{"id":60837,"date":"2025-10-28T04:00:00","date_gmt":"2025-10-28T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ilha-do-combu-do-palco-de-mariah-carey-as-mudancas-climaticas\/"},"modified":"2025-10-28T04:00:00","modified_gmt":"2025-10-28T07:00:00","slug":"ilha-do-combu-do-palco-de-mariah-carey-as-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ilha-do-combu-do-palco-de-mariah-carey-as-mudancas-climaticas\/","title":{"rendered":"Ilha do Combu: do palco de Mariah Carey \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p>A Ilha do Combu \u00e9 a quarta maior ilha do munic\u00edpio de Bel\u00e9m, com 15,9 quil\u00f4metros quadrados de extens\u00e3o, localizada a apenas 1,5 quil\u00f4metro do centro da capital paraense. Cercada pelo rio Guam\u00e1, pelo furo S\u00e3o Benedito, pelo furo da Paci\u00eancia e pela Ba\u00eda do Guajar\u00e1, o Combu forma um mosaico de rios, igarap\u00e9s e floresta de v\u00e1rzea que sustenta uma popula\u00e7\u00e3o estimada em cerca de 1,5 mil habitantes, segundo a Prefeitura de Bel\u00e9m (furos s\u00e3o esp\u00e9cies de \u201ccanais\u201d de \u00e1gua, formados naturalmente pr\u00f3ximos a rios e lagos).<\/p>\n<p>A regi\u00e3o \u00e9 reconhecida como uma comunidade ribeirinha tradicional e os moradores da ilha t\u00eam sua economia baseada na pesca artesanal e no extrativismo, sobretudo do a\u00e7a\u00ed, que al\u00e9m de alimento \u00e9 fonte de renda e identidade cultural para as fam\u00edlias que vivem \u00e0s margens do Guam\u00e1.<\/p>\n<figure><figcaption>Ilhas do Combu e do Murutucum (Bel\u00e9m, Par\u00e1)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Recentemente, a ilha ganhou os holofotes com o mega show da cantora pop norte-americana Mariah Carey, produzido pelo Rock in Rio no meio do rio Guam\u00e1, em Bel\u00e9m. O evento foi apresentado como uma a\u00e7\u00e3o para chamar aten\u00e7\u00e3o para a Amaz\u00f4nia e promover o debate sobre sustentabilidade.<\/p>\n<p>O palco flutuante, erguido em meio \u00e0 floresta, foi criado para ser um s\u00edmbolo de rever\u00eancia \u00e0 Amaz\u00f4nia. O investimento milion\u00e1rio, onde s\u00f3 o palco custou R$30 milh\u00f5es, tinha o prop\u00f3sito declarado de \u201cdar visibilidade \u00e0 regi\u00e3o\u201d e levantar debates sobre a preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Mas, nas margens de onde o som ecoou, os moradores da Ilha do Combu se questionam sobre a forma como a ilha est\u00e1 sendo vista. <span>\u201cSer\u00e1 que a gente precisa mesmo de mais holofote? Ou de algu\u00e9m que olhe de verdade pra c\u00e1?\u201d<\/span>, questiona Iracema Santos, moradora nascida e criada na ilha e empreendedora local de ecoturismo.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, o Combu deixou de ser apenas uma das ilhas que abastecem Bel\u00e9m com frutas e peixes para se tornar ponto tur\u00edstico obrigat\u00f3rio de quem visita a capital paraense. Cortada por furos e igarap\u00e9s, a ilha hoje abriga grandes empreendimentos de bares e restaurantes erguidos \u00e0s margens dos rios, muitos deles de propriet\u00e1rios que n\u00e3o vivem na ilha.<\/p>\n<figure><figcaption>Na beira dos furos da ilha, bares e restaurantes se acumulam. Na \u00e1gua, lanchas e jet ski passam a toda velocidade.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Esses empreendimentos exploram o potencial paisag\u00edstico e econ\u00f4mico do territ\u00f3rio, mas nem sempre demonstram compromisso com o meio ambiente ou com a comunidade local, que h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es vivem da floresta e do rio.