{"id":61570,"date":"2025-10-31T04:00:00","date_gmt":"2025-10-31T07:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nascidos-no-caos-climatico\/"},"modified":"2025-10-31T04:00:00","modified_gmt":"2025-10-31T07:00:00","slug":"nascidos-no-caos-climatico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/nascidos-no-caos-climatico\/","title":{"rendered":"Nascidos no caos clim\u00e1tico"},"content":{"rendered":"<p>Patricia dos Santos estava confiante que sua primeira filha, Luna, viria ao mundo pelas m\u00e3os de sua av\u00f3, parteira experiente da comunidade ribeirinha onde ela mora, no munic\u00edpio de Alvar\u00e3es, no Amazonas. Os exames pr\u00e9-natais indicavam que estava tudo bem com a gesta\u00e7\u00e3o, e o m\u00e9dico havia lhe dito que um parto normal poderia tranquilamente ser feito em casa. Mas gravidez tem disso. \u00c0s vezes a complica\u00e7\u00e3o surge no \u00faltimo minuto.\u00a0<\/p>\n<p>E o \u00faltimo minuto n\u00e3o poderia vir em pior momento. Quando Patricia entrou em trabalho de parto, a av\u00f3\/parteira percebeu que a beb\u00ea havia se virado e estava sentada. E algo mais parecia estar errado com a neta. Era preciso levar Patricia para o hospital da cidade para fazer uma ces\u00e1rea. S\u00f3 que a comunidade Santa Luzia do Catuiri, onde elas moram, \u00e0 beira do Lago Tef\u00e9, estava isolada.\u00a0<\/p>\n<p>Era setembro de 2023, e a Amaz\u00f4nia passava por uma das mais graves estiagens do registro hist\u00f3rico. Foi naquele mesmo Lago Tef\u00e9 onde uma grande quantidade de botos morreu naquela mesma \u00e9poca, chamando a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia para a seca da regi\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Na frente da comunidade, o rio por onde os moradores se deslocam tinha sumido. Para sair dali, era preciso caminhar uma longa dist\u00e2ncia at\u00e9 um ponto com um pouco de \u00e1gua, onde estavam canoas que levariam at\u00e9 uma embarca\u00e7\u00e3o maior para a cidade de Tef\u00e9. Mas isso demoraria e seria penoso demais. \u201cEu e minha filha n\u00e3o \u00edamos aguentar, porque eu j\u00e1 estava cansada, e ela n\u00e3o tava respondendo muito, o cora\u00e7\u00e3o dela j\u00e1 tava fraquinho. E eu, com muita dor\u201d, contou Patricia \u00e0 <strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>Ela, ent\u00e3o, escolheu uma alternativa tamb\u00e9m tortuosa, mas que parecia mais r\u00e1pida. Um primo se ofereceu para lev\u00e1-la de moto por um novo ramal (uma estrada de terra) que tinha acabado de ser aberto, ligando a comunidade ao centro de Alvar\u00e3es. Patricia nunca tinha andado pelo ramal, mas resolveu arriscar.<\/p>\n<p>Amparada pela av\u00f3 \u2013 que tamb\u00e9m subiu na moto, servindo de anteparo e prote\u00e7\u00e3o \u00e0 neta \u2013 e sentindo fortes dores, Patricia sacolejou por mais de uma hora at\u00e9 a cidade. \u201cFoi muito desesperador. Eu pedia pra Deus for\u00e7a. Mas quanto mais a gente ia, ia, ia\u2026 mais longa parecia a estrada\u201d, lembra. Por algumas vezes, a dor era tanta que ela pulou da moto achando que a menina ia nascer ali mesmo, no meio do ramal.\u00a0<\/p>\n<p>Mas Luna s\u00f3 viria ao mundo j\u00e1 dentro do hospital, retirada da barriga da m\u00e3e em uma cirurgia delicada, j\u00e1 que Patricia, apenas naquele momento, descobriu ter tamb\u00e9m um mioma que impedia a passagem da beb\u00ea.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69045ec5e0670\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<p>Nascer em meio ao caos clim\u00e1tico, infelizmente, n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria exclusiva da pequena Luna. Tampouco deve ser este o \u00fanico evento extremo que ela vai enfrentar em sua vida. J\u00e1 n\u00e3o foi, na verdade. Em 2024, quando ela tinha apenas um ano, a Amaz\u00f4nia enfrentou uma nova seca, ainda mais severa, hist\u00f3rica, com temperaturas alt\u00edssimas. \u201cLuna era bem novinha e sofreu muito com o calor\u00e3o, viajando comigo por aquele mesmo bendito ramal para a gente tentar comprar comida na cidade, porque aqui ficou cara demais\u201d, conta Patricia.