{"id":63077,"date":"2025-11-07T16:35:37","date_gmt":"2025-11-07T19:35:37","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/hiperdemocracia-o-pensamento-de-jacques-attali\/"},"modified":"2025-11-07T16:35:37","modified_gmt":"2025-11-07T19:35:37","slug":"hiperdemocracia-o-pensamento-de-jacques-attali","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/hiperdemocracia-o-pensamento-de-jacques-attali\/","title":{"rendered":"Hiperdemocracia: O pensamento de Jacques Attali"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"816\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4931822981231610709_y.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4931822981231610709_y.jpg 1280w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4931822981231610709_y-300x191.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4931822981231610709_y-768x490.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\"><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><em>\u201cQuando <\/em><em>Thomas More<\/em><em> sonhava em fazer com<\/em><br \/><em>que se elegessem os dirigentes da Utopia,<\/em><br \/><em>a sua cidade imagin\u00e1ria, ele n\u00e3o imaginava<\/em><br \/><em>que os ministros do seu pr\u00f3prio pa\u00eds seriam,<\/em><br \/><em>quatro s\u00e9culos depois, eleitos pelo povo todo.<\/em><br \/><em>(\u2026) \u00c9 preciso hoje ousar fazer<\/em><br \/><em>o mesmo ato de f\u00e9 no futuro.\u201d<\/em><br \/>Jacques Attali<\/p>\n<p>Uma crescente constata\u00e7\u00e3o de fim dos tempos (no sentido cient\u00edfico e ambiental do termo, e n\u00e3o escatol\u00f3gico) tem incomodado um expressivo n\u00famero de cientistas e fil\u00f3sofos contempor\u00e2neos. No atual est\u00e1gio ag\u00f4nico da conflituosa exist\u00eancia humana, a percep\u00e7\u00e3o de que um mal-estar civilizat\u00f3rio de car\u00e1ter terminal, sobretudo nos \u00e2mbitos geopol\u00edtico e ambiental, tem sido cada vez mais a t\u00f4nica daqueles que se ocupam em refletir sobre as afli\u00e7\u00f5es da atualidade. O fato \u00e9 que, entre muitos pensadores not\u00e1veis, uma vis\u00e3o pessimista da realidade humana tem sido uma constante ao longo da hist\u00f3ria, desde os pr\u00e9-socr\u00e1ticos como Anaximandro, Her\u00e1clito e Parm\u00eanides, passando por Schopenhauer, Nietzsche e Freud, at\u00e9 os mais recentes Zygmunt Bauman, Byung-Chul Han, Noam Chomsky, John Gray, Jeffrey Sachs e tantos outros. O que parece confirmar que a humanidade sempre esteve implicada numa perene crise civilizat\u00f3ria, aparentemente insuper\u00e1vel.<\/p>\n<p>Dado o elevado e descontrolado grau de devasta\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria j\u00e1 perpetrado at\u00e9 aqui pela insensatez antropoc\u00eantrica e, sobretudo, que o aumento da emiss\u00e3o de gases de efeito estufa e a consequente acelera\u00e7\u00e3o da eleva\u00e7\u00e3o da temperatura m\u00e9dia global continuam em curso, mesmo diante das evid\u00eancias do colapso civilizat\u00f3rio, pode-se afirmar que j\u00e1 est\u00e1 contratado um futuro terminal para a humanidade nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Uma manifesta\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica dessa percep\u00e7\u00e3o ag\u00f4nica nos dias atuais veio do fil\u00f3sofo italiano Franco Berardi (Bifo), que recentemente chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que \u201ca experi\u00eancia humana acabou\u201d. Como n\u00e3o h\u00e1 nenhum esfor\u00e7o multilateral consistente de governan\u00e7a global para mitigar os processos de colapso clim\u00e1tico e de crescente instabilidade geopol\u00edtica em andamento, o progn\u00f3stico de Bifo pode sim vir a ser uma verdade incontorn\u00e1vel e, talvez, at\u00e9 mesmo irrevers\u00edvel.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Prancheta-4-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Prancheta-4-5.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Prancheta-4-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>No entanto, h\u00e1 aqueles rar\u00edssimos pensadores que, amparando-se nas mais rec\u00f4nditas for\u00e7as antropol\u00f3gicas que impulsionam o amb\u00edguo e contradit\u00f3rio mundo humano, sempre conseguem ver brechas de esperan\u00e7a que possam desviar a humanidade desse colapso civilizat\u00f3rio ao qual ela aparenta estar irremediavelmente condenada, mesmo que as distra\u00e7\u00f5es do inebriante e admir\u00e1vel mundo do progresso tecnol\u00f3gico e material digam o contr\u00e1rio. Esses intelectuais mais conscientes da ambival\u00eancia humana, como \u00e9 o caso do centen\u00e1rio fil\u00f3sofo Edgar Morin, propositor do conceito de <em>policrise<\/em> nos anos 1970, normalmente se definem como oti-pessimista, reconhecendo que o futuro humano \u00e9 incerto, misturando elementos de esperan\u00e7a e desesperan\u00e7a. Identificam o car\u00e1ter terminal do nosso tempo, mas tamb\u00e9m percebem algum potencial de regenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Edgar Morin, \u201ca miss\u00e3o do intelectual n\u00e3o \u00e9 apenas formular os problemas humanos fundamentais e globais, inclusive pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m saber formul\u00e1-los em sua complexidade.\u201d Seu conterr\u00e2neo, o escritor franc\u00eas Jacques Attali, com quem compartilha uma grande sintonia de vis\u00f5es de mundo e de compreens\u00e3o acerca da Hist\u00f3ria e dos impasses civilizat\u00f3rios que ela deixou como legado na atualidade, \u00e9 um dos poucos exemplos dessa categoria de intelectual que sabe n\u00e3o s\u00f3 interpretar criticamente os eventos hist\u00f3ricos que arrastaram a humanidade para o atual est\u00e1gio ag\u00f4nico, mas tamb\u00e9m conectar os muitos elementos que integram a complexidade do mundo humano e suas possibilidades de supera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Oriundo de uma fam\u00edlia judia argelina, nascido em 1943, Jacques Jos\u00e9 Mardoch\u00e9 Attali \u00e9 um dos pensadores contempor\u00e2neos que merece bastante aten\u00e7\u00e3o quando o assunto \u00e9 a atual agonia civilizat\u00f3ria. Cr\u00edtico das disfun\u00e7\u00f5es do sistema-mundo capitalista e do suposto avan\u00e7o civilizat\u00f3rio da modernidade, atualmente \u00e9 CEO da A&amp;A, uma empresa internacional de consultoria em estrat\u00e9gia, com sede em Paris, e fundou, com apoio de Muhammad Yunus e Arnaud Ventura, a ONG Positive Planet, uma organiza\u00e7\u00e3o internacional sem fins lucrativos que, em 23 anos, j\u00e1 apoiou mais de 11 milh\u00f5es de microempres\u00e1rios na cria\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios positivos, nos bairros carentes da Fran\u00e7a, \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio. Foi tamb\u00e9m cofundador da ONG Action Contre la Faim (ACF), criada na Fran\u00e7a em 1979.