{"id":64287,"date":"2025-11-14T13:00:00","date_gmt":"2025-11-14T16:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tituba\/"},"modified":"2025-11-14T13:00:00","modified_gmt":"2025-11-14T16:00:00","slug":"tituba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/tituba\/","title":{"rendered":"Tituba"},"content":{"rendered":"<p>Ind\u00edgena Arawak da Am\u00e9rica do Sul, Tituba foi sequestrada de sua comunidade ainda menina e levada para Barbados, no Caribe (ent\u00e3o uma col\u00f4nia inglesa), onde ela foi herdada pelo seu amo, o pastor Samuel Paris, quando ele assumiu o controle da fazenda da fam\u00edlia. Passado algum tempo, Paris a levou para Boston e para Sal\u00e9m, onde sua confiss\u00e3o de ter assinado o livro do Diabo mudaria o rumo da hist\u00f3ria da ca\u00e7a \u00e0s bruxas.<\/p>\n<figure><figcaption>Cena da pe\u00e7a de Longfellow \u201cGiles Corey de Salem Farms\u201d mostrando o Rev. Cotton Mather encontrando Tituba na floresta, enquanto Mather viaja para a Vila de Salem para investigar as acusa\u00e7\u00f5es de bruxaria.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Neste epis\u00f3dio, Natalia Viana mergulha na biografia desta mulher ind\u00edgena, recorrendo a documentos, livros e an\u00e1lises de historiadores para entender qual foi seu papel nos fatos que ocorreram em 1692 e no imagin\u00e1rio daquele pequeno vilarejo puritano de cerca de 500 habitantes.<\/p>\n<div data-effect=\"slide\">\n<div>\n<ul>\n<li>\n<figure><figcaption>Memorial do julgamento em Sal\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Memorial do julgamento em Sal\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<li>\n<figure><figcaption>Depoimento de Samuel Parris contra Tituba<\/figcaption><\/figure>\n<\/li>\n<\/ul>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Ao pesquisar a hist\u00f3ria de Massachusetts, a narradora entende que n\u00e3o podemos olhar Tituba de forma isolada, pois os nativos das Am\u00e9ricas eram centrais no imagin\u00e1rio ultra-religioso puritano. A Guerra do Rei Felipe, ocorrida entre 1675 e 1678, consolidou uma rela\u00e7\u00e3o de \u00f3dio e terror incorporada \u00e0s leis coloniais, ao mesmo tempo em que os ingleses operavam um genoc\u00eddio contra as popula\u00e7\u00f5es locais. Neste contexto, a mudan\u00e7a de narrativa operada por Tituba funciona como um ato de resist\u00eancia e de rebeli\u00e3o contra a ordem estabelecida.<\/p>\n<p>No terceiro epis\u00f3dio de <em>Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas \u2013 uma hist\u00f3ria de terror real<\/em> mergulhamos na hist\u00f3ria de Tituba e em sua surpreendente confiss\u00e3o. Ou\u00e7a agora.<\/p>\n<h2><strong>Leia abaixo o roteiro do epis\u00f3dio na \u00edntegra:<\/strong><\/h2>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu quis vir aqui no pier porque tem uma pessoa que, para mim, \u00e9 a personagem mais fascinante de toda a hist\u00f3ria das bruxas de Sal\u00e9m e \u00e9 a hist\u00f3ria dela que a gente vai se focar nesse podcast. S\u00f3 que \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o deixou praticamente nenhuma marca. Voc\u00ea n\u00e3o tem o nome dela nos memoriais. Tem um memorial aqui, n\u00e9? N\u00e3o tem o nome dela. Voc\u00ea n\u00e3o tem o nome dela no lugar onde as pessoas foram enforcadas. Voc\u00ea n\u00e3o tem nenhum resqu\u00edcio f\u00edsico da presen\u00e7a dela.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Mas ela \u00e9 a pessoa que a historiografia aponta com raz\u00e3o como a principal respons\u00e1vel por tudo o que aconteceu. E ela \u00e9 a Tituba. S\u00f3 se sabe o primeiro nome dela. A Tituba ela nasceu numa comunidade ind\u00edgena, Arawak. Dizem que o nome da aldeia dela, da comunidade dela, era Tatibitana. Ela foi sequestrada da sua aldeia, da sua comunidade. Como isso acontecia, n\u00e9?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Chegavam barcos de piratas ou barcos de mercadores para fazer trocas comerciais e \u00e0s vezes sequestravam algumas pessoas, principalmente mulheres e crian\u00e7as. As ind\u00edgenas Arawak eram muito requisitadas, eram muito queridas para serem escravas dom\u00e9sticas porque elas cozinhavam bem e tamb\u00e9m costuravam.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>E a\u00ed ela foi sequestrada da sua casa, jovem, adolescente, crian\u00e7a provavelmente. E a\u00ed foi levada para Barbados, onde ela serviu tamb\u00e9m como escrava dom\u00e9stica para a fam\u00edlia do Samuel Parris durante cinco anos. Ela chegou l\u00e1 em 1676, mais ou menos. Tem registro de uma ind\u00edgena com nome muito semelhante nos documentos da \u00e9poca. Depois de cinco anos deu errado. O Samuel Parris vendeu a fazenda e resolveu virar pastor.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O que a gente consegue ver daqui, n\u00e9? A gente consegue ver \u00e9 um porto. Essa ba\u00eda j\u00e1 existia. Embora o porto tenha sido aterrado, a ba\u00eda era igual. Eu imagino que a vegeta\u00e7\u00e3o deveria ser bastante igual. N\u00e3o tinha nada, n\u00e3o tinha esse monte de lanchas aqui que a gente est\u00e1 vendo. Estamos vendo um monte de peixe, estamos vendo um monte de turista andando aqui pelo pier. Nem tinha nada disso e era um lugar absolutamente desconhecido para ela.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele trouxe ela provavelmente num barco. Tem que lembrar, os barcos eram muito menores, os barcos eram a vela. N\u00e3o havia nem barco a vapor ainda, nem navio a vapor. N\u00e3o tinha a vida de evolu\u00e7\u00e3o industrial. Aquela viagem que leva muito tempo de Barbados at\u00e9 aqui, e eu imagino ela chegando nesse porto, imaginando como vai ser a vida dela daqui para frente. Acho que uma das coisas que a gente pode dizer sem d\u00favida \u00e9 que a Tituba \u00e9 uma grande resistente, \u00e9 uma grande sobrevivente.<\/p>\n<p>[Giulia Afiune]<\/p>\n<p>Realmente ela \u00e9 muito inteligente, assim, porque ela conseguiu usar esse poder da narrativa, esse poder da hist\u00f3ria, da conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, n\u00e9?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu estou no pier de Sal\u00e9m, que em 1692 era a cidade de Sal\u00e9m. Era aqui que chegavam os barcos que vinham de Boston ou do norte, de Maine, onde se derrubava toda a madeira que supria as cidades da Nova Inglaterra. Estou sentada de pernas cruzadas \u00e0 beira d \u2018\u00e1gua com a jornalista Giulia Afiune e estamos olhando as \u00e1guas calmas do come\u00e7o de outono em Massachusetts, que na \u00e9poca se chamava Nova Inglaterra.