{"id":62372,"date":"2025-11-04T16:20:14","date_gmt":"2025-11-04T19:20:14","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/carlos-marighella-a-trajetoria-de-um-revolucionario\/"},"modified":"2025-11-04T16:20:14","modified_gmt":"2025-11-04T19:20:14","slug":"carlos-marighella-a-trajetoria-de-um-revolucionario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/carlos-marighella-a-trajetoria-de-um-revolucionario\/","title":{"rendered":"Carlos Marighella: a trajet\u00f3ria de um revolucion\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 56 anos, em 4 de novembro de 1969, o revolucion\u00e1rio Carlos Marighella era assassinado por agentes da ditadura militar brasileira. Ele tombou durante uma emboscada organizada por S\u00e9rgio Paranhos Fleury, delegado do DOPS.<\/p>\n<p>Marighella iniciou sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica ainda na juventude, participando da agita\u00e7\u00e3o estudantil e oper\u00e1ria. Militante do Partido Comunista (PCB), ele seria alvo das ofensivas lan\u00e7adas por Vargas ap\u00f3s a insurrei\u00e7\u00e3o de 1935, sendo submetido a v\u00e1rios anos de pris\u00e3o e tortura.<\/p>\n<p>Convertido em um dos principais dirigentes do PCB, Marighella integrou a hist\u00f3rica bancada comunista eleita para compor a Assembleia Constituinte de 1946, destacando-se pela luta pelos direitos sociais e trabalhistas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe de 1964, Marighella fundou a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), uma das organiza\u00e7\u00f5es mais combativas da luta armada contra a ditadura. Ele foi respons\u00e1vel por algumas das opera\u00e7\u00f5es mais espetaculares da guerrilha urbana e chegou a ser rotulado como o \u201cinimigo n\u00famero um\u201d do regime.<\/p>\n<h3>Juventude e forma\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Carlos Marighella nasceu em 5 de dezembro de 1911 em Salvador, Bahia. Era o primog\u00eanito dos oito filhos de Augusto Marighella e Maria Rita dos Santos. Seu pai era um imigrante italiano que chegou ao Brasil no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, ativo como mec\u00e2nico e oper\u00e1rio da ind\u00fastria metal\u00fargica. A m\u00e3e, empregada dom\u00e9stica, era descendente direta de africanos hau\u00e7\u00e1s, trazidos do norte da Nig\u00e9ria para o Brasil como escravizados.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia vivia em uma casa na Baixa dos Sapateiros, uma regi\u00e3o comercial no centro hist\u00f3rico de Salvador. Desde cedo, os pais de Marighella o incentivaram a ler, presenteando-o com obras de autores nacionais e estrangeiros. O jovem foi bastante influenciado pela vis\u00e3o pol\u00edtica do pai, simpatizante das ideias anarquistas.<\/p>\n<p>Marighella frequentou o ensino prim\u00e1rio no Col\u00e9gio Carneiro Ribeiro. Posteriormente, ingressou no Gin\u00e1sio da Bahia, a \u00fanica escola p\u00fablica de ensino secund\u00e1rio ent\u00e3o existente em Salvador. L\u00e1, ele se destacou como um dos melhores alunos de sua turma.<\/p>\n<p>Data desse per\u00edodo um de seus registros escolares mais conhecidos \u2014 uma prova de f\u00edsica respondida em forma de versos, que ficaria exposta no Gin\u00e1sio da Bahia at\u00e9 o golpe de 1964. O jovem cursou um ano a mais ap\u00f3s o t\u00e9rmino do ensino secund\u00e1rio, obtendo o bacharelado em Ci\u00eancias e Letras, o que o habilitava a atuar como professor e a dar aulas particulares.<\/p>\n<p>Em 1929, Marighella ingressou no curso de Engenharia Civil na Escola Polit\u00e9cnica da Bahia. Foi nesse per\u00edodo que ele iniciou sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica, participando de atos, manifesta\u00e7\u00f5es e congressos convocados pelo movimento estudantil.