<\/p>\n<p>Atuou como conselheiro e assessor do governo de Fran\u00e7ois Mitterrand (1981-1991) e foi o fundador e primeiro presidente do Banco Europeu de Reconstru\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento (BERD), atuando de 1991 a 1993. Portanto, vivenciou e conhece bem o pragmatismo que sustenta e mant\u00e9m a <em>realpolitik<\/em>, al\u00e9m de ser um dos raros economistas que n\u00e3o reduz o mundo \u00e0 economia. Consciente da nossa fr\u00e1gil condi\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria, Attali reconhece que o <em>Mercado<\/em> \u00e9 um dos principais agentes dessa fragilidade.<\/p>\n<p>Jacques Attali \u00e9 um pensador multifacetado, conhecido mais pelo seu ativismo pol\u00edtico e social, mas \u00e9 tamb\u00e9m um escritor prol\u00edfico, tendo publicado mais de oitenta livros (dentre os quais 30 dedicados a pensar o futuro), vendidos em mais de 10 milh\u00f5es de c\u00f3pias e traduzidos para 22 idiomas. Entre suas obras mais relevantes para a compreens\u00e3o do longo processo civilizat\u00f3rio, destacam-se: <em>1492: os acontecimentos que marcaram o in\u00edcio da era moderna<\/em> (1991), <em>Os Judeus, o dinheiro e o mundo<\/em> (2002) e <em>Uma breve hist\u00f3ria do futuro<\/em> (2006) \u2013 obra sobre a qual este texto se debru\u00e7ar\u00e1 mais. Tamb\u00e9m escreveu as biografias de figuras expressivas como Pascal (2000), Marx (2005), Ghandi (2007), dentre outros.E ainda tem sensibilidade e habilidade art\u00edsticas para se dedicar \u00e0 reg\u00eancia de orquestras ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, Attali vem disseminando a ideia de que humanidade precisa urgentemente substituir a economia de mercado por uma \u201ceconomia da vida\u201d, proposta defendida em um de seus mais recentes livros, <em>La econom\u00eda de la vida: prepararse para lo que viene<\/em> (Spanish Edition, 2021), publicado quando a pandemia da Covid havia eclodido. Nessa obra ele antev\u00ea novos modos de vida \u201cpara pouparmos nossas crian\u00e7as de uma pandemia aos 10 anos, uma ditadura aos 20 e uma cat\u00e1strofe clim\u00e1tica aos 30\u201d. Attali tamb\u00e9m escreve regularmente em sua p\u00e1gina oficial sobre geopol\u00edtica, sociedade, economia, futuro, arte e cultura.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenha forma\u00e7\u00e3o em antropologia e sociologia, seu trabalho frequentemente se aprofunda nos aspectos fundamentais do comportamento humano, de sua conflituosa hist\u00f3ria socioecon\u00f4mica e de sua evolu\u00e7\u00e3o cultural. Attali atua como uma esp\u00e9cie de vision\u00e1rio, utilizando an\u00e1lises hist\u00f3ricas e econ\u00f4micas, e observando como as a\u00e7\u00f5es humanas e suas estruturas sociais podem prenunciar o futuro. Assim, ele enfatiza a import\u00e2ncia da antecipa\u00e7\u00e3o \u2014 a capacidade de discernir padr\u00f5es emergentes e se preparar para o que est\u00e1 por vir \u2014 como um aspecto crucial para adapta\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia humanas nestes tempos terminais.<\/p>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<h3><strong>A fragilidade da democracia \u2013 a insuper\u00e1vel ambival\u00eancia entre apropria\u00e7\u00e3o e liberta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p><em>\u201cA barb\u00e1rie \u00e9 o mais prov\u00e1vel.<\/em><br \/><em> O pol\u00edtico \u00e9 uma rolha flutuando<\/em><br \/><em>\u00e0 deriva, na tempestade das paix\u00f5es.\u201d<\/em><br \/>Jacques Attali<\/p>\n<p>Tr\u00eas principais aspectos do mundo natural parecem distinguir o <em>Homo sapiens<\/em> moderno de seus ancestrais (o que inclui seus parentes animais): primeiro a no\u00e7\u00e3o de <em>Complexidade<\/em>, a percep\u00e7\u00e3o de que somos parte de uma teia da vida, a partir da qual decorrem os outros dois aspectos: o <em>bem comum<\/em> (gratuidade) e o <em>bom tempo<\/em> (frui\u00e7\u00e3o). Entenda-se aqui como <em>Homo sapiens<\/em> moderno uma condi\u00e7\u00e3o humana espec\u00edfica surgida por volta de seis mil anos atr\u00e1s, em fun\u00e7\u00e3o de uma prov\u00e1vel bifurca\u00e7\u00e3o cultural e antropol\u00f3gica, a partir da qual ele perdeu a conex\u00e3o com esses tr\u00eas aspectos inarred\u00e1veis da realidade. Trata-se da hip\u00f3tese kurgan que abordei em v\u00e1rios textos publicados pelo <em>Outras Palavras<\/em>.<\/p>\n<p>A democracia, mesmo com suas nuances inerentemente conflitivas, certamente \u00e9 a \u00fanica forma de conviv\u00eancia humana que procura nos reconectar com essas nossas ancestralidades, que eram amparadas naturalmente em rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia, gratuidade e frui\u00e7\u00e3o \u2013 e foram quase que totalmente apagadas pela tr\u00e1gica hist\u00f3ria de guerras, massacres e devasta\u00e7\u00e3o decorrentes do longo processo supostamente civilizador do Ocidente. Se a democracia, como dizia o neurobi\u00f3logo chileno Humberto Maturana, \u00e9 uma nostalgia de um tempo em que os seres humanos viviam integrados sob um modo de vida cooperativo e n\u00e3o-hier\u00e1rquico (matr\u00edstico), uma <em>hiperdemocracia<\/em> como fen\u00f4meno emergente (sobre a qual abordaremos mais adiante), tal como imaginada por Attali, talvez represente a sa\u00edda que poder\u00e1 resgatar esse viver ancestral suprimido pelos ideais do Ocidente.<\/p>\n<p>Talvez seja exatamente por conta dessa nostalgia que a democracia se constitui como o melhor regime de conviv\u00eancia humana. Tanto \u00e9 assim que mesmo aquelas na\u00e7\u00f5es hoje classificadas como autocr\u00e1ticas (ou em processo de autocratiza\u00e7\u00e3o) se autoproclamam democr\u00e1ticas. Mas se esse regime \u00e9 t\u00e3o desejado, o que explicaria o recorrente fen\u00f4meno das regress\u00f5es e supress\u00f5es democr\u00e1ticas ao longo da hist\u00f3ria? Ap\u00f3s 2.500 anos do surgimento da democracia, como compreender o crescente e perigoso decl\u00ednio democr\u00e1tico mundial que a humanidade vivencia neste primeiro quarto do s\u00e9culo XXI? Por que as democracias se revelaram, historicamente, regimes de governo t\u00e3o fr\u00e1geis?<\/p>\n<p>A melhor resposta a esta contradi\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 conviv\u00eancia humana talvez seja a compreens\u00e3o de que os sucessivos experimentos democr\u00e1ticos, deste aquele que irrompeu na Gr\u00e9cia Antiga at\u00e9 a democracia liberal celebrada nos anos 1990 como <em>Fim da Hist\u00f3ria<\/em>, sempre estiveram condicionados aos ideais de apropria\u00e7\u00e3o, dom\u00ednio e controle de uma cultura estabelecida que contraditoriamente sempre negou a democracia. Estamos falando da cultura hegem\u00f4nica ocidental.