{"id":63948,"date":"2025-11-12T19:56:14","date_gmt":"2025-11-12T22:56:14","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasil-eis-a-nova-estrategia-da-direita\/"},"modified":"2025-11-12T19:56:14","modified_gmt":"2025-11-12T22:56:14","slug":"brasil-eis-a-nova-estrategia-da-direita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/brasil-eis-a-nova-estrategia-da-direita\/","title":{"rendered":"Brasil: Eis a nova estrat\u00e9gia da direita"},"content":{"rendered":"<figure><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"749\" height=\"409\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4949732024193321729_x1-1.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4949732024193321729_x1-1.jpg 749w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4949732024193321729_x1-1-300x164.jpg 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/photo_4949732024193321729_x1-1-219x121.jpg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 749px) 100vw, 749px\"><figcaption><em>Ilustra\u00e7\u00e3o: Antonio Juni\u00e3o \/ Ponte Jornalismo<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<h4>Boletim Outras Palavras<\/h4>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n                <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n                <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n              <\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n            <button type=\"submit\">Assinar<\/button><br \/>\n            <button disabled type=\"button\"> <\/p>\n<div><\/div>\n<p> <span>Loading&#8230;<\/span> <\/button>\n          <\/div>\n<\/p><\/div>\n<div>\n<div>\n<h4>Agradecemos!<\/h4>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Entre os dias 23 e 25 de outubro, apenas tr\u00eas dias antes da maior chacina da hist\u00f3ria recente do Brasil, foi realizada em S\u00e3o Paulo a \u201cCOP International 2025\u201d (Congresso de Opera\u00e7\u00f5es Policiais), reunindo uma grande feira de exposi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as policiais e empresas de tecnologia de defesa e seguran\u00e7a, al\u00e9m do ciclo de debates \u201cF\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica pelo Brasil\u201d, patrocinado pelo Partido Progressista e a Funda\u00e7\u00e3o Francisco Dornelles.<\/p>\n<p>O evento recebeu o apoio institucional da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica e das pol\u00edcias civil e militar do estado de S\u00e3o Paulo, bem como do Minist\u00e9rio da Defesa. Apoio mais do que vis\u00edvel: a feira contava com estandes destas institui\u00e7\u00f5es, exibindo seus arsenais ao lado de empresas privadas, nacionais e estrangeiras, que oferecem o que h\u00e1 de mais avan\u00e7ado em tecnologia militar e de vigil\u00e2ncia. No p\u00fablico, policiais militares, civis, federais, municipais e penais circulavam fardados, uniformizados e armados pelo sal\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos n\u00e3o eram meros figurantes, integrando as mesas de debate do \u201cF\u00f3rum\u201d como palestrantes ao lado de deputados, policiais-deputados, governadores, secret\u00e1rios e promotores. Alguns dos policiais, \u00e9 importante frisar, palestraram fardados.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/14-1-5.png\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/14-1-5.png 680w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/14-1-300x110.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" width=\"680\" height=\"250\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Mas h\u00e1 ainda um pequeno detalhe: o f\u00f3rum era, na verdade, um ciclo de debates realizado pelo Partido Progressista (PP), o mesmo do Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica paulista, o ex-Capit\u00e3o da ROTA Guilherme Derrite, atrav\u00e9s da Funda\u00e7\u00e3o Francisco Dornelles. De fato, o evento n\u00e3o fez nenhuma quest\u00e3o de esconder o seu car\u00e1ter pol\u00edtico. A funda\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria constava expressamente na organiza\u00e7\u00e3o, o logo do \u201cF\u00f3rum\u201d estampava o s\u00edmbolo e o n\u00famero do Progressistas e nomes de destaque do partido eram as estrelas do debate.