{"id":60320,"date":"2025-10-24T19:09:56","date_gmt":"2025-10-24T22:09:56","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-era-das-relacoes-toxicas\/"},"modified":"2025-10-24T19:09:56","modified_gmt":"2025-10-24T22:09:56","slug":"a-era-das-relacoes-toxicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-era-das-relacoes-toxicas\/","title":{"rendered":"A era das rela\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1306\" height=\"717\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo-11.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo-11.jpeg 1306w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo-11-300x166.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo-11-768x422.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo-11-219x121.jpeg 219w\" sizes=\"(max-width: 1306px) 100vw, 1306px\"><figcaption>Arte: \u201cSeven Deadly Sins (1968)\u201d, de Vivian Browne<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Clotilde Leguil <\/strong>em entrevista a <strong>Amador Fern\u00e1ndez-Savater<\/strong>, no <em>CTXT<\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>\u201cTodos estamos em perigo\u201d, disse Pasolini em sua \u00faltima entrevista, poucas horas antes de ser assassinado. Esta frase me vem \u00e0 mente ao ler o \u00faltimo livro da psicanalista Clotilde Leguil, <em>A Era do T\u00f3xico<\/em> <em>\u2013 <\/em><em>E<\/em><em>nsaio sobre o novo mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em> [<em>sem tradu\u00e7\u00e3o para no Brasil]<\/em>. Todos estamos em perigo n\u00e3o apenas pela amea\u00e7a externa de poderes destrutivos para a vida, mas tamb\u00e9m pela possibilidade de que o veneno da destrutividade atue e se espalhe a partir do nosso pr\u00f3prio interior. N\u00f3s somos parte do perigo.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que Leguil se prop\u00f5e a pensar, escutando o que diz uma palavra-sintoma que circula hoje por toda parte: o \u201ct\u00f3xico\u201d. Com o aux\u00edlio da literatura, do cinema e da psican\u00e1lise, Leguil interpreta o t\u00f3xico como um novo imperativo de gozo, a compuls\u00e3o por uma satisfa\u00e7\u00e3o bruta e imediata, uma voracidade que n\u00e3o pode ser saciada de forma alguma. O mal do ilimitado. O regime do <em>hiper<\/em> (hiperatividade, hiperestimula\u00e7\u00e3o, hipersexualiza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Prancheta--15.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Prancheta--15.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O fil\u00f3sofo F\u00e9lix Guattari prop\u00f4s, h\u00e1 vinte e cinco anos, pensar interligados tr\u00eas \u201cecossistemas\u201d: o \u00edntimo, o relacional e o planet\u00e1rio. O ensaio de Leguil reflete sobre o \u201cveneno\u201d que hoje amea\u00e7a desertificar os tr\u00eas, esgotando o corpo individual, social e terrestre. E prop\u00f5e uma \u00e9tica do desejo, da responsabilidade perante o nosso desejo, como resist\u00eancia e limite.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"796\" height=\"540\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/images_cms-image-000038151.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/images_cms-image-000038151.jpg 796w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/images_cms-image-000038151-300x204.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/images_cms-image-000038151-768x521.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 796px) 100vw, 796px\"><figcaption>A psicanalista Clotilde Leguil. Foto: Ned Ediciones\/CTXT<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O MAL-ESTAR DO ILIMITADO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Apesar de Heidegger, que afirmava que a fala corrente \u00e9 uma fala \u201cinaut\u00eantica\u201d, repleta de clich\u00eas, a senhora decide escutar o mal-estar na linguagem ordin\u00e1ria e fixa-se numa palavra de uso corrente hoje: <em>o t\u00f3xico<\/em>. Um exerc\u00edcio de escuta anal\u00edtico, poder\u00edamos dizer, de um sintoma de \u00e9poca. Quais possibilidades e riscos tem este exerc\u00edcio de escuta? A senhora teme ter contribu\u00eddo para legitimar uma palavra que prov\u00e9m do \u00e2mbito da autoajuda, do <em>coaching<\/em>, da educa\u00e7\u00e3o sentimental das redes sociais?