<\/p>\n<p>At\u00e9 a d\u00e9cada de 1990, o longo processo civilizador do Ocidente seguia uma linha reta. Predominava at\u00e9 essa \u00e9poca o pensamento hegeliano, a ideia de que um suposto aprimoramento da conflituosa conviv\u00eancia humana, em curso desde o surgimento da concep\u00e7\u00e3o do <em>l\u00f3gos<\/em> (conhecimento, ratio ou raz\u00e3o) na Gr\u00e9cia Antiga, \u00e9 uma inevitabilidade hist\u00f3rica. A partir do in\u00edcio dos anos 2000, passada a ilus\u00e3o de que a democracia liberal estadunidense, a ser irradiada para o resto do mundo, representaria a forma de governo final da humanidade, volta a prevalecer a vis\u00e3o de mundo dos schopenhauerianos. Aqueles que n\u00e3o vislumbram possibilidade de cura para a insensatez humana parecem agora representar a vis\u00e3o predominante, que se inserem numa nova categoria chamada colapsologistas.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 comprova que a insufici\u00eancia de lastro na realidade tem sido uma constante nas interpreta\u00e7\u00f5es que grandes pensadores fizeram (e continuam fazendo) da conflituosa hist\u00f3ria da humanidade e, sobretudo, da imponder\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o humana. A esse respeito, vale lembrar a elucidativa percep\u00e7\u00e3o do escritor brit\u00e2nico John Gray: \u201cos trabalhadores comunit\u00e1rios de Marx, os indiv\u00edduos aut\u00f4nomos de Stuart Mill e o absurdo <em>\u00dcbermensch<\/em> de Nietzsche, entre muitos outros, nenhuma dessas criaturas fant\u00e1sticas chegou a ser vista por olhos humanos.\u201d A vis\u00e3o racionalista e teleol\u00f3gica do mundo, que sempre sustentou o ide\u00e1rio de grandes expoentes da filosofia e da ci\u00eancia, \u00e9, no fundo, uma grande apropria\u00e7\u00e3o ocidental. Na verdade, ela \u00e9 o resultado de um longu\u00edssimo processo cultural de apropria\u00e7\u00e3o infinita e irrestrita da realidade em prol dos privil\u00e9gios de uma \u00ednfima minoria. Logo, o mais razo\u00e1vel \u00e9 pensar que \u201ca natureza\u201d, como tamb\u00e9m afirma Gray, \u201c\u00e9 governada pelo acaso e a necessidade, por leis e constantes naturais, e n\u00e3o por receitas sobre o bem geral. Se existe um reino do valor al\u00e9m do mundo f\u00edsico, ele n\u00e3o pode ser alcan\u00e7ado pela raz\u00e3o humana.\u201d<\/p>\n<p>Portanto, o m\u00e1ximo que se pode afirmar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade que nos cerca e nos impacta incessantemente \u00e9 que, assim como a infinidade de entrela\u00e7amentos dos processos complexos que comp\u00f5em a realidade \u00e9 governada por padr\u00f5es impl\u00edcitos, a hist\u00f3ria da humanidade tamb\u00e9m \u00e9 governada por padr\u00f5es culturais, por vis\u00f5es de mundo e por comportamentos decorrentes que se conservam na Hist\u00f3ria. Aprendemos com as recentes teorias do Caos (1963) e dos Fractais (1975) que os fen\u00f4menos da natureza, aparentemente aleat\u00f3rios, s\u00e3o orientados por padr\u00f5es subjacentes, ou seja, seguem estruturas e comportamentos regulares que surgem a partir de processos e intera\u00e7\u00f5es complexos. \u00c9 a partir desses padr\u00f5es, cuja natureza \u00e9 ca\u00f3tica e n\u00e3o-linear (portanto, extremamente sens\u00edveis a pequenas perturba\u00e7\u00f5es que podem provocar inesperadas bifurca\u00e7\u00f5es em suas estruturas e comportamentos), que novas ordens emergem e se manifestam segundo caracter\u00edsticas muitas vezes previs\u00edveis em certos aspectos. Esses padr\u00f5es culturais podem inclusive explicar as grandes bifurca\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria como 476 d.C., 1453, 1789, dentre outras.<\/p>\n<p>Diante do atual contexto de mudan\u00e7a de \u00e9poca em que vive a humanidade, Jacques Attali, ao reconhecer que a hist\u00f3rica fragilidade da democracia consiste na perene ambival\u00eancia entre os desejos humanos de apropria\u00e7\u00e3o e de liberta\u00e7\u00e3o, conseguiu vislumbrar o desfecho mais prov\u00e1vel da atual depress\u00e3o civilizacional cr\u00f4nica que a humanidade deve enfrentar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Com a sua incomum capacidade de discernir padr\u00f5es emergentes e de antever o que o futuro pode nos reservar, Attali percebeu que a emerg\u00eancia de uma democracia desapropriada dos ideais greco-judaicos que forjaram o Ocidente ser\u00e1 uma necessidade premente e indispens\u00e1vel \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o e, sobretudo, \u00e0 sobreviv\u00eancia da humanidade nesse mundo terminal que se avizinha.<\/p>\n<p>Como abordaremos mais adiante, uma de suas principais teses sobre o futuro da humanidade \u00e9 a do <em>hiperimp\u00e9rio<\/em> seguido do <em>hiperconflito<\/em>, as novas conforma\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias que a humanidade deve enfrentar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, nas quais o poder n\u00e3o estaria mais sob a tutela dos Estados-na\u00e7\u00e3o, mas sim de uma rede comercial polic\u00eantrica, predat\u00f3ria, transnacional, desregulamentada e desterritorializada, impulsionada pelo nomadismo, pela tecnologia e pela incessante e contradit\u00f3ria busca individual por dom\u00ednio, controle, liberdade e prazer, diante de mundo cada vez mais insoci\u00e1vel e inabit\u00e1vel.<\/p>\n<h3><strong>Os padr\u00f5es da Hist\u00f3ria: \u201cum <em>continuum<\/em> entre mercado, democracia e viol\u00eancia\u201d<\/strong><\/h3>\n<p><em>\u201cA liberdade, de mercado e pol\u00edtica,<\/em><br \/><em>\u00e9 mais do que nunca o motor da Hist\u00f3ria.\u201d<\/em><br \/>Jacques Attali<\/p>\n<p>Na percep\u00e7\u00e3o de Attali, \u201cexiste uma estrutura da Hist\u00f3ria que permite projetar a organiza\u00e7\u00e3o das d\u00e9cadas vindouras\u201d, ou seja, h\u00e1 padr\u00f5es, regras ou leis da Hist\u00f3ria que \u201cainda estar\u00e3o operando no futuro, al\u00e9m de predizer o seu curso\u201d, e que portanto nos permitem antever com razo\u00e1vel assertividade para onde estamos indo. Digo assertividade porque, ap\u00f3s mais de 20 anos da concep\u00e7\u00e3o das ideias de Attali, muito bem articuladas nos seus muitos ensaios, \u00e9 poss\u00edvel hoje, ao leitor mais atento \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ocorrendo no mundo, observar que muitos dos seus progn\u00f3sticos est\u00e3o se confirmando. A principal premissa na qual Attali se ampara para compreender o fluxo da Hist\u00f3ria, com base nas informa\u00e7\u00f5es mais remotas sobre as culturas (modos de vida) humanas, \u00e9 a de que \u201ca mesma for\u00e7a est\u00e1 sempre em curso: a da liberta\u00e7\u00e3o progressiva do homem de todas as coer\u00e7\u00f5es\u201d. Dizendo de outro modo, a cultural patriarcal milenar, que forjou o Ocidente e hoje est\u00e1 representada pela entidade <em>Mercado<\/em>, pode estar bem pr\u00f3xima do seu ponto de satura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Attali narrou no seu livro <em>Uma breve hist\u00f3ria do futuro<\/em> (2006), com sua peculiar compreens\u00e3o das for\u00e7as que moveram a longa hist\u00f3ria do <em>Homo sapiens<\/em>, como a humanidade chegou at\u00e9 aqui e como ela se projeta para o futuro, assumindo s\u00e9rios riscos de estar se inviabilizando num horizonte muito pr\u00f3ximo caso n\u00e3o promova a ruptura civilizat\u00f3ria que, segundo Attali, precisar abra\u00e7ar uma <em>hiperdemocracia<\/em> desapropriada da l\u00f3gica da \u201cdemocracia de mercado\u201d que dominou os \u00faltimos quinhentos anos.