{"id":63767,"date":"2025-11-11T17:18:08","date_gmt":"2025-11-11T20:18:08","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/depois-do-cancelamento\/"},"modified":"2025-11-11T17:18:08","modified_gmt":"2025-11-11T20:18:08","slug":"depois-do-cancelamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/depois-do-cancelamento\/","title":{"rendered":"Depois do cancelamento"},"content":{"rendered":"<p><span>Cancelamento \u00e9 dessas palavras que mudam de peso conforme atravessam o tempo. Ela nasceu como parte dos embates digitais, explos\u00e3o passageira de desagrado, e acabou se tornando um modo de nomear o conflito nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e afetivas. Tornou-se o idioma de uma \u00e9poca que hesita entre o confronto e o silenciamento. O termo se expandiu tanto que j\u00e1 n\u00e3o cabe no formato de um meme: infiltra-se nas assembleias, nas redes de trabalho, nas amizades, nos coletivos, nas brigas familiares. Mas, quanto mais se amplia, mais perde contorno. Por isso, antes de escolher um lado, talvez seja preciso perguntar: quando algu\u00e9m \u00e9 afastado, de que pertencimento estamos falando?<\/span><\/p>\n<p><span>Falamos de cancelamento quando um conflito rompe a superf\u00edcie do comum e exige resposta. N\u00e3o \u00e9 o <\/span><i><span>meme<\/span><\/i><span>, nem o <\/span><i><span>unfollow<\/span><\/i><span>; n\u00e3o \u00e9 o humor interno de <\/span><i><span>fandoms<\/span><\/i><span> que retiram aten\u00e7\u00e3o de um artista e seguem o fluxo. Essa camada existiu \u2013 e, em parte, ainda existe \u2013 mas ela \u00e9 outra coisa. O que importa aqui \u00e9 o momento em que o termo passa a nomear a possibilidade de punir, afastar algu\u00e9m da conviv\u00eancia; quando uma viol\u00eancia, um abuso de posi\u00e7\u00e3o ou um dano se torna incontorn\u00e1vel. Essa passagem \u2013 do gosto ao v\u00ednculo, do entretenimento ao espa\u00e7o comum \u2013 \u00e9 o que d\u00e1 peso \u00e0 palavra.<\/span><\/p>\n<p><span>Hoje, \u201ccancelamento\u201d nomeia experi\u00eancias que n\u00e3o se equivalem. \u00c0s vezes \u00e9 cr\u00edtica necess\u00e1ria. \u00c0s vezes \u00e9 ressentimento. \u00c0s vezes \u00e9 o registro de uma ferida. \u00c0s vezes, o desconforto de ter sido contrariado. Quando tudo recebe o mesmo nome, o acontecimento que originou o conflito perde forma. A ferida fica opaca. O contorno se desfaz.<\/span><\/p>\n<figure aria-describedby=\"caption-attachment-237441\"><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento.webp\" alt=\"Hoje, \u201ccancelamento\u201d nomeia experi\u00eancias que n\u00e3o se equivalem. \u00c0s vezes \u00e9 cr\u00edtica necess\u00e1ria. \u00c0s vezes \u00e9 ressentimento. \u00c0s vezes \u00e9 o registro de uma ferida. \u00c0s vezes, o desconforto de ter sido contrariado. Quando tudo recebe o mesmo nome, o acontecimento que originou o conflito perde forma. A ferida fica opaca. O contorno se desfaz. &lt;br&gt; (Imagem: Mohamed Mahmoud Hassan \/ Public Domain Pictures)\" width=\"1920\" height=\"1368\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento.webp 1920w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-300x214.webp 300w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-1024x730.webp 1024w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-768x547.webp 768w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-1536x1094.webp 1536w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-150x107.webp 150w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-120x86.webp 120w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-350x250.webp 350w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-750x534.webp 750w, https:\/\/operamundi.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/cancelamento-1140x812.webp 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\"><figcaption>Hoje, \u201ccancelamento\u201d nomeia experi\u00eancias que n\u00e3o se equivalem. \u00c0s vezes \u00e9 cr\u00edtica necess\u00e1ria. \u00c0s vezes \u00e9 ressentimento. \u00c0s vezes \u00e9 o registro de uma ferida. \u00c0s vezes, o desconforto de ter sido contrariado. Quando tudo recebe o mesmo nome, o acontecimento que originou o conflito perde forma. A ferida fica opaca. O contorno se desfaz. <br \/>(Imagem: Mohamed Mahmoud Hassan \/ Public Domain Pictures)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span>Quando o dano perde contorno, o foco da conversa muda. J\u00e1 n\u00e3o se trata do que aconteceu, mas de como se falou sobre o acontecido \u2013 o tom, a escolha das palavras, a intensidade do gesto. A viol\u00eancia permanece ali, intacta, mas \u00e9 empurrada para o plano da forma, como se o problema estivesse no modo de dizer e n\u00e3o na ferida que o motivou. O que exigiria reorganiza\u00e7\u00e3o do comum \u00e9 tratado como mal-estar individual, algo a ser contornado, e n\u00e3o como algo que demanda trabalho coletivo.