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u00c9 31 de outubro de 2023 e viemos aqui para Sal\u00e9m para encontrar rastros das hist\u00f3rias dessas mulheres na maior festa popular dos Estados Unidos, o Halloween, ou o Dia das Bruxas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Sal\u00e9m \u00e9 hoje a cidade que tem o maior e mais famoso Halloween do pa\u00eds. Exatamente aqui, onde 330 anos antes, a ind\u00edgena Tituba chegou ao Centro Comunit\u00e1rio e diante de dois homens nobres, ju\u00edzes bem vestidos, confessou ter assinado o Livro do Diabo e ter visto outras nove marcas, de nove bruxas e bruxos que seguiam \u00e0 solta.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Eu sou Natalia Viana e esta \u00e9 a s\u00e9rie Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas: uma hist\u00f3ria de terror real. Epis\u00f3dio 3: Tituba.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu sou fascinada pela figura de Tituba desde que eu li sobre sua exist\u00eancia h\u00e1 mais de cinco anos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Quando chegou naquele tribunal improvisado, arrastada por um guarda e com as m\u00e3os atadas, sob os olhares de todos os moradores da vila, ela sabia que sua pena, no m\u00ednimo, seria muito pior que a das outras acusadas. Mesmo em crimes considerados menos graves, os escravizados recebiam como puni\u00e7\u00e3o surras, chicotadas, tinham a pele marcada com a letra do crime ou at\u00e9 as orelhas cortadas, enquanto os demais tinham que pagar multas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Ela era escravizada, nem pertencia a si mesma, era vista como menos que um ser humano. Podia ainda morrer, sua vida n\u00e3o lhe pertencia. Mas ao falar diante daquela audi\u00eancia puritana, ela tamb\u00e9m exercia enorme fasc\u00ednio e enorme temor.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Lendo os documentos que relatam seu interrogat\u00f3rio, fica claro que ela dominava a arte da narrativa.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Segundo o que sobrou dos registros da \u00e9poca, ela continuou sendo questionada nos dias seguintes, e a cada visita, sua hist\u00f3ria ia aumentando.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Na visita \u00e0 pris\u00e3o, al\u00e9m de ter visto o Livro do Diabo, Tituba relatou aos ju\u00edzes que um homem alto disse a ela que era Deus em pessoa, mas ela n\u00e3o acreditou. Depois, ele mostrou uma variedade de coisas bonitas para ela, criaturas m\u00e1gicas como um p\u00e1ssaro verde e branco. Mais animais, mais fantasia, e a lenda das bruxas de Sal\u00e9m ia crescendo.<\/p>\n<p>Natalia Viana]<\/p>\n<p>Tituba era uma mulher que jamais deveria ter entrado para a hist\u00f3ria. Estava fadada a ser uma das milh\u00f5es de escravizadas ind\u00edgenas an\u00f4nimas no Novo Mundo. Mulheres que n\u00e3o deixaram rastro de sua exist\u00eancia. Mas existem v\u00e1rios livros sobre ela.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Nos anos 70, houve uma grande disputa sobre o seu legado. Uma novela foi escrita pela feminista Maryse Conde chamado \u201cEu, Tituba, bruxa de Sal\u00e9m\u201d, que a descrevia como uma escravizada africana, embora sempre se refiram a ela nos documentos originais como abre aspas, \u201c\u00edndia\u201d, fecha aspas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que eu gosto de ir atr\u00e1s dos historiadores. Eles s\u00e3o, como jornalistas, aqueles que tentam entender o que aconteceu, com o pouco de fontes que podem encontrar, e sem uma agenda pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Em seu livro \u201cTituba, bruxa relutante de Salem\u201d, a historiadora Elaine Breslaw refaz com muito cuidado tudo o que se pode saber da trajet\u00f3ria de Tituba com base no contexto da \u00e9poca. Ela estima que a menina tenha sido sequestrada da fam\u00edlia aos 10 anos e tenha chegado a Barbados pouco depois. Na \u00e9poca, Samuel Parris ainda estava estudando para ser pastor em Harvard e Tituba era apenas uma dentre 69 escravizados da propriedade.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas, mesmo na fazenda, a Tituba tinha uma fun\u00e7\u00e3o diferente das escravizadas africanas. Dormia na casa grande, era obrigada a vestir roupas inglesas como avental, an\u00e1gua e colete, e cobrir a cabe\u00e7a com touca ou bon\u00e9, al\u00e9m de usar sapatos, coisa que provavelmente odiava.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Al\u00e9m de cuidar da casa, o trabalho de uma escravizada ind\u00edgena era principalmente cozinhar. E, aos poucos, a culin\u00e1ria nativa ia se misturando ao gosto dos senhores. Por exemplo, em Barbados, era comum beberem o caxiri, uma bebida feita a partir do mastigo de ra\u00edzes que ainda \u00e9 muito comum entre os ind\u00edgenas da Am\u00e9rica do Sul, incluindo o Brasil. Ele substituiu o vinho portugu\u00eas. Tamb\u00e9m foram os ind\u00edgenas que ensinaram os europeus a fazer p\u00e3o de mandioca.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Quando chegou na Nova Inglaterra, a Tituba viveu na casa do rec\u00e9m-casado Samuel Parris em Boston, algo que ela lembraria durante a sua confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Mas, na Nova Inglaterra, aqueles ingredientes de que eu estava falando hariavam. E a Tituba provavelmente teve que aprender a substitu\u00ed-los por milhos, nabos, cenouras, ervilhas, feij\u00f5es e tamb\u00e9m pela carne de porco e carne de boi salgada. Ou ainda pela carne daqueles enormes animais que at\u00e9 hoje vemos caminhando despreocupadamente pelas ruas da Universidade de Harvard, os perus. Que, n\u00e3o sei se voc\u00ea sabe, s\u00e3o nativos da Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Imagino que era uma vida solit\u00e1ria, pois havia naquela \u00e9poca apenas algumas centenas de ind\u00edgenas entre os brancos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u00c0quela altura, ela j\u00e1 entendia bem a import\u00e2ncia dos livros, pois a leitura da B\u00edblia era sagrada na casa de um pastor. Todas as manh\u00e3s ao acordar, liam uma p\u00e1gina em voz alta e depois cantavam um salmo. \u00c0 noite, antes de dormir, o ritual se repetia.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Nos registros que sobraram dos interrogat\u00f3rios que aconteceram depois daquela primeira confiss\u00e3o, h\u00e1 um trecho revelador sobre como ela era. Esse di\u00e1logo ocorreu na tarde do dia 2 de mar\u00e7o de 1692, na fria cela da pris\u00e3o de Sal\u00e9m. Ela estava contando aos ju\u00edzes sobre mais uma visita do tal homem alto, vestido de negro.<\/p>\n<p>[John Hathorne]<\/p>\n<p>Onde estava o seu senhor, ent\u00e3o?<\/p>\n<p>[Tituba]<\/p>\n<p>No outro quarto.<\/p>\n<p>[John Hathorne]<\/p>\n<p>Que horas eram da noite?<\/p>\n<p>[Tituba]<\/p>\n<p>Um pouco antes da hora das preces.<\/p>\n<p>[John Hathorne]<br \/>O que disse esse homem?<\/p>\n<p>[Tituba]<\/p>\n<p>Vai ao outro quarto ver as meninas e machuque elas. Ent\u00e3o eu fui. Mas eu n\u00e3o as feri. Eu n\u00e3o iria machucar a Betty. Eu amava a Betty. Mas eles me fizeram beliscar e machucar a Betty e depois a Abigail.