\u00a0<\/p>\n<p>Essa, por\u00e9m, deve ser uma realidade bem mais ampla, de milh\u00f5es de crian\u00e7as em todo o mundo, como v\u00eam mostrando diversos estudos cient\u00edficos e de organiza\u00e7\u00f5es de pediatria.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69045ec5e0a13\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<div>\n<div>\n    <strong>E a COP30 com isso?<\/strong>\n  <\/div>\n<div>\n<ul>\n<li>\nUm dos focos da Confer\u00eancia do Clima da ONU que ocorre em Bel\u00e9m em novembro \u00e9 apresentar diretrizes para que o mundo avance na adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que j\u00e1 est\u00e3o em curso. Devem ser definidos os chamados objetivos globais de adapta\u00e7\u00e3o (GGA), que podem orientar as a\u00e7\u00f5es locais. Pesquisadores defendem que as pol\u00edticas clim\u00e1ticas levem em conta as necessidades da primeira inf\u00e2ncia, considerando, principalmente, as desigualdades.\n      <\/li>\n<\/ul><\/div>\n<\/div>\n<h2><strong>Menores de 1 ano s\u00e3o os mais expostos a ondas de calor no mundo<\/strong><\/h2>\n<p>Crian\u00e7as de menos de 1 ano de idade e adultos de mais de 65 s\u00e3o os grupos et\u00e1rios que mais v\u00eam sendo impactados por ondas de calor em todo o mundo, como revela um relat\u00f3rio lan\u00e7ado nesta ter\u00e7a-feira (28) pela prestigiosa revista m\u00e9dica <em>The Lancet<\/em>.\u00a0<\/p>\n<p>O <em>Lancet Countdown on Health and Climate Change 2025<\/em>, desenvolvido em colabora\u00e7\u00e3o com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) e mais de 150 institui\u00e7\u00f5es, aponta que os beb\u00eas de menos de 1 ano foram expostos a um n\u00famero recorde de ondas de calor no ano passado, vivenciando quase 5 vezes mais (389%) dias de ondas de calor, na m\u00e9dia global, do que era a exposi\u00e7\u00e3o m\u00e9dia no per\u00edodo entre 1986 a 2005. Em 2024, os pequenos passaram, em m\u00e9dia, por 20,5 dias de calor\u00e3o.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69045ec5e0d96\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<p>O dado \u00e9 preocupante porque crian\u00e7as muito pequenas ainda n\u00e3o desenvolveram completamente o mecanismo de resfriar o corpo. Elas n\u00e3o transpiram como os adultos, o que pode levar \u00e0 insufici\u00eancia renal, convuls\u00f5es, coma ou at\u00e9 mesmo \u00e0 morte em casos extremos.<\/p>\n<p>Se o aquecimento global seguir no ritmo atual \u2013 de chegar a 2,7 \u00b0C ao fim do s\u00e9culo, levando em conta os planos de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es de gases de efeito estufa hoje em curso \u2013, a expectativa \u00e9 que <strong>aqueles nascidos a partir de 2020 dever\u00e3o vivenciar n\u00edveis sem precedentes de extremos clim\u00e1ticos ao longo de suas vidas<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 o que alerta um documento publicado neste ano pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Save the Children, que compilou uma s\u00e9rie de estudos cient\u00edficos, inclusive os avaliados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), trazendo um recorte dos impactos da crise clim\u00e1tica sobre as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Foi esta organiza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 havia calculado, em 2021, a partir de uma outra revis\u00e3o cient\u00edfica similar, que crian\u00e7as nascidas em 2020 viver\u00e3o de duas a sete vezes mais desastres clim\u00e1ticos que os seus av\u00f3s nascidos nos anos 1960.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Ao longo da vida, elas enfrentar\u00e3o em m\u00e9dia: 2 vezes mais inc\u00eandios florestais; 2,8 vezes mais exposi\u00e7\u00e3o a perdas de safra; 2,6 vezes mais secas; 2,8 vezes mais inunda\u00e7\u00f5es. E quase sete vezes mais ondas de calor.