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, coube a Ciro Nogueira, senador e presidente da sigla, anunciar em primeira m\u00e3o o novo slogan que o Progressistas agora adota de olho em 2026: \u201cBrasil do futuro \u00e9 Brasil mais seguro\u201d. Mas era Derrite quem, sem d\u00favidas, se fazia onipresente no evento que parecia constru\u00eddo mais em torno de sua futura candidatura do que de seu partido.<\/p>\n<p>Quase todos os palestrantes faziam quest\u00e3o de agradecer o convite pessoal que receberam do Secret\u00e1rio, sempre acompanhado da c\u00fapula de seus comandados paulistas: o ex e o atual Comandantes-Gerais, o Comandante do Choque e o Chefe de Intelig\u00eancia da PM, al\u00e9m do Delegado Geral da PC e do diretor da Pol\u00edcia Penal.<\/p>\n<p>Essa verdadeira simbiose, articulada a partir de S\u00e3o Paulo apenas tr\u00eas dias antes da chacina do Rio de Janeiro \u2014 envolvendo pol\u00edcias de todo o Brasil, partidos da extrema-direita (com a presen\u00e7a do PP e do PL) e a ind\u00fastria de vigil\u00e2ncia e defesa armamentista \u2014, parece simbolizar bem os rumos que a pol\u00edtica brasileira pode tomar nos pr\u00f3ximos anos, sobretudo diante do tom discursivo que logo depois justificaria o massacre. Tentamos desvend\u00e1-los a seguir.<\/p>\n<p><strong>O AJUSTE NARRATIVO: SAI A FALIDA GUERRA \u00c0S DROGAS, ENTRA O COMBATE AO NARCOTERRORISMO, SEGUE A GUERRA \u00c0S FAVELAS<\/strong><\/p>\n<p>\u201cA guerra \u00e0s drogas n\u00f3s j\u00e1 perdemos, a droga \u00e9 s\u00f3 a quarta fonte de renda do crime organizado. (\u2026) Esquece a droga, n\u00f3s j\u00e1 estamos em outra prateleira. (\u2026) N\u00f3s j\u00e1 somos um narcoestado. (\u2026) Isso aqui n\u00e3o \u00e9 caso de pol\u00edcia, isso aqui \u00e9 caso de direito internacional\u201d.<\/p>\n<p>As frases acima foram parte do acalorado discurso de Alexandre Abrah\u00e3o, juiz de uma vara especializada em crime organizado do TJ-RJ, em uma das mesas mediada pelo pr\u00f3prio Derrite. Destacamos seu discurso por resumir as principais ideias da extrema-direita para a seguran\u00e7a p\u00fablica neste ponto: a mudan\u00e7a do foco narrativo central da guerra \u00e0s drogas para a guerra territorial e a abertura \u00e0 interven\u00e7\u00e3o estrangeira a partir da reclassifica\u00e7\u00e3o de problemas internos como conflitos transnacionais pautados em conceitos de terrorismo.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\"src=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina.jpg 728w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/BANNER-outras-palavras-ABRIL-memoria-de-menina-300x37.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" width=\"728\" height=\"90\"><\/div>\n<\/div>\n<p>A primeira \u00e9 essencial na constru\u00e7\u00e3o da segunda. Relativizar seu pr\u00f3prio velho discurso de combate \u00e0s drogas \u00e9 uma novidade neste momento de reorganiza\u00e7\u00e3o da extrema-direita para as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. A ideia \u00e9 introduzida por uma frase do Governador Cl\u00e1udio Castro, o maior respons\u00e1vel pela chacina do RJ, e repetida por representantes cariocas no evento: \u201choje, o crime \u00e9 business\u201d. Para Castro, as fac\u00e7\u00f5es s\u00f3 continuam a traficar porque uma lei \u201cbranda\u201d faz as drogas ainda valerem a pena, mas que elas j\u00e1 representam apenas \u201cum quarto do dinheiro do crime\u201d.