<\/p>\n<p>Marighella foi preso pela primeira vez em 1932, como puni\u00e7\u00e3o por ter participado da ocupa\u00e7\u00e3o da Faculdade de Medicina da Bahia \u2014 um protesto contra o autoritarismo do governo de Get\u00falio Vargas. Ele tamb\u00e9m havia escrito um famoso poema onde tecia cr\u00edticas ao interventor Juracy Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>O estudante logo foi liberado, mas se tornou alvo de um processo interno. Em 1934, Marighella seria punido com uma suspens\u00e3o, acusado de ter subtra\u00eddo documentos do inqu\u00e9rito em que era investigado.<\/p>\n<h3>Milit\u00e2ncia no PCB e as pris\u00f5es na Era Vargas<\/h3>\n<p>Aprofundando-se na milit\u00e2ncia, Marighella passou a acompanhar de perto as atividades do movimento oper\u00e1rio. Ainda em 1934, ele se filiou ao Partido Comunista do Brasil (antigo PCB).<\/p>\n<p>Estabelecido em Niter\u00f3i em 1922, o PCB enfrentava grandes obst\u00e1culos para consolidar suas atividades em outras regi\u00f5es do pa\u00eds \u2014 incluindo a repress\u00e3o do governo, que jogou o partido na ilegalidade apenas tr\u00eas meses ap\u00f3s sua funda\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio dos anos 30, o PCB baiano tinha presen\u00e7a bastante modesta, limitada a algumas d\u00fazias de militantes.<\/p>\n<p>Marighella abandonou o curso de engenharia para se dedicar integralmente \u00e0s atividades pol\u00edticas. Ele passou um ano ajudando a articular as a\u00e7\u00f5es do PCB na Bahia e se converteu em um dos principais dirigentes locais da agremia\u00e7\u00e3o. Em 1935, por orienta\u00e7\u00e3o do partido, Marighella se mudou para o Rio de Janeiro, assumindo tarefas repassadas diretamente pela secretaria nacional.<\/p>\n<p>A chegada \u00e0 capital coincidiu com o recrudescimento da repress\u00e3o anticomunista da Era Vargas. O PCB havia ajudado a criar a Alian\u00e7a Nacional Libertadora \u2014 ANL, uma frente antifascista que fazia oposi\u00e7\u00e3o tanto ao governo brasileiro quanto ao movimento integralista. Em novembro de 1935, militares ligados \u00e0 ANL deram in\u00edcio a uma insurrei\u00e7\u00e3o. O levante foi esmagado em poucos dias, mas justificou uma violenta ofensiva do governo, resultando na decreta\u00e7\u00e3o de estado de s\u00edtio e na pris\u00e3o de milhares de militantes comunistas.<\/p>\n<p>Suspeito de participa\u00e7\u00e3o na revolta, Marighella foi preso em 1936. Ficou sob cust\u00f3dia da pol\u00edcia pol\u00edtica chefiada por Filinto M\u00fcller, sendo torturado por 23 dias seguidos. Apesar da brutalidade dos interrogat\u00f3rios, Marighella se negou a delatar seus companheiros. O l\u00edder comunista permaneceu encarcerado por um ano. Foi libertado em junho de 1937, no contexto da \u201cmacedada\u201d \u2014 a medida editada pelo ministro da Justi\u00e7a, Jos\u00e9 Carlos de Macedo Soares, que determinou a soltura dos presos pol\u00edticos n\u00e3o condenados.<\/p>\n<p>Em novembro de 1937, utilizando o farsesco \u201cPlano Cohen\u201d como pretexto, Get\u00falio Vargas liderou o golpe que deu in\u00edcio \u00e0 ditadura do Estado Novo. Marighella permaneceria atuando na clandestinidade, colaborando com Joaquim C\u00e2mara Ferreira na rearticula\u00e7\u00e3o do partido. Ele recebeu a tarefa de combater as fra\u00e7\u00f5es trotskistas e assumiu a dire\u00e7\u00e3o da revista<em> Problemas.<\/em><\/p>\n<p>Em 1939, Marighella foi novamente preso, acusado de \u201catividades subversivas\u201d. Ficou detido por seis anos, a princ\u00edpio na pris\u00e3o de Fernando de Noronha e depois no pres\u00eddio na Ilha Grande. Durante o c\u00e1rcere, o l\u00edder comunista organizou uma \u201cuniversidade popular\u201d, dando aulas sobre diversos temas para mais de 180 detentos.