{"id":62873,"date":"2025-11-06T18:38:53","date_gmt":"2025-11-06T21:38:53","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/poesia-em-tempos-dificeis-convite-a-lirica-de-brecht\/"},"modified":"2025-11-06T18:38:53","modified_gmt":"2025-11-06T21:38:53","slug":"poesia-em-tempos-dificeis-convite-a-lirica-de-brecht","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/poesia-em-tempos-dificeis-convite-a-lirica-de-brecht\/","title":{"rendered":"Poesia em tempos dif\u00edceis: convite \u00e0 l\u00edrica de Brecht"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"799\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/228-coluna-silvio-bertold-brecht.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/228-coluna-silvio-bertold-brecht-1500x799.jpg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/228-coluna-silvio-bertold-brecht-300x160.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/228-coluna-silvio-bertold-brecht-768x409.jpg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/228-coluna-silvio-bertold-brecht-1536x819.jpg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/228-coluna-silvio-bertold-brecht.jpg 1563w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><figcaption>Foto: Fred Stein \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Pela primeira vez no Brasil, a tradu\u00e7\u00e3o de colet\u00e2neas completas da poesia de Bertolt Brecht (1898-1956), que escreveu os versos pol\u00edticos alem\u00e3es mais importantes do s\u00e9culo XX.  Ao todo, s\u00e3o seis obras, escritas entre 1926 e 1953,  reunidas em <em>Poesia em tempos dif\u00edceis<\/em> (editora Hedra), com tradu\u00e7\u00e3o do professor de literatura alem\u00e3 da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e colaborador de <em>Outras Palavras<\/em>, Tercio Redondo.<\/p>\n<p>\u201cPredomina a reflex\u00e3o que orienta a luta contra o fascismo e a guerra \u2013 antes, durante e depois do per\u00edodo ditatorial nazista. Essa l\u00edrica, profundamente engajada, mas avessa \u00e0 atitude panflet\u00e1ria, surpreende-nos a cada p\u00e1gina pela aproxima\u00e7\u00e3o com a crise em que hoje estamos todos mergulhados\u201d, destaca o tradutor.<\/p>\n<p>O livro se abre com poemas voltados \u00e0 vida urbana nas grandes metr\u00f3poles, aponta T\u00e9rcio Redondo, \u201cos quais, entre outras coisas, antecipam a cat\u00e1strofe do fascismo e da guerra. As quatro colet\u00e2neas seguintes contemplam uma grande variedade de temas que giram em torno da luta antifascista, com um insistente chamado para os intelectuais e artistas alem\u00e3es exilados para se prepararem para a luta demandada do campo est\u00e9tico-pol\u00edtico\u201d. A \u00faltima colet\u00e2nea tem sabor amargo: escrita j\u00e1 no final da vida do poeta, ressoa o fracasso do projeto socialista na Alemanha Oriental.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/13-4.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/13-4.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/13-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>O lan\u00e7amento ocorre neste s\u00e1bado (08), na Livraria Express\u00e3o Popular, que fica no Armaz\u00e9m do Campo, espa\u00e7o do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), a partir das 15h, e vai contar com a participa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Tercio, al\u00e9m de Priscilla Figueiredo, S\u00e9rgio de Carvalho e F\u00e1bio Weintraub .