{"id":59478,"date":"2025-10-20T17:27:01","date_gmt":"2025-10-20T20:27:01","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-que-o-organico-nao-e-sinonimo-de-agroecologico\/"},"modified":"2025-10-20T17:27:01","modified_gmt":"2025-10-20T20:27:01","slug":"por-que-o-organico-nao-e-sinonimo-de-agroecologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/por-que-o-organico-nao-e-sinonimo-de-agroecologico\/","title":{"rendered":"Por que o org\u00e2nico n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de agroecol\u00f3gico"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"350\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Overview-overview_920x350.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Overview-overview_920x350.jpg 920w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Overview-overview_920x350-300x114.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Overview-overview_920x350-768x292.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 920px) 100vw, 920px\"><figcaption>Foto: Fao<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Nos \u00faltimos 40 anos, o modelo de desenvolvimento agr\u00edcola dominante vem sendo contestado de forma categ\u00f3rica com duas linhas de argumenta\u00e7\u00e3o e de evid\u00eancias: a sua insustentabilidade intr\u00ednseca e a compara\u00e7\u00e3o com sistemas apropriados para enfrentar as m\u00faltiplas crises que se acumulam sobre a humanidade, conhecidos como sistemas agroecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 aqui o espa\u00e7o para demonstrar a veracidade do par\u00e1grafo acima. O que nos interessa aqui \u00e9 estudar um dos principais desafios para a promo\u00e7\u00e3o da agroecologia neste momento em que ainda predomina a l\u00f3gica do capital, tanto na produ\u00e7\u00e3o como na organiza\u00e7\u00e3o e nos condicionantes do mercado de produtos agropecu\u00e1rios.<\/p>\n<p>As experi\u00eancias de promo\u00e7\u00e3o da agroecologia, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, se concentravam na categoria dos pequenos produtores familiares. Atualmente, m\u00e9dias e grandes empresas capitalistas entraram neste mercado de forma agressiva e hoje j\u00e1 existe uma proposta de agroneg\u00f3cio verde (org\u00e2nico) ganhando adeptos em v\u00e1rias partes do mundo.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Antes de examinar esta nova contradi\u00e7\u00e3o, precisamos definir o que se entende por produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica para poder examinar as suas caracter\u00edsticas e as consequ\u00eancias na rela\u00e7\u00e3o com diferentes tipos de mercado.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 agroecologia e quais s\u00e3o as suas diferen\u00e7as com a produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica?<\/strong><\/p>\n<p>Todo mundo consegue identificar um sistema agropecu\u00e1rio convencional. Suas caracter\u00edsticas s\u00e3o bem definidas e conhecidas, sobretudo pelas imagens da intensa propaganda televisiva (\u201cagro \u00e9 tec, agro \u00e9 pop, agro \u00e9 tudo\u2026\u201d). Este sistema, conhecido como agroneg\u00f3cio, est\u00e1 marcado pelas monoculturas, uso de sementes de variedades de plantas geneticamente modificadas em laborat\u00f3rios, aduba\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, controle de pragas e invasoras por agrot\u00f3xicos, mecaniza\u00e7\u00e3o de todas as opera\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas. S\u00e3o sistemas operando em escalas cada dia mais elevadas, chegando a mais de uma centena de milhar de hectares de monocultivos. No entanto, este modelo pode ser operado em escalas menores, nas dimens\u00f5es da agricultura familiar, mantendo as caracter\u00edsticas e conhecido como \u201cagronegocinho\u201d, muito embora com menos efici\u00eancia do que nas escalas mais elevadas para a maioria dos produtos agropecu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quando se busca definir um sistema agroecol\u00f3gico a\u00a0f\u00f3rmula perde nitidez. No Brasil de hoje, chama-se de agroecologia uma variedade de sistemas agropecu\u00e1rios e os crit\u00e9rios de defini\u00e7\u00e3o variam.