{"id":61624,"date":"2025-10-31T13:00:00","date_gmt":"2025-10-31T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/um-estranho-que-chega\/"},"modified":"2025-10-31T13:00:00","modified_gmt":"2025-10-31T16:00:00","slug":"um-estranho-que-chega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/um-estranho-que-chega\/","title":{"rendered":"Um estranho que chega"},"content":{"rendered":"<p>Uma conversa despretensiosa abre uma janela para um passado desconhecido.\u00a0<\/p>\n<p>Na casa de uma amiga em comum, em Cambridge, Massachusetts, a jornalista Natalia Viana conhece Lucretia Slaughter, uma senhora que diz ser descendente de uma mulher acusada de ser bruxa no s\u00e9culo 17.\u00a0Intrigada, Natalia come\u00e7a uma jornada em busca dos vest\u00edgios que ainda sobraram daquele epis\u00f3dio, e acaba indo parar na capital mundial do Dia das Bruxas \u2013 Salem. Conhecida pela hist\u00f3ria das Bruxas de Salem, a cidade foi recriada em filmes de Hollywood e centenas de livros e lendas urbanas, e \u00e9 tamb\u00e9m palco da festa de Halloween mais famosa dos Estados Unidos, atraindo milhares de turistas a cada ano.\u00a0<\/p>\n<figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6904dd1d148fe\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Decora\u00e7\u00e3o de Halloween em Sal\u00e9m, capital mundial do Dia das Bruxas<\/figcaption><\/figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6904dd1d14c0b\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6904dd1d14e9e\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><\/figure>\n<figure data-wp-context='{\"imageId\":\"6904dd1d15123\"}' data-wp-interactive=\"core\/image\"><button type=\"button\" aria-haspopup=\"dialog\" aria-label=\"Ampliar\" data-wp-init=\"callbacks.initTriggerButton\" data-wp-on-async--click=\"actions.showLightbox\" data-wp-style--right=\"state.imageButtonRight\" data-wp-style--top=\"state.imageButtonTop\"><br \/>\n\t\t\t<svg xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\" width=\"12\" height=\"12\" fill=\"none\" viewbox=\"0 0 12 12\">\n\t\t\t\t<path fill=\"#fff\" d=\"M2 0a2 2 0 0 0-2 2v2h1.5V2a.5.5 0 0 1 .5-.5h2V0H2Zm2 10.5H2a.5.5 0 0 1-.5-.5V8H0v2a2 2 0 0 0 2 2h2v-1.5ZM8 12v-1.5h2a.5.5 0 0 0 .5-.5V8H12v2a2 2 0 0 1-2 2H8Zm2-12a2 2 0 0 1 2 2v2h-1.5V2a.5.5 0 0 0-.5-.5H8V0h2Z\"><\/path>\n\t\t\t<\/svg><br \/>\n\t\t<\/button><figcaption>Sean O\u2019Brien, guia turist\u00edco em Sal\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n<p>Mas, por mais que tenha virado fantasia, a hist\u00f3ria das Bruxas de Salem \u00e9 real. Ou melhor, o que \u00e9 real \u00e9 que h\u00e1 mais de 330 anos, em 1691, houve uma ca\u00e7a \u00e0s bruxas nessa cidadezinha a 40 quil\u00f4metros de Boston, em Massachusetts, nos Estados Unidos. Tr\u00eas s\u00e9culos depois, munida da curiosidade de rep\u00f3rter, e do gosto por uma boa hist\u00f3ria, Natalia inicia sua jornada visitando uma distante biblioteca, para tentar encontrar documentos que tragam revela\u00e7\u00f5es sobre como tudo ocorreu.<\/p>\n<div data-effect=\"slide\">\n<div>\n<ul>\n<li>\n<figure><figcaption>Trecho de documento sobre o julgamento das bruxas de Sal\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Trecho de documento sobre o julgamento das bruxas de Sal\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Trecho de documento sobre o julgamento das bruxas de Sal\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>A jornalista Natalia Viana durante an\u00e1lise dos documentos da Phillys Library sobre o julgamento das bruxas de Sal\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<\/ul>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Transitando entre s\u00e9culos, a jornalista tenta recompor as cenas e os eventos que levaram \u00e0 ca\u00e7a \u00e0s bruxas mais conhecida do mundo. Uma hist\u00f3ria de terror real, e um podcast narrativo como voc\u00ea nunca ouviu antes. Ou\u00e7a agora o primeiro epis\u00f3dio da s\u00e9rie.