{"id":59475,"date":"2025-10-20T17:02:57","date_gmt":"2025-10-20T20:02:57","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rock-e-melancolia-na-sociedade-capitalista\/"},"modified":"2025-10-20T17:02:57","modified_gmt":"2025-10-20T20:02:57","slug":"rock-e-melancolia-na-sociedade-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/rock-e-melancolia-na-sociedade-capitalista\/","title":{"rendered":"Rock e melancolia na sociedade capitalista"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-20-at-17-02-58-1518558643761-1518540533558-GettyImages-835368036webp-imagem-WEBP-1024-576-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-20-at-17-02-58-1518558643761-1518540533558-GettyImages-835368036webp-imagem-WEBP-1024-576-pixels.png 1024w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-20-at-17-02-58-1518558643761-1518540533558-GettyImages-835368036.webp-imagem-WEBP-1024-\u00d7-576-pixels-300x169.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-20-at-17-02-58-1518558643761-1518540533558-GettyImages-835368036.webp-imagem-WEBP-1024-\u00d7-576-pixels-768x432.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Completam-se este m\u00eas os trinta anos do \u00e1lbum duplo <em>Mellon Collie and the Infinite Sadness<\/em>, lan\u00e7ado pela banda The Smashing Pumpkins. O \u00e1lbum consagrou a banda como uma das mais importantes da d\u00e9cada de 1990. Muito de sua repercuss\u00e3o se deve ao fato de ter expressado dilemas, preocupa\u00e7\u00f5es e perspectivas vivenciadas pela juventude naquele contexto. Na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento, dizia-se na imprensa que o \u00e1lbum expressava \u201co enorme vazio existencial inerente \u00e0 natureza humana\u201d, definindo-o como \u201cum \u00e9pico contundente de 28 faixas com versos profundos e dilacerados\u201d.<sup>1<\/sup><\/p>\n<p>The Smashing Pumpkins \u00e9 uma banda norte-americana criada em Chicago, no ano de 1988. Sua forma\u00e7\u00e3o original contava com Billy Corgan (vocais e guitarra), James Iha (guitarra), D\u2019arcy Wretzky (baixo) e Jimmy Chamberlin (bateria). O \u00e1lbum de estreia da banda, <em>Gish<\/em> (1991), foi bem recebido pela cr\u00edtica e se tornou um sucesso no cen\u00e1rio underground, contando com m\u00fasicas como \u201cI Am One\u201d, \u201cSiva\u201d e \u201cRhinoceros\u201d. O segundo \u00e1lbum, <em>Siamese Dream<\/em> (1993), tamb\u00e9m teve grande sucesso, impulsionado por m\u00fasicas como \u201cDisarm\u201d, \u201cCherub Rock\u201d e \u201cToday\u201d.<\/p>\n<p>Em 24 de outubro de 1995, foi lan\u00e7ado o \u00e1lbum que consagrou a banda, <em>Mellon Collie and the Infinite Sadness<\/em>, tendo recebido \u00f3tima recep\u00e7\u00e3o de p\u00fablico e da cr\u00edtica e contando com sucessos como \u201c1979\u201d, \u201cTonight, Tonight\u201d e \u201cBullet with Butterfly Wings\u201d. Os videoclipes dessas m\u00fasicas repercutiram na televis\u00e3o pelo mundo. Segundo se comentou na \u00e9poca do lan\u00e7amento, \u201co disco se equilibra entre baladas e rocks pesados, entre poesia e realidade, entre amor e tristeza\u201d.<sup>2<\/sup><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Prancheta--11.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Prancheta--11.