{"id":63507,"date":"2025-11-10T18:59:20","date_gmt":"2025-11-10T21:59:20","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/geopolitica-da-catastrofe-climatica\/"},"modified":"2025-11-10T18:59:20","modified_gmt":"2025-11-10T21:59:20","slug":"geopolitica-da-catastrofe-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/geopolitica-da-catastrofe-climatica\/","title":{"rendered":"Geopol\u00edtica da cat\u00e1strofe clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1017\" height=\"798\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-10-at-19-09-41-Patrick-McGrath-Muniz-An-artists-responsibility-in-an-Age-of-Climate-Change.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-10-at-19-09-41-Patrick-McGrath-Muniz-An-artists-responsibility-in-an-Age-of-Climate-Change.png 1017w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-10-at-19-09-41-Patrick-McGrath-Muniz-An-artists-responsibility-in-an-Age-of-Climate-Change-300x235.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Screenshot-2025-11-10-at-19-09-41-Patrick-McGrath-Muniz-An-artists-responsibility-in-an-Age-of-Climate-Change-768x603.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1017px) 100vw, 1017px\"><figcaption><em>Arte: Patrick McGrath Mu\u00f1iz<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Por <strong>Meenakshi Raman<\/strong>, no <em>Third World Network<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 dez anos, o mundo ficou euf\u00f3rico com o an\u00fancio do Acordo de Paris. O ano de 2015 foi o ponto culminante de uma longa negocia\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da Conven\u00e7\u00e3o-marco das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7a do Clima (UNFCCC). As negocia\u00e7\u00f5es foram precedidas pela COP15 em Copenhague, em 2009, quando o multilateralismo clim\u00e1tico resistiu a duras penas. O que se seguiu foram cinco anos de negocia\u00e7\u00f5es intensas para que o Acordo de Paris fosse finalmente apresentado na 21\u00aa Confer\u00eancia das Partes da UNFCCC (COP21), em 2015.<\/p>\n<p>A negocia\u00e7\u00e3o foi marcada pela divis\u00e3o entre pa\u00edses do Norte e do Sul global. As tens\u00f5es se concentraram em como fazer frente \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es do acordo levando em considera\u00e7\u00e3o o n\u00edvel diferenciado de desenvolvimento entre os pa\u00edses. Ao final, chegou-se a um resultado fr\u00e1gil e delicado. Ora houve uma diferencia\u00e7\u00e3o clara entre as responsabilidades de pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento e ora n\u00e3o tanto.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/14-1.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/14-1.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>As avalia\u00e7\u00f5es sobre o Acordo de Paris variaram. Uns achavam que o resultado foi aqu\u00e9m do seu objetivo de salvar o planeta e proteger os mais pobres das consequ\u00eancias clim\u00e1ticas. Outros consideravam que foi o melhor resultado poss\u00edvel para a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e que, pelo menos, estabelecia uma base para uma maior ambi\u00e7\u00e3o futura. \u00c0 \u00e9poca, Barack Obama era presidente dos EUA e enfrentava um Congresso que em sua maioria se opunha a essa agenda.