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma gera\u00e7\u00e3o que vai crescer entre eventos extremos.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69045ec5e112b\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<p>Este mesmo alerta foi uma das principais mensagens refor\u00e7adas por um relat\u00f3rio divulgado h\u00e1 alguns meses no Brasil pelo N\u00facleo Ci\u00eancia pela Inf\u00e2ncia (NCPI), iniciativa colaborativa capitaneada pela Funda\u00e7\u00e3o Maria Cec\u00edlia Souto Vidigal que produz e dissemina conhecimento cient\u00edfico sobre o desenvolvimento na primeira inf\u00e2ncia no Brasil a fim de orientar a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas para esta faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<p>O per\u00edodo inicial da vida dos seres humanos, que vai do zero aos seis anos, \u00e9 considerado pela ci\u00eancia como fundamental para o desenvolvimento da crian\u00e7a e a sa\u00fade que ela vai ter ao longo de toda a vida. Sendo que os primeiros mil dias de vida, que abrangem o per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dois anos de idade, s\u00e3o os mais cruciais. Por isso, o pr\u00f3prio estresse que a gestante passa j\u00e1 tem reflexos na forma\u00e7\u00e3o desse beb\u00ea.\u00a0<\/p>\n<p>Impactos de toda ordem nesta fase, que podem ser da viol\u00eancia \u00e0 fome, de um trauma psicol\u00f3gico \u00e0 polui\u00e7\u00e3o, de um deslocamento for\u00e7ado \u00e0 perda de familiares podem ter repercuss\u00f5es para a vida toda. E a mudan\u00e7a do clima se soma a isso, piorando quadros que j\u00e1 s\u00e3o de vulnerabilidade, afirma Marcia Castro, chefe do Departamento de Sa\u00fade Global e Popula\u00e7\u00e3o da Universidade Harvard e uma das coordenadoras do relat\u00f3rio do NCPI.<\/p>\n<p>\u201cAlguns desses efeitos do clima podem gerar processos inflamat\u00f3rios, podem gerar modifica\u00e7\u00f5es no organismo da crian\u00e7a que v\u00e3o ter efeitos na vida adulta e na velhice, que est\u00e3o associados com doen\u00e7as cardiovasculares, diabetes, obesidade, ou seja, doen\u00e7as que, na verdade, s\u00e3o a principal causa de morte n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, como no mundo\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u201cNossa batalha \u00e9 mostrar que a primeira inf\u00e2ncia \u00e9 o come\u00e7o de tudo. E o foco para a crise clim\u00e1tica \u00e9 porque, se a gente j\u00e1 tinha algumas dificuldades, se as desigualdades j\u00e1 tiravam um pouco do potencial dessa crian\u00e7a na primeira inf\u00e2ncia, agora voc\u00ea tem uma outra camada que torna tudo ainda pior, que \u00e9 a quest\u00e3o do clima\u201d, diz. Marcia Castro conversou com a <strong>P\u00fablica<\/strong> para o podcast <em>Bom dia, fim do mundo<\/em>, que entrou no ar nesta quinta-feira (30).<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o maior \u00e9 com os primeiros mil dias porque \u00e9 quando ocorre o pico do desenvolvimento, tanto pela forma\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os quanto pela forma\u00e7\u00e3o das sinapses, as conex\u00f5es no c\u00e9rebro. E essa fase \u00e9 extremamente sens\u00edvel a impactos externos.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o clima, mas o estresse t\u00f3xico, a viol\u00eancia. S\u00f3 que alguns desses fatores tamb\u00e9m podem ser agravados pelo clima.<strong> <\/strong>Por exemplo, se essa crian\u00e7a perde a moradia, tem uma mobilidade for\u00e7ada, ela n\u00e3o tem casa, ela n\u00e3o tem creche para acolher, ela est\u00e1 exposta a um ambiente extremamente vulner\u00e1vel, muito provavelmente exposta \u00e0 viol\u00eancia. Ent\u00e3o, todo esse processo de forma\u00e7\u00e3o das sinapses n\u00e3o acontece como deveria. Ent\u00e3o, o potencial n\u00e3o s\u00f3 do desenvolvimento cognitivo, mas do motor, do comportamental, ele j\u00e1 fica prejudicado\u201d, afirma Castro.