{"id":61735,"date":"2025-10-31T19:45:03","date_gmt":"2025-10-31T22:45:03","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/elogio-ao-estranhamento-social\/"},"modified":"2025-10-31T19:45:03","modified_gmt":"2025-10-31T22:45:03","slug":"elogio-ao-estranhamento-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/elogio-ao-estranhamento-social\/","title":{"rendered":"Elogio ao estranhamento social"},"content":{"rendered":"<figure><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"964\" height=\"360\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-10-31-at-20-03-32-exposicao-nova-fotografia-cidade-que-desenvolvemos-mis-spwebp-imagem-WEBP-964-360-pixels.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-10-31-at-20-03-32-exposicao-nova-fotografia-cidade-que-desenvolvemos-mis-spwebp-imagem-WEBP-964-360-pixels.png 964w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-31-at-20-03-32-exposicao-nova-fotografia-cidade-que-desenvolvemos-mis-sp.webp-imagem-WEBP-964-\u00d7-360-pixels-300x112.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Screenshot-2025-10-31-at-20-03-32-exposicao-nova-fotografia-cidade-que-desenvolvemos-mis-sp.webp-imagem-WEBP-964-\u00d7-360-pixels-768x287.png 768w\" sizes=\"(max-width: 964px) 100vw, 964px\"><figcaption>Foto: Manoel Almeida\/IMS<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Lisa Bubert<\/strong>, no <em>Revista Noema<\/em> | Tradu\u00e7\u00e3o: <strong>R\u00f4ney Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p>Por fora, o bar n\u00e3o tinha nada de especial. Por dentro, fervilhava com a cole\u00e7\u00e3o mais peculiar de pessoas: uma mistura socioecon\u00f4mica de universit\u00e1rios e yuppies, idosos e casais com os filhos j\u00e1 criados, motociclistas e caub\u00f3is, liberais e conservadores, locais e turistas. Era isso que eu mais amava no Crossroads \u2014 era o tipo de lugar que aceitava \u201ctodo tipo\u201d de gente.<\/p>\n<p>Agora extinto, ele tinha todas as marcas de um grande \u201cdive bar\u201d <em>[<\/em><em>bar pequeno, informal e geralmente antigo, caracterizado por sua falta de glamour, bebidas baratas e um ambiente aut\u00eantico<\/em><em>]<\/em> do sul: luzes de n\u00e9on verde e azul; garrafas de cerveja alinhadas nas prateleiras do bar, todas nacionais e baratas; um ch\u00e3o perpetuamente grudento; ventiladores oscilantes presos nas paredes para espantar o calor. O lugar era min\u00fasculo, um \u00fanico c\u00f4modo com um palco elevado a 60 cent\u00edmetros do ch\u00e3o num canto e o bar ao longo da parede do fundo. Havia um punhado de mesas para duas pessoas espalhadas, mas quase tudo era empurrado para as bordas para dar espa\u00e7o para dan\u00e7ar e para a farra. Faz dez anos desde que estive l\u00e1 pela \u00faltima vez.<\/p>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/2Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-3-2.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/2Semana-289-410-Descontos-e-parcerias-editoras-3-2.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/2.Semana-28.9-4.10-Descontos-e-parcerias-editoras-3-300x110.png 300w\" sizes=\"(max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Beyonca Deleon, a drag queen que operava a m\u00e1quina de karaok\u00ea, ainda se lembra de sua primeira noite l\u00e1. \u201cOlhei para a multid\u00e3o e pensei: \u2018Minha nossa, algu\u00e9m vai morrer aqui\u2019. Porque tinha motociclistas, caipiras, gays efeminados andando por a\u00ed, todo tipo de pessoa\u201d, recorda Deleon, que hoje se identifica como uma mulher trans. Logo, por\u00e9m, ela percebeu que seu medo era infundado. \u201cEra um bar do tipo \u2018venha como voc\u00ea \u00e9&#8217;\u201d, ela diz. \u201cNingu\u00e9m ligava.