\u00a0<\/p>\n<p>O Acordo de Paris estabelece, em seu artigo 14, um Balan\u00e7o Global (<em>Global Stocktake,<\/em> em ingl\u00eas), que avalia o progresso do mundo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Esse mecanismo foi visto por muitos, especialmente pela Uni\u00e3o Europeia, como uma forma de pressionar por metas mais ambiciosas. O artigo 14 estabelece que o Balan\u00e7o \u201cinformar\u00e1 os Estados-parte, atualizando e aprimorando, de maneira nacionalmente determinada, suas a\u00e7\u00f5es e apoio, (\u2026) bem como aprimorando a coopera\u00e7\u00e3o internacional para a a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro balan\u00e7o ocorreu em 2023, durante a COP28 em Dubai. Os pa\u00edses foram solicitados a submeter seus Planos Nacionais de A\u00e7\u00e3o (<em>Nationally Determined Contributions<\/em> ou NDCs em ingl\u00eas) para a COP30 no Brasil. Eles abrangem o per\u00edodo de 2031 a 2035. Os primeiros referem-se ao per\u00edodo entre 2021 a 2030. O pr\u00f3ximo balan\u00e7o, realizado a cada 5 anos, dever\u00e1 ser realizado em 2028.<\/p>\n<p>Em Paris, o escopo desses planos tamb\u00e9m foi objeto de controv\u00e9rsia. Pa\u00edses desenvolvidos defendiam a ideia de que eles deveriam fazer refer\u00eancia apenas \u00e0s metas de mitiga\u00e7\u00e3o da crise clim\u00e1tica. J\u00e1 o grupo aliado de pa\u00edses em desenvolvimento (conhecido como <em>Like-Minded Developing Countries<\/em> ou LMDCs em ingl\u00eas) defendia um escopo mais amplo, para al\u00e9m da mitiga\u00e7\u00e3o. A perspectiva dos pa\u00edses em desenvolvimento prevaleceu. O Artigo 3\u00ba do Acordo de Paris estabelece que os NDCs s\u00e3o \u201cuma resposta global \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u201d e que as partes que assinam o acordo devem empreender e comunicar \u201cesfor\u00e7os ambiciosos\u201d, incluindo mitiga\u00e7\u00e3o, adapta\u00e7\u00e3o e os meios de implementa\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios ou a serem fornecidos.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica clim\u00e1tica, \u201cmitiga\u00e7\u00e3o\u201d significa reduzir as emiss\u00f5es que causam o aquecimento global. O conceito inclui planos de energia renov\u00e1vel ou prote\u00e7\u00e3o florestal. \u201cAdapta\u00e7\u00e3o\u201d significa lidar com os efeitos j\u00e1 presentes. Inclui desde a constru\u00e7\u00e3o de defesas contra inunda\u00e7\u00f5es at\u00e9 o plantio de variedades de cultivo resistentes \u00e0 seca. E, para tornar esses esfor\u00e7os poss\u00edveis, um terceiro elemento s\u00e3o os meios de \u201cimplementa\u00e7\u00e3o\u201d, como financiamento, tecnologia e habilidades.<\/p>\n<p>Na COP30, no Brasil, ser\u00e1 lan\u00e7ado o relat\u00f3rio que vai avaliar os planos nacionais e o progresso dos pa\u00edses em alcan\u00e7ar a meta estabelecida pelo Acordo de Paris: limitar o aumento da temperatura global a 1,5\u00b0C acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais. Infelizmente, os pa\u00edses est\u00e3o longe de alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>Espera-se que o relat\u00f3rio inspire maior ambi\u00e7\u00e3o para fechar a lacuna de emiss\u00f5es de carbono. Essa urg\u00eancia \u00e9 ressaltada por descobertas alarmantes da Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial. A \u00faltima d\u00e9cada foi a mais quente j\u00e1 registrada. Al\u00e9m disso, h\u00e1 uma probabilidade de 70% de que a temperatura m\u00e9dia ultrapasse os 1,5 \u00b0C nos pr\u00f3ximos cinco anos. Essas proje\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma janela de oportunidade para evitar danos irrevers\u00edveis ao clima. Mas ela est\u00e1 se fechando rapidamente. A\u00e7\u00f5es ousadas e imediatas s\u00e3o necess\u00e1rias.<\/p>\n<h3><strong>Divis\u00e3o justa das responsabilidades<\/strong><\/h3>\n<p>O elefante continua na sala. Quem vai preencher a lacuna de emiss\u00f5es globais?<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90.png 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/Arte-2_banner-site-outras-palavras_IC-na-Unesp_728x90-300x37.