<\/p>\n<p>Os riscos n\u00e3o param por a\u00ed. A Associa\u00e7\u00e3o Americana de Pediatria estimou, h\u00e1 10 anos, que 88% das doen\u00e7as agravadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas v\u00e3o recair sobre crian\u00e7as com menos de 5 anos, tanto em pa\u00edses industrializados quanto em desenvolvimento.\u00a0<\/p>\n<p>E apontou que a sa\u00fade infantil j\u00e1 est\u00e1 sendo afetada pelo aumento do estresse t\u00e9rmico, da diminui\u00e7\u00e3o da qualidade do ar, da altera\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de algumas infec\u00e7\u00f5es sens\u00edveis ao clima, dos efeitos f\u00edsicos e mentais de eventos clim\u00e1ticos extremos e da inseguran\u00e7a alimentar em regi\u00f5es vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Fora os riscos de aumento de doen\u00e7as transmiss\u00edveis por mosquitos. O <em>Lancet Countdown<\/em> apontou que no Brasil, o risco de transmiss\u00e3o da dengue \u2013 considerando toda a popula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o s\u00f3 entre crian\u00e7as \u2013 aumentou 108% desde os anos 1950.<\/p>\n<p>A pediatra pernambucana Luiza Menezes, que atua hoje em Madri (Espanha), em um centro de primeiro acolhimento de menores vulner\u00e1veis, chama aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para os riscos da chamada \u201cansiedade clim\u00e1tica\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>No local, ela recebe crian\u00e7as em quaisquer situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidades, de casos de viol\u00eancia a refugiados, mas tem atendido muitas com insola\u00e7\u00e3o e desidrata\u00e7\u00e3o durante as ondas de calor brutais que v\u00eam atingindo a Europa, quando fam\u00edlias inteiras acabam saindo de suas casas que n\u00e3o est\u00e3o adaptadas para as altas temperaturas.\u00a0<\/p>\n<p>Em outubro do ano passado, o desafio foi lidar com os deslocados pela forte tempestade que atingiu a cidade de Val\u00eancia, causando inunda\u00e7\u00f5es que deixaram mais de 200 mortos. Algumas crian\u00e7as, que perderam suas casas e, \u00e0s vezes, os familiares, foram levados para o centro onde Luiza trabalha.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cPara um desenvolvimento adequado de uma crian\u00e7a, ela precisa de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a domiciliar, que inclui a rotina de v\u00ednculo afetivo, mas tamb\u00e9m de seguran\u00e7a geogr\u00e1fica. Tirar a casa dessa crian\u00e7a \u00e9 muito dif\u00edcil, ent\u00e3o ela chega com muita inseguran\u00e7a, chega muito inst\u00e1vel, por causa da ruptura de algo que gerava estabilidade para essa inf\u00e2ncia.\u201d<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com a perda do acesso \u00e0 escola. De acordo com levantamento do Unicef, no ano passado, quase 250 milh\u00f5es de crian\u00e7as tiveram os estudos interrompidos por causa da crise clim\u00e1tica. No Brasil, foram 1,17 milh\u00e3o, a maior parte por causa das mais de 2 mil escolas afetadas pelos alagamentos no Rio Grande do Sul, quando\u00a0478 munic\u00edpios (de um total de 497) foram atingidos pelas enchentes e 185 pessoas morreram.\u00a0<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69045ec5e15a9\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<h2><strong>Vivendo entre uma inunda\u00e7\u00e3o e outra<\/strong><\/h2>\n<p>As hist\u00f3rias dos beb\u00eas que vieram ao mundo no meio da trag\u00e9dia ga\u00facha de maio do ano passado s\u00e3o impressionantes. Muitas dessas crian\u00e7as nem tiveram a chance de voltar para casa depois de nascerem.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da Manu, que por pouco n\u00e3o nasceu em um abrigo de Porto Alegre. Sua m\u00e3e, Raphaela Cunha Brito, com nove meses de gesta\u00e7\u00e3o, teve de ser retirada de barco de sua casa, na cidade de Eldorado do Sul, na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, depois que toda sua rua foi tomada pelo alagamento. Ela perdeu tudo.