<\/strong><\/p>\n<p>Interessei-me por este significante do \u201ct\u00f3xico\u201d a partir do seu novo uso, que me fez levantar quest\u00f5es. Apostei em levar a s\u00e9rio esta extens\u00e3o do termo, pr\u00f3pria da nossa \u00e9poca. Hoje em dia, o t\u00f3xico j\u00e1 n\u00e3o designa apenas as subst\u00e2ncias em si, mas uma modalidade de rela\u00e7\u00e3o com o outro, que se assemelharia a um veneno. Partindo desta constata\u00e7\u00e3o, tentei interpretar esta nova met\u00e1fora do nosso mal-estar, uma nova met\u00e1fora que capturei primeiro atrav\u00e9s da linguagem, do discurso concreto, da forma como os sujeitos falam do seu mal-estar. N\u00e3o se trata apenas de usar esta palavra para legitim\u00e1-la, mas de interpret\u00e1-la e tentar ver o que ela abrange, de que \u00e9 sintoma.<\/p>\n<p><strong>O t\u00f3xico, diz a senhora, fala-nos de um novo mal-estar, do mal-estar espec\u00edfico da nossa \u00e9poca. J\u00e1 n\u00e3o estamos na \u00e9poca em que o mal-estar tinha a ver com a proibi\u00e7\u00e3o e a lei, com um esmagamento do desejo atrav\u00e9s da repress\u00e3o, mas houve uma mudan\u00e7a. Do que se trata?<\/strong><\/p>\n<p>Efetivamente, interpretei esta influ\u00eancia do t\u00f3xico nas rela\u00e7\u00f5es humanas a partir da psican\u00e1lise. Na minha opini\u00e3o, ela testemunha uma nova figura do Supereu, aquela que Lacan definiu em seu escrito <em>Kant com Sade<\/em> em 1963. Estar\u00edamos nos encontrando perante uma invers\u00e3o do Supereu da proibi\u00e7\u00e3o, do Supereu freudiano. E esta invers\u00e3o revelaria tamb\u00e9m a verdadeira fun\u00e7\u00e3o do Supereu, que \u00e9 sempre da ordem da for\u00e7atura, do for\u00e7amento. Este novo Supereu \u00e9 aquele que for\u00e7a a gozar cada vez mais. Produz o que Lacan chamou a busca de um <em>plus <\/em>de gozo, que se imp\u00f5e a cada um. O termo \u201ct\u00f3xico\u201d poderia dar testemunho dos efeitos deste \u201cexcesso\u201d de gozo, n\u00e3o no sentido de \u201cexcesso\u201d de prazer, mas no sentido de \u201cexcesso\u201d de for\u00e7amento do prazer, de exig\u00eancias pulsionais que aniquilam o desejo.<\/p>\n<p><strong>O t\u00f3xico, no uso corrente do termo, faz-nos pensar sempre que \u00e9 um problema do outro. O outro \u00e9 a pessoa t\u00f3xica da qual conv\u00e9m afastar-se, o t\u00f3xico vem de fora, etc. No entanto, a senhora complexifica o termo para nos dar a entender que o t\u00f3xico est\u00e1 em n\u00f3s mesmos. O \u201cfora\u201d, o que vem de fora, articula-se ou ativa algo \u201cdentro\u201d, no nosso pr\u00f3prio interior. Como \u00e9 essa dial\u00e9tica dentro-fora?<\/strong><\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/HUCITEC-eticadissidencia-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/HUCITEC-eticadissidencia-4.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/HUCITEC-eticadissidencia-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Sim, a experi\u00eancia t\u00f3xica, tal como a interpreto, \u00e9 da ordem de uma nova dial\u00e9tica entre o exterior e o interior. Algo do outro vem tocar o nosso corpo, como uma flecha envenenada que nos fere, mas, antes disso, tamb\u00e9m nos embriaga. \u00c9 o lado anfibol\u00f3gico do t\u00f3xico: por um lado, a experi\u00eancia t\u00f3xica faz experimentar uma forma de prazer estranho e novo; por outro lado, conduz a derivar para um gozo mau e destrutivo.