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 justo esperar que os pa\u00edses em desenvolvimento assumam maior responsabilidade quando as na\u00e7\u00f5es desenvolvidas \u2013 historicamente, os maiores emissores de carbono \u2013 n\u00e3o cumprem a sua parcela de redu\u00e7\u00f5es? Apesar do uso desproporcional do espa\u00e7o atmosf\u00e9rico do planeta e de suas promessas de liderar as a\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, muitos deles n\u00e3o alcan\u00e7aram as metas com as quais se comprometeram. O \u00f4nus de fechar a lacuna n\u00e3o pode ser transferido \u00e0queles que menos contribu\u00edram para a crise e que agora enfrentam os maiores desafios para se adaptar \u00e0s suas consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Na decis\u00e3o do balan\u00e7o global da COP28 de Dubai em 2023, essas preocupa\u00e7\u00f5es foram reiteradas: \u201co que resta uso de carbono, se quisermos atingir a meta de temperatura do Acordo de Paris, \u00e9 pouco \u2014 e est\u00e1 sendo rapidamente esgotado\u201d. As emiss\u00f5es acumuladas historicamente j\u00e1 representavam cerca de quatro quintos do or\u00e7amento total de carbono, o que resultava numa chance de apenas 50% de limitar o aquecimento global a 1,5 \u00b0C.<\/p>\n<p>A quantidade de carbono restante para limitar o aumento da temperatura a 1,5 \u00b0C s\u00e3o 500 gigatoneladas (Gt). Estudo realizado pela Climate Equity Monitor, com sede na \u00cdndia, diz que para limitar o aumento da temperatura a 1,5 \u00b0C, os pa\u00edses desenvolvidos somente teriam 87 Gt de di\u00f3xido de carbono equivalente (CO\u00b2-eq) para gastar. Isso sem considerar as emiss\u00f5es passadas.<\/p>\n<p>Quando consideradas as emiss\u00f5es totais, os pa\u00edses desenvolvidos teriam de empreender emiss\u00f5es negativas imediatamente. No entanto, a an\u00e1lise dos planos nacionais mostra que eles ainda v\u00e3o emitir cumulativamente, at\u00e9 2030, 140 gigatoneladas. Isso excede seu saldo restante de emiss\u00f5es de carbono em 53 gigatoneladas. A an\u00e1lise tamb\u00e9m revela que os esfor\u00e7os atuais de mitiga\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica dos pa\u00edses desenvolvidos s\u00e3o insuficientes para limitar o aumento da temperatura a 1,5 \u00b0C e consomem excessivamente o saldo de carbono restante. O cen\u00e1rio agrava-se ainda mais quando se leva em considera\u00e7\u00e3o a sa\u00edda dos Estados Unidos do Acordo de Paris em 2025.<\/p>\n<p>Outra propostas discutida durante as negocia\u00e7\u00f5es que levaram ao Acordo de Paris foi o de acesso equitativo ao espa\u00e7o atmosf\u00e9rico. \u00cdndia, Bol\u00edvia e Eti\u00f3pia lan\u00e7aram esta ideia. Ela deveria ser considerada, pensavam, ao se determinar como o saldo restante de emiss\u00f5es de carbono deveria ser compartilhado <em>per capita<\/em>. O c\u00e1lculo deveria levar em considera\u00e7\u00e3o a responsabilidade hist\u00f3rica, defendiam. Infelizmente, essas propostas n\u00e3o viram a luz do dia devido \u00e0 enorme resist\u00eancia dos pa\u00edses desenvolvidos, especialmente dos Estados Unidos, com o argumento de que nenhum acordo internacional deveria impor a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es.<\/p>\n<p>O \u00fanico consenso poss\u00edvel foi atrav\u00e9s de uma abordagem de baixo para cima. Assim, deu-se origem ao conceito dos planos nacionais (NDCs), em que cada pa\u00eds se comprometeria com o que pode fazer de forma volunt\u00e1ria. Vale ressaltar que essa abordagem n\u00e3o cont\u00e9m nenhuma avalia\u00e7\u00e3o sobre se os planos propostos promovem equidade ou justi\u00e7a entre os pa\u00edses desenvolvidos e em desenvolvimento. Ao contr\u00e1rio, acad\u00eamicos e grupos progressistas da sociedade civil apontaram que os pa\u00edses ricos n\u00e3o est\u00e3o fazendo o suficiente e est\u00e3o muito longe do que \u00e9 necess\u00e1rio para limitar o aumento da temperatura.