\u201d<\/p>\n<p>Todos com quem converso e que frequentaram o Crossroads se lembram dele da mesma forma: uma celebra\u00e7\u00e3o de amor da humanidade cantando a plenos pulm\u00f5es, um lugar que fazia voc\u00ea acreditar que aquele experimento estadunidense doe caldeir\u00e3o cultural poderia realmente funcionar.<\/p>\n<p>Infelizmente, o bar n\u00e3o conseguiu resistir \u00e0 pandemia; ele fechou em 2021. Mas h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o em seu legado. Hoje, numa \u00e9poca em que estamos cada vez mais segregados por classe, ra\u00e7a, pol\u00edtica e algoritmos, lugares como o Crossroads prestam um servi\u00e7o sagrado. Eles nos convidam a abra\u00e7ar algo essencial para o nosso bem-estar coletivo: o atrito social.<\/p>\n<p>N\u00f3s, humanos, podemos ter uma toler\u00e2ncia baixa para o atrito social, a tens\u00e3o que pode surgir quando pessoas de origens, vis\u00f5es de mundo ou valores diferentes interagem. Pode ser estranho, desconfort\u00e1vel e perturbador. Esses sentimentos de ansiedade intergrupal \u00e0s vezes derivam de coisas como preconceito e medo de rejei\u00e7\u00e3o ou julgamento. De forma subconsciente ou n\u00e3o, tendemos a evitar grupos externos e, em vez disso, nos apegamos a pessoas e experi\u00eancias que nos parecem familiares e seguras. Damos a volta por cima se isso significar que n\u00e3o encontraremos obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>E assim, por uma variedade de raz\u00f5es, nos dividimos. A maioria dos estadunidenses brancos relata que suas redes sociais centrais incluem apenas outras pessoas brancas, de acordo com um estudo de 2020 do Survey Center on American Life. Da mesma forma, a pesquisa constatou que a maioria das redes sociais centrais dos negros estadunidenses \u00e9 composta apenas por outros negros. O mesmo padr\u00e3o \u00e9 verdadeiro para republicanos e para democratas. Esses tipos de redes sociais homog\u00eaneas podem resultar no refor\u00e7o de cren\u00e7as partid\u00e1rias que tratam estere\u00f3tipos e suposi\u00e7\u00f5es como fatos.<\/p>\n<p>As m\u00eddias sociais exploram esse impulso humano de nos classificarmos por fatias de nossas identidades. Em nosso mundo online, temos acesso a uma gama praticamente ilimitada de pessoas e ideias na palma da nossa m\u00e3o. E, no entanto, muitas vezes somos atra\u00eddos para bolhas de filtro e c\u00e2maras de eco que refor\u00e7am nossas cren\u00e7as, vieses e ideais existentes. Agora que podemos acessar o que (e quem) quisermos na palma da m\u00e3o \u2013 o jantar perfeito, os produtos mais finos, um amor ideal \u2013 \u00e9 f\u00e1cil evitar qualquer coisa que n\u00e3o atenda \u00e0s nossas prefer\u00eancias expl\u00edcitas ou que esteja fora da nossa zona de conforto.<\/p>\n<p>Essa otimiza\u00e7\u00e3o tem um custo. Quando podemos escolher com quem nos relacionamos, clique a clique, nos tornamos ainda mais segregados em tribos fr\u00e1geis, exploradas por ressentimentos que nos afastam. Perdemos a capacidade de atravessar as \u00e1guas turvas do perd\u00e3o e do reparo, da responsabilidade e da justi\u00e7a. E quando somos incapazes de navegar pelo atrito social, perdemos nossa capacidade de funcionar como sociedade e como democracia.