<\/p>\n<p>No entendimento de Attali sempre coexistiram tr\u00eas poderes: o militar (<em>Ordem Imperial<\/em>), o religioso (<em>Ordem Ritual<\/em>) e o mercado (<em>Ordem Comercial<\/em>), que se alternaram, controlaram as riquezas e forjaram o curso da hist\u00f3ria da humanidade. Mais do que abordar o futuro, ele narra nesse magistral livro a longa hist\u00f3ria da <em>Ordem Comercial<\/em>, identificando os seus padr\u00f5es de funcionamento. Uma hist\u00f3ria modelada ao longo dos \u00faltimos h\u00e1 3 mil anos, que se confunde com a hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o entre as duas for\u00e7as que conduziram a humanidade at\u00e9 os dias atuais: o <em>mercado<\/em> e a <em>pol\u00edtica<\/em>, as quais criaram a democracia de mercado e o sistema capitalista tal como conhecemos hoje. Essa simbiose entre mercado e pol\u00edtica explicaria a evolu\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o econ\u00f4mica de mundo que governa a conflituosa conviv\u00eancia humana.<\/p>\n<p>De acordo com Attali, os primeiros esbo\u00e7os de democracia de mercado remontam a doze s\u00e9culos antes de Cristo. Naqueles tempos long\u00ednquos, \u201cmais de cinquenta imp\u00e9rios convivem, combatem entre si ou se esgotam\u201d. Nessa mesma \u00e9poca, \u201calgumas tribos vindas da \u00c1sia se instalaram no litoral e nas ilhas do Mediterr\u00e2neo\u201d. Diante do ambiente de profunda degrada\u00e7\u00e3o social gerado pela for\u00e7a da <em>Ordem Imperial<\/em>, elas perceberam que \u201co com\u00e9rcio e o dinheiro s\u00e3o as suas melhores armas. Mar e portos, os seus principais terrenos de ca\u00e7a\u201d. A partir de ent\u00e3o, a <em>Ordem Comercial<\/em> foi, gradualmente, se estabelecendo como uma eficiente forma de controle, domina\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da ordem entre os humanos.<\/p>\n<p>Cabe destacar aqui que a express\u00e3o \u201cdemocracia de mercado\u201d \u00e9 ilustrativa e, portanto, comporta relev\u00e2ncias hist\u00f3ricas distintas. Comumente ela \u00e9 mais associada ao per\u00edodo p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial, quando se alcan\u00e7ou uma curta experi\u00eancia de capitalismo combinado com Estado de bem-estar social restrita a alguns pa\u00edses do Norte Global, o tal sonho irrealiz\u00e1vel do \u201ccapitalismo democr\u00e1tico\u201d que os americanos tanto desejaram impor ao mundo. No entanto, ela \u00e9 utilizada aqui para caracterizar o modo de vida hegem\u00f4nico dos mais recentes quinhentos anos da Hist\u00f3ria, como o faz Attali, compreendidos entre os acontecimentos na Antu\u00e9rpia da imprensa pujante de 1500, considerada o primeiro centro financeiro da Europa, e o que acontece, desde 1980, no Vale do Sil\u00edcio de onde vieram os algoritmos que desnorteiam o modo de viver atual e que se encarregaram de expandir ao resto mundo a apropria\u00e7\u00e3o acumulativa de capital pela via do rentismo financeiro.<\/p>\n<p>Esses dois n\u00facleos comerciais, como os demais que os entremearam (G\u00eanova, 1560; Amsterd\u00e3, 1620; Londres, 1788; Boston, 1890 e Nova Iorque, 1929) e tamb\u00e9m aqueles que os antecederam (Bruges, 1200 e Veneza, 1350), cada qual, a seu modo, utilizaram ferramentas de transmiss\u00e3o de dados e de indu\u00e7\u00e3o do comportamento humano para impulsionar os ideais greco-judaicos do <em>progresso<\/em>, da <em>raz\u00e3o<\/em> e do <em>individualismo<\/em>, os mitos que eclodiram em 1492 e que ainda sustentam o <em>Mercado<\/em> na atualidade.<\/p>\n<h3><strong>1492: irrompe a democracia de mercado eurocentrista<\/strong><\/h3>\n<p><em>\u201cN\u00e3o h\u00e1 na\u00e7\u00e3o sem Estado.<\/em><br \/><em>Nesse momento, aparecem a raz\u00e3o de Estado<\/em><br \/><em>e o homem pol\u00edtico moderno,<\/em><br \/><em>assim como o c\u00e1lculo econ\u00f4mico e o mercado.<\/em><br \/><em>A democracia e a economia de mercado ser\u00e3o<\/em><br \/><em>elementos constitutivos desse nacionalismo nascente.\u201d<\/em><br \/>Jacques Attali, sobre 1492<\/p>\n<p>\u00c9 no ano de 1492, considerado por muitos historiadores um ano singular \u2013 n\u00e3o s\u00f3 pela descoberta do <em>Novo mundo<\/em>, mas por seus desdobramentos no contexto mundial \u2013, que a <em>Ordem Comercial<\/em> se sobrep\u00f5e com mais vigor sobre as demais. Os muitos eventos combinados que ocorreram em 1492 forjaram o nascimento, imbricado, do Estado-na\u00e7\u00e3o e da economia de mercado, iniciando o longo per\u00edodo em que a humanidade passou a ser conduzida pelas for\u00e7as resultantes dessa simbiose, a democracia de mercado, que aparenta aproximar-se do seu ocaso na contemporaneidade.<\/p>\n<p>Foi em decorr\u00eancia desse entrela\u00e7amento org\u00e2nico entre Estado e mercado que, gradualmente, surgiu a sociedade de mercado, deixando para tr\u00e1s os absolutismos medievais. A partir de ent\u00e3o, a <em>Ordem Comercial<\/em> assumiu o protagonismo da Hist\u00f3ria, antes sob a duradoura hegemonia das <em>Ordens<\/em> <em>Imperial<\/em> e <em>Ritual.<\/em> Na avalia\u00e7\u00e3o de Attali, 1492 \u201c\u00e9 considerado como data importante n\u00e3o apenas por marcar a descoberta fortuita de um novo mundo enquanto se procurava outra coisa, mas tamb\u00e9m por condicionar e esclarecer o presente\u201d. Para ele, \u201c\u00e9 o ano no qual a Europa se torna o que denominamos um Continente-Hist\u00f3ria, capaz de impor aos demais povos um nome, uma l\u00edngua, uma maneira de contar sua pr\u00f3pria Hist\u00f3ria, impondo-lhes ideologia e vis\u00e3o do futuro\u201d.<\/p>\n<p>Attali assim descreve o ano de 1492, cujos eventos mudaram o curso da Hist\u00f3ria:<\/p>\n<p><em>\u201cA partir de 1492, a Europa promove-se a senhora de um mundo a ser conquistado. (\u2026) Novos n\u00f4mades, os europeus imp\u00f5em ao planeta sua vis\u00e3o de Hist\u00f3ria, sua criatividade, suas l\u00ednguas, seus sonhos e suas fantasias. \u00c9 na Europa que a economia mundial vai concentrar suas riquezas. Tudo isso n\u00e3o ocorre apenas pelo desvendamento de um continente. Em 1492 acontecem in\u00fameros outros eventos, na Europa e em outros lugares, cuja influ\u00eancia sobre a nova ordem mundial ultrapassa de longe a da viagem de Colombo. Acontecimentos maiores ou apenas simb\u00f3licos formam uma totalidade complexa, um ano quase \u00fanico, no qual a Espanha desempenha papel espantosamente privilegiado. Cai o \u00faltimo reino isl\u00e2mico da Europa ocidental; os \u00faltimos judeus s\u00e3o expulsos da Espanha; a Bretanha acaba por tornar-se francesa; a Borgonha desaparece para sempre; a Inglaterra sai de uma guerra civil. (\u2026) A ordem econ\u00f4mica mundial transforma-se.