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o que se tinha do \u00e1lbum se relaciona em grande medida com o contexto da \u00e9poca, marcado por mudan\u00e7as na sociedade e pelos impactos ideol\u00f3gicos impostos pelas determina\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es capitalistas. O per\u00edodo est\u00e1 marcado por um processo de transforma\u00e7\u00e3o na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e por uma ofensiva ideol\u00f3gica que apontava para a domina\u00e7\u00e3o capitalista. No primeiro caso, concretiza-se a implanta\u00e7\u00e3o do toyotismo na forma de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, imperando a ideia de flexibilidade. No segundo caso, mostra-se a difus\u00e3o do neoliberalismo como ideologia, apregoando o esfor\u00e7o individual, a privatiza\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas como educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade e o conformismo frente \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista e a outras formas de opress\u00e3o. Esse processo tem rela\u00e7\u00e3o com o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] deixou os Estados Unidos como a \u00fanica superpot\u00eancia e marcou a vit\u00f3ria da economia de mercado sobre o socialismo. O mundo n\u00e3o mais se dividia em termos ideol\u00f3gicos. Podia n\u00e3o ser o fim da hist\u00f3ria proclamado por Fukuyama, mas, pelo menos, acreditava-se que era o in\u00edcio de uma nova era \u2014 e, por uns poucos anos, parece ser esse o caso\u201d.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>Um dos poucos consensos que havia no per\u00edodo passava pela percep\u00e7\u00e3o de que o mundo estava passando por mudan\u00e7as. O capitalismo, em sua nova forma, buscava<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] uma maneira muito menos constrangedora e menos onerosa de garantir a sua sorte: n\u00e3o mais continuar a refor\u00e7ar a domina\u00e7\u00e3o segunda que produzia sujeitos submissos, mas quebrar as institui\u00e7\u00f5es e assim acabar com o tomar o encargo da domina\u00e7\u00e3o primeira de maneira a obter indiv\u00edduos d\u00f3ceis, prec\u00e1rios, inst\u00e1veis, abertos a todos e todas as varia\u00e7\u00f5es do mercado\u201d.<sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Esse processo de domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o buscava mais se dar por meio da repress\u00e3o ou da viol\u00eancia expl\u00edcita, mas afetando a subjetividade das pessoas. Ele visava<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] o n\u00facleo primeiro da humanidade: a depend\u00eancia simb\u00f3lica do homem. N\u00e3o \u00e9 surpreendente, pois, que nosso espa\u00e7o social se encontre cada vez mais invadido pela viol\u00eancia comum, pontuada por momentos de acme de hiperviol\u00eancia, acidentes catastr\u00f3ficos que as condi\u00e7\u00f5es ambientais tornam, doravante, sempre poss\u00edveis. O c\u00edrculo \u00e9 assim fechado: a l\u00f3gica neoliberal produz sujeitos que, funcionando precisamente na lei do mais forte, ainda refor\u00e7a essa l\u00f3gica\u201d.<sup>5<\/sup><\/p>\n<p>Esse processo aparece nas letras da banda The Smashing Pumpkins, em seu \u00e1lbum lan\u00e7ado h\u00e1 trinta anos, como quando se remete \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais relacionadas ao trabalho e como isso impacta a vida das pessoas. Remete-se, mais especificamente, \u00e0 explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, que acaba ganhando a express\u00e3o simb\u00f3lica na letra da m\u00fasica \u201cBullet With Butterfly Wings\u201d, cujos versos iniciais eram bastante evidentes acerca da percep\u00e7\u00e3o do contexto:<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>O mundo \u00e9 um vampiro,<br \/>Enviado para sugar<br \/>Destruidores furtivos,<br \/>Seguram voc\u00ea nas chamas<br \/>E o qu\u00ea que ganho?<br \/>Pela minha dor?<br \/>Desejos tra\u00eddos,<br \/>E uma pe\u00e7a do jogo.<\/p>\n<p>Na letra, mostra-se a ideia do mundo como algo que suga a vida das pessoas e que, em resposta, entrega sofrimento. Essa sociedade que desgasta o ser humano, dentro de uma realidade que lhe entrega sofrimento, cria o que se poderia ser chamado de \u201cnovo sujeito prec\u00e1rio\u201d.