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Tituba criou a Elizabeth, ou Betty Paris, desde nen\u00e9m. E amava a menina. A mesma que acusou ela de bruxaria anos depois.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Agora eu vou explicar uma coisa importante para voc\u00ea ter em mente enquanto acompanha comigo essa hist\u00f3ria. Quando Tituba apareceu no Centro Comunit\u00e1rio e confessou seus supostos crimes, ela n\u00e3o era vista apenas como uma empregada dom\u00e9stica. A figura de Tituba em si inspirava medo. Inspirava terror.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Isso porque, a algumas dezenas de quil\u00f4metros ao norte, os puritanos travavam batalhas sangrentas contra os ind\u00edgenas nativos da Am\u00e9rica que resistiam contra o roubo de suas terras.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Apenas 15 anos antes, muitos daqueles que viviam em Sal\u00e9m viram seus parentes ou conhecidos terem vilas atacadas pelos Pokanoket, uma na\u00e7\u00e3o ind\u00edgena que havia se aliado aos franceses para derrotar os ingleses. Hist\u00f3rias de decapita\u00e7\u00f5es, corpos escalpados, vilarejos inteiros incendiados e saqueados povoavam o imagin\u00e1rio dos puritanos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>O chefe daquela na\u00e7\u00e3o, de nome Metacom, se autointitulou King Phillip e travou uma das mais longas guerras no norte da Nova Inglaterra, conhecida como King Phillip\u2019s War, ou a Guerra do Rei Filipe. Segundo historiadores, essa guerra levou a uma perda econ\u00f4mica t\u00e3o grande que o estado de Maine nunca se recuperou totalmente. Essa guerra ajudou a determinar as fronteiras entre os Estados Unidos ao norte e o sul do Canad\u00e1, onde at\u00e9 hoje se fala franc\u00eas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Os ind\u00edgenas eram inimigos, portanto, e mais do que isso. Eram vistos como demon\u00edacos, aliados das for\u00e7as do mal que queriam destruir o experimento puritano no Novo Mundo, de uma cidade pura e religiosa, sobre a montanha e livre de todo o mal.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Segundo escreveu o historiador Almon Wheeler Lauber, no livro Escravid\u00e3o Ind\u00edgena nos \u201cTempos Coloniais dentro dos Atuais Limites dos Estados Unidos\u201d, publicado em 1913, essa percep\u00e7\u00e3o levou a, abre aspas, \u201cum \u00f3dio e suspeita intensos de todos os ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Do outro lado, claro, os ingleses eram escravizadores, torturavam e matavam os ind\u00edgenas, al\u00e9m de terem se apropriado das suas terras e destru\u00eddo seu modo de vida.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Estima-se que na Guerra do Rei Filipe morreram duas vezes mais ind\u00edgenas do que ingleses. Aqueles que foram capturados acabaram sendo enviados como escravizados para as col\u00f4nias no Caribe, onde poderiam ser melhor contidos. Os Estados Unidos, sabemos, assim como o Brasil, foram constru\u00eddos sobre um genoc\u00eddio dos povos nativos. E esse genoc\u00eddio, esse pavor e \u00f3dio contra os ind\u00edgenas, come\u00e7aram a ser incrustados nas leis locais.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Em 1677, o governo de Massachusetts ordenou que ningu\u00e9m na col\u00f4nia poderia comprar ou manter em sua casa nenhum ind\u00edgena menor de 12 anos, porque eles, abre aspas, \u201ccausavam muitos problemas e medo nos moradores e podem ser perigosos\u201d, fecha aspas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>\u00c9 o que diz o texto daquele decreto estadual. Esse e outros documentos n\u00f3s vamos deixar no site da Ag\u00eancia P\u00fablica para voc\u00ea mergulhar depois desse epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>No final dos anos 1600, o \u00f3dio era tanto que, de vez em quando, havia explos\u00f5es de viol\u00eancia contra os ind\u00edgenas. Por exemplo, no mesmo ano de 1677, na cidadezinha de Marblehead, a seis quil\u00f4metros de Sal\u00e9m, dois ind\u00edgenas foram acusados de terem roubado um barco pesqueiro e a popula\u00e7\u00e3o resolveu puni-los com as pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Eis como uma testemunha descreveu a cena: \u201cToda a cidade correu at\u00e9 eles, come\u00e7ando primeiro a insult\u00e1-los, e logo depois as mulheres os cercaram. Com pedras, peda\u00e7os de pau e o que mais encontraram, elas acabaram com esses \u00edndios. N\u00f3s os encontramos sem a cabe\u00e7a e com a carne como se tivesse sido arrancada dos ossos\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Para os brancos de Sal\u00e9m, Tituba, embora fosse da Am\u00e9rica do Sul e n\u00e3o do Norte, era uma figura que se associava a esses inimigos reais, que eram, nas suas cabe\u00e7as, aliados do dem\u00f4nio, esp\u00edritos malignos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Talvez por isso, tenha sido ainda mais v\u00edvida e plaus\u00edvel a sua confiss\u00e3o aos ouvidos dos moradores de Sal\u00e9m. Uma coisa \u00e9 certa. Ao confessar, mas tamb\u00e9m ao dizer que vira as marcas de outras bruxas no Livro do Diabo, Tituba ganhou tempo. Ela se tornou a \u00fanica que tinha a chave para saber onde estavam aquelas bruxas. A \u00fanica que tinha visto e falado com o diabo em pessoa.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Seu destino foi a pris\u00e3o de Boston, onde ela passaria longos meses. Para l\u00e1, ela foi enviada junto com a Sarah Osbourne no dia 7 de mar\u00e7o de 1692. Eu fui visitar o local onde ficava essa famosa pris\u00e3o no movimentado distrito financeiro de Boston.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu estou aqui no centro de Boston. Hoje \u00e9 dia 1\u00ba de novembro de 2023. Voc\u00ea est\u00e1 ouvindo a\u00ed o barulho dos carros. Eu estou aqui na Court Street, Rua do Tribunal. Antigamente se chamava Queen Street, Rua da Rainha, quando houve a independ\u00eancia se mudou rapidamente o nome. E antes disso se chamava Prison Street, Rua da Pris\u00e3o. E \u00e9 aqui que ficava a pris\u00e3o onde as bruxas, as mulheres que foram acusadas de serem bruxas em Sal\u00e9m, mulheres e homens, foram presos durante mais de um ano.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E foi aqui, eu resolvi vir aqui porque foi para c\u00e1 que a Tituba veio. E foi aqui que ela ficou presa durante mais de um ano. Numa pris\u00e3o que, segundo as descri\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, era assim, pr\u00f3xima do inferno, n\u00e9? Tem uma descri\u00e7\u00e3o que diz que era uma tumba em vida.