<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"956\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-10-24-at-195935.jpeg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-10-24-at-19.59.35-1500x956.jpeg 1500w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-10-24-at-19.59.35-300x191.jpeg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-10-24-at-19.59.35-768x490.jpeg 768w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-10-24-at-19.59.35-1536x979.jpeg 1536w, https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-10-24-at-195935.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px\"><\/figure>\n<p>Leia a seguir a entrevista concedida por Tercio Redondo a Maur\u00edcio Ayer.<\/p>\n<p><strong>Maur\u00edcio Ayer: Uma primeira quest\u00e3o que se imp\u00f5e \u00e9 a atualidade da l\u00edrica de Brecht. Tercio, na sua vis\u00e3o, o que uma poesia que testemunhou a ascens\u00e3o do regime nazista, a expans\u00e3o do capitalismo industrial e os primeiros anos da Guerra Fria tem a nos dizer sobre o nosso tempo? O t\u00edtulo desta reuni\u00e3o de obras l\u00edricas, <em>Poemas em tempos dif\u00edceis<\/em>, procura fazer essa ponte?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>T\u00e9rcio Redondo<\/strong><strong>:<\/strong><strong> <\/strong>A poesia de Brecht dessa \u00e9poca constituiu uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica em que, especialmente na Europa, naufragava a democracia liberal, tornada inoperante, incapaz de garantir o grau de explora\u00e7\u00e3o do trabalho necess\u00e1rio para a preserva\u00e7\u00e3o do capitalismo. A sa\u00edda autorit\u00e1ria tornara-se incontorn\u00e1vel do ponto de vista da burguesia, interessada em disciplinar os trabalhadores, coibir do modo mais eficiente poss\u00edvel a sua organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e, no final das contas, barrar a sempre temida revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Se hoje a crise econ\u00f4mica se acirra, se o capitalismo depara o decr\u00e9scimo da taxa de lucro e v\u00ea como rem\u00e9dio para a estagna\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios o avan\u00e7o sobre o patrim\u00f4nio p\u00fablico e as reservas naturais, parece-me que, mais uma vez, o sistema requer um regime de governo autorit\u00e1rio, o que inclui as chamadas democracias iliberais, porque os seres humanos acabam por reagir, num gesto de autopreserva\u00e7\u00e3o, \u00e0 hiperexplora\u00e7\u00e3o do trabalho e \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do planeta.<\/p>\n<p>Mas poesia n\u00e3o \u00e9 an\u00e1lise pol\u00edtica. Como toda boa poesia, a de Brecht capta e processa <em>artisticamente<\/em> sinais e sintomas de algo que se passa na sociedade.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o licen\u00e7a para citar duas estrofes de um poema, escrito em 1926, que integra a primeira colet\u00e2nea do livro:<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arte-1_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>N\u00e3o queremos deixar sua casa<br \/>N\u00e3o queremos derrubar o fog\u00e3o<br \/>No fog\u00e3o queremos p\u00f4r a panela.<br \/>Casa, fog\u00e3o e panela podem ficar<br \/>E voc\u00ea deve desaparecer como a fuma\u00e7a no c\u00e9u<br \/>A qual ningu\u00e9m segura.<\/p>\n<p>As cidades podem mudar<br \/>Mas voc\u00ea n\u00e3o pode mudar.<br \/>\u00c0s pedras, tratamos de persuadir<br \/>Mas voc\u00ea, queremos matar<br \/>Voc\u00ea n\u00e3o h\u00e1 de viver.<br \/>Das mentiras em que sempre haveremos de acreditar:<br \/>Voc\u00ea n\u00e3o pode ter existido.