<\/p>\n<p>Em 2021, na COP26 em Glasgow, no Reino Unido, os princ\u00edpios de reparti\u00e7\u00e3o justa e equitativa do \u00f4nus clim\u00e1tico deram lugar a alternativas ainda mais relaxadas para os pa\u00edses desenvolvidos. A presid\u00eancia do Reino Unido promoveu o mantra de zero emiss\u00f5es l\u00edquidas (\u201cnet-zero\u201d) para todos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>A abordagem de zero emiss\u00f5es l\u00edquidas visa equilibrar a quantidade de gases de efeito estufa que os pa\u00edses emitem com a quantidade que removem da atmosfera. Essa nova abordagem permitiu que as na\u00e7\u00f5es desenvolvidas adiassem cortes reais em emiss\u00f5es e confiassem em promessas vagas e compensa\u00e7\u00f5es futuras. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m transferiam o \u00f4nus de a\u00e7\u00f5es mais rigorosas para os pa\u00edses em desenvolvimento sem o financiamento ou a tecnologia necess\u00e1rios. O Acordo de Paris estabelece uma aspira\u00e7\u00e3o global de equilibrar e diminuir as emiss\u00f5es at\u00e9 2050 em uma a\u00e7\u00e3o conjunta e n\u00e3o uma proposta que individualiza a resposta dos pa\u00edses.<\/p>\n<p>O mantra do saldo zero das emiss\u00f5es t\u00eam sido alvo de muitas cr\u00edticas. Pa\u00edses em desenvolvimento e grupos de justi\u00e7a clim\u00e1tica dizem que s\u00e3o pouco ambiciosos e at\u00e9 mesmo duvidosos. Esses grupos t\u00eam pedido o \u201czero real\u201d e n\u00e3o o \u201czero l\u00edquido\u201d, come\u00e7ando primeiro pelos pa\u00edses desenvolvidos, que tamb\u00e9m devem ser respons\u00e1veis por apoiar financeiramente os pa\u00edses em desenvolvimento para que sigam nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas dessas promessas de zero l\u00edquido n\u00e3o se baseiam em uma descarboniza\u00e7\u00e3o profunda e dependem de \u201csolu\u00e7\u00f5es baseadas na natureza\u201d para sequestrar as emiss\u00f5es de carbono. Elas dependem dos mercados de carbono para fornecer compensa\u00e7\u00f5es de carbono (<em>carbon offsets<\/em>), que s\u00e3o instaladas principalmente nos pa\u00edses em desenvolvimento. A compensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma verdadeira redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es, mas sim pagar aos pa\u00edses em desenvolvimento para reduzirem as suas emiss\u00f5es. Essa medida \u00e9 considerada tendo melhor custo-benef\u00edcio e compensaria as emiss\u00f5es geradas no mundo desenvolvido.<\/p>\n<p>Com ou sem compensa\u00e7\u00e3o de carbono, tais compromissos criam uma enorme demanda por lugares como florestas, p\u00e2ntanos e pastagens nos pa\u00edses em desenvolvimento. A quantidade necess\u00e1ria de lugares excederia em v\u00e1rias vezes a capacidade de sequestro de carbono do planeta. Isso ter\u00e1 implica\u00e7\u00f5es negativas para os pa\u00edses em desenvolvimento, incluindo conflitos sobre o uso da terra, comunidades locais e povos ind\u00edgenas cujas terras e florestas est\u00e3o sendo procuradas para resolver o problema das emiss\u00f5es das na\u00e7\u00f5es ricas. Grupos de justi\u00e7a clim\u00e1tica se referem a isso como \u201ccolonialismo de carbono\u201d.<\/p>\n<h3><strong>Chega de ret\u00f3rica, precisamos de a\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>O pano de fundo dessas quest\u00f5es trazidas anteriormente \u00e9 catastr\u00f3fico. O Estados Unidos se retirou do Acordo de Paris. O governo Trump n\u00e3o somente nega abertamente as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, como promove os combust\u00edveis f\u00f3sseis. Usa os acordos bilaterais negociados com pa\u00edses em desenvolvimento como barganha para que os pa\u00edses em desenvolvimento aumentem o consumo de energia f\u00f3ssil. A trajet\u00f3ria global se desviou perigosamente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cat\u00e1strofe clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Como um valent\u00e3o do p\u00e1tio da escola cujas a\u00e7\u00f5es amea\u00e7am o bem-estar coletivo, tal comportamento exige uma resposta unificada e en\u00e9rgica da comunidade internacional.