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E foi nesse lugar, nesse lugar em condi\u00e7\u00f5es terr\u00edveis, que a Tituba veio. Foi trazida para c\u00e1 em mar\u00e7o de 1692 e ficou at\u00e9 abril de 1693. Contar a hist\u00f3ria da Tituba e contar a hist\u00f3ria das bruxas, das mulheres que foram acusadas de serem bruxas, \u00e9 tamb\u00e9m tentar encontrar resqu\u00edcios dessas hist\u00f3rias, que s\u00e3o hist\u00f3rias que nunca foram retratadas com muito cuidado, principalmente pelos estados, n\u00e9? H\u00e1 muitas pesquisas hist\u00f3ricas, mas os estados n\u00e3o costumam levar tanto a s\u00e9rio o que foi a viol\u00eancia contra essas mulheres. Ent\u00e3o, buscar em qualquer lugar algum vest\u00edgio da hist\u00f3ria. E aqui, no centro de Boston, n\u00e3o tem nenhum.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>O lugar onde era a pris\u00e3o, voc\u00ea tem um Chipotle, que \u00e9 uma rede de fast food mexicana, voc\u00ea tem um caf\u00e9 Tate, voc\u00ea tem um pr\u00e9dio gigantesco, deve ter mais de 40 andares, aqueles espelhados que parecem um banco, n\u00e9?<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>\u00c9 nessa pris\u00e3o, cujos vest\u00edgios desapareceram nas ruas de Boston, que vamos reencontrar outra personagem que conhecemos em epis\u00f3dios anteriores. Eu t\u00f4 falando da Sarah Osbourne, aquela que recusou obstinadamente qualquer culpa diante dos ju\u00edzes. Sarah Osbourne foi a primeira v\u00edtima da ca\u00e7a \u00e0s bruxas de Sal\u00e9m.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Nascida Sarah Warren, ali mesmo, pertinho de Sal\u00e9m, na cidade de Watertown, ela era de uma fam\u00edlia que tinha posses, e chegou at\u00e9 mesmo a se casar com um dos Putnams, aquela fam\u00edlia rica da regi\u00e3o. Teve dois filhos e uma filha. S\u00f3 que o marido, Robert Prince, morreu ainda jovem. E a\u00ed aconteceu uma coisa que era muito comum na \u00e9poca. Ele deixou toda a terra para os filhos homens, que deveriam herd\u00e1-la quando fossem maiores de idade. A esposa ficaria sem nada.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o parecia ser esse o plano da Sarah. E foi por isso que ela entrou em conflito direto com os dois patriarcas da fam\u00edlia, John e Thomas Putnam, assinalados como executores do testamento. Agora, ela fez algo ainda pior aos olhos daquela comunidade.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Pouco depois de se tornar vi\u00fava, ela teve um caso com um servo contratado da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Vou fazer uma pausa aqui.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Estamos falando de um tipo de servid\u00e3o por d\u00edvida muito comum na \u00e9poca. Naqueles tempos de in\u00edcio do capitalismo, muito antes das leis trabalhistas, as pessoas pobres podiam se vender \u00e0 servid\u00e3o. Ou seja, quem n\u00e3o tinha onde cair morto podia se oferecer a um amo em troca, por exemplo, do pagamento da passagem at\u00e9 a Am\u00e9rica. Ali, essa pessoa virava serva, escravizada, at\u00e9 que a d\u00edvida fosse paga. Assim, ingleses pobres, muitos deles brancos, chegavam como servi\u00e7ais de casa ou para cuidar das planta\u00e7\u00f5es. Eram vistos com desd\u00e9m pela sociedade e tamb\u00e9m eram submetidos, muitas vezes, a castigos f\u00edsicos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>O rapaz que encantou a Sarah se chamava Alexander Osbourne. Era irland\u00eas e, mesmo sendo bem mais jovem que ela, se tornaria seu segundo marido. Da\u00ed o sobrenome, como ela ficou conhecida na hist\u00f3ria. Sarah Osbourne. Para casar-se, ela antes perdoou a d\u00edvida dele e o livrou da servid\u00e3o. Pecado mortal, segundo os costumes puritanos. Logo, come\u00e7aram rumores de que eles haviam se mancomunado para matar o primeiro marido dela.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E a\u00ed, voc\u00ea se lembra do Malleus Maleficarum? Um dos maiores poderes das bruxas, segundo aquele livro, era justamente atacar, amaldi\u00e7oar e matar os homens. Mas Alexander, diferentemente do marido de Sarah Good, que atirou ela aos le\u00f5es, manteve-se ao lado da Sarah Osbourne.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Por exemplo, durante a audi\u00eancia e interrogat\u00f3rio, ele confirmou o depoimento dela perante os ju\u00edzes. Isso n\u00e3o foi suficiente para absolv\u00ea-la. Sarah Osbourne foi levada para a temer\u00e1ria pris\u00e3o de Boston, onde ficou, sem janelas, banheiro ou ar fresco, durante 83 dias.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Sua sa\u00fade j\u00e1 era fr\u00e1gil. Antes de ser presa, ela estava atada a uma cama por mais de um ano devido a uma doen\u00e7a que n\u00f3s n\u00e3o sabemos qual \u00e9, mas que a tinha proibido de fazer muitas coisas, como ir \u00e0 missa, levantando, como voc\u00ea pode imaginar, mais suspeitas nos mexeriqueiros vizinhos de Sal\u00e9m. Essa doen\u00e7a s\u00f3 piorou na cadeia. Ela faleceu no dia 29 de maio de 1692, aos 40 anos de idade.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Como lembran\u00e7a dessa mulher que buscou a felicidade e foi condenada por isso, sobrou apenas uma pedra cinza com seu nome lapidado no centro da cidade de Sal\u00e9m. \u00c9 ali onde fica o memorial constru\u00eddo para lembrar aqueles que morreram na ca\u00e7a \u00e0s bruxas. Quase todos os dias, turistas colocam flores sobre essas l\u00e1pides improvisadas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ou seja, acho que \u00e9 a primeira vez que a cidade de Sal\u00e9m faz um memorial para homenagear as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E o jeito que ele foi constru\u00eddo \u00e9 uma pra\u00e7a, em volta dessa pra\u00e7a voc\u00ea tem um muro de pedra, um muro baixo, um muro que deve ter um metro e\u2026 um metro e trinta, de pedras, de pedras grandes, \u00e9, rememorando aquela \u00e9poca, e a\u00ed voc\u00ea tem pedras com o nome de cada uma das pessoas que morreram durante o processo e a data em que elas morreram tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E aqui na entrada, voc\u00ea tem frases que foram faladas, n\u00e9, durante o julgamento. Ent\u00e3o, \u201cI do plead not guilty\u201d, \u201ceu digo que n\u00e3o sou culpada\u201d, \u201cI am innocent, God knows I\u2019m innocent\u201d, \u201ceu sou inocente, Deus sabe que eu sou inocente\u201d. Ent\u00e3o s\u00e3o frases retiradas dos documentos que sobreviveram.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas cada uma dessas pedras, voc\u00ea tem um nome, acho isso t\u00e3o forte, voc\u00ea tem, por exemplo, n\u00e9, Bridget Bishop, enforcada, 10 de junho de 1692; Sarah Good, enforcada, 19 de julho de 1692, Elizabeth Hall, enforcada, 19 de julho de 1692; Susana Martin, enforcada, 19 de julho de 1692; no caso da Susana tem uma velinha, tem uma vela falsa, n\u00e9, aqui acesa pra ela, que \u00e9 uma luzinha, na verdade, deve ter bateria isso a\u00ed, e nem o nome daqueles que morreram na pris\u00e3o, como a Sarah Osbourne, n\u00e9, e os outros.