{"id":59893,"date":"2025-10-22T19:38:20","date_gmt":"2025-10-22T22:38:20","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lilia-schwarcz-o-brasil-das-tentacoes-autoritarias\/"},"modified":"2025-10-22T19:38:20","modified_gmt":"2025-10-22T22:38:20","slug":"lilia-schwarcz-o-brasil-das-tentacoes-autoritarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/lilia-schwarcz-o-brasil-das-tentacoes-autoritarias\/","title":{"rendered":"Lilia Schwarcz: O Brasil das tenta\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"466\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4927878_77058bedd9a34c5.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4927878_77058bedd9a34c5.jpg 700w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4927878_77058bedd9a34c5-300x200.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/4927878_77058bedd9a34c5-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\"><figcaption>Foto: Renato Parada \/ Companhia das Letras<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>A democracia dan\u00e7a na corda bamba de sombrinha e, em cada passo dessa linha, pode se machucar. Talvez essa leve par\u00e1frase da can\u00e7\u00e3o \u201cO B\u00eabado e a Equilibrista\u201d, composta por Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc (imortalizada na voz de Elis Regina), sintetize um Brasil atrapado entre as heran\u00e7as coloniais, com autoritarismo sempre \u00e0 espreita, as tentativas de reconstruir um projeto de na\u00e7\u00e3o soberania, a partir da justi\u00e7a social. A historiadora Lilia Schwarcz, nesta entrevista, analisa os impasses ainda nunca resolvidos no pa\u00eds, como o racismo, a concentra\u00e7\u00e3o de poder e a falta de universalidade de direitos, que tornam o regime fr\u00e1gil \u2014 embora tenha sua beleza \u201cporque na democracia sempre cabem mais direitos\u201d, apesar de fal\u00e1cias \u201cporque \u00e9 preciso lutar por direitos, conquistar direitos\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para enfrentar enormes desafios, a historiadora defende que intelectuais disputem narrativas nas redes sociais com rigor, sem preconceito \u2014\u00a0com a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica de combater a desinforma\u00e7\u00e3o, uma arma poderosa da ultradireita. E que a mem\u00f3ria deve ser disputada: n\u00e3o necessariamente pela destrui\u00e7\u00e3o de monumentos \u2014 simb\u00f3licos ou n\u00e3o, como o caso Borba Gato \u2014 mas pela cr\u00edtica e a cria\u00e7\u00e3o de novos s\u00edmbolos que mostrem outros brasis, distintos da vis\u00e3o ocidental, masculina e branca.<\/p>\n<\/p>\n<p><strong>Em seus trabalhos, a longa dura\u00e7\u00e3o das nossas estruturas autorit\u00e1rias \u00e9 um tema central. Diante do trauma recente e da cont\u00ednua tens\u00e3o na nossa democracia, a senhora diria que vivemos um cap\u00edtulo novo desse processo ou uma reencena\u00e7\u00e3o, com novas roupagens, de impasses que nunca resolvemos de fato?<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-7.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-7.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/1.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Bom, a resposta pra primeira pergunta\u2026 \u00e9, sim, eu sempre penso que hist\u00f3ria \u00e9 o que muda, mas \u00e9 tamb\u00e9m o que reitera. Por\u00e9m, eu n\u00e3o tenho a pretens\u00e3o de fazer uma esp\u00e9cie de determinismo hist\u00f3rico. A minha inquieta\u00e7\u00e3o vem a partir da ideia que certos elementos da nossa estrutura ainda persistem, como a desigualdade, o racismo \u2014 que \u00e9 um legado perverso da escravid\u00e3o \u2014, a grande propriedade, a concentra\u00e7\u00e3o de poderes. Ent\u00e3o, esses s\u00e3o temas da nossa agenda do passado e da nossa agenda do presente.<\/p>\n<p>Acabamos de passar por um epis\u00f3dio que mostrou como as institui\u00e7\u00f5es brasileiras funcionam\u2026 Ent\u00e3o, se a democracia n\u00e3o \u00e9 fr\u00e1gil, como toda democracia, eu diria, ela \u00e9 incompleta. Ela \u00e9 incompleta porque no Brasil n\u00f3s n\u00e3o temos uma universalidade de direitos. Se n\u00e3o existe uma universalidade de direitos de maneira universal, eu diria, no caso brasileiro \u2013 que segundo pesquisas recentes, \u00e9 o pa\u00eds mais desigual da Am\u00e9rica Latina e o s\u00e9timo pa\u00eds mais desigual do mundo \u2013 h\u00e1 diferen\u00e7as no acesso aos direitos civis, econ\u00f4micos, pol\u00edticos, o que torna a nossa democracia ainda mais fr\u00e1gil. E, sobretudo, \u00e9 uma democracia que est\u00e1 sempre em perigo, no sentido do crescimento dos discursos populistas, como n\u00f3s temos visto agora em escala global.