<\/p>\n<p>Na linha do \u201cbusiness\u201d, o Secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a do RJ e delegado federal aposentado Victor Santos pontuou que \u201ca favela n\u00e3o \u00e9 pobreza, \u00e9 pot\u00eancia e oportunidade que t\u00eam sido exploradas pelo crime\u201d. \u00c9 acompanhado pelo Coronel Maur\u00edlio Nunes, ex-Comandante do BOPE e seu atual Subsecret\u00e1rio, para quem a \u201cestrutura empresarial\u201d do crime organizado se d\u00e1 porque \u201cas fac\u00e7\u00f5es aprenderam a dominar servi\u00e7os com as mil\u00edcias\u201d. Felipe Curi, delegado e Secret\u00e1rio da PC-RJ, foi al\u00e9m ao afirmar que as mil\u00edcias, hoje, s\u00e3o formadas por traficantes que migraram das fac\u00e7\u00f5es, pontuando que a explora\u00e7\u00e3o territorial d\u00e1 muito mais dinheiro do que o tr\u00e1fico de drogas. Todos foram un\u00edssonos ao dizer que a \u201cADPF das favelas\u201d seria a grande respons\u00e1vel pela domina\u00e7\u00e3o territorial do RJ pelas fac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As favelas, tratadas como territ\u00f3rios cuja soberania estatal deveria ser \u201crecuperada\u201d, foram um ponto central na fala da c\u00fapula de seguran\u00e7a do Rio de Janeiro. Em uma das apresenta\u00e7\u00f5es, chegou-se a exibir um v\u00eddeo feito com intelig\u00eancia artificial generativa que simulava \u201co que moradores da favela falariam, se pudessem falar\u201d. Victor fez quest\u00e3o de afirmar que \u201c81% da popula\u00e7\u00e3o brasileira mora em favelas. S\u00e3o pessoas pobres, negras, sem oportunidade, isso \u00e9 uma mentira\u201d.<\/p>\n<p>Dentro de sua ret\u00f3rica, quem \u201cdefende\u201d esse tipo de territ\u00f3rio estaria contribuindo para manter um sistema lucrativo cuja expans\u00e3o beneficia as fac\u00e7\u00f5es, que, segundo ele, \u201caprenderam com a mil\u00edcia que explorar os territ\u00f3rios \u00e9 uma fonte de receita\u201d. Nessa mesma linha, Fabr\u00edcio Oliveira, Delegado da CORE-RJ, afirmou que a \u00fanica coisa que \u201climita\u201d a faveliza\u00e7\u00e3o do Brasil s\u00e3o os recursos naturais, como deslizamento de morros, porque a \u201clegisla\u00e7\u00e3o aceita esse tipo de forma\u00e7\u00e3o territorial\u201d.<\/p>\n<p>No evento como um todo, o Rio de Janeiro foi retratado como um laborat\u00f3rio, um \u201ccaso complexo, muito dif\u00edcil de seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d, porque os agentes policiais precisam agir \u201cdentro das quatro linhas\u201d, limitados pela \u201cADPF das favelas\u201d, enquanto o \u201ccrime avan\u00e7a na marginalidade da lei\u201d.<\/p>\n<p>Nas palavras do pr\u00f3prio Secret\u00e1rio fluminense, a realidade do Rio seria \u201cum reflexo da ina\u00e7\u00e3o das leis, que s\u00e3o um instrumento para que a pol\u00edcia possa fazer o seu trabalho\u201d. Seu discurso sempre se dirige para a mesma profecia: sem mudan\u00e7as na legisla\u00e7\u00e3o que deem ainda mais autonomia \u00e0s a\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia, o mesmo ir\u00e1 acontecer em todo o pa\u00eds. Amea\u00e7as acompanhadas por coment\u00e1rios como o do Capit\u00e3o Telhada, deputado estadual paulista pelo PP, afirmando que \u201co contexto do Rio de Janeiro assusta a gente aqui em S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p>As falas da c\u00fapula de seguran\u00e7a do Rio de Janeiro durante a COP, muitas delas proferidas pelos principais respons\u00e1veis pela chacina, revelam o tom de um projeto de pa\u00eds em curso. A chacina e sua ret\u00f3rica, retratada como uma \u201copera\u00e7\u00e3o de sucesso\u201d, foram antecipadas em um evento partid\u00e1rio-policial que prefigurou tanto as atrocidades realizadas quanto a narrativa destinada a justificar o injustific\u00e1vel. Ao tratar com ironia as cr\u00edticas \u00e0 letalidade policial, Victor enfatizou com desumanidade e frieza: \u201cQuem trabalha muito, erra muito\u201d.