<\/span><\/p>\n<p><span>\u00c9 nesse ponto que surge a tentativa de acomodar o conflito sem toc\u00e1-lo. A modera\u00e7\u00e3o aparece como prud\u00eancia. Ela pede cuidado, conten\u00e7\u00e3o, paci\u00eancia. Mas, na maior parte das vezes, \u00e9 sobre quem sofreu o dano que recai essa responsabilidade: ser cuidadoso, medir palavras, n\u00e3o estremecer o ambiente. A modera\u00e7\u00e3o reconhece a ferida, mas suspende as consequ\u00eancias que ela exigiria. Responsabilizar implica mexer nas rela\u00e7\u00f5es \u2013 redistribuir autoridade, rever tarefas, reequilibrar fala e escuta. \u00c9 justamente esse trabalho que a modera\u00e7\u00e3o tende a evitar, fazendo do conflito algo que deve ser amortecido, n\u00e3o reorganizado.<\/span><\/p>\n<p><span>Do outro lado, h\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o imediata: a den\u00fancia que explode, circula e cria calor. H\u00e1 verdade a\u00ed \u2013 o gesto nasce de exaust\u00e3o e limite. Mas, quando n\u00e3o encontra forma, a for\u00e7a se dissipa. A viol\u00eancia \u00e9 nomeada, n\u00e3o \u00e9 apurada, n\u00e3o \u00e9 depurada. Ela aparece, mas n\u00e3o se torna crit\u00e9rio; n\u00e3o volta ao coletivo como mat\u00e9ria de elabora\u00e7\u00e3o. Fica suspensa no acontecimento, deixando o comum intocado.<\/span><\/p>\n<p><span>\u00c9 nesse intervalo \u2013 entre a suspens\u00e3o da modera\u00e7\u00e3o e o esgotamento da descarga \u2013 que liberais e reacion\u00e1rios, parecendo estar em lados opostos, convergem no efeito. Uns afirmam que houve exagero; outros falam em censura. A discuss\u00e3o se desloca para a superf\u00edcie, para a forma da fala, para o modo de dizer. O dano, que exigiria reorganiza\u00e7\u00e3o, perde densidade. A pol\u00edtica se afasta do acontecimento.<\/span><\/p>\n<p><span>Isso aparece com clareza em situa\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias. Um coletivo cultural organiza um evento anual. Com o tempo, algu\u00e9m centraliza decis\u00f5es e reconhecimento. N\u00e3o come\u00e7a como viol\u00eancia; come\u00e7a como h\u00e1bito. O h\u00e1bito endurece. Quando algu\u00e9m diz que est\u00e1 machucado, o ar pesa. Surgem respostas para evitar o desconforto do conflito: \u201cn\u00e3o vamos criar clima\u201d, \u201cisso \u00e9 pessoal\u201d, \u201cent\u00e3o afasta logo\u201d. Nenhuma delas toca a forma que tornou o ac\u00famulo poss\u00edvel. H\u00e1 fala \u2013 mas n\u00e3o h\u00e1 reorganiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span>No fim, esses tr\u00eas movimentos n\u00e3o se anulam. A modera\u00e7\u00e3o que estaciona o conflito, a descarga que se esgota em si e o anticancelamento que normaliza o dano se apoiam mutuamente. Tudo volta para o privado, como se cada um tivesse de carregar sozinho o que feriu. A ferida fica ali, sem elabora\u00e7\u00e3o. O dano n\u00e3o se resolve; apenas permanece.<\/span><\/p>\n<p><span>A discuss\u00e3o sobre cancelamento costuma se fixar em tomar posi\u00e7\u00e3o \u2013 a favor ou contra \u2013 como se fosse uma escolha moral ou identit\u00e1ria. Mas o que importa \u00e9 outra coisa: o modo como lidamos com o dano quando ele aparece. Se ele \u00e9 acolhido, ignorado, exposto ou elaborado. \u00c9 isso que reorganiza \u2013 ou n\u00e3o \u2013 o comum.<\/span><\/p>\n<p><span>Quando o dano \u00e9 empurrado para o privado, ele apodrece em sil\u00eancio e a sociedade n\u00e3o amadurece. Quando \u00e9 apenas exibido, ele se esgota no pr\u00f3prio impacto e reverbera negativamente. Quando recusamos sua consequ\u00eancia, ele retorna mais tarde, mais duro, ocupando o espa\u00e7o que tentamos negar. Elaborar uma ferida \u00e9 lento, inc\u00f4modo, muitas vezes imperfeito. Mas \u00e9 esse trabalho \u2013 e n\u00e3o a limpeza de reputa\u00e7\u00f5es ou a manuten\u00e7\u00e3o da harmonia \u2013 que sustenta uma vida compartilhada.<\/span><\/p>\n<p><span>A constru\u00e7\u00e3o do comum n\u00e3o se funda em consenso, mas na capacidade de enfrentar tens\u00f5es sem transformar ningu\u00e9m em sobra. \u00c9 um cuidado sem garantias, refeito a cada vez.<\/span><\/p>\n<div data-id=\"3a925c7\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"jnews_archive_title_elementor.default\">\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><em><strong>(*) Ricardo Queiroz Pinheiro<\/strong> \u00e9 bibliotec\u00e1rio, pesquisador e doutorando em Ci\u00eancias Humanas e Sociais.<\/em><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>O post Depois do cancelamento apareceu primeiro em Opera Mundi.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/burkina-faso-detalhes-sobre-a-tentativa-de-golpe-e-do-assassinato-de-ibrahim-traore-sao-revelados\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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O termo se [\u2026]<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/opiniao\/depois-do-cancelamento\/\">Depois do cancelamento<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/operamundi.uol.com.br\/\">Opera Mundi<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":63768,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[8006,354,153,132,613,8345,29494],"tags":[],"class_list":["post-63767","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cancelamento","category-comunicacao","category-opiniao","category-politica","category-psicologia","category-redes","category-sociais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63767"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63767\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63768"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}