\u00a0<\/p>\n<h2><strong>Leia abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra:<\/strong><\/h2>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A \u00faltima mensagem que recebi dela ecoava as anteriores. Me pareceu triste. Ela dizia: \u201cNat\u00e1lia, n\u00e3o consigo te dar uma entrevista nem mesmo online. Minha sa\u00fade est\u00e1 muito ruim. Boa sorte com seu projeto\u201d. Foi no come\u00e7o desse ano, mas j\u00e1 tinha quatro anos que eu estava tentando essa entrevista. Queria ter algum registro sonoro, algum lastro real do nosso encontro mais de tr\u00eas anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Conhecer a Lucretia Slaughter, uma senhora americana de cerca de 70 anos que nasceu e cresceu em Massachusetts, foi como um portal de entrada para uma das investiga\u00e7\u00f5es mais fascinantes que eu fiz na minha vida. Eu s\u00f3 vi a Lucretia uma vez. Cheguei num domingo \u00e0 noite ao d\u00e9cimo andar de um dos poucos pr\u00e9dios altos na cidade de Cambridge, uma das mais antigas dos Estados Unidos, fundada em 1630, quando ainda era uma col\u00f4nia inglesa.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em Cambridge, a vida gira em torno da Universidade de Harvard, fundada em 1636. Eu tava estudando em Harvard gra\u00e7as a uma bolsa. E durante meses vaguei pelos gramados verdes e sal\u00f5es centen\u00e1rios da universidade. Tudo ali tem uma atmosfera de outro tempo. Os pr\u00e9dios de pedra escura parecem grandes pal\u00e1cios com p\u00e9s-direitos altos e colunas de inspira\u00e7\u00e3o romana.<\/p>\n<p>[Natalia Viana] <br \/>Ali em Cambridge, d\u00e1 pra sentir ainda hoje o legado do colonialismo ingl\u00eas na maneira como as pessoas falam e at\u00e9 como olham umas pras outras. Ou como evitam olhar. Eu nunca me senti em casa ali. Ent\u00e3o eu passava todos os domingos na casa da escritora Anne Bernays, que me acolheu como uma grande nova amiga.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Anne \u00e9 bem mais velha do que a Lucretia e ainda muito mais velha do que eu, tinha 92 anos na \u00e9poca. Mais que o dobro da minha idade. Anne Bernays \u00e9 uma escritora conhecida com livros best-sellers e vem de uma linhagem prodigiosa. Seu pai, Edward Bernays, foi respons\u00e1vel por revolucionar a propaganda moderna, levando para os an\u00fancios os desejos ocultos do nosso subconsciente. \u00c9 por causa dele que em uma propaganda de cerveja a gente v\u00ea duas mulheres de biqu\u00edni em vez de uma lista sobre as qualidades da bebida. Desejos inconscientes, um conceito que Edward aprendeu do seu tio, Sigmund Freud. Sim, a Anne Bernays \u00e9 a sobrinha neta do Freud. E eu confesso que o meu fasc\u00ednio pelos domingos na sua casa vinha um pouco da\u00ed.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Todo domingo ela reunia na sua sala professores, escritores, jornalistas e sent\u00e1vamos em sof\u00e1s com c\u00e1lices de vinho jogando papo fora e olhando para a bela sacada que se debru\u00e7ava sobre o rio Charles. At\u00e9 que uma noite eu conheci a Lucretia Slaughter. Quando ela me foi apresentada, seu nome me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Para mim, Lucretia sempre soou como um nome meio de bruxa. Slaughter significa massacre, matan\u00e7a em ingl\u00eas. Mas a Lucretia era sorridente, alegre. Nos conectamos imediatamente. Ela me contou que sempre viveu em Massachusetts e que era t\u00e3o filha da terra que uma das suas antepassadas chegou a ser acusada de bruxa durante as famosas ca\u00e7adas \u00e0s bruxas do s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Sabe quando tudo ao seu redor parece ficar em suspenso? Como assim ca\u00e7a \u00e0s bruxas? Ent\u00e3o ela me contou um pouco mais sobre a vi\u00fava Winifred Holman, uma senhora que viveu em meados do s\u00e9culo XVII. Ela era sua tatatatarav\u00f3. Acusada por muitas pessoas de ser uma bruxa, ela teve uma vida conflituosa e um destino triste. Era o tipo de mulher que vivia brigando com os vizinhos. Um inc\u00f4modo, sabe? Me dizia Lucretia sem esconder no fundinho um certo orgulho.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Poucos dias depois, chegou no meu e-mail uma mensagem simp\u00e1tica da Lucretia com uma c\u00f3pia de um livro da Sociedade Geneal\u00f3gica da Nova Inglaterra contendo um relato detalhado da hist\u00f3ria da Winifred Holman. Naquele e-mail que ela me enviou em 21 de mar\u00e7o de 2022, a Lucretia me mandava uma dica preciosa: \u201cProcure a Sociedade Hist\u00f3rica de Cambridge para pesquisar mais sobre a ca\u00e7a \u00e0s bruxas\u201d. E me sugeriu pegar um trem para uma cidadezinha alguns quil\u00f4metros dali. \u201cVoc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar das Bruxas de Sal\u00e9m?