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 pra dizer que \u00e9 a mesma coisa, porque cada momento, cada contexto apresenta novos desafios. E n\u00f3s estamos aqui nesse desafio de pensar o que \u00e9 esse mundo das redes sociais e esse mundo em que novos autocratas \u2014 no masculino mesmo, brancos em geral \u2014 t\u00eam compartilhado essa forma, essa maneira de governo, n\u00e9? Um governo muito populista e muito autorit\u00e1rio, pautado na coer\u00e7\u00e3o e pautado na censura.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pra repetir: sim, hist\u00f3ria \u00e9 feita de reitera\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 tamb\u00e9m feita de mudan\u00e7a. E, por outro lado, a hist\u00f3ria nunca se repete igualmente. E \u00e9 preciso tamb\u00e9m pensar nos desafios tendo em vista os perfis mais contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p><strong>A senhora dedicou parte fundamental de sua obra a desnudar o mito da democracia racial. Hoje, com o avan\u00e7o dos debates e das pol\u00edticas afirmativas, a senhora percebe uma fratura real no \u201cpacto da branquitude\u201d ou uma reacomoda\u00e7\u00e3o de suas estruturas de poder, talvez de forma mais sutil?<\/strong><\/p>\n<p>A pergunta \u00e9 excelente e muito dif\u00edcil. Eu tenho estudado sim o mito da democracia racial e, sobretudo, o papel da branquitude. Essa presen\u00e7a ausente \u00e9 o tema do meu \u00faltimo livro:<em> Imagens da Branquitude: A Presen\u00e7a da Aus\u00eancia<\/em> (Companhia das Letras, 2024).<\/p>\n<p>A branquitude \u00e9 uma esp\u00e9cie de classifica\u00e7\u00e3o em que aqueles que elaboram a classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se autoclassificam \u2014 as popula\u00e7\u00f5es brancas que se entendem como neutras e sem ra\u00e7a, quando t\u00eam ra\u00e7a, sim. A branquitude \u00e9 uma esp\u00e9cie de norma\u2026 que vale para os outros, mas n\u00e3o para aqueles que realizam essas normas e que n\u00e3o se nomeiam. Por isso, ela \u00e9 um pacto silencioso, n\u00e9? Um pacto narc\u00edsico, como diria a Cida Bento.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/HUCITEC-basaglia1-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/HUCITEC-basaglia1-4.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/HUCITEC-basaglia1-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>No entanto, desde os anos 1970, da d\u00e9cada de 70, e gra\u00e7as aos movimentos negros, o tema tem aparecido de maneira mais frequente na nossa agenda contempor\u00e2nea. Isso tem criado um processo muito importante na sociedade brasileira, em que n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o f\u00e1cil negar a exist\u00eancia de preconceito racial, como era comum at\u00e9 antes desse per\u00edodo. As pessoas simplesmente negavam o racismo. Agora, a quest\u00e3o das cotas, a quest\u00e3o das a\u00e7\u00f5es afirmativas, est\u00e3o mais presentes no ambiente educacional, at\u00e9 no empreendedorismo, eu diria. Essa \u00e9 uma ferida profunda da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>N\u00f3s costumamos falar de traumas no sentido mais individual. Que o trauma produz sil\u00eancios, se ele n\u00e3o for tratado, veiculado, vocalizado. Mas eu penso em traumas tamb\u00e9m no sentido coletivo. A quest\u00e3o racial no Brasil \u00e9 um tema que durante muito tempo ganhou o nosso sil\u00eancio. E o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 bom para lidar com traumas e grandes contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Brasil, n\u00f3s sabemos, foi o \u00faltimo pa\u00eds a abolir a escravid\u00e3o mercantil. Existem ainda outras formas de escravid\u00e3o no Brasil, porque a escravid\u00e3o virou uma linguagem no pa\u00eds. O Brasil teve escravizados e escravizadas em todo seu territ\u00f3rio e foi o pa\u00eds que recebeu o maior contingente de pessoas negras sequestradas do seu continente africano e provenientes de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es. Isso tudo criou uma naturaliza\u00e7\u00e3o da desigualdade. Ou seja, racismo virou uma linguagem. Uma linguagem no Brasil! E \u00e9 preciso que n\u00f3s enfrentemos essa grande contradi\u00e7\u00e3o. Como? Tratando dela, falando dela.