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Agora, vamos voltar a outra das primeiras acusadas, a Sarah Good. Voc\u00ea se lembra que a Sarah Good, sem ter ningu\u00e9m que a defendesse, padecia gr\u00e1vida naquela cadeia, depois de ter sido chamada pelo pr\u00f3prio marido de inimiga de todo bem durante a audi\u00eancia.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Sarah era pobre e mal educada, causava repulsa nos vizinhos, que a acusavam de murmurar maldi\u00e7\u00f5es e nunca ir \u00e0 igreja. Mas, assim como no caso da Sarah Osbourne, foi a sua condi\u00e7\u00e3o de mulher que a levou a tornar-se uma bruxa aos olhos da comunidade.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Nascida em 1653 naquela mesma col\u00f4nia inglesa, ela era filha de um propriet\u00e1rio de terras que tamb\u00e9m tinha uma taberna na cidade de Wenham, n\u00e3o muito longe de Sal\u00e9m. Mas, quando ela tinha 17 anos, seu pai cometeu suic\u00eddio. Sua propriedade de cerca de 28 hectares foi dividida entre os filhos homens e uma parte ficou com a vi\u00fava, mas ela se casou de novo e a terra foi para o novo marido. Ele, por sua vez, n\u00e3o deu nem um tost\u00e3o para as sete filhas dela, elas que se virassem. E, naquela \u00e9poca, isso significava casar.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Foi ent\u00e3o que Sarah se casou com o primeiro marido, Daniel Poole, que era tamb\u00e9m um servo por contrato. Ele morreu pouco depois, deixando para ela, que jamais recebera a heran\u00e7a que era devida do seu pai, uma enorme d\u00edvida em uma pequena terra.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>O seu segundo marido, aquele que a acusaria mais tarde, tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu resolver a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e eles tiveram que vender a pouca terra que tinham e viver de esmola. Isso a gente j\u00e1 ouviu por aqui.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Quando ela subiu ao p\u00falpito diante dos ju\u00edzes e ouviu o esposo dizer que ela ou era bruxa ou viraria uma, a Sarah estava com uma gravidez avan\u00e7ada que j\u00e1 se percebia sob a roupa. Mas nenhuma das testemunhas ou dos escribas fazem nenhuma men\u00e7\u00e3o a essa condi\u00e7\u00e3o como algo que a fizesse ser digna de pena. Seu depoimento tampouco sensibilizou algu\u00e9m naquele dia e talvez a sua postura tenha deixado todo mundo ainda mais seguro de que ela era do mal.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eis o que escreveu o professor e escritor Ezekiel Cheever, um dos escribas do depoimento: \u201cEla n\u00e3o queria mencionar a palavra \u2018Deus\u2019. As suas respostas eram faladas de uma maneira muito maligna e rancorosa, respondendo e retrucando contra as autoridades, com palavras vis, ofensivas e muitas mentiras\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Um escriba oficial, veja o qu\u00e3o isento ele era. Pior, nos pap\u00e9is depois usados para sua acusa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 registros de que sua pr\u00f3pria filha, Dorothy, de seis anos, teria sido for\u00e7ada a testemunhar contra a m\u00e3e, dizendo que ela, abre aspas, \u201ctinha tr\u00eas p\u00e1ssaros, um preto, um amarelo, e que esses p\u00e1ssaros machucavam as crian\u00e7as e demais afligidos\u201d, fecha aspas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mas a Sarah ficaria sozinha na cadeia por pouco tempo em uma das chocantes reviravoltas que ocorreram naqueles dias. Pouco depois das cenas temer\u00e1rias que testemunhou no Centro Comunit\u00e1rio, Annie Putnam Jr., filha daquela fam\u00edlia extremamente religiosa e que se tornou a quarta menina a ser afligida pelos surtos, passou a ter vis\u00f5es da pequena Dorothy, ou do espectro dela.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em 3 de mar\u00e7o, Annie diz ter sido atormentada novamente por novas bruxas. Uma delas, ela n\u00e3o conseguia ver direito, mas a outra era a pequena Dorothy Good. O espectro da crian\u00e7a estaria apontando o Livro do Diabo para ela, exigindo que o assinasse.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Al\u00e9m da Annie Putnam Jr., uma nova afligida, Mary Walcott, tamb\u00e9m acusou a pequena Dorothy algumas semanas depois. Eu vou ler aqui um trecho do seu depoimento: \u201cCerca de 21 de mar\u00e7o eu vi a apari\u00e7\u00e3o de Dorothy Good, filha de Sarah Good veio me morder e me beliscar e continuou me afligindo v\u00e1rias vezes at\u00e9 dia 24 de mar\u00e7o, dia da sua inquiri\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o ela me atormentou e afligiu muito gravemente durante o tempo do seu depoimento, e tamb\u00e9m muitas vezes desde a deten\u00e7\u00e3o de Dorothy Good me afligiu me mordendo, beliscando e quase me sufocando, me mandando escrever no seu livro\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Como mostra o registro, a pobre crian\u00e7a foi tamb\u00e9m levada para o Centro Comunit\u00e1rio semanas depois, no dia 24 de mar\u00e7o, encarou o grupo de acusadoras que repetiam o conhecido expediente, retorcendo-se em dor, acusando-a de mord\u00ea-las e espet\u00e1-las em esp\u00edrito.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ainda durante o depoimento, uma delas chegou at\u00e9 a mostrar marcas no bra\u00e7o de uma mordida de dentes pequenos para provar que era o espectro da Dorothy. Isso, para os ju\u00edzes ali presentes, era uma prova da materialidade dos crimes espectrais.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Dorothy, \u00e0s vezes chamada de Dorcas nos documentos oficiais, foi enviada para a pris\u00e3o de Boston ao lado da sua m\u00e3e Sarah Good e outras mulheres. A Sarah ficou, portanto, na pris\u00e3o que era conhecida como um t\u00famulo para os vivos, com sua pequena filha e sua gravidez cada vez mais avan\u00e7ada para cuidar.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu sei que d\u00e1 raiva de ouvir essa hist\u00f3ria, mas o que fazia aquela comunidade, junto da mais alta esfera legal, os magistrados vindos de Boston, prenderem uma crian\u00e7a de 6 anos, n\u00e3o era uma maldade intr\u00ednseca, uma vontade de torturar mulheres. Era p\u00e2nico. E esse p\u00e2nico se manifestava cada vez mais vivamente nas conversas das pessoas, no seu cotidiano, e nas vis\u00f5es das afligidas, que se tornaram mais elaboradas e mais fantasiosas. Por exemplo, logo depois dos primeiros depoimentos, no dia 1 de mar\u00e7o, saindo do Centro Comunit\u00e1rio, muita gente chegou a ver uma apari\u00e7\u00e3o assustadora. De novo, tudo isso est\u00e1 registrado nos documentos do processo da \u00e9poca.