<\/p>\n<p>Diante desse mote, a palestra do promotor do MP-SP, Leonardo Romanelli, explicando as a\u00e7\u00f5es de intelig\u00eancia da Opera\u00e7\u00e3o Carbono Oculto contra redes financeiras do PCC, ficou isolada do restante do evento. Reverberaram muito mais discursos como o do juiz Alexandre Abrah\u00e3o, que ap\u00f3s dizer que \u201cseteiras (buracos na parede que servem como base de tiro) e barricadas s\u00e3o o limite final da liberdade da sociedade\u201d, olhou para a plateia paulista e profetizou: \u201cse isso aparecer aqui em S\u00e3o Paulo \u00e9 porque voc\u00eas j\u00e1 perderam\u201d.<\/p>\n<p>No f\u00f3rum, repetiu-se muito a ideia de que o RJ foi respons\u00e1vel por \u201cexportar criminosos e o modus operandi do crime para outros estados\u201d, como disse o Secret\u00e1rio Victor. Por sua vez, \u00e9 da no\u00e7\u00e3o territorializada do crime no RJ que a direita tenta levar o debate da seguran\u00e7a p\u00fablica para o campo da soberania e do terrorismo, dando base \u00e0 ideia de uma guerra territorial que justifique at\u00e9 a interven\u00e7\u00e3o do direito internacional no Brasil.<\/p>\n<p>Um conceito bastante explorado, por exemplo, foi o de \u201cblack spots\u201d, \u00e1reas dentro de um pa\u00eds em que a soberania do Estado \u00e9 fr\u00e1gil ou inexistente, citado pelo juiz Abrah\u00e3o e pelo ex-Comandante Geral da PM paulista, o Coronel C\u00e1ssio Ara\u00fajo. Foi a partir dele que Abrah\u00e3o usou os termos \u201cnarcoterrorismo\u201d para dizer que a droga j\u00e1 havia se tornado algo secund\u00e1rio diante da guerra territorial, enquanto o coronel paulista preferiu o termo \u201cterrorismo criminal\u201d.<\/p>\n<p>Discurso corroborado por falas como a do delegado Felipe Curi ao afirmar que a ADPF transformou as favelas em \u201cbase operacional\u201d, ou na defesa que o ex-BOPE Maur\u00edlio Nunes fez do atual projeto de ocupa\u00e7\u00e3o das favelas no RJ como forma de retomada da soberania contra os \u201cnarcoterroristas\u201d. Ou, ainda, o apontamento do Secret\u00e1rio carioca de que o RJ, hoje, tem \u201cmicrosoberanias\u201d nas quais \u201co fuzil \u00e9 o instrumento de domina\u00e7\u00e3o territorial\u201d.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre CV e PCC, por\u00e9m, acabam ignoradas para que se apliquem os mesmos conceitos em SP. Isso foi bem observado na fala inaugural de Derrite, que apresentou como os \u201cdois desafios cr\u00edticos\u201d do in\u00edcio de sua gest\u00e3o a Baixada Santista e a Cracol\u00e2ndia, segundo ele, \u201cterrit\u00f3rios do crime organizado\u201d que deveriam ser retomados pelo Estado.<\/p>\n<p>Na Baixada, ele considerou as Opera\u00e7\u00f5es Ver\u00e3o e Escudo \u201co maior evento policial de retomada do territ\u00f3rio e de intensifica\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de seguran\u00e7a na Am\u00e9rica Latina\u201d. Sobre as mortes decorrentes da a\u00e7\u00e3o policial durante essa opera\u00e7\u00e3o, se calou, se limitando a dizer que \u201cn\u00e3o existem provas, n\u00e3o existem v\u00eddeos que retratam viol\u00eancia policial nas opera\u00e7\u00f5es\u201d, embora isso seja uma evidente mentira.<\/p>\n<p>Sobre a Cracol\u00e2ndia, Derrite caracterizou o territ\u00f3rio da Favela do Moinho como \u201cposi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica\u201d na justificativa de sua desocupa\u00e7\u00e3o. Oportunidade que aproveitou para atacar os movimentos de m\u00e3es que se organizam em busca de justi\u00e7a por terem perdido seus filhos para a pol\u00edcia e as lideran\u00e7as comunit\u00e1rias de moradores contra o despejo, chamando-as de \u201ctraficantes\u201d.