<\/p>\n<div>\n<figure><img decoding=\"async\" width=\"357\" height=\"500\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-24-at-19-17-53-D_NQ_NP_612052-MLB83651479015_042025-Owebp-imagem-WEBP-357-500-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-24-at-19-17-53-D_NQ_NP_612052-MLB83651479015_042025-Owebp-imagem-WEBP-357-500-pixels.png 357w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-24-at-19-17-53-D_NQ_NP_612052-MLB83651479015_042025-O.webp-imagem-WEBP-357-\u00d7-500-pixels-214x300.png 214w\" sizes=\"(max-width: 357px) 100vw, 357px\"><\/figure>\n<\/div>\n<p><strong>A marca do excesso no nosso interior, diz a senhora, \u00e9 a \u201cpuls\u00e3o\u201d. O mandato de \u00e9poca impele \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o pulsional total. Mas, o que \u00e9 a puls\u00e3o? \u00c9 biol\u00f3gica, \u00e9 cultural? \u00c9 ontol\u00f3gica, \u00e9 hist\u00f3rica? Um cruzamento de ambas?<\/strong><\/p>\n<p>A puls\u00e3o, tal como a define Freud, \u00e9 uma for\u00e7a libidinal que se situa entre o som\u00e1tico e o ps\u00edquico. Direi com Lacan que a puls\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o que responde no corpo a uma ang\u00fastia perante o desejo do outro. \u00c9 a forma como o v\u00ednculo com o outro pode suscitar uma esp\u00e9cie de exig\u00eancia pulsional, \u00e0 qual o sujeito n\u00e3o consegue dizer \u201cn\u00e3o\u201d. A dimens\u00e3o da<em> h\u00fdbris<\/em>, do excesso, poderia ser a que evoca o termo \u201ct\u00f3xico\u201d. H\u00e1 algo que \u00e9 \u201cdemasiado\u201d e que provoca ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>No gozo, no t\u00f3xico, o outro, o diferente, desaparecem. Desaparece o v\u00ednculo, desaparece o tempo como dura\u00e7\u00e3o, desaparece o mundo compartilhado. Evaporam-se como simples instrumentos ou ocasi\u00f5es de gozo. Isso tem efeitos terr\u00edveis sobre o que F\u00e9lix Guattari chamava de \u201cas tr\u00eas ecologias\u201d: o ecossistema pessoal, o ecossistema social e o ecossistema terrestre. Em todos os tr\u00eas casos, um tipo de for\u00e7amento amea\u00e7a chegar at\u00e9 o colapso e o esgotamento (da energia, da aten\u00e7\u00e3o, dos v\u00ednculos).<\/strong><\/p>\n<p>Sim, no meu ensaio interessei-me por estes tr\u00eas campos: o campo \u00edntimo, o campo ecol\u00f3gico e o campo pol\u00edtico. Porque o interesse deste termo \u201ct\u00f3xico\u201d \u00e9 que se situa na encruzilhada dos tr\u00eas. Em cada um deles, o que se denomina \u201ct\u00f3xico\u201d \u00e9 o que p\u00f5e em perigo a vida, o que obriga os seres vivos a suportar uma estimula\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m do suport\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>O t\u00f3xico articula-se com a linguagem. H\u00e1 uma palavra que envenena. Como entender isto?<\/strong><\/p>\n<p>Situo a experi\u00eancia t\u00f3xica no n\u00edvel de uma modalidade do discurso que exige uma forma de for\u00e7amento pulsional que coloca o sujeito em perigo: uma frase t\u00f3xica seria uma frase que envenena o sujeito, injetando em seu corpo uma forma de cren\u00e7a, mas tamb\u00e9m transgredindo uma fronteira. Penso nos discursos t\u00f3xicos como aqueles que te fazem abandonar toda \u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>Poder\u00edamos entender assim o discurso das novas ultradireitas? Um discurso que induz e justifica a rejei\u00e7\u00e3o ao diferente (as mulheres, os migrantes), a cegueira em rela\u00e7\u00e3o aos limites (as desigualdades, o entorno natural), etc. Judith Butler fala do \u201csadismo desavergonhado\u201d de Trump como novo tipo de poder, uma nova ret\u00f3rica de poder, uma nova exibi\u00e7\u00e3o do poder.<\/strong><\/p>\n<p>Podemos falar de toxicidade do poder, pensando na dimens\u00e3o predat\u00f3ria de certa modalidade de exerc\u00edcio do poder. O que h\u00e1 ent\u00e3o de t\u00f3xico nestes discursos \u00e9 a aboli\u00e7\u00e3o de toda rela\u00e7\u00e3o com a verdade, a hist\u00f3ria e a \u00e9tica. \u00c9 tamb\u00e9m o que se denomina p\u00f3s-verdade, que permite reescrever a Hist\u00f3ria. O apagamento da verdade hist\u00f3rica \u00e9 sempre um mau aug\u00fario. Lembremos <em>1984,<\/em> de George Orwell. O regime do Grande Irm\u00e3o, mediante uma propaganda cont\u00ednua, tenta envenenar a psique dos indiv\u00edduos at\u00e9 faz\u00ea-los renunciar a toda singularidade. O poder t\u00f3xico \u00e9 aquele que conduz \u00e0 ren\u00fancia de toda \u00e9tica. Portanto, continua a ser necess\u00e1rio perguntar-se sempre: \u201cA que obedecemos? Em que acreditamos? A que consentimos?