<\/p>\n<p>Mesmo estando preso, Marighella foi eleito integrante do Comit\u00ea Nacional do PCB em 1943, durante a Confer\u00eancia da\u00a0Mantiqueira. Ele foi solto em abril de 1945, beneficiado pela anistia concedida durante o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h3>A bancada comunista<\/h3>\n<p>A reorganiza\u00e7\u00e3o do PCB em 1943 e o cen\u00e1rio pol\u00edtico favor\u00e1vel possibilitaram que o partido experimentasse uma expans\u00e3o sem precedentes de sua base de apoio ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sobre os nazistas e a luta em prol da redemocratiza\u00e7\u00e3o conferiram amplo prest\u00edgio ao movimento comunista, igualmente beneficiado por uma estrat\u00e9gia bem-sucedida de difus\u00e3o da imprensa oper\u00e1ria e de articula\u00e7\u00e3o junto aos sindicatos, entidades estudantis e movimentos sociais. Posto na legalidade, o PCB se converteu em um partido de massas, atraindo mais de 200.000 filiados.<\/p>\n<p>O crescimento do PCB se refletiu nas elei\u00e7\u00f5es realizadas em 1945. Iedo Fi\u00faza, o candidato do partido ao pleito presidencial, angariou 10% dos votos. Nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares, o PCB conseguiu eleger 14 deputados federais e um senador.<\/p>\n<p>Carlos Marighella foi eleito deputado federal pelo PCB da Bahia, integrando a hist\u00f3rica bancada comunista da Assembleia Nacional Constituinte, ao lado de nomes como Luiz Carlos Prestes, Greg\u00f3rio Bezerra, Jo\u00e3o Amazonas e Jorge Amado.<\/p>\n<p>Durante seu mandato, Marighella se destacou como um dos deputados mais atuantes, usando a tribuna para mobilizar a popula\u00e7\u00e3o em prol das pautas populares. Ele instituiu um programa voltado \u00e0 defesa dos direitos trabalhistas, \u00e0 expans\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e ao controle estatal sobre os recursos energ\u00e9ticos. Foi tamb\u00e9m o autor da ementa que prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o do Instituto Nacional do Petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>A carreira do deputado, no entanto, logo seria interrompida. Em 1947, a justi\u00e7a anulou o registro eleitoral do PCB. No ano seguinte, todos os parlamentares do partido tiveram seus mandatos cassados. Alinhando-se \u00e0 pol\u00edtica anticomunista dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, o governo de Eurico Gaspar Dutra desatou mais uma onda de repress\u00e3o \u00e0 esquerda radical.<\/p>\n<p>Destitu\u00eddo de seu mandato, Marighella retornou \u00e0 milit\u00e2ncia clandestina, atuando no movimento sindical e nas organiza\u00e7\u00f5es populares. Foi nesse per\u00edodo que nasceu seu \u00fanico filho, Carlos Augusto, fruto de seu romance com a oper\u00e1ria Elza Sento S\u00e9. Posteriormente, Marighella se envolveu com Clara Charf, uma militante do PCB que seria sua companheira pelo resto da vida.<\/p>\n<h3>Dos anos 50 ao golpe de 1964<\/h3>\n<p>Integrado \u00e0 Comiss\u00e3o Executiva do Comit\u00ea Central do PCB, Marighella atuou nas mais importantes mobiliza\u00e7\u00f5es populares dos anos 50, incluindo a campanha em prol do monop\u00f3lio estatal do petr\u00f3leo e os protestos contra o envio de soldados brasileiros para lutar na Guerra da Coreia.