<\/p>\n<p>Nesse ponto, \u00e9 importante perceber como estes conceitos recaem sobre a popula\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios. Instigado pelo deputado estadual Capit\u00e3o Telhada, por exemplo, o Tenente-Coronel Wilmar Fernandes, que atua pela PM-MS nas fronteiras com Bol\u00edvia e Paraguai, afirmou que as fac\u00e7\u00f5es vivem uma \u201cguerra assim\u00e9trica\u201d na qual, com menos potencial b\u00e9lico que o Estado, cooptam o povo atrav\u00e9s do assistencialismo e da propaganda.<\/p>\n<p>Sob o discurso de guerra territorial, portanto, popula\u00e7\u00f5es inteiras s\u00e3o postas em situa\u00e7\u00e3o de constante suspei\u00e7\u00e3o pelas autoridades diante da amea\u00e7a de coopta\u00e7\u00e3o pelas fac\u00e7\u00f5es. Nesse contexto, surgem debates como o poder da \u201cnarcocultura\u201d (em discursos acalorados sobre MC\u2019s) ou a tese de \u201cguerra informacional\u201d, observada, por exemplo, na afirma\u00e7\u00e3o do diretor da Pol\u00edcia Penal-SP de que \u201co PCC usa ONGs para espalhar desinforma\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Foi o diretor Rodrigo Andrade, ali\u00e1s, quem apresentou em sua palestra um quadro comparativo entre o crime organizado e o terrorismo, citando o planejamento estrat\u00e9gico, o uso da viol\u00eancia, o impacto sist\u00eamico, a comunica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e a estrutura em rede como pontos em comum. Dados acompanhados de afirma\u00e7\u00f5es ainda mais en\u00e9rgicas, como a do ju\u00edz Abrah\u00e3o de que \u201cos m\u00edsseis do Hamas s\u00e3o alimentados pelos cigarros clandestinos do Paraguai\u201d ou de que \u201co PCC est\u00e1 ligado \u00e0 grupos terroristas\u201d.<\/p>\n<p>Territ\u00f3rio, soberania e narcoterrorismo, portanto, muito mais do que a \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, se mostram as palavras-chave para compreender o novo plano pol\u00edtico das pol\u00edcias e da direita, constru\u00eddo centralmente a partir da seguran\u00e7a p\u00fablica. Suas justificativas empilhadas, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o suficientes para tapar uma s\u00e9rie de<\/p>\n<p>Primeiro, \u00e9 curioso que as mil\u00edcias nunca sejam retratadas como um problema em si mesmo. Para eles, a quest\u00e3o \u00e9 que as fac\u00e7\u00f5es (sobretudo o CV) copiaram o modelo miliciano e agora s\u00e3o um problema maior. Segundo, embora todos reconhe\u00e7am que o funcionamento da maior fac\u00e7\u00e3o do Brasil, o PCC, seja diferente, desterritorializado, \u00e9 o cen\u00e1rio territorializado carioca o escolhido como paradigma para o resto do Brasil.<\/p>\n<p>Embora reconhe\u00e7am a mil\u00edcia como modelo que surgiu com o dom\u00ednio territorial, a deixam de fora de suas propostas para combat\u00ea-lo, focando exclusivamente nas fac\u00e7\u00f5es enquanto deixam de lado qualquer debate sobre a rela\u00e7\u00e3o entre for\u00e7as policiais e crime organizado no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mesmo que insistam na centralidade do fuzil na domina\u00e7\u00e3o territorial, ignoram o afrouxamento da legisla\u00e7\u00e3o armamentista que os permitiu e o sabido papel da corrup\u00e7\u00e3o policial nos desvios que alimentam o crime. Inclusive os negam, como fez o Coordenador da CORE-RJ Fabr\u00edcio Oliveira, chamando o Estatuto do Desarmamento de \u201cmeu fuzil, minha vida\u201d.<\/p>\n<p>Outra incongru\u00eancia \u00e9 a quest\u00e3o financeira. A direita aponta que as fac\u00e7\u00f5es diversificaram atividades econ\u00f4micas e, hoje, focam na explora\u00e7\u00e3o territorial, mais lucrativa que o tr\u00e1fico de drogas. Mas se estas atividades geram ainda mais lucro, como n\u00e3o se sabe onde circula este novo dinheiro? Por que h\u00e1 tanto interesse em demandar investimento em aparatos de combate e quase nenhum em opera\u00e7\u00f5es e ag\u00eancias de fiscaliza\u00e7\u00e3o de redes financeiras? Querem nos fazer crer que o CV e as mil\u00edcias guardam dinheiro embaixo de seus colch\u00f5es?