>Vigil\u00e2ncia universal p\u00fablico- privada<\/td>\n<td>Combina\u00e7\u00e3o em tempo real de bases governamentais e privadas gera monitoramento amplo de consumo, localiza\u00e7\u00e3o e comportamentos.<\/td>\n<td>Perda de privacidade em massa; poder de controle sobre dissid\u00eancia e mobiliza\u00e7\u00f5es; enfraquecimento da democracia.<\/td>\n<td>PLP234 + arquitetura patenteada (DrumWave\/IDR) + integra\u00e7\u00e3o de SERPRO\/Dataprev + falta de padr\u00f5es t\u00e9cnicos p\u00fablicos.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Pol\u00edtico \/ Soberania<\/strong><\/td>\n<td>Depend\u00eancia tecnol\u00f3gica externa<\/td>\n<td>Componentes cr\u00edticos (nuvem, padr\u00f5es, patentes) controlados por empresas estrangeiras.<\/td>\n<td>Vulnerabilidade a san\u00e7\u00f5es, exig\u00eancias de governos estrangeiros, perda de autonomia operacional.<\/td>\n<td>Patentes \/ infraestrutura estrangeira (ex.: AWS, fornecedores de interoperabilidade, IDR).<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Pol\u00edtico \/ Soberania<\/strong><\/td>\n<td>Cr\u00e9dito social e controle de acesso<\/td>\n<td>Pontua\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica usada para restringir acesso a servi\u00e7os p\u00fablicos\/privados.<\/td>\n<td>Restri\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios, discrimina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, exclus\u00e3o social.<\/td>\n<td>Uso indiscriminado de infer\u00eancias e indicadores como crit\u00e9rios administrativos; PLP234\/2023: falta de defini\u00e7\u00f5es de limites legais.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Econ\u00f4mico<\/strong><\/td>\n<td>Monop\u00f3lio da infraestrutura de liquida\u00e7\u00e3o<\/td>\n<td>Entidade central controla pre\u00e7os, tarifas e regras de mercado dos dados.<\/td>\n<td>Tarifas elevadas, barreiras a concorrentes, captura da maior parte do valor econ\u00f4mico.<\/td>\n<td>IDR\/Cloud Interchange como c\u00e2mara de compensa\u00e7\u00e3o; efeitos de rede e padr\u00f5es propriet\u00e1rios.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Econ\u00f4mico<\/strong><\/td>\n<td>Hiperpersonali- za\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os<\/td>\n<td>Bancos\/seguros cobram valores distintos por indiv\u00edduo com base em scores algor\u00edtmicos.<\/td>\n<td>Aumento da desigualdade; pessoas \u201cde menor valor\u201d pagam mais por servi\u00e7os essenciais.<\/td>\n<td>Modelos de valora\u00e7\u00e3o em tempo real (algoritmo dScore), uso massivo de comportamentos e hist\u00f3ricos.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Econ\u00f4mico<\/strong><\/td>\n<td>Exclus\u00e3o econ\u00f4mica<\/td>\n<td>Perfis \u201carriscados\u201d ficam sem acesso a cr\u00e9dito, seguros ou servi\u00e7os.<\/td>\n<td>Marginaliza\u00e7\u00e3o de grupos vulner\u00e1veis; amplia\u00e7\u00e3o da economia paralela.<\/td>\n<td>Reprecifica\u00e7\u00e3o e recusa autom\u00e1tica por modelos preditivos; falta de alternativas p\u00fablicas.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Social<\/strong><\/td>\n<td>Apartheid de privacidade<\/td>\n<td>Ricos compram privacidade; pobres vendem dados para acesso a bens\/servi\u00e7os.<\/td>\n<td>Segrega\u00e7\u00e3o social baseada em capacidade de proteger dados; estigmatiza\u00e7\u00e3o.<\/td>\n<td>Monetiza\u00e7\u00e3o de dados + pagamentos\/benef\u00edcios condicionados \u00e0 cess\u00e3o de dados.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Social<\/strong><\/td>\n<td>Manipula\u00e7\u00e3o comportamental em massa<\/td>\n<td>IA personaliza mensagens e ofertas para influenciar decis\u00f5es individuais e coletivas.<\/td>\n<td>Eros\u00e3o da autonomia, interfer\u00eancia em elei\u00e7\u00f5es, polariza\u00e7\u00e3o e perda de diversidade de escolha.<\/td>\n<td>Economia da inten\u00e7\u00e3o + modelos preditivos vendidos a anunciantes e atores pol\u00edticos.