<\/p>\n<p>Alguns consideram que a agricultura org\u00e2nica \u00e9 um sin\u00f4nimo de agroecologia. Entretanto, lembremos que a defini\u00e7\u00e3o de agricultura org\u00e2nica, inclusive inscrita em lei, n\u00e3o indica como o sistema deve funcionar, mas que tipo de produto deve ser a resultante. O produto org\u00e2nico se define pelo que ele n\u00e3o pode empregar para ser obtido (produtos qu\u00edmicos, engenharia gen\u00e9tica). J\u00e1 os produtos agroecol\u00f3gicos s\u00e3o necessariamente org\u00e2nicos, mas o modo de produzi-los pode ser muito diferente.<\/p>\n<p>A agroecologia se define pela aplica\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios da ecologia ao manejo de sistemas agropecu\u00e1rios. Isto vai muito mais longe do que proibir o uso de certos insumos industriais. O princ\u00edpio mais importante a ser observado \u00e9 a busca da maior diversidade gen\u00e9tica poss\u00edvel no sistema. Isto anula a possibilidade de um sistema org\u00e2nico empregando uma monocultura ser classificado como agroecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Nos sistemas agroecol\u00f3gicos,\u00a0busca-se diversificar as plantas cultivadas e integrar as plantas nativas no desenho produtivo. A diversidade se estende a cada esp\u00e9cie de planta cultivada, com o uso de variedades crioulas (chamadas de \u201clandraces\u201d na literatura t\u00e9cnica). As variedades crioulas t\u00eam uma diversidade gen\u00e9tica muito superior \u00e0 das sementes melhoradas em laborat\u00f3rios ou centros de pesquisa, tipicamente manipuladas para obter a maior uniformidade gen\u00e9tica.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>Estas diferen\u00e7as podem ser resumidas em uma caracter\u00edstica gen\u00e9rica: sistemas agroecol\u00f3gicos tendem a ser altamente complexos e diversificados, enquanto os convencionais tendem a ser super simplificados e os org\u00e2nicos podem ser mais ou menos simplificados ou complexos.<\/p>\n<p>Entre os praticantes da promo\u00e7\u00e3o da agroecologia, h\u00e1 uma tend\u00eancia a considerar que os sistemas tradicionais da agricultura familiar podem ser chamados de org\u00e2nicos, isto porque n\u00e3o usam insumos qu\u00edmicos, empregam variedades crioulas e cultivam uma maior diversidade de plantas em um mesmo ro\u00e7ado, integrando preferencialmente as cria\u00e7\u00f5es animais. Tal defini\u00e7\u00e3o pode ser considerada correta, mas ela esconde outra vari\u00e1vel: a sustentabilidade destes sistemas tradicionais no momento presente.<\/p>\n<p>No Brasil e em boa parte do mundo, a agricultura familiar tradicional usa um sistema produtivo conhecido desde os prim\u00f3rdios da agricultura e chamado de \u201ccultivo sobre queimadas\u201d. (A express\u00e3o em espanhol \u00e9 mais clara na sua descri\u00e7\u00e3o, \u201croce, tumba y quema\u201d.) Estes sistemas podem ser considerados agroecol\u00f3gicos e org\u00e2nicos, mas n\u00e3o s\u00e3o sustent\u00e1veis, a n\u00e3o ser em circunst\u00e2ncias muito raras no presente.<\/p>\n<p>Enquanto a disponibilidade de terras era muito ampla, o sistema funcionava a contento e se sustentava. A fam\u00edlia produtora ro\u00e7ava a vegeta\u00e7\u00e3o nativa e a queimava, usando as cinzas para adubar o solo. Isto permitia que o plantio se mantivesse constante por algum tempo (variando segundo a natureza dos solos e da vegeta\u00e7\u00e3o). As \u00e1reas de cultivo sempre foram pequenas, alguns hectares apenas, em fun\u00e7\u00e3o do tamanho da fam\u00edlia e da disponibilidade de m\u00e3o de obra. Em alguns anos (de dois a tr\u00eas no semi\u00e1rido nordestino), a produtividade do solo ca\u00eda e os cultivos tinham que ser abandonados para um pousio que podia durar at\u00e9 25 anos (na mesma regi\u00e3o citada) para total recupera\u00e7\u00e3o da fertilidade natural.