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/circuito3anos-banner_outraspalavras.jpg 729w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/circuito3anos-banner_outraspalavras-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 729px) 100vw, 729px\" width=\"729\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Tamb\u00e9m estamos segregados em nosso mundo offline, onde a segrega\u00e7\u00e3o residencial por classe est\u00e1 em ascens\u00e3o h\u00e1 d\u00e9cadas. Entre 1970 e 2009, a porcentagem de fam\u00edlias estadunidense vivendo em \u00e1reas predominantemente de baixa renda ou ricas mais do que dobrou, com fam\u00edlias em comunidades marginalizadas experimentando um isolamento residencial desproporcional. (Em Nashville, onde vivo agora, 99% dos im\u00f3veis de pre\u00e7o mediano est\u00e3o financeiramente inacess\u00edveis para fam\u00edlias negras e hisp\u00e2nicas.)<\/p>\n<p>Cada vez mais, comunidades ricas permanecem ricas enquanto comunidades pobres permanecem pobres, uma estratifica\u00e7\u00e3o perpetuada pelo que os pesquisadores chamam de \u201clacuna de oportunidade\u201d. A promessa estadunidense de mobilidade ascendente tornou-se em grande parte um mito para as comunidades mais pobres, perpetuado pela segrega\u00e7\u00e3o entre as classes.<\/p>\n<p>Essa falta de intera\u00e7\u00e3o entre classes impacta a maneira como vemos uns aos outros. O contato limitado entre grupos pode gerar desconfian\u00e7a e contribuir para a polariza\u00e7\u00e3o num momento em que j\u00e1 estamos ferozmente divididos. Quase metade do eleitorado dos EUA acha que os membros do partido pol\u00edtico oposto s\u00e3o \u201cmaus\u201d, mostram pesquisas recentes, e um n\u00famero crescente de estadunidense acredita que a viol\u00eancia pol\u00edtica \u00e9 \u201cnecess\u00e1ria\u201d para restaurar os valores estadunidenses.<\/p>\n<p>As pessoas muitas vezes pensam que o trabalho de fortalecer a democracia significa colocar pessoas numa sala para ter conversas profundas e cr\u00edticas. Mas, de acordo com Bridget Marquis, diretora da organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos Reimagining the Civic Commons, isso \u00e9 um equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>\u201cA infraestrutura c\u00edvica \u2013 parques, trilhas, bibliotecas, centros comunit\u00e1rios, ruas principais dos bairros e similares \u2013 tem o poder \u00fanico de servir como um terreno comum literal em nossas comunidades para combater tanto a solid\u00e3o quanto a segrega\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>E isso serve para fortalecer nossa vida c\u00edvica. Comunidades com maior acesso a espa\u00e7os socialmente compartilhados, como parques, bibliotecas, museus e centros comunit\u00e1rios, relatam se sentir mais conectadas \u00e0 sua comunidade, t\u00eam mais amigos \u00edntimos em quem confiar e participam mais civicamente na forma de reuni\u00f5es locais, eventos sociais e voluntariado.<\/p>\n<p>No entanto, reunir fisicamente as pessoas n\u00e3o \u00e9 suficiente. Os lugares onde as classes socioecon\u00f4micas mais se misturam, de acordo com novas pesquisas, s\u00e3o as redes de <em>restaurantes casuais<\/em> como o Olive Garden. Mas, dentro desses estabelecimentos, os clientes geralmente interagem quase apenas com os de sua pr\u00f3pria mesa. O que Marquis descobriu \u00e9 que, dentro dos espa\u00e7os comunit\u00e1rios, atividades compartilhadas como cantar e dan\u00e7ar potencializam a cria\u00e7\u00e3o de la\u00e7os e a constru\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre diversos grupos socioecon\u00f4micos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma ideia com ra\u00edzes na teoria do contato intergrupal, que sugere que o contato entre grupos distintos serve para reduzir os efeitos do preconceito entre eles, desde que condi\u00e7\u00f5es apropriadas sejam atendidas. Em outras palavras, sob as circunst\u00e2ncias certas, pode haver um poder curativo no atrito social.