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>Na letra tamb\u00e9m est\u00e1 bastante expl\u00edcita a condi\u00e7\u00e3o de degrada\u00e7\u00e3o provocada pelo trabalho naquele contexto. Diante dessa percep\u00e7\u00e3o da realidade, as respostas podem ser bastante diferentes, passando tanto pela paralisia diante do mundo cruel como pela perspectiva que coloca um cen\u00e1rio de algum tipo de mudan\u00e7a. Nessa letra, especificamente, \u00e9 cantado: \u201cApesar da minha f\u00faria sou apenas um rato engaiolado\u201d. Ou seja, remete-se a um ser que n\u00e3o encontra sa\u00edda na realidade em que est\u00e1 inserido.<\/p>\n<p>Em outra m\u00fasica do \u00e1lbum, mostra-se uma perspectiva menos pessimista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a. A m\u00fasica \u201cTonight, Tonight\u201d traz a mensagem de \u201cacredite\u201d, repetida em sequ\u00eancia v\u00e1rias vezes, concluindo na ideia de \u201cque a vida pode mudar, que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 preso em v\u00e3o\u201d. Esse otimismo ganha mais for\u00e7a ainda em outro momento da m\u00fasica:<\/p>\n<p>N\u00f3s crucificaremos a falsidade nesta noite, nesta noite<br \/>N\u00f3s consertaremos as coisas, sentiremos tudo nesta noite, nesta noite<br \/>N\u00f3s encontraremos uma forma de oferecer a noite, nesta noite<br \/>Os momentos indescrit\u00edveis da sua vida, nesta noite<br \/>O imposs\u00edvel \u00e9 poss\u00edvel nesta noite, nesta noite<br \/>Acredite em mim como eu acredito em voc\u00ea.<\/p>\n<p>Por um lado, percebe-se a ideia de pris\u00e3o, ainda que apontando para a possibilidade de mudan\u00e7a. Outra passagem marcante fala da possibilidade de mudan\u00e7a, mesmo que isso se mostre dif\u00edcil ou mesmo imposs\u00edvel. Esses elementos mostram uma percep\u00e7\u00e3o da necessidade de mudan\u00e7a, que acabou por se expressar de diferentes formas na \u00e9poca. Em outros momentos, o rock expressou cr\u00edticas \u00e0 sociedade, em especial diante de guerras ou pela express\u00e3o an\u00e1rquica das primeiras bandas de punk. Contempor\u00e2neo \u00e0 The Smashing Pumpkins tamb\u00e9m houve express\u00f5es explicitamente politizadas, como as letras da Rage Against the Machine, uma tentativa de n\u00e3o apenas criticar sintomas da sociedade, como as guerras, mas de encontrar sa\u00eddas superando a raiz dos problemas enfrentados \u2014 portanto, da sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Essas formas de encarar a sociedade e sua poss\u00edvel mudan\u00e7a est\u00e3o ligadas \u00e0 subjetividade produzida no per\u00edodo. Observa-se, nessa \u00e9poca, que as \u201clutas pol\u00edticas tendem a n\u00e3o ser mais descritas a partir de termos eminentemente pol\u00edticos, como justi\u00e7a, equidade, explora\u00e7\u00e3o, espolia\u00e7\u00e3o, mas atrav\u00e9s de termos emocionais, como \u00f3dio, frustra\u00e7\u00e3o, medo, ressentimento, raiva, inveja, esperan\u00e7a\u201d.<sup>7<\/sup> Nesse processo, \u201co sofrimento tem uma val\u00eancia pol\u00edtica incontorn\u00e1vel\u201d, na medida em que \u201cele liga os assuntos: a alimenta\u00e7\u00e3o com a pobreza, a mis\u00e9ria com a fam\u00edlia, a fam\u00edlia com o Estado, o Estado com a sa\u00fade, a sa\u00fade com a maneira est\u00e9tica de viver o corpo e assim por diante\u201d.<sup>8<\/sup><\/p>\n<p>Outro aspecto que se destaca nesse contexto nas m\u00fasicas da The Smashing Pumpkins passa pela ideia de acelera\u00e7\u00e3o do tempo. Express\u00e3o dessa ideia pode ser considerada a express\u00e3o \u201curg\u00eancia do agora\u201d, que aparece em duas das m\u00fasicas mais conhecidas de <em>Mellon Collie and the Infinite Sadness<\/em>, \u201c1979\u201d e \u201cTonight, Tonight\u201d. Os versos iniciais de \u201cTonight, Tonight\u201d tamb\u00e9m mostram essa percep\u00e7\u00e3o de fugacidade do tempo:<\/p>\n<p>Tempo nunca \u00e9 somente tempo<br \/>Voc\u00ea nunca conseguir\u00e1 partir sem deixar uma parte da juventude<br \/>E nossas vidas foram mudadas para sempre<br \/>Nunca mais seremos os mesmos<br \/>Quanto mais voc\u00ea muda, menos voc\u00ea sente.