<\/p>\n<p>Esses versos me vieram imediatamente \u00e0 cabe\u00e7a quando, hoje de manh\u00e3, li um depoimento de uma jovem palestina residente em Gaza, publicado em <em>Na sombra do holocausto: genoc\u00eddio em Gaza<\/em>, livro da Contrabando Editorial. Num dado momento, ela fala a respeito da hist\u00f3ria oficial israelense, segundo a qual, ao chegar \u00e0 Palestina, seus primeiros colonos encontraram uma terra despovoada. A entrevistada fala tamb\u00e9m da dific\u00edlima e arriscada assist\u00eancia jur\u00eddica que \u00e9 prestada aos prisioneiros pol\u00edticos palestinos em Israel: \u201cPara a consist\u00eancia do mito fundador do seu plano colonial de uma \u2018terra sem povo\u2019, qualquer outra narrativa deve ser apagada. Enquanto colonizada, voc\u00ea deve ser morta silenciosamente, como se nunca tivesse existido. Portanto, documentar seus crimes [os do colonizador] torna-se um crime, e defender um detento \u00e9 algo que condena os defensores.\u201d<\/p>\n<p>O apagamento da mem\u00f3ria de um povo colonizado \u00e9 quest\u00e3o atual\u00edssima. Brecht mostra como o apagamento de uma exist\u00eancia, individual ou coletiva, pode ser tratado na l\u00edrica, desde que, \u00e9 preciso frisar, o poeta tenha discernimento pol\u00edtico acerca da barb\u00e1rie tal como ela se processa em seu pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p><strong>MA: Brecht j\u00e1 foi acusado de ser um autor cerebral, como se n\u00e3o houvesse emo\u00e7\u00e3o em seu teatro e em sua poesia. Ele teria respondido que seu teatro trabalha, sim, com as emo\u00e7\u00f5es, mas que ele gostaria que as pessoas n\u00e3o deixassem a cabe\u00e7a junto com o chap\u00e9u na chapelaria do teatro. Ao ler sua poesia, parece que o caso \u00e9 similar: certamente somos obrigados a usar o que trazemos debaixo do chap\u00e9u. Mas que tipo de emo\u00e7\u00e3o essa poesia suscita?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>TR: <\/strong>Penso que \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o da descoberta. N\u00e3o de algo novo, mas de algo velho que est\u00e1, por\u00e9m, socialmente encoberto, invisibilizado. N\u2019<em>A compra do lat\u00e3o<\/em>, um texto inacabado, mas fundamental para a compreens\u00e3o de seu teatro, Brecht insiste no tema do <em>conv\u00edvio<\/em>, lembrando que os seres humanos s\u00e3o fundamentalmente seres que vivem em sociedade. E ele faz a seguinte observa\u00e7\u00e3o: a modernidade \u00e9 uma era em que os fen\u00f4menos naturais passaram a ser objeto da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, de modo que suas causas podem se tornar conhecidas. De acordo com ele, n\u00e3o se pode dizer o mesmo sobre os fen\u00f4menos sociais, e ele d\u00e1 o seguinte exemplo: ao vermos uma pedra ser atirada para o alto, sabemos que ela necessariamente voltar\u00e1 ao ch\u00e3o, e o sabemos n\u00e3o apenas pela observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, mas tamb\u00e9m pelo conhecimento que temos da lei da gravidade. Entretanto, diz Brecht, \u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o saibamos o porqu\u00ea de essa pedra ter sido arremessada. H\u00e1 um atraso na compreens\u00e3o da vida em sociedade em compara\u00e7\u00e3o com a compreens\u00e3o que temos sobre os fen\u00f4menos naturais. O papel da arte \u00e9 o de colaborar na investiga\u00e7\u00e3o dos fundamentos de uma sociedade injusta, bem como auxiliar na compreens\u00e3o do que se pode fazer para modific\u00e1-la. Para ele, no entanto, seria impens\u00e1vel uma arte puramente racional. Se existisse uma arte assim, ela j\u00e1 n\u00e3o seria humana. O que lhe era intoler\u00e1vel era a redu\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a de teatro ou de um poema \u00e0 exclusiva tarefa de despertar emo\u00e7\u00f5es, concorrente com a suspens\u00e3o da raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>MA: Na introdu\u00e7\u00e3o ao livro, voc\u00ea comenta que a poesia e o teatro alem\u00e3es estavam habituados a retratar conflitos <em>intraclasse<\/em>, quer dizer, as agruras do mundo burgu\u00eas, mas que Brecht investe em uma l\u00edrica peculiar, cujo tema s\u00e3o os conflitos <em>interclasses<\/em>. Como isso se d\u00e1?