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Estes e outros eventos ocorridos em 1492 assentaram a ideologia do chamado <em>Novo mundo<\/em>, na qual, segundo Attali, a Europa imp\u00f4s uma nova ordem pol\u00edtica, que ele chama de <em>Ordem Atl\u00e2ntica<\/em>, regida sob tr\u00eas dom\u00ednios: o da transcend\u00eancia (<em>Pureza<\/em>), o do espa\u00e7o (<em>Estado-na\u00e7\u00e3o<\/em>) e o do tempo (<em>Progresso<\/em>). O sonho de pureza serviu para a Europa desprender-se de suas ra\u00edzes orientais, perder o que ainda tinha de toler\u00e2ncia, irradiar seu novo ideal para o Ocidente e, assim, justificar as expuls\u00f5es, massacres e exterm\u00ednios dos \u201cimpuros\u201d. O s\u00e9culo XX foi o \u00e1pice dessa busca insana por \u201cpureza\u201d.<\/p>\n<p>O sonho do <em>Progresso<\/em> viabiliza-se com o desaparecimento dos imp\u00e9rios medievais e o surgimento do nacionalismo impulsionado, de um lado, pela raz\u00e3o de Estado e pelo homem pol\u00edtico moderno e, de outro, pelo mercado e pela vis\u00e3o econ\u00f4mica de mundo. As monarquias absolutistas, que operavam sob a tutela do cristianismo, sucumbiram diante dessas novas for\u00e7as e as instabilidades da civiliza\u00e7\u00e3o passaram a ser resolvidas, doravante, pela via do totalitarismo de Estado que teve sua culmin\u00e2ncia nas atrocidades do s\u00e9culo XX. Foi assim que, a partir de 1492, estabeleceu-se o novo motor da Hist\u00f3ria: uma revigoriza\u00e7\u00e3o da cultura (modo de viver) patriarcal milenar, desta vez camuflada sob a forma de democracia de mercado, que exerceu hegemonia nos \u00faltimos cinco s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Attali entende que, agora no s\u00e9culo XXI, essa <em>Ordem Atl\u00e2ntica<\/em> est\u00e1 sucumbindo para dar lugar a uma nova ordem mundial fundada sobre tr\u00eas novos princ\u00edpios, os quais substituem os da ordem anterior: \u201cna transcend\u00eancia, santu\u00e1rio mundial (no lugar da <em>Pureza<\/em>), no espa\u00e7o, integra\u00e7\u00e3o regional (em vez de <em>Estado-Na\u00e7\u00e3o<\/em>), e no tempo, nomadismo institucional (substituindo o <em>Progresso<\/em>).\u201d O que ele chama de <em>hiperdemocracia<\/em> ser\u00e1 o catalizador dessa ruptura civilizacional, mas antes a humanidade deve encarar a dif\u00edcil travessia da ordem mercadol\u00f3gica autocr\u00e1tica e multipolar, j\u00e1 inaugurada pelo avan\u00e7o russo-chin\u00eas e pelo processo de autocratiza\u00e7\u00e3o estadunidense.<\/p>\n<h3><strong>A sombria perspectiva de colapso no novo mundo-mercado polic\u00eantrico<\/strong><\/h3>\n<p><em>\u201cO mundo se tornar\u00e1, provisoriamente, polic\u00eantrico,<\/em><br \/><em>gerido por umas dez pot\u00eancias regionais.<\/em><br \/><em>(\u2026)<\/em><br \/><em>O capitalismo atingir\u00e1 sua meta.<\/em><br \/><em>Destruir\u00e1 tudo o que n\u00e3o for ele.<\/em><br \/><em>Transformar\u00e1 o mundo num imenso mercado,<\/em><br \/><em>cujo destino estar\u00e1 desconectado<\/em><br \/><em>do destino das na\u00e7\u00f5es.\u201d<\/em><br \/>Jacques Attali<\/p>\n<p>Contrariando o entendimento hegeliano do <em>Fim da Hist\u00f3ria<\/em> que animou o Ocidente durante os anos 1990, Attali contestou, \u00e0 \u00e9poca, o ide\u00e1rio predominante de que \u201ca Hist\u00f3ria n\u00e3o contar\u00e1 daqui para a frente nada al\u00e9m da generaliza\u00e7\u00e3o do mercado, depois da democracia, dentro das fronteiras de cada pa\u00eds.\u201d Percep\u00e7\u00e3o na qual se imaginava que \u201cos povos se libertar\u00e3o por si pr\u00f3prios, pelo simples jogo do crescimento econ\u00f4mico, da transpar\u00eancia da informa\u00e7\u00e3o e da expans\u00e3o das classes m\u00e9dias.\u201d Trinta e cinco anos ap\u00f3s a ilus\u00e3o do fim da Hist\u00f3ria (Queda do Muro de Berlim \u2013 1989), a civiliza\u00e7\u00e3o desviou-se para uma trajet\u00f3ria totalmente inesperada. Attali foi muito presciente ao antever que est\u00e1vamos saindo da \u201clinha reta da Hist\u00f3ria\u201d, quando previu que \u201cpor volta de 2025, sob o peso das exig\u00eancias do mercado e gra\u00e7as a novos meios tecnol\u00f3gicos, a ordem do mundo se unificar\u00e1 em torno de um mercado que se tornou planet\u00e1rio, sem Estado.\u201d<\/p>\n<p>Os grandes pensadores que se notabilizaram ao longo da Hist\u00f3ria, mesmo com suas diverg\u00eancias e contradi\u00e7\u00f5es irreconcili\u00e1veis, invariavelmente interpretaram o mundo a partir de duas equivocadas ideias-for\u00e7a: a de que a <em>Raz\u00e3o<\/em> e o <em>Progresso<\/em> governam o mundo natural e, por consequ\u00eancia, o conflituoso mundo dos homens. Normalmente encastelados sob a bolha de um mundo de comodidades aristocr\u00e1ticas, por meio do qual eles se forjaram e reverberaram, de s\u00e9culo em s\u00e9culo, essa percep\u00e7\u00e3o racionalista da realidade, esses pensadores (invariavelmente do sexo masculino, g\u00eanero que sempre se autoproclamou guardi\u00e3o do saber) projetaram os ideais hegelianos de que ao se chegar \u00e0 conforma\u00e7\u00e3o \u00faltima do Estado secular e liberal, sob o influxo do livre mercado, representaria a s\u00edntese derradeira da boa conviv\u00eancia humana, superando-se um suposto primitivismo hobbesiano ao qual a condi\u00e7\u00e3o humana estaria biol\u00f3gica e culturalmente condicionada. Como bem disse o escritor brit\u00e2nico John Gray: \u201cfil\u00f3sofos de Plat\u00e3o a Hegel t\u00eam interpretado o mundo como se fosse um espelho do pensamento humano\u201d.<\/p>\n<p>Raros foram os casos de pensadores not\u00e1veis que experimentaram o lado mais oprimido da arena hobbesiana que, forjada pelo Ocidente, caracteriza a conflituosa conviv\u00eancia humana, seja no \u00e2mbito da vida p\u00fablica, seja na vida privada, a qual estiveram associados. A primeira movida pela l\u00f3gica da apropria\u00e7\u00e3o patrimonialista e a segunda pela competi\u00e7\u00e3o darwiniana supostamente meritocr\u00e1tica. Locupletaram-se das comodidades ocidentais e, desse modo, sempre ofuscaram o car\u00e1ter inarredavelmente conflituoso, aviltante e, agora neste s\u00e9culo XXI, autodestrutivo e ecocida da longa hist\u00f3ria desse Ocidente cognitivo ao qual estavam condicionados.