<\/p>\n<p>Essa tem\u00e1tica da rela\u00e7\u00e3o entre presente e futuro tamb\u00e9m aparece na letra de \u201cThirty-Three\u201d, quando se fala: \u201cO amanh\u00e3 \u00e9 apenas uma desculpa distante\u201d. Essas s\u00e3o ideias que remetem a juventude e amadurecimento ou, ao menos, a passagem do tempo. Na m\u00fasica \u201c1979\u201d tamb\u00e9m se toca nesse tema, remetendo-se a uma \u00e9poca da vida em que se est\u00e1 \u00e0 beira da idade adulta, mas ainda preso na inoc\u00eancia da adolesc\u00eancia. Essa percep\u00e7\u00e3o fica evidente em algumas passagens da m\u00fasica, como quando se fala:<\/p>\n<p>E eu nem sequer me importo<br \/>Em provocar essas mem\u00f3rias melanc\u00f3licas<br \/>E n\u00f3s n\u00e3o sabemos<br \/>Exatamente onde nossos ossos<br \/>Descansar\u00e3o at\u00e9 virar p\u00f3, eu acho<br \/>Esquecidos e absorvidos<br \/>Debaixo da terra.<\/p>\n<p> Essas quest\u00f5es remetem ao problema de uma categoria social que se v\u00ea diante de uma sociedade em transforma\u00e7\u00e3o, onde o trabalho \u201cn\u00e3o define mais lugar social na produ\u00e7\u00e3o das riquezas. Os bens de consumo s\u00e3o expostos profusamente enquanto o emprego se torna raro e prec\u00e1rio e frequentemente se torna desqualificado\u201d.<sup>9<\/sup> Com isso, a juventude se encontra \u201cespremida numa esp\u00e9cie de peneira entre a escola e o emprego, com necessidades crescentes conjugadas com a falta de recursos pr\u00f3prios\u201d.<sup>10<\/sup><\/p>\n<p>Observa-se uma situa\u00e7\u00e3o em que formas de sofrimento ganham grande for\u00e7a nessa sociedade. Nas m\u00fasicas, observa-se que os diferentes sintomas \u201cexprimem e se articulam em uma narrativa de sofrimento\u201d, que \u201cse embaralham com a hist\u00f3ria da vida das pessoas, seus amores e decep\u00e7\u00f5es, suas carreiras e mudan\u00e7as, seus estilos e escolhas de vida, suas perdas e ganhos\u201d.<sup>11<\/sup> Esse ser n\u00e3o consegue vislumbrar um lugar no mundo onde consiga se encaixar. Diante disso,<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] o isolamento, a introvers\u00e3o ou a introspec\u00e7\u00e3o s\u00e3o respostas subjetivas que nem sempre s\u00e3o uma op\u00e7\u00e3o ou se iniciam como uma \u2018escolha livre\u2019, mas que gradualmente podem assumir o feitio de um processo incontrol\u00e1vel, no interior do qual isolamento gera isolamento\u201d.<sup>12<\/sup><\/p>\n<p>O tema do isolamento e da solid\u00e3o n\u00e3o passaram despercebidos em letras de m\u00fasicas presentes no \u00e1lbum. Na m\u00fasica \u201cIn The Arms Of Sleep\u201d, apresenta-se uma balada melanc\u00f3lica que explora temas de desejo, solid\u00e3o e a busca por conforto emocional. Fala-se assim:<\/p>\n<p>O sono n\u00e3o vir\u00e1<br \/>Para este corpo cansado agora<br \/>A paz n\u00e3o vir\u00e1<br \/>Para este cora\u00e7\u00e3o solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um ser cansado que n\u00e3o consegue encontrar seu lugar no mundo. Esse sofrimento pode estar relacionado \u00e0 ideia de fracasso e de sucesso, que permeiam a constru\u00e7\u00e3o do ser em sociedade. Nesse processo,<\/p>\n<p>\u201c[\u2026] a incerteza quanto \u00e0s verdadeiras raz\u00f5es do sucesso ou do fracasso engendram uma forma de d\u00edvida difusa e de ansiedade flutuante. O sentimento \u00e9 de que algo foi abolido sem deixar testemunho ou hist\u00f3ria e que, cedo ou tarde, um fantasma vir\u00e1 cobrar sua parte em vingan\u00e7a\u201d.