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Um grupo de homens havia se reunido na casa do Dr. William Griggs, aquele m\u00e9dico que diagnosticou que o caso era uma maldi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o uma doen\u00e7a de corpo. Voc\u00ea se lembra que a terceira garota afligida era sua sobrinha? Pois naquela noite, a sobrinha Elizabeth Hubbard come\u00e7ou a sofrer os ditos ataques ali no meio da sala, diante de todos eles. Sentado na mesa, tava um dos vizinhos que chamava Samuel Sibley, e ele tentou ajudar a menina.<\/p>\n<p>[Elizabeth Hubbard]<br \/>Tem um espectro me beliscando, me perfurando com uma faca!<\/p>\n<p>[Samuel Sibley]<br \/>Elizabeth, Elizabeth, por favor, por favor, querida, o que voc\u00ea est\u00e1 vendo? N\u00f3s podemos te ajudar, fala!<\/p>\n<p>[Elizabeth Hubbard]<br \/>Ali, ali em cima da mesa, onde est\u00e1 Samuel Sibley? Ali est\u00e1 Sarah Good.<\/p>\n<p>[Samuel Sibley]<br \/>Onde?<\/p>\n<p>[Elizabeth Hubbard]<br \/>Est\u00e1 sentada e completamente nua. Sua vagabunda! Nojenta! Se eu tivesse algo, eu te mataria!<\/p>\n<p>[Samuel Sibley]<br \/>Eu vou pegar ela. Me d\u00ea minha bengala!<\/p>\n<p>[Elizabeth Hubbard]<br \/>Isso! Voc\u00ea atingiu bem no meio das costas, voc\u00ea conseguiu!<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Sarah Good tinha sido levada para longe das demais acusadas, para um celeiro em Ipswitch, na casa de um dos guardas. Ela ainda n\u00e3o tinha sido enviada para a pris\u00e3o de Boston, pois quase ao mesmo tempo em que seu espectro aparecia em cima da mesa, quando o guarda foi fazer uma ronda para ver como \u00e9 que ela tava, ele levou um enorme susto, pois ele n\u00e3o a encontrou. Ela n\u00e3o tava l\u00e1 e nem poderia ter fugido. Ent\u00e3o ele achou melhor esperar a luz do sol para buscar a fugitiva. S\u00f3 que, pela manh\u00e3, ela tava l\u00e1. Podia ter sido um engano, se n\u00e3o fosse por um detalhe. O guarda viu que havia sangue no seu bra\u00e7o, como se ela tivesse recebido um golpe. Exatamente como o que recebera de forma espectral da bengala de Samuel Sibley.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em outro lado da cidade, ainda naquela mesma noite, quando caminhavam de volta para casa, dois moradores ouviram um barulho na estrada.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Era um som que se repetia. Um ru\u00eddo novo, diferente dos sons da floresta aos quais j\u00e1 tavam acostumados. Logo, eles viram uma silhueta escura se formando. Ent\u00e3o, essa forma escura se lan\u00e7ou para cima. E l\u00e1 no alto do c\u00e9u, explodiu e transformou-se na forma de tr\u00eas mulheres.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Isso mesmo, voc\u00ea adivinhou. Eram Sarah Good, Sarah Osbourne e Tituba.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Uma semana depois, Annie Putnam Jr. conseguiu, como num passe de m\u00e1gica, recordar\u2026 de quem era aquela silhueta, aquela forma sem rosto que ela vira ao lado da pequena Dorothy Good. Por que ela demorou tanto para p\u00f4r o nome a uma assombra\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m sabe. Nem \u00e9 algo que foi questionado pelos ju\u00edzes. Mas era outro nome novo. E dessa vez, uma pessoa com um perfil diferente das primeiras acusadas: Elizabeth Proctor. Sim, ela fazia parte da fam\u00edlia Proctor, a mais rica da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Elizabeth estava inserida na sociedade, frequentava a igreja. Junto com o marido, John Proctor, ela era dona de uma taverna bem movimentada que ficava ao norte do vilarejo. Tinha cinco filhos e estava gr\u00e1vida do sexto beb\u00ea. E al\u00e9m disso, o casal tinha terras, muitas terras. Havia pouco, quase nada, que pudesse manchar a reputa\u00e7\u00e3o da Elizabeth Proctor. Mas o que mais levantava suspeitas, talvez a melhor palavra seja pavor, entre os moradores de Sal\u00c9m, era uma decis\u00e3o comercial. a Elizabeth e o John decidiram atender na sua taverna, em ind\u00edgenas que moravam ali na redondeza. Ali, esses homens e mulheres, vistos como uma enorme amea\u00e7a, podiam se deliciar da bebida servida e sentar-se, lado a lado, com os ingleses puritanos.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A decis\u00e3o de atender ind\u00edgenas pode ter sido de cunho comercial ou talvez at\u00e9 pol\u00edtico. Os Proctor eram conhecidos por serem mais abertos e progressistas que seus vizinhos. Mas foi essa decis\u00e3o que selou o destino de Elizabeth. Acusada pela menina Annie Putnam Jr., em poucos dias, ela j\u00e1 estava encarcerada na soturna pris\u00e3o de Sal\u00e9m, aguardando a sua vez de ser confrontada pelos ju\u00edzes e julgada pelos olhares acusadores dos seus vizinhos e clientes.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Essa acusa\u00e7\u00e3o em particular permite vislumbrar com clareza o lugar d\u00fabio mais central que a rela\u00e7\u00e3o com os nativos da Am\u00e9rica do Norte ocupava no imagin\u00e1rio dos moradores de Sal\u00e9m no s\u00e9culo XVII. Por um lado, apenas se relacionar com eles era motivo de desconfian\u00e7a, de olhares acusat\u00f3rios. Por outro, sua pretensa liga\u00e7\u00e3o direta com o dem\u00f4nio, esse poder sobrenatural, e os relatos e mem\u00f3rias das atrocidades cometidas por e contra eles transformavam os nativos em seres com conhecimentos poderosos na vis\u00e3o dos puritanos.<\/p>\n<p>[John Hathorne]<br \/>Voc\u00ea viu o diabo?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>O diabo veio at\u00e9 mim e me pediu para servi-lo.<\/p>\n<p>[John Hathorne]<br \/>Quem mais voc\u00ea viu?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Quatro mulheres. E elas \u00e0s vezes machucam as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>[John Hathorne]<br \/>Quem s\u00e3o elas?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Sarah Good e Sarah Osbourne. E n\u00e3o sei quem s\u00e3o as outras. A Sarah Good e a Sarah Osbourne me fizeram machucar as crian\u00e7as, mas eu n\u00e3o vi as outras. Havia tamb\u00e9m um homem alto, de Boston.<\/p>\n<p>[John Hathorne]<br \/>Quando voc\u00ea os viu?<\/p>\n<p>[Tituba]<br \/>Ontem \u00e0 noite, em Boston. E havia uma mulher? Com um capuz negro sob outro capuz branco de seda e um n\u00f3 na ponta. Eu n\u00e3o sei que mulher era aquela, mas eu a vi em Boston quando eu morava l\u00e1.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Esses trechos que voc\u00ea t\u00e1 ouvindo s\u00e3o, de novo, a impressionante confiss\u00e3o da Tituba. Lembre-se dessa descri\u00e7\u00e3o: uma mulher com um capuz branco de seda e um homem alto vindo de Boston. A Tituba chegou a descrev\u00ea-lo como usando uma cartola. E foi talvez a percep\u00e7\u00e3o de que os ind\u00edgenas possu\u00edam conhecimentos sobrenaturais que levou a ca\u00e7a \u00e0s bruxas para um patamar novo, jamais experimentado nas col\u00f4nias inglesas da Am\u00e9rica do Norte. A operadora dessa mudan\u00e7a foi Tituba.