<\/p>\n<p>Este mecanismo de recupera\u00e7\u00e3o natural dos solos necessitava de uma disponibilidade de terra de 25 vezes a \u00e1rea cultivada (dois a tr\u00eas hectares). Em outras palavras, para cultivar dois a tr\u00eas hectares por ano, um agricultor familiar necessitaria de 50 a 75 hectares somente para poder recuperar os solos. Caso contr\u00e1rio, quanto mais curto o pousio, menor a recupera\u00e7\u00e3o dos solos e menor a produtividade e\/ou o tempo de cultura cont\u00ednua.<\/p>\n<p>Este sistema tradicional, mais voltado para o autoabastecimento alimentar da fam\u00edlia com alguma produ\u00e7\u00e3o excedente para o mercado e alguma cultura especializada como algod\u00e3o e mamona, plantados nas \u00e1reas em pousio, foi se tornando invi\u00e1vel ao longo do tempo com a diminui\u00e7\u00e3o do tamanho das propriedades pelas divis\u00f5es sucess\u00f3rias. Hoje, mais de um milh\u00e3o de fam\u00edlias agricultoras nordestinas t\u00eam menos de 5 hectares de terra dispon\u00edvel e isto foi levando \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o dos solos com o encurtamento dos pousios.<\/p>\n<p>Para concluir, se \u00e9 verdade que os agricultores tradicionais adotam princ\u00edpios que se aproximam da agroecologia (diversidade e complexidade), seus sistemas produtivos j\u00e1 n\u00e3o os sustentam h\u00e1 muito tempo e s\u00e3o cada vez mais degradados.<\/p>\n<p>As t\u00e9cnicas aplicando os princ\u00edpios mais avan\u00e7ados da agroecologia s\u00e3o altamente intensivas no uso do espa\u00e7o e diversificadas ao m\u00e1ximo para poder melhor equilibrar o ambiente e otimizar a produ\u00e7\u00e3o total. Em compara\u00e7\u00e3o com os sistemas convencionais e os tradicionais, os sistemas agroecol\u00f3gicos t\u00eam maior efici\u00eancia, oferecendo mais produtos e de melhor qualidade, com menores custos de investimento, com exce\u00e7\u00e3o da quantidade de m\u00e3o de obra. Por outro lado, pode-se dizer que eles cobram um alto conhecimento das condi\u00e7\u00f5es ambientais e dos recursos naturais, habilidade no manejo de um sistema complexo e otimiza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o do uso da m\u00e3o de obra. Por esta raz\u00e3o,\u00a0s\u00e3o sistemas que n\u00e3o podem operar em grande escala. Pode-se dizer que a complexidade dos sistemas agroecol\u00f3gicos aumenta na raz\u00e3o inversa do tamanho manej\u00e1vel da \u00e1rea produtiva. Por outro lado, a produtividade dos sistemas agroecol\u00f3gicos varia na raz\u00e3o direta da diversidade e complexidade dos desenhos produtivos.<\/p>\n<p>Muitos praticantes da agroecologia costumam dizer que os sistemas est\u00e3o em transi\u00e7\u00e3o permanente e que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer de forma absoluta se um sistema \u00e9 ou n\u00e3o agroecol\u00f3gico. Penso que isto n\u00e3o se justifica. Se \u00e9 verdade que o processo de transforma\u00e7\u00e3o dos sistemas \u00e9 permanente, isto n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o se possa delimitar o que se poderia chamar de \u201cponto de inflex\u00e3o\u201d, a partir do qual um sistema em transi\u00e7\u00e3o passaria a ser agroecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>A meu ver, o que distingue um sistema agroecol\u00f3gico \u00e9 o desenho produtivo complexo e diversificado, integrando cultivos e cria\u00e7\u00f5es e a vegeta\u00e7\u00e3o nativa. Isto \u00e9 muito diferente de sistemas org\u00e2nicos onde apenas foi feita uma substitui\u00e7\u00e3o de insumos qu\u00edmicos e se mant\u00eam desenhos simplificados com monoculturas de umas poucas plantas.