<\/p>\n<p>Diferente dos Estados Unidos, em que a popula\u00e7\u00e3o autodeclarada de <em>African-American<\/em> \u00e9 uma minoria, corresponde de 13 a 17% a depender do censo, no Brasil estamos falando de uma popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 maioria: 56,4%, segundo o \u00faltimo censo \u2013 se n\u00f3s colocarmos juntos o crit\u00e9rio de pessoas pretas e pardas, conforme a classifica\u00e7\u00e3o do IBGE.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como diz Richard Santos, e eu tamb\u00e9m trabalho muito com esse conceito, estamos nos referindo a maiorias minorizadas na representa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 verdade que superamos essa quest\u00e3o. Claro que n\u00e3o. Ah, mas pelo menos estamos veiculando, falando dela.<\/p>\n<p>Agora, eu temo o futuro porque esses mesmos governos autocr\u00e1ticos, ao que eu me referi, t\u00eam produzido uma esp\u00e9cie de <em>backlash<\/em>. J\u00e1 \u00e9 muito vis\u00edvel nos Estados Unidos como a discuss\u00e3o da quest\u00e3o racial e de pol\u00edticas de afirma\u00e7\u00e3o positiva n\u00e3o t\u00eam mais o mesmo impacto que existia anteriormente, haja visto empresas como a Google que tinha pr\u00e1ticas de a\u00e7\u00e3o afirmativa e as t\u00eam retirado crescentemente. E esse discurso tem ganhado tamb\u00e9m impacto no Brasil.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ser\u00e1 preciso avaliar o que vem por a\u00ed, mas \u00e9 preciso que a sociedade civil brasileira se mobilize por direitos. E nessa mobiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podem ser apenas e t\u00e3o somente as popula\u00e7\u00f5es discriminadas, as popula\u00e7\u00f5es negras. \u00c9 preciso que a branquitude assuma o seu lugar. \u201cBranquitude\u201d eu n\u00e3o uso como categoria de acusa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso, mas como algo que precisa se converter numa ferramenta de an\u00e1lise para que a gente possa, de fato, enfrentar essa que \u00e9 uma das grandes contradi\u00e7\u00f5es da sociedade brasileira e que est\u00e1 na base da nossa desigualdade social.<\/p>\n<p><strong>Sendo uma das mais importantes intelectuais p\u00fablicas do pa\u00eds, como a senhora enxerga o papel do historiador hoje? Em uma era de revisionismos instant\u00e2neos e da velocidade das redes sociais, como podemos disputar a narrativa do passado de forma eficaz, mas sem abrir m\u00e3o do rigor?<\/strong><\/p>\n<p>Deixo essa defini\u00e7\u00e3o de \u201cmais importantes intelectuais p\u00fablicas do pa\u00eds\u201d, com certeza n\u00e3o sou, mas posso responder \u00e0 quest\u00e3o. Eu n\u00e3o tinha antes redes sociais, entrei por conta de Jair Bolsonaro, do contexto do bolsonarismo e do revisionismo, pois ele usou a hist\u00f3ria como uma esp\u00e9cie de <em>player<\/em>. A hist\u00f3ria que ele recontava, tanto na ideia de que n\u00f3s n\u00e3o tivemos uma invas\u00e3o, mas um \u201cdescobrimento\u201d, e o papel da Igreja, mas sobretudo o revisionismo no que se refere \u00e0 ditadura militar, a qual elogiava. Ele tentou apagar, como diz Heloisa Starling, a m\u00e1quina de morte produzida pela ditadura.<\/p>\n<p>Fui \u00e0s redes justamente para combater esse tipo de discurso. Eu acho que durante muito tempo, os setores progressistas agiram com muito preconceito com as redes sociais. A primeira elei\u00e7\u00e3o no Brasil ganha pelas redes sociais foi de Jair Bolsonaro. E os setores progressistas n\u00e3o estavam preparados para isso. Como n\u00e3o est\u00e3o. Ainda, eu devo tudo \u00e0 academia, \u00e0 USP, sou uma pessoa formada pela universidade p\u00fablica de qualidade, mas durante muito tempo a universidade teve muito preconceito com rela\u00e7\u00e3o a esse tipo de produ\u00e7\u00e3o de boa informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu sou uma pessoa que acredito na boa informa\u00e7\u00e3o. E essa boa informa\u00e7\u00e3o precisa ganhar o tamanho, o local, a plataforma que for necess\u00e1ria. E eu trabalho muito com releituras, com essa ideia de contramem\u00f3rias, e trabalho muito com imagens tamb\u00e9m. E como as imagens t\u00eam sido profundamente manipuladas sem uma leitura cr\u00edtica das mesmas.