\u201d Ela me perguntou.<\/p>\n<p>[Arquivo do filme Abracadabra]<br \/>Winy\u2026 Olha!<\/p>\n<p>[Arquivo do filme Abracadabra]<br \/>Irm\u00e3s, preparem-se. \u00c9 a for\u00e7a vital dela. A por\u00e7\u00e3o funciona. Pegue em minhas n\u00e3os\u2026<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Claro que sim. Todo mundo j\u00e1 ouviu falar das Bruxas de Sal\u00e9m, mesmo sem saber direito onde fica Sal\u00e9m. No filme Abracadabra, que tem a Jessica Parker e a Bette Midler, a cidade aparece como um cen\u00e1rio onde moram bruxas reais que matam crian\u00e7as para obterem vida eterna. O ano no filme \u00e9 1683 e a Bette Midler se chama Winifred.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Como em todo filme da Disney, confus\u00f5es, dan\u00e7as, batalhas de feiti\u00e7os e mulheres voando, com vassouras. E no fim, os mocinhos acabam salvos e as malvadas bruxas mortas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas eu n\u00e3o sabia que em Sal\u00e9m houve uma ca\u00e7a \u00e0s bruxas real registrada em documentos oficiais. Foi a hist\u00f3ria de Winifred que me levou a uma busca que hoje j\u00e1 dura anos. Eu queria conhecer essas mulheres que foram mortas como bruxas, queria conhecer suas hist\u00f3rias e entender qual era esse mundo que as julgava e condenava. Onde foram fundadas as bases da nossa orgulhosa civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Um mundo onde o Estado enforcava mulheres a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu sou a Natalia Viana e este \u00e9 o podcast Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas. Epis\u00f3dio 1: Um estranho que chega.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>No final das contas, s\u00f3 existem duas hist\u00f3rias no planeta, certo? As \u00fanicas duas hist\u00f3rias que existem s\u00e3o: algu\u00e9m sai em uma jornada ou um estranho chega \u00e0 cidade. Toda a hist\u00f3ria come\u00e7a de um desses dois jeitos. E em 1688, em Salem Village, a pequena e isolada parte de Salem Town, um estranho chega \u00e0 cidade. E o nome dele \u00e9 Samuel Parris.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Esse que voc\u00ea est\u00e1 ouvindo \u00e9 o Sean O\u2019Brien, um guia que me apresentou a verdadeira hist\u00f3ria de Sal\u00e9m e que vai nos acompanhar na nossa jornada. E para deixar tudo ainda mais assustador, usamos intelig\u00eancia artificial para que o Sean pudesse falar em portugu\u00eas. N\u00e3o se preocupa, que ele adorou isso.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Na hist\u00f3ria que eu vou contar, um estranho chega numa cidadezinha do interior da col\u00f4nia inglesa no ano de 1688. E eu saio junto com voc\u00ea em uma jornada para entender tudo o que aconteceu depois.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Estamos aqui na Derby, pra\u00e7a Derby, onde eles t\u00eam, na verdade, uma recria\u00e7\u00e3o de como era o City Hall, que era o lugar de encontro da comunidade da cidade de Salem, do munic\u00edpio de Salem. E, de fato, aqui as constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o todas reconstru\u00eddas para parecer como elas eram naquela \u00e9poca. N\u00e3o \u00e9 que s\u00e3o as originais, mas elas s\u00e3o feitas. E a gente vai ter, daqui a pouco a gente vai come\u00e7ar o tour do Sean, nosso grande guia. Tem um outro tour aqui que est\u00e1 saindo da escada. Vamos chegar l\u00e1 no lugar. Tem uma escadaria a\u00ed para uma porta grande de madeira, que \u00e9 esse pr\u00e9dio, esse Town Hall, n\u00e9? Com uma\u2026 Um arco em cima da porta, uma coisa assim, umas l\u00e2mpadas daquelas antigas de ilumina\u00e7\u00e3o. Aquela \u00e9poca tudo vela, n\u00e9 gente? N\u00e3o podemos esquecer. Ent\u00e3o, aquelas lamparinas. Recria aquelas lamparinas.<\/p>\n<p>[Arquivo do filme Abracadabra]<br \/>Mas \u00e9 tudo com uma carinha para parecer antigo.<\/p>\n<p>[Giulia Afiune]<br \/>Para parecer\u2026 Olha l\u00e1, olha l\u00e1 o Sean, vamos l\u00e1 falar com ele.