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>TR: <\/strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edrica, fa\u00e7o uma analogia com o teatro burgu\u00eas, que estava ideologicamente impedido de abarcar uma realidade mais ampla. Nele o proletariado inexistia. O conflito interclasses, portanto, nunca chegava ao palco. No que concernia \u00e0 poesia, o impedimento advinha do fato de ela se prender a uma longa tradi\u00e7\u00e3o, herdada dos rom\u00e2nticos. Seu campo prec\u00edpuo e quase exclusivo era o da subjetividade, de modo que, para a maior parte dos escritores e da cr\u00edtica alem\u00e3, os problemas sociais podiam ser tratados num romance, mas n\u00e3o num poema. \u00c9 com esse limite que Brecht resolveu romper. De um poema ele cobrava a express\u00e3o de uma experi\u00eancia que pudesse ser compartilhada no sentido forte do termo: a experi\u00eancia social. \u00c9 bom lembrar que ele n\u00e3o recusou cabalmente a possibilidade de uma poesia subjetiva. Escreveu, ali\u00e1s, diversos poemas de amor, mas neles, quando o eu-l\u00edrico fala de uma nuvem que paira solit\u00e1ria num c\u00e9u de ver\u00e3o e da jovem que se deita languidamente em seu rega\u00e7o, n\u00e3o lhe escapa a considera\u00e7\u00e3o sobre o conv\u00edvio de que falei acima. A nuvem, que em seguida se dissolve, indica uma temporalidade socialmente demarcada.<\/p>\n<p><strong>MA: Conte-nos, por favor, como foi concebido esse volume, re\u00fane seis colet\u00e2neas com uma grande abrang\u00eancia temporal, e o que podemos esperar da leitura de <em>Poesia em tempos dif\u00edceis<\/em>.\u00a0Conte-nos tamb\u00e9m como essa publica\u00e7\u00e3o se insere em sua trajet\u00f3ria de tradutor e estudioso da literatura alem\u00e3.<\/strong><\/p>\n<p><strong>TR: <\/strong>O eixo em torno do qual as colet\u00e2neas se apresentam \u00e9 o fascismo, cuja cr\u00edtica j\u00e1 aparece nos poemas da segunda metade dos anos 1920 para se desenvolver com extraordin\u00e1rio vigor nas colet\u00e2neas que surgiram nos tempos do ex\u00edlio, reapresentando-se, ainda, na \u00faltima delas, elaborada em 1953, oito anos depois de encerrada a guerra.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 havia traduzido e publicado a primeira colet\u00e2nea de poemas, <em>Do guia para os habitantes das cidades<\/em>. Depois disso, dirigi-me \u00e0 poesia produzida nos anos do ex\u00edlio de Brecht, iniciado em 1933 e encerrado na segunda metade dos anos 1940. A ideia inicial era a de fazer mais uma antologia. No entanto, \u00e0 medida que ia traduzindo os <em>Poemas de Svendborg<\/em>, outra das colet\u00e2neas que comp\u00f5em o livro, percebi que seria mais produtivo traduzi-la integralmente. Brecht organizou-a com extremo cuidado, dividindo-a em seis partes, cada uma delas com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, tanto no que diz respeito \u00e0 forma quando aos temas abordados, de modo que, nesse caso em particular, a leitura dos poemas na sequ\u00eancia original nos propicia uma experi\u00eancia radicalmente distinta daquela obtida a partir de sua leitura isolada. Acabei por adotar o crit\u00e9rio na tradu\u00e7\u00e3o das demais cole\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<hr>\n<h3><strong>Sele\u00e7\u00e3o de poemas<\/strong><\/h3>\n<p><strong>A GUERRA VIR\u00c1<br \/><\/strong>N\u00e3o ser\u00e1 a primeira. Antes dela<br \/>Houve outras guerras.