<\/p>\n<p>Essa era a m\u00e1gica do Crossroads. Ele n\u00e3o tinha uma \u00fanica identidade e n\u00e3o pertencia a um \u00fanico grupo. Motociclistas vestidos de couro se misturavam com gays em \u201ccrop tops\u201d e spandex. Caub\u00f3is dan\u00e7avam \u201ctwo-step\u201d com universit\u00e1rios se algu\u00e9m estivesse cantando uma m\u00fasica country com uma batida boa. Meu amigo, Hutch, arrasava todas as noites com sua vers\u00e3o de \u201cShoop\u201d, do Salt-N-Pepa. N\u00f3s viv\u00edamos pela parte em que ele cantava a letra \u201cMeninas, qual \u00e9 a minha fraqueza?\u201d e o bar inteiro gritava de volta: \u201cHomens!\u201d<\/p>\n<p>Era realmente o karaok\u00ea que tornava o Crossroads t\u00e3o especial, argumenta seu ex-propriet\u00e1rio, Richard Underwood. \u201cTodo mundo sempre me perguntava se o Crossroads era um bar gay\u201d, ele diz. \u201cEu sempre dizia que era um bar de karaok\u00ea. Sim, eu sou gay, mas \u00e9 um bar de karaok\u00ea.\u201d Underwood agora administra um bar diferente, o Dusty\u2019s, que se tornou outro caldeir\u00e3o de identidades centrado na m\u00fasica do karaok\u00ea.<\/p>\n<p>\u201cAinda nos misturamos do mesmo jeito\u201d, ele diz. \u201cTive um show [recentemente] com motociclistas e caub\u00f3is, uma mesa de l\u00e9sbicas e uma mesa de pessoas s\u00f3 tomando cerveja, e todo mundo se dava bem e se divertia.\u201d<\/p>\n<p>O Crossroads era o que \u00e9 conhecido como um \u201cespa\u00e7o-abra\u00e7o\u201d. Os espa\u00e7os comunit\u00e1rios tendem a se formar em torno de tr\u00eas \u201cE\u201ds, diz Marquis: espa\u00e7os de escape, espa\u00e7os de encontro e espa\u00e7os-abra\u00e7o [\u201chavens, hangouts and hugs\u201d, no original]. Espa\u00e7os de escape s\u00e3o \u00e1reas protegidas de pertencimento, onde a identidade importa e a exclusividade dessa prote\u00e7\u00e3o \u00e9 o que cria seguran\u00e7a para aqueles dentro do grupo. Espa\u00e7os de encontro s\u00e3o \u00e1reas neutras onde as pessoas podem simplesmente estar, mas podem n\u00e3o interagir. Espa\u00e7os-abra\u00e7o s\u00e3o os locais que incentivam a poliniza\u00e7\u00e3o cruzada de identidades e a mistura socioecon\u00f4mica entre ra\u00e7a, classe e linhas ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Comunidades saud\u00e1veis precisam de um equil\u00edbrio dos tr\u00eas tipos de espa\u00e7o, diz Marquis. Mas a classifica\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica e outras formas de segrega\u00e7\u00e3o efetivamente nos empurram para caixas, potencialmente fazendo com que todo espa\u00e7o com o qual nos identificamos pare\u00e7a um ref\u00fagio, desprovido de atrito social, e todo espa\u00e7o fora dessa experi\u00eancia pare\u00e7a uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Os terceiros espa\u00e7os \u2013 os espa\u00e7os-abra\u00e7o \u2013 precisam ser fisicamente projetados para a dist\u00e2ncia conversacional (o esbarr\u00e3o literal de cotovelos) e precisam incorporar uma programa\u00e7\u00e3o intencional que crie oportunidades para comunica\u00e7\u00e3o e conex\u00e3o espont\u00e2neas e imprevis\u00edveis. O trabalho necess\u00e1rio de superar as divis\u00f5es sociais para fortalecer a democracia, ent\u00e3o, pode ser alcan\u00e7ado n\u00e3o apenas por meio de interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, mas talvez dentro do seu bar de karaok\u00ea, pista de boliche, biblioteca, transporte p\u00fablico ou igreja local.