<\/p>\n<p>No fim das contas, ao n\u00e3o abordarem em seus discursos outros tipos de criminalidade que existem para al\u00e9m das fac\u00e7\u00f5es e outras causas para a viol\u00eancia, o que se observa \u00e9 que esta altera\u00e7\u00e3o de rota narrativa da extrema-direita serve, realmente, a dois prop\u00f3sitos: 1) possibilitar a interven\u00e7\u00e3o do direito internacional e de for\u00e7as estrangeiras no Brasil a partir dos conceitos de narcoterrorismo; e 2) justificar o aumento da autonomia, dos poderes e das compet\u00eancias das for\u00e7as policiais do pa\u00eds simulando uma guerra territorial interna de elevado n\u00edvel tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>O BRASIL EST\u00c1 MAIS PR\u00d3XIMO DE SE TORNAR UM ESTADO POLICIAL DO QUE UM NARCOESTADO<\/strong><\/p>\n<p>No congresso organizado pelo PP, duas coisas ficaram bem claras. A primeira delas \u00e9 que as narrativas e o discurso pol\u00edtico levados pela c\u00fapula de seguran\u00e7a do RJ devem ser mobilizados pela extrema-direita para o restante do pa\u00eds. Os pain\u00e9is de debates soaram como uma verdadeira tentativa de unifica\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o discursiva em torno de um projeto de futuro pensado pelas c\u00fapulas de algumas pol\u00edcias estaduais (principalmente RJ e SP) em conjunto com partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m das velhas ret\u00f3ricas punitivistas \u2014 que v\u00e3o desde sugest\u00f5es de altera\u00e7\u00e3o na legisla\u00e7\u00e3o para o aumento das penas at\u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do clich\u00ea populista de que \u201ca pol\u00edcia prende e o Judici\u00e1rio solta\u201d\u2014, este projeto \u00e9 centralmente caracterizado pela no\u00e7\u00e3o de \u201cguerra territorial\u201d, na qual os conceitos de \u201cnarcoterrorismo\u201d e \u201cguerra assim\u00e9trica\u201d devem servir como justificativa para o aumento do poder e da autonomia policiais e para a suspens\u00e3o permanente de direitos de popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas e faveladas.<\/p>\n<p>Neste ponto, est\u00e1 a segunda grande evid\u00eancia revelada pelo congresso. Este projeto de poder n\u00e3o traz apenas novos recursos discursivos, mas consolida uma nova protagonista na pol\u00edtica brasileira: a classe policial. Longe da velha imagem que faz\u00edamos dela, como mera for\u00e7a auxiliar da elite pol\u00edtica brasileira, cada vez mais, a pol\u00edcia se coloca como pensadora e articuladora de um projeto autorit\u00e1rio para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se a \u201cguerra ao narcoterrorismo\u201d \u00e9 colocada pela extrema-direita como o grande problema a ser enfrentado, a concess\u00e3o de poderes ilimitados \u00e0s pol\u00edcias \u00e9 receitada como a sua \u00fanica solu\u00e7\u00e3o. Uma solu\u00e7\u00e3o que j\u00e1 escalou uma verdadeira tropa para defend\u00ea-la nos espa\u00e7os tradicionais de poder: s\u00f3 nesta legislatura, mais de 60 policiais e militares j\u00e1 ocuparam uma cadeira no Senado e na C\u00e2mara Federal, o equivalente a cerca de 10% do Congresso Nacional. Policiais-pol\u00edticos (ou pol\u00edticos-policiais) que, nos \u00faltimos anos, v\u00eam se dedicando a legislar em causa pr\u00f3pria, propondo projetos que aumentam o seu pr\u00f3prio poder.<\/p>\n<p>No palanque partid\u00e1rio de um dos maiores partidos da extrema-direita brasileira, n\u00e3o havia qualquer constrangimento de policiais que ali subiam fardados para discursar. Tamb\u00e9m n\u00e3o estava nada constrangida a c\u00fapula da seguran\u00e7a p\u00fablica do RJ que, enquanto realizava o seu \u201ccom\u00edcio\u201d, j\u00e1 pensavam na chacina que havia planejado para ocorrer tr\u00eas dias depois.