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel manter o rigor. Continuo publicando os meus livros, publicando ensaios em revistas acad\u00eamicas, participando de n\u00facleos de pesquisa do CNPq, dou aulas na USP e em Princeton, mas acho que n\u00f3s precisamos disputar esse espa\u00e7o das m\u00eddias sociais com qualidade, com boa informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 os excelentes jornalistas investigativos, mas tamb\u00e9m historiadores, cientistas sociais de uma forma geral, no sentido de dar informa\u00e7\u00f5es avalizadas para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O debate global sobre a ressignifica\u00e7\u00e3o de monumentos e da mem\u00f3ria p\u00fablica tem sido intenso no Brasil. Como a senhora, que estudou a fundo a constru\u00e7\u00e3o dos nossos s\u00edmbolos nacionais, analisa esse processo? Trata-se de um necess\u00e1rio acerto de contas com o passado ou corremos o risco de cair em anacronismos que mais apagam do que iluminam a hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria sempre foi feita a partir de novas perguntas. Ent\u00e3o, n\u00f3s vivemos, sim, um novo momento em que consideramos que a nossa historiografia, durante muito tempo, foi uma historiografia muito pautada por modelos ocidentais de produ\u00e7\u00e3o do passado. Uma historiografia que usava de fontes muito coloniais, muito masculinas e muito brancas. H\u00e1 todo um movimento historiogr\u00e1fico da maior import\u00e2ncia \u2013 e n\u00e3o se trata de destruir nada, mas de acrescentar muito.<\/p>\n<p>Por exemplo, no que se refere \u00e0 hist\u00f3ria da nossa Independ\u00eancia. N\u00e3o vamos negar que existiu o 7 de setembro de 1822. Mas \u00e9 preciso dizer o contexto em que o evento aconteceu, cuja significa\u00e7\u00e3o s\u00f3 foi crescentemente constru\u00edda, primeiro por Pedro I, em 1823, que foi o primeiro a mencionar o \u201cgrande evento \u00e0s margens do Ipiranga\u201d, e depois em 1922, quando S\u00e3o Paulo, de alguma maneira, sequestra a independ\u00eancia para um universo paulista, aventuroso e progressista.<\/p>\n<p>Hoje, n\u00f3s sabemos tamb\u00e9m que o 7 de Setembro foi come\u00e7o de conversa, n\u00e3o final. Se a gente for pensar o processo de independ\u00eancia na Bahia, foi um processo muito mais popular, com mais lutas. Ent\u00e3o, esse mito da nossa independ\u00eancia pac\u00edfica, palaciana, precisa ser revisto.<\/p>\n<p>Como faremos isso? A\u00ed, vamos estudar. Particularmente, n\u00e3o me parece que vamos destruir monumentos, n\u00e3o \u00e9 dessa maneira. N\u00f3s precisamos, isso sim, \u00e9 questionar esses monumentos. Precisamos entender por que 97%, num levantamento que fizemos h\u00e1 pouco tempo na USP, dos monumentos s\u00e3o eminentemente de homens e homens brancos. Por que \u00e9 que nomes de avenidas ainda mant\u00eam homenagens a ditadores?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a minha perspectiva n\u00e3o \u00e9 de eliminar nada, mas tornar a nossa vis\u00e3o muito mais cr\u00edtica. E, no que se refere aos monumentos, produzir outros,  alternativos, que tenham mais mulheres, pessoas negras, pessoas ind\u00edgenas, outros eventos hist\u00f3ricos. Assim como devemos questionar, sim, figuras como os Bandeirantes, que foram, de fato, apresadores de negros e apresadores de ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>N\u00e3o vale contar a hist\u00f3ria pela metade. \u00c9 melhor que a gente conte a hist\u00f3ria a partir desses v\u00e1rios \u00e2ngulos. S\u00f3 assim teremos uma hist\u00f3ria de bra\u00e7os dados com a democracia.<\/p>\n<p><strong>Se <em>Brasil: Uma Biografia<\/em> ganhasse um novo cap\u00edtulo, n\u00e3o sobre o passado, mas como uma prospec\u00e7\u00e3o para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, qual seria o conflito central, o principal enredo, que a historiadora Lilia Schwarcz identificaria como definidor para o futuro do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Olha, a \u00faltima pergunta, Heloisa <em>[Starling, historiadora]<\/em> e eu estamos trabalhando em um novo cap\u00edtulo, por coincid\u00eancia. N\u00e3o vamos reescrever o livro, mas vamos incluir bastante coisas: a import\u00e2ncia de personagens femininas; n\u00e3o s\u00f3 numa perspectiva de transformar mulheres em hero\u00ednas, mas de incluir mais diversidade, de tornar a nossa hist\u00f3ria mais interessante nesse sentido.