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o atual contexto geopol\u00edtico de pr\u00e9-anarquia global indica que estamos caminhando para uma situa\u00e7\u00e3o em que \u201ca ordem do mundo\u201d, conforme prev\u00ea Attali, \u201cse unificar\u00e1 em torno de um mercado que se tornar\u00e1 planet\u00e1rio, sem Estado\u201d. A ideia de um mundo multipolar, pac\u00edfico e democr\u00e1tico, n\u00e3o cabe nesse contexto totalizante que est\u00e1 aflorando, como bem argumentou Attali:<\/p>\n<p><em>\u201cSemelhante ordem polic\u00eantrica n\u00e3o poder\u00e1 se manter porque, por natureza, o mercado \u00e9 conquistador. N\u00e3o aceita limites, divis\u00e3o de territ\u00f3rios, tr\u00e9guas. N\u00e3o assinar\u00e1 tratados de paz com os Estados. Recusar\u00e1 deixar-lhes compet\u00eancias. Logo se estender\u00e1 a todos os servi\u00e7os p\u00fablicos e esvaziar\u00e1 os governos (mesmo aqueles da ordem polic\u00eantrica) das suas \u00faltimas prerrogativas, inclusive as da soberania.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Para escapar do colapso inerente a essa nova ordem autocr\u00e1tica e polic\u00eantrica, Jacques Attali acredita na possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de uma democracia desapropriada desse Ocidente cognitivo, ou seja, de que \u00e9 poss\u00edvel que estejamos diante de um fen\u00f4meno antropol\u00f3gico emergente de forma\u00e7\u00e3o de uma <em>hiperdemocracia<\/em> nas pr\u00f3ximas tr\u00eas ou quatro d\u00e9cadas. O porqu\u00ea desse longo interst\u00edcio de algumas d\u00e9cadas \u00e9 que, segundo Attali, a humanidade ainda dever\u00e1 experimentar a dif\u00edcil travessia de duas \u201condas do futuro\u201d: o <em>hiperimp\u00e9rio<\/em> (\u201cmercado planet\u00e1rio, sem Estado\u201d) e o <em>hiperconflito<\/em> (\u201cap\u00f3s a viol\u00eancia do dinheiro, a viol\u00eancia das armas\u201d), inclusive como uma esp\u00e9cie de pr\u00e9-requisitos para que essa <em>hiperdemocracia<\/em> possa irromper.<\/p>\n<p>Essas duas perspectivas regressivas tamb\u00e9m est\u00e3o condensadas no seu livro <em>Uma breve hist\u00f3ria do futuro<\/em> (2006), que oferece uma leitura de mundo que, apesar de amb\u00edgua, parece bem realista a respeito do que poder\u00e1 nos aguardar num futuro pr\u00f3ximo. Com base nos diversos padr\u00f5es, regras ou leis que ele identifica na evolu\u00e7\u00e3o da longu\u00edssima hist\u00f3ria da democracia de mercado euroc\u00eantrica, Attali entende que a \u201ccara mais veross\u00edmil do futuro\u201d ser\u00e1 a de que, at\u00e9 2060, rebentar\u00e3o, uma ap\u00f3s a outra, duas ondas do futuro, mortais:<\/p>\n<p>1) o <strong><em>hiperimp\u00e9rio<\/em><\/strong> (entre 2035 e 2050), no qual o <em>Estado-na\u00e7\u00e3o<\/em> ser\u00e1 gradualmente absorvido pelas for\u00e7as do mercado, representadas pelas corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, e substitu\u00eddo pela <em>Vigil\u00e2ncia<\/em> proporcionada com o avan\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica iniciada nos anos 1980; e<\/p>\n<p>2) o <strong><em>hiperconflito<\/em><\/strong> (entre 2050 e 2060), como desdobramento das instabilidades geradas pelo <em>hiperimp\u00e9rio<\/em> que n\u00e3o disp\u00f5e mais das conten\u00e7\u00f5es do <em>Estado-na\u00e7\u00e3o<\/em> para regul\u00e1-lo, em que profundas convuls\u00f5es, impulsionadas por \u201cambi\u00e7\u00f5es regionais\u201d, \u201cex\u00e9rcitos piratas e cors\u00e1rios\u201d e a \u201cc\u00f3lera dos laicos e dos crentes\u201d, desencadear\u00e3o guerras de toda ordem, em escala mundial.<\/p>\n<p>A primeira onda, o <em>hiperimp\u00e9rio<\/em>, come\u00e7aria a se desenhar entre 2025 e 2035, quando ter\u00edamos um mundo polic\u00eantrico no qual os EUA perderiam o <em>status<\/em> de centro econ\u00f4mico mundial e as for\u00e7as de mercado, representada pelas corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, sobrepujar\u00e3o o Estado. A ordem mundial \u201cse unificar\u00e1 em torno de um mercado planet\u00e1rio, sem Estado\u201d. N\u00e3o \u00e0 toa, novos conceitos como \u201cnecropol\u00edtica\u201d e \u201cnecropoder\u201d, do fil\u00f3sofo camaron\u00eas Achille Mbembe, e necro-Estado, utilizado pelo fil\u00f3sofo brasileiro Vladimir Safatle, est\u00e3o sendo introduzidos para explicar e compreender as fragilidades do Estado na atualidade. Tamb\u00e9m tem sido consenso o entendimento em torno do fen\u00f4meno crescente da captura do Estado ou do poder pol\u00edtico pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais. Para entender melhor esse assunto vale a pena ler o livro <em>A Era do Capital Improdutivo: a nova arquitetura do poder, sob domina\u00e7\u00e3o financeira, sequestro da democracia e destrui\u00e7\u00e3o do planeta<\/em> (Outras Palavras &amp; Autonomia Liter\u00e1ria, 2017), do economista Ladislau Dowbor, que desvenda, amparado em muitas fontes de pesquisa, como opera hoje o capital financeirizado que dita o funcionamento do mundo.<\/p>\n<p>Depois viria entre 2050 e 2060 a segunda onda, o <em>hiperconflito<\/em> \u201cmuito mais destruidor do que todos aqueles, locais ou mundiais, que o ter\u00e3o precedido\u201d, uma s\u00e9rie de guerras de extrema viol\u00eancia, como deriva\u00e7\u00e3o de uma das regras da hist\u00f3ria identificada por Attali: \u201cquando o Estado enfraquece, desaparece a possibilidade de canalizar a viol\u00eancia e de domin\u00e1-la\u201d. Sabemos que na aus\u00eancia do Estado, que tem a fun\u00e7\u00e3o de regular os impulsos predat\u00f3rios dos agentes econ\u00f4micos, os interesses individuais e os meios hobbesianos para mant\u00ea-los se sobrep\u00f5em ao coletivo. Nesse contexto regressivo, a \u201cguerra de todos contra todos\u201d \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria tamb\u00e9m nos ensina que a humanidade nunca suportou muita realidade. Como resposta \u00e0 perspectiva de sua autodestrui\u00e7\u00e3o, abre-se assim a possibilidade de uma terceira onda do futuro, a <em>hiperdemocracia<\/em> planet\u00e1ria, por volta de 2060, assumindo os rumos de uma civiliza\u00e7\u00e3o devastada pelas duas ondas precedentes. Uma <em>hiperdemocracia<\/em>, agora desapropriada da l\u00f3gica econ\u00f4mica autodestrutiva e ecocida, com todos os conflitos e contradi\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o inerentes, \u00e9 o regime imprescind\u00edvel \u00e0 emerg\u00eancia de uma ruptura civilizat\u00f3ria.<\/p>\n<h3><strong>A aposta na emerg\u00eancia da <em>hiperdemocracia<\/em><\/strong><\/h3>\n<p><em>\u201cParece sensato resignar-se a admitir que<\/em><br \/><em>o homem n\u00e3o passa de um monstro e que<\/em><br \/><em>o nosso mundo nunca poder\u00e1 tornar-se<\/em><br \/><em>uma democracia planet\u00e1ria, tolerante,<\/em><br \/><em>pac\u00edfica, diversa, por\u00e9m reunida. Entretanto,<\/em><br \/><em>semelhante din\u00e2mica est\u00e1 em marcha.