<sup>13<\/sup><\/p>\n<p>Esse processo redunda no sofrimento ou mesmo no adoecimento, em que o sujeito pode inclusive perder a vontade de viver. Esses s\u00e3o elementos da constitui\u00e7\u00e3o do sujeito que vivenciou a d\u00e9cada de 1990, mostrados nesse grande \u00e1lbum da The Smashing Pumpkins. Sua melancolia expressa \u201csentimento de perda de si\u201d, remetendo-se \u201cao descaminho das experi\u00eancias que nos fizeram ser o que somos\u201d.<sup>14<\/sup> Suas m\u00fasicas, al\u00e9m de expressarem esses dilemas ou mesmo sofrimentos, podem ser consideradas uma forma de interpretar aquela realidade em processo e indicar caminhos percorridos por pessoas que, naquele contexto, se constitu\u00edram enquanto sujeitos encarando um mundo em transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>1 Smith, Abonico R. Barulho no vazio. <strong>Show Bizz<\/strong>, ano 11, n\u00ba 12, p. 72.<\/p>\n<p>2 JOORY, Eva. Smashing Pumpkins ousa em disco novo. <strong>Folha de S\u00e3o Paulo<\/strong>, Caderno Ilustrada, S\u00e3o Paulo, quarta-feira, 1 de novembro de 1995, ano 75, n\u00ba 24.318, p. 3.<\/p>\n<p>3 STIGLITZ, Joseph. <strong>Os exuberantes anos 90<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 33.<\/p>\n<p>4 DUFOUR, Dany-Robert. <strong>A arte de reduzir as cabe\u00e7as<\/strong>: sobre a nova servid\u00e3o na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005, p. 197.<\/p>\n<p>5 DUFOUR, Dany-Robert. <strong>A arte de reduzir as cabe\u00e7as<\/strong>: sobre a nova servid\u00e3o na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005, p. 198.<\/p>\n<p>6 DUFOUR, Dany-Robert. <strong>A arte de reduzir as cabe\u00e7as<\/strong>: sobre a nova servid\u00e3o na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005, p. 198.<\/p>\n<p>7 SAFATLE, Vladimir. A economia \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da psicologia por outros meios. In: DUNKER, C.; SILVA J\u00daNIOR, N.; SAFATLE, V. (orgs.). <strong>Neoliberalismo como gest\u00e3o do sofrimento ps\u00edquico<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Aut\u00eantica, 2021, p. 21-2.<\/p>\n<p>8 DUNKER, Christian. <strong>Reinven\u00e7\u00e3o da intimidade<\/strong>: pol\u00edticas do sofrimento cotidiano. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2017, p. 215.<\/p>\n<p>9 DUFOUR, Dany-Robert. <strong>A arte de reduzir as cabe\u00e7as<\/strong>: sobre a nova servid\u00e3o na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005, p. 204.<\/p>\n<p>10 DUFOUR, Dany-Robert. <strong>A arte de reduzir as cabe\u00e7as<\/strong>: sobre a nova servid\u00e3o na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005, p. 204.<\/p>\n<p>11 DUNKER, Christian. <strong>Reinven\u00e7\u00e3o da intimidade<\/strong>: pol\u00edticas do sofrimento cotidiano. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2017, p. 212.<\/p>\n<p>12 DUNKER, Christian. <strong>Reinven\u00e7\u00e3o da intimidade<\/strong>: pol\u00edticas do sofrimento cotidiano. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2017, p. 21.<\/p>\n<p>13 DUNKER, Christian. <strong>Reinven\u00e7\u00e3o da intimidade<\/strong>: pol\u00edticas do sofrimento cotidiano. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2017, p. 199.<\/p>\n<p>14 DUNKER, Christian. <strong>Reinven\u00e7\u00e3o da intimidade<\/strong>: pol\u00edticas do sofrimento cotidiano. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2017, p. 49.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Sem publicidade ou patroc\u00ednio, dependemos de voc\u00ea. 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O mal-estar \u00e9 marcado pela ofensiva neoliberal e trabalhos prec\u00e1rios. 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