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Eu estou me referindo a uma interessante an\u00e1lise. Uma an\u00e1lise feita pela historiadora Elaine Breslaw, autora do livro sobre Tituba, que eu mencionei no come\u00e7o desse epis\u00f3dio. Eu vou ler um trecho: \u201cAs leis Suntu\u00e1rias em Massachussets proibiam que homens e mulheres comuns se vestissem em roupas feitas de materiais finos. A ordem de 14 de outubro de 1651, emitida pela Corte Geral de Massachussets, proibia pessoas de \u2018condi\u00e7\u00e3o humilde\u2019 de usar \u2018roupas da nobreza\u2019. Mulheres n\u00e3o podiam usar \u2018capuzes ou xales de seda ou tafet\u00e1\u2019. A ordem dizia que esse uso era apenas \u2018permitido a pessoas de maiores fortunas, ou mais educados\u2019 e que \u2018n\u00e3o podemos sen\u00e3o julgar isso intoler\u00e1vel em pessoas de tais poucas condi\u00e7\u00f5es&#8217;\u201d.\u2019<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Portanto, segundo a Elaine Breslaw, a descri\u00e7\u00e3o que a Tituba fez de uma mulher com roupa de seda e um homem vestido de negro e vindo de Boston era uma refer\u00eancia velada a pessoas de alto status social. Era uma tentativa de identificar a maldi\u00e7\u00e3o, com as classes mais altas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Aqui mais um trecho do livro: \u201cA mensagem extraordin\u00e1ria de Tituba aos seus examinadores era que eles buscassem seres diab\u00f3licos no meio da elite. A mensagem, entregue como um ataque discreto sobre o sistema de classes, abriu as portas \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es de mulheres respeit\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Foram as palavras escolhidas por Tituba que deixaram claro que as bruxas tamb\u00e9m podiam ser pessoas nobres. E assim seria. Nem a hierarquia social poderia proteger homens e mulheres do que tava por vir. Mas se por um lado a declara\u00e7\u00e3o de Tituba permitiu abrir as portas para a persegui\u00e7\u00e3o a mulheres de maior status social, por outro, criou-se um novo fen\u00f4meno que se espalhou para al\u00e9m da Vila de Sal\u00e9m.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Nos dias e semanas que se seguiram, outras pessoas passaram a ter vis\u00f5es. Gente at\u00e9 adulta, como a m\u00e3e de Annie Putnam Jr., Annie Putnam, e at\u00e9 mesmo John Indian, o marido de Tituba. Mas ainda eram as meninas, aquele quarteto formado por Betty Parris, Abigail Williams, Annie Putnam Jr. e Elisabeth Hubbard, que se tornaram as principais acusadoras em todo o processo judicial que se seguiria.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Mais do que isso, com o passar dos dias, embora sofressem terrivelmente com as crises, elas passaram a ser consultadas por outros moradores de comunidades vizinhas que se deparavam com alguma doen\u00e7a sem explica\u00e7\u00e3o ou uma mortandade repentina das cria\u00e7\u00f5es. Elas, ent\u00e3o, eram chamadas, transportadas em uma carro\u00e7a para visitar, tocar os enfermos e ter vis\u00f5es sobre quem eram os espectros malignos que os atacavam. Das suas bocas sa\u00edam acusa\u00e7\u00f5es certeiras, cabais, que precisavam de pouco mais do que sua voz para se tornarem evid\u00eancia e levar muita gente \u00e0 pris\u00e3o.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Homens e mulheres come\u00e7aram a apinhar a cadeia de Sal\u00e9m, que logo ficou lotada. Os demais eram levados para o t\u00famulo em vida, a pris\u00e3o de Boston. Gra\u00e7as a esse c\u00edrculo de adolescentes, a quantidade de presos chegou a n\u00fameros impressionantes. Mais de 150 pessoas foram encarceradas durante a ca\u00e7a \u00e0s bruxas.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Vamos lembrar que a vila de Sal\u00e9m, onde tudo come\u00e7ou, tinha naquela \u00e9poca cerca de 500 moradores. E a cidade de Sal\u00e9m tinha cerca de 2 mil. N\u00e3o posso deixar de imaginar que essas meninas experimentaram, talvez pela primeira e \u00fanica vez em toda a sua vida, uma sensa\u00e7\u00e3o de poder numa sociedade onde o seu lugar j\u00e1 era predeterminado ao nascer. Pertencem a outra pessoa, seu pai, apenas trocar de dono ao casar, procriar, cuidar dos filhos, ir \u00e0 igreja. Uma esp\u00e9cie de servid\u00e3o sem contrato e a qual n\u00e3o se podia renunciar.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Durante os meses de encarceramento, muitas dessas mulheres acusadas encontraram um tormento ainda pior do que serem taxadas de bruxas. Al\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es in\u00f3spitas, sem banheiro, sem ventila\u00e7\u00e3o, cercadas de paredes de pedra, os gastos da cadeia tinham que ser pagos por elas mesmas. Ou seja, quem devia pagar pela comida, cobertor, colch\u00e3o, eram as acusadas. Ou ent\u00e3o, a sua d\u00edvida ia se acumulando.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A Sarah Good, que n\u00e3o tinha nada, foi acumulando d\u00edvidas. A barriga crescia, o parto se anunciava pra dali alguns meses, e desse fato ela recebeu o \u00fanico pingo de clem\u00eancia que teve dos seus julgadores. Condenada, ela n\u00e3o foi uma das primeiras a pagar a pena, porque, primeiro, ela tinha que cumprir a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o social que ainda era respeitada, dar \u00e0 luz.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Sarah Good deu \u00e0 luz na pris\u00e3o entre maio e junho de 1692. S\u00f3 posso imaginar as condi\u00e7\u00f5es deprimentes, e como se organizou um parto improvisado, com certeza ajudada pelas demais mulheres presas. Imagino tamb\u00e9m que a crian\u00e7a tenha nascido fraca, devido \u00e0 m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o entregue \u00e0quelas que simbolizavam todo o mal. O beb\u00ea morreu poucos dias depois. E n\u00e3o quero nem tentar descrever o que essa morte deve ter do\u00eddo a Sarah. Como a morte de um beb\u00ea, pela maldade dos homens, pode destro\u00e7ar uma m\u00e3e. Mas foi ainda pior. A morte do seu beb\u00ea era tamb\u00e9m a sua senten\u00e7a de morte. Seu tempo havia acabado.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em 9 de julho, a Sarah foi colocada sobre uma carro\u00e7a pelo xerife de Sal\u00e9m, George Corwin, junto com outras quatro condenadas. O grupo foi seguido a p\u00e9 por uma esp\u00e9cie de cortejo formado por pessoas da vila, incluindo as meninas acusadoras, que deviam, eu imagino, gritar para elas que iam sobre a carro\u00e7a, acusando-as de serem o suco de tudo que h\u00e1 de mal na terra.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Em uma pequena clareira aberta \u00e0s margens da cidade de Sal\u00e9m, os homens da lei haviam constru\u00eddo uma plataforma de madeira.