<\/p>\n<p>Estas caracter\u00edsticas dificultam a certifica\u00e7\u00e3o dos sistemas agroecol\u00f3gicos, enquanto os sistemas de produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica s\u00e3o de f\u00e1cil identifica\u00e7\u00e3o. As implica\u00e7\u00f5es para a integra\u00e7\u00e3o com os mercados s\u00e3o importantes.<\/p>\n<p><strong>A rela\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3<\/strong><strong>o agroecol<\/strong><strong>\u00f3gica com os mercados<\/strong><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, salvo muito raras exce\u00e7\u00f5es, os mercados n\u00e3o reconhecem a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica. O que um comprador minimamente informado pode conhecer e comprar \u00e9 um produto org\u00e2nico. O mercado de org\u00e2nicos cresce de forma exponencial em todo o mundo, inclusive no Brasil, enquanto na cadeia alimentar n\u00e3o existe legalmente um mercado agroecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Como a defini\u00e7\u00e3o de produto org\u00e2nico absorve a de agroecol\u00f3gico (embora o contr\u00e1rio n\u00e3o seja verdadeiro) esta confus\u00e3o permite que o mercado aceite comprar\/vender a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica embora mude a sua denomina\u00e7\u00e3o e identidade.<\/p>\n<p>Se, por um lado, esta peculiaridade do mercado permite que os produtores agroecol\u00f3gicos vendam a sua produ\u00e7\u00e3o com pre\u00e7os diferenciados, at\u00e9 30% mais elevados como pr\u00eamio de qualidade, a confus\u00e3o entre os dois tipos de produto tem implica\u00e7\u00f5es perigosas.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o se fazer a distin\u00e7\u00e3o entre org\u00e2nico e agroecol\u00f3gico, fica aberta a possibilidade de sistemas org\u00e2nicos em grande escala entrarem no mercado, disputando a prefer\u00eancia do consumidor desavisado. Isto j\u00e1 est\u00e1 em curso em todo o mundo, com o avan\u00e7o do capitalismo verde dominando este nicho do mercado de consumidores mais informados sobre os malef\u00edcios do sistema agroqu\u00edmico.<\/p>\n<p>Embora a produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica em larga escala seja menos eficiente do que a agroecol\u00f3gica (necessariamente de menor escala), tanto do ponto de vista agron\u00f4mico quanto do econ\u00f4mico, ela ganha vantagens na rela\u00e7\u00e3o com o mercado por duas raz\u00f5es: (1) o custo da comercializa\u00e7\u00e3o \u00e9 menor e, (2) os produtos s\u00e3o mais homog\u00eaneos (o que responde ao modelo exigido pelo mercado).<\/p>\n<p>Para explicar melhor estas diferen\u00e7as, \u00e9 preciso notar que um sistema agroecol\u00f3gico tem uma maior produ\u00e7\u00e3o total por hectare, mas a natureza deste sistema faz com que ele precise oferecer uma maior variedade de produtos por unidade de \u00e1rea. Isto significa que \u00e9 preciso levar ao mercado muitos produtos em quantidades menores. Um agricultor agroecol\u00f3gico ter\u00e1 um custo maior de embalagem e de transporte em compara\u00e7\u00e3o com um produtor org\u00e2nico. Se ele vender diretamente ao consumidor, isto pode ser minimizado, mas se tiver que entreg\u00e1-lo a um intermedi\u00e1rio, a diferen\u00e7a ser\u00e1 not\u00e1vel.<\/p>\n<p>O outro obst\u00e1culo na comercializa\u00e7\u00e3o dos produtos agroecol\u00f3gicos est\u00e1 na apresenta\u00e7\u00e3o diferenciada destes \u00faltimos. O mercado convencional estipula o tamanho, forma e cor dos produtos, o que se chama de \u201cest\u00e9tica\u201d da produ\u00e7\u00e3o. Isto vale tamb\u00e9m, via de regra, no mercado de produtos org\u00e2nicos. O mercado busca comprar produtos org\u00e2nicos id\u00eanticos (na apar\u00eancia) aos convencionais, e isto leva esses produtores a utilizarem as variedades convencionais e n\u00e3o as crioulas. H\u00e1 um pre\u00e7o indireto a pagar nesta press\u00e3o do mercado, pois sabe-se que as variedades convencionais n\u00e3o se adaptam bem ao manejo org\u00e2nico e muito menos ao agroecol\u00f3gico, resultando em uma produtividade mais baixa e a um grande descarte de plantas que n\u00e3o correspondem ao padr\u00e3o comercial. Tudo isto eleva os pre\u00e7os da produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e limita o mercado potencial para um nicho de consumidores de alta renda.