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Hi, hello, Sean! Hello good to see you again.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>It\u2019s been so long.<\/p>\n<p>[Giulia Afiune]<br \/>Yeah, good to see you again.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>I will see you 415! The 415!<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Esse \u00e9 o vozeir\u00e3o do Sean, ele est\u00e1 chamando as pessoas para se juntarem ao tour, n\u00e9? Ele disse que o tour, n\u00e9? O n\u00famero de pessoas que v\u00e3o participar \u00e9 pequeno. Vou explicar um pouquinho como \u00e9 que \u00e9 o Sean. Ele \u00e9 um cara alto. Ele \u00e9 daqueles t\u00edpicos americanos, irlandeses, n\u00e9? Ele \u00e9 ruivo, bem branco, enfim, meio avermelhado at\u00e9. E ele sempre se veste mais ou menos de \u00e9poca, n\u00e9? Com uma boininha, uma roupa assim mais\u2026 Ele parece aqueles homens dos anos 30, na verdade, n\u00e9? Ele parece uma pessoa meio anacr\u00f4nica nesse lugar.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu estou em Sal\u00e9m, uma cidadezinha de 45 mil habitantes a 27 km ao norte de Cambridge, junto com a jornalista Giulia Afiune. A Giulia veio comigo para Sal\u00e9m para conhecer o maior Halloween do Hemisf\u00e9rio Norte, a maior festa de dia das bruxas. E voc\u00ea j\u00e1 deve ter reparado, mas na grava\u00e7\u00e3o eu estou rouca por causa do frio que faz por ali naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Essa deve ser minha quarta ou quinta visita \u00e0 cidade. Passei muitos dias aqui durante meu per\u00edodo nos Estados Unidos. O Sean, al\u00e9m de ser guia, \u00e9 formado em Hist\u00f3ria e se tornou assim uma estrela guia para o come\u00e7o da minha pesquisa. Al\u00e9m disso, n\u00f3s temos outra coisa em comum. A m\u00e3e do Sean tamb\u00e9m \u00e9 jornalista.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>Minha m\u00e3e tem 1,75m de altura, \u00e9 ruiva e uma mulher muito, muito orgulhosamente franca, que n\u00e3o guarda suas opini\u00f5es. Ent\u00e3o, acho que\u2026 Desculpe, m\u00e3e, se voc\u00ea ouvir4 isso. Mas acho que 100% ela teria sido considerada uma bruxa naquela \u00e9poca. E digo isso com todo o amor e respeito que posso reunir no meu cora\u00e7\u00e3o. Minha m\u00e3e \u00e9 uma mulher fant\u00e1stica, que j\u00e1 se meteu em problemas nos anos 60 por n\u00e3o ser comportada como achavam que ela deveria ser, sabe?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Estamos em 31 de outubro de 2023. Pe\u00e7o a voc\u00ea que guarde a marca\u00e7\u00e3o dos tempos como se fossem pedras preciosas, porque nessa nossa jornada n\u00f3s vamos viajar por s\u00e9culos diferentes indo e vindo em busca de entender o nosso passado e o nosso presente. N\u00e3o podemos nos perder.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Saindo da Pra\u00e7a Central de Sal\u00e9m, no ano de 2023, guiadas por Sean e com um grupo de turistas, caminhamos pelas ruas de paralelep\u00edpedo da cidade e vamos adentrando o ano de 1688, ali onde come\u00e7a a origem da Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas de Sal\u00e9m. E ela come\u00e7a com a chegada de um estranho, o pastor Samuel Parris e a sua fam\u00edlia a Sal\u00e9m. Aqui, o Sean se refere a ele como ministro, que \u00e9 uma das maneiras de chamar os pastores na religi\u00e3o puritana.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>Ele chegou para se tornar o novo ministro de Salem Village. Samuel Parris \u00e9 um personagem interessante. Nasceu em Londres, mas cresceu aqui em Massachusetts. Estudou em Harvard por alguns anos, mas abandonou o curso antes de se formar e se mudou para o Caribe, na ilha de Barbados. L\u00e1, ele administrou a planta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar da fam\u00edlia por v\u00e1rios anos. Mas, eventualmente, um furac\u00e3o devastou a economia da ilha. Ele teve que vender a planta\u00e7\u00e3o e a maioria dos seus escravizados, retornando ent\u00e3o para Nova Inglaterra.