\u00a0<\/p>\n<p>Sua outra filha, Isabeli, ent\u00e3o com 2 anos, e a av\u00f3 paterna foram separadas e levadas para um abrigo que havia sido estabelecido em uma escola por iniciativa do instituto E Se Fosse Voc\u00ea?, da ex-deputada Manuela d\u2019\u00c1vila.<\/p>\n<p>O local foi criado especificamente para receber mulheres e crian\u00e7as depois que come\u00e7aram a surgir den\u00fancias de abusos sexuais, inclusive de crian\u00e7as, em abrigos mistos que tinham sido abertos depois do in\u00edcio das enchentes \u2013 um outro impacto cruel da mudan\u00e7a do clima sobre crian\u00e7as e adolescentes.\u00a0<\/p>\n<p>Em 20 de maio de 2024, quando j\u00e1 fazia cerca de tr\u00eas semanas em que o Estado estava debaixo d\u2019\u00e1gua, Raphaela chegou ao abrigo com cinco dedos de dilata\u00e7\u00e3o. Foi o tempo de ser atendida por uma doula e imediatamente ser transferida para um hospital, recorda Vict\u00f3ria Cosner, que atuava como volunt\u00e1ria na escola e acabaria se tornando madrinha de Manu. J\u00e1 o nome da menina foi escolhido em agradecimento a d\u2019Avila.<\/p>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"69045ec5e1900\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<p>Raphaela, por\u00e9m, tinha pego uma infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria no contato com a \u00e1gua das enchentes que acabou passando para a beb\u00ea. Os primeiros dez dias de vida de Manu foram com ela internada na UTI neonatal. Raphaela passava os dias com ela no hospital e \u00e0 noite voltava para dormir com Isabeli no abrigo. Quando a pequena teve alta, elas ainda passariam mais de um m\u00eas morando na escola.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o primeiro evento extremo enfrentado pela fam\u00edlia. Em novembro de 2023, quando Eldorado tamb\u00e9m foi atingida por inunda\u00e7\u00e3o, Raphaela, gr\u00e1vida de Manu, conta que teve de sair de casa com \u00e1gua pelos joelhos e a filha mais velha, Isabeli, pendurada nas costas. E n\u00e3o seria o \u00faltimo: em junho de 2025, mais uma vez a cidade passou por uma enchente. N\u00e3o t\u00e3o grave quanto a do ano passado, mas, ainda assim, a \u00e1gua chegou a invadir a casa.<\/p>\n<p>Na d\u00favida, preocupada com a sa\u00fade da beb\u00ea, a m\u00e3e deixou Manu morando com a madrinha Vict\u00f3ria por 16 dias em Porto Alegre. J\u00e1 Isabeli, hoje com 4 anos, desenvolveu um medo de chuva. \u201cTenho um livro em casa sobre Miami, com fotos do oceano, e quando ela v\u00ea ela aponta e diz: \u2018enchente\u2019\u201d, conta a madrinha. Raphaela afirma que quando come\u00e7a a chover, a mais velha fica agitada e, n\u00e3o raramente, se refere a coisas que ela n\u00e3o tem mais, que \u201ca enchente levou\u201d.<\/p>\n<p>O casal Marcelo Fontoura e Ana Cec\u00edlia Nunes tamb\u00e9m enfrentou um p\u00e9riplo durante o nascimento do primeiro filho deles, o Joaquim, nas enchentes do ano passado. Eles n\u00e3o tiveram de sair de casa, em Porto Alegre, a rua onde moram n\u00e3o encheu, mas o pr\u00e9dio teve o fornecimento de \u00e1gua interrompido quase no in\u00edcio das tempestades, no come\u00e7o de maio. E ficou assim por longos 18 dias. Para complicar ainda mais, eles tiveram de abrigar um amigo, que teve de sair de casa.\u00a0<\/p>\n<p>A data prevista para o nen\u00ea nascer era por volta do dia 22, mas, talvez pelo estresse com a situa\u00e7\u00e3o, a press\u00e3o de Ana Cec\u00edlia come\u00e7ou a subir. \u201cEu s\u00f3 falava: \u2018Joaquim, espera. Joaquim, espera\u2019. Mas cada vez que eu via o notici\u00e1rio \u00e0 noite, eu n\u00e3o conseguia dormir. Da\u00ed eu ficava muito nervosa, media minha press\u00e3o e ela estava alta\u201d, lembra Ana.\u00a0<\/p>\n<p>Por quase tr\u00eas semanas, ela ficou nessa negocia\u00e7\u00e3o com o beb\u00ea, enquanto o caos s\u00f3 crescia em Porto Alegre. Fazer os exames pr\u00e9-natais ficaram mais complicados e, \u00e0s tantas, a obstetra achou que era melhor eles induzirem o parto.