<\/p>\n<p><span>Enquanto o espet\u00e1culo musical exaltava a floresta como cen\u00e1rio, o que n\u00e3o apareceu nas c\u00e2meras foram as casas amea\u00e7adas pela eros\u00e3o, as \u00e1rvores tombando no barranco e os igarap\u00e9s contaminados pelo lixo e pelo cloro das piscinas dos restaurantes.<\/span> A visibilidade que chega de fora tem sido, para muitos ribeirinhos, sin\u00f4nimo de press\u00e3o, especula\u00e7\u00e3o, medo e perda.<\/p>\n<div>\n<div>\n    <strong>E a COP30 com isso?<\/strong>\n  <\/div>\n<div>\n<ul>\n<li>\nO show de Mariah Carey e de artistas brasileiros como Dona Onete, Gaby Amarantos e Zaynara foi apresentado como um evento de conscientiza\u00e7\u00e3o ambiental na cidade que receber\u00e1 a COP30.\n      <\/li>\n<li>\nContudo, al\u00e9m de n\u00e3o atuar para resolver os problemas ambientais da \u00e1rea protegida, o evento teve patroc\u00ednio da mineradora Vale, respons\u00e1vel por grandes desastres ambientais no pa\u00eds, como os rompimentos das barragens em Mariana e Brumadinho.\n      <\/li>\n<li>\nA pr\u00e1tica aponta para a\u00e7\u00f5es de greenwashing, isto \u00e9, criar campanhas que tentam melhorar a imagem junto ao p\u00fablico dos impactos ambientais reais das empresas.\n      <\/li>\n<\/ul><\/div>\n<\/div>\n<h2><strong>Um territ\u00f3rio entre dois mundos<\/strong><\/h2>\n<figure><figcaption>Lanchas e pequenas embarca\u00e7\u00f5es saem a todo momento dos diversos portos que levam at\u00e9 a ilha. <\/figcaption><\/figure>\n<p>Localizada a poucos minutos do centro de Bel\u00e9m, a Ilha do Combu \u00e9 parte de um arquip\u00e9lago que abastece a capital com frutas, peixes e hortali\u00e7as.<\/p>\n<p>O territ\u00f3rio \u00e9 reconhecido como \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) desde 1997 e est\u00e1 sob responsabilidade do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-Bio), com o objetivo de conciliar conserva\u00e7\u00e3o e uso sustent\u00e1vel dos recursos naturais.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, a prote\u00e7\u00e3o tem apresentado falhas, segundo os pr\u00f3prios moradores. Nos \u00faltimos quinze anos, o avan\u00e7o do turismo e do capital urbano transformou o Combu em vitrine: restaurantes de luxo com acesso exclusivo por lancha, pier privativo, decks panor\u00e2micos e card\u00e1pios gourmet \u00e0 base de a\u00e7a\u00ed.<\/p>\n<p><span>A poucos metros dali, fam\u00edlias ribeirinhas convivem com a falta de saneamento, o desabamento das margens e o sumi\u00e7o dos peixes.<\/span><\/p>\n<p>\u201cA ilha t\u00e1 muito movimentada, toda hora \u00e9 lancha, \u00e9 jet ski. A gente perde o terreno com a eros\u00e3o e j\u00e1 n\u00e3o pode mais pescar no nosso igarap\u00e9. Outra coisa ruim \u00e9 que toda hora tem gente estranha passando aqui. Antigamente viv\u00edamos tranquilos, ningu\u00e9m fechava portas. Hoje precisamos estar sempre cuidadosos\u201d, lamenta<strong> <\/strong>Ivanete dos Santos, 67 anos, uma das fundadoras da Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres Extrativistas (AME) da ilha.<\/p>\n<p>Na mar\u00e9 alta, o barulho \u00e9 constante. Cada embarca\u00e7\u00e3o que passa forma ondas, o chamado banzeiro, que batem contra a terra e arrancam peda\u00e7os da margem.<\/p>\n<p>\u201cCada banzeiro desses vai comendo o barranco. Se tivesse fiscaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tava assim. Tem placa, tem lei, mas n\u00e3o tem fiscaliza\u00e7\u00e3o. A lancha da pol\u00edcia s\u00f3 aparece quando tem um evento grande\u201d, denuncia. A APA tem regras claras sobre velocidade e tr\u00e1fego de embarca\u00e7\u00f5es, mas segundo a moradora ningu\u00e9m cumpre.<\/p>\n<p>A idosa compara a aus\u00eancia do Estado \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o vista durante o show de Mariah Carey. \u201cPara aquele show vieram centenas de policiais, helic\u00f3ptero, tudo. Mas se a gente ligar pra pedir socorro, dizem que n\u00e3o tem transporte. \u00c9 assim que tratam a gente\u201d, completa.