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>Em 1687, o homem estava desesperado por um emprego e \u00e9 claro que ele ouviu que Salem Village de repente precisava de um novo ministro. Na verdade, mais do que isso. Ele soube que eles j\u00e1 haviam passado por cerca de tr\u00eas ministros nos \u00faltimos sete anos. \u00c9 uma taxa de rotatividade bem alta. Ele pensa: \u201cBom, se est\u00e3o tendo tanta dificuldade para encontrar um bom ministro, por que n\u00e3o eu?\u201d Talvez ele conseguisse o emprego. E ele se candidata e consegue. Provavelmente para sua surpresa tanto quanto para a de todos os outros. Agora, ele \u00e9 qualificado para ser ministro porque estudou em Harvard. E naquela \u00e9poca, Harvard basicamente oferecia apenas dois cursos, teologia e direito. A faculdade de medicina ainda n\u00e3o existia. Mas o fato \u00e9 que ele se instala com a fam\u00edlia e se torna o novo ministro da Vila de Salem.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Quero dar um close em quem era essa fam\u00edlia do pastor Samuel Parris. Em 1688 moravam com ele na casa dedicada ao pastor, a sua esposa Elizabeth Eldridge e os seus filhos Thomas, a ca\u00e7ula Susannah e a garota Elizabeth Parris de 9 anos. Morava tamb\u00e9m uma sobrinha Abigail Williams de 11 anos, companhia insepar\u00e1vel de Betty Parris. Guarda esses nomes.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Al\u00e9m da fam\u00edlia, moravam na casa um casal de escravizados. Tituba, uma ind\u00edgena Arawak da regi\u00e3o que hoje seria Venezuela ou Suriname e o seu marido conhecido apenas como John Indian. Preste aten\u00e7\u00e3o nela. A Tituba vai ser importante na nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Por agora, imagine essa ind\u00edgena ent\u00e3o com uns 25 ou 27 anos trabalhando como serva dom\u00e9stica na casa dos Parris. N\u00e3o existe eletricidade. Toda casa \u00e9 regida pelo temor a Deus. Uma casa muito religiosa e ela limpa tudo e prepara comida. O que significava naquela \u00e9poca matar os animais, depenar, tirar os ossos, fazer a farinha, coar o leite, fazer a manteiga, o queijo e servir a fam\u00edlia 24 horas por dia.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tituba n\u00e3o v\u00ea a pr\u00f3pria fam\u00edlia desde a inf\u00e2ncia porque, segundo os historiadores, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que ela tenha sido sequestrada da sua terra por escravizadores espanh\u00f3is e comprada pela fam\u00edlia de Samuel Parris em Barbados, onde ele cuidava da fazenda do seu pai at\u00e9 que faliu e decidiu voltar para Boston. De volta \u00e0 Boston, ele soube da vaga para pastor na Vila de Salem e foi contratado. Mas quando Samuel Parris chegou ao vilarejo, as fam\u00edlias estavam em guerra.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em resumo: um dos grupos era ligado aos Porters, donos de vastas terras no leste da cidade, mais pr\u00f3ximas ao porto de Boston e mais liberais. J\u00e1 os Putnams, mais conservadores, moravam ao oeste, mais para dentro do continente. N\u00e3o gostavam nada das ideias liberais e queriam manter-se fi\u00e9is aos ideais que os fizeram atravessar o Atl\u00e2ntico. Construir, na cidade sobre a montanha, uma comunidade de virtudes e sem nenhum mal.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Os puritanos que vieram para a col\u00f4nia estavam fugindo de uma revolta na Inglaterra que imp\u00f4s uma reforma na igreja e que levou ao anglicismo, mais liberal e ligado \u00e0 fam\u00edlia real at\u00e9 hoje. Ent\u00e3o, eles chegaram na Am\u00e9rica desconfiando da igreja e querendo construir comunidades extremamente religiosas, mas menos hierarquizadas e controladas pelo poder da igreja, onde a rela\u00e7\u00e3o com Deus podia ser professada dentro de um centro comunit\u00e1rio e n\u00e3o de uma igreja suntuosa. Os puritanos seguiam fielmente regras de comportamento, como jamais trabalhar aos domingos, ouvir os serm\u00f5es do pastor e, em especial, o papel do homem como chefe da casa e da mulher, sempre temente, primeiro a ele e depois a Deus, acima de todos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A chegada do pastor Samuel Parris vinha com o apoio deste grupo mais religioso e trazia a ideia de que, finalmente, depois de meses sem um pastor, a comunidade poderia voltar a espiar de si todo o mal e todo o pecado.