<\/p>\n<p>Quando penso na igreja da minha inf\u00e2ncia, a religi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o que me vem \u00e0 mente. O que mais me lembro s\u00e3o os hinos, o zumbido atonal de dezenas de vozes de agricultores cantando desafinados, o organista errando notas-chave, mas acertando a maioria, a recita\u00e7\u00e3o em grupo do Pai-Nosso antes dos adultos se alinharem para receber a comunh\u00e3o, o formato das botas enlameadas dos homens aparecendo sob suas cal\u00e7as sociais enquanto se ajoelhavam no altar e o pastor lhes derramava vinho nos l\u00e1bios de um c\u00e1lice compartilhado.<\/p>\n<p>\u00c9ramos uma pequena congrega\u00e7\u00e3o numa igreja de madeira de um s\u00f3 c\u00f4modo no meio do Texas Central, uma comunidade de cria\u00e7\u00e3o de gado com casas esparsas e terras abertas. A igreja foi constru\u00edda na d\u00e9cada de 1900 com a chegada dos trilhos de trem, e os mesmos descendentes daquela congrega\u00e7\u00e3o original (minha fam\u00edlia inclu\u00edda) ainda frequentam hoje. Quando volto para aquela igreja, sou envolvida pela hist\u00f3ria, pela mem\u00f3ria geracional e pela tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imagino minha igreja de inf\u00e2ncia sem o canto dos hinos, os rituais da comunh\u00e3o, os piqueniques, churrascos e ora\u00e7\u00f5es. Pessoas quietas mantendo-se cada um do seu lado da cerca, talvez desconfiadas dos vizinhos do outro lado do arame farpado. Imagino o Crossroads sem o karaok\u00ea e me esfor\u00e7o para sentir a mesma quantidade de amor entre as comunidades distintas. Imagino as pessoas agrupadas e segregadas, olhando nervosamente para a sala antes de decidir que n\u00e3o pertencem, jogando alguns d\u00f3lares na mesa e indo embora. Ambos seriam lugares mais silenciosos, mais tristes, mais assustadores e incertos. Uma pe\u00e7a integral estaria faltando.<\/p>\n<p>A tecnologia se gaba de uma exist\u00eancia sem atritos, mas o atrito \u00e9 parte do que faz a vida valer a pena ser vivida. Cada vez que trocamos nosso mundo falho e cheio de atrito por uma experi\u00eancia mais suave, mais conveniente e mais previs\u00edvel, estamos corroendo o que nos torna humanos: nossas almas.<\/p>\n<p>Esquecemos que temos almas. O que \u00e9 compreens\u00edvel, considerando quanto de nossas vidas passamos interagindo com a tecnologia. Nossas telas n\u00e3o t\u00eam alma. O ChatGPT n\u00e3o tem alma, n\u00e3o importa o quanto ele diga que entende nossa frustra\u00e7\u00e3o. Apelamos para nossos telefones como se fossem amigos, mediadores, mentores e terapeutas, rolando a tela em busca de alguma semelhan\u00e7a de boas not\u00edcias, algo para rir, algo que nos fa\u00e7a sentir vistos. Puxamos o feed para baixo para atualizar com os polegares, da mesma forma que puxamos a alavanca de um ca\u00e7a-n\u00edqueis. Talvez desta vez seja o jackpot. Talvez desta vez eu veja algo que me fa\u00e7a sentir completo.