<\/p>\n<p>A fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental na ilha \u00e9 de responsabilidade da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma Bel\u00e9m), com apoio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), enquanto o controle do tr\u00e1fego de embarca\u00e7\u00f5es cabe \u00e0 Marinha do Brasil. A reportagem procurou a Semma,Sema e a Marinha para falar sobre a fiscaliza\u00e7\u00e3o na \u00e1rea, mas n\u00e3o recebeu resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste texto.<\/p>\n<h2><strong>Um ecossistema fora do equil\u00edbrio<\/strong><\/h2>\n<figure><\/figure>\n<p>O Combu \u00e9 uma ilha de v\u00e1rzea \u2014 \u00e1rea alag\u00e1vel que fica parcialmente submersa durante as cheias dos rios \u2014, onde os ciclos da floresta e da mar\u00e9 sempre determinaram o ritmo da vida e do trabalho. Mas esses ciclos est\u00e3o se desorganizando. \u201cO cacau e a andiroba n\u00e3o t\u00eam mais a \u00e9poca certa. \u00c0s vezes a flor nasce e cai antes de virar fruto, porque o calor t\u00e1 demais ou a chuva vem fora de hora\u201d, explica Santos.<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas, ela e outras mulheres produzem o tradicional \u00f3leo de andiroba, s\u00edmbolo do saber ribeirinho e da medicina popular. Mas a produ\u00e7\u00e3o caiu drasticamente. \u201cA semente n\u00e3o presta mais. Fica pequena, seca. E sem produ\u00e7\u00e3o, a gente perde renda, perde o costume. As frutas tamb\u00e9m est\u00e3o sumindo, e os animais est\u00e3o sofrendo.\u201d<\/p>\n<div>\n<figure><figcaption>Charles Teles conduz grupo de turistas em uma trilha ecol\u00f3gica.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Quem tamb\u00e9m sente os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 Iracema dos Santos, 41 anos. Junto do marido, Charles Teles, 47, ela mant\u00e9m o Igara Artesanal, um espa\u00e7o cultural onde recebe turistas para viv\u00eancias ribeirinhas \u2014 como a do a\u00e7a\u00ed e do camar\u00e3o \u2014 e trilhas ecol\u00f3gicas pela mata. Mas h\u00e1 tr\u00eas anos a atividade ligada ao camar\u00e3o foi suspensa.<\/p>\n<p>\u201cO camar\u00e3o sumiu. Era dele que a gente vivia entre uma safra e outra do a\u00e7a\u00ed. Agora n\u00e3o tem mais, e ningu\u00e9m sabe direito o motivo. Pode ser o calor, as lanchas, o cloro das piscinas que caem no rio\u2026 Tudo isso junto\u201d, lamenta Iracema.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e9 exemplo de quem tem buscado novos caminhos para viver em harmonia com a floresta. Charles trabalhou boa parte da vida como madeireiro, derrubando \u00e1rvores para a constru\u00e7\u00e3o de casas. H\u00e1 alguns anos, aposentou a motosserra e passou a investir em turismo de base comunit\u00e1ria. \u201cEra muito triste ver uma \u00e1rvore imensa, que levou centenas de anos pra crescer, cair em poucos minutos. Hoje, cem por cento da nossa renda vem da floresta em p\u00e9\u201d, conta.<\/p>\n<p><span>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que alteram o regime de chuvas e aumentam a temperatura da \u00e1gua, somam-se \u00e0 polui\u00e7\u00e3o e ao turismo desordenado, afetando a pesca e a agricultura.<\/span> O calor excessivo, segundo os moradores, tem sido t\u00e3o intenso que cozinha os caro\u00e7os de a\u00e7a\u00ed ainda no cacho, fazendo com que caiam antes da hora.