<\/p>\n<p>[Sean O\u2019Brien]<br \/>O lugar onde estamos agora era chamado de Salem Town em 1692 e naquela \u00e9poca tinha uma popula\u00e7\u00e3o de aproximadamente 2 mil pessoas. A 8 km de dist\u00e2ncia, escondida no meio da floresta, completamente isolada, viviam as 500 pessoas que formavam Salem Village. E eles gostavam desse isolamento. Os moradores de Salem Village n\u00e3o se davam muito bem com seus vizinhos. Para ser honesto, eles nem mesmo se davam bem entre si. Salem Village era um lugar extremamente contencioso e cheio de conflitos. Mas \u00e9 exatamente ali que nossa hist\u00f3ria vai come\u00e7ar.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tr\u00eas anos depois, em 1691, a rela\u00e7\u00e3o dele com seus fi\u00e9is n\u00e3o era das melhores. Havia dois grupos opostos na vila. Um mais conservador e temente a Deus, outro mais liberal. Ele era ligado ao mais conservador e religioso. Samuel tamb\u00e9m n\u00e3o tinha uma personalidade tranquila. Adorava uma confus\u00e3o. J\u00e1 tinha brigado sobre o valor de seu sal\u00e1rio, sobre a propriedade da casa em que morava.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ent\u00e3o, no come\u00e7o do inverno de 1691, um dos mais frios desde a funda\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia, cortaram seu suprimento de lenha que era o que mantinha as casas aquecidas naquele tempo. Mas ningu\u00e9m imaginava que a raiz de todo mal come\u00e7aria exatamente na casa do pastor Samuel Parris. Betty Parris, a filha de Samuel, ent\u00e3o com nove anos, foi a primeira a adoecer. Em novembro ou dezembro de 1691.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>De repente, a menina ficou doente. Mas de uma doen\u00e7a que ningu\u00e9m conhecia. Do nada ela come\u00e7ava a se contorcer. Caia no ch\u00e3o e reclamava de dores por todo o corpo. Como se algu\u00e9m a estivesse espetando com uma tesoura ou com uma faca, um objeto invis\u00edvel. Ou com mil agulhas que ningu\u00e9m conseguia ver.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu n\u00e3o estou inventando nada disso. Isso tudo est\u00e1 registrado em in\u00fameros documentos hist\u00f3ricos. Como jornalista, eu n\u00e3o tenho como atravessar os s\u00e9culos. Tudo que posso saber dessa hist\u00f3ria est\u00e1 nos documentos que ainda restam daquele per\u00edodo. Eles s\u00e3o um pouco \u00e1ridos, como esse trecho: \u201c31 de maio de 1692. O depoimento da testemunha Abigail Williams declara que em diversas ocasi\u00f5es no m\u00eas passado, particularmente nos dias 15, 16, 19, 20, 21, 23 e 31 daquele m\u00eas e nos dias subsequentes em v\u00e1rios momentos, assim como no presente m\u00eas, a referida Abigail tem sido extremamente atormentada por uma apari\u00e7\u00e3o na Vila de Salem. Por meio dessa apari\u00e7\u00e3o, ela tem sido puxada violentamente, frequentemente beliscada, quase estrangulada e, por vezes, tentada a se jogar no fogo\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Cheguei a esse documento, assim como a dezena de outros, depois da dica da Lucretia Slaughter. Meu percurso foi bem jornal\u00edstico. Escrevi para a Sociedade Hist\u00f3rica e Geneal\u00f3gica de Nova Inglaterra. N\u00e3o tive resposta. Depois encontrei um contato no Peabody Essex Museum, o museu da regi\u00e3o que compreende Sal\u00e9m. E dali eu cheguei \u00e0 Biblioteca Phillips. Era ali que estavam guardados os preciosos documentos sobre a ca\u00e7a \u00e0s Bruxas de Sal\u00e9m.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Era uma biblioteca perdida no meio do nada, mais de 20 km para o norte, no fim de uma estradinha tortuosa que sai de uma daquelas autoestradas enormes que cruzam os Estados Unidos. Nem tinha transporte p\u00fablico at\u00e9 l\u00e1 e eu tive que conseguir uma carona com um estranho que me deixou na pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o de trem. Mas eu estava fascinada e emocionada quando consegui manusear os documentos, cheios de letras pequenininhas escritas \u00e0 m\u00e3o na caneta-tinteiro, de maneira a economizar papel que era algo raro em 1692.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>As fotos destes documentos e outros registros hist\u00f3ricos voc\u00ea pode encontrar na p\u00e1gina deste podcast, no site da Ag\u00eancia P\u00fablica.