<\/p>\n<p>Dependendo do tipo de produto, as restri\u00e7\u00f5es podem inviabilizar a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica, al\u00e9m de encarecer muito a org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Os produtos mais facilmente comercializ\u00e1veis no mercado s\u00e3o os de menor beneficiamento. Hortali\u00e7as, legumes e frutas s\u00e3o vendidos em natura e n\u00e3o passam por qualquer transforma\u00e7\u00e3o, sendo que o \u00fanico condicionante \u00e9 o padr\u00e3o visual dos produtos. Como vimos acima, isto tende a provocar o uso de variedades convencionais com as consequentes perdas em produtividade e descartes de plantas fora do padr\u00e3o apontadas acima. Isto fica superado em sistemas que comercializam em mercados locais, de vizinhan\u00e7a ou em feiras comunit\u00e1rias e distritais. A maior parte da comercializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica destes tr\u00eas alimentos no Brasil \u00e9 dirigida para estes mercados, onde a padroniza\u00e7\u00e3o dos produtos n\u00e3o predomina na op\u00e7\u00e3o dos compradores. Nestes mercados tamb\u00e9m prevalece uma rela\u00e7\u00e3o direta entre produtor e consumidor que dispensa a certifica\u00e7\u00e3o formal. Mas, mesmo neste n\u00edvel, o custo da comercializa\u00e7\u00e3o pode ser restritivo, muitas vezes superado por sistemas informais de coleta, transporte e venda coletivos, visando economias de escala e de tempo de trabalho.<\/p>\n<p>Na comercializa\u00e7\u00e3o de produtos beneficiados, o problema pode ser muito maior.<\/p>\n<p>Quando a produ\u00e7\u00e3o de feij\u00e3o agroecol\u00f3gico, por exemplo, supera a demanda da vizinhan\u00e7a, da comunidade ou do distrito, a venda do excedente n\u00e3o poder\u00e1 se fazer sem passar por um intermedi\u00e1rio, possuidor de maquin\u00e1rio para beneficiar o produto. Normalmente, este intermedi\u00e1rio cerealista \u00e9 um comprador de feij\u00e3o produzido de forma convencional.<\/p>\n<p>Este comprador define que tipo de feij\u00e3o \u00e9 bem aceito pelo mercado, fun\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o e da qualidade do produto. No centro-sul do Paran\u00e1 (grande centro produtor de feij\u00e3o preto), os cerealistas s\u00f3 compram feij\u00e3o de duas variedades, indicadas pela Embrapa como as mais apropriadas para a regi\u00e3o. Uma \u00e9 propriedade do Instituto Agron\u00f4mico do Paran\u00e1 (IAPAR) e a outra de uma empresa privada (Agroceres, depois comprada pela Monsanto, hoje Bayer). Os agricultores chamam estas variedades de \u201ccascud\u00f5es\u201d, um ep\u00edteto depreciativo que diz muito sobre a qualidade destes feij\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesta regi\u00e3o, a AS-PTA (ONG de promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento agroecol\u00f3gico da agricultura familiar) desenvolveu a produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica de feij\u00f5es pretos, resgatando, melhorando e multiplicando mais de 140 variedades crioulas, adotadas por milhares de agricultores. Depois de alguns anos em que o uso de sementes crioulas virou uma febre, acompanhada pelas pr\u00e1ticas mais simples da agroecologia (substitui\u00e7\u00e3o dos insumos qu\u00edmicos e variedades convencionais), o mercado das vendas locais se esgotou e chegou-se a um impasse com os cerealistas.