\u201d.<\/p>\n<p><strong>A RESIST\u00caNCIA DO DESEJO<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil limitar o gozo. N\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o racional, de informa\u00e7\u00e3o, de melhores argumentos ou novas pedagogias, mas sim de algo do corpo. O mal, o perigo, est\u00e3o no corpo. O que cura, o que salva, portanto, tamb\u00e9m deve provir do corpo. Aqui encontro um limite ao racionalismo progressista da esquerda, t\u00e3o confiante sempre no discurso, na pol\u00edtica da explica\u00e7\u00e3o, mas t\u00e3o ignorante por vezes do corpo, da realidade pulsional.<\/strong><\/p>\n<p>A busca de um limite \u00e9 o resultado de uma forma de ang\u00fastia perante esta desmedida, perante esta deriva. Mas este limite n\u00e3o depender\u00e1 de nenhuma pedagogia. Porque, com a experi\u00eancia t\u00f3xica, trata-se daquilo que o sujeito n\u00e3o compreende, n\u00e3o sabe, n\u00e3o v\u00ea. Portanto, trata-se tamb\u00e9m do inconsciente. E de um inconsciente que se acopla ao corpo, como diz Lacan em <em>Televis\u00e3o<\/em>. Por isso, a palavra na psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 da mesma ordem que uma racionaliza\u00e7\u00e3o ou uma introspec\u00e7\u00e3o. Trata-se de poder dizer o que nos supera, o que nos transborda, o que nos confronta tamb\u00e9m com um enigma na rela\u00e7\u00e3o com o desejo e o gozo.<\/p>\n<p><strong>Os limites cl\u00e1ssicos evaporam-se: o Saber, o Pai, a Lei mostram hoje uma face obscura, muito inquietante para o pensamento ilustrado. Retomando a an\u00e1lise de Lacan, a senhora faz uma cr\u00edtica das insufici\u00eancias de Kant e do seu imperativo categ\u00f3rico. Em que consiste essa cr\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>Lacan mostrou em<em> Kant com Sade<\/em> \u2013 escrito que a princ\u00edpio era um pref\u00e1cio para <em>A Filosofia no Boudoir<\/em> do Marqu\u00eas de Sade \u2013 uma proximidade entre o dever moral kantiano e o imperativo do gozo s\u00e1dico. Um seria a outra face do outro. Tanto no imperativo categ\u00f3rico kantiano quanto no imperativo do gozo sadiano, trata-se de sacrificar algo do pr\u00f3prio desejo e da rela\u00e7\u00e3o com o objeto do desejo. Em Kant, este sacrif\u00edcio faz-se em nome da rela\u00e7\u00e3o com o universal; em Sade, este sacrif\u00edcio faz-se em nome da necessidade de obedecer \u00e0 natureza, que segundo ele quer o crime, ou seja, o prazer sem limites. Portanto, deve existir uma terceira via, que abra caminho ao desejo.<\/p>\n<p><strong>A palavra \u00e9 <em>toxikon<\/em> e <em>ph\u00e1rmakon<\/em>. Pode envenenar o corpo, como dissemos antes, mas tamb\u00e9m pode acalm\u00e1-lo, alivi\u00e1-lo, cur\u00e1-lo. Que tipo de palavra \u00e9 essa que cura, ou pode curar, diferente, pelo que entendo, do mero Logos-Lei (deves\/n\u00e3o deves)?<\/strong><\/p>\n<p>Se algumas palavras podem ser t\u00f3xicas, ou seja, empurrar para a puls\u00e3o de morte, outras palavras podem ser rem\u00e9dios. A cura pela palavra que \u00e9 a psican\u00e1lise faz da experi\u00eancia de \u201cdizer\u201d um<em> ph\u00e1rmakon<\/em>. Tentar \u201cdizer\u201d o que nos envenenou tamb\u00e9m nos leva a desfazermo-nos disso, a desprender-nos disso, a separar-nos disso. Atrav\u00e9s da palavra como <em>ph\u00e1rmakon<\/em>, o sujeito volta a conectar com o seu desejo, ou seja, com o seu poder de agir. Porque, ao interpretar os conflitos e tormentos da sua exist\u00eancia, tamb\u00e9m pode perceber o ponto em que tem certa responsabilidade na forma como responde aos acontecimentos da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O que pode limitar o gozo \u00e9 o desejo. \u00c9 a proposta forte do livro, desenvolvida na sua \u00faltima parte. Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre gozo e desejo? Por que \u201cs\u00f3 o desejo pode desintoxicar-me\u201d?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, esta distin\u00e7\u00e3o lacaniana entre desejo e gozo \u00e9 fundamental, j\u00e1 que proporciona uma orienta\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Permite ver com maior clareza a quest\u00e3o: \u201cMas o que \u00e9 o bom?\u201d Ou tamb\u00e9m: \u201cComo saber o que devo fazer?\u201d, \u201cComo saber se devo dar r\u00e9dea solta a uma forma de gozo ou se devo virar noutra dire\u00e7\u00e3o?\u201d. A f\u00f3rmula de Lacan no seu semin\u00e1rio sobre <em>A \u00c9tica da Psican\u00e1lise<\/em>, \u201cn\u00e3o ceder no desejo\u201d, permite valorizar o desejo como um ant\u00eddoto contra a puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p><strong>Essa \u00faltima parte, aviso, est\u00e1 escrita em primeira pessoa. Pensando o tempo todo que o seu livro aborda o problema do gozo nos seus aspetos sociais, coletivos, pol\u00edticos (emerg\u00eancia clim\u00e1tica, <em>management<\/em>, poder t\u00f3xico), pergunto-me: h\u00e1 uma dimens\u00e3o ou declina\u00e7\u00e3o coletiva, pol\u00edtica, partilhada do desejo? Podemos conceber \u201cpol\u00edticas do desejo\u201d, ant\u00eddotos coletivos?<\/strong><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com o desejo n\u00e3o \u00e9 alheia \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o e trata-se precisamente de abrir um caminho ao desejo para que a civiliza\u00e7\u00e3o seja em si mesma desej\u00e1vel. Neste sentido, h\u00e1 uma dimens\u00e3o pol\u00edtica na \u00e9tica do desejo.<\/p>\n<p>Em cada um dos meus livros, direi que h\u00e1 um elogio da singularidade do sujeito, do valor do desejo, mas tamb\u00e9m da necessidade do encontro. Porque o desejo sempre sup\u00f5e tamb\u00e9m o encontro com o \u201cdesejo do outro\u201d. Como escreveu Alexandre Koj\u00e8ve, o grande introdutor de Hegel em Fran\u00e7a, a nossa hist\u00f3ria \u00e9 sempre a dos \u201cdesejos desejados\u201d. Este \u00e9, a prop\u00f3sito, o tema do meu novo ensaio: <em>O Desprendimento \u2013 <\/em><em>E<\/em><em>nsaio sobre as molas \u00edntimas da desobedi\u00eancia<\/em>, que acaba de ser publicado.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post A era das rela\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ia-as-novas-plataformas-do-caos\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sem-titulo-6-150x150.jpeg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">IA: As novas plataformas do caos<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/conferencia-de-joelle-pages-pindon\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/1-24-150x150.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Confer\u00eancia de Jo\u00eblle Pag\u00e8s-Pindon<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ex-refem-israelense-revela-que-hamas-permitiu-pratica-do-judaismo-em-gaza\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/release_of_agam_berger_january_30_2025_january_2025._viii-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Ex-ref\u00e9m israelense revela que Hamas permitiu pr\u00e1t...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/8-de-janeiro-stf-ja-condenou-mais-de-800-reus-pela-trama-golpista\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/Estatua-A-Justica-em-frente-ao-STF-foi-pichada-durante-atos-antidemocraticos-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">8 de janeiro: STF j\u00e1 condenou mais de 800 r\u00e9us pel...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1logo com a psicanalista Clotilde Leguil, sobre novo livro. 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