\u201d<\/em><br \/>Jacques Attali<\/p>\n<p>Se sobrevivermos a essas duas ondas (o <em>hiperimp\u00e9rio<\/em> e, em seguida, o <em>hiperconflito<\/em>), Attali acredita, demonstrando um certo esfor\u00e7o de otimismo para evitar o inferno que ele teme que o futuro pode vir a ser, que h\u00e1 uma possibilidade de inaugurarmos por volta de 2060 a <em>hiperdemocracia<\/em> planet\u00e1ria, cujos principais protagonistas, j\u00e1 atuantes hoje, seriam o que ele chamou de \u201ctrans-humanos\u201d (n\u00e3o confundir com o movimento transumanista) e \u201cempresas relacionais\u201d. Trata-se da emerg\u00eancia de for\u00e7as altru\u00edstas e reconciliadoras que, sob uma vis\u00e3o complexa de mundo \u2013 e n\u00e3o mais tecnomercadol\u00f3gica, \u201ctomar\u00e3o o poder mundialmente, devido a uma prem\u00eancia ecol\u00f3gica, \u00e9tica, econ\u00f4mica, cultural e pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Esse progn\u00f3stico realmente tem muitas correspond\u00eancias com os padr\u00f5es da Hist\u00f3ria. Obviamente que Attali tamb\u00e9m considera o quanto o futuro \u00e9 determinado por eventos inesperados que podem alterar sua trajet\u00f3ria, mas sem desviar-se, no entanto, de um fundamento que, segundo ele, permeou toda a hist\u00f3ria: \u201cde s\u00e9culo em s\u00e9culo, a humanidade imp\u00f5e o primado da liberdade individual sobre qualquer outro valor\u201d. Os tr\u00eas principais conflitos geopol\u00edticos em andamento (Ucr\u00e2nia, Palestina e a guerra tecno-comercial sino-americana), por exemplo, representam esses eventos de escala planet\u00e1ria que podem fazer avan\u00e7ar (ou retardar) e alterar significativamente o fluxo da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A partir dessa premissa de que h\u00e1 um impulso ancestral que move a humanidade, Attali assim expressa seu otimismo tr\u00e1gico:<\/p>\n<p><em>\u201cAproximadamente em 2060, ou mais cedo \u2014 a menos que a humanidade desapare\u00e7a sob um dil\u00favio de bombas \u2014, nem o Imp\u00e9rio Norte-Americano, nem o hiperconflito ser\u00e3o toler\u00e1veis. Novas for\u00e7as, altru\u00edstas e universalistas, j\u00e1 atuantes hoje, tomar\u00e3o o poder mundialmente, devido a uma prem\u00eancia ecol\u00f3gica, \u00e9tica, econ\u00f4mica, cultural e pol\u00edtica. Elas se rebelar\u00e3o contra as exig\u00eancias da Vigil\u00e2ncia, do narcisismo e das normas. Conduzir\u00e3o, progressivamente, a um novo equil\u00edbrio, dessa vez planet\u00e1rio, entre o mercado e a democracia: a hiperdemocracia. (\u2026) Uma nova economia, chamada relacional, que produz servi\u00e7os sem procurar tirar lucros deles, se desenvolver\u00e1 em concorr\u00eancia com o mercado antes de neste p\u00f4r um fim, assim como o mercado p\u00f4s um termo, h\u00e1 alguns s\u00e9culos, no feudalismo.<\/em><\/p>\n<p><em>Nesses tempos vindouros, menos long\u00ednquos do que se cr\u00ea, o mercado e a democracia, no sentido em que n\u00f3s o entendemos hoje, se tornar\u00e3o conceitos ultrapassados, lembran\u00e7as vagas, t\u00e3o dif\u00edceis de compreender como o s\u00e3o hoje o canibalismo ou os sacrif\u00edcios humanos.\u201d<\/em><\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o da <em>hiperdemocracia<\/em> imaginada por Attali, como resposta \u00e0s convuls\u00f5es das duas ondas precedentes, comporta, pelo menos, tr\u00eas principais fen\u00f4menos emergentes entrela\u00e7ados:<\/p>\n<p>1) Ascens\u00e3o do <strong><em>altru\u00edsmo social<\/em><\/strong>, em que a alteridade e a coopera\u00e7\u00e3o substituir\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o individualismo e a competi\u00e7\u00e3o. Novos atores sociais e pol\u00edticos exercer\u00e3o um tipo de lideran\u00e7a na qual, segundo Attali, \u201cn\u00e3o se acreditar\u00e3o os propriet\u00e1rios do mundo, admitir\u00e3o que s\u00f3 t\u00eam o seu usufruto\u201d;<\/p>\n<p>2) Uma nova <strong><em>economia relacional<\/em><\/strong> emergir\u00e1 afastando-se da atual l\u00f3gica predat\u00f3ria de mercado. Ela \u201cn\u00e3o obedecer\u00e1 \u00e0s leis da raridade\u201d e \u201cpermitir\u00e1 produzir e trocar servi\u00e7os realmente gratuitos \u2013 de entretenimento, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, rela\u00e7\u00f5es etc \u2013, que cada um julgar\u00e1 bom que se ofere\u00e7a ao outro\u201d. Uma economia em que \u201ca gratuidade se estender\u00e1 a todos os dom\u00ednios essenciais \u00e0 vida\u201d;<\/p>\n<p>3) O desenvolvimento do <strong><em>bem comum<\/em><\/strong>, dentre eles a intelig\u00eancia universal, como resultado coletivo da <em>hiperdemocracia<\/em>. \u201cO <em>bem comum<\/em> da humanidade n\u00e3o ser\u00e1 a grandeza, a riqueza ou mesmo a felicidade, mas a prote\u00e7\u00e3o do conjunto dos elementos que tornam a vida poss\u00edvel e digna: clima, ar, \u00e1gua, liberdade, democracia, culturas, l\u00ednguas, saberes\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Essa presci\u00eancia de Attali, embora aparente demasiadamente ut\u00f3pica, tem alguns fundamentos na sociologia e na realidade atual. O chamado terceiro setor, composto por in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, que hoje ainda \u00e9 muito embrion\u00e1rio diante das decadentes estruturas hegem\u00f4nicas do Estado (primeiro setor, o p\u00fablico) e do Mercado (segundo setor, o privado), guarda muitas equival\u00eancias com o que poder\u00e1 vir a ser uma <em>hiperdemocracia<\/em> no futuro. Esse movimento do terceiro setor tem muito a ver com o potencial regenerativo da revolu\u00e7\u00e3o sociocultural que est\u00e1 emergindo, desde os anos 1960, tendente a influenciar cada vez mais o \u00e2mbito pol\u00edtico-econ\u00f4mico de muitas sociedades, em busca de um outro mundo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Todos esses organismos seguem a l\u00f3gica da sociabilidade democr\u00e1tica n\u00e3o apropriada pela cultura patriarcal milenar, especialmente pelo impulso matr\u00edstico do voluntarismo daqueles que se engajam nessas atividades, caracter\u00edstica inexistente no atual Estado-Corpora\u00e7\u00e3o produzido pelo neoliberalismo (resultante da absor\u00e7\u00e3o dos antigos Estados nacionais pelo mercado financeiro transnacional). Esse terceiro setor talvez represente, no futuro, a principal for\u00e7a emergente de resist\u00eancia ao atual <em>establishment<\/em> global que apostou todas as fichas no <em>laissez-faire<\/em> (des)orientado pelos algoritmos, o qual s\u00f3 tem amplificado a degrada\u00e7\u00e3o das democracias e a manuten\u00e7\u00e3o do capitalismo predat\u00f3rio, aumentado cada vez mais a nossa vulnerabilidade pol\u00edtica, social e ambiental.