<\/p>\n<p>O mercado maior ao qual se dirige a produ\u00e7\u00e3o de feij\u00e3o preto da regi\u00e3o \u00e9 a capital do Estado, Curitiba e, sobretudo, o Rio de Janeiro, e os cerealistas n\u00e3o tinham como processar 140 variedades com formatos, tamanhos, cores (tons de preto) e tempos de cozimento diferentes para empacot\u00e1-las e vend\u00ea-las. O resultado foi a diferencia\u00e7\u00e3o de cultivos de feij\u00e3o nas propriedades. Uma parcela menor, empregando a variedade crioula com melhor performance ou de maior agrado para o produtor ou o mercado local passou a conviver com outra parcela usando as variedades convencionais, dirigida ao mercado dos cerealistas. Muitos produtores utilizaram as t\u00e9cnicas da agroecologia para produzir os \u201ccascud\u00f5es\u201d, com menores produtividades, mas tamb\u00e9m com menores custos, pelo menos at\u00e9 que a pol\u00edtica de cr\u00e9dito do governo Lula facilitou o uso de insumos qu\u00edmicos e v\u00e1rios dos produtores voltaram \u00e0s pr\u00e1ticas convencionais.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para este tipo de situa\u00e7\u00e3o exige um investimento em beneficiamento sob controle dos produtores, al\u00e9m de um mercado consumidor capaz de absorver muitas marcas diferentes de feij\u00e3o preto. Desde logo, a alta variedade de tipos de feij\u00e3o indicaria a necessidade de infraestruturas de beneficiamento em pequena escala, agrupando produtores utilizando as mesmas variedades crioulas para definir uma marca. Como reagiria o mercado frente a uma oferta de (digamos) 20 marcas?<\/p>\n<p>Esta estimativa tem a ver com a identifica\u00e7\u00e3o de perto de 15% das variedades identificadas na regi\u00e3o que concentram mais de 60% da produ\u00e7\u00e3o total de feij\u00f5es crioulos. O resto das variedades seria para consumo pr\u00f3prio das fam\u00edlias, vendas de vizinhan\u00e7a ou feiras locais.<\/p>\n<p>Vinte marcas de feij\u00e3o \u00e0 venda em Curitiba ou no Rio de Janeiro? O volume de feij\u00e3o preto comercializado a partir do centro-sul do Paran\u00e1 chega a centenas de milhares de toneladas e, neste volume, somente supermercados t\u00eam escala para escoar a produ\u00e7\u00e3o. Consultas com supermercados do Rio de Janeiro indicaram que poderiam comprar uma ou duas marcas (hoje s\u00e3o 4 marcas convencionais e uma org\u00e2nica, da empresa Korim). \u00c9 claro que os pontos de venda de produtos org\u00e2nicos em pequena escala que v\u00eam se multiplicando pelas grandes cidades poderiam ser uma sa\u00edda, mas n\u00e3o para o volume potencial da produ\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o citada.<\/p>\n<p>O feij\u00e3o \u00e9 uma planta que n\u00e3o exige um processamento mais complexo do que descascar as vagens e selecionar os gr\u00e3os por peso e tamanho para ter um produto uniforme para botar nos sacos. Tamb\u00e9m \u00e9 comum dar um banho de algum agrot\u00f3xico para impedir o ataque de pragas como o caruncho. Quando se lida com plantas como o trigo, por exemplo, as coisas se complicam.<\/p>\n<p>At\u00e9 os anos sessenta, havia no mercado europeu de sementes alguns tipos bem distintos de trigo, segundo a destina\u00e7\u00e3o do seu uso. O trigo para a panifica\u00e7\u00e3o tem uma composi\u00e7\u00e3o (teor de amido, prote\u00edna, outros) diferente daquele usado para fabrica\u00e7\u00e3o de massas aliment\u00edcias, conhecido como trigo duro, ou do trigo usado para a confec\u00e7\u00e3o de crepes, conhecido como trigo sarraceno. Cada um destes tipos podia ser obtido a partir de um grande n\u00famero de variedades cuja composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica diferia significativamente e que foram desenvolvidas ao longo de s\u00e9culos pelos pr\u00f3prios agricultores e, a partir do \u00faltimo s\u00e9culo, por centros de pesquisa p\u00fablicos ou privados.