<\/p>\n<p>O comunista tamb\u00e9m teve papel central na organiza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3rica Greve dos 300.000 que parou S\u00e3o Paulo em mar\u00e7o de 1953. Motivada pelo descontentamento dos trabalhadores com o aumento do custo de vida, a paralisa\u00e7\u00e3o resultaria na queda do ministro do Trabalho Segadas Viana, substitu\u00eddo por Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em 1953, Marighella viajou para a China, a convite do Partido Comunista chin\u00eas. Passou mais de um ano nesse pa\u00eds, acompanhando de perto a gest\u00e3o desenvolvida ap\u00f3s o triunfo do movimento revolucion\u00e1rio. Em Pequim, encontrou-se com Mao Zedong e participou do congresso da Organiza\u00e7\u00e3o de Solidariedade dos Povos da \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>De volta ao Brasil, Marighella se dedicou \u00e0 produ\u00e7\u00e3o intelectual e \u00e0 difus\u00e3o das ideias revolucion\u00e1rias. Em 1958, ele escreveu \u201cAlguns Aspectos da Renda da Terra no Brasil\u201d, uma sucinta an\u00e1lise cr\u00edtica sobre as quest\u00f5es agr\u00e1rias, a din\u00e2mica e os efeitos perversos da concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e do modelo econ\u00f4mico agroexportador.<\/p>\n<p>O dirigente baiano tomou parte dos acalorados debates provocados pelo 20\u00ba Congresso do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1956. Durante o encontro, o premi\u00ea Nikita Kruschev exortou a rejei\u00e7\u00e3o ao legado de Josef Stalin, atribuindo uma s\u00e9rie de crimes ao seu antecessor.<\/p>\n<p>As den\u00fancias de Kruschev abalaram profundamente o movimento comunista internacional e levaram \u00e0 cis\u00e3o do PCB. O partido se dividiu em dois blocos, com posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas sobre a nova orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Moscou. Em 1962, um grupo de dissidentes deixou a agremia\u00e7\u00e3o (j\u00e1 rebatizada como \u201cPartido Comunista Brasileiro\u201d) e fundou o PCdoB.<\/p>\n<p>Marighella se perfilou ao grupo alinhado \u00e0s novas diretrizes de Moscou. A mudan\u00e7a na linha pol\u00edtica do partido seria referendada pelo V Congresso do PCB, organizado em 1960. Buscando garantir sua legaliza\u00e7\u00e3o, a agremia\u00e7\u00e3o adotou a defesa da transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica para o socialismo, vinculando-a \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas liberais.<\/p>\n<p>Embora fosse um dos maiores defensores da campanha pela legaliza\u00e7\u00e3o e apoiasse as reformas de Jo\u00e3o Goulart, Marighella se tornou um cr\u00edtico das posturas excessivamente moderadas do partido, denunciando a neglig\u00eancia da dire\u00e7\u00e3o do PCB em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s suas bases e apontando o risco de ruptura institucional.<\/p>\n<h3>O golpe de 1964 e a sa\u00edda do PCB<\/h3>\n<p>Os desentendimentos entre Marighella e a dire\u00e7\u00e3o do PCB se agravaram a partir do golpe militar de 1964. A deposi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart foi seguida pela instaura\u00e7\u00e3o de uma ditadura militar que se prolongaria por 21 anos, desatando uma sequ\u00eancia intermin\u00e1vel de retrocessos.<\/p>\n<p>Em 9 de maio de 1964, Marighella foi localizado por agentes do DOPS dentro de um cinema no Rio de Janeiro. Ao enfrentar os policiais com socos e gritos de \u201cabaixo a ditadura\u201d, o revolucion\u00e1rio baiano foi baleado, recebendo um tiro \u00e0 queima-roupa no peito. Foi socorrido no Hospital Souza Aguiar e depois levado mais uma vez ao c\u00e1rcere na Penitenci\u00e1ria Lemos Brito.<\/p>\n<p>Libertado por ordem judicial ap\u00f3s tr\u00eas meses, Marighella passou a defender a luta armada contra a ditadura. Em 1965, ele escreveu<em> Por Que Resisti \u00e0 Pris\u00e3o<\/em>, fazendo uma den\u00fancia enf\u00e1tica contra o regime e criticando a in\u00e9rcia do PCB diante da quartelada.