<\/p>\n<p>No entanto, nas negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas em junho deste ano em Bonn, Alemanha, o mundo desenvolvido em geral n\u00e3o demonstrou um compromisso significativo com a renova\u00e7\u00e3o da coopera\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses em desenvolvimento. Em vez disso, continuaram a diluir suas responsabilidades e a fugir de suas obriga\u00e7\u00f5es, particularmente na \u00e1rea cr\u00edtica de financiamento clim\u00e1tico, minando a confian\u00e7a e comprometendo as perspectivas de uma a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica global equitativa.<\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o de que as na\u00e7\u00f5es ricas carecem de recursos financeiros adequados \u00e9 insustent\u00e1vel, especialmente quando fundos substanciais s\u00e3o prontamente mobilizados para apoiar a venda de armas a Israel em meio ao seu genoc\u00eddio devastador em Gaza e para expandir as defesas militares e a infraestrutura de seguran\u00e7a global.<\/p>\n<p>Esse contraste gritante exp\u00f5e uma preocupante prioriza\u00e7\u00e3o dos interesses geopol\u00edticos em detrimento da sobreviv\u00eancia do planeta.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os impactos clim\u00e1ticos continuam a se intensificar, com eventos extremos, como ondas de calor, secas, inc\u00eandios florestais e inunda\u00e7\u00f5es, afetando desproporcionalmente as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis. Nesse contexto, os pa\u00edses em desenvolvimento devem se concentrar urgentemente na adapta\u00e7\u00e3o e no tratamento de perdas e danos.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente por isso que a COP30 no Brasil deve centrar as prioridades do Sul Global. O foco deve recair diretamente sobre o fornecimento de financiamento clim\u00e1tico dos pa\u00edses desenvolvidos aos pa\u00edses em desenvolvimento. Essa \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o vinculativa nos termos do Acordo de Paris. Tamb\u00e9m deve promover um apoio significativo para transi\u00e7\u00f5es justas, ampliar os esfor\u00e7os de adapta\u00e7\u00e3o e fornecer fundos concretos para lidar com perdas e danos. Qualquer coisa menos do que isso seria uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0 justi\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 mais suficiente apenas invocar a necessidade de salvar o multilateralismo. Est\u00e1 em jogo algo muito maior. Precisamos cumprir nossa promessa de salvar o planeta e proteger os mais vulner\u00e1veis do mundo. Isso exige solu\u00e7\u00f5es genu\u00ednas e transformadoras, baseadas na coopera\u00e7\u00e3o internacional e n\u00e3o no ciclo cansativo de transfer\u00eancia de culpa e truques ret\u00f3ricos.<\/p>\n<p>O tempo das cortinas de fuma\u00e7a e dos gestos simb\u00f3licos j\u00e1 passou. S\u00e3o necess\u00e1ria a\u00e7\u00f5es ousadas e respons\u00e1veis que priorizem a justi\u00e7a, a equidade e a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Este artigo foi originalmente publicado em \u201c<em>Focus 23: Global South\u2019s Climate Agenda<\/em>\u201d, do Instituto de Estudos Estrat\u00e9gicos e Internacionais (ISIS) da Mal\u00e1sia.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Quer comprar, num \u201cmercado de carbono\u201d, o direito de poluir. E recusa-se a financiar as tarefas de mitiga\u00e7\u00e3o. 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