<br \/>Quando a \u00faltima acabou<br \/>Havia vencedores e vencidos.<br \/>Do lado dos vencidos, os de baixo<br \/>Passavam fome. Do lado dos vencedores<br \/>Passavam fome tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>OS DE CIMA DIZEM: guerra e paz<br \/>S\u00e3o feitas de mat\u00e9ria distinta.<br \/>Mas sua paz e sua guerra<br \/>S\u00e3o como o vento e a tempestade.<\/p>\n<p>A guerra nasce de sua paz,<br \/>Assim como o filho, de sua m\u00e3e.<br \/>Ela, a guerra, traz consigo<br \/>Suas terr\u00edveis fei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sua guerra mata simplesmente<br \/>O que restou<br \/>De sua paz.<\/p>\n<p><strong>GENERAL, SEU TANQUE \u00c9 UM VE\u00cdCUO POTENTE<br \/><\/strong>General, seu tanque \u00e9 um ve\u00edculo potente.<br \/>Arrasa uma floresta inteira e esmaga cem indiv\u00edduos de uma vez.<br \/>Tem, por\u00e9m, um defeito:<br \/>Precisa de um condutor.<\/p>\n<p>General, seu bombardeiro \u00e9 potente.<br \/>Voa mais r\u00e1pido que a tempestade e carrega mais que um elefante.<br \/>Tem, por\u00e9m, um defeito:<br \/>Precisa de um mec\u00e2nico.<\/p>\n<p>General, o ser humano \u00e9 bastante \u00fatil.<br \/>Pode voar e matar.<br \/>Tem, por\u00e9m, um defeito:<br \/>Pode pensar.<\/p>\n<p><strong>ACERCA DO TERMO EMIGRANTES<br \/><\/strong>Sempre achei falsa a alcunha que nos deram: emigrantes<br \/>Referido a algu\u00e9m que se muda de um lugar para outro. N\u00f3s, por\u00e9m<br \/>N\u00e3o nos mudamos por livre e espont\u00e2nea vontade<br \/>Optando por uma nova p\u00e1tria. Nem nos mudamos<br \/>Para ficar, se poss\u00edvel para sempre.<br \/>Pelo contr\u00e1rio, fugimos. Somos gente expulsa, banida.<br \/>E o pa\u00eds que nos acolheu n\u00e3o \u00e9 um lar, \u00e9 um ex\u00edlio.<br \/>Permanecemos inquietos, t\u00e3o perto da fronteira quanto poss\u00edvel,<br \/>Aguardando o dia do retorno, atentos<br \/>\u00c0 menor mudan\u00e7a no lado de l\u00e1, inquirindo<br \/>Com impaci\u00eancia o rec\u00e9m-chegado, de nada esquecendo, a nada renunciando<br \/>E nada perdoando do que aconteceu, nada perdoando.<br \/>Ah, n\u00e3o nos ilude a calmaria no canal! Ouvimos os gritos<br \/>Que nos chegam dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. Tornamo-nos<br \/>N\u00f3s mesmos, quase rumores das iniquidades que vazam<br \/>Pela fronteira. Ao caminhar em meio \u00e0 multid\u00e3o<br \/>Com os sapatos surrados, cada um de n\u00f3s<br \/>\u00c9 o testemunho vivo da desgra\u00e7a que macula nosso pa\u00eds.<br \/>Mas nenhum de n\u00f3s<br \/>Ficar\u00e1 aqui. N\u00e3o se disse ainda<br \/>A \u00faltima palavra.<\/p>\n<p><strong>A RESPOSTA<br \/><\/strong>Meu filho adolescente pergunta: Devo estudar matem\u00e1tica?<br \/>Para qu\u00ea, pensei responder. Que dois peda\u00e7os de p\u00e3o sejam mais que um<br \/>Voc\u00ea mesmo ir\u00e1 notar.<br \/>Meu filho adolescente pergunta: Devo estudar ingl\u00eas?<br \/>Para qu\u00ea, pensei responder. O imp\u00e9rio naufraga.<\/p>\n<p>Passe a m\u00e3o espalmada pela barriga e suspire<br \/>E voc\u00ea ser\u00e1 compreendido.<br \/>Meu filho adolescente pergunta: Devo estudar hist\u00f3ria?<br \/>Para qu\u00ea, pensei responder. Aprenda a enfiar a cabe\u00e7a na terra<br \/>Talvez voc\u00ea escape.<br \/>Sim, digo, aprenda matem\u00e1tica<br \/>Aprenda ingl\u00eas, aprenda hist\u00f3ria!<\/p>\n<p><strong>O RETORNO<br \/><\/strong>A cidade natal, como encontr\u00e1-la?<br \/>Vou para casa<br \/>Seguindo os esquadr\u00f5es de bombardeiros.<br \/>Onde est\u00e1 a cidade? Est\u00e1 onde se erguem<br \/>Gigantescas montanhas de fuma\u00e7a.