<\/p>\n<p>No ano seguinte, Marighella escreveu <em>A Crise Brasileira<\/em>, um trabalho te\u00f3rico analisando a conjuntura nacional a partir da observa\u00e7\u00e3o da estrutura de classes. Mais uma vez, o revolucion\u00e1rio criticava o PCB, acusando o partido de se acomodar na ilus\u00e3o da pol\u00edtica institucional burguesa. Em 1966, Marighella renunciou ao seu cargo na Comiss\u00e3o Executiva do partido, detalhando os motivos de seu descontentamento na chamada \u201cCarta \u00e0 Executiva\u201d.<\/p>\n<p>Marighella n\u00e3o era uma voz isolada no PCB. A recusa do partido em apoiar a luta armada causou amplo descontentamento entre suas bases e levou \u00e0 divis\u00e3o do Comit\u00ea Central. Os dissidentes se agruparam em torno da \u201ccorrente revolucion\u00e1ria\u201d, que congregava nomes como Joaquim C\u00e2mara Ferreira, Jacob Gorender e M\u00e1rio Alves, entre outros.<\/p>\n<p>Contrariando a recomenda\u00e7\u00e3o do partido, Marighella viajou para Cuba em 1967, a fim de participar da 1\u00aa Confer\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o Latino-Americana de Solidariedade (OLAS). Ap\u00f3s a estadia em Havana, escreveu <em>Algumas Quest\u00f5es Sobre a Guerrilha do Brasil<\/em>, trabalho que seria dedicado \u00e0 mem\u00f3ria do revolucion\u00e1rio Che Guevara, assassinado nesse mesmo ano na Bol\u00edvia.<\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-236728\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/marighella_foto3_deputado_46-47_apeerj_cropped.jpg\" alt=\"\" width=\"477\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/marighella_foto3_deputado_46-47_apeerj_cropped.jpg 477w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/marighella_foto3_deputado_46-47_apeerj_cropped-284x300.jpg 284w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/marighella_foto3_deputado_46-47_apeerj_cropped-150x158.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 477px) 100vw, 477px\"><figcaption>Carlos Marighella retratado por volta de 1946 <br \/>Arquivo P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro<\/figcaption><\/figure>\n<h3>A ALN e a luta armada<\/h3>\n<p>A viagem de Marighella para Cuba foi considerada a gota d\u2019\u00e1gua. Em 1967, o l\u00edder baiano foi expulso do PCB. O mesmo ocorreria com os demais dirigentes agrupados na \u201ccorrente revolucion\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1968, Marighella escreveu <em>Chamamento ao Povo Brasileiro<\/em>, conclamando a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 resist\u00eancia contra o regime. Ao lado de Joaquim C\u00e2mara Ferreira, ele fundou a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), movimento guerrilheiro que se consagraria como uma das organiza\u00e7\u00f5es mais combativas da luta armada contra o regime.<\/p>\n<p>A ALN seria respons\u00e1vel por algumas das a\u00e7\u00f5es mais ousadas perpetradas pela resist\u00eancia. Em outubro de 1968, em uma opera\u00e7\u00e3o conjunta com Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR), os guerrilheiros executaram Charles Chandler, oficial do ex\u00e9rcito dos Estados Unidos que prestava assessoria aos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o da ditadura.<\/p>\n<p>Em 1969, Marighella publicou o <em>Minimanual do Guerrilheiro Urbano<\/em>, uma obra com orienta\u00e7\u00f5es sobre estrat\u00e9gias e t\u00e1ticas de guerrilha. Mimeografada e fotocopiada, a obra foi fartamente distribu\u00edda entre os movimentos revolucion\u00e1rios de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. O l\u00edder comunista tamb\u00e9m redigiu outros textos abordando a luta armada, incluindo \u201cSobre a Organiza\u00e7\u00e3o dos Revolucion\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<p>Em agosto de 1969, os combatentes da ALN tomaram as instala\u00e7\u00f5es da R\u00e1dio Nacional em S\u00e3o Paulo, com o prop\u00f3sito de transmitir o manifesto de Marighella intitulado \u201cAo Povo Brasileiro\u201d, denunciando os crimes da ditadura e explicando a motiva\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia armada. A transmiss\u00e3o durou 30 minutos.