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A bibliotec\u00e1ria me entregou ao longo de uma tarde toda dezenas de documentos escritos por escribas, ju\u00edzes, conselheiros e governadores, todos homens de respeito e poder sobre o per\u00edodo em que o mal se apossou de Sal\u00e9m. Neles eu consegui ouvir os ecos da voz de Abigail Williams, a segunda a ficar doente. Antes dela, sua prima, Betty Parris, tinha ficado com essa estranha afli\u00e7\u00e3o. Eu tive pena delas. Sabe-se muito pouco sobre o passado de Abigail, mas ela era \u00f3rf\u00e3. Seus pais podem ter sido v\u00edtimas das batalhas pelo norte dos Estados Unidos contra os franceses. Ela teria chegado \u00e0 casa do tio com muitos traumas, muito medo do que viu e do que viveu. Isso s\u00f3 agu\u00e7a minha vontade de rep\u00f3rter. Me imagino tentando entrevist\u00e1-la alguns anos depois de toda essa hist\u00f3ria que poderia marcar o resto da sua vida.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Abigail Williams, muito obrigada por ter topado falar comigo. Voc\u00ea, quando come\u00e7aram as afli\u00e7\u00f5es, eu estou chamando assim, voc\u00ea vivia com seu tio, n\u00e9? O Samuel Parris.<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Sim.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Voc\u00ea gostava de viver com eles? Era uma vida feliz?<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Olha, eu tinha vindo de uma situa\u00e7\u00e3o muito ruim. N\u00e3o sei se voc\u00ea sabe.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Me conta.<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Eu morava com os meus pais num assentamento mais pro norte. Havia v\u00e1rios assentamentos assim, onde moravam apenas algumas dezenas de fam\u00edlias. A gente era feliz, mas havia muitos ataques vindos do norte. De nativos, de \u00edndios, de franceses. E mataram meus pais. Eu fiquei \u00f3rf\u00e3.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Sinto muito, Abigail.<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Ent\u00e3o, eu vim pra Sal\u00e9m, foi bom. Meu tio era bastante r\u00edgido, mas eu fiz amizade com as minhas primas, com as vizinhas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Voc\u00ea tinha 11 anos, mais ou menos, e a Betty Parris tinha 9.<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Isso. E eu tamb\u00e9m fiz amizade com outras meninas. A Ann Putnam, que tinha 12 anos. A Elisabeth Hubbard, que j\u00e1 tinha 17.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E o que voc\u00eas faziam juntas?<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>A gente brincava. Mas a gente fez coisas das quais eu me arrependo.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Como assim?<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Eu tenho medo que a gente tenha brincado com fogo.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>O que voc\u00eas fizeram?<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Pouco antes de tudo come\u00e7ar, eu tava com a Betty no nosso quintal e a gente decidiu fazer um jogo pra saber nosso futuro.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E como \u00e9 que era esse jogo?<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Era um jogo que era muito comum entre as mulheres. A gente queria saber se a gente ia casar, se a gente ia ser feliz. Ent\u00e3o, a gente jogava a clara de um ovo dentro de um copo e a forma que aparecia dizia alguma coisa sobre nosso futuro.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas por que voc\u00ea diz que voc\u00ea se arrepende?<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Porque a gente viu a forma de um caix\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Foi depois disso que tudo come\u00e7ou?<\/p>\n<p>[Abigail Williams]<br \/>Foi depois disso que tudo come\u00e7ou.