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Social \/ \u00c9tico<\/strong><\/td>\n<td>Redu\u00e7\u00e3o da dignidade humana a valor econ\u00f4mico<\/td>\n<td>Pessoas tratadas como \u201cportf\u00f3lios de dados\u201d otimiz\u00e1veis.<\/td>\n<td>Desumaniza\u00e7\u00e3o; perda de direitos de personalidade; mudan\u00e7a de status c\u00edvico.<\/td>\n<td>Legaliza\u00e7\u00e3o da monetiza\u00e7\u00e3o de perfis e reconhecimento econ\u00f4mico de infer\u00eancias.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Cibern\u00e9tico<\/strong><\/td>\n<td>Alvo \u00fanico massivo para ataques<\/td>\n<td>Centraliza\u00e7\u00e3o e interoperabilidade aumentam superf\u00edcie de ataque.<\/td>\n<td>Vazamento massivo de dados sens\u00edveis; fraudes em escala; danos \u00e0 infraestrutura cr\u00edtica.<\/td>\n<td>Multiplica\u00e7\u00e3o de APIs, conex\u00f5es e pontos de integra\u00e7\u00e3o; armazenamento centralizado.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><strong>Cibern\u00e9tico\/ Geopol\u00edtico<\/strong><\/td>\n<td>Dados como arma estrat\u00e9gica<\/td>\n<td>Roubo ou manipula\u00e7\u00e3o de bases nacionais para coer\u00e7\u00e3o ou desestabiliza\u00e7\u00e3o.<\/td>\n<td>Guerra h\u00edbrida, chantagem econ\u00f4mica, risco \u00e0 seguran\u00e7a nacional.<\/td>\n<td>Depend\u00eancia de provedores estrangeiros; valor geopol\u00edtico de grandes bases de dados.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/figure>\n<p>1 <u>Gustavo Franco on The Future of Money | DrumWave Mind Grenades<\/u> e <u>Roberto Campos Neto explica Pix, Open Finance e Monetiza\u00e7\u00e3o de Dados | WAVEcuts 02<\/u><\/p>\n<p>2 P\u00e1gina 33<\/p>\n<p>3 Ferreira, Fernando Souza e Linden, J\u00falio Carlos de Souza van der. Ecossistemas de inova\u00e7\u00e3o: o design e o designer interorganizacional. Design em pesquisa: volume 3 [recurso eletr\u00f4nico] \/ organizadores Ge\u00edsa Gaiger de Oliveira [e] Gustavo Javier Zani N\u00fa\u00f1ez. \u2013 Porto Alegre: Marcavisual, 2020.<\/p>\n<figure>\n<div>\nhttps:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/212652\n<\/div>\n<\/figure>\n<p>4 Projeto de Lei Complementar n\u00ba 234\/2023, arts. 2\u00ba, caput e inciso VIII, \u00a7\u00a7 2\u00ba, incisos I a VIII, e 8\u00ba, caput e incisos I a IV, \u00a7 1\u00ba<\/p>\n<p>5 \u201cNo nosso caso, n\u00f3s participamos da forma\u00e7\u00e3o de uma entidade reguladora sediada na Su\u00ed\u00e7a: o International Data Reserve, que ir\u00e1 funcionar como um regulador aut\u00f4nomo e descentralizado e que responde para seus membros.\u201d <u>https:\/\/www.projetodraft.com\/o-direito-a-propriedade-de-dados-vai-promover-um-dos-maiores-ciclos-de-criacao-de-valor-e-distribuicao-de-riqueza-da-nossa-historia\/<\/u><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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O plano: permitir que cidad\u00e3os vendam sua vida digital. Mas promessa de renda esconde vigil\u00e2ncia em massa, captura da pol\u00edtica monet\u00e1ria e poder ilimitado \u00e0s big techs<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/ela-ia\/\">Drumwave: A distopia dos dados-moeda<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":58850,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[25315,25316,13668,14114,9662,5493,25317,8765],"tags":[],"class_list":["post-58849","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-big-techs-e-banco-central","category-drumwave","category-economia-digital","category-ela-ia","category-protecao-de-dados","category-tecnologia-em-disputa","category-venda-de-dados-digitais","category-vigilancia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58849","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58849"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58849\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58850"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58849"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58849"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58849"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}