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>George Corwin conduziu-as uma a uma e, quando chegou a vez da Sarah, levou-a para subir a plataforma, amarrou suas m\u00e3os atr\u00e1s das costas, atando a saia nas pernas para evitar que ela pudesse chutar quando o ar fosse lhe faltar. Ent\u00e3o ele passou a corda sobre a sua cabe\u00e7a, ajeitando-a ao redor do pesco\u00e7o. A plateia assistia hipnotizada.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Antes de ser levada \u00e0 plataforma, a Sarah teve mais uma chance de confessar e se arrepender dos seus crimes perante Deus e perante a lei dos homens. O ministro puritano da cidade de Sal\u00e9m, Nicholas Noys, que acompanhava o julgamento, aproximou-se dela e pediu que confessasse.<\/p>\n<p>[Nicholas Noys]<br \/>Voc\u00ea sabe que vai morrer. Limpe sua consci\u00eancia.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A Sarah se negou mais uma vez a abaixar a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>[Sarah Good]<br \/>N\u00e3o sou mais bruxa que voc\u00ea. E se voc\u00ea me matar, Deus vai te dar sangue para beber.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Essas foram as \u00faltimas palavras registradas de Sarah Good e foram tamb\u00e9m os seus \u00faltimos suspiros.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>O xerife George Corwin deve ter feito uma prece antes de liquidar com as condenadas, ou seja, de cumprir o papel que o Estado lhe exigia, cometer um feminic\u00eddio.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Tendo certeza que Good tava bem amarrada, tanto as m\u00e3os quanto as pernas, ele a carregou at\u00e9 a beira da plataforma de madeira e dali a atirou na dire\u00e7\u00e3o da multid\u00e3o, onde o corpo pendeu sob o peso da corda, deixando-a sem ch\u00e3o sob os p\u00e9s.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Hoje ficamos por aqui, mas na pr\u00f3xima semana vamos entender o que aconteceu a seguir na nossa hist\u00f3ria de terror real. Se voc\u00ea t\u00e1 gostando do podcast, n\u00e3o esquece que voc\u00ea pode consultar todos os documentos no nosso site e voc\u00ea tamb\u00e9m pode apoiar o nosso trabalho para que a gente possa fazer mais podcasts, com apenas 20 reais mensais. Vai l\u00e1: apoie.apublica.org<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>E pra voc\u00ea que ficou comigo at\u00e9 aqui, eu vou compartilhar uma hist\u00f3ria que deixei de fora desse epis\u00f3dio, porque ao longo dos s\u00e9culos ela gerou muita especula\u00e7\u00e3o. E aqui, como voc\u00ea sabe, a gente est\u00e1 focado nos fatos reais.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Voc\u00ea se lembra que o pastor Nicholas Noys pediu pra Sarah Good se arrepender e ela respondeu dizendo que se ela morresse, Deus ia dar sangue pra ele beber? Pois bem. O reverendo Noys morreu de uma hemorragia cerebral em 1718, aos 70 anos. E diz a lenda que ele morreu tossindo sangue, assim como a Sarah Good havia previsto.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Ca\u00e7a \u00e0s Bruxas \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o original da Ag\u00eancia P\u00fablica de Jornalismo Investigativo. Esse podcast foi dirigido por mim, Natalia Viana. Eu fiz a pesquisa hist\u00f3rica e a reportagem em colabora\u00e7\u00e3o com a Giulia Afiune, que tamb\u00e9m captou os \u00e1udios em Sal\u00e9m. Eu tamb\u00e9m escrevi os roteiros dos epis\u00f3dios com a colabora\u00e7\u00e3o da Sofia Amaral.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>A Sofia Amaral tamb\u00e9m coordenou a produ\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie, com apoio da Stela Diogo e da Rafaela de Oliveira. Tanto a narra\u00e7\u00e3o quanto as cenas de dramaturgia foram gravadas no est\u00fadio da Ag\u00eancia P\u00fablica, com trabalhos t\u00e9cnicos de Stela Diogo e Ricardo Terto. A Mika Lins fez a dire\u00e7\u00e3o de narra\u00e7\u00e3o e de dramaturgia. O desenho de som foi feito por Ricardo Terto, que tamb\u00e9m fez a edi\u00e7\u00e3o e finaliza\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios. A trilha sonora original \u00e9 de Paulo Sartori, com trilhas adicionais de Epidemic Sound. A identidade visual \u00e9 do Matheus Pigozzi.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Nesse epis\u00f3dio, tivemos em ordem de apari\u00e7\u00e3o: Marcelo Marothy como o Juiz John Hathorne; Mika Lins como Tituba; Diego Machado como Nicholas Noys; Dora Calabria como Elizabeth Hubbard; Rodrigo Scarpelli como Samuel Sibley; e Agnes Zuliani como Sarah Good.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Registro aqui os nossos agradecimentos \u00e0 Lucretia Slaughter, \u00e0 Witch City Walking Tours, que liberou o tour com o Sean em Sal\u00e9m para a gente usar nesse podcast, ao Peabody Essex Museum e \u00e0 Phillips Library, al\u00e9m do Noah Friedman-rudovsky, meu grande amigo que sempre me acolhe quando eu vou para os Estados Unidos, e aos aliados. Gra\u00e7as a voc\u00eas, esse podcast e outros podem acontecer.<\/p>\n<p>[Natalia Viana]<br \/>Homenageamos tamb\u00e9m todas as mulheres que morreram como bruxas, e as suas filhas, netas e descendentes. A sua mem\u00f3ria n\u00e3o ser\u00e1 esquecida.<\/p>\n<!-- Begin Yuzo --><div class='yuzo_related_post style-1'  data-version='5.12.89'><!-- without result --><div class='yuzo_clearfixed yuzo__title yuzo__title'><h3>Related Post<\/h3><\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/ministerio-da-justica-envia-ao-itamaraty-pedido-de-extradicao-de-ramagem\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.org\/blogosfera\/wp-content\/plugins\/yuzo-related-post\/assets\/images\/default.png') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; \"><\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t\t   <span class=\"yuzo__text--title\" style=\"font-size:13px;\">Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a envia ao Itamaraty pedido de...<\/span>\n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <\/a>\n\n\t\t\t\t\t\t  <\/div>\n\t\t\t\t\t\t  <div class=\"relatedthumb \" style=\"width:125px;float:left;overflow:hidden;\">  \n\t\t\t\t\t\t\t  \n\t\t\t\t\t\t\t  <a  href=\"https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/pesquisa-revela-como-sociedade-brasileira-se-agrupa-por-valores-morais\/\"  >\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t  <div class=\"yuzo-img-wrap \" style=\"width: 125px;height:90px;\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"yuzo-img\" style=\"background:url('https:\/\/redept.com.br\/blogosfera\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/brasileiros-unidops-150x150.webp') 50% 50% no-repeat;width: 125px;height:90px;margin-bottom: 5px;background-size: cover; 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