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Pouco depois daquela brincadeira inocente os surtos come\u00e7am. E na mente daquelas crian\u00e7as fazia muito sentido que uma coisa tivesse levado a outra. Com o passar dos dias e das semanas os surtos ficam ainda mais agonizantes. A Abigail anda de quatro pela casa e late, n\u00e3o responde a perguntas em ingl\u00eas, se recusa a falar a l\u00edngua dos homens. Sua prima Betty segura a cabe\u00e7a com as m\u00e3os grita como se tivesse com uma dor agoniante no corpo e desmorona no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>J\u00e1 em novembro, o pastor Samuel Parris reclamava da situa\u00e7\u00e3o em seus serm\u00f5es, dando indiretas aos vizinhos com quem vivia brigando, dizendo que havia for\u00e7as de Sat\u00e3 cercando a aldeia. Desesperado, ele decide chamar um m\u00e9dico amigo dele e de enorme confian\u00e7a na vila, o doutor William Griggs, e ele examina as meninas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Depois de um longo sil\u00eancio e de muitos testes, vem o diagn\u00f3stico. Samuel ouve atentamente. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhum mau f\u00edsico que as acomete\u201d, diz Griggs. O problema que eles t\u00eam diante de si n\u00e3o tem causas f\u00edsicas, mas s\u00f3 pode ser resultado de uma m\u00e3o diab\u00f3lica. The Evil Hand. O que s\u00f3 poderia ser uma coisa naquela col\u00f4nia inglesa religiosa ao extremo em pleno s\u00e9culo XVII: Bruxaria.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Por hoje \u00e9 isso. Encerramos aqui o primeiro epis\u00f3dio da s\u00e9rie Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas. Mas na semana que vem, eu e voc\u00ea vamos voltar para Sal\u00e9m. Te encontro no seu tocador favorito.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E se voc\u00ea n\u00e3o conhece a P\u00fablica, eu te convido para visitar o nosso site e conhecer nossas investiga\u00e7\u00f5es premiadas: www.apublica.org<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o original da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Esse podcast foi dirigido por mim, Natalia Viana. Eu fiz a pesquisa hist\u00f3rica e a reportagem com colabora\u00e7\u00e3o de Giulia Afiune, que tamb\u00e9m captou os \u00e1udios em Sal\u00e9m. Eu tamb\u00e9m escrevi os roteiros dos epis\u00f3dios com colabora\u00e7\u00e3o da Sofia Amaral.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A Sofia Amaral tamb\u00e9m coordenou a produ\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie com apoio da Stela Diogo e da Rafaela de Oliveira. Tanto a narra\u00e7\u00e3o quanto as cenas de dramaturgia foram gravadas no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica com trabalhos t\u00e9cnicos de Stela Diogo e Ricardo Terto. A Mika Lins fez a dire\u00e7\u00e3o de narra\u00e7\u00e3o e de dramaturgia. O desenho de som foi feito por Ricardo Terto, que tamb\u00e9m fez a edi\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios. A trilha sonora original \u00e9 de Paulo Sartori com trilhas adicionais de Epidemic Sound. A identidade visual \u00e9 do Matheus Pigozzi.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Nesse epis\u00f3dio tivemos Lucia Bronstein como Abigail Williams.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Registro aqui os nossos agradecimentos \u00e0 Lucretia Slaughter, \u00e0 Witch City Walking Tours, que liberou o tour com o Sean em Sal\u00e9m pra gente usar nesse podcast, ao Peabody Essex Museum, e \u00e0 Phillips Library. Al\u00e9m do Noah Friedman-rudovsky, meu grande amigo que sempre me acolhe quando vou aos Estados Unidos, e aos aliados, gra\u00e7as a voc\u00eas esse podcast e outros podem acontecer.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Homenageamos tamb\u00e9m todas as mulheres que morreram como bruxas, e as suas filhas,\u00a0 netas e descendentes. A sua mem\u00f3ria n\u00e3o ser\u00e1 esquecida.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/incendios-florestais-na-coreia-do-sul-sao-contidos-apos-uma-semana-de-operacoes-de-combate\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/17431428782334_20250328502014-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Inc\u00eandios florestais na Coreia do Sul s\u00e3o contidos...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pgr-denuncia-ex-prefeito-bolsonarista-que-sugeriu-guilhotina-para-alexandre-de-moraes-video\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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