<\/p>\n<p>Mas o que \u00e9 uma alma? Como uma alma \u00e9 diferente de uma consci\u00eancia? Para mim, uma alma e uma consci\u00eancia s\u00e3o duas entidades completamente diferentes, a consci\u00eancia sendo aquela voz interior inc\u00f4moda do seu dever para com os outros, e a alma sendo aquela voz interior inc\u00f4moda do dever para com voc\u00ea mesmo. Mas a alma exige que voc\u00ea cuide dos outros, porque cuidar dos outros \u00e9 como curamos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Cuidar dos outros \u00e9 inconveniente. N\u00e3o podemos agendar uma cat\u00e1strofe para coincidir com nossa agenda pessoal. N\u00e3o podemos colocar um prazo no luto. N\u00e3o podemos prever com 100% de certeza que sempre diremos a coisa certa na hora certa. Temos que abra\u00e7ar o atrito da incerteza. Temos que operar com base na f\u00e9.<\/p>\n<p>\u201cExiste uma rela\u00e7\u00e3o horizontal e vertical da nossa vida e f\u00e9\u201d, diz o Pastor Nate, o pastor da minha antiga igreja. Ele \u00e9 um jovem apenas um ano mais velho que eu. Ele veio para nossa igreja h\u00e1 uma d\u00e9cada, no final de seus 20 anos. Lembro-me de pensar que ele teria uma trabalheira para lidar com aqueles veteranos, especialmente meu pai \u2013 um caub\u00f3i texano de puro-sangue com uma longa veia teimosa.<\/p>\n<p>Mas o Pastor Nate n\u00e3o teve dificuldade em se entrosar, uma prova de sua capacidade de fazer todos se sentirem bem-vindos, independentemente de suas cren\u00e7as ou identidade \u2013 n\u00e3o muito diferente de Underwood, o colecionador n\u00e3o oficial de almas perdidas no Crossroads e no Dusty\u2019s.<\/p>\n<p>\u201cA rela\u00e7\u00e3o vertical s\u00e3o as partes da nossa vida vividas em dire\u00e7\u00e3o a Deus; a horizontal s\u00e3o as partes da nossa vida vividas em dire\u00e7\u00e3o ao nosso pr\u00f3ximo\u201d, diz o Pastor Nate. \u201cVoc\u00ea precisa da vertical para n\u00e3o se decepcionar com a horizontal.\u201d<\/p>\n<p>Quer queiramos admitir ou n\u00e3o, os humanos vivem em um reino f\u00edsico, emocional e espiritual. Cuidamos prontamente da sa\u00fade f\u00edsica e emocional do nosso ser, mas quando se trata da sa\u00fade da nossa alma? N\u00f3s, que n\u00e3o buscamos comungar de alguma forma com um sentido maior al\u00e9m de n\u00f3s mesmos, nos encontraremos divagando, isolados e perdidos.<\/p>\n<p>Parei de frequentar a igreja h\u00e1 muito tempo. Embora eu n\u00e3o tenha sentido falta da igreja em si, senti falta da <em>sensa\u00e7\u00e3o<\/em> de igreja. O que realmente desejo \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia encarnada de comunh\u00e3o. Estar em espa\u00e7o f\u00edsico com outros humanos. N\u00e3o preciso conhecer todos esses humanos, me identificar com eles ou mesmo concordar com eles, mas preciso me sentir acolhida por eles. Eles precisam estar dispostos a cantar comigo.<\/p>\n<p>Atualmente, encontro essa sensa\u00e7\u00e3o num \u201cdive bar\u201d chamado Fran\u2019s. Assim como o Crossroads era, o Fran\u2019s \u00e9 um lugar modesto do tipo venha e seja voc\u00ea mesmo com noites de karaok\u00ea descontra\u00eddas. Meus amigos e eu chegamos cedo porque, uma vez que a m\u00fasica come\u00e7a, \u00e9 imposs\u00edvel conversar. O que \u00e9 bom, porque o objetivo deste bar n\u00e3o \u00e9 conversar, \u00e9 extravasar, gritar e cantar com uma tripula\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea de foli\u00f5es.<\/p>\n<p>O Fran\u2019s costumava ficar no lado mais interior do East Nashville, mas foi expulso pelos pre\u00e7os para os arredores da Dickerson Pike, uma parte da cidade ainda em fluxo, com condom\u00ednios de luxo semi-constru\u00eddos pairando sobre mot\u00e9is de di\u00e1ria. Dentro h\u00e1 duas mesas de sinuca com luz baixa, uma mistura de mesas de carta e cadeiras de metal e um balc\u00e3o comprido com uma mulher (n\u00e3o a Fran) preparando as bebidas. Eles servem apenas garrafas e latas e aceitam apenas dinheiro, sinto muito, querida.