<\/p>\n<h2><strong>De posse \u00e0 explora\u00e7\u00e3o a sustentabilidade de vitrine<\/strong><\/h2>\n<figure><figcaption>A especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria tem levado muitas fam\u00edlias a venderem suas propriedades e passarem a trabalhar para os donos dos restaurantes. <\/figcaption><\/figure>\n<p>As fam\u00edlias que vivem no Combu n\u00e3o possuem t\u00edtulo de propriedade. Elas t\u00eam concess\u00f5es de uso da terra, concedidas pela Uni\u00e3o. Na pr\u00e1tica, isso deveria impedir a compra e venda irregular dos terrenos.<\/p>\n<p>\u201cO povo t\u00e1 vendendo sem saber pra quem. Quem compra \u00e9 gente da cidade, que constr\u00f3i restaurantes e ainda contrata o antigo dono pra trabalhar pra ele\u201d, relata Ivaneide. Segundo ela, essa nova din\u00e2mica social criou uma divis\u00e3o de classes dentro da ilha: os \u201cdonos de restaurante\u201d, que lucram com o turismo, e os moradores, que perdem territ\u00f3rio e autonomia.<\/p>\n<p>\u201cTem gente que diz que o ribeirinho \u00e9 parceiro, mas ele \u00e9 s\u00f3 fachada. Bota o morador na frente pra parecer comunit\u00e1rio, mas quem ganha de verdade \u00e9 o empres\u00e1rio\u201d, explica Iracema.<\/p>\n<p>Para o professor Jos\u00e9 Guilherme Fernandes, da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA), a expans\u00e3o do turismo e do consumo nas ilhas de Bel\u00e9m repete um padr\u00e3o hist\u00f3rico. \u201cO que est\u00e1 acontecendo no Combu \u00e9 uma extens\u00e3o do modelo urbano de ocupa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o mesmo concreto e vidro que tomou Bel\u00e9m, agora empurrando os limites da cidade para dentro do rio.\u201d<\/p>\n<p>Ele aponta que o fen\u00f4meno tem ra\u00edzes antigas: \u201cBel\u00e9m cresceu sobre \u00e1reas alagadas, aterrando igarap\u00e9s e v\u00e1rzeas. Agora, como n\u00e3o h\u00e1 mais para onde expandir, o olhar da especula\u00e7\u00e3o se volta para as ilhas\u201d.<\/p>\n<p>Existem dois Combus, afirma Fernandes. Ele afirma que para entender o Combu hoje \u00e9 preciso reconhecer que ele abriga dois territ\u00f3rios sobrepostos.<\/p>\n<p>\u201cGeograficamente, voc\u00ea tem dois Combus. O Combu da borda, o dos restaurantes, o das fotos nas redes sociais. \u00c9 aquele onde as pessoas chegam de lancha, almo\u00e7am, fazem uma selfie com os pr\u00e9dios de Bel\u00e9m ao fundo e dizem que est\u00e3o no meio da floresta\u201d, afirma.<\/p>\n<div>\n<figure><figcaption>Vista de Bel\u00e9m a partir da ilha do Combu.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Esse \u00e9 o Combu vis\u00edvel, glamourizado, tur\u00edstico e superficial. Os restaurantes se concentram na orla do rio Boa Morte, pr\u00f3ximos ao centro urbano, onde o visitante encontra conforto, sinal de internet e a sensa\u00e7\u00e3o de natureza domesticada.<\/p>\n<p>\u201cA maioria n\u00e3o quer entrar pra dentro da ilha, sentir o calor, o carapan\u00e3 (pernilongo), o barro. Quer o cen\u00e1rio, mas n\u00e3o a viv\u00eancia\u201d, observa Fernandes.<\/p>\n<p>Escondido entre os furos e igarap\u00e9s, existe outro Combu onde ainda se pratica o extrativismo, o cultivo do a\u00e7a\u00ed, a coleta da andiroba e do cacau. Ali, a floresta ainda dita o ritmo da vida, e o rio \u00e9 estrada, alimento e limite.<\/p>\n<p>O problema, segundo o pesquisador, \u00e9 que o discurso dominante de turismo ecol\u00f3gico, bioeconomia e sustentabilidade n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. Vende-se a ideia de um territ\u00f3rio sustent\u00e1vel, mas o que existe \u00e9 explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e especula\u00e7\u00e3o. \u00c9 o mesmo modelo urbano de consumo, s\u00f3 que embalado por uma est\u00e9tica verde.<\/p>\n<p>Fernandes defende que a ilha seja transformada em reserva extrativista, o que garantiria maior controle sobre a ocupa\u00e7\u00e3o e fortaleceria a participa\u00e7\u00e3o das comunidades.