\u00a0<\/p>\n<p>Isso acabou acontecendo s\u00f3 no dia 19 de maio, ali\u00e1s, um dia antes do nascimento de Manu. E o primeiro banho de Joaquim teve de ser gelado, porque o hospital n\u00e3o tinha \u00e1gua quente. \u201cEles at\u00e9 aqueciam num microondas, mas at\u00e9 a bacia chegar no quarto j\u00e1 tinha esfriado, porque estava muito frio em Porto Alegre. Ele berrava\u201d, conta a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Assim como as filhas de Patricia dos Santos e Raphaela Cunha Brito, Joaquim tamb\u00e9m j\u00e1 enfrentou outro evento extremo no seu curto per\u00edodo de vida. \u201cEle nasceu na enchente e depois vieram as queimadas [da Amaz\u00f4nia e do Pantanal] e a fuma\u00e7a chegou at\u00e9 aqui. Ele ficou com muita tosse por causa das fuma\u00e7as. Com um ano e quatro meses, ele j\u00e1 passou por dois desastres ambientais muito grandes. E a gente, na nossa vida, n\u00e3o tinha visto isso. Ent\u00e3o, isso tamb\u00e9m gera uma preocupa\u00e7\u00e3o pra gente. A gente fica sempre pensando que ama tanto ele, mas que mundo que a gente t\u00e1 deixando pra essas crian\u00e7as?\u201d, lamenta Ana Cec\u00edlia.<\/p>\n<h2><strong>Adapta\u00e7\u00e3o precisa levar em conta impactos sobre a primeira inf\u00e2ncia<\/strong><\/h2>\n<p>Apesar dos alertas, pesquisadores que trabalham com os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sobre a primeira inf\u00e2ncia refor\u00e7am que os riscos n\u00e3o significam que as crian\u00e7as nascidas agora est\u00e3o fadadas a ter problemas de sa\u00fade ou de desenvolvimento.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 determinismo biol\u00f3gico, \u00e9 o que eu sempre digo. Estamos falando em maior probabilidade\u201d, frisa Alicia Matijasevich, uma das autoras do relat\u00f3rio lan\u00e7ado pelo NCPI. O documento tem como objetivo orientar pol\u00edticas p\u00fablicas para que justamente esse risco possa ser mitigado ou amenizado. E que solu\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o sejam pensadas priorizando quem pode sofrer mais.<\/p>\n<p>\u201cQuem s\u00e3o essas pessoas que v\u00e3o vir ao mundo nessas condi\u00e7\u00f5es? Com maior certeza, v\u00e3o ser os j\u00e1 mais vulner\u00e1veis. Numa enchente, as pessoas mais abastadas v\u00e3o conseguir sair com mais facilidade. N\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa que vai dar \u00e0 luz no meio de uma enchente. Ent\u00e3o, se juntam as vulnerabilidades\u201d, diz Alicia.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio traz v\u00e1rias recomenda\u00e7\u00f5es, como o fortalecimento da aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria na sa\u00fade e assist\u00eancia social, com foco em vigil\u00e2ncia e resposta r\u00e1pida a ondas de calor e inunda\u00e7\u00f5es, evitando surtos de doen\u00e7as vetoriais como dengue, zika, mal\u00e1ria e diarreia; ampliar a cobertura de servi\u00e7os de sa\u00fade mental infantil; proporcionar climatiza\u00e7\u00e3o adequada nas escolas e creches; e garantir espa\u00e7os p\u00fablicos seguros e verdes para brincadeiras, com vegeta\u00e7\u00e3o nativa, \u00e1reas sombreadas e infraestrutura resistente a alagamentos.<\/p>\n<p>\u201cAo melhorar as condi\u00e7\u00f5es das cidades, vamos ajudar todo mundo, a crian\u00e7a, os idosos. Para as crian\u00e7as tem coisas espec\u00edficas, sim, que s\u00e3o os alertas, as mitiga\u00e7\u00f5es, as condi\u00e7\u00f5es das creches, das escolas. Mas quando se vai para as condi\u00e7\u00f5es da moradia, das \u00e1reas sem infraestrutura, as \u00e1reas que est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade por causa das desigualdades, a\u00ed \u00e9 aquela coisa: a melhor pol\u00edtica social que existe no mundo \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades\u201d, complementa Marcia Castro.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/amazonia-no-coracao-da-igreja-o-legado-de-um-papa-de-alma-verde\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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