<\/p>\n<p>\u00c0 prom\u00edscua rela\u00e7\u00e3o entre policiais e pol\u00edticos demonstrada no palco se juntavam algumas ind\u00fastrias privadas que, com sua parafern\u00e1lia tecnol\u00f3gica de seguran\u00e7a e defesa exposta nos estandes ao lado, fazem as contas de quanto pode lucrar na espiral de viol\u00eancia brasileira.<\/p>\n<p>Inclusive, o ajuste narrativo que acirra a escala do inimigo interno, sempre criado e sustentado por discursos que buscam legitimar as pol\u00edticas de morte da pol\u00edcia, parece tamb\u00e9m ser arquitetado para tornar juridicamente e socialmente aceit\u00e1vel, talvez em um futuro pr\u00f3ximo, o uso de tecnologias como drones a\u00e9reos e terrestres equipados com armamentos, ostensivamente exibidas e disponibilizadas \u00e0 pol\u00edcia durante a feira.<\/p>\n<p>Por certo, nada permanecer\u00e1 igual ap\u00f3s uma chacina dessa magnitude, a maior da hist\u00f3ria recente do Brasil. D\u00e9cadas atr\u00e1s, o pr\u00f3prio PCC surgiu dos escombros do \u201cMassacre do Carandiru\u201d, e, desde ent\u00e3o, a sua expans\u00e3o tem justificado diversas altera\u00e7\u00f5es legislativas e institucionais que ampliaram o poder e a capacidade de atua\u00e7\u00e3o das pol\u00edcias e do sistema penal. Do mesmo modo, h\u00e1 d\u00e9cadas que o combate \u00e0s fac\u00e7\u00f5es legitimou escandalosas opera\u00e7\u00f5es policiais e militares no RJ.<\/p>\n<p>Hoje, o PCC diversifica suas atividades criminosas em plena expans\u00e3o, enquanto o RJ j\u00e1 n\u00e3o sofre apenas com as fac\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m com o fortalecimento das mil\u00edcias a partir das pr\u00f3prias for\u00e7as de seguran\u00e7a. Com velhas solu\u00e7\u00f5es fracassadas mais uma vez colocadas \u00e0 mesa, poder\u00edamos pensar que o Brasil n\u00e3o aprendeu nada com si mesmo. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 verdade. A extrema-direita brasileira parece ter aprendido bem.<\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es policiais e as organiza\u00e7\u00f5es de direita est\u00e3o cada vez mais alinhadas. Na verdade, quase se confundem no caminho para o poder que necessariamente passa por legitimar a execu\u00e7\u00e3o e o massacre de moradores de favelas e periferias de todo o Brasil. Embora muitas narrativas preguem o contr\u00e1rio, afirmamos sem medo de errar: o Brasil est\u00e1 muito mais pr\u00f3ximo de se tornar um Estado Policial do que um narcoestado.<\/p>\n<div>\n<div>\n<p><span><em>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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Pontos centrais: interven\u00e7\u00e3o internacional na seguran\u00e7a e carta branca a massacres na periferia, como no Rio<\/p>\n<p>The post <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/brasil-eis-nova-estrategia-da-direita\/\">Brasil: Eis a nova estrat\u00e9gia da direita<\/a> appeared first on <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/\">Outras Palavras<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":63949,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[4818,2741,5511,29626,27288,3003,7293,6823,7052,6106,27511,13040,29627,1614,26337],"tags":[],"class_list":["post-63948","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-adpf-das-favelas","category-bancada-da-bala","category-capa","category-capitao-derrite","category-chacina-no-rio","category-claudio-castro","category-comando-vermelho","category-congresso-brasileiro","category-direita-assanhada","category-guerra-as-drogas","category-massacre-no-rio","category-narcoterrorismo","category-operacao-carebono-oculto","category-pcc","category-pl-antifaccao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63948","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63948"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63948\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63949"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}