<\/p>\n<p>\u201cUma reserva permitiria que os pr\u00f3prios moradores definissem regras de uso e gest\u00e3o, com pol\u00edticas de incentivo aos jovens e prote\u00e7\u00e3o real do territ\u00f3rio. Hoje, o que h\u00e1 \u00e9 uma vitrine bonita, mas muito pouca sustentabilidade de fato\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>O discurso da \u201cvisibilidade da Amaz\u00f4nia\u201d tem sido apropriado por empresas e governos como s\u00edmbolo de sustentabilidade. Mas, na pr\u00e1tica, serve mais para refor\u00e7ar a imagem de uma floresta intocada do que para fortalecer quem a mant\u00e9m viva.<\/p>\n<p>\u201cSe h\u00e1 floresta em p\u00e9, \u00e9 porque algu\u00e9m cuidou dela. O morador do Combu sabe usar o que tem sem destruir. Mas ele n\u00e3o \u00e9 reconhecido nem protegido por isso\u201d, afirma Fernandes.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, transformar o Combu em reserva extrativista, com gest\u00e3o comunit\u00e1ria e regras de uso definidas pelos pr\u00f3prios moradores seria um passo importante para frear a especula\u00e7\u00e3o e valorizar quem produz de forma sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, o Combu ainda pulsa. As mulheres da AME seguem reunidas em mutir\u00f5es para extrair o \u00f3leo e a manteiga de andiroba, que viram pomadas e sabonetes naturais. Empreendedores ribeirinhos tentam resgatar o turismo de base comunit\u00e1ria, oferecendo viv\u00eancias de a\u00e7a\u00ed e passeios educativos.<\/p>\n<p>Mas, como diz Iracema, \u201c\u00e9 dif\u00edcil competir com o barulho das lanchas e o dinheiro dos de fora. O que a gente quer \u00e9 continuar vivendo aqui, do que a gente planta e colhe. N\u00e3o queremos impedir o turismo, s\u00f3 queremos que ele respeite a gente, que respeite o rio. Porque se continuar assim, vai chegar um dia em que o rio n\u00e3o vai mais estar aqui pra ningu\u00e9m ver\u201d, afirma Iracema.<\/p>\n<p>A ilha, que deveria ser \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o ambiental e produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel, hoje \u00e9 retrato das contradi\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas: um territ\u00f3rio explorado em nome da preserva\u00e7\u00e3o, uma popula\u00e7\u00e3o invis\u00edvel sob o discurso da visibilidade. \u201cA floresta n\u00e3o precisa de palco. Precisa de cuidado\u201d, resume Ivanete, olhando o rio que passa em frente da sua casa.<\/p>\n<p>O Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Par\u00e1 (Ideflor-Bio) informou que atua em parceria com \u00f3rg\u00e3os municipais, estaduais, federais e com as comunidades locais na gest\u00e3o da \u00c1rea de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (APA) da Ilha do Combu, em Bel\u00e9m.<\/p>\n<p>Segundo o \u00f3rg\u00e3o, foi conclu\u00eddo neste ano o novo Plano de Gest\u00e3o da APA do Combu, que define diretrizes para enfrentar problemas como eros\u00e3o das margens e turismo desordenado. O documento que come\u00e7ar\u00e1 a valer em 2026 exige que empreendimentos apresentem planos de controle e recupera\u00e7\u00e3o ambiental e estabelece tr\u00eas programas priorit\u00e1rios: uso p\u00fablico, educa\u00e7\u00e3o ambiental e manejo florestal n\u00e3o madeireiro, com foco no protagonismo comunit\u00e1rio e no turismo de base sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>O Ideflor-Bio informou ainda que iniciar\u00e1 uma campanha de comunica\u00e7\u00e3o para divulgar os novos regramentos e alinhar a implementa\u00e7\u00e3o do plano aos compromissos ambientais do Par\u00e1 na COP30.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/trade-between-russia-and-china-hit-record-high-in-2024\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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