<\/p>\n<p>Segundo Attali, \u201c\u00e9 na Europa que come\u00e7ar\u00e1 a <em>hiperdemocracia<\/em>\u201d, a partir de uma nova Uni\u00e3o Europeia \u201cdotada de um parlamento e de um governo continentais\u201d. Seriam tamb\u00e9m criadas novas institui\u00e7\u00f5es em escala mundial, tendo a ONU como base, atuando numa \u201cdimens\u00e3o supranacional e n\u00e3o mais apenas multilateral\u201d, j\u00e1 que a no\u00e7\u00e3o de Estado-na\u00e7\u00e3o estaria, a essa altura, esgotada e superada. Essa nova conforma\u00e7\u00e3o permitiria uma governan\u00e7a global democr\u00e1tica restauradora, tornando poss\u00edvel uni\u00f5es regionais impens\u00e1veis como integrar Israel e Palestina, ou incorporar a R\u00fassia e a Turquia nessa nova Uni\u00e3o Europeia. Se foi nos arredores do Mediterr\u00e2neo que o mundo ocidental foi forjado, \u00e9 razo\u00e1vel imaginar que ser\u00e1 nesse mesmo Mediterr\u00e2neo que, por ter experimentado todos fracassos e frustra\u00e7\u00f5es de um processo civilizador euroc\u00eantrico dominador e autodestrutivo, irrompa um modo viver p\u00f3s-capitalista e p\u00f3s-cultura patriarcal milenar.<\/p>\n<p>Ao propor que podemos estar diante da emerg\u00eancia de uma <em>hiperdemocracia<\/em> que nos proporcione resgatar o <em>bem comum<\/em> e o<em>bom tempo<\/em><em>,<\/em> ap\u00f3s a inaudita conflu\u00eancia das cat\u00e1strofes do <em>hiperimp\u00e9rio<\/em> (o mercado planet\u00e1rio hegem\u00f4nico) seguido do <em>hiperconflito<\/em> (a viol\u00eancia desse mercado planet\u00e1rio, sem os contrapesos das regula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do Estado) gerado pelo mundo autocr\u00e1tico e polic\u00eantrico \u2013 hoje muito celebrado por segmentos da esquerda mundial e em evidente ascens\u00e3o \u2013, as ideias de Jacques Attali parecem nos convocar a um modo de vida ancestral. Talvez seja esta a \u00fanica sa\u00edda da policrise terminal para a qual nos arrastou a cultura patriarcal milenar: resgatar nossas ancestralidades.<\/p>\n<p>Para antever essa emerg\u00eancia civilizat\u00f3ria a partir do mesmo Mediterr\u00e2neo, a partir do qual irrompeu a agonia civilizat\u00f3ria do Ocidente, Attali tamb\u00e9m lembrou que \u201cquando em julho de 2014 Jean Jaur\u00e8s imaginava uma Europa livre, democr\u00e1tica, pacificada e reunida, nada permitia esperar que fosse essa a situa\u00e7\u00e3o do Velho Continente menos de oitenta anos mais tarde.\u201d \u00c9 preciso hoje fazer esse mesmo esfor\u00e7o de imaginar uma ruptura civilizacional capaz de trazer \u00e0 tona essa <em>hiperdemocracia<\/em>. Diante da real possibilidade de colapso, este \u00e9 o \u00fanico modo de governo entre os humanos e, sobretudo, entre humanos e n\u00e3o-humanos (os ecossistemas degradados) que nos reconecta com as nossas ancestralidades apagadas pela longa preval\u00eancia do Ocidente cognitivo que moldou a Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ter\u00edamos, assim, que suportar algo em torno de mais quarenta anos de agudiza\u00e7\u00e3o da insensatez antropoc\u00eantrica, numa perigosa combina\u00e7\u00e3o de crises (econ\u00f4mica, alimentar, energ\u00e9tica, geopol\u00edtica, social, ambiental etc) se retroalimentando, com potencial catastr\u00f3fico sem precedentes na hist\u00f3ria da humanidade, que poder\u00e1 tornar irrevers\u00edvel o atual processo de colapso em curso.<\/p>\n<p>Attali tem uma vis\u00e3o apocal\u00edptica e ao mesmo tempo esperan\u00e7osa sobre o futuro, convergente com os versos de H\u00f6lderlin, citados pelo fil\u00f3sofo Martin Heidegger: \u201cOra, onde mora o perigo \/ \u00e9 l\u00e1 que tamb\u00e9m cresce \/ o que salva\u201d. Quanto mais nos aproximamos da distopia (o \u201clugar ruim\u201d), mais a utopia (o \u201cn\u00e3o lugar\u201d), aquele mundo imagin\u00e1rio diferente do padr\u00e3o ocidental ao qual o <em>Homo sapiens<\/em> moderno ficou condicionado, parece poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Eis, portanto, o maior paradoxo do nosso tempo: nunca estivemos t\u00e3o pr\u00f3ximo da consuma\u00e7\u00e3o do colapso socioambiental e, a um s\u00f3 tempo, de uma ruptura civilizat\u00f3ria que, via <em>hiperdemocracia<\/em> livre de qualquer forma de apropria\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 nos livrar desse colapso e, finalmente, encerrar seis mil anos de agonia patriarcal.<\/p>\n<p><em>\u201cUma democracia planet\u00e1ria se instalar\u00e1<\/em><br \/><em>imitando os poderes do mercado.<\/em><br \/><em>Ela tentar\u00e1 ganhar outras guerras,<\/em><br \/><em>muito mais urgentes:<\/em><br \/><em>contra a loucura dos homens,<\/em><br \/><em>contra o desregramento clim\u00e1tico,<\/em><br \/><em>contra as doen\u00e7as mortais,<\/em><br \/><em>a aliena\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o e a mis\u00e9ria.\u201d<\/em><br \/>Jacques Attali<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p><strong>Trabalhos de Attali traduzidos para o portugu\u00eas<\/strong><\/p>\n<p>ATTALI, Jacques; GUILLAUME, Marc. A antieconomia: uma cr\u00edtica \u00e0 teoria econ\u00f4mica. Rio de Janeiro. Zahar.1975.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. A vida eterna. Lisboa: Livros do Brasil, 1991.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. 1492: os acontecimentos que marcaram o in\u00edcio da era moderna. S\u00e3o Paulo: Novo Fronteira, 1992.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Nomadismo e liberdade. Estudos Avan\u00e7ados, 7(17), 171-184. Dispon\u00edvel em https:\/\/revistas.usp.br\/eav\/article\/view\/9615. 1993.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Dicion\u00e1rio do s\u00e9culo XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Os judeus, o dinheiro e o mundo. Rio de Janeiro: Record, 2001.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Blaise Pascal ou o g\u00eanio franc\u00eas. Bauru, S\u00e3o. Paulo: EDUSC, 2003.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. A crise, e agora?. Lisboa: Tribuna da Hist\u00f3ria. Coimbra: Almedina, 2009.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Karl Marx ou o esp\u00edrito do mundo. Rio de janeiro: Record, 2007.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Uma breve hist\u00f3ria do futuro. S\u00e3o Paulo: Novo S\u00e9culo Editora, 2008.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Estaremos todos falidos dentro de dez anos? D\u00edvida p\u00fablica: a \u00faltima oportunidade. Lisboa: Al\u00eatheia, 2010.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. Gandhi: o despertar dos humilhados. S\u00e3o Paulo: Novo S\u00e9culo, 2013.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. A Economia da Vida: uma proposta para pouparmos nossas crian\u00e7as de uma pandemia aos 10 anos, uma ditadura aos 20 e uma cat\u00e1strofe clim\u00e1tica aos 30. S\u00e3o Paulo: Vest\u00edgio, 2021.<\/p>\n<p>ATTALI, Jacques. A epopeia da comida: uma breve hist\u00f3ria da nossa alimenta\u00e7\u00e3o. S\u00e3o. Paulo: Vest\u00edgio, 2021.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Diante de m\u00faltiplas crises, pode haver um \u201cfinal feliz\u201d? 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