<\/p>\n<p>No \u00faltimo quarto do s\u00e9culo passado, a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o do trigo passou a condicionar o desenvolvimento varietal para entregar gr\u00e3os com uma composi\u00e7\u00e3o especial que facilitasse a industrializa\u00e7\u00e3o em larga escala. At\u00e9 ent\u00e3o, o beneficiamento era realizado de forma descentralizada e a farinha obtida gerava p\u00e3es ou massas com maiores ou menores diferen\u00e7as. A uniformiza\u00e7\u00e3o e composi\u00e7\u00e3o do trigo para facilitar a grande ind\u00fastria permitiu a produ\u00e7\u00e3o de p\u00e3es e massas mais homog\u00eaneos, eliminando as pequenas ind\u00fastrias. O resultado foram p\u00e3es e massas de qualidade nutricional inferior, mas que permitiam a coloca\u00e7\u00e3o de produtos mais baratos e mais uniformes no mercado. Hoje, o n\u00famero de variedades utilizadas pelos produtores \u00e9 uma pequena fra\u00e7\u00e3o daquelas em uso no passado, tornando os cultivos mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>O movimento agroecol\u00f3gico na Europa buscou recuperar as variedades mais diversificadas e mais bem adaptadas \u00e0s diferentes condi\u00e7\u00f5es de solos e de climas, mas esbarrou nas exig\u00eancias de um mercado controlado por empresas de grande porte. Atualmente, o impasse est\u00e1 sendo enfrentado pela retomada da transforma\u00e7\u00e3o por meio de pequenas empresas que moem o trigo das variedades tradicionais oriundo da produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica. \u00c9 um movimento que esbarra nos pre\u00e7os mais altos destes processos descentralizados com dificuldades em se generalizar.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos continuar apresentando este fen\u00f4meno agroindustrial para outras plantas, como o arroz, o milho, a batata, o tomate e praticamente todos os alimentos. Prevaleceu a l\u00f3gica capitalista da homogeneiza\u00e7\u00e3o dos produtos e sua adapta\u00e7\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o e beneficiamento em larga escala.<\/p>\n<p>Em resumo, o mercado \u00e9 a grande trava para a expans\u00e3o da agroecologia, sobretudo em produtos mais processados. Embora menos afetados pelas exig\u00eancias do mercado, os produtos alimentares in natura tamb\u00e9m s\u00e3o objeto de regras de mercado que os classificam segundo crit\u00e9rios de tamanho e apar\u00eancia, rejeitando ou reduzindo os pre\u00e7os para os que n\u00e3o est\u00e3o conformes.<\/p>\n<p>Tudo isso coloca uma trava em todas as experi\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica mais avan\u00e7adas, sobretudo as que utilizam as sementes tradicionais ou crioulas. A produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica mais convencional, adotada sobretudo pelas empresas do agroneg\u00f3cio verde, tende a ser mais adaptada \u00e0s regras do mercado, mas isto implica no uso de variedades convencionais que s\u00e3o menos adaptadas ao manejo agroecol\u00f3gico e, em consequ\u00eancia, menos produtivas. O resultado \u00e9 um custo de produ\u00e7\u00e3o mais elevado que empurra a produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica para um nicho de mercado dirigido para consumidores mais ricos.<\/p>\n<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Agroecologia tem outras implica\u00e7\u00f5es: questionar e transformar as rela\u00e7\u00f5es humanas e com a natureza. Por isso, cresce &#8212; mas continua limitada pelas estruturas de mercado<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/terraeantropoceno\/por-que-o-organico-nao-e-sinonimo-de-agroecologico\/\">Por que o org\u00e2nico n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de agroecol\u00f3gico<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":59479,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[306,25931,25932,25933,5840],"tags":[],"class_list":["post-59478","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-agroecologia","category-mercado-de-alimentos","category-produtos-organicos","category-sistema-agroecologico","category-terra-e-antropoceno"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59478","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59478"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59478\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}