<\/p>\n<p>A mais espetacular a\u00e7\u00e3o da ALN ocorreria tr\u00eas semanas depois, em setembro de 1969. Em uma opera\u00e7\u00e3o conjunta com o Movimento Revolucion\u00e1rio 8 de Outubro (MR-8), os guerrilheiros sequestraram Charles Burke Elbrick, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em troca da soltura do diplomata, a ALN exigiu a liberta\u00e7\u00e3o de 15 presos pol\u00edticos e a leitura de um manifesto em rede nacional.<\/p>\n<p>A captura do embaixador teve enorme repercuss\u00e3o e constrangeu a ditadura. Decidido a esmagar a ALN, o governo militar mobilizou todo o seu aparato repressivo e lan\u00e7ou uma s\u00e9rie de opera\u00e7\u00f5es para capturar e eliminar os guerrilheiros.<\/p>\n<h3>O mart\u00edrio<\/h3>\n<p>Os militares brasileiros receberam do governo norte-americano a informa\u00e7\u00e3o de que Carlos Marighella mantinha contatos frequentes com frades dominicanos de S\u00e3o Paulo. Em 1\u00ba de novembro de 1969, os agentes prenderam os frades Ivo e Fernando de Brito. Levados at\u00e9 o Centro de Intelig\u00eancia da Marinha (Cenimar), os religiosos foram brutalmente torturados e acabaram por confessar que tinham um encontro marcado com o guerrilheiro comunista.<\/p>\n<p>Carlos Marighella foi assassinado na noite de 4 de novembro de 1969. Ap\u00f3s confirmar o encontro com os frades, ele foi atra\u00eddo para uma emboscada na Alameda Casa Branca, em S\u00e3o Paulo, sendo fuzilado por agentes do DOPS. A opera\u00e7\u00e3o foi coordenada pelo delegado S\u00e9rgio Fleury, um dos mais infames assassinos da ditadura.<\/p>\n<p>Em 2008, o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro pela morte de Marighella e, em 2012, a Comiss\u00e3o da Verdade lhe concedeu a anistia post mortem.<\/p>\n<p>Marighella foi homenageado por Caetano Veloso com a can\u00e7\u00e3o <em>Um Comunista<\/em> e tamb\u00e9m pelos Racionais MC\u2019s com a m\u00fasica <em>Mil Faces de um Homem Leal<\/em>. O guerrilheiro foi tema de tr\u00eas document\u00e1rios e dois longa-metragens.<\/p>\n<p>Seu <em>Minimanual do Guerrilheiro Urbano<\/em>\u00a0foi traduzido para v\u00e1rios idiomas e publicado em dezenas de pa\u00edses, consagrando-se como um dos melhores comp\u00eandios sobre guerrilha em ambiente urbano \u2014 a ponto de ser integrado ao material did\u00e1tico da CIA, como refer\u00eancia para elaborar a\u00e7\u00f5es de contraintelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Marighella segue sendo um dos maiores expoentes e influ\u00eancias da esquerda brasileira e um s\u00edmbolo poderoso de resist\u00eancia \u00e0 arbitrariedade e de dedica\u00e7\u00e3o inarred\u00e1vel \u00e0s causas populares, sintetizados em um de seus mais famosos ad\u00e1gios: \u201ca \u00fanica luta que se perde \u00e9 aquela que se abandona\u201d.<\/p>\n<p>O post Carlos Marighella: a trajet\u00f3ria de um revolucion\u00e1rio apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/da-periferia-chilena-a-corrida-presidencial-jeannette-jara-lidera-pesquisas\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/gabrielboric-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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Ele tombou durante uma emboscada organizada por S\u00e9rgio Paranhos Fleury, delegado do DOPS. Marighella iniciou sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica ainda na juventude, participando da agita\u00e7\u00e3o estudantil e oper\u00e1ria. 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