<br \/>Ela \u00e9 aquilo<br \/>Que jaz em meio ao fogo.<\/p>\n<p>A cidade natal, como h\u00e1 de me receber?<br \/>Antes de mim chegam os bombardeiros. Esquadr\u00f5es da morte<br \/>Anunciam-te meu retorno. Labaredas de fogo<br \/>Precedem teu filho.<\/p>\n<p><strong>GRANDE ERA, DESPERDI\u00c7ADA<br \/><\/strong>Sabia que cidades eram constru\u00eddas<br \/>N\u00e3o fui visit\u00e1-las.<br \/>S\u00e3o objeto da estat\u00edstica, pensei<br \/>N\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O que s\u00e3o cidades constru\u00eddas<br \/>Sem a sabedoria do povo?<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. Se voc\u00ea valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o, seja nosso apoiador e fortale\u00e7a o jornalismo cr\u00edtico: <strong>apoia.se\/outraspalavras<\/strong><\/em><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>The post &lt;i&gt;Poesia em tempos dif\u00edceis&lt;\/i&gt;: convite \u00e0 l\u00edrica de Brecht appeared first on Outras Palavras.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/vacina-brasileira-contra-dengue-comeca-mais-cedo-em-botucatu\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Vacina brasileira contra dengue come\u00e7a mais cedo e...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-nome-dele-e-fernando-haddad\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O nome dele \u00e9 Fernando Haddad<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/o-que-lula-e-a-niteroi-estao-fazendo-para-que-o-desfile-na-sapucai-nao-se-transforme-em-armadilha-eleitoral\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">O que Lula e a \u2018Niter\u00f3i\u2019 est\u00e3o fazendo para que o ...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/a-quem-serve-a-repressao-aos-movimentos-de-moradia-e-por-moradia-popular\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/luta-do-MLB-1-150x150.jpg') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">A quem serve a repress\u00e3o aos movimentos de moradia...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n<\/div> <script>\n\t\t\t\t\t\t  jQuery(document).ready(function( $ ){\n\t\t\t\t\t\t\t\/\/jQuery('.yuzo_related_post').equalizer({ overflow : 'relatedthumb' });\n\t\t\t\t\t\t\tjQuery('.yuzo_related_post .yuzo_wraps').equalizer({ columns : '> div' });\n\t\t\t\t\t\t   })\n\t\t\t\t\t\t  <\/script> <!-- End Yuzo :) -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lan\u00e7amento oferece tradu\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas de seis colet\u00e2neas do autor alem\u00e3o, reunindo versos que dissecam e iluminam as engrenagens do nazismo, do capitalismo industrial e dos primeiros anos da Guerra Fria. Leia sete de seus poemas e uma entrevista com o tradutor<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/poeticas\/poesia-em-tempos-dificeis-convite-a-lirica-de-brecht\/\">&lt;i&gt;Poesia em tempos dif\u00edceis&lt;\/i&gt;: convite \u00e0 l\u00edrica de Brecht<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":62874,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[28725,28726,28727,28728,5499,28729],"tags":[],"class_list":["post-62873","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bertolt-brecht","category-experiencia-social","category-poesia-alema","category-poesia-e-fascismo","category-poeticas","category-tercio-redondo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62873","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62873"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62873\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/62874"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}