<\/p>\n<p>O livro foi publicado h\u00e1 15 anos e o Brasil passou por muitos processos. O governo Jair Bolsonaro foi muito significativo. Talvez a grande quest\u00e3o seja: que democracia n\u00f3s estamos falando? Que democracia n\u00f3s queremos? Uma vez que conceitos como democracia e livre arb\u00edtrio passaram a fazer parte de um grupo de extrema direita que os maquiou de forma muito clara e muito s\u00e9ria\u2026 <\/p>\n<p>Se formos escrever,  ser\u00e1 isso: de que democracia n\u00f3s falamos agora, em 2025, e que projeto temos de democracia para esses anos futuros, pensando-a sempre como um projeto inconcluso. Essa \u00e9 a fal\u00e1cia e essa \u00e9 a beleza desse regime. Beleza porque na democracia sempre cabem mais direitos. Fal\u00e1cia porque \u00e9 preciso lutar por direitos, conquistar direitos.<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><em>Ap\u00f3s a entrevista, por mensagem de texto, a Lilia Schwarcz destacou um ponto que considera definidor para o enredo do pa\u00eds nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Al\u00e9m da complexa redefini\u00e7\u00e3o do conceito de democracia, haveria um elemento que, segundo ela, \u00e9 indissoci\u00e1vel do autoritarismo recente: \u201ca quest\u00e3o das religi\u00f5es pentecostais \u00e9 central ao autoritarismo brasileiro\u201d. Ela aponta que o tema \u201ctamb\u00e9m entrar\u00e1 nessa nova \u2018conclus\u00e3o\u2019 de Brasil uma biografia\u201d. A historiadora justificou a necessidade da inclus\u00e3o como uma atualiza\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise original, explicando que, \u00e0 \u00e9poca da primeira publica\u00e7\u00e3o do livro, ela e Heloisa Starling \u201cn\u00e3o t\u00ednhamos visto o fen\u00f4meno crescer dessa maneira\u201d.<\/em><\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Lilia Schwarcz: O Brasil das tenta\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasil-teve-papel-de-destaque-na-negociacao-do-acordo-de-pandemias-afirma-ministro-da-saude\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/image-1024x128-1-42-150x128.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Brasil teve papel de destaque na negocia\u00e7\u00e3o do Aco...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pl-da-anistia-vladimir-safatle-defende-punicao-para-preservar-a-democracia\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">PL da Anistia: Vladimir Safatle defende puni\u00e7\u00e3o pa...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/missao-artemis-2-entra-na-influencia-gravitacional-da-lua\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/76676735_303-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Miss\u00e3o Artemis 2 entra na influ\u00eancia gravitacional...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/conab-anuncia-compra-de-110-mil-toneladas-de-arroz-para-estimular-a-producao-no-rs\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-1-21-150x128.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Conab anuncia compra de 110 mil toneladas de arroz...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Intelectual analisa o trauma coletivo deixado pelo colonialismo \u2013 e como a distor\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria tornou-se arma da ultradireita. Aponta a urg\u00eancia da Academia disputar as redes. E provoca: apesar de sempre inconcluso, qual o nosso projeto de democracia para o futuro?<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/lilia-schwarcz-o-brasil-das-tentacoes-autoritarias\/\">Lilia Schwarcz: O Brasil das tenta\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":59894,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[3024,5494,5599,26342,3046,26343,10146],"tags":[],"class_list":["post-59893","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-autoritarismo","category-democracia-brasileira","category-descolonizacoes","category-escravidao-no-brasil","category-historia-do-brasil","category-lilia-schwarcz","category-passado-colonial"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59893","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59893"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59893\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59894"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}