<\/p>\n<p>Pego o equivalente a US$ 2,50 em moedas de 25 centavos do meu bolso porque US$ 2,50 te d\u00e3o uma PBR e US$ 10 neste bar ainda podem me deixar bem b\u00eabada. Os frequentadores ass\u00edduos se sentam no canto e importunam a mulher, que os importuna de volta. Eles s\u00e3o uma cole\u00e7\u00e3o de homens idosos, brancos, negros, todos com cara de que este bar \u00e9 a casa deles e que est\u00e3o felizes por ter companhia.<\/p>\n<p>O karaok\u00ea abre oficialmente. Lendo a sala, escolho \u201cBlue\u201d, de LeAnn Rimes. Afinal, estamos em Nashville e este ainda \u00e9 um bar country \u2013 mas n\u00e3o por muito tempo, porque os gays chegaram e est\u00e3o clamando por Britney e Chappell Roan. As mesas de sinuca enchem; alguns pais millennial mais velhos correm para cantar \u201cTeenage Dirtbag\u201d entre os goles. Minha amiga Yurina canta sua favorita, \u201cManiac\u201d, enquanto chicoteia o cabelo dramaticamente em c\u00edrculo e faz o \u201crunning man\u201d com grande aclama\u00e7\u00e3o. Volto ao palco e canto \u201cNeon Moon\u201d, mantendo minhas ra\u00edzes country, e os frequentadores ass\u00edduos acenam com a cabe\u00e7a e brindam para mim.<\/p>\n<p>Um deles pega o microfone e a sala enlouquece por ele. Ele tem uns 50 e poucos anos, embora pare\u00e7a uma d\u00e9cada mais velho por causa de uma vida dura. Ele \u00e9 magro, com os ossos aparecendo sob a camiseta surrada, jeans sujos sustentados por um cinto. Ele canta falando \u201cI Love This Bar\u201d, de Toby Keith, e nem precisa olhar para a tela para ver a letra. Olhos fechados, sorriso euf\u00f3rico, a m\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o \u2013 a personifica\u00e7\u00e3o de um homem cantando para seu amor, e todos n\u00f3s sentimos isso, todos n\u00f3s torcemos por ele.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar essa cole\u00e7\u00e3o estranha de pessoas se encontrando fora deste bar e sentindo o mesmo tipo de amor que sentimos aqui. Mas depois desta noite, se nos encontr\u00e1ssemos na rua, haveria sorrisos, possivelmente at\u00e9 abra\u00e7os. Talvez um acordo para nos vermos novamente em breve no microfone. Somos muito melhores quando estamos cantando juntos.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post Elogio ao estranhamento social appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/15-anos-15-historias\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">15 anos, 15 hist\u00f3rias<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/dengue-um-ano-apos-inicio-da-vacinacao-procura-e-baixa\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Dengue: um ano ap\u00f3s in\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o, procura \u00e9...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/formacao-de-liderancas-negras-avanca-no-rio-grande-do-sul-com-nova-etapa-de-programa-comunitario\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Forma\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as negras avan\u00e7a no Rio Grande...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/irmaos-brazao-sao-condenados-a-76-anos-e-3-meses-pelo-assassinato-de-marielle-franco\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Irm\u00e3os Braz\u00e3o s\u00e3o condenados a 76 anos e 3 meses p...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poesia das cidades est\u00e1, h\u00e1 s\u00e9culos, no encontro entre os diferentes, suas chispas, seus est\u00edmulos. 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